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História

Uma personalidade marcante

História de: Francisco Valadares Póvoa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Francisco Valadares Póvoa relembra sua infância no interior de Minas Gerais, em Manhumirim. Era um menino que gostava de leitura, e sempre trabalhou desde 12 anos de idade. Ainda jovem passou em um concurso para trabalhar no Banco Nacional da cidade, mas por influência de seu padrinho foi incentivado a buscar maiores oportunidades. Aos 16 anos se mudou para Belo Horizonte, onde teve a possibilidade de estudar em um colégio universitário de elite e se formar em Engenharia de Minas na UFMG. Como estudante, Francisco foi um bom aluno, tendo ganhado a honraria de personalidade marcante no curso de Engenharia. Fez estágio na Vale e assim que se formou, foi contratado. Francisco participou do Projeto Carajás, da concepção até sua operação, foi diretor da Rio Doce Internacional na Bélgica, presidente do conselho fiscal de florestas da Vale do Rio Doce, entre outras grandes funções que teve na empresa. Atualmente, é presidente da Investvale, desde de 1994, quando houve o processo de privatização da Vale.

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História completa

P/1- Qual o seu nome, data e local de nascimento? 

 

R - Meu nome é Francisco Valadares Póvoa, nasci em 28 de fevereiro de 1949 em Manhumirim, Minas Gerais.

 

P/2 - Seus pais são de lá também?

 

R - Meus pais também são de Manhumirim, e meu avô paterno veio de Portugal e minha avó paterna veio da Suíça; e avô materno e a avó materna vieram do Brasil mesmo e seus pais da Itália.

 

P/2 – Mas, eles vieram para Brasil de Portugal e da Suíça? 

 

R – Os avós paternos, o avô originário de Portugal e a avó da Suíça da família Breder e meu avô Gonçalves Póvoa de Portugal.

 

P/2 – Como é que eles se encontraram, vieram para o Brasil, se conheceram aqui?

 

R – Se conheceram no Brasil em Manhumirim.

 

P/2 – Os dois foram para lá?

 

R – Os dois foram para Manhumirim, numa onda de imigração suíça para a região do Caparaó, que é uma região montanhosa lá perto de Minas Gerais onde fica o Pico da Bandeira. E meu avô paterno Adelino de Gonçalves Póvoa veio para estabelecer uma pequena fazendinha, um sítio em Manhumirim, todos eram de proprietários rurais e trabalhavam em terra né, e acabaram se conhecendo e casando. E o avô materno, o seu pai veio de Portugal também, a avó materna que é Frederico, os pais dela vieram da Itália e também se conheceram na região de Manhumirim, Anchieta, aquela região próxima ao Espírito Santo e Manhumirim, casaram-se e foram morar em Manhumirim também.

 

P/1 – E era uma região de imigração?

 

R - Uma região de grande imigração, exatamente, Italiana no Espírito Santo, portuguesa e alemã na região de Manhumirim, suiça também, a região toda teve muita imigração. No final do século passado e no início deste século teve muita imigração.

 

P/1 – Para lavoura também?

 

R – Para lavoura, exatamente.

 

P/2 – E você tem mais irmãos?

 

R – Eu tenho mais três irmãos, tenho uma irmã que é médica, trabalha em Itabira também, tenho um irmão que é técnico em mineração, trabalha na Vale, chegou a trabalhar em Carajás e agora trabalha em Itabira é o Rogério, e a irmã é Virgínia, a médica. E uma outra irmã, que mora aqui no Rio de Janeiro, a Mirian e que sempre se dedicou ao lar nunca trabalhou em uma atividade específica.

 

P/2 – E como era, você lembra da sua casa da infância lá?

 

R – Lembro, nos morávamos em Manhumirim, e meu avô materno tinha uma padaria, uma das grandes padarias em Manhumirim e quando o meu pai se casou com a minha mãe - minha mãe era filha única - ele se casou e depois até que o, tanto o pai quanto a mãe da minha mãe, que dizer os avós maternos haviam falecido, e então ele se casou com a minha mãe e ficou tomando conta da padaria. Então o negócio do meu pai foi padaria e Manhumirim durante muito tempo, houve uma época que fechamos a padaria fomos para exatamente a fazendinha do meu avô, passamos lá 4 anos e voltamos para a padaria. Eu sempre estudei em Manhumirim mesmo, antigamente era colégio de padres, chamava Colégio Pio XII e depois virou escola estadual, estudei sempre nesta escola, escola estadual em Manhumirim até o segundo ano científico. Então morávamos lá, a casa era a padaria, embaixo era a parte de fazer pães, em cima era a casa, era um sobrado né, com um quintal muito grande, bastante amplo, cidade do interior. Naquela época o transporte principal, o meio de transporte principal era Estrada de Ferro Leopoldina, via férrea né, que passava, ia até Manhuaçu era o ponto final da estação, da linha, e vinha até o Rio de Janeiro, passando por Manhumirim, Espera Feliz, várias regiões né, Muriaé até chegar ao Rio. Então naquela época as estradas de rodagem eram muito ruins então o meio principal de transporte era a ferrovia, como o acesso até o Belo Horizonte era muito ruim inclusive, a maior parte de todo comércio, de toda região, inclusive Manhumirim era feito com o Rio de Janeiro. Então eu me lembro na época que trens a vapor, alimentado até por lenha chegava a Manhumirim trazendo farinha de trigo, no caso da padaria, e outros mercadorias necessárias para a cidade do Rio de Janeiro. O comércio maior de todas aquelas regiões de Minas Gerais foi com o Rio de Janeiro, até a abertura de boas estradas de rodagem com Belo Horizonte que só aconteceu quando eu tinha já uns 18 ou 20 anos e aí começou-se realmente a Belo Horizonte ser mais a capital para Manhumirim. Começou a ter mais intercâmbio com Belo Horizonte. Eu me lembro desta época, Manhumirim era uma cidade, vamos dizer, pequena mas muito boa na ocasião e a gente não conhecia coisas muito maiores, então era grande a cidade para nós, a igreja da matriz muito bonita. O Pico da Bandeira muito perto a gente acampava sempre por lá mesmo com meus colegas, eu cheguei a ir 10 vezes ao Pico da Bandeira, muito bonito e na época mais selvagem também, até antes de ser estabelecido o Parque Nacional do Caparaó, já ia lá nessa época. Então foi uma infância assim na cidade pequena né, com essa padaria que o meu pai trabalhava, era dono, eu trabalhava também na padaria, ajudava em muitas atividades lá, estudei nesse colégio como eu falei, desde aquela época já dava até aulas particulares para colegas da própria escola e recebia por isso, completava um pouco a maneira de ganhar dinheiro até para passar férias. Então dava aulas para colegas de famílias mais ricas da cidade, o pessoal me pagava, plantadores de café basicamente, família me pagava por dar aulas e aquilo eu juntava dinheiro para passar as férias.

 

P/2 – Dava aulas do quê?

 

R – Principalmente matemática e ciências, basicamente matemática. Então essa foi minha vida em Manhumirim, cheguei a trabalhar em escritório de contabilidade também, cooperativa de cafeicultura, tudo em Manhumirim, sempre tive uma atividade de trabalho, nunca deixei de trabalhar desde os 12 anos de idade entre dar aulas, trabalhar na padaria e trabalhei em contabilidade, inclusive, no interior muitas vezes as pessoas que tem uma certa facilidade para números e tudo mais, acabam trabalhando num escritório de contabilidade. Então eu trabalhei e na época até fiz um concurso no Banco Nacional, e muitas vezes no interior nessa época, o grande sonho das pessoas, quando eu estava no segundo ano científico, é se dedicar a alguma atividade na própria cidade e o banco era o que tinha na época né. Então eu fiz um concurso no banco nacional naquela época, eu estava no segundo ano científico, quer dizer naquela época de indecisão continua se estudando, vai para fora para estudar, ou começa um trabalho, no caso bancário, fiz o concurso e praticamente já tinha passado no concurso, talvez por minha sorte, nada contra os bancários, mas é a questão da carreira que eu segui depois. Um padrinho meu, muito amigo nosso, já falecido inclusive, chama-se Hugo Rabelo, que era advogado na cidade, um advogado com mais vivência, mais esclarecido, até como uma nota interessante. Ele na época da Segunda Guerra, ele era uma pessoa que já tinha uma certa cultura, falava inglês inclusive, que é coisa rara numa cidade e foi estudar no Rio de Janeiro, aprendeu inglês e voltou para a cidade, ele trabalhou no esforço de guerra na época como intérprete, apoiando a parte de mineração de malacacheta que é uma mica, na região de Espera Feliz, e essa mica era usado como isolante na época e ainda é usado hoje, mas na época era o principal isolante elétrico, então era muito explorado a malacacheta para ir aos Estados Unidos para fazer parte de artefatos de guerra, como isolante de sistemas elétricos. Bom, então foi um parênteses aí, este advogado foi meu padrinho, foi muito amigo meu, então na hora que eu passei no concurso do banco, já estava praticamente aprovado né. Ele falou com o gerente que não devia trabalhar no banco, falou comigo também, eu não fiquei muito satisfeito....

 

P/2 – Ele falou para o gerente?

 

R – Falou.

 

P/2 – É mesmo?

 

R - É que eu não devia perder tempo em ficar no banco. Aí o gerente ouviu, conversou com ele e falou: “Olha você passou e tudo é preferível para você não ficar, prossegue, você tem certos recursos para prosseguir…” Escassos, mas eu tinha, então eu fui para Belo Horizonte no terceiro ano científico, junto com outros colegas né, porque aí já para fazer vestibular. O melhor, já nessa época, já era ir para Belo Horizonte. Anteriormente era ir para o Rio, como eu falei, porque o meio de transporte era ferroviário.

 

P/1 – O senhor chegou a ir para o Rio em algum momento?

 

R -  Não, como estudante não. Eu vim para o Rio passeando. Não fui para estudar no Rio. Esse advogado, meu padrinho, por exemplo, ele estudou no Rio, porque o acesso era mais fácil. Bom, então com isso eu e vários outros colegas fomos para Belo Horizonte, fizemos um teste no Colégio Universitário que era o colégio de elite na época, era o Colégio da Universidade Federal de Minas Gerais, passamos juntos e começamos a estudar lá. E na que eu fiz esse preparatório para o vestibular foi junto com o terceiro científico, uma escola gratuita inclusive, que é da Federal de Minas Gerais, uma idealização do professor Aluísio Pimenta, era muito famoso como educador na época, foi cassado pela revolução de 1964, passou fora do Brasil alguns anos, mas tinha voltado nessa época, mas a idéia… desculpe, nessa época ele estava fora, mas isso foi idealização dele. Eu fui fazer essa escola em 1966, era colégio universitário. E a fama que tinha na época e que quem entrava em colégio universitário e estudasse lá, já estava aprovado no vestibular, porque o nível de ensino era tão superior a média do ensino nacional, era baseado num sistema americano de ensino, de não só ter aulas né, mas aulas, laboratórios, atividades intensas o dia inteiro, nós tínhamos atividades oito horas por dia dentro do colégio universitário. Então quem fazia o colégio, era aprovado no colégio, fazia o vestibular e basicamente já estava, já se contava na universidade. Tanto que o colégio universitário depois de algum tempo, depois de três ou quatro anos de funcionamento, já estava aprovando em medicina 80% das vagas da escola de medicina em Belo Horizonte, eram do Colégio Universitário. Na engenharia federal chegava a 75%, 80% também e outros cursos também. Então com isso houve uma pressão muito grande até de colégios particulares para acabar com os cursos do Colégio Universitário, e acabou. 

 

P/1 – Conseguiram.

 

R – Conseguiram. Depois que eu passei por lá, depois de dois ou três anos aí já não tinha mais o Colégio Universitário. Que estava, realmente, estava havendo uma distorção né, o vestibular estava se transferindo para o Colégio Universitário, os alunos faziam um teste para o colégio universitário, que basicamente já era um vestibular, se não me engano eram 1500, 1600 vagas, aparecia 15 a 16 mil candidatos. Já estava crescendo, havia uma distorção de fato. Mas era um colégio excelente. Então quer dizer, em rápidas pinceladas foi minha evolução em quase bancário e daí fui para Belo Horizonte, passei dificuldades iniciais de todo aluno iniciante.

 

P/2 – Como é que é mudar assim, sair de sua cidade?

 

R – Nós saímos muito entusiasmados, quando você sai de uma cidade do interior e sai uma turma maior e nós saímos pelo menos uns 20 colegas juntos né, e vai para Belo Horizonte, no início quase todo mundo junto, criam-se repúblicas, mora-se mais próximo e junto, mas não se sente muito a separação da cidade né, você está junto com a sua turma, estudamos juntos inclusive, e naquela época a dificuldade de transporte é muito grande, ainda era estrada, havia já estrada de Belo Horizonte para aquela região, mas era estrada na maior parte ainda de terra, então nas chuvas era quase intransitável. Uma viagem que, normalmente naquele tempo, na época seca, levava doze ou treze horas, que era estrada de terra em grande parte, na chuva podia chegar a trinta horas.

 

P/1 – Trinta horas?

 

R- É você não sabia se ia chegar em casa. Bom, então com isso a gente ficava em Belo Horizonte pelo menos, quer dizer, entrava na escola e só voltava em casa nas férias. Só julho né, com isso você vai se desprendendo da sua cidade. Hoje, a gente vê os jovens, meus filhos mesmo já não fazem tanto assim, porque as distâncias hoje são muito menores em termos de tempo, mesmo que a distância geográfica seja maior, então eles sempre estão indo para o local do seu nascimento, então fica mais preso a sua região, ao seu local. No nosso tempo, quer dizer, no tempo deste nosso pessoal, ou outros também que saíram do interior com dificuldade de acesso e foram para a capital, praticamente adotaram a capital como cidade. Foi o meu caso né? Adotei Belo Horizonte como cidade, meus colegas também, que era difícil chegar a Manhumirim, então foi rompendo os laços, até com a família vai ficando mais distante e tudo. Então foi o que aconteceu, ficamos em Belo Horizonte, fiz o Colégio Universitário, fiz o vestibular para Engenharia na Universidade Federal de Minas Gerais, passei logo na primeira prova e fiz o curso de engenharia em Belo Horizonte, em 5 anos. Engenharia de minas foi que eu escolhi.

 

P/2 – Porque você fez essa escolha, tinha alguma expectativa para que você seguisse alguma carreira na sua família ?

 

R – Não, até que não, estava muito mais em mim mesmo o que eu iria seguir, e nesse negócio de que seguir carreira, cheguei a fazer testes vocacionais que a próprio colégio universitário propiciava, fiz testes vocacionais e estranhamente deu ou engenharia ou medicina. Acabei optando por engenharia e no segundo ano de engenharia, me deu vontade de fazer medicina. (risos). Tornei a fazer os testes vocacionais, quase que fui nesta direção mas continuei a fazer engenharia e me formei, e acho que escolhi realmente a profissão certa. Naquela época a gente ficava com certas dúvidas. Bom ,mas, resumindo....

 

P/1 – Porquê engenharia de minas?

 

R – Eu estava pensando em engenharia química ou minas, ou metalurgia, alguma coisa neste tipo, nunca pensei nas engenharias que o pessoal fazia mais tradicionalmente, como civil ou mecânica, e na época que eu fiz o vestibular você tinha que optar por duas modalidades, desculpe, logo após o vestibular, na matrícula da escola, era um agrupamento, A que juntava engenharia mecânica, civil e elétrica e um agrupamento, B que era química, minas e metalurgia. Então eu começando a fazer o curso eu achei após o segundo ano que minas estava me atraindo mais em ternos de carreira então fiz engenharia de minas, inclusive as oportunidades de emprego na época estava efervescente, a pesquisa geológica e o estabelecimento de atividade de mineração no Brasil. Então foi essa época que eu escolhi e escolhi engenharia de minas. Bom, voltando um pouco a Manhumirim, a minha infância lá foi até os 16 anos quando eu fui para Belo horizonte.

 

P/2 – Como era na sua casa? Quem exercia a autoridade, seu pai, sua mãe? Você teve uma educação severa, ou não? 

 

R – Não, nunca houve uma educação muito severa, era muito mais tranquilo em termos de diálogo, não era assim... talvez fosse até meio moderno para a época lá. Mas nós nunca tivemos severidade e castigos, havia os castiguinhos normais, não sair de casa num certo momento porque fez isso ou aquilo. Mas nada muito sério, eu não me lembro nada assim de chamar a atenção, então, foi uma infância bem normal, acho que foi bastante saudável, mas eu trabalhei muito desde de cedo por opção até, às vezes havia alguma necessidade, mas eu gostava de trabalhar. Aliás eu tenho uma passagem interessante que a minha mãe me contou na época, eu lembro desde aquela época, que eu gostava muito de estudar e de ler também, lia muito, sempre li muito, lia todos os livros, a coleção de Monteiro Lobato mesmo, eu li toda praticamente quando eu tinha 12, 13 anos. Eu gostava realmente de ler, lia muito, brincava também, andava de bicicleta, futebol nunca joguei muito bem mas tentava jogar, a bicicleta que eu andava bastante, então, com esse negócio de ler muito e gostar de ler, as pessoas às vezes achavam que eu não estava tendo infância, então algumas amigas da minha mãe falavam, mas esse menino não brinca, não tem infância, não sei o que, mas eu estava inteiramente satisfeito sem problema nenhum e quando eu queria ler, eu ia ler, às vezes lia o dia inteiro, se queria andar de bicicleta, encontrar com os amigos e passear fazia também, tomava banho de rio, tudo isto, é que eu lia mais do que a média do pessoal por gostar, então ficava lendo. Uma coisa interessante, vocês estavam comentando a pouco tempo, antes da gente começar a entrevista, a questão de abolir televisão, quer dizer, eu agradeço por não ter havido televisão lá em Manhumirim na época, porque todo o período da minha infância Manhumirim não tinha sinal de televisão, começou a ter quando eu já tinha 15 anos. Então esse período todo como não tinha televisão, nós tínhamos muitas atividades diferentes para fazer e fazíamos todas elas. Essa que é a diferença, e televisão fica prendendo a pessoa realmente em casa e às vezes em coisas que não tem sentido ver, mas hipnotiza né? A televisão tem um caráter hipnótico muito grande. Então agradeço até, Manhumirim não ter televisão na época. Então tinha atividade demais, nós tínhamos uma, só para citar mais um pouco de coisa né? Nós éramos inventivos inclusive na ocasião, os colegas meus e eu também. Era época, início do desbravamento espacial. Na minha infância ninguém tinha ido a Lua, foi a lua quando eu já estava em Belo Horizonte fazendo engenharia. Na minha infância se falava em ter foguetes, o Wernher Von Braun que estava começando a fazer os seus experimentos lá nos Estados Unidos para ter foguetes subindo e tudo o mais, pois já era o autor da bomba V1. Mas estava fazendo o início das atividades de foguetes na área pacífica. Então era muito comum a gente procurar fazer foguetes também, nós criávamos clubes de fazer foguetes, foguetes de pólvora para subir mais alto, fazíamos projetos, inclusive fazíamos foguetes subir alto. Então teve, tudo isso teve na época da minha infância. Era um clube mais ou menos científico, que a gente tentava até estudar um pouco como fazer um foguete, como fazer ele voar, voava e às vezes não tínhamos muito sucesso não, mas fazíamos várias tentativas era o que estava acontecendo na época né? Eu lembro de ter feito uns oitenta a cem lançamentos de foguete naquela região.

 

P/1 – Nenhum telhado de vizinha quebrado?

 

R – Não, não chegava a quebrar não, (risos) mas isso aí foi a época da infância.

 

P/1 – O senhor tinha acesso aos livros como?

 

R – Ah! Tinha, porque Manhumirim na época era como se fosse a capital cultural de toda a região leste de Minas. Que era Manhumirim na época? Apesar da dificuldade de acesso, havia em Manhumirim um grande seminário e um ensino de padres muito bom. Eram os Sacramentinos de Nossa Senhora que foi levado para lá, uma congregação, por um belga, um padre belga, padre Júlio Maria de Lombaerde, que foi da Bélgica para lá numa missão e estabeleceu uma grande comunidade religiosa em Manhumirim. Na época havia aquela briga entre protestantes e católicos muito forte, muito intensa, e lá era a região basicamente de protestantes, como o meu avô que veio de Portugal como protestante, os alemães, que aliás eu tenho uma tia casada com uma dessas (...) a família Werner, que é a Luterano né? E essa coisa, suíços luteranos, então estabelecia a comunidade protestante e ele foi estabelecer uma comunidade católica, muita briga, muita briga política, protestantes e católicos,  briga de chegar quase a tiros inclusive, é verdade. Então, com isso ele foi com a missão, vamos dizer, de reduzir a influência protestante na região, Manhumirim, Presidente Soares, a região da Mantiqueira, essa foi a missão que eu acho que a igreja deu para ele. Então chegou lá e estabeleceu uma comunidade muito forte, tanto de irmãs quanto de padres, e os dois melhores colégios da região, era o colégio dos padres para os homens, os jovens, e um colégio das freiras para moças. Eram separados na época, naquela época eram separados, e eram os melhores colégios na região desde mil novecentos e… Bom, a minha mãe estudou neste colégio sabe, minha mãe estudou no colégio protestante e depois estudou no colégio católico, isto desde 1920 por aí. Então eram os melhores colégios da região realmente, e havia também um seminário lá de formação de padres e isso dava um ambiente cultural muito bom na cidade e com isso a biblioteca do colégio era muito rica, muitos livros, e a gente tinha acesso facilmente a livros. Também esse advogado que eu citei, foi meu padrinho, esse advogado era bastante culto, tinha uma biblioteca muito grande e eu tinha acesso a toda ela para ler a vontade. Por exemplo, de tudo que já li, Monteiro Lobato, tudo, tudo, todos esse autores célebres, ele tinha também uma coleção da Seleções de Reader's Digest em português, porque naquela época não tinha nenhuma fluência em inglês para poder tentar ler em inglês, mas em português mesmo desde 1936, sei lá. Estamos falando de quando eu comecei a ler, me interessar em ler muito, estamos falando aí dos anos 60 né? Então eu li toda a coleção de 1936 até 1960. Li toda, muita coisa, mas estava sempre lendo. Realmente havia um ambiente propício para que se fizesse bastante atividades culturais. Havia uma rádio na cidade, a rádio dos padres e nós fazíamos um programa no Rádio.

 

P/1 – É mesmo, que tipo de programa?

 

R – Eu cheguei a fazer uma coisa de noticiário, música clássica, chegamos a tentar teatro inclusive no rádio. Os padres estimulavam. Era atividade realmente rica, culturalmente muito rica, não sabíamos se tinha audiência. Para quem tinha o ar? E falar, nós falávamos. (risos)

 

P/1 – Tinha um autor que o senhor se entusiasmava mais?

       

R – Não, as vezes nós apresentamos, digo, em termos de teatro, nós apresentamos alguma coisa do Suassuna, tentando fazer uma peça para a rádio e outros lá, agora não me lembro todos eles não, autor de livro Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Aluísio de Azevedo, todos, os clássico, José de Alencar, meu pai me deu a coleção completa de José de Alencar também, li quase todos. Eu comprava livros por correspondência também. Jonathan, a Viagem de Gulliver, todos me entusiasmaram muito. E assim foi.

 

P/1 – E quando chegou a televisão o senhor lembra, como é que foi? Foi um bafafá na cidade?

 

R – Foi, sempre é né? Chegou em preto e branco com repetidora, a imagem muito ruinzinha, você vê as televisões a válvula e a repetidora desligava meia-noite. Então só se tinha televisão até meia-noite. E era cara, era difícil comprar uma televisão.

 

P/2 – Na adolescência tinha bailinhos lá?

 

R – Tinha, eu frequentava também, tinha bailinhos em cidades próximas, Carangola, tinha isso tudo.

 

P/2 – Tinha namoradas, você já namorava nessa época?

 

R – Já, mas namorava pouco na época.

 

P/1 – E esse período da faculdade como é que foi?

  

R – Na faculdade fui fazer engenharia de minas, com certas dificuldades iniciais, não do curso, na verdade o que acontecia, todo aluno do Colégio Universitário quando entrava na faculdade sofria um baque, porque o colégio era melhor do que a faculdade, entende? Em termos de laboratório, ensino, sentia-se muito melhor no colégio do que na faculdade de Engenharia. Então o primeiro ano foi um baque, estudei um pouco menos e tudo, mas acabei me convencendo de seguir este caminho, fui em frente, estudei, me formei muito bem na universidade, cheguei a ser o primeiro aluno da turma de engenharia de minas, que a escola de engenharia tem uma honraria que eles faziam, não sei se fazem ainda, que o aluno que tirasse o primeiro lugar na turma…

 

[Fim da fita - lado A VDR 010] 

 

R – com média superior a oito nas matérias todas, coisas assim, ganhava uma medalha de ouro, eu consegui ter essa medalha de ouro, só uma honraria, mas é interessante. Uma honraria que eu mais gostei, que a escola me deu na época foi ter me considerado a personalidade marcante do curso de engenharia do agrupamento B, que passou pela escola daquela turma.

 

P/2 – Personalidade marcante?

 

R – É, eles tinham também esse tipo de honraria, essa que me interessou mais, eu gostei mais dela porque isso foi resultado das minhas atividades, vamos dizer, como é que eu falaria, de agregar a turma e que me rendeu até condições futuras do meu trabalho na constituição do Investvale. Bom, o que era isso? Desde o segundo ano de escola os meus colegas me escolheram como representante de turma, sempre havia naquela época um representante de turma, quem resolvia as coisas, pegava material, conversava com professor, remarcava prova quando não se queria fazer prova naquele dia, então meus colegas me escolheram como representante de turma, desde aquela época. Depois disso continuei como representante e no terceiro ano, eu fui escolhido tanto por meus colegas quanto pelos professores e pelo diretor da escola como membro do colegiado do curso de Engenharia de Minas. O que é colegiado? É um órgão oficial da escola que vai opinar sobre currículo, sobre toda parte acadêmica, transferência de alunos, etc, a gente opinava neste colegiado. Então eu fui membro do colegiado do terceiro ano até o quinto. Todos os anos que fiquei na engenharia fui membro do colegiado junto com os professores, discutindo temas, era bastante politizado na época também, cheguei a ser candidato no diretório acadêmico da escola de engenharia na época de 1969 e acabei não ganhando a eleição mas fiquei ajudando sempre o diretório acadêmico, como secretário, essa coisa toda, sempre trabalhei lá, e por isso que eu fui escolhido como uma personalidade marcante da passagem daquela turma pela escola. Isso me agradou muito, eu gostei muito e já de fato eu tinha uma atividade muito constante na escola. Bom, na escola eu fiz o curso junto com meus colegas, gostei muito, os professores na época, além dos professores acadêmicos, que eu acho que são necessário sim, os que têm mestrado essa coisa toda. Na época nós tínhamos muitos professores que trabalhavam na indústria, na mineração e davam aula na escola porque gostavam e contribuíam  com as atividades, davam aula mas não ficavam o tempo todo na escola, porque tinham as atividades deles, mas traziam um conhecimento muito grande da indústria diretamente para dentro da escola. Hoje eu estou vendo nas escolas que isto está praticamente abandonado, inclusive por uma questão corporativista das Universidades. Agora só pode dar aulas quem tem mestrado, doutorado, quem vai para a indústria dificilmente consegue completar mestrado ou doutorado para voltar a dar aula. É muito difícil isso acontecer. Na minha opinião as universidades estão perdendo uma grande fonte de experiência que são os profissionais que atuam na indústria. Na minha época não, nós tínhamos essa facilidade, tínhamos os professores em tempo integral, talvez meio a meio, e metade eram pessoas famosas até na época, na geologia, na mineração, nomes famosos como (Aluísio Dicínio?), Prof. Eugênio Soares Coelho, são os precursores da mineração no Brasil.

 

P/2 – Quer dizer, havia um intercâmbio entre Universidade e empresa, essas ideias ficavam circulando. 

 

R – Exatamente. Um dos grandes professores nossos, o prof. Benedito de Paula Alves era conhecido com Bené Capeta, ele era um dos grandes geólogos da época. E era na época que ele deu aula para nós de geologia econômica, no quinto ano da escola e ele era o superintendente da Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais em Minas Gerais, na época a CPRM era a grande empresa e fazia grandes trabalhos de geologia. Estou citando Bené Capeta pela dedicação dele, todo dia às 7 horas da manhã ele ia lá, dava aula de geologia econômica, terminava às 8 horas, ia para o trabalho dele e nos deixava muito ensinamento, muita coisa prática. E eu estou Benedito porque? Não foi na minha turma, mas duas ou três turmas depois, eu já tinha me formado ele morreu em sala de aula. Dando aula teve um infarto e faleceu em sala de aula. Teve a dedicação dele sempre trabalhando e outros também, a dedicação dos professores era sempre muito grande. Bom, isso então foi muito bom para nós na escola, que aprendemos bastante na engenharia de minas, os estágios também nos deram a grande visão da empresa. Eu mesmo fiz estágio no sul do país, fiz estágios em outras empresas de Minas Gerais mas, o estágio mais importante que eu fiz foi na Vale do Rio Doce, fiz estágio em julho do ano em que eu ia me formar, julho de 1971, fiz estágio na Vale e este estágio eu tive com Darcy Germaner, o esquetino né? Que trabalhava lá, o Darcy era um assistente executivo de mineração, o esquetino era chamado de assistente executivo de manutenção. Então fiz o estágio e parece que consegui me sobressair no estágio e assim que eu me formei já me convidaram para a Vale. Então praticamente, já entrei diretamente para a Vale.

 

P/2 – Esse estágio que você fez na Vale, eram vagas que a Companhia oferecia? Como funcionava?

 

R – A Companhia oferece até hoje vagas para estágios de férias para alunos das escolas. Você se inscreve na escola, no grêmio, os grêmios das escolas que organizam isso e você se inscreve, de acordo com a ordem de sorteio de tempo de escola você é selecionado pela escola para ir ao estágio, foi o que aconteceu comigo e com outros colegas.

 

P/2 – Que imagem você tinha nessa época da faculdade? O que significava a Vale do Rio Doce?

 

R –Bom, na época inicial a gente sabia da Vale, sabia do tamanho dela, mas a Vale ainda não era grande nessa época, era uma grande mineradora mas não era o que é hoje. A Vale era um a empresa na época que devia estar produzindo de dezoito a vinte milhões de tonelada de minério. Era grande mas não era a empresa que nós já temos hoje. Então a gente conhecia a Vale, fazíamos visitas de escola, mas era a Vale, por exemplo, que na época só tinha basicamente como mina de grande porte, a mina do Cauê, os escritórios de operação era na mina, era lá no alto da mina, tinha só britagem primária, (pré matita?). Não tinha concentração de itabirito, era bem menor na época. A Vale começou a crescer exatamente na época que eu me formei, e que foi muito bom para mim, que peguei a Vale em um momento de expansão e entrei na Vale exatamente na área muito especializada da Companhia, que foi a concentração de minérios. Então essa época que eu entrei foi de 1972, aí que a Vale começou a expandir . 

 

P/1 – O senhor comentou que, no momento da escolha de engenharia de minas, havia um certo “boom” da mineração nesse momento. Que “boom” era este? O que estava acontecendo exatamente?

 

R – Houve na época uma campanha de pesquisa geológica no Brasil feita pelo governo militar no sentido de preservação de identidade nacional e houve alguns programas de sensoriamento remoto, através de radar, na época magnético na região de Minas Gerais, a Amazônia começou a ser desbravada em termos de mineração então estava efervescente e o próprio governo aplicou muitos recursos em pesquisa e expansão da atividade mineral no Brasil, depois parou, mas na época houve uma aplicação grande de recursos. Havia uma grande necessidade de profissionais nesta área e as empresas estatais eram as principais que faziam estes investimentos, então daí, a vontade do pessoal de fazer o curso de engenharia de minas. O próprio Departamento Nacional da Produção Mineral, a CPRM contratava muitos profissionais na época. Havia lugar para grandes atividades na época da mineração. Temos que lembrar também que esta época era a época do Brasil grande, o Brasil estava em uma fase de crescimento em praticamente todos os setores, grandes obras, tudo mais. Estamos falando da época de 1972, com isso fui para engenharia de minas, outros colegas foram para mecânica, para civil e todos tinham emprego até fácil na época, exatamente porque estávamos em uma época de expansão econômica maior para o país. Essa foi a razão. Bom, enquanto eu estava na escola de engenharia já comecei a trabalhar, nunca parei de trabalhar, não tinha condições de parar, precisava continuar trabalhando e continuei, e na época eu dei aulas em vários colégios, Colégio Arnaldo, Colégio Anchieta, colégios tradicionais de Belo Horizonte e a Escola Técnica Federal. Então eu trabalhei. Fazia o curso de engenharia, dava aula a noite, estudava de tarde, fazia estágio, monitoria na própria escola, também de tarde, quer dizer o tempo era bem corrido mesmo, mas é isso que é bom né? Quanto mais apertado, mais você consegue atuar, em Minas tem aquele ditado: Carro apertado é o que canta, carro de boi você tem que apertar a roda que ela canta, aquele barulhinho de carro de boi, é chamado roda apertada, é que canta. Então trabalhei muito, dei muita aula, trabalhei na escola, essa coisa toda e, na época houve uma necessidade muito grande disso inclusive, pois os negócios do meu pai estavam indo mal, tivemos que fechar a padaria e a partir do final do terceiro ano em que eu estava na escola, eu trouxe a família toda de Manhumirim para morar em Belo Horizonte. Então, eu estava sustentando toda família com estas atividades de escola inclusive, de dar aulas. Então, foi meu pai, mãe, irmã (que fez medicina depois), o irmão Rogério e a irmã mais nova Miriam. Então nós morávamos todos juntos, cheguei a comprar um pequeno apartamento com o que sobrou de recursos da padaria, muito pequeno, muito pequenininho inclusive, e financiado, mas moramos todo mundo lá e com o meu trabalho deu para se viver neste período, minha irmã se formou em medicina também, tudo e daí para adiante foi melhorando, já tenho quantos anos de formado? Já tenho 28 anos de formado né, e neste período foi melhorando as coisas, mas passamos bastante apertados na minha época de engenharia e depois de alguns anos de formado, sempre apoiando a família até as coisas se desenvolverem. E é por isso que eu dava aula na minha época de escola, depois quando eu fui para Itabira, contratado pela Vale, continuei até lecionando durante um período grande tanto em colégio como em faculdade, mas aí mais por gostar realmente de transmitir conhecimento, gostar de ensinar.

 

P/2 – Em Itabira você foi contratado para fazer exatamente o quê? 

 

R – Em Itabira eu fui contratado para operar a planta piloto, uma unidade semi industrial que estava desenvolvendo o processo de concentração de itabiritos. Itabirito é um minério de teor mais baixo, com 50% de ferro em média e que não pode ser aproveitado diretamente em altos fornos, ele tem que ser concentrado, retirar o rejeito dele para subir ao teor de 67%, 66% através de um processo de concentração. A Vale desenvolveu um processo de concentração magnética de alta intensidade e essa planta piloto que eu fui contratado para operar foi a planta para comprovar esse processo. Então, eu trabalhei na planta, eu fui contratado direto para trabalhar nesta usina de concentração por quê? Porque na escola de engenharia eu já tinha demonstrado um interesse grande por essa área de engenharia de minas, que se chama concentração de minérios ou tratamento de minérios, e era monitor da matéria, eu dava aulas práticas para os outros alunos da escola para esta matéria, então, tava indo muito bem, fui convidado até a ser professor da escola e resolvi que não iria dar continuidade acadêmica naquela época, achei que tinha que sair fora. Aliás pelo exemplo dos outros professores, que os melhores já tinham ido para indústria, então não vou ficar só professor. Fui para indústria, e como meu foco era tratamento de minérios e na Vale, como nem a Vale sabia ao consultar a escola quem seria um bom profissional para tratamento de minérios, me indicaram e fui contratado diretamente para isso. Entrei nessa área, na planta piloto, desenvolvemos o processo,  quer dizer acabamos de desenvolver.

 

P/2 – Quando você entrou já tinha essa planta? 

 

R – Já tinha a planta, eu entrei para operar, já era operado por um certo grupo, esse grupo saiu e era um grupo de pesquisa da Vale e a operação assumiu. Então, eu assumi em nome da área operacional da Vale, assumi a operação da planta piloto, todos os teste, enquanto isso a Usina de Concentração, a grande unidade industrial estava sendo construída, mas ao operar a planta nós verificamos que haveria uma dificuldade de processo na planta industrial, a questão é que o minério mais fino chamado pellet feed, que seria usado para fazer pellet, iria sair com teor abaixo do especificado, porque nós queríamos para pelotas, tanto de alto forno e não daria pelotas para redução direta, pelo teor que ele iria alcançar.

 

P/1 – Esse teor era 67%?

 

R – Era 67, 68, depois fomos até 69%. Verificamos que não seria possível atingir por um problema do processo, o processo simplificadamente era concentração magnética de alta intensidade e o concentrado do concentrador era separado em tamanho por um aparelho chamado hidrociclone. Hidrociclone é quando acontece uma separação que é gravimétrica, não é só por tamanho, é por tamanho e densidade. Como para as partículas de quartzo são muitos grandes, eram grandes na época, elas saiam junto com o minério mais fino, empobrecendo o chamado pellet feed o mais grosso ficava mais rico. Bom, então esse que era o grande problema do processo, nós tínhamos que classificar antes de concentrar, estava-se concentrando antes de classificar. Então, nós verificamos isto, já era visto, e como a construção já estava adiantada neste processo, tivemos que terminar a construção que já tinha programas de entrega de minério né, terminar, para depois dois anos mais tarde, mais ou menos, modificar o processo. Então, nós, não fui eu apenas que descobri isso, eu fui um dos que trabalhou na descoberta que tinha que fazer nessa mudança. O grande mentor de tudo isto é uma pessoa também que é famosa na indústria mineral do país é o professor Paulo Abib Andery, que eu diria que depois da escola, eu aprendi tudo com ele. Em termos de tratamento de minérios ele foi meu mestre. Esse professor Paulo Abib é famoso em tratamento mineral em todo o Brasil, faleceu já, se eu não me engano, há mais de 18 anos, mas ele que nos deu consultoria em toda a mudança do processo, ele que foi o criador da engenharia mineral brasileira, basicamente. Depois acabou a engenharia mineral brasileira, tornou a acabar por faltas de investimento na área, quer dizer, ele foi o criador e fundador da grande firma de projetos mineral do Brasil que era a Paulo Abib Andery e Associados, Paulo Abib Engenharia que era famosa no Brasil na época. Bom, então, trabalhando com ele e outros colegas, nós conseguimos mostrar que tinha que fazer essa mudança, dimensionamos, redimensionamos a usina de concentração, mas não podíamos fazer imediatamente porque tínhamos compromisso de entrega de produtos e modificamos a usina com a usina já em operação. Fizemos toda a mudança e eu já estava trabalhando na própria usina em processo de tratamento de minério, fizemos a mudança, deu certo, acertamos o produto e a usina hoje já está operando bem, já está quase em final de vida para ser usada em outros minérios, mas o Cauê já está em final de lavra e era o minério do Cauê que era utilizado lá, depois tiveram outros aperfeiçoamentos, introduzimos flotação também testado por nós em piloto para produzir minérios em teores mais altos ainda que o Cauê.

 

P/1 – O que é flotação?

 

R – Flotação é um processo de separação por espumas, separa o quartzo da hematita através de uma bolha de espuma em que o quartzo é atraído pela bolha, gruda na bolha e sobe num tanque, que é chamado tanque de flotação e em inglês é (Floss flotacion?) flutuação por espumas. Fizemos este projeto, colocamos em operação e conseguimos teor sobre o que precisava, botamos a planta em produção e esse foi o meu início na Vale. Esse período eu acredito que fiquei trabalhando exclusivamente nessa questão da Usina de Concentração de 1972, quando eu entrei até 1975, 1976, quando nós conseguimos completar toda a modificação, colocamos a usina em produção normal e tudo né, e aí eu já era gerente de divisão de processo, exatamente a área que cuida das modificações, otimizar os processos, etc. Depois fizemos o Projeto de Conceição, eu participei do projeto, fizemos o Projeto Capanema, Timbopeba, eu sempre participei destes projetos e depois Carajás. Então na Vale a história é basicamente essa, eu entrei em concentração mineral, trabalhei em concentração mineral, depois de algum tempo trabalhei com engenharia industrial, faz parte da ascensão administrativa. Engenharia Industrial que pega programação de manutenção, sistema de computadores, etc., etc. E da engenharia industrial eu fui para gerência geral de mineração, responsável por todas as minas, aí já não é tratamento de minérios, já é uma diversificação de atividades com lavras de minas, e depois disto fui ser superintendente das minas do sistema sul, então fiquei responsável por todas as operações em todas as minas do sistema sul da Vale, isso já estamos então em 1991, desculpe estamos em 1990. Em 1991 fui convidado para ir para a área de marketing da Vale e fui ser diretor da Rio Doce International em Bruxelas, fiquei lá de 1991 a 1993 responsável pelo mercado alemão, principalmente, e toda Ásia. Na época nosso escritório da Ásia, que é a Rio Doce Ásia era uma extensão do Rio Doce International de Bruxelas e eu como diretor era responsável pelas atividades do escritório da Ásia, inclusive, viajei muito para a Ásia. Então, em 1993 voltei para o Brasil para ser superintendente de tecnologia, então a carreira na Vale foi praticamente esta, depois da tecnologia, criei a Investvale em 1994 e a partir daí me dediquei muito a Investvale, até que a Vale foi privatizada e na privatização passei a ser o representante dos empregados no conselho da Vale e outras empresas do grupo, e continuando presidente da Investvale.

 

P/2 – Voltando para Itabira, como que é o processo de extração? Como é que funciona isto e como é o impacto para a região, pensando um pouco na comunidade Itabira.

 

R – O processo de concentração é o seguinte, o que a Vale operava antes, operava com minérios de alto teor, que era a hematita,  a hematita não precisa de um processo especial para enriquecê-la, basicamente a britagem para reduzir tamanho e peneiramento para separar em faixas de tamanhos, granulados que podem ir direto para alto forno, finos.....

 

P/2 – Granulado é aquele que parece uma pedra?

 

R – Isso, exatamente. Finos que vão para a planta de (sinterização?) da indústria siderúrgicas e basicamente é isto, esse era o processo da hematita, às vezes a hematita poderia ser classificada em classificador espiral, mas simplesmente para separar um tamanho mais grosso de um ultra fino que é o pellet feed. Então esse era o processo que a Vale tinha na época, a vale tinha na época,  apenas britagem e peneiramento a seco, produzindo granulados e finos para sinterização. Mas essa, vamos dizer, a hematita estava ficando cada vez mais envolvida por uma quantidade muito grande de itabiritos, o itabirito é um minério de mais baixo teor, que na verdade a rocha original é o itabirito, a hematita ela é… a natureza né, promove a concentração natural em certas regiões da mina, tendo então a hematita. Então a hematita não é a regra é o itabirito que é a regra. A Vale lavrou no início a hematita, com idéia de teor mais alto, quando ele foi acabando teve que lavrar o itabirito, para lavrar o itabirito ele não pode ser usado diretamente nas usinas, pois o teor é baixo, então tem que haver um processo de concentração, o que é concentração? É separar o que não interessa, basicamente quartzo, areia, do que interessa que é a hematita, o itabirito é constituído por hematita também e quartzo e outros contaminantes. O processo que nós utilizamos para separar foi a concentração magnética em alta intensidade, o que é isso? Você pega o minério numa pompa, misturado com água, se tem a hematita e o quartzo, a hematita é fracamente magnética então ela adere a umas placas que tem no equipamento, que foi desenvolvido, chamado concentrado magnético de alta intensidade Jones e ela adere as placas do Jones no campo magnético, o quartzo por ser muito mais fracamente magnético, quase não magnético, passa junto com a água, constituindo o rejeito. Essas placas vão girando no concentrador e agora que sai do campo magnético, o campo também enfraquece e um jato d’água lava a hematita, obtendo um concentrado. O que acontece? Obtêm-se um concentrado com mais de 68% de ferro e o rejeito fica com 12 a 14% de ferro, então se recupera grande parte da hematita nos concentrados.

 

P/2 – E essa água é canalizada, existe um tratamento para ela?

 

R – Isso é o rejeito que vai para a barragem de contenção de rejeitos, em toda a região que nós operamos em Itabira tem barragens....

 

P/2 – Tem um tratamento especial, tem contaminação do solo?

 

R – Não, não tem, porque não tem nenhum contaminante nela.

 

P/2 – Mas ela não entra no lençol freático?

 

R – Não, não entra, pois o processo é exclusivamente mecânico, não tem produtos químicos. Ele vai para uma bacia de decantação e lá você tem uma barragem, o material sólido decanta, vai para o fundo e a água é recuperada. Então o que acontece agora, no final da vida útil da mina? Você vai ter uma área com estes rejeitos, principalmente de quartzo, e algumas lamas, formando quase que um platô, uma planície, a hora que esgotar completamente e esta planície está sendo replantada com grama e no final fica vegetado com grama novamente. Então, em termos de danos ao meio ambiente a única coisa que acontece é a modificação física, onde você tem um vale, esse vale está barrado e vai passar a ser preenchido com sólidos, vai ficar até um pequeno lago, muito bonito o lago e é preenchido com sólidos e esses sólidos são revegetados, então não há nenhum dano em termos de meio ambiente, no lençol freático nada, há a reconstrução da paisagem depois. E isto está sendo feito em Itabira agora.

 

P/2 – Como que é a relação da comunidade com esta atividade? A população se ressente, reclama disto, porque eu estive em Itabira e vi que é muito próxima, a cidade está dentro da mina quase e saindo de trem fica todo mundo com purpurina no rosto...?

 

R – O que acontece lá em Itabira é que, realmente a cidade é anterior a mina e como a atividade de mineração na época era muito menos intensa, operava-se granulados no alto do Cauê, a atividade de mineração começou antes da Vale, na década de 1930 e a Vale começou em 1942. As atividades naquela época pouca influíam na cidade, porque era muito localizada, muito no alto da mina e era fonte de empregos, importante para a região, quando a mina se expandiu e a cidade continuava próxima a mina, não houve condições nem econômica e nem políticas de procurar mover a cidade para mais longe, seria o ideal, chegamos na década de 1950 e conseguia-se mover o centro da cidade para uma região mais longe da mina, mas não havia condições políticas, emocionais e muito menos econômicas, pois a produção na mina era muito pequena na época e a cidade de Itabira tem mais de 250 anos, então ia ser muito difícil se fazer isto e, de fato a cidade e a mina ficaram muito próximas, a convivência não é pacífica, a gente tem de convir que não é, sem dúvida.

 

[Fim da fita 1 VDR 010 - Início fita 2]

 

R – Agora fora a poluição por poeira né, não há nenhum agente químico, poluente, nada, quer dizer, a poeira e a Vale tenta ao máximo abater a poeira, reduzir os níveis de poeira, revegetando áreas de alavrados e como a mina é muito grande a área exposta que não pode ser revegetada, porque está em produção é realmente muito extensa, mas nós já tentamos de tudo, eu como superintende mesmo, tentamos de tudo que foi possível para reduzir ao mínimo a emissão de poeira pela mineração, mas sempre a um nível que não tem jeito de ser menor. Agora atividade econômica da cidade é muito grande devido exatamente a mineração, se não fosse a mineração, Itabira seria uma cidade de 5 a 6 mil habitantes só, acho que não passaria muito mais do que isso, quer dizer, o que trouxe a atividade econômica para a cidade, realmente é causa de um incômodo em termos de, principalmente poluição por poeira, e alguma poluição sonora, mas nenhum agente químico, nada disso.

 

P/1 – Era comum a construção da planta industrial, começar antes de terminar o teste da piloto?

 

R – Não, não é comum. No caso da usina do Cauê o processo era pioneiro e foi desenvolvido entre a Vale, a parte de concentração basicamente e a patente é da Vale e a engenharia foi desenvolvida pela Klöckner-humboldt-Deutz, que hoje não existe mais a KHD, que é uma empresa alemã de engenharia e fornecimento de equipamentos. Então, entre o desenvolvimento do processo e a engenharia é que houve, não diria o problema, houve essa dificuldade de se colocar a concentração antes da classificação, então, o ideal era que uma vez descoberta o que poderia acontecer em termos de teor, isso foi descoberto, a planta já estava com o seu projeto quase pronto, já estava em montagem, o ideal era parar modificar e fazer já de acordo com um fluxograma, era o nome correto, só que a Vale já tinha compromissos de entrega de um dos produtos que é o sinter feed, aliás a maior parte de entrega do produto era do sinter feed, não era nem do pellet feed, o pellet feed iria alimentar usinas próprias da vale, e para alimentar usinas próprias da Vale esse pellet feed seria uma parte da alimentação, nós tínhamos um outro produto que se chamava (blue dust?) que era um fino natural, que tinha na mina de Conceição que já abastecia a usina de pellets. Então, não daria para modificar o processo que iria atrasar os prazos de entrega de sinter feed inclusive para as usinas alemãs que era compradora dos primeiros lotes em produção, então, resolveu-se dar continuidade a montagem, porque não atrasaria a remessa deste primeiro lote de sinter feed, o pellet feed poderia ser usado colocando um minério mais rico de Conceição junto com ele para alimentar a Usina de pellets durante alguns anos, não poderia perdurar durante muito tempo, então foi exatamente projetado para a partir do segundo ou terceiro ano de operação já entrar com a modificação da Usina, fizemos o projeto para isso. Então fomos operando e já projetando a modificação, e a modificação foi feita por partes, nunca paramos a Usina como um todo, paramos linhas de produção e íamos modificando e essa modificação levou uns dois anos para ficar pronta. Agora a segunda fase da Usina, a usina foi feita em duas fases, na fase com capacidade para 10 milhões de toneladas de produto, que essa nós fomos modificar depois e a segunda fase já estava em construção civil, mas ainda não tinha os equipamentos instalados para mais de 10 milhões que nós já fizemos modificada, então aí a usina, se não me engano em 1976 já estava modificada, operando a contento, sem mais problemas de teor de qualidade de produto.

 

P/1 – E esse processo de concentração foi pensado a partir desse contrato?

 

R – Veio o processo, e a partir do processo viu-se o alto produto que tinha, quando foram testados, e foram feitos os contratos a partir dos resultados dos testes.

 

P/2 – Nesse processo todo você acaba uma certa inovação e descobre novas tecnologias. Tinha naquele momento... porque tem um sistema de patente, do próprio funcionário patentear o invento ou a descoberta. Naquele momento tinha alguma coisa deste gênero ou a Companhia encaminhava isso?

 

R – Existia o patenteamento, a Companhia patenteou o processo de concentração magnética de alta intensidade, não existia um sistema sistematizado institucionalizado de premiação pela patente, isso não existia naquela época, mas foi patenteado pela Vale.

 

P/2 – Foi patenteado?

 

R – Foi, sem dúvida. A patente hoje é vencida, se não me engano, já tem mais de vinte anos, a patente deve durar por vinte anos, mas foi patenteado sim.

 

P/1 – A equipe que trabalhava, funcionários, cientistas, engenheiros, eram pessoas dos mais diversos lugares, como que se formava esta equipe?

 

R – A equipe era, principalmente, engenheiros de minas, alguns engenheiros químicos também e vinha das escolas. E dentro da Vale você criava um grupo que se interessava mais por pesquisas, e esse grupo começou a trabalhar e desde a época do Dr. Francisco Fonseca Filho, que foi superintende de Itabira na ocasião e depois ele foi.... teve a missão, exatamente de instituir um centro de pesquisa de minério para a Vale do Rio Doce, então ele que criou o centro de pesquisa de minério, onde hoje é a área de Santa Luzia - Km 14, lá ele que começou o processo de pesquisa mineral tanto para pesquisa geológica também, quanto para pesquisa tecnológica que são processos de concentração, então ele que começou a estudar esse processo de concentração magnética de alta intensidade, isso a mais de, vamos lembrar aqui, uns trinta e cinco anos atrás. Ele instituiu este centro de pesquisa, que foi crescendo, teve vida própria e transformou depois numa superintendência de tecnologia para toda a  Vale né, então todos os processos são estudados lá, o processo de concentração e, naquela época nossa era tudo mais empírico, digamos, eram engenheiros que tinham aptidão para isso e começavam a trabalhar, fazer pesquisa e tudo mais. Hoje a Vale já se profissionalizou bem, em termos de pesquisa, hoje não, já um tempo atrás, com a formação de doutores em determinados ramos da ciência né, com mestrados também, a Companhia patrocina talentos nessa área a maneira de fazer mestrado e doutorado e até pós-doutorado no exterior em assuntos de interesse da Vale. Desde, quer dizer,teve uma fase da minha carreira que eu fui superintendente de tecnologia, foi de… entre os anos de 1993 a 1997, neste período eu estimulei muito para que os nossos talentos prosseguissem em mestrado ou doutorado, alguns já fizeram e hoje a grande maioria dos pesquisadores que estão no centro de pesquisa tem mestrado e talvez uns seis ou sete com doutorado. Isso dá uma amplidão né, amplia o horizonte em termos de pesquisas de novos processos, novos processos de concentração, não só para minérios de ferro, como para outros minérios que a Vale está pesquisando, como cobre, níquel, zinco, tudo isso.

 

P/2 – E essa relação com a Universidade, você acha que mudou, se no começo havia, hoje você acha que se perdeu um pouco?

 

R – Olha, houve um momento em que houve uma troca de conhecimentos e relação com a universidade muito forte, muito intensa, mesmo antes de eu ser superintende de tecnologia lá no Km 14, já era praticado um sistema de convênio em larga escala com várias universidades, aonde a universidade desenvolvia junto com a Vale um projeto de interesse da Vale, nós demos continuidade a esses convênios. Agora hoje, sinceramente eu não sei se eles estão com a mesma força de antes, em parte a dificuldade é da própria universidade, a desorganização vamos dizer, entre aspas, e as dificuldades de recursos que as universidades estão contanto né, a desorganização do ensino basicamente, dificultam muito uma relação mais profissional entre a Vale e a universidade, e que é o ideal, a gente espera que seja sempre incrementada e volte a acontecer. Nós fizemos vários programas de pesquisa junto com as universidades, e é bom para a Vale e bom para as universidades, isso deve acontecer, deve continuar acontecendo, não só para formar mestres e doutores mas também para trabalhar em pesquisa junto com a Vale. Esses convênios existiam, acho que ainda existem e devem ser sempre incrementados entre a Vale e as Universidades.

 

P/2 – Qual que foi sua participação no Projeto Carajás?

 

R – No Projeto Carajás eu participei desde o início da definição do processo né, nós fizemos vários testes em termos de minérios de Carajás, até o minério ia até Itabira no início para verificar que tipo de minério que era, qual a habilidade para concentrar, como iam fazer com ele, que tipo de tratamento deve-se fazer, trabalhamos aí junto com o Km 14, o centro de pesquisa _____ saiu de Itabira nessa época, estudando os minérios de Carajás e depois em certa fase do projeto né, fomos para Carajás, eu mesmo fiquei lá durante quase 30 dias operando a planta piloto em maior escala para obter dados para o projeto industrial de Carajás. Então essa planta piloto foi operada durante muito tempo, eu ia lá muito, mas houve, eu estou lembrando um período em especial, nós passamos lá um mês direto, fazendo os testes dia e noite, praticamente, para completar os dados e fazer um relatório sobre o minério de Carajás para que pudesse obter financiamento para Carajás através do Banco Mundial, era uma linha de empréstimo de 300 milhões de dólares e com isso levantar outros financiamentos no mundo, então trabalhamos intensamente para cumprir os prazos ter um relatório que o Banco Mundial aceitasse para poder financiar o projeto. Então eu lembro do trabalho na ocasião, o Mozart que hoje é diretor na Vale, o Carlos Rangel que está lá em Carajás até hoje na área de processo e qualidade, Ricardo Antunes que hoje é diretor da área de pelotização de metálicos na Vale e eu próprio, trabalhamos intensamente para concluir isso. Concluímos o relatório e foi

aceito pelo Banco Mundial, a partir desenvolvemos o projeto Carajás e depois disso continuei sempre em contato direto com o projeto Carajás para transmitir o conhecimento que nós tínhamos já adquirido em Itabira para o projeto Carajás, então, trabalhamos no projeto o tempo todo para a concepção dele. No final do projeto quando eu assumi a gerência de departamento de engenharia industrial, aí eu passei a coordenar como transferência de tecnologia também toda a parte de mineração, não só o tratamento de minério, mas mina e tratamento daí fechando o projeto, e depois colaborei também, no sentido de enviar equipe para Carajás para iniciar a operação do projeto, e dar apoio a operação, fiz seleção de pessoal também, então meu envolvimento com Carajás foi constante desde a concepção do projeto até colocar em operação toda a área de operação.

 

P/1 – Então teve todo um “know how” adquirido em Itabira que foi sendo transferido e adaptado pra Carajás?

 

R – Exatamente. 

 

P/2 – Qual a característica do minério de Carajás?

 

R – Bom, Carajás é um minério que nós chamamos de hematita e é chamado minério supergênico porque ele foi originário de uma rocha inicial e foi enriquecido, o nome técnico é chamado intemperização, quer dizer, com muitas chuvas, na era geológica de Carajás o minério foi se enriquecendo de cima para baixo, então no fundo você tem a rocha original que é chamada de aspelito e por cima grandes camadas de minério enriquecido, então esse minério o que é? Ele é hematita, basicamente e goetita outros minérios de ferro, mas com a característica de ser muito rico pelo tipo de enriquecimento que ele teve. Então o teor natural em Carajás é acima de 67%, quer dizer, a média é 67% de ferro.

 

P/2 – Diferente de Itabira.

 

R – Diferente de Itabira, então o minério de Carajás não precisa de concentração, por ser um minério muito úmido, pois a quantidade de chuvas é muito grande e o minério supergênico retém mais água, não foi possível fazer o peneiramento do minério de Carajás a seco, que seria o ideal que dá menos quantidade de rejeito no minério, então lá nós tivemos que fazer um processo de classificação usando água, porque se usasse a seco ele não peneirava, ele cega a peneira, na época de chuva seria impossível se obter o produto, nós testamos isto para se chegar a esta conclusão, tentamos ao máximo usando vários tipos de peneiras, vários tipos de processo, peneirar sem o uso de água, mas não teve jeito. Então lá é um processo em que se tem britagem, peneiramento, usa água nas peneiras para não cegar as peneiras e a parte fina do minério cai em classificadores de espiral aonde o afundado é o mais grosso constitui o sinter feed e o que sai por cima, chamado overflow é mais fino, são lamas finas, ela é ciclonada e o grosso dessa lama vai para filtragem constituindo o pellet feed, então tivemos que usar água mas não por necessidade de concentrar o minério, para poder classificar, separar por tamanhos. Um minério muito  rico com uma quantidade de reservas muito grande, e a Vale se fez, quer dizer, primeiro a Vale se fez grande com o processo de concentração magnética, os portos de grande calado em Vitória, navios de 300 mil toneladas, poderem transportar o minério a uma distância econômica né, e que pudesse chegar ao Japão e Europa, foi a concepção até do Dr. José Batista, foi a visão dele que o único jeito de transportar minérios para outros países eram em navios de grandes dimensões, não tinha outro jeito, então fizemos um porto de águas profundas, um porto que pudesse acomodar estes navios, foi o Porto Tubarão. Então esse foi o primeiro crescimento da Vale. O segundo crescimento foi Carajás, então, com o sistema sul. Hoje a Vale é a maior exportadora de minério de ferro do mundo, ou seja, desculpe, a maior produtora de minério e também a maior exportadora de minério de ferro do mundo. Carajás foi essencial para que a Vale continuasse grande no minério de ferro, quer dizer, se não tivesse feito Carajás, também uma visão do Dr. José Batista, ele que pensou nisto, se não tivesse feito Carajás, a Vale hoje seria uma empresa muito pequena na escala de mineração. 

 

P/1 – Esse relatório que foi elaborado para o Banco Mundial, qual era o principal conteúdo dele, o senhor lembra?

 

R – O conteúdo dele era como a partir do minério que tinha em Carajás, eu digo nossa parte né, que tinha uma parte também de geologia, da parte de reservas minerais, como que ele seria lavrada, mas esse foi outro grupo que elaborou. O nosso grupo, esse que trabalhou conforme a planta piloto, elaborou um relatório dizendo, basicamente, como que o minério pode ser tratado, qual o tipo de tratamento que ele pode sofrer, quer dizer, britagem, peneiramento, essa coisa toda, se ele não poderia ser peneirado a seco, que é o que dava maior retorno, provamos que... não, provamos não, infelizmente não deu, quer dizer, tivemos que provar para os financiadores que o processo mais econômico não era viável e a qualidade do produto, a qualidade que ia ter, se ele dava uma boa performance metalúrgica, tudo isso nós fizemos, colocamos no relatório e esse foi entregue então ao Banco Mundial, é uma espécie de estudo de viabilidade do processamento mineral do minério de Carajás.

 

P/1 – Em que medida que o financiamento dependia desse relatório?

 

R – Porque se não houvesse comprovação que era tecnologicamente viável produzir um produto adequado a um custo conveniente do minério de Carajás, não haveria financiamento, sem financiamento não tinha jeito de se fazer o projeto.

 

P/1 – Estava em um momento de captação destes recursos.

 

R – Momento de captação. E o aval do Banco Mundial para o projeto é essencial para captar os demais recursos.

 

P/2 – Como era o mercado consumidor no mundo, nesse momento com a construção de Carajás?

 

R – Ele estava precisando do minério e o mercado deu o apoio a Mina de Carajás, esse foi outro ponto do nosso trabalho, além do relatório para o Banco Mundial, nós fizemos relatórios para as principais usinas siderúrgicas, para as consumidoras do minérios, mostrando que o minério  tinha qualidades para ser considerado a alimentação das usinas e mostrando que o produto era excepcional para as usinas. E aí entrou os testes metalúrgicos para mostrar isso, então, não só isso, não só fazer os relatórios, mas nós também fomos a todas as usinas mostrar o que era o produto, nesta época eu junto com outra equipe de quatro ou cinco pessoas, viajamos na Europa toda, visitamos quarenta e duas siderúrgicas para mostrar o que era o produto de Carajás, depois fomos ao Japão e mostramos as siderúrgicas japonesas e as coreanas também, então mostramos que o produto era excepcional e com isso conquistamos contratos de fornecimento do minério de Carajás com os alemães, com as usinas alemãs, as usinas japonesas, e principalmente, essas foram as principais, francesas também, e com estes contratos assinados a Vale pode levantar os recursos para financiar o projeto. Então esse foi o nosso trabalho lá, para poder assegurar aos clientes de que o produto era adequado, aliás era o melhor, até hoje é o melhor produto que tem em minério de ferro é o de Carajás, então para assegurar os clientes que era um excelente produto, além de irmos lá, recebemos missões de técnicos das usinas alemãs, japonesas, inglesas, de todo o mundo a Carajás para mostrar a planta piloto, mostrando a mina, o que era o minério de Carajás, então, trabalhamos intensamente durante uns dois anos para convencer os grandes consumidores que aquele era um excelente produto.

 

P/1 – Eram contratos de longo prazo?

 

R – Eram contratos de 15 anos cada um.

 

P/2 – Quem eram os principais concorrentes?

 

R – Concorrentes ainda são os de hoje, nós temos a Mont Newman na Austrália que é da BHP, a (Hamersen?) que é da ______ Austrália também, eram os australianos, naquela época haviam algumas minas operando na África, que depois por problemas na Nigéria, digamos, Nigéria e... esqueci o nome da outra que era operada pelos alemães, falhou a memória agora, mas tem uma outra na África operada pelos alemães, que houve um problema de revolução na África e tiveram quase que sair de lá as pressas, então acabou sendo fechada, mas na época a mina operava, então as principais sempre foram as australianos.

 

P/1 – Esse sistema da Vale, mina, ferrovia, porto e a própria perspectiva de comércio exterior é uma relação  que tem que estar bem azeitada, digamos assim, inclusive entre as equipes, como é que isso foi durante o tempo que o senhor estava lá, essa relação, pessoal da mina, operação, pessoal da ferrovia, porto?

 

R – Sempre foi integrada, a operação integrada, mina, ferrovia e porto essencial para um grande minerador, quer dizer, o minerador do minério de ferro que não tiver um sistema integrado ele não tem a rentabilidade que a Vale tem, quem tem  alta rentabilidade de minério de ferro é a Vale, a BHP e a ______, todas tem o sistema integrado, mina, ferrovia e porto sob o controle de uma mesma empresa. Então é essencial que o sistema seja integrado e trabalhe sempre harmonicamente, ou seja, os problemas tem que ser solucionados na hora, não se pode esperar um ou dois dias para se resolver, tem que ser resolvidos exatamente na hora que acontece, senão atrasa todo o sistema, atrasa a chegada de minério no

porto, atrasa embarque em navio e o sistema passa a ser não confiável do ponto de vista do comprador do minério, então tem que funcionar sempre muito bem. É lógico sempre num sistema deste, procura-se o melhor, procura-se otimizar o mais possível, mas há, vamos dizer a saudável discussão entre as partes envolvida, isso não há dúvida, essa discussão saudável é necessária, tem que haver uma coordenação e as partes tem que saber o que tem que fazer para chegar ao objetivo comum, que é colocar o minério com a qualidade certa dentro do navio no tempo certo, esse que o objetivo, chegar lá, e chegar também no mercado interno, alimentar as siderúrgicas, diretamente por trem né, também no horário certo. Isso já temos conseguido e a equipe trabalha muito bem nisso, tanto que, na evolução que nós tivemos na implantação de programas de qualidade total na Vale, implantação dos programas ISO 9002, e tudo mais né, nós já conseguimos, por exemplo, que a Companhia Siderúrgica Tubarão seja abastecida exclusivamente com minério da Vale, 100% de compra da Vale, e num sistema em que eles não controlam as pilhas de minério deles, quer dizer, todo o controle de qualidade, é feito pela própria Vale. Entrega a pilha pronta e já diz, essa pilha está com tal qualidade, eles não fazem análise, a Usiminas também recebe os produtos da Vale já sem fazer análise própria, usam a análise da Vale para poder orientar os processo internos dele. Então isso foi conseguido exatamente com trabalho da equipe bem unida e com grande conhecimento do processo de produção.

 

P/1 – Dentro do organograma da Vale como que foi se ajustando isto, houve mudanças durante o período do senhor?

 

R – Bem, no meu período não havia superintendência da mina, da estrada né, trabalhava na coordenação comum, hoje tá tudo sobre a mesma diretoria e poderia trabalhar de forma até mais orientada, dirigida, mas os sistemas funcionam até independentes, sob a mesma diretoria ou diretorias diferentes. A questão é muito mais de sistema do que de organograma, eu sempre encarei isto daí como um sistema, quem está gerindo o sistema tem que entender bem o sistema, entender a integração e trabalhar para funcionar o melhor possível, e para mim não importa muito a questão de organograma não, muito mais importante para mim é a questão de sistema.

 

P/2 – O senhor foi diretor da Vale internacional lá na Bélgica. O senhor poderia contar um pouco desta experiência?

 

R – É eu tive na Bélgica de 1991 até 1993, fui diretor da Rio Doce Internacional e nesse período eu fui responsável pela área de marketing, uma atividade diferente, marketing de minério de ferro, até muito diferente, até muito mais ver se o cliente está satisfeito, ver o que ele está fazendo, que tipo de produtos são mais adequados para ele, ver se os navios estão chegando na cadência certa que precisa, visitar bastante clientes, conversar. Uma experiência que me enriqueceu muito, me enriqueceu muito em termos de relações, em termos familiares é mais difícil você sair de um país e ir para um país bastante diferente e bastante mais frio, que e Bélgica, e bastante chuvoso, na Bélgica chove muito, chove talvez duzentos e cinquenta dias por ano, então é bem diferente. A família foi, mulher, filhos, quem está trabalhando o dia inteiro sente menos, vai para o escritório de dia, volta de noite, e no escritório é como estivesse em qualquer escritório não tem diferença. Às vezes tem que fazer uma reunião em Paris, você pega um trem, vai até Paris, faz a reunião e volta no mesmo dia, você nem vê Paris, por exemplo,  vai a Londres para uma reunião, pega o avião vai até o aeroporto, desce, vai até a reunião, volta e você nem vê a cidade também, é como se você estivesse trabalhando no Brasil, não tem muita diferença para quem está trabalhando. Para quem está em casa, é bastante diferente, a escola é numa língua diferente para o os meninos né, é um choque grande, separa-se das amizades originais, anteriores né.

 

P/2 – Que idade tinham seus filhos?

 

R – A mais velha, a Fernanda tinha 16 anos, e o Gabriel tinha 14 e o Marcelo 9, então sofre muito nesta idade, muito pequeno é mais fácil ou então grandes, porque às vezes os filhos nem acompanham os pais mais, seriam as duas idades mais convenientes. Então, realmente não é fácil para a família adaptar-se no exterior, é uma experiência que enriquece, mas é difícil a adaptação da famílias, isto não há dúvida.

 

P/1 – E foram de Itabira, direto para Bélgica?

 

R – De Itabira direto para ________.

 

[Fim do lado A]

 

P/1 – A infância deles em Itabira, são Itabiranos, como que é isso?

 

R – São Itabiranos e conhecem muitos colegas em Itabira, uma infância boa em Itabira. Itabira é uma cidade pequena, então dá para conhecer todo mundo, tem mais liberdade, então os amigos deles até hoje são todos de Itabira, e o pessoal de Itabira uma maior parte vai toda para Belo Horizonte, e daí que os meus filhos hoje moram em Belo Horizonte. A Fernanda mora em Belo Horizonte, quer dizer, quando ela voltou da Bélgica já foi para Belo Horizonte, fez dois cursos lá, turismo e comércio exterior. Gabriel ficou conosco aqui um tempo, ficou um ano e meio aqui no Rio, fez vestibular a um ano e meio atrás para Direito, passou aqui, estudou durante um ano e meio, morou conosco aqui, e depois consegui transferência para Belo Horizonte e voltou para Belo Horizonte. E o Marcelo, o mais novo, ficou dois anos conosco fazendo o ginásio e agora está no científico e pediu também para voltar para Belo Horizonte, então hoje os três moram em Belo Horizonte, e Denise e eu moramos aqui no Rio, eles são do primeiro casamento, que eu fiquei viúvo, fiquei viúvo em 1976, então os três são do primeiro casamento, e ficaram agora em Belo Horizonte. Encontramos o máximo que pudemos, falamos quase todo o dia, mas eles preferem ficar em Belo Horizonte.

 

P/2 – O senhor participou do conselho de florestas da Vale do Rio Doce?

 

R – Participei, fui presidente do conselho fiscal.

 

P/2 – Eu gostaria de entender como que se deu isto, uma vez que o senhor estava mais ligado a área de mineração, como que se deu esta inclusão?

 

R – Quando eu fui presidente do conselho fiscal da Floresta Rio Doce, eu era superintendente de tecnologia e uma das áreas de pesquisa tecnológica que nos fazíamos era para o aproveitamento de madeiras em atividades diferentes do que simplesmente celulose, então nessa atividade eu tinha muita integração com florestas para aproveitar madeiras para outros fins, construção civil, móveis, etc., então se estabeleceu até uma linha de pesquisa inicial na época nesta área, então daí me convidaram também para ser presidente do conselho fiscal da Floresta do Rio Doce, quando eu era superintendente de tecnologia.

 

P/1 – O senhor voltou da Europa em que contexto, por qual razão?

 

R – Voltei porque, já estava numa época… Fiquei dois anos na Europa, e aí eu ficava mais bastante tempo ou retornava para voltar as minhas atividades técnicas, eram duas escolhas, poderia ter ficado na Europa, aí ficava lá talvez mais uns cinco ou seis anos, como um colega que foi junto comigo, (Cheker?) tá lá até hoje, já tem quantos anos? Nove anos, então eu ficaria talvez nove ou dez anos por lá ou voltava para minha atividade original que é a área técnica, como foi oferecido a oportunidade de voltar para a área técnica me interessei e voltei para superintendente de tecnologia. Aí que eu voltei para Belo Horizonte, trabalhei quatro anos lá em Belo Horizonte, e aí veio a privatização da Vale e tudo mais, a família voltou, vi a questão da privatização e fui escolhido como presidente do Investvale, já em 1994, bem antes nós já estávamos nos preparando e entrei em atividade realmente de privatização mesmo, organizando os empregados, organizando os aposentados, discutindo como é que seria a modelagem de privatização, conversando com políticos, com presidente da república, vice-presidente o que nós poderíamos ter na privatização, qual seria a melhor forma de privatizar a Vale e nisso aí trabalhamos bastante, conseguimos montar o melhor clube de investimentos de empregados que tem no Brasil, isso eu não tenho dúvida.

 

P/2 – Com é que foi a montagem disto?

 

R – A montagem teve o apoio total da diretoria da Vale, que é muito importante, senão não conseguiria montar um clube bem feito na época, o apoio total de total de todas as gerências, o apoio dos empregados todos, explicamos o que era o clube, nós explicamos bem claramente que o clube não era feito para facilitar a privatização da Vale, o clube foi constituído, para havendo a privatização os empregados, vamos dizer, terem uma parte da riqueza que eles ajudaram a construir e poder influir nos destinos futuros da Vale. Então para isso que foi criado o Clube de Investimento para os empregados da Vale. Então os empregados entenderam muito bem essa mensagem, eu percorri a Vale várias vezes explicando para todos os empregados e aposentados.

 

P/2 – Como que eles recebiam isso, inicialmente?

 

R – Muito bem , entendiam perfeitamente.

 

P/2 – Ficaram empolgados.

 

R – Não, não é empolgados, ficaram com receio da privatização, mas ao mesmo tempo sabia que não tinha jeito de se resistir a ela, era inevitável, igual foi em outros setores, e com isso montamos uma maneira de o empregado influir no destino da Vale depois que ela fosse privatizada, até antes conseguimos influir. Logicamente o sindicato por ideologia foram contra a privatização, mas entenderam também a mensagem do clube, e aliás o clube nunca foi a favor ou contra a privatização ele sempre foi neutro com relação a este aspecto, a mensagem do clube era e seguinte, havendo a privatização nós temos que estar dentro da Vale, nós temos que estar no controle da Vale.

 

P/1 – E não tinha uma condição oficial sobre favor?     

 

R – Não, nunca tivemos, a nossa posição claramente, não nos manifestamos nem a favor nem contra, nós estamos nos organizando, que se a privatização acontecer nós tínhamos que estar organizados, os sindicatos também entenderam a mensagem, não perturbaram a filiação do pessoal ao clube, até... não é que apoiaram, mas discretamente não foram contra, contra a privatização sim, fizeram o discurso sempre contra, mas não contra o empregado se filiar ao clube e aliás sindicalistas quase todos se filiaram ao clube também, no final do processo praticamente todos se filiaram ao clube. Bom, então com isso nós conseguimos um bom contrato de financiamento com o BNDS na menor taxa de juros que tem no país para o clube de investimento e mesmo para empresas né, nós temos o empréstimo com TJLP que é a taxa a juros de longo prazo do BNDS, mas 1,5% ao ano. Só para ter um a idéia de como essa taxa é baixa, o mínimo que a própria  Vale consegue é TJLP mais 3%. e TJLP mais 1.5% hoje está dando 12% ao ano, menor a taxa ser líquida ao governo passou a 18,5%, então o próprio governo paga 18,5% ao ano, para captar recurso para o governo, e nós estamos pagando ao BNDS, TJLP mais 1,5%. Então foram condições muito boas na negociação, conseguimos uma boa negociação também como o grupo que venceu o leilão e com isso entramos no controle da Vale, estamos no controle da Valepar e fizemos operação agora de troca de ações com o BNDESPAR que estava prevista desde quando assinamos o contrato de privatização, fizemos uma troca de ações e hoje temos no Investvale, tem 11% da Valepar, que é a (holding controller?) da Vale, para você ter uma idéia nós temos mais ações da Valepar que o (Suite River?) que representa o (Nacion banking?) e outros grupos estrangeiros que tem 9,5% quase 10%, então a Investvale tem porção até maior que o (Suite River?). Então é uma posição relevante da Valepar, com isso estamos discutindo os assuntos da Vale, estamos conseguindo influir para que a nossa visão chegue aos controladores da Vale e somos muito respeitados por todos sócios da Vale, por causa, exatamente da posição técnica que a gente tem, da posição séria em termos de empresa e da representação dos empregados da empresa como acionistas da empresa, a gente representa a relação capital/capital, isto está muito claro para o quotista também, quem representa a relação capital/trabalho são os sindicatos, é o papel do sindicato, a Investvale nunca quer assumir, não temos nada com esse papel, é um papel relevante, importante, que os sindicatos têm que exercer e exercem muito bem também na Vale. Então nós deixamos bem claro para os nossos quotistas, que nós estamos aqui para exercer uma relação de capital com capital, não dá para misturar, capital/capital, capital/trabalho porque senão não há entendimento sobre as posições e os sindicatos representam a relação capital/trabalho. Então tem ido bem nesse sentido, estamos agindo muito bem em termos de conselho da Vale em tudo que a gente pode trabalhar para preservar a valia inclusive, para que a valia continue um fundo de pensão sólido, estável né, a Investvale também trabalha neste sentido junto aos controladores da Vale. 

 

P/1 – Quais são as principais posições da Investvale, o que ela defende frente ao conselho?

 

R – Nós defendemos a perenização das atividades da Vale, o crescimento da empresa gerando novas oportunidades de emprego, defendemos um programa de participação de resultados para os empregados da empresa e que haja uma real distribuição de uma parte do crescimento do lucro da empresa para os empregados, e aprovamos até um programa de participação de resultados é nesse sentido, junto com a administração da Companhia. Fizemos este programa e conseguimos aprovar junto ao conselho e também ficamos atento as questões da avalia, é uma avalia forte, estável para que dê condições tranquilas de aposentadoria a quem já trabalhou na Vale e para quem já está entrando na Vale ou vai se aposentar, ter a consciência de que quando vai se aposentar ter uma aposentadoria digna, então nosso trabalho também é que a avalia seja sempre preservada face a investimento seguros e que não tenha nenhum problema de patrimônio para o futuro. Esse é o nosso trabalho, é o dia a dia, opinando sobre projetos na Vale, opinando sobre questões na empresa, procurando melhorar sempre a relação entre a diretoria executiva da empresa e os empregados atuando junto aos diretores para isso e tudo mais, então essa é a nossa atividade, é o dia a dia da Investvale é a nossa discussão constante lá.

 

P/2 – Como você viu o processo de privatização?

 

R – Como assim?

 

P/2 – É a condução do processo... como você sentiu isso?

 

R – Nós tivemos várias etapas difíceis no processo, nós sempre defendemos que o melhor modelo de privatização da Vale fosse a pulverização das ações, sem que um grupo de controle assumi-se a Vale, a Vale continuaria a ter uma administração profissional como sempre teve e orientada por um conselho de profissionais do setor, de fora da vale para poder orientar a Vale como empresa, sem necessitar de um grupo controlador para assumir a Vale, essa é a nossa posição. Não conseguimos convencer, no entanto a diretoria da Vale propôs isto, quanto a Investvale, conversamos com políticos, o pessoal do BNDS e tudo mais, não conseguimos, tentamos, mas não teve jeito. Então a modelagem que surgiu foi de um grupo de controle, aí já que vai entrar um grupo de controle, então nós temos que estar neste grupo de controle, conseguimos estar neste grupo de controle, então para nós não é a modelagem ideal, mas foi o que conseguimos, o ideal seria ter a chamada Public Company, a Companhia pública no sentido de ações pulverizadas no mercado e ter administração profissional, como a General Motor é, e várias outras empresas no mundo são Public Company, não tem ninguém que é o controlador da empresa, não há um dono da empresa, são milhões de acionistas que tem ações da empresa. E isto que nós defendíamos, bom, não conseguimos, mas estamos no grupo de controle. Então o processo de privatização ele teve épocas, mas achamos que não íamos conseguir nunca estar no controle da Vale pela maneira que ele foi modelado, mas trabalhamos com tanta, quer dizer, fizemos tanta pressão sobre governo, pressão de ordem técnica, realmente, e pressão do Investvale contar com 100% dos empregados filiados a ele. A Investvale tem 100% de filiação, todo empregado da empresa Vale do Rio Doce e suas controladas filiaram-se a Invest Vale e mais de 80% dos aposentados. Os aposentados que não se filiaram é que nós não conseguimos encontrá-los, então com isto nós conseguimos negociar boas condições para o quotista da Investvale, porque a adesão foi maciça, quer dizer, o empregado entendeu a mensagem. Hoje, quer dizer, no início a Investvale tinha 35 mil quotistas, hoje tem 18 mil, quer dizer a maior parte dos empregados continuam filiados ainda. Foram saindo por transferências de cotas para outros empregados, a cota da Investvale só pode ser transferida dentro da Investvale, não pode sair para fora, a gente mantém sempre esta posição. Então reduziu-se de 35 mil para 18 mil, mas era esperado, inclusive o pessoal de mais baixa renda, Floresta Rio Doce, (Celibra?), etc., foram vendendo, transferindo suas cotas, vendendo né, para outros colegas de mais poder aquisitivo. Com a Investvale hoje, está com uma base de quotistas de 18 mil, mas ainda assim tem a maior parte dos empregados da Vale, são quotistas da Investvale.

 

P/1 – Quando se começou a falar em privatização da Vale?

 

R – Começou em 1993, aliás, começou um pouco antes, quando o governo Collor entrou, ele já falou em privatização da Vale, depois ficou um pouco parado e quando o Itamar assumiu ficou bastante mais morno a questão, mas nós sabíamos que era questão de tempo, que fazia parte do plano do governo, desde a época Collor de privatizar a Vale. E o Fernando Henrique na campanha dele, na primeira parte da campanha ele falou claramente que iria privatizar a Vale, por isso nós nos preparamos, desde 1993 estamos nos preparando, em 1994 quando o governo Itamar estava acabando, nós constituímos o Clube de Investimento, 28 de dezembro de 1994, a gente achava que logo que o governo de Fernando Henrique começa-se já ia anunciar a privatização da Vale, então nós queríamos estar preparados, e começou, mas não anunciou imediatamente, foi colocar no programa de privatização lá para junho de 1995, nós já estávamos pronto para tudo.

 

P/1 – E essa modelagem da privatização como o senhor comentou, além dessa questão de pulverização que outros temas... ?

 

R – Era basicamente, nós participamos a favor da pulverização, participamos a favor de não se dividir a Vale naquele momento, é vender a Vale como um todo, como inteira e que a participação do empregado fosse no controle da Vale e brigamos também pelo percentual de ações que queríamos comprar do governo, nós queríamos dez pontos percentuais, mas o governo só tinha 51% do capital da Vale, então acabamos chegando num acordo de ficarmos com 10% da posição do governo, então 10% de 51,1% é 5,11%.

 

P/2 – Claro senão o governo perde, não é mais majoritário.

 

R – Então conseguimos ficar com cinco,11%, 10% de 51,1%, que era um capital muito grande também, que na época da partida, logo após o leilão, esse 5,11% valiam em torno de 530 milhões de reais e a dívida que nós assumimos com o BNDS foi de 178.800 milhões. Então o deságio na compra passou de 70%, foi mais de 72%, isso aí foi o resultado da nossa negociação, o governo queria dar só 50% de deságio, mas conseguimos chegar a 72%.

 

P/2 – Qual que é a política atual, dessa nova diretoria na área de extração, por exemplo, é continuar a pesquisa, investir nisso?

 

R – Continuar. Inclusive, com o apoio da Investvale, nosso conhecimento aos sócios da empresa nós estamos continuando com as pesquisa em volume alto e vamos investir, se não me engano, 46 milhões de dólares este ano em pesquisa geológica e programa de pesquisa continua intenso, vamos dizer, em outras palavras, não é falta de recurso financeiros, não é por falta de recursos financeiros que a pesquisa não tem mais velocidade, ela está na velocidade máxima que ela pode ter usando os recursos financeiros que sejam necessários para a pesquisa na área de não ferrosos, cobre, ouro, etc., quer dizer, principalmente cobre, na área de minério de ferro não é tão necessário mais pesquisas que as nossa jazidas já são suficientes.

 

P/1 – Como foi preparado o funcionário em relação a privatização, quer dizer, foi feito dentro da diretoria uma campanha, um tipo de esclarecimento quanto o que iria acontecer?

 

R – Foi, foi feito, muito bem feito, tanto a diretoria da Vale, institucionalmente trabalhou para explicar a privatização para os empregados, os diretores correram todas as áreas, explicaram, antes da privatização, foi feito um programa de comunicação, havendo comunicação escrita, vídeo, tudo ao longo de todo o processo de privatização. E a Investvale fez parte de todo esse processo, na parte do Valevídeo, que a TV Vale que havia, o Investvale tinha sempre um tempo cativo para colocar mensagem do Investvale, e além do Investvale os demais diretores, superintendentes, também falavam o que estava acontecendo. Então houve um esclarecimento completo de todo empregado como é que iria acontecer o programa, como que iria ser, não houve assim sustos devido a privatização, isso foi bem minimizado, exatamente graças a diretoria da Vale Estatal e graças já a presença da Investvale já no processo.

 

P/1 – E para o funcionário hoje, o que o senhor acha que alterou?

 

R – Não, houve... logicamente na época da privatização, sabia-se que ia haver racionalização de atividades, enxugamento de quadro, e houve, o quadro da Vale antes da privatização era de mais ou menos 15 mil empregados, após a privatização, quer dizer, após a reestruturação e tudo, ficamos com 11.500. O que o Investvale atuou nessa época foi para que, havendo desligamento de empregado se houvesse um incentivo ao desligamento, como era feito na época da Vale Estatal e conseguimos aprovar no Conselho da Vale que, havendo um desligamento de empregados num número maior, deveria ser com incentivo ao desligamento com pagamento de valores de indenização maiores do que as indenizações legais, conseguimos aprovar e foi feito desta forma e, mais ainda um tempo de carência maior na avalia, que a Vale pagou um fundo de pensão durante 3 anos a mais para quem tinha condição de se aposentar nos próximos 3 anos após o desligamento. Então conseguimos aprovar que o programa fosse pelo menos semelhante do que havia na Vale Estatal, lógico a Vale Estatal é um pouco mais generosa do que houve na Vale privada, mas houve um programa de incentivo, então com isso o quadro foi enxugado, chegou-se a 11.500 já um quadro estável para a Vale e com isso nós não temos, quer dizer, a gente tem atuado para não se pensar em nenhum programa de enxugamento em massa mais, de redução de quadro, se houver necessidade de redução de quadro na Vale hoje, isso se dará muito mais por aposentadorias normais do que por um programa mais maciço. Essa é a posição da Investvale, a Investvale se posicionou desta forma após o primeiro programa e temos conseguido convencer aos demais sócios da vale que a Vale não precisa enxugar o quadro de maneira agressiva mais, inclusive nós aprovamos, foi iniciativa da Investvale junto ao diretor do centro corporativo... a Vale né, e a diretoria de recursos humanos da Vale, aprovamos a política de terceirização de atividades na Vale, e indicando quais as atividades seriam terceirizadas, quais que não podem ser por problemas de risco trabalhista e tudo mais, e com isso a partir da aprovação da política algumas atividades que eram terceirizadas na Vale passaram a ser exercidas  pela própria Vale, então até está aumentando um pouco o nível de emprego da própria Vale, graças a política de terceirização que fizemos aprovar no conselho, então essa é atuação da Investvale em termos de empregados, em termos de projetos da Vale e tudo mais.

 

P/1 – Em relação a atividade diversificada da Vale do Rio Doce, minério de ferro, papel e celulose, quer dizer, como que a Investvale se posiciona em relação a esse conjunto da Vale do Rio Doce?

 

R – Nós estamos nos posicionando de maneira estratégica na Vale, que a Vale deve se concentrar nas atividades em que ela é a melhor, aliás não é da Vale, todas as empresas do mundo que não se concentram nas atividades que ela faz melhor, ela acaba perdendo dinheiro, não por perda de rentabilidade no negócio, não é que o negócio não seja rentável, porque ela deixa de focar o seu principal negócio e isso é válido para qualquer grande empresa do mundo. E não é diferente para a vale, então nós achamos que temos que nos centrar na atividade logística e mineração, tanto de ferro, quanto de não ferrosos, as demais atividades, elas podem ser rentáveis, apesar de não serem tanto quanto o minério de ferro logístico mas nós não somos maiores, em minério de ferro nós somos maiores do mundo, em logística somos maiores do Brasil e em não ferrosos, que é cobre nós temos reservas para sermos um dos grandes do mundo, e em celulose nós não temos escala para isto, tem empresas muito maiores que nós, as empresas de celulose estão se conglomerando em unidades industriais, em empresas capazes, com total de produção acima de 2 milhões de tonelada por ano de celulose, o normal, quer dizer, o tamanho ideal de empresa por aí, está sendo 3 milhões de tonelada e nós temos uma capacidade de um total de celulose quase 1 milhão, é pouco em relação ao total das empresas, então nós sempre temos que estudar o que é melhor para a Vale ou nos fundirmos num conglomerado maior de celulose e participarmos em uma escala maior ou negociarmos nossa participação para quem opere melhor, aí os acionistas da Vale terão maior rentabilidade, se nós formos melhor operando nessa área vamos ficar nela, se não formos tem gente que faz melhor que a gente e vai nos pagar um preço adequado para pegar aquela área e esse dinheiro que nós obtivermos com a venda de um ativo,  em que nós não sejamos o melhor nem o maior, vamos aplicar nos nossos negócios e sendo o maior ou melhor nos nossos próprios negócios. Essa é uma posição, vamos dizer, de racionalidade no mundo econômico de hoje.

 

P/1 – Como que é o cotidiano do senhor como presidente da Investvale?

 

R – Como presidente da Investvale eu atendo os quotistas, verificamos a situação do clube, verificamos a aplicação do clube, nossos investimentos né, isso na Investvale, tem uma estrutura de atendimento na Investvale já montada, profissional e o presidente que sou eu só vê as questões mais diferentes da rotina né, tem gente que cuida dessa rotina, e na Vale é a discussão com os sócios, participação do conselho de administração, análise dos projetos, análise da empresa, ver os balanços da empresa, análise da auditoria da empresa, se tudo está sendo feito na empresa em conformidade com as políticas decididas no conselho administrativo, então esse é o meu dia a dia, olhar a empresa como um todo e procurar pensar no futuro da empresa junto com os outros sócio da Vale.

 

P/2 – Voltando um pouco, você fez faculdade em um área técnica e você acabou transcendendo isto indo para uma área de negócios, administração, isso foi alguma coisa que você foi aprendendo na prática, fez algum curso?

 

R – Uma parte disto é prática, outra parte são cursos que a própria Vale propicia, quando eu era gerente de nível intermediário na vale, pouco antes de ser superintendente, a vale fez um curso de aperfeiçoamento em gestão feito, coordenado pela Fundação Getúlio Vargas, que todos os gerentes de nível médio passaram por um treinamento que durou dois anos, uma semana a cada três meses, a gente tinha cursos regulares da Fundação Getúlio Vargas, depois fiz outros cursos da própria valem, cursos curtos e recentemente quando eu me dediquei muito mais ao conselho da Vale a partir de 1998, 1996 eu já estava me dedicando bastante, mas em 1998 eu me dediquei integralmente ao conselho da Vale e outras empresas que a Vale faz parte. Então a partir daí eu vi a necessidade de me inteirar mais ainda na área financeira e fiz aquele mestrado MBA executivo que é o nome que se dá, porque não é em tempo integral do Ibmec. Então eu já conclui o mestrado MBA de dois anos no Ibmec na área de finanças corporativas, então isso me ajudou muito na visão do que é o mundo financeiro inclusive, isso eu já conclui e continuo sempre fazendo o que posso na área de cursos, congresso, para eu me inteirar integralmente no que é negócios e negociação, que dizer, negociação não adianta você fazer curso, negociação você aprende na prática e a nossa prática de negociação, quer dizer, a minha prática e de outros diretores já é antiga, porque sempre negociamos ou em nome da Vale e pela Investvale negociei muito com todo o governo, com o BNDS, e negociei com sócio da Vale também para gente entrar no grupo de controle, então negociação é o nosso dia a dia, não precisa de escola para fazer negociação, agora escola, como eu falei, fiz o MBA executivo do Ibmec para me inteirar bastante da área financeira.

 

P/1 – E como que é negociar com o governo?

 

R – Se você tem um conhecimento do que você está fazendo, e como nós da Investvale tínhamos a adesão de todos foi uma posição fácil para fazer o governo entender e eles tanto entenderam esta posição que a Investvale ficou sendo um clube de sucesso.

 

P/2 – Pensando um pouco na sua trajetória de vida existe alguma coisa que o senhor mudaria, faria de forma diferente?

 

R – É difícil dizer, diferente, não, acho que não, fiz uma carreira técnica.

 

[Fim da fita 2]

 

R – Eu considerei boa, bem feita, não tenho nenhuma frustração profissional pelo que eu fiz, tive um bom casamento com a minha primeira esposa, ela faleceu de aneurismo cerebral em 1996 no auge da questão de privatização, pude me afastar só um pouquinho com a família, com meus filhos e logo depois tive que voltar com a minha campanha pelo Brasil a fora não podia parar né, e foi um choque muito grande na época, mas correu tudo bem, tenho meus filhos que estão na minha vida, tudo direitinho e me casei novamente com a Denise, médica, conhecida nossa inclusive da época, e estou muito bem agora, não tenho algo que reformar não, sabe. (riso)

 

P/2 – Você tem um grande sonho?

 

R – O grande sonho é ver a Vale bem orientada, com um controle acionário estável na empresa que não dependa de um sócio querer sair ou entrar, que todos os sócios controladores da Vale sejam financeiramente capazes de manter sua posição no controle, que não se fale de venda do controle da Vale para terceiros, que a Vale seja estabilizada em termos de controle, que os resultados da Vale são a longo prazo, todos os resultados de recursos naturais são de longo prazo, você tem um controle estável na Vale, o empregado é controlador estável, o fundo de pensão também imagino que são, precisamos ter controladores que entram na Vale, já que, a maneira de gerir a Vale é com um grupo de controle, que estes controladores continuem estáveis na Vale, entendam que a Vale não dá resultado de curto prazo, só médio e longo prazo, invistam na Vale pensando nisso, como nós estamos pensando e considerem que, os recursos humanos da Vale é o que melhor a vale, o que a Vale tem de melhor são seus empregados, esse recurso humano tem que ser bem aproveitados, motivados e tem que ter um crescimento profissional e um crescimento humano dentro da empresa, e com isso a empresa sempre será melhor, para nossa posição é que os acionistas da Vale entendam isto e prestigiem sempre os recursos humanos da empresa. Aliás essa é uma bandeira da Investvale, aprovamos isto no conselho, que o preenchimento de qualquer cargo de relevância no Grupo Vale do Rio Doce deve ser prioritariamente feito com o pessoal da empresa, só se não tivermos gente qualificada em determinada posição que vamos buscar no mercado, está aprovada inclusive, uma política permanente da Vale, então o meu sonho é ter a Vale nesse rumo, a nossa luta é que a Vale continue sua trajetória de crescimento e de valorização do seu recurso humano para sempre, a Vale é empresa que já tem mais de 50 anos e seguramente pode chegar a 150, a nossa congênere e concorrente que é Rio Tinto-Zinc já tem, se não me engano, 110 anos de existência e continua, não vai parar, então o que nós queremos é isso.

 

P/2 – O que o senhor acha da experiência de ter dado o depoimento de vida do senhor aqui para gente sobre a Memória da Vale do Rio Doce?

 

R – Eu achei muito interessante e emocionante, até certo ponto, e acho que todos que contribuíram para a Vale, eu fui uma parte modesta para esta contribuição, tem gente até muito mais, com uma contribuição mais pesada do que a minha, devem depor, devem constituir essa memória da Vale, porque como eu falei, a vale é a primeira, a empresa para 200 anos de vida ou mais, então é importante que daqui a alguns anos, quando tudo isso que nós fizermos já estiver debaixo da poeira que alguém se lembre que houve pioneiros e, conduziram a Vale nessa direção e no rumo dela ser sempre uma empresa sólida, estável, contribuindo para riqueza do país e contribuindo para seus empregados como riqueza pessoal também, não é riqueza só de dinheiro, é a riqueza de ter um atividade na empresa, uma atividade digna e considerada na sociedade.

 

[Fim da entrevista]

 

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