Busca avançada



Criar

História

Uma mulher que carrega flecha na voz

História de: Alessandra Munduruku
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2021

Sinopse

Alessandra Korap teve uma infância de brincadeira e trabalho, desde cedo viu seu território ser invadido pelo garimpo tendo inclusive visto seu avô ser muito prejudicado com essa atividade. Devido as constantes ameaças conseguiu vencer a sua timidez e começou a falar em público e conquistar o seu espaço como uma das mulheres pioneiras, pelas suas falas no congresso em outros espaços conquistou prêmios internacionais e vive em constante conflito com garimpeiros e madeireiros nas buscas dos direitos do seu povo.

Tags

História completa

A primeira lembrança que me vem  foi quando eu gostava de ficar na beira do rio assando castanha, tem uma época da castanha de caju que a gente não pode assar castanha no quintal de casa porque pode derrubar as frutas e as flores da mangueira, então nós descíamos para o rio, porque o cheiro e a fumaça era muito forte e acaba derrubando as flores, e a gente ia muito para o rio assar castanha e ali cortava tudo em cima da pedra enquanto nós ficávamos tomando banho no rio com os irmãos e aí depois comíamos  paçoca, colocava farinha e comia. Nós íamos para o mato com os meninos e meninas para ir procurar fruta, semente, e nós sempre chegávamos até a Transamazônica ou então íamos pescar eu e meu irmão a gente pegava aquele cará.

 

 Quando as balsas chegaram, a gente não podia ir mais pescar porque tinha uma placa dizendo “Propriedade Particular”, onde nós íamos atrás de palha para cobrir a casa, atrás de semente, e raízes nós vimos que o trator passou em cima de tudo e ficou tudo carequinha, onde era só árvore ficou careca, agora é loteamento para construir casa. Hoje a gente passa no meio e fica a lembrança mas tu vê só casa grande e só mora garimpeiro lá. Isso ficou na minha lembrança e eu sei que não vai voltar mais, naquela época não tinha energia nem celular e vai ficar tudo guardado na minha memória, quando eu partir essas lembranças vão comigo e não vai ter essas histórias para contar, meus filhos nunca vão entender o que eu vivi antes e como está hoje 

 

Eu sou a filha mais velha de seis irmãos, então a minha vida quando menina era cuidar dos meus irmãos, então fui mãe deles enquanto a minha mãe trabalhava eu cuidava deles, eu ia para o rio lavar roupa, cuidava da casa, quando era de tarde a gente descia para o mato atrás alguma coisa, e quando chegava, jogava futebol com uma bola feita de saco com os meninos, ou então pegava o lençol de casa e fazia casinha no quintal para brincar, às vezes pegava palha também. Então era essa minha vida, eu falo que a gente se torna adulto e ao mesmo tempo a gente brinca quando criança, hoje você vê crianças fazendo trabalho de casa e as pessoas acham que é trabalho escravo, mas ela está aprendendo, ela está se transformando em adulto e ela vai crescer e precisa criar responsabilidades, e isso vai se aprendendo no dia a dia, indo pra roça, brincando com a mandioca de descascar, tudo isso ela vai brincando e aprendendo ao mesmo tempo para se tornar adulto responsável.

 

Meu vô ele fala que ia para o garimpo para tirar ouro, e dar uma vida melhor para os filhos, comprar arroz, feijão, açúcar, café para trazer melhorias, tinha a visão de ficar rico igual o homem branco, o homem branco consegue comprar helicóptero, carro, casa, caminhonete, conseguem ficar ricos, os indígenas não, e então meu avô sempre saia com essas esperanças e quando chegava ele não tinha, já era tudo ao contrário, gastava tudo por lá e acabava trazendo doenças como malária, e muitas vezes bebia muito também, acabou virando alcoólatra, porque quando tem garimpo, tem droga, bebida, prostituição igual hoje, mas hoje ainda está pior do que antes.

 

 Meu tio soube que o vereador falava que não tinha indígena, quando ele criou uma associação e não sabia direito para que serve uma associação, eles faziam muitas reuniões para saber mais o que mudou da associação, para nós foi que conseguimos escolas, postos de saúde, criação de galinha, casa de forno mas estou falando da suas aldeias praia do índio e praia do mangue. Já fora, em outras aldeias como a Mundurukãny, eles já estavam lutando pela demarcação da Mundurukãny, e eles já faziam muitas reuniões e alguns caciques da praia do índio e praia do mangue eram convidados para participar, mas só os homens podiam participar as mulheres não podiam, e esse era o problema.

 

Foi assim que tudo começou, eu lembro uma vez em uma assembleia em 2015, onde estava o pessoal do ICMBIO, IBAMA e pesquisador por causa da usina hidrelétrica São Luiz dos Tapajós, e antes dessas reuniões eu falava para as mulheres para elas entrarem no meio da reunião, e por que só a Maria Lins? É admirável uma mulher dessa falar no meio dos homens, aquela mulher com menino no colo, "será que um dia eu vou falar igual ela?" Eu ficava me perguntando... Eu era muito tímida e muito quieta. E o que me chama mais atenção nessa assembleia quando um cara disse que Sawré Muybu não era terra indígena, e eu já tinha conversado com as mulheres sobre Sawré Muybu e algumas estavam preocupadas porque ia alagar uma parte do território, algumas aldeias iam para o fundo, alguns peixes não iam conseguir desova, e íam sumir as cachoeiras, e ia secar o rio. Então eu peguei o microfone e Maria Lins disse para eu falar o que pensava, e eu disse o que eu vou falar? E  falei, falei, falei... E só vi os caciques depois  concordando e vieram falar comigo. A primeira coisa que o Juarez disse para mim foi me convidar para ir até Brasília falar de demarcação, ele me disse que os caciques estão te convocando para ir junto.

 

Eu não entendia nada eu era bem tapada mesmo, e quando eu adquiri esse conhecimento, enxergar esse direito eu comecei a falar, falar, falar e hoje nós temos pessoas, muita gente fala, as meninas que andam comigo falam: Alê nós só estamos aqui hoje por causa de tu, porque você mostrou para o mundo todo que a gente existe, até os meus tios mais velhos falam para mim, Alessandra você mostrou que nós existimos sim,

 

Eu tinha  um professor muito sábio que é o Pajé Fabiano, ele é o meu tio, ele sempre me ensinava e falava umas coisas que eu não entendia, mas o tempo passava e eu analisava a fala dele, quando foi em dois mil e quatorze ele falava que eu seria uma grande guerreira, só que era muito perigoso e eu tinha que escolher um dos dois caminhos, e ele ficava preocupado com a minha situação e eu não sabia de nada, achava que o titio estava doido. Ele dizia que essa menina tem futuro e ela tem que escolher um dos dois caminhos, o bem ou o mal, e hoje ele fala isso, você lembra quando tinha que escolher um caminho, e eu fico muito feliz em ver o caminho que você seguiu. Que bom que você escolheu o caminho bom de proteger o território.

Eu nunca contei minha própria história, nem pras minhas amigas. Coisas que estavam aqui dentro guardadinhas, e de repente, eu consegui falar. Momentos de tristeza, eu acho que essa tristeza que trouxe, me transformou nessa mulher, como se diz, nessa mulher guerreira. Essa tristeza que estava lá atrás escondidinha me transformou nessa mulher valente que não abaixa a cabeça, que jamais vai abaixar a cabeça pra ninguém.

 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+