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História

Uma professora na lavoura!

História de: Cleonice Eulália da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/02/2021

Sinopse

Dona Cleo nos conta de sua infância bastante literata em Guimarães e da educação estrita de seus pais. Nos conta sobre sua mudança de ares em São Luis e sua formação em educação física. Fala de seus alunos e de todas as escolas pelas quais passou. Em seguida, narra sua passagem para o ramo da história e de como isso mudou suas aulas. Depois, Cleo nos narra sua vida na Vila Madureira e a mudança para a Vila Nova Canaã. Dentro disso, fala sobre o aprendizado da lavoura, em especial na agroecologia. Por fim, Cleo nos diz sobre todas as mudanças de trajetória e os desafios que ainda existem pela frente para a Nova Canaã

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História completa

P/1 - Você trabalha aqui na Associação, participa também da Associação de Moradores?

 

R - Participo de reunião. 

 

P/1 - E como está sendo?

 

R - Não sei, nunca mais eles fizeram uma reunião. 

 

P/1 - E me conta uma coisa, como é que foi contar um pouquinho da sua história aqui hoje?

 

R - (risos) Foi bom. 

 

P/1 - Você já fez isso na rádio, né?

 

R - Uhum.

 

P/1 - Como é que foi contar ali, o que você falou  nessa entrevista?

 

R - Eu não me lembro mais. Eu lembro que falei da minha vida, da minha história, da minha família. 

 

P/1 - Tem alguma coisa que eu não perguntei que gostaria que eu perguntasse?

 

R - Não. Tudo bem. 

 

P/1 - Tá bom. Obrigado, pela sua presença. Foi um prazer.


 

P/1 - Dona Cleo - posso te chamar de dona Cleo?

 

R - Pode. 

 

P/1 - Dona Cleo, qual o seu nome inteiro, onde nasceu e em que dia foi?

 

R - Meu é Cleonice Eulália da Silva. Nasci no município de Cedral, Maranhão, em 1958, doze de fevereiro de 1958. Tenho 62 anos. 

 

P/1 - Você nasceu em casa, em hospital? Como foi?

 

R - Naquela época, no meio do interior não tinha hospital. Eu nasci em casa. 

 

P/1 - Você conheceu a parteira que fez o parto?

 

R - Não, porque logo após o meu nascimento meus pais se mudaram para uma vila. Lá era interiorzinho, não tinha colégio; ele queria botar os filhos para estudar e se mudou, aí eu não conheci muita gente de lá.

 

P/1 - Vocês se mudaram pra onde?

 

R - Nós nos mudamos para Guimarães. Eu sou mais guimarense do que cedralense.

 

P/1 - Guimarães fica no interior do Maranhão também?

 

R - Fica no interior do Maranhão. 

 

P/1 - E qual é o nome da sua mãe?

 

R - Délia Leonice da Silva e José Maria da Silva, o nome do meu pai.

 

P/1 - E você conheceu os seus avós, os pais da sua mãe?

 

R - Não, não me recordo. 

 

P/1- E os avós por parte de pai?

 

R - Também não.

 

P/1 - Entendi. 

 

R - Acho que não. Não sei. (risos)

 

P/1 - Mas você sabe a origem da família do seu pai e da sua mãe - de onde eles vêm, o que eles faziam?

 

R - Eu sei do meu pai. Ele morava aqui em São Luís, era alfaiate, aí foi... Foi passar umas férias nesse interior, onde o cunhado casou com... Assim que eu sei essa história, que ele foi visitar o cunhado e lá namorou várias moças; a terceira moça que ele namorou foi a minha mãe. Ele disse que ia casar com ela, aí veio desmarcar um noivado que ele tinha aqui para casar com uma interiorana.

 

P/1 - Olha! Por que ele fez isso?

 

R - Porque disse que ela era muito bonita, a minha mãe. Não puxei pra ela, sou feia (risos).

 

P/1 - Dona Cleo, a sua mãe está viva, o seu pai está vivo?

 

R - Não, são todos os dois falecidos.

 

P/1 - Quando nasceu… Como é que você se lembra da sua mãe, na sua infância? Como ela era?

 

R - A minha infância era uma infância normal. Eles priorizavam muito a educação, eu sou... Vivia para estudar, eu sou estudante profissional, então a gente não fazia além mais de estudar. O meu pai casou com uma analfabeta e não queria que os filhos dele ficassem analfabetos, então nós todos, todos os filhos dele, viramos estudantes profissionais, vivíamos para estudar.

 

P/1 - E a sua mãe, como era o jeito dela, o humor dela? Como ela cuidava de vocês?

 

R - A minha mãe, apesar de ser analfabeta, era uma pessoa muito educada. Não falava muito. Quando chegava numa repartição, ficava todo o tempo calada, porque ela dizia que não sabia falar,  que ela era analfabeta, então podia falar alguma coisa errada. Ela ficava calada. 

Ela ensinou [que] quando a gente chegasse em qualquer lugar ficasse calado, escutasse. Mais escute do que fale. Nós temos isso. 

 

P/1 - E você tem irmãos também?

 

R - Tenho. 

 

P/1 - Quantos você tem?

 

R - Tenho três irmãs.

 

P/1 - Três? Qual o nome deles?

 

R - (Isa?) Maria da Silva, Delia Leonice da Silva... Maria Adelia da Silva e Emília Leonice da Silva.

 

P/1 - Como é que é você nessa escadinha então?

 

R - Eu sou a caçula.

 

P/1 - Você é a caçula. Você nasceu já tinha seus três irmãos, já, então.

 

R - Já. 

 

P/1 - O seu pai, o que ele fazia lá, era alfaiate também?

 

R - Não, ele virou agricultor porque minha mãe era agricultora. Ele perdeu o emprego daqui, foi pra lá e ela ensinou ele a trabalhar na lavoura. Depois ele virou comerciante. Ele foi indenizado daqui, [em] que ele trabalhava de alfaiate, e montou um comércio. Já conheci ele no comércio.

 

P/1 - Ah, quando você cresceu, ele já estava...

 

R - No comércio.

 

P/1 - Ele vendia o que lá, dona Cleo?

 

R - Ah, era essas quitandas de interior que vendem de tudo: arroz, feijão, essas coisas.

 

P/1 - E como era o gênio do seu pai, como ele criou vocês?

 

R - Ah, o meu pai me criou… Ele não criou a gente assim, muito pro mundo, pra viver fora, porque muita coisa… Quando eu saí de casa, que eu vim para cá para São Luís, para estudar, eu notei muita diferença, porque meu pai, ele... Eu nunca vi conflito, briga dele com minha mãe. Quando eu cheguei de passar férias, eu perguntei para o meu pai: "Casal briga?" Aí ele disse: "Eu não te ensinei para vida. Casal briga." Então tinha coisa assim que eu não sabia.

Outra coisa: ele nunca mostrou as pernas, era todo o tempo com calça, e acostumou a gente também a ser assim, de não olhar... De almoçar todo vestido, ele tinha esses preceitos e botou para nós. A gente chegou na casa alheia e sofreu muito com isso, porque eles andavam de toalha, andavam de tudo, e a gente não andava, porque eles não ensinaram a gente para viver na casa alheia. Ele ensinou o jeito dele assim, de tudo perfeito.

 

P/1 - Tudo perfeito como? Dê um exemplo. 

 

R - Assim, arrumadinho, tudo...

 

P/1 - Rígido?

 

R - (risos) Ele não andava de bermuda, ele... Quando ia almoçar, ele tinha que se vestir direito, então esses ensinamentos… A gente foi para casa alheia desse jeito e a gente via coisas na casa alheia, que iam de toalha, andavam de toalha. Dentro de casa a gente não tinha esse costume, até hoje eu não tenho.

 

P/1 - Você acha que era talvez porque ele gostava muito de lidar com roupa, porque ele era alfaiate?

 

R - (risos) Devia ser. Porque... Aí eu perguntei pra ele um dia, fui e perguntei: "Papai, família briga? Porque o senhor me botou numa casa que todo dia eles brigam? Eu já tô nervosa, eu não sou acostumada com briga de casal." Papai não me ensinou que família brigava. Eu pensei que família era todo o tempo assim, sem briga. Aí ele contou que ele mais mamãe brigavam, mas era quando a gente estava pro colégio. A gente nunca presenciou uma briga deles. 

 

P/1 - Isso não é bom? 

 

R - Hum?

 

P/1 - Isso não era bom?

 

R - Eu acho que não, porque a gente tinha que aprender como é que era a vida lá fora.

P/1 - Você acha que eles pouparam vocês?

 

R - Pouparam. Aí eu fiquei assim... A primeira vez que eu vi uma briga na casa que eu morava, eu me tremia todinha, porque eu nunca tinha visto. Se eu tivesse visto, eu não ficaria tão nervosa.

 

P/1 - O que mais que o seu pai e a sua mãe faziam que era assim, certinho, como você falou? A rotina, como era?

 

R - Ah, na rotina nossa, quando nos mudamos pra Guimarães, era difícil [de] brincar, sair para conversar com vizinho, essas coisas. Era mais só para estudar, a gente tinha um quarto de estudo. A gente se dedicou mais aos estudos do que a brincar, como uma criança normal.

 

P/1 - Vocês não brincavam muito então?

 

R - A gente não brincava muito, a gente fugia, né? (risos) Eu gostava na época muito de bicicleta, mas apanhei muito também de andar de bicicleta.

 

P/1 - Você tem alguma história no dia que fugiu? Como foi, pode contar para mim?

 

R - Fugiu assim como?

 

P/1 - Que você fugiu pra andar de bicicleta, por exemplo.

 

R - Ah, toda vez que eu fugia pra andar de bicicleta, eu apanhava quando eu chegava. Porque não era pra andar de bicicleta. (risos)

 

P/1 - Você considera que era comportada ou mais traquinas?

 

R - Não, eu nunca fui comportada, sempre eu fugia. E as meninas me poupavam, porque eu era a caçula. Às vezes elas apanhavam no meu lugar por causa disso. 

 

P/1 - E me conta como era Guimarães nessa época? Como era a cidade?

 

R - Na época que nós chegamos em Guimarães, não tinha energia; a energia lá era limitada, parece que era até nove horas da noite. Festa, tudo lá, era no luar. Lá tem um padroeiro que é festa de São José e eles faziam certinho no luar, na lua, porque quando a energia fosse embora ficava o luar. Eu tenho essa lembrança da festa de São José, que era no luar. Tudo mais nosso lá era de noite, era no luar, então a gente valorizava muita a lua.

 

P/1 - E a luz que a lua dava também?

 

R - Até nove horas (risos). E a lua, namorava no luar, tudo fazia no luar. Aqui em São Luís já não tem porque tem energia, então tem muita gente que... Como eu sou do interior, eu tive muita... Apesar da gente ter muita coisa, nós tínhamos brincadeira, tinha rio, tinha a praia. Eu sou de uma ilha que tem rio, praia, a gente sabia nadar.

 

P/1 - Guimarães fica... Pra quem não conhece, onde fica?

 

R - É baixada, fica para lá de Pinheiro.

 

P/1 - É litorânea a cidade?

 

R - É uma baixada, é... Não sei… Quando a gente vai daqui pra lá, passa Pinheiro, Mirinzal e Guimarães.

 

P/1 - Esse luar que você contou, se lembra bem dele, da luz do luar?

 

R - Lembro. A gente namorava no luar. Tudo fazia no luar.

 

P/1 - E a casa dos seus pais tinha rádio, LP, vitrola, essas coisas?

 

R - Tinha televisão, porque a gente assistia televisão, e naquela época... Era até nove horas, então a gente se dedicava mais a estudar do que a assistir televisão. Quando eu cheguei aqui eu era perdidinha de televisão, porque eu não assistia.

 

P/1 - Novela?

 

R - Novela, não, porque lá naquela época criança não assistia novela, então... Quando eu cheguei aqui, todo mundo assistia novela. (risos) Eu não sou acostumada a assistir isso, não.

 

P/1 - Mas vocês ouviam música no rádio?

 

R - Música no rádio, a gente escutava mais música.

 

P/1 - O que vocês ouviam, você se lembra?

 

R - Não sei... Naquela época parece que era MPB.

 

P/1 - Você gostava de ouvir alguma coisa em específico nessa época?

 

R - Não. 

 

P/1 - E como era a casa de vocês?

 

R - Nossa casa de alvenaria, normal.

 

P/1 - Cada um dormia num quarto ou era todo mundo num mesmo quarto?

 

R - Naquela época era todo mundo no mesmo quarto. Depois que nós crescemos, fomos dividindo, fazendo mais quartos. Cada qual no seu canto.

 

P/1 - E me conta uma coisa, como era a sua relação com seus irmãos?

 

R - Era boa. Eles foram crescendo e vinham para cá para São Luís, que tinha mais estudo. Lá em Guimarães só tinha até o ensino médio, na época que eu morava lá. A gente inteirava o ensino médio e vinha pra cá, para fazer vestibular, para fazer faculdade.

 

P/1 - E você estudou em que escola, em primeiro lugar? Você se lembra o nome dela?

 

R - Nossa Senhora da Conceição, que era lá de Guimarães.

 

P/1 - Foi de que ano até que ano?

 

R - Eu estudei o [ensino] fundamental e médio em Guimarães.

 

P/1 - O primário você fez em casa?

 

R - O primário lá também. (risos) Urbano Santos, o nome. Ainda tem esse colégio, até hoje. 

 

P/1 - E você tem lembranças desse primário?

 

R - Tenho. 

 

P/1 - Ah, é? O que você se lembra mais de lá?

 

R - Eu me lembro das professoras de lá. Inclusive, quando eu venho em Guimarães, eu visito muito essa escola, porque ela é nome de um poeta. Guimarães é muito literária. Inclusive a Maria Firmina estudou em Guimarães, a poetisa, primeira poetisa brasileira. Eles priorizam muito, quem sai de Guimarães sabe muito bem literatura. 

 

P/1 - Você começou a ler pequena já?

 

R - Desde pequena. Eu não sei agora como é a educação de lá, mas de primeiro era muito rígida. A gente tinha que saber o nome dos poetas de lá tudinho (risos), até quem morreu lá naufragado.

 

P/1 - Vocês tinham que saber recitar também, declamar poesia?

R - É. 

 

P/1 - Caramba. 

 

R - Porque lá eles priorizam muito os poetas. 

Outro dia eu estava vendo no Youtube uma moça falando da Maria Firmina. Ela falou umas coisas que não batiam. Eu disse: "Para você falar de Maria Firmina, dá uma passada em Guimarães, Maranhão, que lá eles conhecem muito bem Maria Firmina. Eu não sei te dizer muito bem, mas eles conhecem." Mas ela não me respondeu (risos), porque ela falou da educação de Maria Firmina. Ela fez o primário em Guimarães, primário, ginásio, depois ela veio para cá e progrediu.

 

P/1 - E você pode contar um pouquinho da história dela, pra quem não conhece?

 

R - Da Maria Firmina?

 

P/1 - É.

 

R - O que eu conheço da história dela é o que eles passavam pra nós. A mãe dela faleceu aqui em São Luís - se eu não me engano, a mãe dela era doméstica - aí ela foi morar no interior de Guimarães com uma tia. Desse interior para Guimarães era um pouquinho longe, ela andava a distância para estudar. Depois ela estudou primário e formou numa escolinha lá. Depois ela veio para cá, foi estudando e cresceu, virou poeta, poetisa. 

 

P/1 - Isso foi em que época, mais ou menos?

 

R - Eu não sei, 1948, por aí. Quando eu dei por mim, a gente só falava de Maria Firmina; inclusive o busto que tem na Deodoro, foi tirado [usando como modelo] uma moça que, segundo um senhor diz, parecia com ela, uma negra bonita que tinha lá. Aí eles tiraram o busto, tá ali no Deodoro.

 

P/1 - Tem alguma professora que você se lembra do primário, que marcou?

 

R - Tem. Professora Alcina, ela me marcou porque era bonita e gostava muito dos alunos. Do ginásio não marcou muito, porque tinha uma professora de matemática que era muito ruim. (risos)

 

P/1 - Por que ela era ruim?

 

R - Porque só ela que sabia, ela não queria que a gente... Expor, entendeu? Hoje a educação... Uma vez eu perguntei para ela, eu já ensinava aqui: "Onde seu filho estuda, em São Luís, que eu quero ser professora dele para mostrar a maldade de você para ele." Aí ela começou a rir porque ela achava assim, hoje não... 

Se ela ensinava uma regra, como de delta, que é b² - 4ac, se ela dissesse… `Porque ela não ensinava essa regra, que era melhor do que -b, b²... Aí vai aquela delta todinha. Porque ela não ensinava só b² - 4ac, que dava, sobre 2a, o mesmo resultado? Não, ela queria prolongar. 

Por isso, um dia eu perguntei pra ela porque ela não ensinava essa regra, que era mais fácil. Ela foi reclamar com a minha mãe, minha mãe me bateu porque eu desrespeitei a professora. Hoje não, se eu tô ensinando, o aluno bota o dedo pra cima e quer falar alguma coisa, eu respeito o que ele tá dizendo. Não é o que eu quero, entendeu? Por isso ela me marcou até hoje. E até hoje eu não gosto dela. (risos)

 

P/1 - E as do primário, como foram?

 

R - Ah, as do primário foram boas. Acho que se dedicavam muito, eram professoras dedicadas, eram professoras porque gostavam. E quando eu deparei no ginásio tive esse... A gente não podia ter ideia, só elas que sabiam as regras, só elas que sabiam as coisas. 

 

P/1 - Então esse negócio não era só com essa professora de matemática não?

 

R - Não, era com todas, porque elas não... Hoje, se eu tô dando aula, o aluno diz "professora, é isso, isso e isso", eu paro, escuto o que ele está dizendo. Se tá dentro da matéria... O que ele tá dizendo tá certo. E elas não aceitavam naquela época, elas não aceitavam o que a gente dizia, uma ideia. Era preciso eu apanhar por causa de uma ideia que eu dei? (risos)

 

P/1 - E como você ia pra escola na época?

 

R - Lá em Guimarães a gente andava tudo fardado. Com a farda e com tênis, porque não podia estar com farda e sem o sapato completo. Tinha que ser completo, não ia de chinelo.

 

P/1- Como era a farda?

 

R - Era uma farda azul, a saia azul com a blusa branca escrito o nome do colégio.

 

P/1 - E o sapato, como era?

 

R - Era um sapato preto e meia branca.

 

P/1 - Tinha que cuidar da roupa, não podia sujar?

 

R - Não, a gente tinha que ter três fardas para ir a semana toda. E eles não aceitavam a gente sem farda - por exemplo, molhou. A gente tinha que ter mais de uma farda.

 

P/1 - Impecável.

 

R - Impecável. Toda engomadinha, toda arrumadinha. (risos)

 

P/1 - E vocês iam a pé pra escola?

 

R - A pé. 

 

P/1 - Era perto?

 

R - Era perto. 

 

P/1- Conte como é a cidade de Guimarães, como ela é dividida. O que tem lá que você gostava de ir?

 

R - Naquela época a cidade era muito pacata, porque era do luar, que a gente …. Só tinha essa festa da padroeira. A gente ia muito na igreja, acho que porque era a única opção para a gente ir, sair de casa, aí meu pai levava.

 

P/1 - Você gostava de ir na missa ou não?

 

R - Gostava. Todo domingo ia na missa.

 

P/1 – E você se tornou católica?

 

R - Eu sou católica.

 

P/1 - Conte mais. Essa festa, como funciona? Quantos dias tinha, o que vocês faziam na festa?

 

R - Ah, a festa de São José?

 

P/1 - Isso. 

 

R - Primeiro tinha uma missa. Depois a gente ia pra uma quadra e lá eles vendiam refrigerante, essas coisinhas. Tinha também a divisória, que tinha misses, tinha as meninas candidatas, essas coisas de interior. Miss, essas coisas. 

 

P/1 - E dançavam?

 

R - Aí tinha festa, a gente dançava, comia, essas coisas. 

 

P/1 - Você gostava?

 

R - Gostava, eu ia todo dia. (risos) Porque era a única opção, em Guimarães era a opção pra gente sair de casa.

 

P/1 - Mas era uma vez por ano, só?

 

R - Era uma vez por ano. E a gente se arrumava, comprava roupa nova, tinha esses aparatos. 

 

P/1 - Você começou a ir nessa festa com que idade?

 

R - Lá em Guimarães a gente ia em festa depois que completava dezessete anos. A gente não ia quando era... Ia só acompanhada com os pais.

 

P/1 - Quando era menor só ia acompanhado.

 

R - Só acompanhado. Tinha uma festa de criança, a gente ia na festa de criança; de noite a gente não ia mais, era só para os adultos. Acho que hoje até... Ainda é, até hoje, eu não sei.

 

P/1 - Vamos voltar nisso depois, mas eu queria te perguntar, você lembra os primeiros livros que você leu que gostou, que marcaram?

 

R - Lembro não. Os primeiros livros, não. 

 

P/1 - Que leu na escola, de repente?

 

R - Não. 

 

P/1 - E você foi para o ginásio, então. Que matérias tinha, como era?

 

R - Tinha todas as matérias: Matemática, Português, História, Literatura. Eles prezavam muito o português e a literatura. Geografia, educação artística, tinha na época, e ensino religioso também tinha.

 

P/1 - Tinha alguma matéria que gostava mais?

 

R – Eu gostava mais de Matemática. (risos)

 

P/1 - Justamente com essa professora. 

 

R - Justamente. 

 

P/1 - Com que idade você começou a namorar, a sair pra encontrar os meninos? Como foi isso?

 

R - Acho que com dezoito anos, porque a gente não saia assim de casa, a gente era muito vigiada. 

 

P/1 - Seus irmãos vigiavam você também, como era? Só o seu pai?

 

R - Ah, minha irmã não deixava. (risos) Vigiava. Acho que era a função dela, não sei. 

 

P/1 - Por que era a caçula, né?

 

R - Era a caçula. 

 

P/1 - Sua mãe cozinhava bem?

 

R - Cozinhava. 

 

P/1 - E com essa idade que você começou a namorar? Como vocês faziam para namorar?

 

R - A gente ia nessa festa que eu estou te dizendo, escondido. Nessas festinhas aí. Ia para igreja, se escondia de papai. (risos)

 

P/1 - Mas você ia pra igreja namorar então, é isso?

 

R - Quando saía, porque dia de domingo todo mundo tinha que ir pra igreja, era... Eu acho que era o pessoal de Guimarães todo, porque a igreja era lotada. 

 

P/1 - E aí lá você via todos os rapazes?

 

R – É, todos iam pra igreja. (risos)

 

P/1 - Mas aí vocês conversavam lá na igreja?

 

R - Lá na igreja. Ai... Não sei,  não me lembro muito bem não. 

 

P/1 - E como é que fazia, mandava carta também, bilhete?

 

R - Tinha negócio de carta, naquela época você escrevia, né?

 

P/1 - Você mandava muitas cartas para as pessoas?

 

R - Não gosto de escrever, tenho esse problema.

 

P/1 - Ah, é? Por que?

 

R - Não sei. Eu não sei fazer uma boa redação.

 

P/1 - Isso desde quando?

 

R - Desde criança. Vamos que se eu não estudasse, não sabia como era. Se eu aqui  mandasse pedir alguma coisa pra elas, só mandava pedir: "Mamãe, tô precisando disso, disso e disso." Não tinha aquele enredo, aquela história. Inclusive, para eu fazer redação decente, eu tive que pagar uma professora particular para me ensinar redação, porque não tinha aquele hábito da leitura.

 

P/1 - Isso em casa, na casa de vocês.

 

R - Hum?

 

P/1 - Você teve aula particular quando você morava com os seus pais?

 

R - Não, quando eu morava aqui já, em São Luís. Pra fazer o vestibular tinha que ter redação naquela época, não sei se ainda tem hoje. Tive que pagar uma professora particular pra me ensinar redação. (risos)

 

P/1- E com que idade você foi pra São Luís?

 

R - Eu vim com vinte anos.

 

P/1 - Entendi. Queria prestar o que na época, o que você prestou?

 

R - Eu prestei, naquela época tinha... Eu vim visitar um pessoal aqui e eles estavam estudando; no mês de julho [se] fazia vestibular e eu vim no período de férias. Onde eu estava, na casa de uns colegas, eles estavam estudando. Cada um ensinava uma matéria. Aí eu disse: "Ah, eu sei matemática muito bem. Posso ensinar para vocês e vocês me ensinam as outras matérias", aí eles aceitaram. 

Eu fiz o vestibular para Educação Física na época. E passei junto com eles.

 

P/1 - Que colegas eram esses?

 

R - Eram uns colegas que iam pra festa em Guimarães. Eles eram também todos estudiosos.

 

P/1 - Foi todo mundo para São Luís meio junto, então?

 

R - Não, eu vim para casa deles, e eles estavam estudando. E eu fiquei junto com eles. Eu vim foi passar as férias. Queria era ir para praia, não ficar estudando (risos).

 

P/1 - E com essa idade você sabia se queria mais alguma coisa?

 

R - Eu queria... Naquela época, eu queria Educação Física, mas eu pensava que era menina do interior e não tinha capacidade de entrar numa faculdade aqui em São Luís. Eu, na minha ideia, na minha cabeça. Mas eu consegui entrar na UFMA [Universidade Federal do Maranhão]. Quando eu cheguei, nossa, a UFMA não é para todo mundo não, naquela época.

 

P/1 - Você foi a primeira da família que entrou na faculdade?

 

R - Não, já tinha uma irmã, que também se formou em Letras.

 

P/1 - E nessa época não teve... Porque foi com vinte anos, não é, pra São Luís?

 

R - Uhum, pra cá.

 

P/1 - Você não foi ter namorado e casar, porque dizem que no interior às vezes é cedo que acontece isso, né?

 

R - Lá em Guimarães a gente não pensa muito nisso aí, de casar. A gente pensa mais em estudar e ter o seu emprego, que já é um casamento. Lá não prioriza muito casamento não, é um interior que tem mais a educação em primeiro lugar. A dependência da mulher, lá eles não priorizam muito, casar. 

Se você... Escutava desde criança lá: estudar, ter seu emprego, para você ter um bom casamento. Entendeu? Não é casar.

 

P/1 - E seu pai e sua mãe falavam isso também?

 

R - Não, eles nunca falaram. (risos) Eu escutava dos colegas, escutava dos professores. Porque em Guimarães, eu nunca tinha visto um lugar assim tão... Que eles não... Assim, são casados, o meu pai era casado, mas eu não via eles juntos, andarem juntos à repartição. 

Às vezes a gente ia para praia, o casal encontra a mulher bem aqui, num bar, e o outro tá do outro lado, por que não ficavam juntos? Aí um dia eu perguntei, já morando aqui eu perguntei: "Por que fulano não tá junto?" Aí minha irmã: "Tu não sabe que Guimarães é assim, um vai pra lá e o outro vai pra cá, [que] eles não ficam assim juntos?". Eles priorizam muito: “Olha, você tem que estudar, vai trabalhar, deixa marido para lá.” Não prezam muito o casamento.

 

P/1 - Isso é meio raro, você acha? É raro isso lá em Guimarães?

 

R - Eles são muito independentes. Eu acho assim… A independência, né? São muito independentes. [Não priorizam] muito o casamento não, mas são casados. Meus pais eram casados, minha irmã é casada.

 

P/1 - Então foi com essa cabeça que você foi pra São Luís.

 

R - Eu vim pra cá porque eu queria estudar. Eu queria fazer essa faculdade de Educação Física, mas pensei que quando eu fosse fazer as provas teóricas... A prática eu tive muita dificuldade, porque quando cheguei em natação, tinha gente que sabia nadar muito bem. E eu sabia aquele nado cachorrinho. Aí o moço disse: "Você pode nadar como você souber." Também sabia nado peixinho, porque a gente vai no fundo e sai lá. Era o que eu aprendia em rio. Aí ele disse: "Depois, se você passar, a gente ensina todas as modalidades." E passei, sei hoje todas as modalidades da natação. 

 

P/1 - Antes de eu perguntar sobre a faculdade, queria perguntar como foi se mudar pra São Luís. Quando chegou aqui, o que você achou, o que você sentiu da cidade?

 

R - Eu pensei que nunca ia conhecer a cidade porque tinha vezes que era uma rua, eu conhecia muita beira-mar... Aí lá mudava, não passava mais os carros pela Magalhães de Almeida, tinha outro para ir para a Rua de Santana. Aí era aquela coisa: “Gente, eu não vou conhecer essa cidade, na hora que eu sei que é a Magalhães de Almeida já muda para Rua de Santana.” 

E eu tive essas dificuldades de morar na casa alheia. Eu acho que eu sei morar na casa alheia, porque quando eu vim para cá era para eu estudar, e pouco eu conversava com eles; eu ficava mais no meu quarto, isolada, só mais estudando. Eu achava que eles achavam que eu era esquisita, porque só vim pra estudar. (risos) Eles me convidavam pra festa e eu: “Não, não, tenho que estudar", porque os meus pais, a gente tinha uma meta a cumprir. Se você quer estudar, você tem que ter... Você não vai em festa, isso tudo tira o foco. Eu não bebo bebida alcoólica, eu não fumo também, porque foi a educação dos meus pais. 

Na Educação Física, eu conheci... Só tinha duas pessoas lúcidas, eu e a outra moça, Cláudia. A gente viajava, eram as únicas que traziam relatório, porque eles não sabiam o que estavam fazendo lá fora. Bebiam, faziam tudo que queriam, aí quando não vinham com o relatório, tinha que ter eu e a Cláudia para trazer o relatório, para assistir um seminário. 

Até hoje eu não bebo bebida alcoólica, não bebo. E fiz Educação Física, que era raro [ter] um que não bebia. (risos)

 

P/1 - Você morava com os seus colegas quando veio pra São Luís?

 

R - Não. Meu pai primeiro me botou na casa de uma senhora, aí depois eu fui mudando. Quando eu me formei em Educação Física, fiz História. Fiz História mais por curiosidade. 

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Sim. (risos)

 

P/1 - Você tinha curiosidade para saber sobre o quê?

 

R - Porque eu não gostava de História, pra eu saber se eu não gostava de História ou eu não gostava da professora, como ela dava aula de História. 

 

P/1 - Lá no colégio?

 

R - É (risos), no ensino médio, ai eu fui descobrir... Quando eu descobri porque eu não gostava, já estava no sexto período, aí eu disse: “Ah, agora vou dar continuidade, vou me formar.” 

 

P/1 - Você fez História onde?

 

R - História eu fiz na UEMA [Universidade Estadual do Maranhão].

 

P/1 - E nesse período todo que estava fazendo Educação Física, você estava sempre mudando de casa, é isso?

 

R - Mudando de casa.

 

P/1 - E morava em casa alheia, é isso?

 

R - Depois a gente começou a fazer grupinho de colega. Era junto com colega, cada qual pagava sua despesa.

 

P/1 - Uma república, né? Como chama. 

 

R - Não, a gente alugava uma casa e botava duas ou três colegas e cada uma tinha uma coisa pra pagar. Eu era o alimento, a outra era a casa, a outra era água e luz. A gente fazia essas coisas assim, de colega mesmo. 

 

P/1 - E como era São Luís na época? Você conheceu, no fim das contas, os lugares da cidade, os bairros? Como foi isso?

 

R - Conheci os bairros. Eu gostava, na época, muito de praia, gostava muito de ir pra praia. Às vezes, ao invés de eu ir para faculdade, eu ia pra praia. (risos). [Diziam:] “Ela tá pra praia. Ao invés de vir pra cá, ela tá pra praia.” 

 

P/1 - Em que praia você ia?

 

R - Naquela época, a gente ia muito na Ponta da Areia. Encontrava muita gente de Guimarães. Quando eu estava com saudade deles, eu ia pra lá porque eu sabia que eles estavam lá.

 

P/1 - A cidade era diferente do que é hoje?

 

R - Era, era bem... Bem diferente, porque agora ela está desenvolvida, né? Já existe o Canaã, que aqui eu acho que era só mato. Nós que fundamos. 

 

P/1 - Você se lembra do Reviver nessa época?

 

R - Não me lembro. Reviver já foi agora, por pouco tempo, não... Eu acho que não tinha. 

 

P/1 - Você morou em que bairros em São Luís?

 

R - Eu morei na [Rua] Dezoito de Novembro, que era bem no centro, que é antes da Fabril, que eles chamavam. Morei no bairro de Fátima, morei na Kennedy, onde minha família depois... Aí a gente se uniu, os irmãos, fui morar uma época com meus irmãos; eles alugavam casa e a gente ia. Aí morei no Quatrac, no Quatrac já era casa mesmo. Já comecei a independência de ter minha própria casa. 

 

P/1 - Isso com que idade, mais ou menos?

 

R - Acho que com trinta.

 

P/1 - E alguma coisa marcou você na época? Tem alguma vez, alguma história que você se lembra bastante lá da faculdade, desse período da Educação Física?

 

R - Ah, da faculdade eu me lembro.... (risos) É muito engraçado, eles diziam assim: "Essa caboclinha do interior." (risos) Sempre tinha aquela coisa de caboclinha porque eu sabia jogar muito bem vôlei, sabia handebol. Eu era do interior, mas eu tinha essas modalidades que lá eles ensinavam. Aí [diziam]: "Ai, essa caboclinha do interior sabe jogar muito bem" (risos). Isso aí me prendeu. 

Não que eu ficasse zangada de me chamar de caboclinha no interior, eu tinha o privilégio de ser do interior e estar lá. Eu dizia assim: "E vocês que moram aqui em São Luís, vocês não sabem nem uma modalidade. Eu sei jogar porque lá no meu interior priorizavam muito isso, a educação.” Eu participava de jogos olímpicos.

 

P/1 - E você conheceu gente de todas as classes lá, imagino. 

 

R – É, porque eu tinha.... Naquela época era mais sobrenome, chamava pelo sobrenome, Silva não era nada. 

Um dia eu reclamei para minha mãe porque ela tirou o meu sobrenome, porque a gente era Vieira, tinha da parte da minha mãe, ela tirou e botou só do meu pai, Silva. Ela me perguntou por que. Eu disse: "Porque lá na faculdade eles só chamam o sobrenome e Silva não é nada." (risos) Aí ela disse: "Faça ele ser alguma coisa, esse nome aí". Aí eu perguntei para ela: "Por que a senhora tirou nosso sobrenome? Eu podia ser uma Vieira - em São Luís, Vieira era gente grande.” Ela disse que era para gente fazer o Silva. 

Perguntou se a gente estava passando fome por causa do nome. (risos) Não, é que eu quero mídia, ela não entendeu. Ela não entendeu mesmo, peguei foi um tapa na hora do almoço, porque eu queria esse sobrenome. 

 

P/1 - E você namorava lá também, teve muitos amigos?

 

R - Tive amigos, namorei também. 

 

P/1 - Tem algum amigo você tem até hoje dessa época?

 

R - De Educação Física a gente tem um grupo que se comunica de vez em quando. De História também, tem outro grupo que se comunica também.

 

P/1 - A UFMA fica onde?

 

R - Fica no Bacanga. 

 

P/1 - Você ia pra lá como?

 

R - Pegava dois transportes pra ir, na época. 

 

P/1 - E teve algum professor que lhe marcou lá?

 

R – Nenhum. (risos)

 

P/1 - E você terminou em quanto tempo a faculdade?

 

R - Cinco anos. Depois, [em] cinco anos a outra. 

 

P/1 - E me diz uma coisa. Como você pensou em fazer História? Estava trabalhando quando começou a faculdade?

 

R - Eu já estava trabalhando e pensei: "Eu vou fazer história porque eu não gosto de história." [Era] pra saber do que é que eu não gostava, se era da professora, se era da matéria. Quando eu descobri, já estava no sexto período; descobri que era a professora que era chata (risos), não sabia dar aula de História.

 

P/1 - Como ela dava?

 

R - Naquela época ela queria decorar datas. Eu não sei decorar, então eu tive muita dificuldade. Decorar, ou você sabe ou você não sabe, e ela obrigava a gente a decorar. "Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto, diga ao povo que fico", no Dia do Fico; ela queria até uma vírgula onde era para ser colocado. Uma vez eu perguntei para um colega meu: "Onde é a vírgula disso aqui?" (risos) “Tô preocupada com a vírgula.”

Depois que eu fui dar aula de História, eu mudei, [é] totalmente diferente dessa coisa de decorar. Como eu já vim da Educação Física, eu fazia mais era peça teatral, falar de Getúlio Vargas. Bora ver a educação de Getúlio Vargas, como era a educação dele de 1930 a 1945? Faça uma peça. Você aprende muito mais do que decorar. Eu não fazia meus alunos decorarem, eu fazia eles se expressarem. E a minha professora de História fazia a pessoa decorar. 

Ela dava aquela aula, falar de Balaiada… Balaiada é aqui do Maranhão, para que você vai decorar? Faça uma terça da Balaiada.

 

P/1 - Quando você começou a fazer História você trabalhava em que, trabalhava onde?

 

R - Dava aula de Educação Física. 

 

P/1 - Na Prefeitura, no Estado?

 

R - No Estado. Fui professora no Estado. 

 

P/1 - Entendi. E como eram suas aulas, na época?

 

R - Da Educação Física?

 

P/1 - É. 

 

R - A minha aula de Educação Física era... Eu dava natação pros meus alunos. Eu fiz um projeto… Eu trabalhei no colégio numa periferia, que é Vila Embratel, e lá a quadra que tem na UFMA não é dos alunos da UFMA, é dos alunos da periferia. Como eu sabia disso, eu fiz um projeto e levava meus alunos para lá, dava aula lá. Inclusive tudo o que tinha lá, meus alunos usufruíam porque eu levava - a aula de vôlei, essas coisas todas, e fazia os alunos de lá dar aula para eles. Porque até hoje, não sei como está agora, mas a quadra, a piscina, tudo é da periferia, só que eles não sabem e não usufruem, entendeu? Como eu sabia que era deles, eu levava. 

Eles faziam o exame, faziam tudo, e às vezes eu nem trabalhava. Quem trabalhava eram os estagiários de lá, os alunos. (risos) 

 

P/1 - Você levava eles pra UFMA, isso?

 

R - Pra UFMA, que era perto. Eu levava. Ficava lá esperando. Um dia desses, uma professora minha de voleibol disse: "Um dia você ainda vai trabalhar para mim." (risos) Ela ficava assim me olhando, acho que ficava zangada. Um dia eu levei, fiz ela dar aula para os meus alunos e fiquei lá olhando. Aí ela disse: "É isso aqui que eu vou trabalhar para ti, né?" (risos). Ela dava aula pra eles e eu ficava olhando,  ficava observando para eles verem que eu estava lá, pra eles respeitarem quem estava dando aula. 

Tivemos até aula de... Eu fiz eles terem aula de capoeira, eu gosto muito de capoeira. Não sei como estou agora de capoeira, mas eu gostava muito de capoeira e [pra] todos os meus alunos eu ensinava capoeira. 

 

P/1 - Em que escola você dava aula lá, qual era o nome dessa escola?

 

R - Eu comecei no [Raimundo] Sadock Costa, quando eu entrei no Estado. O Sadock Costa era um colégio militar. Depois sai desse colégio, foi para o... Aqui no Maranhão tem uma escola [chamada] Estado do Pará, fui dar aula no Estado do Pará. Aí fui rodando de escola. 

Depois fui para Vila Embratel, me lembro até [que] foi... Eu pedi para sair do Estado do Pará, na época ensinava Educação Física também, estudava Educação Física. Pedi e eles me mostraram no mapa esse colégio, Vila Embratel, aí eu disse: "Eu quero ir pra lá. Só me ensina como eu chego." 

Eles me ensinaram e eu cheguei no colégio, fui me apresentar como professora de Educação Física. Eu achava muito engraçado que no Estado eles não gostavam muito de professor de Educação Física. Acho que eles achavam que não trabalhava, que professora de Educação Física não fazia nada. Eles pensavam assim, porque quando eu cheguei nesse colégio entreguei o meu plano de aula, perguntei à supervisora e ela disse que ia substituir uma professora que faltou nesse dia, eu ia para sala de aula. Eu disse: "Não sou professora de sala de aula, sou professora de uma quadra, me apresente a quadra. Não sou substituta. Eu tenho o meu cargo, se for assim eu vou voltar, ir à secretaria e dizer que você quer uma substituta. Peça uma substituta pro estado, não sou eu." 

Nunca fui para uma sala de aula, não sou professora de sala de aula. Fui pra sala de aula quando eu me formei em História. E tive muita dificuldade em sala de aula, porque sair de uma quadra e entrar numa sala de aula tem a dificuldade. 

Fui pra Vila Embratel. O último da minha aposentadoria foi aqui no colégio Sérgio Cabral Barreto, já no Paço do Lumiar. Quando eu vim de lá, já vim com carga horária reduzida. Vim pronta pra me aposentar, me aposentei para cá.

 

P/1 - E como eram seus alunos de Educação Física? Você gostava deles, tinha algum que te...

 

R - Não, são... Alunos de Educação Física, a gente ia por faixa etária. A gente trabalha um plano com faixa etária. Eu gostava porque a gente dava recreação, todo tipo de recreação, é como trabalhar. Não é assim, a professora chega, entrega uma bola e fica aí. Não, você tem que ter a aula teórica e tem que ter a prática, né? Minhas aulas são todas assim, com teoria e prática. 

 

P/1 - O que você buscava ensinar pros seus alunos em Educação Física?

 

R - Meus alunos, eles queriam muito a estética. A barriga, como que era pra tirar barriga, porque eles achavam que eu não tinha barriga. Aí ensinava muito abdominal pra eles, já que eles queriam tirar a barriga. Mas as vezes saia do foco do meu plano, porque naquela época não era para ensinar a Educação Física propriamente dita; era mais uma recreação, não era alongamento. Mas às vezes, quando eles queriam, eu fazia. 

 

P/1 - Agora me diz como foi o primeiro ano de História. Você se lembra? As primeiras matérias?

 

R - A primeira... Que eu ensinei?

 

P/1 - Não, que você teve na UEMA.

 

R - É porque a minha aula de História... Eu achava ruim. É porque eu não gostava dela, mas tem várias matérias intercaladas, aí eu comecei a gostar. Eu disse um dia para uma professora: "Faça como é ensinar, eu quero aprender como é ensinar História." Eu tinha um professor que ele... Na aula prática - a gente tem aula prática -  toda vez que eu fazia relatório, que dava aula, ele virava assim, todo Educação Física… Eu tinha um ódio daquilo que ele dizia. Um dia ele disse para mim: "No dia de sua monografia eu vou estar na banca e vou levar três bastões." Aí eu disse assim: "Você não vai ser convidado para minha banca." Toda vez eu dizia a mesma coisa para ele, toda vez que ele dizia que era pura Educação Física, minha aula prática. Um dia disse para ele: "Você não vai ser convidado para minha banca." Só que o convidaram. 

 

P/1 - E aí, como foi?

 

R - Quando eu entro para defender a monografia, a primeira cara que eu olho [é a] dele. Tudo bem. Ele se convidou, disse que queria estar na banca. Também a curiosidade dele, porque eu acho que quando a gente entrega o livro que a gente faz, eles leem. E o meu livro, quando eu entreguei, foi falando da vida do meu pai, jogando a História do Brasil na história do meu pai, então ele teve curiosidade. 

Eu apresentei não com uma história, apresentei com gráfico, estatística, e meu orientador foi professor de estatística. Eu acho que ele... "Como ela vai apresentar?" A curiosidade dele foi [tão] grande que ele mesmo se convidou para ir para minha branca. Foi uma... Foi diferente, contando a história do meu pai. Jogava a História do Brasil, jogava a história de Getúlio Vargas, a educação de Getúlio Vargas, e foi indo para ter bibliografia - você tem que apresentar um trabalho com bibliografia. Como meu pai não tem livro, não tinha nada, eu tinha que jogar alguém na época famoso.

 

P/1 - E como é que você fez isso? Você entrevistou o seu pai, conversou com ele, como foi?

 

R - Não. Eu conhecia a história dele, como foi que ele se mudou desse interior que eu nasci para Guimarães, com objetivo, e fui intercalando. Aí [fui] falando [sobre] a educação de Cedral na época, que era precária, como era a educação de Getúlio Vargas e a educação da época. E fui fazendo por gráfico. Inclusive, quando eu entrei para apresentar a monografia, [entrei] só com pincel na mão. Quando ele me olha, eu só com um pincel na mão, [deve ter pensado:] "Como que ela vai apresentar?" Estava tudo na mente.

 

P/1 - Mas por que você comparou o Getúlio Vargas com o seu pai? Foi a figura de Getúlio Vargas ou o tempo de Getúlio Vargas?

 

R - Não, é porque eu gostei da educação de Getúlio Vargas. Eu estudei muito a história dele. 

 

P/1 - Mas você diz a educação pessoal dele?

 

R - Não. 

 

P/1 - Ou ele como presidente?

 

R - Como presidente. Aí eu fiquei intercalando. 

 

P/1 - E teve alguma matéria que você gostou mais de História, na época da faculdade?

 

R - Tem a História do Brasil e tem uma História Contemporânea, eu odiei. Eu nunca consegui aprender a História Contemporânea. E o professor não soube repassar. Era uma história muito chata. Você poderia interpretar, porque a história a gente tem que interpretar, não decorar. E eu não acertei, até que um dia ai eu fui defender um trabalho contemporâneo. Eu parei porque não acertei, aí o professor disse que ia me dar zero. Eu disse: "Professor, eu não tô conseguindo porque também o senhor não soube repassar." (risos) Ele ficou bravo porque eu disse isso. "Se o senhor soubesse repassar, eu estava aqui, prática o senhor não soube. Também quando eu me formar, assim que eu vou ser professora." 

 

P/1 - Mas você passava nas matérias, assim, ok?

 

R - Passava. Porque História, você estudando História… Acho que é a pior das matérias que tem na faculdade, porque você tem que estudar. Tem que assistir jornal, tem que estar por dentro. Você tem que saber. É obrigatório. Eu digo que é pior do que Pedagogia, que não tem que estar focado; História você tem que saber o passado e o presente, você tem que fazer essa ligação.

 

P/1 - E como é que seus professores falavam sobre isso na faculdade, o que você acha que você aprendeu mais lá?

 

R - Ah, eles diziam que era pra eu fazer Matemática, que eu gostava muito de Matemática. (risos). Um dia foi um professor de matemática, porque misto a gente tem essas matérias. Ele veio, entrou, disseram: "A gente vai ter Matemática?" 

Nós tivemos Estatística, também, que eu gosto. Ele entrou, aí ele: "Hoje a gente vai falar sobre Delta." Ele começou a folhear o livro, acho que procurando a fórmula. Eu digo: "O senhor tá procurando é a fórmula?", aí ele: "É." Eu gritei a fórmula para ele: Δ - b. B2 – 4ac sobre 2a. Digo: "Professor, o senhor não é professor de Matemática não? O senhor está procurando uma forma em plena faculdade? Volte e diz pra vir um professor de Matemática formado, que eu não tô no ensino médio."

Ele voltou. Disse: "Teve uma lá que disse pra ir um professor formado, que ela quer um professor formado, que ela não tá no ensino médio." E foi um professor formado lá, dizendo todas as fórmulas sem folhear livro. Coisa feia ficar folheando livro pra dizer uma fórmula. Eu digo: "Fórmula eu sei de todas em Matemática. Vai me perguntando que eu vou dizendo, não precisa o senhor folhear livro." (risos) Aí eu fui saliente com o professor.

 

P/1 - Você terminou História e foi já ser professora de História, é isso?

 

R - Foi, eu tinha... Assim, eu queria... Não era um sonho. Se eu me formei em História, eu queria dar ao menos o resto dos meus dias, antes de me aposentar, [aula] de História, para eu ver como que eu ia me sair.

 

P/1 - Mas de onde saiu essa... Eu não entendi ainda essa vontade de aprender História. Foi só um incômodo de saber como era mesmo?

 

R - Foi só um incômodo. Eu achava que a professora não sabia transmitir. O defeito não estava nos livros, estava nela, [em] como transmitir. Não saber transmitir, saber só querer data, datava tudo.

 

P/1 - Mas aí você podia ter lido um livro de História, não?

 

R - Hum?

 

P/1 - Você podia ter lido os livros de História, você foi fazer a faculdade. 

 

R - É, aí eu... “Não sei, vou fazer História.” Não tinha nada o que fazer, acho. Queria estudar alguma coisa. 

 

P/1 - E conseguir dar aula melhor do que ela.

 

R - Não sei se fui melhor. (risos)

Eu tinha um professor de História que um dia disse para ele: "Um dia eu chego lá, um dia eu vou transmitir a aula como o senhor transmite", porque eu gostava como ele transmitia. Não sei se eu cheguei a ser como ele, mas o meu sonho era ser com ele, de dar uma aula natural, sem estar pegando em livro; o que me incomodava eram os livros. Ia escrever uma coisa, pegava o livro. Se você vai falar de um... Por exemplo, Getúlio Vargas, sabe a história de Getúlio Vargas, não é preciso estar folheando para dizer, entendeu? Era isso que me incomodava, agora eu não sei se eu cheguei a dar uma aula boa. (risos)

 

P/1 - Esse professor que você falou dava uma aula boa?

 

R - Boa. Ele dava uma aula naturalmente, sem estar pegando em livro, o que me incomodava era isso. Se eu estou numa faculdade, eu não quero que o professor pegue no livro. Saiba dar aula. Transmita a aula direito. Eu não tô no fundamental nem no ensino médio pra estar pegando livro. 

 

P/1 - E aí você foi dar aula de História onde, em primeiro lugar?

 

R - No primeiro lugar eu fiz um seletivo para dar aula, me botaram da primeira vez em São José de Ribamar, um CNEC [Campanha Nacional de Escolas da Comunidade]. Cheguei e disse pra diretora que eu queria dar aula, mas em primeiro ano e segundo ano; terceiro ainda não tinha condição, porque era a primeira vez que eu estava sendo professora de História. Ela aceitou. 

Naquela época fazia tipo um concurso pra entrar. Comecei a fazer uns seletivos de História e comecei a entrar na História, para dar História. 

 

P/1 - Como foram suas primeiras aulas?

 

R - Foram muito ruins. (risos) Eu disse pros alunos que eu não estava... Saí da Educação Física, mas se eles quisessem me ajudar eu aceitaria ajuda. Disse assim mesmo para eles, [que] eu sabia muito bem Química, Física e Matemática. Se eles quisessem ajuda nessas três matérias, [por] exemplo, pra professora não apagar no quadro quando fosse outra, porque eu dava aula depois para eles… Fazia todas as atividades para eles e depois eu dava minha aula para eles me ajudarem, porque eu não sabia. E eles aceitaram. Quando a professora de Matemática fazia... Deixava o trabalho lá, tudinho, eles pediam para ela não apagar. Quando eu entrava, eu fazia, explicando para eles como era; depois eles copiavam, aí eu ia dar minha aula e eles ficavam prestando atenção. Disse ainda para eles que eu ia aceitar ajuda, no que eles pudessem me ajudar eu aceitava. E eles começaram a me ajudar mesmo.

 

P/1 - Eles ajudavam como, eles te falavam a matéria?

 

R - Não. Eu ia começar, dava um tema e se eu gaguejasse, aí eles: "Professora, é isso", aí eu dava continuidade, então nisso eles estavam me ajudando. E eles começaram até a gostar, porque eu sabia todas as matérias, as matérias que eles tinham dificuldade eu sabia. Eu tinha prática nas outras matérias, não tinha na minha. 

Quando chegou no segundo semestre eu já estava [com] prática porque comecei a estudar em casa para dar aula para eles.

 

P/1 - Quando é que você começou a fazer peças, essas coisas? Para que idade você dava isso?

 

R - Eu comecei no ensino médio, porque em Educação Física também a gente tem muito de peça teatral. Eu vim, conheci de Educação Física… Botar as peças, um tema. Para você falar das mulheres de Atenas tinha uma peça e ficava muito melhor do que eu dar aula para dizer para eles como eram mulheres de Atenas, que eram submissas. Aí eles faziam a peça. 

Eles começaram a gostar desse tipo de aula que eu dava, mais peças. Assim, a avaliação, em vez de ser a prova propriamente dita, era uma peça teatral.

 

P/1 - Você fazia sempre isso?

 

R - Sempre. Aí eles gostavam, eu via participação. E dava sim para eles... Eu morria de sorrir quando eles faziam a mulher submissa na época de Atenas.

 

P/1 - Por que?

 

R - É porque eu acho que eles reparavam na família deles. Não sei, eles faziam bem. Eu gostava muito de peça, eles até diziam "a professora gosta muito de peça". Acho que porque vem da Educação Física, que a gente também fazia muita peça teatral, eu gostava. E minhas avaliações todas eram de peça, não eram... Só quando eu cheguei num colégio que eles: "Olha, tal mês é prova." Aí eu disse: "Não sou acostumada a fazer prova. Meus alunos não fazem prova." "Não, mas aqui...", "Mas eu não faço. Então me transfere pra outro colégio." Aí ela aceitou e nesse mês que ela fazia a prova para os outros, as outras professoras faziam a prova, o meu era peça. E eu os convidava para assistir à peça. Era uma peça que tinha avaliações, tinha jurado.

 

P/1 - O que vocês olhavam?

 

R - O comportamento do aluno, o jeito do aluno. Aí eu botava diretor, vice-diretor, todo mundo pra avaliar, pra não dar, por exemplo... Ele passou. Passou por ter passado? Não, como foi o comportamento dele? Ele se preocupou, ele estava nervoso?

 

P/1 - Mas ainda assim tinha aula na lousa, você explicando?

 

R - Claro. Para falar de um tema, eu explicava o tema todo, dava aula. Depois eu dizia: "Eu quero agora a peça." Mas não era a turma toda, cada um tinha os seus temas. 

 

P/1 - Teve alguma dessas que marcou mais, que você se lembra mais, dessas peças?

 

R - O que me marcou mais foi... (risos) Foi do Tiradentes. Eles fizeram um Tiradentes totalmente diferente (risos), aí eu: "Por que o Tiradentes era assim?" Eles disseram: "Porque, professora, a gente achou que ele era assim." Tá.

 

P/1 - Assim como, como eles fizeram?

 

R - Eles botaram o Tiradentes negro, com o cabelo de rastafari. (risos) Eu perguntei. Aí eles: "Não, professora, é porque nós achamos..." “Tá tudo bem.” Aquilo ali me marcou. 

Eu disse: "Esses pequenos querem me provocar?" Eu pensei, né? Como eles acharam isso, pra fazer desse jeito? Foi um choque pra mim. Aí eles: "Ué, professora, você é preconceituosa?" Eu disse: "Não, nada a ver, eu tô achando diferente. Não que eu sou preconceituosa, vocês querem me testar? Ou vocês estão me imitando, porque eu ando com o cabelo todo grisalho assim?" (risos). Aí eles começaram a rir.

Isso me chamou a atenção. De vez em quando eu lembro disso e fico só rindo. E assim, “por que eles fizeram isso?”

 

P/1 - Era algum aluno que era rastafari mesmo?

 

R - Não (risos). Ideia deles. Eu acho que porque eu também andava com o cabelo todo assim, coisa, acho que eles quiseram me chocar. 

 

P/1 - Eles arranjaram uma pessoa assim ou o aluno fez?

 

R - Eles fizeram uma pessoa toda rastafari, pintaram a menina de preto lá. Achei... Ué, virou negro? (risos) Aí eles "Ai, professora, a senhora é preconceituosa?" "Não, sou não. Ou vocês querem me testar?" Eles começaram a rir. "A gente sabia que a senhora ia pegar um choque." Falei “Ah, tá”. Tá bom. 

Esses alunos meus marcaram, porque eles achavam assim… Eles não tinham medo da avaliação e se preparavam pra fazer essas coisas, eu achava legal. Eles diziam: "Ela é toda assim. Não gosta de avaliação, ela não gosta disso outro, mas ela... Ela faz que o aluno participe." Que todos participassem, isolados, porque cada um tinha um tema. 

Eu não sei se eles me achavam individualista porque eu trabalhava em equipe, mas cada qual tinha um tema, não era... Porque eu acho assim, quando eu estudava o tema, a professora divide em equipe. Ela dá um tema numa equipe, um trabalha e o ao redor conversa. E eu já fazia totalmente diferente: botava em equipe, mas cada um tinha um tema, então cada um tinha que fazer. Aí um dia ouvi: "essa professora é toda individualista (risos), ela gosta de..." Mas no meu pensar, era pra todo mundo trabalhar, todo mundo. Um conversa, aí um apresenta e os outros ficam lá ociosos, sem fazer nada. Eu nunca trabalhei assim, mesmo porque eu trabalhava com a revista Mundo Jovem atualizada; ela vem vários temas, trabalhava muito essa revista.

 

P/1 - Você usava pra dar aula?

 

R - Usava pra dar aula. Já entrava com uma citação da revista Mundo Jovem.

 

P/1 - Pra ficar atualizada com eles. 

 

R - Com eles. E a revista Mundo Jovem é muito atualizada, ela vem... Por exemplo agora nós estamos na política, vem tudo falando de política, vem tudo... Então eu trabalhava muito com a revista Mundo Jovem.

 

P/1 - Você começou a dar aula em que ano, você se lembra? De História?

 

R - Eu não me lembro porque eu comecei na primeira Educação Física, ai depois... Eu acho que eu dei uns cinco anos ainda aula de História. 

 

P/1 - Você deu cinco anos?

 

R - Acho que eu dei uns cinco ou três anos de aula de História. Porque eu dei mais foi Educação Física. 

 

P/1 - Depois desses anos dando aula de História, você voltou a dar aula de Educação Física?

 

R - Não. Fui chamada, mas não quis. Eu tinha que estudar, tinha que me dedicar.

 

P/1 - Você foi fazer o que depois, então?

 

R - Depois que eu me aposentei?

 

P/1 - Digo... Você deu quantos anos de aula de história?

 

R - Acho que uns três anos, depois não dei mais. Eu entrei no ensino médio dando aula de História.

 

P/1 - E nessa época que você dava aula de História, você morava onde? Você teve filho, como foi isso?

 

R - Eu já morava no Quatrac. 

 

P/1 - E como foi isso?

 

R - Como assim?

 

P/1 - Como era lá?

 

R - No Quatrac?

 

P/1 - É.

 

R - Era normal. 

 

P/1 - Você ficou três anos dando aula de História só? Você não ficou mais tempo?

 

R - Eu não sei, não me lembro, porque logo depois eu me aposentei. Eu não quis voltar mais pra modalidade de Educação Física. Eu dava aula de natação; saí de tudo de Educação Física, natação, de tudo.  

 

P/1 - E como é que você veio morar na Vila Madureira?

 

R - Lá na Vila Madureira? Eu vim morar porque eu tinha uns alunos que moravam lá. Um dia eles disseram para mim que tinham um sítio. Eu tinha curiosidade de conhecer sítio; me convidaram um dia para passar um dia lá, aí eu fui. Conheci a avó deles, do menino, que [se] chama Tomázia Aguiar. Ela começou acho que a gostar de mim, aí comecei a ir muito para lá, então ela me convidou para morar lá. Aí fui. 

 

P/1 - Isso quando mais ou menos? Você se lembra?

 

R - Eu não lembro. 2000, por aí. Comecei a morar lá e trabalhar, fazer especialização aqui no centro, e as meninas começaram a ir para o ensino médio depois. Eu tinha muita amizade com eles, com as meninas, a neta dessa senhora, e fiquei por lá. Até sair. 

 

P/1 - Você construiu uma casa lá?

 

R - Construí. Lá ela tinha um sítio, era só família, e ela me deu, ela me mandou fazer uma casa. Eu fiz e morei lá.

 

P/1 - Você construiu uma casa de taipa?

 

R - De taipa. Eu nunca dormia lá na casa, eu dormia sempre na casa dela. A casa era só para dizer que tinha casa, de ir, trocar de roupa, mas eu fazia refeição na casa dela e dormia.

 

P/1 - Nesse tempo você ainda era professora de História?

 

R – Aí eu era professora de História.

 

P/1 - Entendi. Você fazia especialização no centro, como era isso?

 

R - Eu fiz uma especialização em História. 

 

P/1 - Era o que, uma pós-graduação?

 

R - Uma pós-graduação.

 

P/1 - Você fez em que área de História?

 

R - Gestão escolar. 

 

P/1 - E você se lembra da Vila Madureira, como era lá na época?

 

R - Na época que eu cheguei era... Eu não conhecia muita gente, porque ela morava no sítio dela e só assim a família, e ela... Acho que ela [era] muito solidária. Ela deu um desses sítios dela também, deu um pedaço pra moça que já até veio entrevistar aqui, a dona Isabel Moreira. A Isabel Moreira é afilhada dessa moça, Tomázia Aguiar. Deu também esse sítio pra ela, então eu só conhecia essa família de Dona Isabel e essa de onde eu morava. 

Quando nós viemos para cá, eu não conhecia mais ninguém, só conhecia a... Eles não me botaram perto da moça, da dona Isabel, eles me botaram muito longe.

 

P/1 - Da casa dela?

 

R - Da casa dela, aí eu não conhecia ninguém ao meu redor. Por que eu não conhecia? Porque eu trabalhava direto. Só chegava em casa à noite e não conhecia esse pessoal que morava bem numa vizinha, não conhecia. Eu tive um pouco de dificuldade para vir morar aqui, porque a família [com] quem eu morava lá não veio para cá.

 

P/1 - Da dona Tomázia. 

 

R - Da dona Tomázia, não vieram pra cá.

 

P/1 - Como é a dona Tomázia, como é o jeito dela?

 

R - A dona Tomázia eu não... Pra falar de dona Tomázia, ela é uma pessoa muito solidária. Ela tem assim, uma estrela, ela gosta muito das pessoas. Sei lá, ela não... Ai eu [disse:] "Por que eu tô morando aqui? Ela nem me conhece, ela não sabe quem sou eu". Podia ser uma pessoa má, né? Sei lá. 

Uma vez eu perguntei: "Por que a senhora me deu um abrigo na sua casa? A senhora me conhece?" (risos), e ela começou a rir. Ela disse pra mim assim: "Uma pessoa que não bebe, não fuma, deve ser normal, né?" E ela é muito solidária, uma pessoa muito boa. Porque para dar um abrigo uma pessoa que nem conhece, não sabe os seus preceitos...

 

P/1 - Mas você conheceu as netas dela?

 

R - Conhecia as netas dela, o neto, neta. Todos me conheciam. Acho que ouviu tanto falando de mim lá, que ela mandou eu passar um dia lá. Depois eu comecei a passar o dia, não saí mais.

 

P/1 - E me conta uma coisa, como é que foram as primeiras vezes que as empresas foram lá dizer quem iam remover, como é que... O que eles falaram pra vocês?

 

R - Olha, eu não tive muito contato com a empresa assim logo que foi remover, porque eu trabalhava direto e perdi o meu celular, os contatos, ai foi... Eu tive muita dificuldade, aí eles começaram a se mudar e eu já fui começando a ficar nervosa, porque eles não entraram em contato comigo. Eles entraram em contato, mas eu já estava sem celular, já tinha perdido na época. E eu trabalhando direto, quanto eles iam nas casas eu não estava. 

Um dia eles me pegaram pelo satélite. (risos) Todo mundo já saindo e eu... Um dia eu cheguei em casa, já tinha polícia, já tinha a gente, guarda, falei: "Ai meu Deus, eu tô sozinha aqui." Um dia eles me viram entrar no colégio da Vila Embratel, me viram sair do colégio da Vila Embratel; eles pensaram que eu fosse pra casa, eu passei direto, pro outro colégio. “Que hora que ela vai [pra casa]?” E nesse dia eu peguei o ônibus de novo e fui pro curso, que eu estava fazendo pós-graduação, nunca chegava em casa. 

Um dia eles fizeram esse percurso todinho e foram me esperar até… Quando eu fui chegando, eles foram chegando. Aí eles disseram: "Nós estamos o dia todinho sobrevoando, te procurando." Nessa hora ele falou: "Você pode ir falar com a empresa” - parece que era no Calhau. O moço me botou no carro e me levou, aí a gente foi conversar. 

 

P/1 - E eles falaram o que pra você? Como foi essa conversa?

 

R - Eles falaram que estavam de mudança, que era pra se mudar. Ia ganhar uma casa aqui e eu ia ganhar uma casa que eles alugam antes - eu esqueci o nome que eles dizem.

 

P/1 - Pra antes de você mudar pra cá?

 

R - Antes de mudar pra cá tem uma casa que eles alugam, foi alugada até esperar aqui, pra eu poder sair de lá. Eu não tive essa indenização que os demais tiveram, porque eu não tinha o terreno, era tudo dessa senhora Tomázia Aguiar, então era justa a indenização que ela fez, [foi] dela. Mas conversamos, ela me perguntou o que eu queria. 

Eu não tive esse dinheiro, a indenização, aí eu pedi um curso de inglês, [que] eles pagassem um curso. Até então eles não sabiam quem era eu (risos); disseram: "A moça tá pedindo um curso de inglês, então ela não é analfabeta", porque eles disseram logo no começo que todo mundo que morava ali era analfabeto. Eu pedi, eles pagaram um ano o curso de inglês para mim no Senac. Até... Aí o professor, um dia o professor, no Senac, disse assim: "Já ligaram para cá pra ver se você tá assistindo aula." Eu disse: "Professor, eu não sou presa não." (risos) “Presidiária, é, pra estar ligando?” Ele começou a rir. Ele disse: "Por que eles ligam, se tu tá assistindo aula?" Eu disse assim: "Ah, porque é uma ação social." Toda vez ele falava: "Já ligaram pra saber se tu tá assistindo aula", porque eles estão botando dinheiro na conta, pra ver se tá mesmo utilizado esse benefício. Eu pedi um ano de curso de inglês, fiz um ano de curso de inglês.

 

P/1 - E eles falaram do território no polo também?

 

R - Eu fui saber quando a gente veio pra cá que tinha o polo agrícola, essa terra. Inclusive ele... Eu ganhei 360 metros, que é bem pequeno pra trabalhar, mas na época eu não pude muito ficar porque eu estava trabalhando, dando aula. Fiquei só um expediente; ia para lá, um expediente, e o outro trabalhava normal. Mas depois desse 360 metros eu fui comprando dos meninos que não queriam. Fui comprando e aumentei a minha área.

 

P/1 - Você se lembra como foi o primeiro dia que você chegou na sua casa nova?

 

R - Não foi nada bom o primeiro dia que eu mudei. (risos)

 

P/1 - Ah, é?

 

R – É, porque a casa que hoje eu estou não tinha energia ligada. A assistente social disse que eu ia ficar para no outro dia ligar. Ficar, eu? Fico não. Aí minha família veio, meus irmãos vieram me trazer e disseram: "Não, ela não vai ficar aqui no escuro", aí me mudaram pra outra casa até regularizar. 

Eles fizeram duas mudanças comigo. Primeiro me botaram para outra, depois que regularizam lá me trouxeram, na responsabilidade da empresa. 

Quando nós viemos, cada família que chegava tinha uma reunião para conhecer os demais e eu não conhecia ninguém, inclusive, só dona Isabel.

 

P/1 - E família não era. Na casa era só você, não era?

 

R - Na casa era só eu. (risos). Vim com a minha família, meus irmãos vieram me trazer e ficaram uns dias até eu me adaptar aqui. Porque eu fiquei com medo, eu não conhecia as pessoas. 

 

P/1 - E como era a casa quando você chegou? O que tinha nela, como ela era?

 

R - Quando cheguei, eles deram um fogão, uma televisão, um botijão, só. 

 

P/1 - E estava bom pra você o tamanho, enfim?

 

R - Estava, porque eu vim só. (risos). Se fosse uma família, mas eu não era, então estava ótimo. 

 

P/1 - E quem foi o primeiro que você conheceu aqui, que você fez amizade, que você não conhecia antes?

 

R - Eu não... Eu comecei a trabalhar, eu não conhecia... A vizinha eu não conhecia, tive que me virar, conhecer, conversar. E eu não tinha muito esse tempo, porque eu trabalhava direto. Depois eu fui me adaptando. 

Não sabia onde ia pegar o transporte; aqui era muito ruim logo que nós chegamos, para pegar o transporte, mas eu tive que me adaptar. Sentia muito frio.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Porque o clima... O clima de onde eu vim era quente e aqui era muito frio, eu sentia muito calafrio.

 

P/1 - De noite?

 

R - De dia mesmo, meu Deus do céu, o que eu tenho aqui? Acho que foi o choque da... Assim, do clima. Eu sentia muito frio, aqui ventava demais. Eu não sei se era só, não sei.

 

P/1 - Você reencontrou dona Isabel aqui?

 

R - Ela chegou primeiro do que eu. Foi atrás de mim, ela viu que eu estava só. (risos) Ela disse: "Não, eu tô aqui." Ela mora bem aqui, era só ela que eu conhecia.

 

P/1 - E você dava aula em que escola nessa época que veio pra cá?

 

R - Na Vila Maranhão.

 

P/1 - É longe daqui?

 

R - Muito longe, pegava dois transportes. 

 

P/1 - Quanto tempo?

 

R - Quando eu vim para cá, pedi logo licença. Fiquei de licença até retornar para escola daqui, do Sergio Cabral Barreto.

 

P/1 - E você pediu licença pra fazer o que, pra trabalhar no campo?

 

R - Pra trabalhar no polo agrícola, pra conhecer o polo, me adaptar. Foi difícil também eu me adaptar no polo, porque não sabia fazer muitas coisas. A gente teve muitos cursos. Tem o agrônomo - eles botaram muita gente de fora, para vir pra cá ajudar. O agrônomo ensinando a pegar uma cavadeira, mandando todo mundo fazer… Quando eu fui não acertei. As meninas sabiam, claro, elas são acostumadas, aí ele disse: "Ai, você é uma agricultora, não sabe pegar uma cavadeira?". Aí um moço disse assim: "Ah, isso aí tem referência, não é agricultura. Você que procure ensinar ela direito." Aí eu disse: "Bora, me ensina." Ele foi ensinar, mas ele não gostou, achava que todo mundo devia saber. Acho que disseram para ele que todo mundo era agricultor.

 

P/1 - E vocês tiveram curso do que lá?

 

R - Nos tivemos o curso do Senar. O Senar ensinou... Teve de boas maneiras, nós tivemos vários cursos disso, porque quando chegamos lá tinha gente de outra etnia e vivia xingando. Teve esse curso, pedi o curso pra ensinar boas maneiras, se comportar, essas coisas. E tivemos curso também no campo, para aprender. Tivemos curso também de ergonomia, sabe o que é isso? Trabalhar com a enxada no perfil, curvando. Tem um curso que a gente pega a enxada e fica no perfil, não fica curvado. Eles até se admiraram, porque aqui no Maranhão nunca tinham pedido esse curso; nós tivemos o curso. 

E tivemos vários cursos para a gente poder se adaptar com a terra, eu inclusive, porque eu não sabia pegar uma enxada, eu não sabia pegar várias coisas. Não sabia fazer um canteiro, não conhecia a terra. Eu chamei os cursos para conhecer a terra, queria conhecer a terra, queria me adaptar, trabalhar junto com eles. Se eles sofressem eu também sofria, pra saber as coisas. Mas tive muita dificuldade porque eu não era acostumada. 

Eu tive outra dificuldade na hora do almoço, que ia comer… Eu tive dificuldade porque eu só sabia comer de garfo e eu tive a dificuldade de comer com colher - caía, até que eu aprendi, não sabia comer de colher. Eu tive essa dificuldade, mas pra viver com eles, você tem que se adaptar do jeito deles. Como eu ia comer numa mesa assim, de garfo? Eu tinha que ter uma colher, e eles diziam: "Ela não sabe comer de colher." “Mas eu vou aprender”, e aprendi. Para eu conviver com eles, eu tive que me adaptar em várias coisas.

 

P/1 - E como foi essa coisa de agricultura orgânica, você conhecia isso?

 

R - Não, eu não conhecia nada de agricultura. Pra mim foi novidade conhecer e gostar. A orgânica é sem agrotóxico, a gente não usa, e você... O nosso produto você pode só lavar e comer, não tem esse aparato, botar vinagre, botar sal, não. Lava e come, porque não tem agrotóxico. E trabalhar sem agrotóxico é muito bom, agora você tem que ter a paciência, porque ele é lento para crescer. 

Hoje eu sei fazer meu próprio adubo orgânico; eu faço, trabalho com meu próprio adubo. E a gente trabalha também com casca de ovo, casca de banana, nada a gente bota fora, sabemos trabalhar.

 

P/1 - Com animais também, vocês aprenderam?

 

R - Não. Teve um tempo que criamos galinha caipira, caipirão, mas terminou, não deu certo. 

 

P/1 - E de onde surgiu essa vontade de trabalhar no campo, com... Você que era professora de História?

 

R - Surgiu no momento que eu ganhei a terra, né? Ganhei a terra, não ganhei? Eu vou trabalhar. Se eu ganhei a terra, eu vou dar para outra pessoa cuidar? Já que eu tenho tudo isso, tinha técnico, tinha agrônomo, tinha tudo nas minhas mãos, então eu vou aproveitar. Aproveitei o máximo que eles tinham para me dar. Já assisti muito curso. Fui gostando e até hoje eu tô lá. 

 

P/1 - Você gosta dessa vida hoje?

 

R - Gosto. E logo quando souberam que tinha professora no meio, aí veio muita entrevista de fora, para me entrevistar. E na época não podia... Na hora que eles vieram, não podia tirar foto porque estavam ensinando, não aceitavam tirar fotos para divulgar. Hoje já aceitam, mas na época que eu estava trabalhando não aceitavam. 

 

P/1 - E os seus companheiros achavam curioso ter uma professora no meio ali?

 

R - Eles achavam bom. "Ah, nós temos uma professora na lavoura." (risos). E eu defendia eles assim: “Nós temos seminário?” Estava no seminário. O que eles sofriam lá eu sofria também, porque se eu estava no sol quente com uma enxada,  eles: "Ah, ela não trabalha com a enxada." Trabalho. Eu faço meu próprio canteiro. Eu capino. Trabalho junto lá. 

Se eu defender um agricultor, é porque eu sei o que eles sofrem. E eu desmaiava bastante (risos), porque lá eles botaram... Tinha um telado muito baixo, às vezes [era] quente. Comecei a desmaiar. Aquele cheiro do adubo eu vomitava, tive muito [isso] de não me adaptar. Hoje não, não tenho mais problema, por mim o adubo tá bem ali e eu nem sinto mais o cheiro. 

Pra defender um agricultor num seminário, em qualquer lugar, eu tenho que saber como eles estão, como eles sofrem. Nós temos muita dificuldade, e eu estou lá. 

 

P/1 - Sofre como?

 

R - Nós sofremos assim: esse sol quente chega muito cedo na horta por causa do sol, porque com esse sol de dez horas a gente não aguenta mais, tem que sair. Temos esse tipo de dificuldades, aqui no Maranhão o sol é muito quente, aí a gente sofre. 

Esses dois dias a gente tirou pedido. A gente chega lá cinco e meia para tirar a entrega para oito horas já estar dentro do carro, então a gente chega cedo, a gente trabalha. Dizem: "Ah, agricultor não trabalha." Trabalha sim. E o agricultor não tem férias, não tem feriado. Que bom que era o Dia do Professor, no feriado ficava em casa; hoje não, [no] feriado, se eu não for para a minha roça, morre. Eu tenho que olhar a minha alface, tenho que olhar as coisas. 

 

P/1 - Você aprendeu a gostar das suas plantas?

 

R - Aprendi a plantar, a gostar. Mas [o] importante [é] que eu chego assim [e] conheço a terra. Eu faço o meu próprio substrato, conheço meu substrato. E conheço quando as pessoas estão mentindo, dizendo que é substrato e não é.

 

P/1 – É uma coisa que você imaginou, que na sua vida você iria aprender, ia gostar disso, ou não?

 

R - Não. Nunca pensei. Se eu soubesse que minha vida ia ter essa mudança, eu faria Agronomia, né? (risos) Eu pensei: "Poxa, se eu soubesse..." A gente nunca sabe o que vai acontecer. Se eu soubesse disso, estaria sendo uma agrônoma, não uma historiadora.

 

P/1 - Mas ainda dá tempo, não dá?

 

R - Ah, eu tô com preguiça de estudar. 

 

P/1 - E você fez sua casinha lá?

 

R - Onde?

 

P/1 - No polo. 

 

R - Não, a gente tem um quiosque. Logo quando nós chegamos, eu pedi pra empresa fazer um quiosque, porque a gente fica lá o dia todo. Quando nós chegamos, a gente não tinha esse quiosque, a gente tinha... A gente não tinha nada, eles entregaram a gente sem quiosque, sem nada; a gente ficava assim, [era] muito ruim para tirar os pedidos. Aí começamos a pedir, pedir. As primeiras que foram com a gente, as assistentes sociais, eu acho que elas não fizeram o pedido pro órgão competente para fazer um quiosque, para dar esse apoio para nós. Os primeiros que vieram foram pessoas de Goiânia. Quero saber alguma coisa do Maranhão, tô sofrendo. 

Depois saiu esse pessoal, aí veio a Elizabeth Teles. Se essa moça, ela... Se tivesse o dinheiro que teve logo quando começou, ela faria muita coisa por nós, mas os primeiros que vieram ganharam muita verba e não souberam investir. Ou não quiseram investir, porque quando a Elizabeth chegou não tinha mais essas verbas que tinha, mas ela faz muita coisa e faz até hoje. Se ela estivesse conosco desde o começo, nós estaríamos a anos-luz, com certeza.

 

P/1 - Como é a relação de vocês com a Eneva?

 

R - A relação com a Eneva… A gente, hoje, fala mais através de projeto, e [em] todos os projetos que chegam lá, nós somos atendidos. Quando estamos com problema, botamos o problema pra lá e nós somos atendidos, nunca abandonaram. "Ah, deixa essa horta de Canaã pra lá." Não, quando chega algum telefonema, alguma coisa, a gente é atendido. 

 

P/1 - E me diz uma coisa, como é a estrutura do Horticanaã? O que tem lá pra vocês trabalharem?

 

R - Como assim?

 

P/1 - Por exemplo, de ter uma casa de higienização?

 

R - Nós temos uma casa de higienização e estamos precisando de uma reforma -  já está caindo o forro. Mas nós estamos trabalhando lá porque nosso pedido a gente bota lá. Mas nunca teve, essa casa de higienização era para a prefeitura de Paço do Lumiar investir em polpa, essas coisas que nós temos, congelador, temos tudo para investir; a gente pede ajuda e eles não… Pra dar mais emprego. Tem pessoas ali que só precisam, só dependem da agricultura, não têm outro emprego fora. E pra precisar só da agricultura tem que ter projeto, tem que ter programas. Se não tiver, para quem eles vão vender a mercadoria? Tem que ter.

 

P/1 - O polo mudou sua vida, você acha?

 

R - Não achei; me deu foi um trabalho, tive mais trabalho.

 

P/1 - Mudou a forma de trabalho, né?

 

R - É. (risos) Mais trabalho. 

 

P/1 - E como é que você vai para o polo todo dia?

 

R - Eu vou de moto, tenho uma moto. De primeira eu ia andando, pegava carona, ia de ônibus. E quando a moto dá prego, esses dias ela tá em prego, eu vou de ônibus. Eu não tenho dificuldade para ir, porque aqui no Canaã tem muita gente que deixou a área deles e são acomodados, não querem trabalhar. Eu acho assim, não têm perspectiva. "Ah, porque é longe." Nada é longe, se você tem um transporte não custa nada você descer e pegar o transporte. Eu já fui de carroça, já fui de ônibus, já fui de carona; eu vou de tudo, mas vou. Não tenho esse “porque é longe". 

O que eles disseram [é] que essa horta devia ser perto daqui, muita gente diz isso.  Se fosse perto daqui, acho que eles chegavam na horta às dez horas, porque iam dormir, se acomodar em ir para lá. Eu acho que tem muitos moradores aqui que já passaram a casa, foram embora de novo, porque não tem essa perspectiva de vida. Eles querem que a empresa bata na porta [e diga:] "Tá aqui essa cesta básica, tu passa um mês.” No outro dia vem de novo. 

Procure trabalhar. Se ele tá dando uma terra para você, trabalha na terra, tire da terra, não é preciso você estar ganhando uma cesta básica, mas tem muitos daqui que são muito acomodados. Não vão porque... Como é que diz? É longe. Aí bota mil defeitos. Eu vou, nunca faltei um dia. Tem dia que eu fico lá o dia todinho, principalmente quando eu quero botar adubo, eu tenho que esperar esfriar para poder adubar. Tem que ficar o dia todo, não vou lá adubar no sol quente que vai morrer. 

Eu acho que o povo daqui é muito acomodado. Eles alegam assim, acho que já teve essa entrevista que eles disseram: "O polo agrícola devia ser aqui defronte". Com certeza eles já disseram isso. Não, gente, trabalhem. Eu não tenho essa dificuldade,  nós temos reuniões lá sempre. Não, eu não tenho essa dificuldade se é pra trabalhar, bora trabalhar.

 

P/1 - Como é que está a associação dos produtores agrícolas?

 

R - Tá bom, teve uma mudança, teve uma nova eleição. E nós estamos indo. 

 

P/1 - Está funcionando, vocês conseguem se entender ou brigam muito, como é?

 

R - Não, consegue se entender. A reunião é pra isso, pra saber o que tá.... Na nossa reunião, tudo que a gente tem pra conversar, conversa. Não é depois de sair pra estar falando de A e B, nós falamos na frente: "Eu não gosto disso, disso e disso."

 

P/1 - Quem são seus companheiros lá na Associação? Os seus próximos?

 

R - Meus companheiros? Mais próxima de mim é a Edileuza Moreira, não sei se ela já veio dar entrevista. Ela fica mais próxima, a gente tem mais contato. Conversamos mais também. 

 

P/1 - Conversa do que?

 

R - Sei lá, besteira. (risos)

 

P/1 - Hoje você pode dizer que você fez amizades aqui, que você está integrada?

 

R - Ah, eu posso dizer que eu tô integrada, todo mundo me conhece. Eu acho que eu sou integrada, porque é um bairro que todo mundo se conhece, que a metade é de agricultores, vive lá também na agricultura. E eu nunca tinha morado num bairro que todo mundo me conhecesse, né? Acho bom, todo mundo me conhece, todo mundo sabe.

 

P/1 - Que lugares aqui da vila você gosta? Onde você gosta de ficar aqui, além da sua casa? Tem algum lugar que você frequenta aqui?

 

R - Tem não.

 

P/1 - Praça, nem?

 

R - Não.

 

P/1 - Mais a sua casa, né?

 

R - Quando eu venho para casa, já venho morta. (risos) Já é para eu tomar banho e dormir. Não tenho assim, muita... Eu faço aula de alongamento funcional, eu faço terça e quinta aqui mesmo.

 

P/1 - Onde aqui?

 

R - No colégio.

 

P/1 - Você não pensou em trabalhar na UEB [Unidade de Educação Básica] em algum momento ou não? Acompanhou um pouco como foi a escola?

 

R - Não, quando eu cheguei, trabalhei.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Quando eu cheguei aqui, eu trabalhei. Depois eu quis sair.

 

P/1 - Por que?

 

R - Porque eu já estava muito cansada, ficar no polo, vir. Eu trabalhei no EJA [Educação de Jovens e Adultos] aqui, mas depois a gente fica muito cansada. Uma coisa ou outra, tem que se dedicar. E eu queria a dedicação mais lá no polo. 

 

P/1 - E dava aula de que, de História ainda?

 

R - Não, sai. Não quis, não quero. 

 

P/1 - Mas quando você ficou lá, você dava aula de que? Do que você deu aula lá?

 

R - De todas as matérias, porque o EJA pega todas as matérias.

 

P/1 - Você deu aula pra alguém que a gente conhece, provavelmente?

 

R - Não, acho que não. Era gente de fora. 

 

P/1 - Era alfabetização?

 

R - Alfabetização, o EJA [era] mais alfabetização.

 

P/1 - Mas não tinha ninguém de dentro da Vila Canaã?

 

R - Não, era mais aqui da Vila Do Povo.

 

P/1 - Agora me conta uma coisa, você trabalhou um pouquinho da rádio, não foi?

 

R – É, quando... Fiz duas vezes o curso. Quando a rádio estiver funcionando a gente volta a trabalhar.

 

P/1 - Como foi fazer o curso aqui?

 

R - Da rádio?

 

P/1 - É. 

 

R - Foi muito bom, novidade. (risos)

 

P/1 - Vocês aprenderam como, aprenderam o que nesse curso?

 

R - Aprendemos a montar a máquina para falar. Aprendemos como falar, que é uma falinha enjoadinha, aí temos que mudar tudinho. O professor ensinou isso.

 

P/1 - Como falar, como é que fala?

 

R - Não, porque tem... Na hora que a gente falava no microfone, como falar, tem uma coisa, que a gente coloca o microfone aqui e fala, ele explicou tudo isso. E falar em voz para todo mundo escutar, falar “Aqui é Cleonice Eulália”, aquela vozinha enjoada, aí ele manda a gente modificar aqui, assim. Fui aprendendo, gostei. Fiz duas vezes o curso. 

 

P/1 - E como era a rádio, como era a programação?

 

R - Na programação da rádio a gente falava de saúde, utilidade pública, e a comunidade pedia para botar música. A gente selecionava as músicas e botava, oferecia para a comunidade.

 

P/1 - Utilidade pública como?

 

R - Não botar lixo na rua, cuidar dos cachorros, essas coisas. A gente botava. 

 

P/1 - Dava avisos?

 

R - Avisos, fazia propaganda desses comércios. A gente fazia isso de vez em quando. 

 

P/1 - Você tinha seu programa?

 

R - Tinha. 

 

P/1 - Como era, qual o nome do programa?

 

R - (risos) Eu tinha esquecido do programa, éramos eu e Patrícia. Tinha dia que era eu e Patrícia junto, e tinha eu e Valentim. Acho que ele já veio dar entrevista aqui, ele é da cultura. 

 

P/1 - E vocês falavam do que nesse programa?

 

R - A gente falava da... Primeiro a gente fazia um projeto, perguntava pra comunidade o que eles queriam. A gente fazia uma entrevista com eles. Quando a gente vinha abrir aqui a rádio, a gente citava o nome das pessoas, a música que queriam, assim que era. 

 

P/1 - Mas vocês tinham algum tema?

 

R - Tinha o tema, eu me esqueci. (risos)

 

P/1 - Vocês falavam sobre o que nesse programa, você e a Patrícia?

 

R - A gente cumprimentava, dizia a hora, porque o professor dizia que tem muita gente que liga o rádio para saber a hora. (risos) Então de vez em quando a gente estava dizendo a hora, dizer a hora para a gente era primordial. E ele falava da dengue - na época estava com a coisa da dengue - para tirar, emborcar as coisas no quintal; a higiene, o lixo na rua… Porque aqui a gente tem um caminhão que passa no lixo, não é preciso você botar lixão no baldinho, né? Bota em sua porta. A gente falava desses assuntos. 

Aí começava o Valentim, Valentim e Cleonice Eulália. Tinha dia que era Patrícia e Cleonice Eulália… A gente fazia assim. 

 

P/1 - Você pode dar um exemplo pra mim de como você falava, como era uma chamada?

 

R - (risos) Aí, não sei te dar exemplo. Às vezes eu falava: "Ela é a Patrícia de Souza, eu sou Patrícia Costa", outra vez ela dizia, e eu falava também, "Eu sou Cleonice Eulália". Eu falava alguma coisa assim, não sei te dizer.  

 

P/1 - Durou quanto tempo essa coisa da rádio?

 

R - Durou um tempinho bom, depois escangalhou não sei o que, a gente ficou... Depois veio outro curso, tornou a abrir, depois escangalhou de novo e nunca mais funcionou. Mas dizem pra Patrícia que vai funcionar. 

 

P/1 - E qual era a importância da rádio na época?

 

R - Ela sempre foi importante, porque se tivesse um aviso para dizer para comunidade a gente botava na rádio. Se tivesse alguma coisa de médico, no hospital ali, a gente avisava na rádio; se tivesse alguma coisa no colégio, a gente avisava na rádio. A gente entrevistou várias professoras do colégio, ela gostava do UEB Canaã. Teve essas coisas boas.

 

P/1 - E nessas entrevistas vocês perguntavam sobre o que, o que vocês perguntavam pra elas, pras pessoas em geral?

 

R - A gente perguntava se ela gostava daqui, do UEB Canaã, ou [se] veio porque estava precisando de um emprego. Elas falavam que elas gostavam de criança. E a gente entrevistou também - tem aí a coisa que eu trouxe -  a gente entrevistava para eles falarem da vida deles, como era a vida.

 

P/1 - E o que você planta no seu terreiro?

 

R - Hortaliça. É alface, rúcula, maracujá, mamão. Agora a gente vai mudar um pouco da cultura, a gente vai plantar... A gente tá num projeto para plantar cacau.

 

P/1 - Você come essas coisas que planta?

 

R - Como. Eu não tinha hábito de comer, no Maranhão pouca gente come a rúcula, já vieram... Esses técnicos que vieram de fora ensinaram a gente a comer rúcula, aí eu como e virou hábito, eu como da minha horta. E já fiquei também com medo de comer de outras pessoas. Se eu for na casa de um parente eu não como a hortaliça dele, eu levo a minha. [Digo:] "Por favor, bota a minha", porque a minha eu sei que não tem agrotóxico. Fiquei com esse medo de comer coisa com agrotóxico.

 

P/1 - E você sente diferença da comida com e sem agrotóxico? A sua e a dos outros?

 

R - Sinto. A gente conhece quando tem agrotóxico. A nossa dura sete dias na geladeira, e a que tem agrotóxico é só três dias. Tem essa diferença. 

 

P/1 - E no sabor também?

 

R - Eu não sei do sabor, mas da couve, se você botar uma que não tem agrotóxico no liquidificador, ela vai bem menos suave. Quando você bota uma que tem agrotóxico, ela estala. Faz 'trac, trac'. A gente conhece assim.

 

P/1 - E vocês vendem pra escola?

 

R - Pra escola, entregamos pra escola. E o produto com agrotóxico fica grande, enorme. Já sabe que aquilo ali... (risos) Mas a gente já experimentou quando estava [com] o nosso substrato e a nossa também ficou grande. Fiquei até preocupada, disse: "Que é isso que tá ficando grande assim?"

 

P/1 - Tem alguma coisa que eu não perguntei que você gostaria que eu perguntasse? Alguma história que gostaria de contar?

 

R - Aqui eu participo do funcional, tem a dança cigana também. Eu participo, tudo que tem na comunidade eu participo. Não sou sedentária. Tudo que vem para comunidade em benefício à saúde eu participo. E a vez participo até de cursos para incentivar outras pessoas. Participei do curso do tambor de crioula, fiz o curso. Porque devemos.... Pedimos um curso para a Eneva, veio o curso e eu participei -  mais para incentivar, não para ser uma dançarina do tambor de crioula, mais para ter o incentivo.

 

P/1 - E você busca incentivar quem, os mais jovens?

 

R - É, para os mais jovens se inspirarem, porque eu acho que os jovens estão muito acomodados, e as pessoas daqui do Canaã são muito acomodadas. Às vezes são obesos e não fazem uma atividade. Eu sou magra e faço todas as atividades. A minha saúde é boa, eu não tive problema de gripe, de nada durante essa pandemia, não tive nada, então eu acho que a minha saúde é boa. 

 

P/1 - E o que você acha do futuro aqui da Vila Nova Canaã, do polo agrícola, o que você acha que vai acontecer?

 

R - Do polo agrícola nós estamos pensando que vai... O futuro de lá vai ser bom, porque nós estamos agora com projeto de organizar a água. O projeto já está andando, porque lá sem água nós não somos nada. Nós dependemos muito da água, da energia. A gente também já está com esse projeto de placa solar nos poços, seria muito bom para nós no polo agrícola. 

Aqui no Canaã tem muita coisa... Essas ruas que... Urbanizar, botar... Fazer uma estrutura para roquear, é muita poeira, tempo de inverno é poeira… Não, tempo de verão é poeira e tempo de inverno é lama. Eles deveriam entregar aqui já com ‘pichada’ [com piche], tudo direitinho; entregaram empoeirado. Já que botaram a gente para cá, né? 

Tem muita coisa a fazer ainda aqui no Canaã. E uma estrutura pra esses jovens, uns projetos para ver se eles se adaptam, porque tem muito jovem aqui ocioso, sem fazer nada. Sem fazer nada pensa besteira, né? Pensa loucura. E incentivo aqui no Canaã, porque eu vejo muitas pessoas sedentárias, sem fazer nada o dia todo. E isso me incomoda, que eles não façam nada. Tem dia que eu não tenho tempo para nada, porque no dia que tem reunião ali eu quase não tenho tempo.

 

P/1 - Você é uma pessoa muito ativa, né?

 

R - Eu sou muito ativa. (risos)

 

P/1 - E de onde que você acha que tira força?

 

R - Acho que é a saúde (risos), porque eu não adoeço. 

 

P/1 - Uma coisa que eu não perguntei ainda, se você tem, teve filho. 

 

R - (risos) Eu não quero falar. 

 

P/1 - Não tem problema não. 

 

R - Hoje como você vê, o que espera para o futuro da Vila Canaã?

 

P/1 - Eu espero pro Canaã ter um projeto que incentive as pessoas. Acho que eles estão precisando de um incentivo, de ter um projeto que anima, bota... Porque a gente já fez de tudo aqui, já botamos zumba, já botamos dança. Eles vão, depois  desanimam.


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