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História

Uma professora da Mooca

História de: Janete Gasparini Torres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/12/2013

Sinopse

A entrevista de Janete Gasparini Torres foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 14 de novembro de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Descendente de italianos Janete conta que sua infância foi marcada por muitas crianças na rua, pessoas de diferentes lugares como Portugal, Hungria, Itália, Espanha e que todos conversavam e brincavam muito. Jante conta que desde pequena gostou muito de estudar, não tinha certeza sobre ser professora, mas sabia que queria estudar sempre. Ela explica que começou a dar aula em um curso de admissão na escola onde estudava e desde então não parou mais. Trabalhou 50 anos como professora e hoje em dia ainda pensa em voltar a dar algumas aulas.

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História completa

A minha mãe nasceu na Itália e meu pai nasceu na Mooca. Ele era gráfico. Gráfico trabalhando numa tipografia e minha mãe continuou trabalhando como tecelã. Ela continuava trabalhando na fábrica. Porque eles eram uma família muito simples, não ganhavam muito e esse terreno começaram a construir uma casinha pequena. Era um bairro sossegado, com muitas crianças na rua. A minha rua, Domingos Oliveira, ela tinha as pessoas que moravam de lá vinham de diferentes lugares. Então tinha dona Maria a italiana, dona Maria a portuguesa, tinha a espanhola. No larguinho você tinha família que tinha vindo da Hungria. Aí tinha várias nacionalidades. A gente se reunia, conversava muito, conversava-se no portão, tinha ainda as cadeiras na rua onde você batia papo. Os vizinhos se conheciam muito e as crianças brincavam na rua e no larguinho, que o larguinho era o ponto de encontro. Era um lugar agradável. A escola ficava próxima, você podia ir a pé muito facilmente. Tinha o Grupo Escolar Armando Araújo, que ele foi depois demolido, foi construído em outra rua, na Juvenal Parada, mas antes ele era na Rua da Mooca, um edifício bem velho, bem antigo, alto. A minha mãe era uma católica que ia de vez em quando. Sabe como é que é? Nos eventos. E meu pai que não se dizia religioso, quando ele faleceu eu fui mexer nos documentos dele, achei tudo quanto era santinho. Um monte de santinho que eu tenho até hoje. Até hoje. Na Juvenal Parada, onde hoje fica o Armando Araújo, em frente tinha uma igreja metodista, protestante. Eu ouvia bater palma, cantar, eu falava que queria ir lá. Minha mãe falava: “Não. Eu não posso entrar nessa igreja. Eu nunca entrei numa igreja diferente da minha, eu não posso te levar”. Então veja você, quando eu entrei no grupo escolar como ouvinte, as carteiras eram duplas. A minha coleguinha do lado, Zuleica, convidou-me pra eu ir a igreja que justamente era essa da Juvenal Parada. Ela falou: “Você me espera na esquina que eu passo com o meu pai e com a minha mãe, pego você e te levo”. Meu pai ficou na esquina, na Rua Oratório, no domingo ela passou por lá e me levou. Aí eu fiquei muitos anos na igreja metodista. Eu sempre quis estudar. Gostava de estudar, não sei se eu queria ser professora ou não, mas assim, vontade não. Acho que tinha sonhos de estudar. Isso é verdade. Nada além disso. Então, eu terminei o ginásio, aí eu fui fazer o primeiro colegial. O primeiro e o científico. O diretor falou assim pra mim, eu tinha o que? Quinze anos? É. Quinze anos. “Olha, eu tenho um curso de admissão. Eu vou te dar umas aulas pra você dar no curso de admissão.” “Eu confesso a você que eu me senti um pouco despreparada. Porque enfrentar uma sala de aula não é fácil.” “Não, mas eu coloco fé em você”. Aí além de ganhar a bolsa ele me pagava pra dar aula nesse curso de admissão. Eu comecei a dar aula, eu me lembro do primeiro dia que eu comecei a dar aula, caiu um toró, um toró. Eu entrava às três horas. Era perto da minha casa, chovia, eu tinha uma saia azul que molhou por causa do toró, mas fui assim mesmo. Com barra molhada, mas fui. Tremia mais que os alunos. Eu tremia pra dar essa primeira aula. Mas aí eu comecei, comecei a dar aula no curso de admissão lá no São Lucas mesmo. Eu tive outro trabalho antes desse, não esqueça que eu ajudava a minha mãe a colar saquinho. E não era pouco, não. Eu tinha horas de trabalho. Quando eu estava na sexta série, que seria hoje a sexta série, que era segunda série do ginásio, então eu tinha 12 anos, os meus coleguinhas de classe falavam: “Janete, você não quer ajudar a gente? Nós estamos com dificuldade.” “Ah, tá bom. Eu ajudo”. Então comecei a ajudá-los. A gente tomava um... Ia a casa de um, tomava um chá, tomava um bolo. Depois de um tempo eles falavam assim: “Janete, mas eu acho que você merece ganhar alguma coisa”. Aí eles começaram a me dar simbolicamente alguma coisa. Os pais deles quiseram me dar. Porque eu passava uma tarde ajudando os filhos, as crianças, os jovens da minha idade com 12 anos, 12, 13 anos também. Eu falei: “Que bom”. E aí eu comecei a receber. Meus primeiros salários foram com 12 anos. Primeiro salário oficial foi com 15 dando aula no curso de admissão. Daí pra frente eu só trabalhei. Então se eu tenho 71, vamos colocar 70, você faz a conta quantos anos dão de trabalho. Você acha que alguém que ficou 50 anos trabalhando vai ficar sem fazer nada na vida? Não. Não dá. É impossível. Já estou pensando em tudo. Acho que eu vou voltar a dar aula particular, viu? Acho. Se bem que eu gostaria de fazer um trabalho em meio período em que eu visse pessoas, conversasse com pessoas. Mas eu tenho assim, faço meus exercícios, eu faço tudo a pé, faço tudo devagar. Tudo que eu fazia correndo eu faço mais devagar. Faço mais devagar. Como diz assim o poeta, sobra tempo. Sobra tempo. O tempo anda lentamente. Parece que o tempo anda mais devagar.

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