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História

Uma passagem pra um lugar que você não sabe qual é

História de: Bel Santos Mayer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/02/2021

Sinopse

Construção da casa própria, um sonho da família, no bairro da zona leste de São Paulo. Lembranças da avó Edelmira. Memórias da infância e do período escolar. Motivo da migração dos pais baianos para São Paulo e circunstâncias de seu nascimento. Relação com a mãe. Alfabetização, gosto pela leitura e decisão de ser professora quando crescesse. Começo de seu trabalho como professora de comunidade e luta pelo direito do adolscente à educação. Formação em Pedagogia Social na Itália. Primeira fundação de biblioteca comunitária. Atuação em Parelheiros junto aos jovens. Vida atual, como mestranda e militante. 

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História completa

 Eu nasci em 1967, num período que as crianças nem comiam junto com os adultos, nas famílias mais simples. Primeiro comiam as crianças, num espaço separado e os adultos comiam no espaço deles. Sempre que eu podia, eu estava ouvindo as histórias e eu adorava ver minha vó contar histórias. E ela tinha uma coisa: ela não sabia comer de garfo e faca,  ela comia ou de mão ou de colher, então, ela sempre comia com a gente, com as crianças. E aquela coisa era um negócio que me chamava atenção. Eu falava: “Vó, a senhora não tem que ter vergonha, porque a senhora não sabe comer de garfo e faca”. Eu lembro uma vez, eu levei um amigo pra comer em casa e o chamei pra comer com a gente. Eu já era adolescente e aí a minha vó não quis comer. Ela pegou a comida dela e foi pros fundos, onde a gente morava, onde eu dormia com ela. E eu falei: “Vó, não, a senhora vai comer aqui, com a gente” “Não, não vou”. E aí eu comi de mão, junto com ela. E ela me olhava, ela ficou irritada com aquilo, meu amigo não entendeu nada, mas a nossa relação sempre foi essa. Eu queria sempre que ela se sentisse à vontade, porque o que estava fora do lugar era um país que as pessoas tinham que viver sem saber o que era garfo, né? E ter vergonha de comer com a mão. Não era ela que estava fora do lugar. Era o país. 

 

Quem me ensinou a ler foi a finada Josefa, era um barraquinho, ela juntava várias crianças dentro desse barraco e o filho dela ficava lá com ela, o Tonho e o que ele fazia? Fritava linguiça, jogava farinha e a Dona Josefa colocava as palavras na lousa. Quando a gente conseguia ler, o Tonho pegava um pouquinho de farinha de linguiça e dava na nossa mão. Então, era tão saboroso aprender a ler e escrever! Tinha esse cheiro da linguiça fritando, da farinha, do Tonho. Uma coisa muito afetuosa. Acho que essa história dessa mulher, gratuitamente ensinando outras pessoas a ler. Parecendo aquele canto da capoeira: “Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas”.

 

Eu sempre gostei dessa coisa de estudar. Eu gostei, gostava de estar lendo. Então, os poucos passeios que nós tínhamos, eu ia com um livro embaixo do braço. E isso, um pouco, irritava (risos) as pessoas. Eu até entendo hoje, né? Podia parecer uma coisa meio arrogante. O que ela acha que é, né? Está sempre com um livro na mão. Então, tem fotos que eu estou sempre com um livro embaixo do braço. Eu acho que isso deve ter soado como uma coisa meio arrogante. Então, minha mãe se irritava com essa coisa de eu estar sentada estudando, por exemplo. Então, eu lembro dela me ver na mesa, estudando... claro, a gente tinha uma única mesa em casa. Naquela mesa se comia, se costurava, se passava roupa. Era mesa pra tudo. E eu estava estudando na mesa e ela falando assim: “Primeiro a obrigação e depois a devoção”. Então, estudar estava no campo da devoção, no campo da religião.

 

A gente teve que enfrentar situações de tiroteio nessa passagem pra ir pra escola. E a memória que eu tenho também desse caminho são muito duras. Um desses tiroteios, eu em pânico com meu priminho pequeno, menor do que eu, tendo que ir pra escola e medo de que acontecesse alguma coisa com ele, porque o recado era sempre: “Cuida do Álvaro”. Até uma das fotos que eu deixei aqui ele está segurando uma bola. Nós estávamos na praia e ele está com essa bola. “Cuida do Álvaro”. Eu começo a ouvir esse tiroteio e aí a gente se joga na beirada do rio, embaixo da ponte e a gente fica ali, agarrado no mato, esperando esse tiroteio passar. Essa é uma das lembranças muito difíceis que eu tenho, de medo, né, do que acontecia e muitas outras vezes que a gente atravessava e alguém falava: “Olha, tem um morto ali”. Então, como infância, você fazer esse caminho de ter pessoas mortas, assassinadas, no seu caminho pra escola, quando eu vou chegando à adolescência, 12, 13, 14 anos, não é mais um corpo, né? É o irmão do meu colega de escola, o pai do meu colega de escola, o meu colega de escola. Isso começa a explicar as escolhas que eu começo a fazer na minha vida, que é de acompanhar os meninos que são presos e que vão pra Febem, de acompanhar as famílias desses meninos. Minha história de militância começa aí.

E eu virei a professora da escola, dentro da favela, é uma escola, Arlindo Caetano Filho e aí eu decido que, na minha sala de aula, vai estudar também quem não tem documento. Era um tempo que era proibido estudar sem documento. Só com o estatuto que a gente garante, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que a criança tem que ser matriculada e é a escola quem tem que contribuir pra que ela tenha documentação, mas até lá, quem não tinha documento, não estudava. E aí a diretora da escola era uma ex freira e eu falei: “Irmã, eu conheço essas crianças” e a minha sala de aula virou a sala que todo mundo subia, inclusive um dos meninos, o Dedeco, que era um menino que já tinha 16 anos e nunca tinha estudado, porque não tinha documento. Além de ter uma deficiência intelectual, ele não tinha documento e, quando eu viro professora da escola, o Dedeco me pede, fala: “Bel, você deixa um dia eu só ver os seus alunos?” e eu falei: “Se você quiser, você vai ser meu aluno”. Ele não aguentava de alegria. Aí, toda hora que ele me via, ele falava: “Bel, é verdade que eu posso ir?” Eu falei: “É”. Aí eu pedi na escola, eu falei: “Vai ter um menino, não tem documento. Quer dizer: ele nunca estudou”. E aí eu lembro dele aparecendo todo bonitinho, cabelinho dividido de lado, com um caderninho, um lápis, de chinelo mesmo, entrando na sala de aula. Foi uma coisa muito bonita. E aconteceu um fenômeno, a gente conseguiu fazer uma certa revolução dentro daquela escola, porque uma realidade na periferia: muitos professores vêm de fora. Eu era uma professora da comunidade. Até os filhos da pessoa que organizava um dos lugares do tráfico era meu aluno e a gente conseguiu - naquela época, nós criamos um Centro de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente, a partir dos anos 90 – que nenhum jovem com menos de 16 anos trabalhasse no tráfico. A gente conseguiu fazer esse tipo de conversa. Então, foi marcante pra mim. Ainda não é a minha história com a literatura, mas foi marcante.

A gente começa a pensar se tinha sentido levar pra algum lugar onde poucas coisas acontecessem e aí sai, nos anos 2000, um ranking das subprefeituras de São Paulo, a partir do índice de desenvolvimento humano municipal, o Idhm. E aí são ranqueadas as subprefeituras: Pinheiros aparece em primeiro lugar, como melhor lugar pra se viver em São Paulo e Parelheiros aparece em 31º lugar, como pior lugar pra se viver em São Paulo. A gente foi pensar se tinha algum sentido fazer alguma coisa em parelheiros. E a gente viu que puxa ninguém conta o que tem? Que aqui é uma reserva de Mata Atlântica? Que tentaram exterminar os indígenas dessa cidade e que os remanescentes estão aqui? Que aqui tem gente lutando por educação?” Aí eles começaram a falar isso, a gente falou: “Pronto, é isso mesmo. A coisa que a gente mais gosta de fazer é contar sobre o lado cheio do copo, como a gente aprendeu com o Tião Rocha. Vocês topam?” E aí eles decidem: “A gente quer, mas a gente duvida que vocês vão voltar, porque todo mundo que vem pra cá é fogo de palha. Vem, depois acha que é longe e não volta mais. A gente está cansado de projeto que começa, depois acaba e ninguém nem avisa, a gente marcou um encontro na semana seguinte e apareceram 27 adolescentes. E aí a gente falou: “Gente, é aqui o nosso lugar. Como é que 27 adolescentes vêm encontrar duas mulheres que eles nem sabem quem são?” Eu tenho a lista de sonhos desses jovens, que é o meu assunto do mestrado. Eu estou olhando as mobilidades que uma biblioteca causa na vida das pessoas. Como ela muda até os seus sonhos. Eu perguntei isso pra eles em abril de 2008 e aí eles colocam que eles tinham como sonho que eles conseguissem casar, ter um emprego e uma família. Um deles sonhava ser jogador de futebol. Emprego era a coisa marcante. Alguns sonhavam que tivesse um shopping center em Parelheiros e eles pudessem trabalhar lá.Hoje dão risada do tanto que se modificou os sonhos....Quando a gente criou a Biblioteca Caminhos da Leitura como biblioteca literária, algumas pessoas diziam: “Mas escuta, em Parelheiros falta tanta coisa! Por que vocês não criam um curso profissionalizante?” E a minha resposta pra quem falou isso foi que eu não estava lá pra ajudar os meninos a ter uma profissão pra encontrar um lugar no mundo. Que eu estava lá pra conseguir, com os meninos, o caminho que eles quisessem, pra mudar o mundo e não para encontrar um lugar no mundo. Então, acho que a literatura faz isso. Ela é transformadora. Ela leva a gente pra um caminho que a gente não imagina. Valter Hugo Mãe fala que a biblioteca é parente dos aeroportos e dos aviões. Mas é um avião que você compra a passagem pra algum lugar que você não sabe qual é. Essa minha história te levou pra onde?

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