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Uma opção ideológica

História de: José Silvestre Prado de Oliveira
Autor:
Publicado em: 07/05/2020

Sinopse

José Silvestre Prado de Oliveira, ou apenas Silvestre, descreve como como se deu a saída da terra natal, na Bahia, a chegada a São Paulo e os caminhos trilhados. A militância em movimentos populares no Bairro da Penha, zona leste da capital paulistana até um rápido contato com a efervescência cultural e política no Colégio Equipe dos anos 1980. Conta como uma gafieira que existia no bairro da Liberdade, a Paulistano da Glória, foi importante na vida profissional e pessoal. Relata como o Dieese entrou na sua vida aos poucos, primeiro como pesquisador freelancer, depois contratado como auxiliar técnico até chegar a técnico e assumir a responsabilidade de falar pela entidade em palestras e diante da mídia. Função que exercia até a realização da entrevista por ocasião do Cinquentenário do Dieese.

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História completa

P/1 – Você poderia começar falando seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Bom, José Silvestre Prado de Oliveira, eu nasci num distrito que chama São José do Paiaiá, é um lugar de origem indígena, cuja sede do distrito se chama Nova Soure e fica na Bahia, no nordeste da Bahia.

 

P/1 – Nasceu quando?

 

R – Em 1955, dezembro de 1955. Precisa completo? 31 de dezembro de 1955, portanto, tenho 50 anos, não parece né? Parece que eu tenho 48, ninguém dá mais do que isso, mas tudo bem. [risos]

 

P/1 – Silvestre, você quer que chame você como?

 

R – Pode chamar de Silvestre.

 

P/1 – Qual que é a sua formação?

 

R – Sou geógrafo.

 

P/1 – Quando que você fez geografia?

 

R – Quando?

 

P/1 – Aonde.

 

R – Eu fiz na PUC e terminei em 1987. Comecei pós-graduação, comecei o curso de pós-graduação lato sensu na área de Economia e _______ de Gestão das Relações de Trabalho, entrei no mestrado do Prolam da USP [Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo],  mas também não terminei e fiz outros cursos, mais de especialização, agora, na verdade, eu sou geógrafo, mas no Dieese [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos] eu nunca exerci a profissão de geógrafo, como o Dieese trabalha fundamentalmente com questões socioeconômicas, e muito com economia, então eu lidei com a área econômica,  só fiz geografia porque eu sempre gostei.

 

P/1 – Mas tem geografia econômica.

 

R – Tem geografia econômica, mas a gente, às vezes, acha que nunca exploramos essa... a geografia econômica.

 

P/2 – E durante a sua formação teve algo que te despertou trabalhar com os movimentos sociais, sindicais, alguma coisa assim do tipo ou veio depois?

 

R – É que na verdade, quando eu entrei no Dieese ou melhor, quando comecei a fazer a graduação, já estava no Dieese, mas aí tem um pouco da minha história de vida. Cheguei em São Paulo em 1975, fui morar na casa de um primo e nessa época convivi muito com pessoas que já tinham atuação política. Fui levado a conhecer o Equipe. O Colégio Equipe era, naquela época, muito mais do que hoje, um espaço de produção cultural. Muita gente legal que saiu do Equipe tá aí hoje, só na área artístico-cultural-musical... Arnaldo Antunes foi um dos caras que saíram de lá, Serginho Groisman, na época que eu tava lá era um grande agitador cultural. Tudo isso me permitiu, também, enveredar pela área da política, pela área das questões sociais, fazer movimento estudantil. Depois fui fazer teatro na periferia, era a época da ditadura, final dos anos 70 então a gente, eu e mais alguns amigos, a gente foi montar grupo de teatro na periferia, a gente tinha um grupo de teatro lá na Penha e que fazia coisas...Atuava junto com a igreja, fazia espetáculos nos salões paroquiais porque não tinha espaço pra fazer, então se produziam peças coletivas, era criação coletiva, a gente fazia tudo, desde escrever o texto, até apresentar. Ficamos ali de 1979 até 1981, depois fizemos o jornal de bairro, que se chamava Espalhafato. Depois deu a história do PT [Partido dos Trabalhadores], participamos daquele momento das discussões, na periferia, naquele espaço que a gente tinha, a discussão da criação do PT, enfim, então foi quando fui pra faculdade. Fui muito vagabundo, entrei na faculdade muito tarde, na verdade quando entrei já deveria estar saído com o mestrado, mas aí porque eu tava muito envolvido nessas questões, tal...

 

P/1 – Você tinha quantos anos quando você entrou?

 

R – Quando entrei na faculdade tinha, acho que 27, 28 anos. Já deveria estar saindo, não da faculdade, mas ter feito mestrado, porque o pessoal hoje com 25 anos já faz o mestrado, só que, bom, o cara também não trabalha, então também tem isso. Por isso que fui pra faculdade muito tarde, estava na faculdade com 28 anos, quer dizer, eu já tinha uma outra cabeça, digamos assim, já tava feita. Não foi a faculdade, não foi, daí eu fui para o movimento estudantil, não na faculdade porque o movimento estudantil, nessa época, já estava em declínio. Isso já era nos anos 1980 e tal, mas eu participei do movimento estudantil nos anos 1970, eu era secundarista, ainda estava no Equipe, então muito em função disso. Eu fui pra faculdade já tava aí a ideia. A coisa de meu lance com Geografia foi porque também tinha isso, era muito anos 1980 a discussão da questão ambiental no Brasil. Como eu gostava disso, Geografia era uma disciplina que tinha muito mais link com a questão ambiental e isso me levou a fazer Geografia, mas na verdade nunca sequer estágio eu fiz na minha área.

 

P/1 – Silvestre, você diz que veio pra São Paulo em 1975, você já tinha 20 anos.

 

R – Eu tinha 19 anos quando eu cheguei aqui.

 

P/1 – Por que você veio pra São Paulo?

 

R – Porque eu vim? Porque eu não tinha, nem o meu pai, condições de me bancar. Primeiro que eram mais sete irmãos, são sempre famílias grandes e lá não havia condições de estudar. Como não tinha a menor condição do meu pai me bancar pra sair do interior pra ir pra Salvador estudar, fazer o colegial, segundo grau pra depois ir pra faculdade, aí eu falei: “Bom, vou pra São Paulo, né?” Aí vim pra São Paulo onde já morava um primo que já tinha vindo uns 10, 15 anos antes e já estava estabilizado aqui, aí eu vim pra cá com o intuito de quê? Obviamente de trabalhar e de estudar. Cheguei aqui em São Paulo eu tinha 19 anos. Caí num mundo que era... eu saí, para vocês terem uma ideia, de uma cidadezinha desse tamanho do semiárido baiano, não chega a ser sertão propriamente, está numa faixa de transição entre o agreste e o semiárido, mas é uma região muito seca, muito árida, com pouquíssimas condições e aí eu falei: “Bom, eu vou sair fora.” E vim pra São Paulo, e vim pra trabalhar e pra estudar, só que eu perdi muito tempo, porque, você vê, eu cheguei em 1975, eu só fui entrar na faculdade em 1984. Fiquei 8 pra 9 anos pra entrar. Se fosse hoje eu não ficaria, eu certamente teria entrado na faculdade muito mais cedo, mas o momento histórico foi outro, outro contexto, eu, assim, nem me arrependo do fato de ter entrado tarde, me arrependo de não ter feito mestrado, concluído,  assim, isso poderia ter, talvez, aberto outras portas, não sei.

 

P/1 – Você começou a trabalhar em que aqui em São Paulo?

 

R – O primeiro emprego em São Paulo? Foi, eu cheguei em fevereiro, fiquei quatro meses desempregado, só fui arrumar emprego em junho, aí fui trabalhar de contínuo, de office-boy numa empresa agropastoril, que mexe com a coisa de agropecuária. Era lá na Avenida Paulista. Comecei a trabalhar de auxiliar de escritório, foi o meu primeiro emprego. Fiquei de 1975 até 1977.Fui mandado embora e aí fiquei muito tempo trabalhando como autônomo, fazia pesquisa. Fiquei de 1977 até 1979 trabalhando como autônomo. Sem registro em carteira. Fiz várias coisas, fiz pesquisas de mercado, trabalhei na pesquisa origem-destino da Emplasa [Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano] que era para auxiliar no planejamento da construção das linhas do Metrô paulistano. Depois trabalhei no Dieese. Mas foi em 1979 o meu primeiro contato com o Dieese, mas aí trabalhava como “bóia-fria”. Meu primeiro trabalho no Dieese foi pegar umas listagens, assim desse tamanho, que era pra preparar o 1º Congresso da Mulher Química, era um trabalho de dois meses, três meses, não tinha registro. Fiz esse trabalho no Dieese, fiz outros, fiz trabalho de pesquisa também. Em 1979 eu entrei nessa empresa que eu te falei, mas ainda entrei na condição de autônomo, sem registro, depois é que eu fui efetivado.

 

P/2 –SEV?

 

R –(Sevesim?) – Serviço de Concorrência Publicitária, mas aí entre esse primeiro emprego formal e esse segundo, eu fiz um monte de coisa. Aí...

 

P/1 – Você estudava no Equipe nessa época?

 

R – Ah, o Equipe. No Equipe eu entrei em 1970, antes eu entrei no primeiro colegial num colégio do estado aqui de São Paulo, mas acho que eu só fiquei um semestre e larguei, não queria saber e fui pro Equipe. Fiz o colegial supletivo. E depois fiz cursinho no Equipe. Coisa de um ano, aí fui fazer outras coisas que eu já citei pra vocês, mas o Equipe foi muito bom pra mim. O Equipe foi dez.

 

P/1 – E nessa época, antes de você entrar, antes de 1979 até, você conhecia o Dieese?

 

R – Não. Quer dizer, conheci, em 1979, mas conheci porque a Vera, que é minha mulher hoje, já era do Dieese. Antes de ir pra lá não tinha conhecimento do Dieese.

 

P/1 – A Vera já era do que?

 

R – A Vera já era do Dieese, auxiliar técnica do Dieese.

 

P/1 – Se eu te perguntasse como vocês se conheceram você vai achar muito...

 

R – Não.

 

P/1 – Indiscrição?

 

R – Não.

 

P/2 – Você sempre faz isso. [risos]

 

R – Não, na verdade eu conheci a Vera no Paulistano da Glória, acho que foi, Paulistano da Glória, hoje não existe mais, mas era uma gafieira, um lugar super legal na época. Frequentava o pessoal do samba mesmo, da gafieira, mas frequentavam muito os universitários da USP, da PUC, e foi lá que eu conheci a Vera, quer dizer, a Vera e mais um monte de gente. E foi aí que rolou e tal e outras pessoas também do Dieese. O próprio Serginho, já deve ter dado depoimento, o Diretor Técnico do Dieese, também é dessa época. A filha, a ex-mulher do Serginho que trabalhou no Dieese há um tempo, enfim, foi lá no Paulistano. Era um lugar também muito legal.

 

P/1 – Você tinha um certo contato com o Dieese já em casa, essa coisa meio familiar?

 

R – Não, antes de ir pra lá eu não conhecia o Dieese, a gente não tinha muitos mecanismos de conhecer, de acessar porque era o período...era ditadura militar ainda, puta movimento sindical era... Esse trabalho que eu te falei, que a gente fez lá em 1979 foi ali o começo, foi um trabalho pra organizar um congresso, eu não me lembro, acho que era da Mulher Química ou Metalúrgica, primeiro...

 

P/1 – Como é que foi esse contato, assim, como?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Com o pessoal do Dieese?

 

R – Então, eu já conhecia a Vera que trabalhava no Dieese.

 

P/1 – Mas assim esse contato mais de trabalho mesmo, como que foi?

 

R – Como eu conhecia a Vera, a Vera trabalhava no Dieese, aí falou: “Olha, vai precisar de auxiliar, de estudante, de estagiário pra fazer tal serviço.” Aí eu falei: “Legal”, eu tava desempregado, falei, “vou”, aí fui pra lá e comecei a fazer. Foi em 1979, fiz esse serviço que foi coisa temporária, coisa de um  mês, dois meses, sei lá, aí eu saí, continuei desempregado. Entrei na Sevesim, mas se eu contar, vocês não vão acreditar, imagino que hoje ainda tenha esse serviço, só vou fazer esse parêntese que é interessante. Essa empresa prestava serviço pras agências de publicidade, então você tem lá cinema, televisão, rádio, revista, os meios de comunicação. Nosso trabalho era o quê? Tinha uma equipe que fazia consulta diária nos grandes jornais, não só de São Paulo, do Brasil inteiro, pra ver anúncios, tinha uma equipe que fazia levantamento na sala de cinema pra ver o que é que entrava de inserção de comercial de produtos, de serviços, etc., Tinha uma equipe que ouvia o rádio e gravava as fitas dos comerciais, como é que estava. Tinha umas salas com umas cabines, na verdade eram umas salas só com divisórias, então o cara ficava aqui, a televisão a mais ou menos um metro de distância quando muito, um fone de ouvido, um gravador de fita cassete, uma planilha pra anotar quando começava o programa, o nome, etc. Quando entrava o intervalo eu gravava e tinha que anotar todos os comerciais com o tempo, com os detalhes, se tinha uma menina, se tinha uma árvore, se tinha uma bexiga. Você tinha que anotar e gravar, depois de um dia ficava maluco porque fazia isso acho que em seis horas. Tinha, eu acho, duas turmas. Às vezes eu entrava seis horas e saía, tipo, uma hora da manhã porque tinha que acompanhar, anotar tudo e gravar tudo. Isso resultava em quê? Resultava num relatório pra cada um daqueles clientes porque aquelas inserções eram de uma determinada agência, por exemplo, a Volkswagen tinha uma agência X, não sei quem é que tinha a conta da Volkswagen, pra checar se aqueles meios de comunicação estavam veiculando os comerciais acertados com a Globo, com o SBT, com as emissoras de TV. Então esse era o nosso trabalho, era assim, cara, trabalho de louco. Chegou um tempo que eu não aguentava mais. As pessoas deliravam, mas tinha que fazer aquilo. Às vezes, cara, às vezes eu sonhava, pirado, acordava à noite: “Perdi o comercial do Jornal Nacional.”. [risos]

 

R – Aí eu fiquei um tempo lá, passei a coordenar a equipe que fazia isso, e fui responsável pela elaboração do relatório.

 

P/1 – Dentro dessa mesma empresa?

 

R – Dentro dessa mesma empresa, aí essa empresa faliu, porque a Nilsen [AC Nielsen], que é uma empresa americana, comprou e em 1982 faliu, mas a gente recebeu tudo, graças a Deus. Final de 1982 eu entrei no Dieese.

 

P/1 – Como que foi? Quem te chamou?

 

R – A Vera tava lá no Dieese e eu namorava a Vera, mas, eu já conhecia outras pessoas no Dieese, a minha entrada lá não foi por causa da Vera, essa segunda, porque eu já tinha trabalhado lá, os caras gostaram do meu trabalho e eu já conhecia outras pessoas. Antes disso teve o seguinte, eu trabalhei lá em 1981 na pesquisa de orçamento familiar a POF [Pesquisa de Orçamento Familiar]. Alguém já deve ter falado disso pra vocês, aí eles me chamaram pra fazer o campo da POF e fui fazer entrevistas eu e mais duas pessoas. Como eu já tinha trabalhado lá, enfim, o pessoal me incumbiu de fazer algumas pesquisas, algumas entrevistas que os demais entrevistadores tinham dificuldade ou não queriam fazer, de fato era barra pesada. Às vezes a gente entrava numas quebradas, numas bibocas, numas favelas bravas, eu vi coisas, assim do arco da velha, cara!

 

P/1 – Conta, conta um pouquinho.

 

R – Assim, ó, coisas deprimentes, como é que você chama? A gente ia na periferia, então eu me lembro de uma cena num fim de semana, quando era sempre mais fácil de encontrar as pessoas em casa, lembro de uma entrevista num bairro da periferia de São Paulo, lá para, não sei, Perus ou Pirituba. Fomos numa casa numa favela que a mulher tava doente na cama, não conseguia andar e sabe aquelas condições de higiene precaríssimas? Enfim, a gente via cenas assim. Também a gente fazia entrevistas no oposto que eram os bairros ricos onde os caras te batiam a porta (na cara). Aí que eu voltei pro Dieese em 1981 fazendo essa pesquisa da POF, mas continuava nesse emprego da Sevesim . O Dieese no fim de semana, eu fazia as duas coisas. Durante a semana eu trabalhava lá na Sevesim e de fim de semana eu fazia as pesquisas lá pro Dieese aí lá no final de 1982, eles chamaram pra trabalhar contratado.

 

P/1 – Quem te chamou?

 

R – Ah, bom...

 

P/1 – Você foi lá trabalhar...

 

R – Porque olha, eu já tinha trabalhado em 1979, fiz todo esse trabalho em 1981. Já conhecia um monte de gente no Dieese. Desculpe, a POF foi em 1982, essa pesquisa que eu falei aí foi uma pesquisa chamada Ppve [Pesquisa de Padrão de Vida e Emprego], essa de 1981. A POF vem depois. Aí eu fui chamado pra POF mas não mais pra ser entrevistador de campo, fui pra trabalhar interno, criticar os questionários, fazer a tabulação, fazer a checagem, checar a consistência dos dados. Depois disso me chamaram pra coordenar a equipe de crítica, fiquei na supervisão da equipe de crítica durante um período até...

 

P/2 - Você lembra como foi esse primeiro dia seu? Agora efetivo mesmo no Dieese, interno, porque já é uma experiência bem diferenciada, você já não está mais no campo, lidando o dia todo com pessoas.

 

R – O primeiro dia, ah, cara, eu não me lembro muito bem como é que foi o primeiro dia, eu me lembro de todo esse contexto porque eu tinha a experiência de pesquisa de campo, mas eu não sabia como era trabalhar no Dieese. O Dieese era uma instituição, sempre foi muito, muito respeitada. Todo mundo queria, todo mundo exagerando, mas muita gente queria trabalhar lá, principalmente o pessoal da área de humanas, então, assim, quando fui chamado e efetivado mesmo, falei: “Pô, será que eu vou conseguir?” Mas, assim, eu não me lembro de detalhes do primeiro dia não, só me lembro desse contexto, e aí me chamaram... “Vamos chamar você, vamos te registrar, você vai ser contratado pra trabalhar aqui, assim, assim, assado.” E foi assim.

 

P/1 – Silvério, essa pesquisa da Ppve, é uma pesquisa de campo. Vocês buscavam que tipo de dado?

 

R – Bom, Ppve era a Pesquisa de Padrão de Vida e Emprego, então eram dados sobre os domicílios das famílias, eram dados sobre emprego, sobre renda, sobre consumo, sobre onde as pessoas faziam as compras, no que mais gastavam, se iam ao cinema, enfim, era uma pesquisa pra captar a realidade das famílias paulistanas, desde a origem dos pesquisados até a renda, então se levantavam dados sobre a educação, sobre o trabalho, sobre rendimento, sobre a origem da família, quanto tempo está em São Paulo, se veio da área urbana, se veio da área rural, se veio do interior do Estado, se veio de outro Estado da Federação. Os dados de caráter pessoal, depois esses dados de renda, de trabalho, de educação, de saúde, previdência, tudo isso era levantado na Ppve.

 

P/1 – Vocês selecionavam um grupo de pessoas com que critério?

 

R – Nosso trabalho era no campo, pegar o questionário e ir a campo entrevistar. A definição da amostra, dos critérios estatísticos, era a equipe técnica que definia, estatístico, enfim, a equipe técnica que montou a pesquisa. O nosso trabalho era só fazer o questionário, ir lá no domicílio indicado, porque, claro, a gente ia com endereço...como, na Rua ABC número 12 no bairro de Piraporinha, então a gente chegava no endereço determinado pra entrevistar a família. Se a família se recusasse ou depois de ir lá duas, três, quatro vezes e nunca encontrar ninguém, tinha o critério de substituição que também não éramos nós quem definíamos, já vinha definido: “Você vai na Rua ABC, número 12, mas não foi possível fazer o número 12, você vai fazer no número” sei lá, “26”, por exemplo, mas tudo isso era definição da equipe. O trabalho de campo do entrevistador era fazer as entrevistas, preencher os questionários, e trazer os dados pro Dieese, pra equipe de crítica, de tabulação das informações, da consistência dos dados. O que eu fiz depois era assim, aí eu fui pra essa equipe de retaguarda, aí já era mexer com os dados mesmo, fazer a consistência, mas nessa fase de campo, o trabalho do entrevistador é esse, não tem interferência direta. Com o tempo e experiência o que ele vê no campo, obviamente vai dar subsídios e insumos pra equipe pra dizer: “Isso aqui, essa questão pode ser mexida, não é assim, pode, enfim, mas isso é coisa sempre a posteriori.

 

P/1 – E você disse que depois que entrou efetivamente começou a trabalhar na pesquisa de orçamento familiar.

 

R – Na POF. A POF é a Pesquisa de Orçamento Familiar, uma pesquisa que serve de base pra calcular o custo de vida, o Índice do Custo de Vida [ICV], o que se chama comumente de inflação, então nós fizemos a POF. O Dieese fez a POF em 1982, 1983. Comecei fazendo a pesquisa como entrevistador, porque veja bem a Ppve é uma pesquisa, a POF é outra, elas têm alguma semelhança, obviamente, mas têm naturezas e estruturas diferentes, foram feitas em períodos diferentes, então eu fiz em 1981 campo e em 1982, na POF, comecei ainda fazendo campo depois fui chamado pra trabalhar internamente. Fui fazer parte da equipe de crítica, trabalhei  um período como crítico, depois disso, o Chiquinho que era o cara que tava na supervisão da equipe de crítica, saiu, foi para a  Fundação Seade [Sistema Estadual de Análise de Dados] e eles me chamaram pra substituir o Chiquinho. Fiquei como responsável pela equipe de crítica até concluir toda a pesquisa, não só o campo, mas todo o processo de consistência, de tabulação, de geração dos resultados, pra poder calcular o índice.

 

P/1 – Silvestre, como que era o trabalho interno no Dieese? O dia-a-dia, a relação com as pessoas?

 

R – O Dieese nessa época era lá na Rua das Carmelitas, no centro, ali na baixada do Glicério e nós ficávamos na Rua Tamandaré na Liberdade, no Sindicato dos Químicos de São Paulo. Tínhamos um problema sério. Todo mundo que tava lá nos químicos, éramos todos do  Dieese, mas como tava separado fisicamente, a gente sempre se achava rejeitado: “Poxa, ninguém liga pra nós, você fica lá...” Sabe aquelas coisas? E a gente brigava, e batalhava, fazia assembleia [risos]. Todo mundo queria ser do Dieese a gente tava lá por quê?, Por que a gente ficava fora? Então isso era muito gozado porque tinha muita gente que tinha problema com isso. E nas discussões internas do Dieese, da equipe, a gente sempre enchia o saco: “Não, nós que ficamos lá separados, sozinhos, ninguém liga pra Ppve, ninguém liga pra nós, mas nós somos da equipe do  Dieese, tal...” [risos]

P/2 – Faz uma greve....

 

R – Isso aí durante toda a pesquisa, até o Dieese mudar aqui pro parque (Parque da Água Branca). Nós fomos os primeiros a vir pra cá. Daí eu já não tava mais, porque acabou a pesquisa e fui trabalhar no índice do custo de vida, na equipe que calcula o índice.

 

P/1 – Aí já era...?

 

R – Aí já era no parque. A gente veio pra cá em 1986, acho que fomos os primeiros, as primeiras pessoas que vieram foram da POF que estavam lá no sindicato dos Químicos, depois começou a vir gente lá da sede da Carmelitas, até acho que isso foi dito. Acho que a última leva que veio de lá foi em 1989, mas nós fomos os primeiros a ocupar aqui, vocês conhecem lá em cima?

 

P/2 – Sim.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou com o índice de custo de vida?

 

R – Isso foi 1986, fui trabalhar na equipe do índice propriamente, calcular o índice, atender pesquisador, enfim, fazer todo o trabalho do índice. Nessa época o coordenador era o Maurício, coordenou a POF, depois foi coordenador do índice, aí eu trabalhava com o Maurício. Deram um ano sabático pra ele, nessa época e ele foi lá pra Unicamp fazer um curso. Daí ele falou: “Então você assume a equipe do custo de vida”. Fiquei na supervisão do custo de vida até, acho, que 1989, 1990. Eu não era técnico, era auxiliar técnico, depois é que virei técnico quando fui pro índice de custo de vida.

 

P/1 – Você virou técnico por causa da formação ou por causa da experiência aqui dentro mesmo?

 

R – Das duas coisas. Primeiro não podia virar técnico porque não tinha concluído a graduação, eu só concluí em 1987, então eu virei técnico em 1988, acho que foi 1988, 1989. Até então trabalhava como auxiliar técnico, fazia parte da equipe de índice, mas era como auxiliar. Claro que do ponto de vista das atribuições e da responsabilidade, quando você é auxiliar técnico, você não pode falar em nome da instituição, enfim, tem lá algumas tarefas, algumas atribuições que são de técnico, que auxiliar não faz, auxiliar é mais suporte mesmo, e aí quando eu me formei, um tempo depois eu virei técnico, já tava na equipe do ICV [Índice do Custo de Vida]. O Maurício saiu e me chamaram pra coordenar essa equipe, aí fiquei coordenando o índice de custo de vida até, acho que, 1989, daí pra frente a história foi outra porque virei técnico. E digo que a história é outra porque até então meu trabalho era interno, não tinha nenhum trabalho externo, não fazia contato, ponte com o movimento sindical diretamente, era um trabalho de suporte, produção de informações através de um índice pra subsidiar àquelas pessoas. Os técnicos que negociavam, iam fazer palestra, iam fazer seminários, falavam pra imprensa, enfim, falavam em nome da instituição. Só a partir de 1989 é que eu comecei a fazer um trabalho de assessoria propriamente pro movimento sindical. Certamente das várias pessoas que deram depoimentos pra vocês devem ter falado alguma coisa sobre isso. Tem pessoas no Dieese que trabalham mais na retaguarda, na produção de informações de pesquisa, de análise, de produção de dados, etc. E tem um povo que fica mais na linha de frente que é o pessoal, que eu brinco, que dá a cara pra bater, então, vai pra sindicato, vai pra Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], vai fazer debate, vai pra televisão, enfim, e que essas coisas eu só comecei a fazer de 1989 em diante. 

 

P/1 – Mas Silvestre, nem todo mundo passa pra essa atividade com o sindicalista propriamente, você acha que isso tem a ver com o perfil?

 

R – Tem, tem a ver com o perfil. A formação, eu diria que pesa, mas um peso menor, porque no meu caso concretamente, eu não sou economista de formação O quadro funcional do Dieese é de economista e sociólogo. Tem outras ocupações, profissões, mas o grosso é economista e sociólogo, e do ponto de vista de assessoria, a maioria, sei lá, 95% das pessoas que fazem assessoria direta ao movimento sindical são economistas. Eu não sou economista, mas dentro daquilo que a gente faz, eu sou muito mais economista do que muitos economistas, mas aí por quê? Por causa da experiência e por causa do trabalho do Dieese. Eu não conheço a teoria econômica, o meu conhecimento é mais na prática e obviamente também de lidar com as informações, de fazer. Então isso que você perguntou, tem a ver com o perfil, tem um pouco a ver com a formação, e perfil conta muito, porque tem gente no  Dieese, por exemplo, que tem uma boa formação, um bom técnico, mas um bom técnico pra fazer o quê? Pra fazer pesquisa? Pra fazer análise, pra analisar os dados, pra escrever, assim como existem outros muito bons pra fazer atividades de educação, seminários, oficinas, cursos, mas não tem perfil pra ser assessor. Tem gente, por exemplo, que não tem perfil pra atender à imprensa, ir pra um debate, ir pra uma assembleia com 400, 500 pessoas, tem gente que...

 

P/1 – Não tem perfil.

 

R – Não tem. Um pouco do nosso trabalho do ponto de vista da inserção no Dieese, ou seja do trabalho de coordenação e supervisão requer um pouco disso. Não dá pra ser coordenador-supervisor do Dieese quem não seja uma espécie de “coringa”, ele não precisa ser especialista em educação ou especialista em pesquisa, mas tem que entender um pouco disso pra dar respostas, obviamente que no nível que é exigido. Então aí eu acho que é o perfil dos supervisores de uma maneira geral e também de alguns técnicos que negociam, que vão pra mesa de negociação, que vão pra Fiesp, que vão pra Febraban [Federação Brasileira de Bancos], que assessoram os sindicatos na discussão. Aí eles têm um pouco esse perfil.

 

Interrupção -  Continuação, entrevista TM 19. (troca de fita)

 

P/1 - Então, você tava falando que mudou pra assessoria sindical. Foi uma mudança bem grande pelo que você fazia, porque aí você tinha que lidar com os sindicalistas em nome do Dieese. Como é que foi?

 

R – É, teve, teve uma mudança que eu já tinha falado pra vocês, o meu trabalho era interno, eu não tinha que lidar com o público, até então eu não tinha. Lidava com o público, mas não era o público sindical propriamente, de dirigentes. Tinha as coisas das atividades internas do Dieese. A minha primeira experiência, eu me lembro, foi marcante porque foi a primeira vez que eu saí pra falar, pra fazer uma exposição, pra fazer uma palestra, isso foi em 1989, no Plano Verão lá do Governo Sarney em 1989, o Maílson da Nóbrega era Ministro da Fazenda. Me lembro que era   janeiro ou fevereiro, enfim, comecinho de 1989 eu fui fazer uma palestra. Sabadão, fui lá pra Itapecerica da Serra, era a subsede do Sindicato dos Marceneiros que coincidentemente o Joel que veio aqui hoje, não veio? O Joel coincidentemente era o presidente do Sindicato dos Marceneiros e era o presidente do Dieese ainda na época, eu acho. E aí eu fui lá pra fazer uma palestra sobre o Plano Verão. Tipo 10 horas da manhã, sabe aquele sábado de São Paulo meio chuvoso, tinha, um público, não tinha muito, tinha umas 30 pessoas, mas foi a primeira vez. O problema não era falar pra 30 pessoas, esse não era o problema maior, o problema maior era o seguinte: era a primeira vez e aí, é claro, dá um certo friozinho na barriga, mas o que é que eu avaliei, avaliei e avalio, não é nenhum sentimento aqui de prepotência, nada disso, mas se eu não mostrar segurança... e depois, quem tava ali falando era eu, aquela coisa, guardadas as devidas proporções, de professor e aluno, É claro que a gente não lida dessa forma, não é a nossa forma, não é o nosso jeito, não é o nosso método de trabalhar, mas você também não pode deixar transparecer que está trêmulo, que está inseguro ou coisa parecida, mas foi assim, consegui passar, fiz a primeira palestra, falei: “Bom, agora vamos que vamos.”

 

P1 – Quem eram as pessoas?

 

R – As pessoas...eram os dirigentes do sindicato, o pessoal da direção do sindicato, das subsedes e alguns delegados sindicais enfim, era um público só de dirigentes sindicais e apenas um ou outro trabalhador, era um público pequeno, umas 20, 30 pessoas, a sala era relativamente pequena, então não tinha muito mais do que isso, 40 pessoas, não.

 

P1 – E como é que era lidar com esses sindicalistas?

 

R – Hoje? Hoje você está falando ou naquela época?

 

P1 – Naquela época.

 

R – Naquela época era assim, essa coisa que eu falei, não tinha...

 

P1 – Que ano foi isso?

 

R – Foi 1989, essa minha primeira experiência, porque aí que eu falei: “Bom, agora eu sou, eu vou virar técnico efetivamente.” Porque a gente via que quando você era auxiliar técnico se nessa época, não é que nem hoje. Às vezes eu brinco com essa moçada que está chegando, que é estagiário, que é auxiliar técnico, eu falo: “Cara, 15 anos atrás, 20 anos atrás, não tinha essa história de estagiários, auxiliares, participarem das discussões da equipe técnica, a gente não participava. Tinha que brigar muito pra participar de uma reunião com a equipe técnica”. Por isso é que eu falei pra você que eu considero que aí virei técnico efetivamente. Já era técnico, mas trabalhava só internamente. Porque, claro, tem gente que gosta e eu gosto disso, eu gosto. Vocês podem perceber que eu falo pouquinho. Se deixar eu falo... Então assim, eu gosto, acho, sem falsa modestia, que sei lidar com os caras.

 

P1 – Mas como é que é lidar com os caras?

 

R – Então, o que é que ocorre? Eu acho que precisa primeiro saber que mundo é esse que você está pisando. Quem são os dirigentes sindicais? A média, claro, são pessoas de carne e osso que nem a gente, mas eles têm um outro jeito de ver as coisas, têm um outro jeito de lidar, eles têm uma formação, eles têm uma outra perspectiva, então, assim, os caras têm uma coisa que precisa ser valorizada que é a experiência de vida. Eles não têm o conhecimento teórico da coisa, mas têm a experiência de vida e é com isso que acho que você tem que saber como lidar e com isso, eu acho,  que lido relativamente bem, porque eu sei um pouco quem são os caras, como é que eles pensam, como é que eles veem as coisas, enfim, é um pouco você entrar nesse mundo deles, porque tem coisas que não adianta você, sei lá..., vou dar um exemplo concreto que é também uma coisa um pouco da Instituição  Dieese, que é o ponto de vista da linguagem. Não adianta você falar... fazer um discurso pros dirigentes sindicais, não adianta usar uma linguagem rebuscada, tá certo? O Dieese, e eu acho que isso é um diferencial fantástico, pega o “economês”, e traduz. Então eu acho que isso é uma coisa interessante. Isso não significa que você tem que abrir mão, mas orientar a tua linguagem, o teu vocabulário. Tem que ter interlocução pro cara.

 

P1 – E você trabalha com assessoria sindical desde 1989 até hoje?

 

R – Até hoje, isso, porque em 1989, aí eu fui trabalhar mais diretamente com os sindicatos, como técnico, depois, em 1997, fui coordenar o, na época não era, depois a gente transformou, que virou Escritório Regional de São Paulo. Era uma unidade de atendimento que a gente chamava de Secretaria de Atendimento Técnico. Na realidade fazia muito do que a gente faz hoje, é só a questão de nome mesmo... Ah, e é um trabalho muito mais amplo, quer dizer...

 

R – É. Mais amplo no seguinte sentido, quer dizer, enquanto trabalho técnico, continuei fazendo assessoria, fazendo palestra, participando de debate, indo pra reuniões com os sindicatos, fazendo atividades de educação, coordenando seminários, ajudando a coordenar, ajudando a executar seminário, fazendo trabalho de pesquisa também, escrevendo, etc, etc. Hoje, a função de supervisão te exige muito mais no seguinte sentido, quer dizer, você tem cada vez menos tempo pra fazer essa coisa de pesquisar, de ler, de escrever, porque tem que dar conta um pouco da questão institucional, de articulação política, do trabalho de visitar o sócio, de fazer filiação, de discutir dívida com o cara, de tentar convencê-lo a vir pro Dieese porque é legal, que a produção tá no Dieese, que o Dieese pode ajudar, tá certo? É isso que você falou, aí tem uma coisa, você também cria uma relação com o cara, tem sindicatos que, por exemplo, eu assessoro há cinco, seis, oito anos. Então se estabelece uma relação de confiança, a mesma coisa claro que não, mas um pouco como é que a subseção. Não sei se alguém já falou sobre subseção, que é a extensão do Dieese lá no sindicato e aí fica um técnico lá e o cara trabalha diretamente com aquela diretoria e é óbvio que você cria uma relação de confiança, né?

 

P1 – Então hoje você trabalha com assessoria e com o escritório regional?

 

R – Hoje é assim, eu sou supervisor do Escritório Regional de São Paulo. O que é o escritório regional de São Paulo? O Dieese tem a estrutura nacional, o escritório nacional cuja sede é aqui em São Paulo e tem os escritórios regionais. Estão previstas no estatuto as subseções. Subseções são unidades de trabalho no Dieese que ficam nos sindicatos, então qual é a função do supervisor? O supervisor monitora a equipe do escritório de São Paulo, a equipe que trabalha comigo, mais os técnicos da subseção no Estado de São Paulo e faz todo o trabalho de representação institucional do ponto de vista do Dieese em São Paulo, então, toda relação, toda a ponte entre o Dieese e o movimento sindical do Estado, ou seja, aqueles que são sócios. Esse tipo de trabalho, de demanda, elas necessariamente passam pelo escritório regional, então assim, sou também, não tem nenhuma modéstia nisso, eu sou no Estado de São Paulo, a pessoa que tem mais contato com os sindicatos, eu tenho muito mais que o Clemente, por causa da minha (exceção?), entendeu?

 

P1 – Então você no Brasil é a pessoa que tem mais sindicatos.

 

R – É, aqui tem a maioria e o Estado que tem mais sócios é São Paulo, né?

 

P1 – Então dentro de todo o Dieese, você é a pessoa que tem mais contato com os sindicatos?

 

R – Nacionalmente eu não sei, do ponto de vista individual talvez sim porque tem as centrais, tem as grandes federações, confederações, mas eu acho que sim, talvez eu tenha mais...

 

P1 – Como é pra você conciliar todas essas coisas? Muito trabalho no dia-a-dia, como é? Como funciona um dia normal seu de trabalho?

 

R – Um dia normal de trabalho? [risos] É muito cansativo, cara. Eu tô detonado, você olha pra mim, você acha que eu não tô. [risos] Não, assim, é brincadeira, é cansativo, é cansativo porque é o seguinte, cara, no  Dieese, a gente trabalha sob uma pressão danada. Uma pressão no externo e a gente também se autopressiona, porque temos que dar conta. A gente normalmente é muito exigente conosco, às vezes é estressante, mas é uma coisa que eu gosto, eu sempre gostei, eu gosto do meu trabalho, eu gosto do que eu faço, eu faço com prazer, tanto é que eu nunca, nunca cogitei de sair do Dieese, tenho 22, 23 anos de  Dieese, nunca cogitei. Não sei também se eu conseguiria outro emprego, mas são outros quinhentos. Mas eu nunca cogitei sair porque essa é uma coisa que eu gosto de fazer, eu gosto dessa coisa de lidar com o público, de falar de, enfim, disso que a gente faz.

 

P1 – O que é que é o Dieese pra você?

 

R – [risos]

 

P1 – É só um trabalho?

 

R – Cada pergunta que você faz. [risos]. Sério, você perguntou se é só um trabalho? Acho que não.

 

P1 – Por que as outras...

 

P/2 – O que significa pra você, pessoalmente, na sua vida...

 

R – Olha, eu vou te dizer o seguinte, eu tenho quase metade da minha vida no Dieese, então eu acho que isso em parte eu já respondo. Eu tenho quase metade e o Dieese pra mim não é só trabalho, é claro que é dali que eu tiro o meu ganha-pão, preciso, mas não é só isso, pra mim, trabalhar no  Dieese não é como trabalhar numa empresa privada, ou mesmo trabalhar no setor público, numa instituição pública, num órgão público. Porque é o seguinte: primeiro, tô falando por mim, mas o que eu tô falando aqui você pode estender para a maioria das pessoas, pelo menos da área técnica. Primeiro: eu acho que no geral todo mundo que trabalha faz um pouco do que gosta. Segundo: você não tem restrições, do ponto de vista de horário. Você faz um pouco o seu horário, o que significa trabalhar muito mais. Depois, você tem um leque amplo de relações, inclusive do ponto de vista de fazer outra coisa na vida, o Dieese eu acho, permite isso desde que você queira, corra atrás etc. A forma como as pessoas se relacionam no Dieese, eu acho que também é diferente, não quer dizer que não tenha problema, que não tenha conflito, que não tenha competitividade, claro que tem, como tem em qualquer local de trabalho. Eu acho o Dieese um pouco projeto, mas eu, por exemplo, não consigo me ver trabalhando em outro lugar. Eu acho que eu gosto do que eu faço e isso é um dado fundamental. Quando eu digo que trabalhar no  Dieese não é a mesma coisa que trabalhar em qualquer outra empresa e mesmo que em outra empresa você tem muitas condições de ascensão na carreira, de ganhar mais, só que eu acho que você não tem esse ambiente de trabalho e mais, quando eu digo que a gente faz o que gosta é que a gente, assim, a gente tem um lado. Que lado é esse? Eu acho que é o lado dos trabalhadores, é o lado do trabalho, não é o lado do capital. Você fala: “Pô, mas você fez opção pelos pobres?” Não é isso, mas eu não vou trabalhar pra uma empresa privada, então eu acho que isso faz uma diferença. Pra moçada que tá chegando, tem alguns caras que captam isso também, tem muita gente que, aí isso é menos na área técnica, mais na área administrativa, não é de hoje, eu diria que sempre foi assim, mas na área técnica o pessoal, o DIEESE é um pouco opção, não é no sentido de, no sentido de militância, é um trabalho profissional, isso eu não misturo isso.. “Já tô no  Dieese...” Não, não é isso, mas o trabalho que eu faço, eu não sei o resultado dele, como é que ele vai ser utilizado, aí é outra coisa, os sindicatos podem utilizar das mais diferentes formas, mas o que eu sei é o seguinte, o que eu tô fazendo é uma coisa que é para o trabalho, é para o trabalho e não pro capital.

 

P1 – E você acha que esse trabalho, não só o seu, mas o trabalho do Dieese como um todo é reconhecido pela sociedade?

 

R – Ah é, é porque a prova disso é a credibilidade que o  Dieese tem, a legitimidade e o respeito que o  Dieese tem, e o respeito que eu digo não só por parte do movimento sindical, mas por parte dos governos, dos órgãos governamentais, dos próprios empresários, as entidades empresariais, porque tem uma coisa, muitas vezes eles discordam e  tentam desqualificar, mas eles têm respeito, eles reconhecem que o trabalho do  Dieese é um trabalho técnico de qualidade que tem legitimidade, e que repercute. Quer dizer, qualquer coisa que o Dieese faça tem repercussão, e nesse sentido que tem reconhecimento e os empresários reconhecem isso, então eu acho que tem pra sociedade de uma maneira geral.

 

P1 – Você acha... qual que é a vossa opinião ...a perspectiva pro futuro do Dieese?

 

R – Vixe!!.

 

P1 – Assim, você acha que tem uma demanda das relações de trabalho?

 

R – Olha, é claro que eu poderia falar mais ainda, mas mudou. O Dieese que eu entrei, lá atrás como auxiliar técnico há 20 anos até os dias de hoje, obviamente, não é do ponto de vista da sua forma de gestão...

 

P1 – O que é que mudou, só um parêntese dentro dessa pergunta, quais foram as principais mudanças que vocês tiveram nesse período?

 

R – Por que é que mudou? Primeiro porque é um órgão eminentemente do movimento sindical ele é intersindical, ele é de dentro do sindicato. Os sindicatos mudaram, o trabalho mudou, o capital não mudou, continua o mesmo, mas você teve mudanças no chamado mundo do trabalho, na forma de organização do trabalho, a forma de produzir, enfim, e obviamente que os sindicatos mudaram, a economia mudou, a sociedade mudou, o  Dieese mudou. Então quando eu estou falando do ponto de vista do Dieese, isso que vocês estão fazendo é um exemplo. Não só hoje, mas a preocupação com a memória da instituição é uma coisa, mas, sei lá, quando o Dieese fez 40 anos, não existia o Museu da Pessoa, existia?

 

P1 – Existia.

 

P/2 – Existia, tinha cinco anos.

 

R – A gente não conhecia o Museu da Pessoa, mas é isso que eu tô falando, então, quando o Dieese fez 40 anos, esse trabalho que vocês estão fazendo poderia ter sido feito, mas isso decorre de quê? Decorre um pouco da gestão, quer dizer, decorre um pouco da preocupação. Muitas das coisas que estão sendo feitas hoje, seja por conta dos 50 anos dele ou não, é um pouco pela forma como o  Dieese tá sendo gerido, a forma de gestão. Então assim, do ponto de vista da linha filosófica de trabalho não mudou muito, o que a gente tem é o seguinte: a gente ampliou o horizonte temático de trabalho, isso não é de hoje, isso não é dessa gestão obviamente, mas isso vem dos anos 1990. Porque o mundo mudou, porque a economia mudou. Então a gente, o movimento sindical mudou e demanda do Dieese, a ampliação dos temas trabalhados, o  Dieese trabalha com a temática cada vez mais ampla. Hoje a gente produz mais, a produção técnica tá maior, maior do que era, eu acho que nós melhoramos do ponto de vista inclusive da qualidade da nossa produção técnica. A gente faz muito mais coisas, trabalha-se muito mais, quer dizer, trabalha-se muito mais, no sentido disso que eu falei agora a pouco, eu estou me referindo sempre mais à área técnica. Como cresceu a temática, cresceu a demanda, e não é só o trabalho técnico de produção, mas a exigência maior de articulação, entendeu? De ir atrás, porque, assim, uma demanda puxa a outra. Então eu acho que mudou, mudou, inclusive, a coisa da forma de se apresentar, o layout, aquela coisa toda, o logo, acho que a gente tá mais, não sei , a gente tá mais na mídia, mas a gente tá medindo a nossa inserção na mídia, isso eu acho que faz diferença, tá tendo um controle do ano passado (2005) pra cá, então a gente tá mensurando isso agora, que a gente chegou a fazer num momento ou outro mas pra subsidiar um pouco, pensar o  Dieese pra frente. Como o movimento sindical mudou, que é uma coisa do Brasil, da mudança dos anos 1990, da coisa do, do exercício da democracia e da história da ampliação dos espaços, dos fóruns de negociação e da história do tripartismo, isso também reflete no Dieese por demanda do movimento sindical, então o  Dieese também tá, sempre teve, mas cada vez mais presente nesses fóruns por delegação do movimento sindical, das centrais, então obviamente que a gama de demanda se amplia, os termos se ampliam.

 

P1 – Você tava falando da forma, assim, e esse próprio projeto, o que é que você acha de agora do Dieese fazendo esse movimento de reflexão, de retomada da história, enfim, nesse projeto nosso de memória?

 

R – Eu acho muito interessante porque é aquilo que eu havia falado, você não tinha, quer dizer, poderia ter uma ou outra pessoa que tivesse essa preocupação, mas agora a gente tá tentando colocar em prática, que é um pouco resgatar, preservar, documentar a memória da instituição, a história do  Dieese e o  Dieese tem muita história e também tem um dado que eu acho que é interessante pra você que é historiador, Marcelo, que tem muita coisa oral. A história oral. Eu imagino que os depoimentos, os vários depoimentos devem ter revelado um pouco isso, porque aí também, Carol, que importância tem uma cartinha datilografada lá em 1980 que veio pro Dieese. Hoje você fala: “Veio porque é assinada pelo Lula “, por exemplo, mas pode ter sido por outro, mas é, entendeu? E eu acho que isso também é parte do processo de globalização da instituição. Quando você está contando a memória, tá resgatando, tá juntando documento, é organizar também, acho que nisso também a gente tá mudando. O Dieese é do movimento sindical, não tem como ser diferente, você acaba de certa forma reproduzindo algumas práticas. Essa preocupação com a organização. Isso de alguma forma refletia no Dieese, eu acho que a gente, diga-se de passagem, se comparados com o movimento sindical, com as entidades de uma maneira geral, somos super organizados. Mas eu acho, assim, super válida essa coisa, o projeto aí pra resgatar a memória, pra contar, enfim, pra ficar registrado. E tem muita gente aí que tem muita história pra contar. Eu não sei como é que foram os dirigentes aí, mas...

 

P1 – A gente ainda tá entrevistando algumas pessoas e a gente queria saber o que é que você achou de ter participado desse projeto?

 

R – Ah, eu gostei, eu achei legal, quem foi que me ligou? A Nádia? Eu falei: “Pô, mas o que é que é pra contar?” Tá, claro que era brincadeira. Era pra contar casos? Se for pra contar casos eu não vou conseguir lembrar. Não, mas assim, eu gostei, acho legal, também gosto de falar, acho que foi a primeira vez, assim, pra falar dessa forma, falar um pouco da minha história no Dieese, um pouquinho da minha história pré-Dieese que eu nunca tinha falado. Quando o  Dieese fez um vídeo institucional que vocês devem conhecer, eu não pude participar porque no dia que estavam gravando, eu estava viajando, tava numa atividade fora, então eu não fiz, eu fiquei, não digo frustrado, mas eu queria ter participado, ter contado isso lá, isso pro  Dieese 40 anos, então, assim, foi bom, gostei de ter participado, de ter falado com vocês.

 

P1 – Que bom, obrigada.

 

P/2 – Valeu, foi muito boa.

 

R – Não sei se eu consegui...

 

P/2 e P/1 – Não, tá ótimo.













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