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História

Uma nova cidade, um novo trabalho

História de: Paulo da Cunha Vaz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/12/2004

Sinopse

Paulo passou parte de sua vida morando na fazenda onde nasceu e trabalhando com o pai e os irmãos. A situação financeira da família se tornou difícil depois da morte do pai e problemas de saúde o impediram de manter-se no trabalho rural, então ele decidiu se mudar para Franca, cidade próxima, com a mãe e um sobrinho. Um novo emprego na CBTC e um curso superior o fizeram entrar no ramo da telefonia. Nesta entrevista, ele nos conta sua história.    

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História completa

P/1 – Boa tarde, Sr. Paulo. Para começar eu queria que o senhor me dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Paulo da Cunha Vaz, nascido em São José da Bela Vista em 1/1/1944.

 

P/1 – O nome de seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – Erundino Francisco Vaz e Maria Carrijo da Cunha Vaz.

 

P/1 – O senhor conheceu seus avós?

 

R – Meus avós, não.

 

P/1 – Dos dois lados?

 

R – Dos dois lados, não.

 

P/1 – Mas saberia dizer o nome deles?

 

R – Saturnino Carrijo da Cunha, Francisco José Vaz. As avós não lembro.

 

P/1- O senhor tem notícia se seus avós eram da região mesmo?

R – Eram da região mesmo. Nascidos e criados na região de São José da Bela Vista.

 

P/1 – Qual era a atividade de seu pai, Sr. Paulo?

 

R – Lavrador.

 

P/1 – Terra própria?

 

R – Não, empregado.

 

P/1 – O senhor tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – São quantos?

 

R – São oito irmãos.

 

P/1 – Incluindo o senhor?

 

R – Comigo nove.

 

P/1 – Lá em São José da Bela Vista o seu pai trabalhava em lugares diversos ou era fixo em uma?

 

R – Era fixado em uma determinada fazenda, inclusive eu nasci em uma dessas. Depois ele mudou para outra e a última fazenda [em] que eu morei, moramos lá dezesseis anos. Foi onde ele faleceu, em 1958, e em 1972 eu vim pra Franca. Eu, minha mãe e mais um sobrinho que morava com a gente.

 

P/1 – Essa primeira fazenda onde o senhor nasceu, o senhor se lembra o nome dela?

 

R – Fazenda Califórnia.

 

P/1 – Que tipo de atividade seu pai tinha lá na fazenda?

 

R – Tocava café, era meeiro.

 

P/1 – O café era muito forte na região, nessa época?

 

R – Era. Nessa fazenda tem muito cafezal ainda hoje, produz muito.

 

P/1 – Nessa fazenda, onde a família morava?

 

R – Em uma colônia. A fazenda tinha cinco colônias, e nós morávamos em uma dessas. Na última casa, ainda me lembro.

 

P/1 – Tinha nome essa colônia?

 

R – Colônia dos Mangues.

 

P/1 – Quantas pessoas viviam ali mais ou menos, o senhor faz ideia?

 

R – Em torno de umas cinquenta pessoas, nessa colônia.

 

P/1 – Como era essa colônia, como ela se estruturava? Era uma vila, como era?

 

R – Não, não. Era em torno de umas nove casas. Naquela época não tinha água encanada, tinha uma mina d’água onde todo mundo ia colher água pra tomar, pra tratar das criações. Todo mundo tinha uma horta no quintal, criava galinha, mais ou menos isso. 

P/1 – E sua casa, o senhor poderia descrevê-la?

 

R – Era de chão, não tinha piso. Naquela época era só o chão mesmo. E os móveis bastante _________. Naquela época eram móveis feitos pelas próprias pessoas que moravam lá. Guarda-roupa não existia, [a roupa] era pendurada num varalzinho. Era isso. Colchão era de palha de milho, travesseiro de pena de galinha.

 

P/1 – O seu pai trabalhando e sua mãe, qual a atividade dela?

 

R – Era costureira. Ela costurava pra família e também pra fora. Calça e camisa era o que ela costurava.

 

P/1 – E nessa casa, Sr. Paulo, com o seu pai trabalhando e sua mãe trabalhando, os irmãos, os filhos tinham algum tipo de responsabilidade, alguma atividade? Ajudavam na casa?

 

R – Todos trabalhavam, tanto os de sexo masculino como os de sexo feminino. Todos trabalhavam na roça, na agricultura.

 

P/1 – Ah, iam para a roça?

 

R – Iam para a roça.

 

P/1 – Quando o senhor começou a ir para a roça?

 

R – Eu tinha sete anos de idade. Ia na parte de cedo, porque eu estudava na parte da tarde. De manhã cedo eu tinha algumas atividades que eram de responsabilidade minha: aguar a horta, buscar água na mina, tratar de galinha, recolher ovo. [Às] nove horas saía o almoço, levava o almoço, ficava trabalhando até em torno de meio-dia, dez para meio-dia, mais ou menos, Depois vinha embora, tomava um banho e ia para a escola. Eu estudava na parte da tarde. Isso foi em 1952, 53 e 54. Depois disso parei de estudar e voltei a estudar de novo quando vim pra Franca.

P/1 – E que horas o senhor acordava nesse período?

 

R – Seis horas da manhã, seis e meia já estava em pé.

 

P/1 – Qual era o seu segredo do seu trabalho? Para aguar a horta tinha que pegar água na mina.

 

R – Não, pra aguar a horta não. Tinha um rego d’água e tinha a bica. A gente pegava água ali mesmo. Na mina a gente pegava só pra beber, pra cozinhar, tinha que pegar lá na mina.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor tinha essa atividade matinal, depois o senhor ia levar o almoço pro pessoal lá na roça?

 

R – Isso, isso.

 

P – Como o senhor levava essa comida pra lá?

 

R – Minha mãe colocava no caldeirão, punha numa capanga, que a gente falava, e levava daqui lá. Levava o almoço pra três, quatro pessoas. O almoço era nove horas; terminava de almoçar já começava a trabalhar. Ali pelas duas horas tinha a merenda e trabalhavam até enquanto tinha sol.

 

P/1 – Essa capanga, como era mesmo?

 

R – Ela era feita com esses sacos que vem com açúcar. Antigamente o açúcar vinha em sacos de sessenta quilos, então usava o açúcar e aproveitava a embalagem pra fazer a capanga. 

 

P/1 – E era muito distante a sua casa até onde o pessoal estava trabalhando?

 

R – Não. Era em torno de um quilômetro, menos ou mais, variação pequena.

P/1 – E o que se comia nesses almoços?

 

R – A gente comia verdura que produzia na horta, verduras de folhas, legumes, carne. A gente criava porco, matava. Quando acabava a carne matava outro, e assim por diante. Carne de vaca, dificilmente. Mais era carne de porco e galinha, carne de frango tinha direto também.

 

P/1 – Tinha luz elétrica ou não?

 

R – Não.

 

P/1 – E quando se matava o porco, como se conservava?

 

R – Ele era frito em tachos de cobre e guardava em latas de vinte litros com tampa, punha a gordura com a carne no meio e tampava. 

 

P/1 – Deixava a gordura solidificar, né?

 

R – Isso, isso. 

 

P/1 – Que tipo de verdura tinha lá na sua horta?

 

R – Tinha alface, almeirão, chicória, couve, pimentão, jiló, berinjela. Tinha bastante coisa.

 

P/1 – Tudo. E era pra consumo próprio da família?

 

R – Era consumo próprio. Todos os moradores de lá tinham a horta. 

 

P/1 – Quer dizer, cada família tinha a sua?

 

R – Cada família tinha a sua.

P/1 – Sr. Paulo, e a escola, como o senhor começou a estudar nessa fazenda?

 

R – A escola funcionava de... O nome da escola era Escola Mista Fazenda Santa Isabel. Então lá estudava primeira, segunda e terceira séries. Todo mundo juntos. 

Carteira era de se sentar de dois. Homem e menina, tudo misturado, sexo masculino e feminino, tudo junto. E o primeiro ano da escola, eles falam que o primeiro ano é o alicerce do ensino. Eu tive sorte porque do meu lado sentava um japonezinho e ele já estava fazendo a terceira série, então ele me ajudou muito no início. Depois daí não tive muita dificuldade. Naquela época não tinha prova, a gente estudava o ano todo e prestava o exame final. Ia outro professor, de outra localidade pra fazer o exame final. 

 

P/1 – O senhor se lembra de um professor ou professora que tenha ficado marcado na sua lembrança?

 

R – Não, lá foi uma única professora, Tercília Guedini Tozzi. Ela era proprietária da fazenda onde tinha a escola e ela lecionava pra todo o pessoal, era professora única.

 

P/1 – Severa, boa...

 

R – Um pouco severa, sim. Tolerável, não tive dificuldade, não.

 

P/1- Como ela manifestava essa pouca severidade que o senhor se refere?

 

R – Na escola, naquela época, não tinha esse negócio de conversar. Você entrava, só quem falava era o professor. E você, só se tivesse dúvida levantava a mão para fazer a pergunta. Do contrário, só quem falava era a professora. Se chegasse um visitante era todo mundo de pé até que ela mandasse se sentar. Se precisasse ir ao banheiro, era a mesma coisa. Não tinha conversa, quem falava era a professora mesmo.

 

P/1 – Quem transgredisse essas regras?

 

R – Tinha castigo, ficava de pé lá na frente e depois era aquela gozação dos colegas.

 

P/1 – Ficava de pé, olhando de costas?

 

R – Ficava de frente. Ficava encostado na lousa de frente pra classe. Cinco ou dez minutos, ela determinava o tempo. Se você não copiasse a matéria que ela ia passando, você não tinha recreio, ficava lá até terminar de copiar a matéria.

 

P/1 – E depois da escola, vocês estudavam até que horas?

 

R – Até as quatro horas da tarde. Depois das quatro horas ia pra casa e era só diversão. Ia brincar, correr, soltar pipa.

 

P/1 – Sr. Paulo, eu queria que o senhor falasse especificamente sobre esse aspecto. Uma criança que está trabalhando pela manhã, acordou cedo, foi pra escola, cheia de responsabilidade, brincava como, se divertia como?

 

R – Na colônia tinha várias crianças, naquela época os brinquedos a gente que fazia mesmo, não tinha nada comprado. Então a gente fazia estilingue, fazia carrinho, mandava fazer as rodinhas de madeira. Pipa era a gente que fazia. Soltar pipa, brincar de esconde-esconde. Tinha vários tipos de brinquedo. Pular corda, essas coisas assim.

 

P/1 – Tinha muito espaço? 

 

R – Ah, isso tinha bastante. Isso aí até a noite adentro. Enquanto os pais não chamavam [a gente] estava lá na brincadeira. Uma coisa que a gente [se] divertia bastante - quer dizer, pra mim foi bom - é que minhas irmãs não estudaram. Elas não sabiam nem ler nem escrever. E como eu era o caçula da família, eu sabia ler e escrever, eles compravam livros de estórias, essas coisas, pra eu ler pra elas ali. Enquanto elas ficavam bordando elas ficavam ouvindo as estórias, romances, aquelas coisas que eu lia pra elas. Isso também me ajudou bastante.

 

P/1 – O senhor se lembra de algum livro especial que o senhor tenha gostado de ler? Que tenha lhe marcado na lembrança?

 

R – Não, não lembro. (pausa) Tem uma passagenzinha de um livro, nem sei que livro que era, de um menino que se perdeu quando era criança. Estava na companhia do tio, passeando; o tio se entreteu lendo e essa criança desapareceu. Mais tarde essa criança se formou médico, numa outra família, e foi tratar do tio que estava doente. Isso foi uma coisa que eu lembro, mas nem sei mais que livro que era. Não me recordo.

 

P/2 – Sr. Paulo, as meninas não estudaram por que? Seu pai que determinou?

 

R – Isso. Eles achavam que mulher não precisava estudar. Quem estudava eram só os homens. E meus irmãos mais velhos também não tiveram oportunidade de estudar, porque na primeira fazenda onde eles moraram, a fazenda anterior, não tinha escola. Então eles estudaram pouco, o suficiente, mas não chegaram nem a terminar a primeira série.

 

P/1 – O senhor disse que o senhor ficava lendo pra suas irmãs enquanto elas bordavam. Isso à noite?

 

R – À noite, no claro da lamparina - não tinha luz, né?

 

P/1 – Em que parte da casa elas ficavam?

 

R – Ficavam na cozinha. Não tinha televisão, era apenas rádio. Elas preferiam ouvir a leitura.

 

P/1 – Rádio à pilha?

 

R – À pilha.

 

P/1 – E tinha algum programa que eles gostavam de ouvir, a família?

 

R – Mais era a música sertaneja na Rádio Tupi, os programinhas do Zé Betio.

 

P/1 – E até que horas ia essa função de noite?

 

R – O programa da rádio começava às oito e terminava às nove. A leitura era até lá pelas dez, dez e pouquinho.

 

P/1 – E aí se fazia um lanchinho pra dormir?

 

R – Não, não. Direto. Só tomava uma água ou um cafezinho.

 

P/1 – E sua mãe também tinha alguma atividade? Ajudava suas irmãs, era bordadeira também?

 

R – Ela costurava. Ela fazia alguma coisa, farinha de mandioca, essas coisas assim, polvilho... pra merenda durante a semana. Ela fazia broinha, biscoito, pão, essas coisas assim.

 

P/1 – E as festas, Sr. Paulo? Tinha festas na fazenda, festas religiosas, datas importantes?

 

R – Tinha. As festas juninas, Santo Antônio, São João e São Pedro. Tirando isso, dificilmente tinha uma festa na fazenda. Lá não tinha. Tinha uma capelinha e semanalmente, quase todo dia tinha terço às seis e meia, sete horas, de modo de quem quisesse ir, podia ir que tinha. Mas festa mesmo na igrejinha, dificilmente teve. Que eu me lembre, nunca teve. Tinha nas fazendas próximas.

P/1 – Essas festas juninas que o senhor se referiu, como era?

 

R – Era baile. Rezava o terço, soltava fogos e depois tinha o forró a noite toda.

 

P/1 – Fogueira, batata doce?

 

R – Isso tudo tinha: fogueira, batata doce, quentão.

 

P/1 – O senhor ficou nessa fazenda até quando, Sr. Paulo?

 

R – Até 1972. Fevereiro de 1972.

 

P/1 – E o senhor já tinha?

 

R – Eu tinha 27 anos.

 

P/1 – E saindo de lá?

 

R – Saindo de lá eu vim para Franca. Era eu, minha mãe e um sobrinho que morava com a gente, foi criado com a gente. Aí eu vim trabalhar no Amazonas, produtos para calçados.

 

P/1 – Desculpa, antes do senhor contar esse episódio, qual foi o motivo da família sair da fazenda e vir para Franca?

 

R – Melhora de vida, porque na fazenda estava difícil demais. Na época, os últimos anos que a gente morou lá, a gente plantava batata, feijão, milho, arroz, além do café. Mas quando vendia, não recebia; ia recebendo aos poucos. O dinheiro sumia e você não conseguia fazer nada. Eu sempre tive vontade de sair de lá e comprar uma casa e vir morar sem pagar aluguel. Mas não teve jeito, tive que alugar uma casinha e morar de aluguel.

 

P/1 – Quem eram esses compradores que não pagavam, vocês vendiam pra quem?

 

R – Cada cereal vendia pra uma pessoa. Batata por exemplo, a gente tinha um turco lá em São José que comprava. E tinha os compradores que vinham de fora também - Vargem Grande do Sul, Andradas, de São Paulo. Eles vinham com caminhão,  compravam e levavam. Esses que vinham de fora pagavam; agora esses que compravam, de São José, geralmente eles pediam prazo. E o prazo deles era assim... 

Batata como era um produto que você não pode estocar, você tem que colher e vender, então você tem que colher e vender para o primeiro comprador que aparecer. No milho no caso, era difícil achar um comprador. Não tinha, na época, quem comprasse. Quando aparecia um você tinha que vender, te dava um pouco de dinheiro, iam pagando aos poucos. E quando não aparecia comprador pra vender pra fora, o próprio fazendeiro ficava com a mercadoria e ia vendendo conforme ia aparecendo quem interessava pela mercadoria.

 

P/1 – Nesse período ainda na fazenda, antes de vir para Franca, o senhor costumava ir à cidade, passear?

 

R – Ia. Depois que eu peguei uma certa idade eu comprei uma bicicleta - o caminho de locomoção era a bicicleta, então todo sábado... Meu sobrinho era sanfoneiro, todo sábado tinha baile e ele ia. A gente ia junto. Dançava a noite inteira, domingo tinha futebol, corria atrás de uma bolinha.

 

P/1 – Era muito distante a fazenda de São José?

 

R – Sete quilômetros. Estrada de chão, não tinha asfalto. Hoje tem asfalto, da fazenda, corta. O asfalto vai de Franca à São Joaquim da Barra, passa pela fazenda lá.

 

P/1 – E na cidade, quando vocês iam nos finais de semana, vocês ficavam onde lá?

 

R – Ficava na praça. Na praça reunia as pessoas. Hoje já não existe mais aquilo lá, mas na época os moços andavam fazendo um círculo, os moços pra um lado e as mulheres no sentido contrário. Ficava andando, né, até achar uma lá e... (risos)

 

P/1 – E como era São José da Bela Vista nessa época, a cidade?

 

R – Era uma cidade pequena, as ruas não eram asfaltadas. Rede de esgoto não tinha, foi feito mais ou menos em 1968,70. Em seguida veio o asfalto. No mais, era mesmo a praça e os barzinhos. Uma cidadezinha pequena.

 

P/1 – Tinha cinema?

 

R – Tinha um cinema.

 

P/1 – O senhor gostava de ir ao cinema?

 

R – Ia algum dia, nem sempre.

 

P/1 – Mas saindo da fazenda pra ir passar o sábado à noite, o senhor dormia na cidade ou voltava pra casa?

 

R – Nós dormíamos no baile mesmo, ficávamos a noite inteira lá no forró. Dificilmente falhar um sábado, todo sábado tinha. Quando não tinha era numa fazenda ou outra.

 

P/1 – Eu perguntei isso pelo seguinte: no domingo já emendava no futebol?

 

R – Normalmente ia em casa, dormia até lá pelas dez, onze horas, meio-dia. Depois do almoço a gente ia pro futebol e de lá já ficava na praça.

 

P/1 – E voltava de bicicleta à noite?

 

R – Voltava de bicicleta à noite. Lá pelas onze horas, meia-noite estava chegando em casa.

 

P/1 – Seu pai e sua mãe não colocavam nenhum obstáculo?

 

R – Nessa época, meu pai já era falecido e minha mãe não falava nada porque aquilo era diversão de todo o pessoal. A gente não ia sozinho, ia com os vizinhos. Não tinha problema, não.

 

P/1 – E esses bailes eram de música ao vivo? 

 

R – Música ao vivo. Lá tinha vários sanfoneiros; um cansava, outro pegava. Tinha o lanche.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Lá pela meia noite eles paravam e serviam o chá. Um cafezinho, bolinho, rosquinha, pau-a-pique que eles falavam, é feito de fubá com amendoim. Gostoso, nunca mais comi.

 

P/1 – Pão de pau-a-pique?

 

R – Pau-a-pique que chamava. 

 

P/1 – Fubá e amendoim?

 

R – Fubá e amendoim.

 

P/1 – E não tinha bebida alcoólica?

 

R – Dificilmente. Bebida alcoólica tinha, mas poucos os que bebiam. Eu nunca me interessei em bebida.

P/1 – Nessa época, o senhor já tinha parado seus estudos?

 

R – Já. 

 

P/1 – E não tinha uma vontade de estudar?

 

R – Tinha. Na época, quando terminei os estudos, eu queria até estudar para padre. Mas meu pai disse: “Não vai, não. Você tem que ficar aí e ajudar a família. Logo logo as meninas estão casando e você tem que ficar aí pra ajudar.” Depois, infelizmente, ele ficou doente, não teve jeito. Meu irmão que ficou tomando conta da casa. Na época, ele estava com dezenove anos e eu estava com doze, aí a gente tinha que trabalhar mesmo pra ajudar a família.

 

P/1 – Da onde veio essa vocação religiosa?

 

R – Meus pais não acompanhavam assim, religiosamente não, mas eles tinham aquela devoção e eu continuei. E se a gente acredita em alguma coisa, a fé. Não dizem que a fé remove montanha? E eu acredito que isso é o certo, Deus tem me ajudado bastante. Sempre quando aconselha alguma coisa, a gente acaba conseguindo. Não sei se é persistência, insistência...

 

P/1 – Tudo isso junto. E na falta do seu pai, como ficou o cotidiano da casa? Como a família se recuperou e como ela deu jeito na vida?

 

R – Continuou, porque na época que ele ficou doente, ele ficou internado nos Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto mais de três meses e o serviço que ele tinha pego a gente continuou tocando normalmente. Não vencia, porque a quantidade de serviço era muito, a gente ia tocando na medida do possível. Os vizinhos ajudavam um pouco, iam lá, capinavam um pouco, fazia mutirão, que eles falavam. Fizemos uns dois mutirões e na época da colheita, graças a Deus teve uma colheita muito boa, conseguimos pagar todas as dívidas, porque ele devia demais, mas muito mesmo. Graças a Deus, naquele ano pagamos todas as dívidas e ainda sobrou um dinheirinho. Continuou a vida normal, minha mãe tinha pulso forte. Tinha que trabalhar, fazer isso e tal. Graças a Deus, deu tudo certo.

 

P/1 – Essa lavoura principal era a lavoura do café?

 

R – Do café.

 

P/1 – Como é uma lavoura de café? Como ela se estrutura, o que o senhor tem que fazer nela para ela render bem?

 

R – O segredo do café eu não entendo bem, mas o que nós fazíamos lá era o seguinte: jogar esterco, podar. Todo ano tinha a poda depois da colheita; tinha uma época, dependendo da lua. Eles que entendiam, eu não entendia muito bem. Mas fazia a poda, cortava aqueles galhos que achavam que não produziam mais. Desbrotar, porque aqueles brotos novos não produzem, jogar esterco e esperar a chuva. Colher cedo. O segredo é esse, porque em agosto já tem a florada do próximo ano, então tem que colher antes, pra quando vir essa florada não estragar essa florada do próximo ano.

 

P/1 – Colher o fruto antes de agosto?

 

R – Isso, isso. Colher o fruto antes de agosto. Mas normalmente a gente começava a colher no mês de maio e [em] junho e julho já estava tudo colhido.

 

P/1 – Tem que manter limpo?

 

R – Tem que manter limpo. Lá no cafezal, a gente plantava milho no meio. Milho, arroz e feijão. Plantava feijão da seca, que a gente fala; no início de fevereiro plantava feijão, quando era sessenta, setenta dias, estava colhendo. Depois a gente fazia “ruar o café”, a gente ia ajuntar o cisco todo numa lerinha e ficava tudo limpo debaixo dos pés de café, pra poder fazer a colheita.

 

P/1 – E essa plantação outra, tipo feijão, era no meio das valas de café?

 

R – Isso, entre as ruas, a gente plantava isso.

 

P/1 – Sr. Paulo, o senhor falou que plantava também arroz. Como era, arroz no seco, arroz de sequeiro?

 

R – A gente fazia as covas, punha as sementes e com a chuva... a gente plantava, normalmente no fim de outubro estava tudo plantado. Então novembro, dezembro, janeiro e fevereiro estava colhendo. 

 

P/1 – Aí plantava feijão?

 

R – Aí plantava feijão, colhia o feijão e depois já vinha a colheita do café.

 

P/1 – Aí que era o grande trabalho do ano.

 

R – Não, mas o trabalho era o ano todo, porque tinha as capinas. Constantemente estava tendo serviço, nunca falta serviço.

 

P/1 – O que eu quero dizer é que em maio, as vésperas da colheita do café, mobilizava mais as pessoas.

 

R – Mobilizava mais na época da colheita do arroz. O arroz não pode ficar muito tempo, ele tem uma época certa. Você tem que colher, se não ele passa da época de maduro e na hora que vai limpar ele quebra tudo. 

Quando vai colher o arroz, ajuntava todo o pessoal da colônia e num dia colhia pra um, noutro dia colhia pra outro. Assim, feito os mutirões. Isso era feito também na colheita de batata. Na batata também a gente fazia isso, reunia tudo pra colher de uma pessoa, depois da outra e assim, sucessivamente.

 

P/1 – Isso era dividido com o proprietário da fazenda, como era?

 

R – É, metade e metade. Metade para o fazendeiro e metade para o produtor.

 

P/1 – Como se dava esses mutirões, quem organizava?

 

R – As próprias famílias mesmo. Uma família falava: “O meu já está maduro, preciso colher. A do senhor vai esperar uns dias…” Aí determinava de qual ia colher primeiro.

 

P/1 – Então havia uma boa harmonia entre os colonos? 

 

R – Ah, existia sim. Era praticamente uma família.

 

P/1 – Esses mutirões, o que tinha de especial, as pessoas cantavam?

 

R – Não, não. Não tinha nada de especial não.

 

P/1 – Por exemplo, quando o senhor ia fazer o mutirão para o S. Antonio, servia comida?

 

R – Servia, a comida era por conta dele. Talvez uma carninha diferente, um arroz doce, que era o tradicional.

 

P/1 – E em uma situação dessa, em quanto tempo se resolvia uma colheita?

 

R – Aí ia depender da quantidade. Uma família planta mais arroz que outro cereal qualquer, outra já planta mais milho, aí depende.

 

P/1 – E tinha algum tipo de partilha do produto da colheita? Quer dizer, o senhor colheu trinta sacos de arroz, mas o outro colheu noventa, mais os dois participaram do mutirão.

 

R – Não, aí era só de quem plantou com o fazendeiro. Os dias eram acertados à parte. Vamos supor que eu trabalhei dois dias para uma pessoa e ele trabalhou um dia só para mim; aquele dia ele ia me pagar em dinheiro.

 

P/1 – Então tinha uma organização?

 

R – Era troca de dias. Eu trabalho pra você e depois você trabalha pra mim; era só para organizar, para sair mais rápido a colheita.

 

P/1 – Agora no café já não era...

 

R – No café não, cada um colhia o seu, era separado. Aí o negócio não tinha muita pressa, você tem dois, três meses de prazo para colher, então cada um ia colhendo o seu.

 

P/1 – Mas nessa colheita que o senhor lembrou, que seu pai estava no Hospital das Clínicas, por ter sido uma colheita grande deve ter dado um trabalhão?

 

R – Deu, aquele ano deu muito trabalho. A gente, na época… Houve um problema. Essa fazenda tinha sido vendida e a pessoa que comprou… Eles tinham comprado numa sociedade de três pessoas. Um deles desistiu do negócio e dois só não conseguiram ficar com a fazenda, então eles entregaram uma parte da fazenda e ficaram com outra parte. A lavoura que meu pai tocou naquele ano, metade ficou para um fazendeiro e metade para outro. Só que aquele fazendeiro que pegou a fazenda de volta, ele não nos auxiliou em nada. Ele falou que nós éramos empregados do outro e não ia ajudar em nada, então quem nos sustentou durante o ano todo foi o fazendeiro que tinha contratado meu pai. Foi ele que... E tinha uma venda também perto da estrada, o vendeiro sustentou a família até a colheita. Lá a gente comprava açúcar, querosene, sabão; tudo que precisava pra uma casa a gente ia lá e pegava, pra acertar quando fizesse a colheita.

 

P/1 – Daí eram essas dívidas que o senhor falou?

 

R – Isso, além da dívida do meu pai com a doença dele - a gente tinha que comprar medicamento, essas coisas. A gente andou pegando dinheiro com um e com outro, depois ele acabou falecendo e com o falecimento a gente teve despesa também, mas graças a Deus, deu.

 

P/1 – A colheita que segurou essa...

 

R – Foi, foi sim.  A colheita daquele ano foi suficiente para pagar todas as dívidas.

 

P/1 – E foi depois desse momento que a família resolveu sair da fazenda?

 

R – Não, isso foi em 58 e a gente ficou até... Meu irmão casou, continuou morando na fazenda também e eu diminuí a lavoura que a gente tocava; dividiu entre eu e ele, eu fiquei com uma parte e ele ficou com uma outra. As minhas irmãs também casaram; ficamos eu, minha mãe e um sobrinho que morava com a gente. 

Então eu resolvi mudar. Eu tinha vontade de continuar estudando e também teve uma época que peguei um resfriado muito forte e fui ao médico. O médico que me atendeu me disse que eu tinha sopro no coração, que provavelmente eu nasci com isso. “Não quer dizer que você vai morrer do coração, mas é bom você não se esforçar. Serviço pesado você não faz, cortar de machado, andar de bicicleta.” Várias coisas ele falou pra maneirar e procurar evitar. “Pega um serviço maneiro.” Foi quando eu resolvi vir para a cidade, porque na roça o serviço é realmente pesado.

 

P/1 – Não tem serviço maneiro.

 

R – Não tem, na fazenda não tem.

 

P/1 – E porque o senhor veio pra Franca? 

 

R – Eu até não gostava muito de Franca, não. Eu gostava mais de São Joaquim da Barra. Eram as duas cidades que a gente circulava mais, São Joaquim e Franca. Mas eu tinha uma tia que morava aqui e a gente se dava muito bem. Quando eu falei de sair de lá, “então vem pra Franca”. Como era a única irmã da minha mãe que ainda estava viva, então resolvi vir. Nesse meio tempo ela acabou falecendo também, mas mesmo assim a gente acabou vindo pra Franca. Eu arrumei serviço mais fácil aqui, porque São Joaquim não tem muita opção de serviço, então Franca foi mais fácil.

 

P/1 – E como foi pra uma pessoa que foi criada no campo toda a vida, aí de repente chega numa grande cidade? O que significou para o senhor?

 

R – Pra mim foi interessante, porque eu mudei para Franca e tinha muita vontade de voltar a estudar. Eu mudei para Franca [no] dia 28 de fevereiro e [no] dia 29 já estava na escola. Eu fiz uma matrícula no Sesi, porque o Sesi tinha duas classes de primário; eu tinha feito até a terceira série, me matriculei na quarta e no outro dia já começaram as aulas. E nesse dia fiquei conhecendo a minha esposa, que também foi estudar na mesma classe. 

Foi muito corrido, trabalhava muito. No serviço onde arrumei eram dois períodos por dia. Começava às cinco da manhã às nove, depois da uma às cinco da tarde. E nesse meio tempo eu comecei a estudar também. 

A empresa onde eu trabalhava contratou uns professores que davam aula no ‘madurezão’. Nesse ‘madurezão’, as aulas eram à noite, então das nove às onze eles davam aulas pros funcionários que quisessem estudar. Eu estudava das nove às onze no ‘madurezão’ e das sete às dez da noite fazendo a quarta série no Sesi. Foi tudo meio corrido, mas não deu muito tempo de pensar nas coisas, não. (risos)

 

P/1 – Que empresa era essa que o senhor conseguiu emprego?

 

R – Amazonas Produtos para Calçados. É uma empresa bastante grande, produzia muito. Na época, Franca estava no auge das exportações, eles faziam solado de borracha. Só que a sessão que eu vim trabalhar também não era serviço maneiro, o serviço [era] até puxado.

 

P/1 – O que era?

 

R – Trabalhava em cilindro. Cilindro parece esse de pastel mesmo, só que são muito grandes e motor possante. A gente pega a borracha picada, tudo picadinho mesmo, cozinha ela numa caldeira, coloca lá e a caldeira fornece uma temperatura alta, ela cozinha. Então ali pegava com uma lata, jogava aquela borracha no cilindro; ela já começava a criar forma. Tirava daquilo ali, passava para outro; passava em três máquinas. Quando saía da última máquina já saia a borracha em tabletes. 

Fiquei um ano e três meses.

 

P/1 – Não era muito arriscado, acidente?

 

R – Tem um certo risco, mas não é tanto não, tem as proteções também. Só que não pode facilitar.

 

P/1 – Então, na verdade, o senhor…  O seu dia típico, tinha tempo de dormir ou não? (risos)

 

R – Pouco, mas dormia.

 

P/1 – O senhor levantava cedo, ia para a empresa...

 

R – A gente levantava, na época, [às] quatro e meia, quatro e quarenta, porque às cinco eu tinha que estar trabalhando para o outro poder sair. Trabalhava até as nove horas, tomava um banho lá mesmo na empresa, ia para a escola, estudava até as onze horas. 

Eu morava perto. Chegava em casa, almoçava, cochilava um pouquinho, voltava pro serviço, entrava à uma e saia às cinco. Chegava em casa, tomava um banho, estudava mais um pouquinho e [às] sete horas estava na outra escola. Saía as dez, voltava pra casa e sobrava pra dormir um pouquinho.

 

P/1 – E esse tempo que o senhor foi recuperando… No [curso de] madureza o senhor foi fazendo o antigo ginásio, o científico?

 

R – Em 1972, quando eu vim para Franca, eu comecei a estudar na quarta série; [no] mês de maio que eu comecei a fazer o ‘madurezão’. No final do ano tinha as provas da Secretaria da Educação. A gente fazia a matrícula, pagava uma taxa e fazia o exame. No mês de dezembro ia ter a prova. Só que para eu fazer a prova do ginásio precisaria que eu tivesse um comprovante de conclusão da quarta série. Como eu não tinha, eu não pude fazer. 

Em dezembro eu terminei a quarta série. No mês de maio eu saí da empresa. [No] dia primeiro de junho eu vim pra CTBC e aqui na CTBC tinha umas pessoas que faziam o ‘madurezão’. Agostinho, o irmão do Luis Márcio, fazia, a Vera, que era cunhada dele, também estava fazendo. Em junho teve a prova, aí eu eliminei o ginásio de uma vez. 

A partir do mês de julho eu já comecei a fazer pro colegial. Em dezembro eu eliminei cinco matérias, fiquei devendo três; no mês de junho eliminei mais três e no final do ano eliminei a última, que era Matemática. No ano seguinte já estava na faculdade, em 1975.

 

P/1 – Como foi esse processo de sair de uma empresa calçadista pra uma empresa de telecomunicações? Como foi essa transição?

 

R – Nessa empresa de produtos para calçado, como eu já disse, não era um serviço muito maneiro, então eu tentei trocar de serviço, de departamento lá dentro mesmo. Eles me ofereceram um outro departamento, que era mecânica. Eu fiz até alguns estágios lá, só que com o chefe parece que não ia dar certo, então eu preferi dar aviso e sair da empresa. 

Eu saí da empresa numa quinta-feira e na sexta-feira eu dei uma volta na cidade: fiz inscrição no Magazine Luiza, pra trabalhar de motorista; no Banco Auxiliar - o gerente do Banco Auxiliar era filho do ex-patrão meu, lá da fazenda. Ele me chamou e falou que tinha uma vaga de contínuo. Fiz inscrição lá também e fiz inscrição na CTBC. Na época, tinha um primo meu que já trabalhava na CTBC e ele ganhou na Loteria Federal, comprou um bar e saiu da empresa. Eles me chamaram e eu fiquei no lugar dele.

 

P/1 – O senhor fez inscrição, apenas isso. Não precisou fazer uma prova, nada.

 

R – Não, não teve prova [de] nada. Foi só a inscrição mesmo. Eu ia trabalhar de auxiliar técnico, não havia muita necessidade.

 

P/1 – Quais eram as suas funções na CTBC? Suas primeiras funções?

 

R – Eu trabalhava no atendimento de reclamações de defeitos e examinador de linha.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Tem uma mesa de teste. Quando o cliente reclama a gente entra na linha do assinante e faz teste. Você vê se a linha dele está aterrada. Às vezes acontece um acidente, o caminhão passa e arrebenta fio, ali o assinante para o telefone dele. Existe essa mesa pra identificar o que está acontecendo. E na época eram poucas linhas, eram cinco mil linhas só e o teste tinha que ser feito na hora. O assinante reclamava, você atendia a reclamação, fazia o teste e dava o retorno pro assinante dizendo o que estava acontecendo. Hoje é bem diferente, mas na época não, na época tinha que falar o que estava acontecendo.

 

P/1 – Esse trabalho era lá dentro da Central?

 

R – No Centro Distribuidor a gente faz o BG. Quando entrei na CTBC estava desativando a Central AGF, que era uma central pequena, de três mil linhas só, e estava entrando uma RF, era mais sofisticada um pouquinho. Analógica também, mas oferecia mais condições e já ia começar com cinco mil linhas. Na época, era apenas quatro dígitos, milhar, centena, dezena e unidade. Depois entrou mais duas cifras quando veio o DDD - naquela época não tinha o DDD.

 

P/1 – Nesse trabalho de identificação de defeitos, o senhor que fazia o contato direto com o reclamante, com o assinante?

 

R – Isso. Não era apenas eu, mas éramos em três pessoas. Fazia o contato direto, a gente atendia a reclamação, fazia o teste e dava o retorno. E se tinha defeito a gente já emitia nota e já passava pra unidade.

 

P/1 – E que tipo de defeito era mais comum?

 

R – Na época, a rede não era muito boa, então quando chovia dava muita linha aterrada, porque era umidade na linha. Dava muito esse tipo de defeito. Linha baixa, que às vezes arrebentava. Linha de fazenda, antigamente tinha muitas linhas nas fazendas aqui por perto; ainda era linha física, fio bridão que eles falavam.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Não conhece, não? É um fio diferente, mais resistente às intempéries.

 

P/1 – Fio bridão. Mesmo as coisas que eu conheço eu quero que o senhor conte também, porque o senhor sabe mais do que nós. 

O senhor, na verdade, não ia pra rede ver o defeito? O senhor mandava a ordem de serviço?

 

R – Não. Emitia a ordem de serviço. Tinha uma equipe que ficava direto fazendo esse serviço. Na época, eram apenas duas pessoas.

 

P/1 – E dava conta?

 

R – Ah, tinha que ficar o tempo… Até depois do horário, mas tinha que ver o defeito. Dificilmente ficava um defeito de um dia pro outro. O defeito era sanado no mesmo dia, na medida do possível.

 

P/1 – O senhor teve uma pessoa que o ajudou a entender o trabalho, a ver como funcionava aquilo? Alguém que ensinou o senhor?

 

R – Aqui, geralmente, todo o pessoal um ensina o outro. Tem uma dificuldade, você fala e o outro está sempre ali para dar uma atenção: explicava, discutia, via. Se não entende, faz umas tentativas pra ver se descobre.

 

P/1 – O senhor teve alguém que foi especial, que foi seu mestre?

 

R – Não, uma pessoa determinada não, mas posso dizer que todos eles foram meus mestres. Agostinho Wisard me ensinou muito. Uma das coisas que ele me falou que eu guardo comigo, eu acho que é uma verdade: “Não tem ninguém burro, tem umas pessoas que têm mais facilidade de aprender e outras têm mais dificuldade.” Eu acho que isso é uma realidade. Tem pessoas que aprendem mais fácil porque têm mais facilidade de entender e outros demoram um pouco mais, mas acabam aprendendo, vendo aquilo todo dia acabam aprendendo. 

O Orlando Natal, nós trabalhamos muito juntos. Está aposentado hoje, mora em Rifaina. José Luis Randi, nós começamos aqui na mesma época. Ele me ajudou bastante quando tinha dificuldade. O __________ também me ajudou bastante, na época ele tinha mais conhecimento.

 

P/1 – Nessa época o senhor morava onde aqui em Franca, Sr. Paulo?

 

R – Eu morava na Rua Francisco Marques, 503. Casa alugada, eram três cômodos.

 

P/1 – O senhor já tinha casado?

 

R – Não, ainda era solteiro. Eu casei em 75, no ano que eu comecei na parte da faculdade. Foi uma época muito difícil, porque quando eu saí da antiga empresa e vim para cá, eu vim ganhando metade do que eu ganhava lá. Eu vim pra cá pra ganhar o salário mínimo, na empresa. 

Depois de três a quatro meses eu tive um reajuste, mas não foi assim tão significativo. Depois a gente foi encaixando as coisas, foi ajeitando. O que eu ganhava aqui na empresa era para pagar a escola e o aluguel, então não sobrava pra... Apesar de eu querer ter um terreno, uma casa, não conseguia. Mas depois, graças a Deus, a gente acabou...

 

P/1 – O senhor morava sozinho?

 

R – Não, morava com a minha mãe e meu sobrinho. Ele também trabalhava fora, tinha o emprego dele. Ele trabalhava em Franca mesmo, então o salário meu e dele dava. Depois eu casei, passei a morar numa outra casa, na Rua General Telles, e ficou meu sobrinho e minha mãe na outra casa.

 

P/1 – Como era a cidade de Franca naquela época, era muito diferente de hoje?

 

R – Era quase igual, mas era bem menorzinha. Cresceu muitos bairros nesses últimos vinte anos, cresceu bastante. O bairro onde eu moro estava iniciando, pouquinhas casas. Mesmo quando eu fui para lá tinha pouquinhas casas. Hoje está um bairro formado e pra frente da minha casa cresceram vários bairros. 

Na época, o fornecimento de água daqui de Franca era da prefeitura, então foi na gestão do Hélio Palermo que passou pra Sabesp. Foi onde a cidade [se] desenvolveu bastante, porque faltando água não tem jeito. A Sabesp deu mais condições da cidade crescer, a própria CPFL cresceu muito, fizeram muitas subestações. Depois veio outro prefeito, que criou o Distrito Industrial e a cidade foi evoluindo mais.

 

P/1 – Nesses seus primeiros tempos da CTBC, a cidade e o seu local de trabalho recebiam muita gente que vinha da sede da CTBC aqui?

 

R – Não, não tinha muito. Tinha as visitas que eles vinham fazer, mas era esporádico, não era assim frequente. A gente conversava mais por telefone e recebia orientação do pessoal daqui mesmo, da chefia daqui.

 

P/1 – O senhor conheceu seu Alexandrino?

 

R – Conheci, conversei com ele algumas vezes. Em 1986, a CTBC criou um projeto: quem tivesse mais de dez anos de casa poderia passar uma semana na Pousada do Rio Quente. Tive a felicidade de ir lá e na volta pude conversar com ele. Ele já estava um pouco… Já tinha uma certa dificuldade de estar [se] comunicando com a gente, mas ele esperou lá o pessoal, recepcionou. O João Batista Couro foi quem conversou em nome da equipe, um homem muito bom. “Gostaram do passeio? Então vão embora pra trabalhar.”

 

P/1 – Além da lembrança que o senhor tem, como o senhor definiria o seu Alexandrino, o que ficou dele para o senhor?

 

R – Eu acho o seguinte, como ele mesmo disse: “O trabalho enobrece a pessoa.” Eu também acredito. Eu sempre gostei de trabalhar e ter uma pessoa assim, que está te falando o que você está sentindo… A gente enriquece muito. Eu sempre tive esse pensamento como o dele, a gente tem que trabalhar mesmo.

 

P/1 – Como foi essa semana na pousada?

 

R – Foi bastante divertido. De manhã eram feitas as reuniões com o pessoal e à tarde era livre. A gente ia passear, jogar, brincar, fazer passeio, tinha jogo de bingo. Era bem divertido, passei uma semana bem.

 

P/1 – Sr. Paulo, e o senhor ainda com aquela ideia fixa de estudar, de recuperar o tempo parado. O que levou o senhor a fazer universidade e escolher o curso que escolheu?

R – Na realidade, eu não tinha escolhido esse curso. 

 

P/1 – O que era?

 

R – Máquinas Elétricas, distribuição de energia. Quando prestei vestibular eu prestei para Matemática. Eu gosto demais de Matemática e não tenho muita dificuldade, vou razoável. E era um curso mais barato. Como eu estava com uma dificuldade danada na época pra pagar escola - foi no ano que eu casei também, então ajuntou as duas coisas: pagar escola, pagar aluguel e mais outras coisas. 

Eu fiz a matrícula pra Matemática, mas os meus colegas da CTBC - eram em mais quatro: José Reinaldo Borges, José Luis Randi, Roberto de Almeida Fernandes e José Roberto Mioto, inclusive esse já faleceu - iam fazer Máquinas Elétricas e só eu ia fazer Matemática, aí eles começaram a falar “Faz Máquinas Elétricas!” 

Tinha um senhor, também já faleceu, tinha uma indústria aqui em Franca… É uma pessoa [de] bem e a esposa dele era tia da mulher onde minha esposa trabalhava de doméstica. Ela me ligou e disse: “Paulo, conversa com Antônio, vê se ele te ajuda na faculdade.” Eu fui lá conversar com ele e ele falou: “Olha, esse ano eu não posso porque tem uma escola aí que vai correr por minha conta esse ano.” A escola, me esqueci o nome... “Toda a despesa que tiver lá esse ano, eu que vou pagar. Pra não dizer que eu não te ajudei [em] nada, eu vou te pagar a matrícula. Tá bom? Quanto é a matricula?” Eu falei o preço da matrícula de Máquinas Elétricas, ele me fez um cheque. Eu fui na faculdade, já mudei a matrícula e fiz Máquinas Elétricas. 

 

P/1 – Que faculdade era?

 

R – UNIFRAN – Universidade de Franca. Na época estava começando, uniu as faculdades. 

 

P/1 – Aí a sua rotina, como ficou estabelecida? Recém-casado, trabalhando, com estudo, como ficou a sua rotina?

 

R – O que eu ganhava na empresa era a conta de pagar as prestações, aluguel, bolsa de estudo – o Luís Márcio conseguiu pra mim 50% de bolsa de estudo lá na Lasep [Liga de Assistência Social e Popular], mas [com] as prestações que eu tinha era puxado, era a conta mesmo. O que a gente gastava pra tocar a casa, pra alimentar, açougue, criança pequena gasta muito em farmácia. Açougue, farmácia, supermercado... A minha mulher deixou o emprego onde ela estava, com criança pequena. Ficava em casa e costurava sapato, então eu a ajudava também a costurar sapato. Nos fins de semana, assistia o Sílvio Santos e costurava sapato. O dinheiro do sapato dava pra gente se alimentar. 

 

P/1 – E as crianças?

 

R – As crianças a gente brincava com elas, levava na pracinha. Os meus filhos têm idade, em média, de três anos de um para o outro. O mais velho foi o que foi mais sacrificado, vamos dizer assim. Foi na época que a gente passeava pouco, brincava pouco e trabalhava muito. Hoje em dia a gente trabalha, mas diferente. Naquela época a gente não tinha carro, então era um pouco mais difícil levar para os lugares, mas tinha uns parquinhos.

 

P/1 – Quantos filhos são?

 

R – São quatro. 

 

P/1 – Nesse momento que o senhor termina o curso… Quanto tempo durou o curso?

 

R – Foram três anos: 75, 76 e 77.

 

P/1 – Onde o senhor aplicou seu conhecimento adquirido de lá no seu trabalho aqui?

 

R – Em parte. Alguma coisa sim, mas no todo aplicou muito pouco. Na parte de distribuição de energia a gente não aplicou nada. Na época, nós tínhamos professores que eram diretores da CPFL, tinha um engenheiro que era da parte de distribuição mesmo. O gerente aqui também era professor. A gente aprendeu muito de distribuição de energia, transformador, essas coisas a gente aprendeu. Mas na CTBC, alguma coisa de fonte de alimentação, resistência, transistor, capacitor, ajudou em alguma coisa. 

 

P/1 – Como o seu trabalho na CTBC foi se desenvolvendo, na medida que os equipamentos foram se sofisticando, a transmissão foi se aprimorando? Aí o senhor já não falava mais com o cliente para pegar reclamação.

 

R – Eu trabalhei nesse setor do DG até 76. Em 76 eu passei para a Central, só que na época a CTBC começou a vender PABX, esse sistema. E não tinha quem instalasse, era o próprio pessoal da CTBC que instalava e ajudava na manutenção. Naquela época eu fiquei vários anos, muito pouco na Central e mais no serviço de instalação e manutenção de PABX e de KS; expandiu bastante, porque as empresas estavam crescendo e precisavam de comunicação. Vários PABX: Samelo, Sândalo, a própria Santa Casa – a CTBC doou um equipamento para a Santa Casa, a Francal que era aqui. Tinha vários equipamentos grandes que a gente que tinha que acompanhar e a CTBC deu curso. Sempre que surgia um equipamento diferente tinha o curso, alguém ia e a gente fazia o curso. Eu fiz vários desses cursos também.

 

P/1 – Esses cursos eram administrados aqui mesmo?

 

R – Não, eram fora. Eu fiz curso em São Paulo, na Ericsson, fiz curso na GTE uma vez, num KS pequeno que a GTS soltou e precisava de alguém pra fazer instalação e dar manutenção. Eu fui lá, eram poucos dias. Na Ericsson eu fiz curso várias vezes. No início o básico, depois o detalhado.

 

P/1 – De alguma maneira, mesmo com equipamentos mais sofisticados, o senhor continuou em contato com o cliente? Antes por telefone, agora ao vivo?

 

R – Até... Não lembro mais a data que aqui tinha vinte mil linhas, que eram as centrais 728 e 724; depois incluíram mais cinco mil linhas. Nessa época do 724 eu parei de fazer visita pros clientes, aí eu fiquei tomando dessa central. Parou definitivo de acompanhar ___________, a gente ficava somente no prédio mesmo.

 

P/1 – Nesse tempo que o senhor estava mais na rua tinha muito pepino ou era uma coisa mais tranquila?

 

R – Tinha algumas coisas sim, mas o mais era rotina. A gente tinha o Agostinho, que era o nosso encarregado. A gente tinha lá uns cento e tantos equipamentos que tinha que dar manutenção; uma vez por mês a gente saía durante uns dois ou três dias, visitando todos esses equipamentos e verificando se tinha alguma coisa para ser feita. Trocar lâmpada, fio quebrado. Tinha muitas pessoas que nem reclamavam, esperavam a visita para a gente corrigir na época da visita. E tinha outros defeitos que eles reclamavam e a gente tinha que dar essa manutenção. 

Equipamento com mau aterramento, quando chovia provocava defeito. Eu me lembro uma vez lá no Palmilha São Judas Tadeu, queimou os fusíveis de todos os aparelhos de KS que eles tinham lá. Acho que eram oito aparelhos, queimou de todos eles. Foi interessante o defeito, eu olhei e falei: “Não é possível.” Depois do almoço foi uma outra pessoa comigo para olhar e realmente era isso, trocamos os fusíveis de todos os aparelhos e voltou a funcionar.

 

P/1 – O que tinha acontecido?

 

R – Uma faísca. Caiu uma faísca e queimou todos.

 

P/1 – Como se deu a evolução desses equipamentos? Eles foram melhorando muito, eles se tornavam mais fácil pra manutenção? Como o senhor acompanhou esse processo?

 

R – Eu não posso falar muito, porque na parte digital eu não tenho muito conhecimento - aliás, conhecimento nenhum. Quando foram surgindo essas Centrais Digitais, foram surgindo vagas para trabalhar lá. De início, eles determinaram uma pessoa para fazer o curso. Essa pessoa foi e fez o curso. Quando foram surgindo mais vagas, eles deram oportunidade entre nós para escolher quem ia. Eu sempre fui ficando. Eu preferia não ir, porque todo o pessoal quer ir, todo quer ir. Eu sempre abri mão pra outras pessoas irem, então a parte de CPA eu não posso falar muita coisa, porque eu não tenho conhecimento.

 

P/1 – Mas essa Central, que quando o senhor sai da rua começa a cuidar dela, se responsabilizar por ela. O que ela trazia de inovação?

 

R – Não, era sempre o que já existia mesmo. A gente só passou a ser responsável por aquilo ali. Eu me lembro [de] um dia de Natal, fiquei o dia inteiro lá. O pessoal almoçou em casa sem mim, e eu fiquei lá o dia inteiro pra ver um defeito. Dia de Natal você não acha ninguém pra ajudar, tem que se virar mesmo. 

 

P/1 – Ficou sozinho?

 

R - Fiquei sozinho até lá pelas quatro horas da tarde. Liguei para uma pessoa, ele deu uma dica mais ou menos. “Faz isso e deixa isso pra amanhã, ninguém vai usar o telefone hoje não.” Fizemos uma gambiarra, ficou tudo funcionando, ninguém ficou sem. No outro dia voltei lá e achei onde era o defeito. Essa outra pessoa foi também, a gente achou o defeito e ficou tudo normal.

 

P/1 – Depois dessa Central o senhor continuou nesse processo até chegar onde?

 

R – Eu estou lá até hoje. Depois houve algumas modificações, a gente ficava separado. Ficavam três técnicos na 722, três na 723, dois na 724. E sempre quando tinha um de férias, um ajudava o outro. Foi indo, até que na 724 eu acabei ficando sozinho. Saiu um da 722, foi fazer curso pra CPA, o rapaz que ficava comigo na 724 desceu pra substituir a pessoa que foi fazer o curso e eu fiquei sozinho. 

Quando o Luís Lima esteve em Franca, ele resolveu fazer uma espécie de inovação: fazer um centralizado e aí todo mundo olhava todos. Então passou a ser assim: a gente fez um cronograma, um roteiro de trabalho de manutenção preventiva para o mês todo; cada mês uma pessoa faz uma atividade, então as pessoas rodavam fazendo o serviço das três centrais. Quando a 724 que foi digitalizada ficou a 722 e a 723 assim. Acho que em breve elas param de funcionar, vão ser digitalizadas também.

 

P/1 – O senhor se referiu ao seu Alexandrino. Embora Franca seja próxima de Uberlândia, vinha muita gente da sede aqui? O Dr. Luís, por exemplo, é uma pessoa que o senhor conhece, conviveu?

 

R – Vinha, mas não era muito. De vez em quando eles vinham. Na parte técnica eles só passavam de passagem, a gente não tinha muita conversa. Eu participei do comitê de associados, fiquei um ano e meio no comitê de associados. Nessa época, a gente ia muito para Uberlândia, pelo menos uma vez por mês. A gente tinha que estar lá na reunião, então nessa época eu fiquei conhecendo bastante o pessoal, a Marineide, o ________. 

 

P/1 – Como funciona o comitê de associados?

 

R – Hoje em dia eu não sei como está, mas naquela época a gente [se] reunia,  verificava as necessidades das pessoas e o que a empresa poderia oferecer, então geralmente o pessoal da diretoria ia; o ________, o Adelmo estava em todas as reuniões. [São] muitas coisas que a gente fala sem conhecimento, então precisa ter alguém lá pra explicar para a gente como é. 

Com o Comitê dos associados teve muita melhoria para os associados, auxílio educação. Na época que eu estava lá a gente não sabia como fazia. Ficamos trocando ideias, conversando, como usar essa verba para melhorar.

 

P/1 – Era uma atividade pra melhorar o trabalho, na verdade?

 

R – Era, vamos supor assim. O sindicato era muito radical, então a empresa adotou esse comitê de associados, como um meio de ligação entre o empregado e a empresa, [para] ver as necessidades dos empregados e ver o que eles podem oferecer. Em vez de ter uma briga no final de um acordo coletivo, isso era feito durante o ano; tudo que poderia ser feito já ia sendo feito, antecipando uma certa coisa que poderia ficar para a época do acordo. Teve muitas coisas benéficas nisso. Ticket restaurante e ticket alimentação não existia, surgiu na época do comitê. Foi abolido o cartão de ponto, hoje em dia não temos mais o cartão de ponto, pra gente [foi] uma coisa boa. Teve várias coisas, foi benéfico.

 

P/1 – Essa foi uma estrutura implantada pelo Sr. Mário Grossi, não foi?

 

R – Foi. Era Empresa Rede.

 

P/1 – O que significou para o senhor aquele momento em que a gestão da empresa estava sob responsabilidade do Sr. Mário Grossi? Foi uma reestruturação forte que o grupo passou, não foi?

 

R – Foi, foi sim. Na época eu estava em Uberlândia fazendo um curso - quer dizer, no início, nós ficamos em Uberlândia durante três meses. A gente ouvia falar o que ia acontecer. O que realmente estava acontecendo a gente não tinha muito conhecimento. No meu modo de ver, foi para melhor. O que ficou, tinha muitas empresas que a gente não pode falar porque não sabe, acho que nem tinha razão de estar mexendo com aquilo. Eu não posso falar sobre isso não porque eu não tenho conhecimento. Pra nós, foi benéfico. Quando você tem um chefe e os subordinados, tem muitas coisas que você fala: “Isso aí eu não vou fazer não que isso aí é de fulana.” Depois de passar a não ter mais chefe a equipe tem que resolver aquilo ali. A situação muda.

 

P/1 – O senhor chegou a conhecer o Sr. Mário Grossi?

 

R – Só de vista, não cheguei a conversar com ele. Na época que eu estava fazendo o curso a gente frequentava o restaurante [em] que ele frequentemente estava, mas a gente não teve oportunidade de conversar. Pessoalmente, a gente o via lá.

P/1 – E o seu trabalho hoje nessa central, que o senhor disse que deve passar por transformações?

 

R – Ela vai deixar de existir, essa tecnologia que a gente trabalha.

 

P/1 – Que tecnologia é essa?

 

R – Analógica, central ARF, então vai, entra outra central CPA e ela deixa de funcionar. Essa central, houve modificações porque antigamente tudo que tinha que fazer... A central até que foi bem versátil, porque da época dela até hoje ela sofreu uma série de modificações e está funcionando beleza. A única coisa que o pessoal reclama é que o ruído demora um pouquinho, mas a gente faz teste e não demora mais que três segundos; é sempre menos que isso e quando disca demora um pouco para completar. A troca de informação dela é diferente da digital. 

A digital usa um outro protocolo de frequência, então completa mais rápido. Tem muitas facilidades que essa não tem. Mesmo assim ela andou acompanhando bem; quando foi para a oitava cifra ela não teve que fazer uma modificação, porque ela não tinha condições de colocar um DDD, por exemplo, até doze cifras, então ela não oferecia essa condição.

 

P/1 – E aí?

 

R – Foi feito um serviço. Uma empresa de Belo Horizonte veio, colocou umas placas; essas placas são digitais, então funciona aparelho digital e analógico e deu condições de fazer uma oitava cifra. Ela bloqueia vários tipos de serviços que você quiser, ela dá informação de telefone inadimplente, telefone com bloqueio parcial, bloqueio total, bloqueio de 0900, de 145, informações de número mudado. É feito tudo no terminal, não precisa mais alicate e ferro de solda. Facilitando.

 

P/1 – Mal comparando, ficou um semidigital?

 

R – Semidigital. (risos)

P/1 – E está com os dias contados?

 

R – Já está com os dias contados, sim. A central que eles estão colocando já estão fazendo a ampliação no DG e por esse julho agora deve ficar pronto. O probleminha que está surgindo é que a quantidade que foi adquirida não vai ser suficiente para todos os assinantes já existentes. Tem que já começar ampliando e não pode mudar parte, tem que mudar tudo. 

A central que tem aqui é para dezenove mil linhas, não estão todos funcionando e aqueles que eles adquiriram e montaram é [de] capacidade menor, então não vai dar para transferir todos os assinantes que estão funcionando. Vai ter que fazer uma certa modificação ou uma certa ampliação. Não sei como vai ser feita, se alguém vai mudar de número, de prefixo. Não sei quando vai ser feito, mas o previsto acho eu que é para esse mês de julho agora.

 

P/1 – E o senhor, nesse processo? O senhor tem ideia do que vai fazer adiante?

 

R – Eles fizeram uma proposta pra gente. Atualmente, nós estamos somente em quatro pessoas; o serviço foi diminuindo, diminuindo, sai uma pessoa pra lá, outra pra cá. E aquelas manutenções que a gente dava, aquelas manutenções preventivas ficaram um pouco dificultadas, está dando mais manutenção corretiva mesmo. Quando sobra tempo a gente faz manutenção preventiva. Então, dos quatro que estão lá, um, que é o José Luis Randi, vai para o Departamento de Energia, o Florentino vai para a rede, e eu e o Ilto, que é o outro rapaz que trabalha lá, a gente vai formar uma equipe para dar manutenção nesses LIs que tem na planta.

 

P/1 – LI é exatamente o que?

 

R – Vamos supor uma central-mãe e tem um bairro lá, Recanto Elimar, nesse bairro. Ao invés de levar telefone do centro pra lá, coloca uma centralzinha pequena lá, agregada à central-mãe daqui. Ela funciona lá, uma centralzinha pequena, faz uma distribuição de fios entre eles ali e aquela central comunica com a mãe. 

 

P/1 – Isso se chama LI?

 

R – LI.

 

P/1 – Invés de levar a linha lá bota-se uma centralzinha para conversar com a mãe?

 

R – Com a central-mãe. Tem várias aqui em Franca. A proposta deles é que eu e o outro rapaz… A gente vai ficar dando manutenção nelas.

 

P/1 – Vão voltar para a rua?

 

R – Voltar para a rua.

 

P/1 – Vão indo e voltando. Perfeito. Tem alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e que a gente não estimulou a dizer?

 

R – Não, eu acho que não.

 

P/1 – Desse tempo todo de CTBC, como o senhor vê o futuro da empresa? A incidência de maior concorrência, de tecnologia cada vez mais apurada, como o senhor consegue enxergar esse horizonte?

 

R – No meu entender, a CTBC está bem adiantada em relação às outras. Outro dia, eu estava comentando com minha esposa que a telefônica está fazendo uma propaganda na televisão onde uma pessoa disca para o outro e ele diz: “Você está num bar!” “Meu telefone transferiu para o celular.” Isso existe na CTBC há muitos anos, mas nunca foi falado. Está sempre na frente. Não sei se falta divulgação, eu acredito que não tenha problema. A empresa está bem administrada e não vai ter erro, não.

 

P/1 – O senhor tem sonhos?

 

R – Não. Não sei, talvez possa até ter, mas... Você falou se tinha uma coisa que gostaria de falar e não falei, eu lembrei agora. Quando em entrei na CTBC, em 93, logo na época que eu estava estudando, apareceu um concurso, eu prestei e passei.

 

P/1 – O senhor quer dizer 73?

 

R – Em 73. Passei nesse concurso. No dia cinco de dezembro de 73 saiu a nomeação no Diário Oficial e eu tinha vinte dias para tomar posse. Eu tinha escolhido minha vaga em Ribeirão Preto. 

Teve um dia que um assinante me deixou nervoso. Eu falei: “Eu vou embora disso aqui” (risos) “Eu vou trabalhar lá, vou ficar mais sossegado.” Procurei o meu chefe, já estavam vencendo os vinte dias, ainda estava naquela se ia ou se não ia. Naquele dia eu tomei a decisão: “Acho que eu vou embora, sim.” Eu o chamei e falei: “Olha, eu queria conversar com o senhor pra ver a possibilidade de eu sair sem dar aviso.” Aí o Luis Márcio conversou comigo e me convenceu que se eu ficasse na empresa pra mim seria melhor. Uma das coisas que eu ia sair também era por causa do financeiro, ele me garantiu que se eu ficasse ia melhorar e eu acabei ficando. Isso eu me lembrei agora. E não me arrependi, porque foi muito bom. Eu tive oportunidade de conhecer pessoas excelentes, num trabalho que a gente gosta, tem umas coisas particulares que a gente conseguiu, graças a Deus. Foi muito bom ter ficado. Talvez se tivesse ido para lá não tivesse tido essa oportunidade.

 

P/1 – O que o senhor achou de ter dado esse depoimento pra nós, o que achou dessa conversa?

 

R – Foi muito bom, tem muitas coisas que... Como quando eu estava falando da fazenda... Faz tantos anos, a gente nem pensava mais nisso. Conforme vamos conversando a gente recorda as coisas, minha mãe... Foi bom.

 

P/1 – Aquele bordadinho na cozinha... Aquela luz de lamparina meio mortiça... Muito obrigado pela sua conversa, foi muito bom ter ouvido o senhor.

 

R – Eu é que agradeço.



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