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História

Uma questão de consciência coletiva

História de: Luiz Gustavo Ortega
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/01/2016

Sinopse

O engenheiro têxtil Luiz Gustavo Ortega trabalha desde 2000 na Braskem. Atua, desde 2012, na área de sustentabilidade. Em seu depoimento ele fala do cotidiano dos cooperados e dos catadores, da rotina das cooperativas e dos aterros, e aponta os maiores desafios e dificuldades que se encontram no cenário da coleta de resíduos. Luiz fala da responsabilidade de todos nós na questão da sustentabilidade, desde a consciência do cidadão em separar seus resíduos para que seja realizada uma coleta de melhor qualidade, até a postura que o estado e grandes empresas devem adotar para se desenvolver uma melhor economia dentro desse cenário, bem como um mundo mais preservado ecologicamente. 

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História completa

Minha formação é em Engenharia Têxtil. Durante a faculdade você tem dois anos de Engenharia que são matérias básicas. E na minha faculdade tinha uma especialização que era de Engenharia Têxtil e me pareceu muito interessante, porque ali você não tinha professores formados, eram profissionais que davam aula nos seus períodos à noite, no período livre, que eles reservavam pra faculdade. Era um curso muito mais próximo da realidade do mercado, e eu acabei optando pela Engenharia Têxtil. Obviamente eu fui trabalhar na indústria têxtil e depois de quatro ou cinco anos eu recebi uma proposta pra vir pra Petroquímica. Dentro da Petroquímica eu trabalhava na aplicação têxtil, eu era responsável por todo mercado têxtil dentro de polipropileno, que era a minha especialidade. Com o passar do tempo eu fui assumindo outras responsabilidades, fui crescendo, cheguei a ser Gerente Técnico e depois de 12 anos na área técnica eu recebi uma proposta para ir pra área de Sustentabilidade.

Eu entrei na Braskem em 2000 e fiquei 12 anos na área Técnica e estou desde 2012 trabalhando na área de Sustentabilidade. Eu tinha acabado de chegar na área de Sustentabilidade. A ideia era que essa área levasse sustentabilidade pra nossa cadeia de clientes, e uma das ferramentas principais que a gente trabalha é Avaliação de Ciclo de Vida. Depois de 12 anos de área técnica eu tenho bastante conhecimento em polímeros, em processos de transformação, em aplicações, hoje eu posso trabalhar todo esse conhecimento que eu adquiri pra buscar alternativas para os resíduos plásticos, buscar melhorar os produtos reciclados e novas aplicações para esses produtos. Os nossos produtos principais são os polipropilenos, polietilenos e o PVC, então são os plásticos que você vê mais comumente no dia a dia, principalmente no dia a dia das pessoas o que se relaciona mais são as embalagens plásticas. A Braskem é produtora desses plásticos que depois vão ser utilizados pelos nossos clientes pra transformar isso em embalagens ou em outros produtos automobilísticos, pra construção civil, pra agricultura, mas a gente está bem no começo da cadeia.

 

A área de Sustentabilidade tem uma área que cuida de Responsabilidade Social, tem uma área que cuida de Gestão de Desenvolvimento Sustentável. Quando a Braskem foi formada pela junção de diversas empresas em 2012 ela assumiu um compromisso público de atuar de acordo com os princípios do desenvolvimento sustentável. Isso se desdobra em várias ações, desde controles internos dos nossos processos, melhoria dos nossos produtos e buscar aplicações onde a gente possa melhorar a vida das pessoas.

O nosso trabalho principal dentro de Reciclagem é trabalhar junto com cooperativas permitindo que os catadores ou os cooperados tenham melhores condições de trabalho e possam aumentar a renda. E a gente busca também fomentar negócios que envolvam a reciclagem, fomentando parcerias com recicladores, com clientes, com os usuários das embalagens para que a gente consiga buscar soluções pra reduzir a quantidade de resíduos plásticos. As cooperativas, via de regra, não têm condições adequadas de trabalho. Na maior parte das vezes o que a gente consegue identificar é que pequenas melhorias em equipamentos, uma mesa, uma prensa, EPIs, podem melhorar muito a condição de trabalho dessas pessoas e naturalmente isso acaba resultando em um aumento de renda também. Nos últimos anos que o que houve de mais significativo é uma mudança de comportamento das empresas, elas já estão mais preocupadas da forma como elas gerenciam os seus resíduos, sejam resíduos industriais ou resíduos de embalagens que levam seus produtos, hoje a gente vê que as empresas estão muito mais engajadas em procurar soluções para reduzir a quantidade de resíduos, principalmente os resíduos que são dispostos através do lixo doméstico. Outra coisa é que ultimamente têm aparecido bastantes tecnologias que permitem separar melhor esses resíduos. Como exemplo temos as centrais mecanizadas de São Paulo, hoje já tem duas mega centrais, totalmente mecanizadas; o lixo já oriundo da coleta seletiva, quer dizer, o lixo já seco, sem a mistura com o orgânico é separado mecanicamente através de sensores infravermelhos e eles separam por tipo de materiais. Outras tecnologias são relacionadas a reaproveitamento dos rejeitos. A gente chama de rejeitos tudo aquilo que sobra dos resíduos que vão pra reciclagem mecânica. É separado papel, plástico, alumínio, eles vão pra reciclagem mecânica e o que sobra disso a gente chama de rejeito, o que o catador e a cooperativa não veem valor pra vender. Isso geralmente vai para o aterro. A gente já vê tecnologias cada vez mais desenvolvidas para reaproveita-los; os rejeitos plásticos podem virar óleo combustível para gerar energia ou ainda assim pode virar matéria prima para fazer novos plásticos. A Área de Reciclagem depende de que haja um interesse comercial, o catador só vai separar o que tiver valor pra ele.

Eu acho que é fundamental que a reciclagem que seja uma responsabilidade compartilhada. Começa na casa do cidadão onde ele vai fazer a correta separação do lixo, porque se ele não fizer a correta separação do lixo não vai ser possível reciclar. Se ele misturar uma garrafa plástica com orgânico vai sujar, aquilo já é difícil, ninguém vai fazer uma limpeza pra separar. Depois entra a participação do poder público, que hoje é responsável pela coleta do lixo urbano da coleta seletiva. Estamos às vésperas da assinatura do acordo setorial para embalagens, que é o acordo setorial da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A hora que isso acontecer de fato você vai ter um aumento da quantidade de material reciclado. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos é um plano que trata do gerenciamento de resíduos sólidos em diferentes segmentos; tem um acordo setorial para lâmpadas, um pra pilhas e baterias, outro pra embalagens de agroquímicos, para eletrodomésticos. Cada setor vai ter que achar uma solução que envolva a logística reversa dos seus produtos e a correta destinação, a correta reciclagem ou disposição final correta, mais indicada para aquele produto. E de embalagens em geral, que são as embalagens de produtos não perigosos, são as embalagens que a gente leva pra casa do supermercado e você acaba jogando através do seu lixo doméstico, que a gente chama de RSU, Resíduos Sólidos Urbanos.

Sobre o cotidiano dos cooperados têm duas coisas que me chocam muito. A primeira vez que eu fui visitar um aterro sanitário, muito bem organizado, mas aí você tem noção do volume de lixo que chega lá todo dia, não para de entrar caminhões, caminhões, caminhões, são filas de caminhões chegando com resíduos, é uma coisa assustadora. Apesar de ser muito bem organizado, era um aterro sanitário realmente muito bem gerido, não é como os lixões a céu aberto, mas é uma coisa que chama a atenção a quantidade de lixo que chega todo dia. E lixo tem valor, pensar que a gente está aterrando tudo aquilo é realmente alguma coisa que a gente tem que refletir e pensar como dar um melhor destino para tudo isso. Não só pelos impactos ambientais que isso acarreta, mas pelo valor, seja orgânico, seja lixo seco, tem valor comercial e tem valor em termos de recursos naturais. E a outra coisa que me choca é quando você vai visitar cooperativas. Existem cooperativas melhores, cooperativas piores, mas de fato você trabalhar com lixo, mexer com lixo pra você buscar sua renda é uma coisa que não é a melhor coisa que você pode oferecer para uma sociedade bem desenvolvida. Existem cooperativas que recebem lixo seco somente e só faz uma triagem, já vem de uma coleta seletiva, se faz a triagem em boas condições de trabalho, você nem tem problema de cheiro. Agora tem cooperativa que faz triagem de lixo bruto, então são cooperativas que foram montadas por uma questão de necessidade econômica daquelas pessoas e elas recebem o lixo bruto, tudo misturado e ali elas vão fazer a separação. Isso é muito ruim, é muito triste pensar, as condições de trabalho, o ambiente é muito insalubre. Quando você se dá conta dessa situação você vê que realmente você precisa cuidar mais da gestão dos resíduos urbanos.

É uma coisa muito bacana quando você deixa de trabalhar em função de metas e passa a trabalhar por uma causa, então, você conseguir associar essas duas coisas, você faz o que é preciso fazer para atingir suas metas para ajudar a empresa, mas ao mesmo tempo isso se transforma numa causa pessoal. Naturalmente você passa a ter um olhar diferente no seu dia a dia, na forma como você mora, na forma como você se veste, na forma como você trafega, muda a percepção em relação a tudo isso. Você começa a enxergar como você pode fazer mais com menos, e não é por uma questão financeira, é uma questão de consciência coletiva. A sustentabilidade está cada vez mais dentro do negócio da Braskem ou de qualquer empresa. A perspectiva é que a gente comece a enxergar isso como uma forma de negócio também, por que não? Já que os resíduos têm tanto valor eu acho que são as empresas que têm que buscar a valorizar de fato os resíduos para ajudar na solução. A gestão de resíduos sólidos ainda está engatinhando. A consciência das empresas começa a mudar por uma questão de legislação, de compliance, de imagem até. Se a gente pensar que 42% ou 48% do lixo é disposto de forma inapropriada, ou seja, em lixões, é jogado em mananciais, rios, é disposto de qualquer forma, é muita coisa. Tem muito o que ser feito ainda.

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