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História

Uma mulher premiada

História de: Carmita Duarte Medeiros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2013

Sinopse

Carmita em seu depoimento recorda a sua infância na cidade de Gurupá, no Pará. Descreve a sua trajetória de empregada doméstica em Almeirim onde trabalhou para custear os estudos. Fala como conheceu seu marido e como voltou a estudar depois que criou os filhos. Conta sobre o trabalho que desenvolve na Amarte – Associação das Mulheres Mães Artesãs do Vale do Jari, onde é atualmente a presidente. E com orgulho, discorre sobre o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios que ganhou no Amapá e a nível nacional, por seu trabalho na Amarte.

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História completa

Meu nome é Carmita Duarte Medeiros e a data de nascimento é 28 de outubro de 1965. A cidade de Gurupá, que nasci, fica no estado do Pará, sou paraense. O meu avô paterno, é do município de Breves e da minha mãe, que é materno, são do município de Gurupá. Todos eles eram agricultores. Na época, eles trabalhavam também com a questão da seringa e plantavam melancia, juta, essas coisas. Não conheci meus avós, os homens. Minha avó materna, ela trabalhava também na agricultura com farinha. O meu pai é Domingos Tavares Medeiros e a minha mãe é Maria Duarte Medeiros.

 

Eles se conheceram na convivência da comunidade que eles viviam no interior do estado, do município de Gurupá. Meu pai já tinha uma outra família, ele era viúvo quando casou com a minha mãe. Tinha três filhas, uma já era falecida e duas eram vivas, a minha mãe ainda criou uma filha do meu pai. Com a minha mãe, o meu pai tem sete filhas e quatro filhos. Eu sou a primeira filha, a mais velha do segundo casamento do meu pai com a minha mãe. Depois que ele teve três filhas que veio o menino. Depois que a minha mãe teve mais três meninas, que veio os meus irmãos caçulas, são os homens. Viviam todos na mesma casa. Era bem grande a casa, que antigamente essas casa do interior sempre era assim, uma cozinha grande, uma sala grande e um quarto grande.

 

Dormia todos no mesmo quarto. O meu pai e a minha mãe dormiam no corredor. Ele era agricultor, meu pai. Tinha uma pequena fazenda, que tinha gado, era disso que a gente vivia. Ele plantava, colhia na questão do verão. A minha mãe ajudava nessa questão da agricultura, além que ela era dona de casa, cuidava das crianças. O meu pai e a minha mãe, eles são analfabetos mesmo. A gente brincava muito, de luta, muita luta, a gente jogava bola O município de Gurupá era um município pobre, que a gente fala hoje. Era um município muito carente, na comunidade que a gente morava era dificuldade pra estudar, na época eu ainda estudei, tinha professores em Gurupá.

 

A dificuldade era grande. Eu entrei na escola, eu tinha 11 anos. A gente ia de canoa, depois que meu pai colocou eu na cidade de Almeirim, mandou eu pra Almeirim pra estudar. Eu lembro que a escola ficava numa casa de família, de lá a gente ia estudar, quando a gente vinha era muita dificuldade, não tinha merenda na época. Eu lembro que um ano a gente estudou de manhã, o outro ano à tarde. A gente teve só um professor, professor Luiz. Ele era já um senhor acho, de uns 40 anos, ele já tinha os cabelinhos todo branco. Eu consegui aprender, porque quando eu fui pra cidade, nós já sabia alguma coisa. A gente gostava de ir pra escola, eu com as minhas irmãs.

 

Com 14 anos eu fui pra Almeirim. O irmão do meu pai morava em Almeirim. Fui só eu. Minha irmã já tinha ido antes, ela passou um ano numa casa, que era a casa do prefeito mesmo, que eles começaram a se preocupar com as escolas do interior. Meu pai sempre se preocupou, sempre foi de incentivar, “você tem que estudar, você tem que fazer isso, você tem que...”, sempre ele foi assim. Fiquei em Almeirim um ano, depois eu passei mais outro ano, nas férias eu voltava pra lá. Depois eu fiquei mais um outro ano, voltei pro município de Almeirim, onde tinha uma vila e eu fiquei na casa da minha tia também.

 

Essa mudança pra Almeirim foi muito difícil. Porque você morar na casa dos outros não é muito fácil e uma moça que vem do interior pra cidade, tem mais dificuldade, principalmente na época, eu não conhecia nada. E eu comecei trabalhar também, pra ajudar, numa casa de família. Ainda bem que na minha casa a minha mãe me ensinou, o que eu não sabia era muito cozinhar, mas de limpeza, de roupa, de limpar casa, tudo eu sabia muito bem. Eu estudava à noite. Nessa outra mudança eu fui pra Almerin, a minha tia, que é irmã do meu pai, morava nessa vila.

 

Tinha plantio de arroz, era muito habitado, muita gente e tinha as escolas e professores que era bom. Meu pai achou melhor me levar pra lá, porque era mais próximo de onde a gente morava. Eu fiquei morando na casa da minha tia o primeiro ano, fui trabalhar também em casa de família, pra mim poder estudar, pra poder ajudar a me manter, trabalhei nessa época toda, eu estava com 17 anos. Estudei até a quarta série, que era o que tinha lá. Sempre que a gente ia fazer alguma coisa, já aproveitava e passeava também. Se eu estava no Saracura e tinha que ir pra Almeirim fazer alguma coisa, a gente já também aproveitava pra passear.

 

Eu conheci o meu esposo no Saracura, na festa. Eu já conhecia ele andando na rua, porque é uma comunidade pequena, aonde praticamente todo mundo se conhece. Se apaixonou, a gente foi morar junto, depois que a gente casou e meu pai ficou muito triste, porque sempre tem aquela coisa de querer casar a filha, ele ficou muito magoado comigo. Eu morava no Saracura, que é uma comunidade do município de Almeirim. Meu marido era empregado da empresa São Raimundo, ele era operador de máquina. Eu parei de estudar porque não tinha oportunidade, só tinha até a quarta série. Parei de estudar e fiquei sendo dona de casa, cuidando da casa, cuidando do marido. Eu engravidei do meu primeiro filho depois de um ano, com 21 anos. O nome dele é Cleyson.

 

Eu fiquei mais responsável, depois que eu fui mãe. Quando você é mãe, você sabe que você constrói uma família, a partir do momento que você é mãe. Eu tenho três filhos, dois homens e uma mulher. Eu tive meu primeiro filho e a firma faliu. Meu esposo ficou um ano desempregado, depois como veio o currículo deles pra cá, a Jari acabou chamando eles pra aqui. Se empregou novamente, e depois eu vim pra Laranjal do Jari. Eu morei um ano em Laranjal do Jari e depois eu engravidei da minha menina, fui trabalhar no hotel, Hotel Solar do Carmo aqui. Quando eu entrei no hotel, um mês depois, eu engravidei da menina.

 

Trabalhava à noite, pra ajudar na questão financeira da casa, que na época a gente pagava aluguel, era complicado, e o salário era pouco. Depois eu tive a minha menina e tive que largar o emprego. A gente mudou pro Planalto, que é uma vila. Morei oito anos no Planalto, tive um menino. Meu marido estava empregado na Jari mesmo e eu comecei a estudar mesmo. O meu filho mais velho já tinha dez anos, meu filho mais velho.

 

Eu estudava à noite, continuei o estudo, que eu fiz a primeira, a segunda e a terceira etapa, depois eu fiz o primeiro, o segundo e o terceiro aqui, em Monte Dourado, Depois dessa época, eu mudei pra cá, pra Monte Dourado. Facilitou que eu estudei o terceiro, o segundo e o terceiro ano aqui. No mesmo ano que terminei o terceiro ano, mudei pra Laranjal e o meu filho também estudava. Quando foi no segundo ano, eu já estava morando em Laranjal e o meu filho terminou o terceiro ano.

 

Tinha um desafio que a gente estudava pra fazer a faculdade, foi que veio uma prova do vestibular federal, pra Laranjal do Jari, do vestibular do estado do Amapá, da Unifap. Ele entrou pra federal, fez a faculdade. Ele fez pra História, passou na prova do vestibular e eu fiquei sem estudar, ele continuou a estudar. Passou em concurso público pra professor. Fez aqui, no município de Almeirim, pra Ensino Fundamental e pra área de História.

 

Só que ele não pôde exercer na História, porque ele não tinha ainda a documentação. Ficou sendo professor do Ensino Fundamental, depois ele fez em Vitória do Jari pra Ensino Fundamental e agora ele fez concurso do estado e passou, em primeiro lugar, no concurso do estado. Ficou sendo professor em Vitória do Jari, do município e do estado. Eles foram crescendo, quando o meu menino chegou na idade de 12 anos, eu também só era dona-de-casa, aí eu conheci o projeto da Fundação. Eu fiquei sabendo porque tinha os projetos CEM, que eram os Centro de Excelência da Mulher. Na época que eu me inscrevi, a gente começou a participar, eu tinha também uma venda que eu trabalhava pra Natura, eu vendia Natura. A gente começou a fazer microcrédito, pra ampliar a venda.

 

A Fundação começou a trazer os cursos de artesanato e eu me identifiquei com a joia e com o patchwork. Depois eu ainda me afastei, e com o incentivo das meninas, comecei um colarzinho daqui, outro dali, hoje eu sei fazer muito bem. Quando acabou o curso, a gente começou a fazer individual, cada um fazia, comprava semente em Belém, tinha muito essa dificuldade. A gente iniciou o trabalho em 2004, e quando foi 2005 começou já na associação. Eram Vinte e três mulheres. Associação AMARTE, Associação das Mulheres Mães Artesãs do Vale do Jari. Quem foi a presidente, foi a Aldenora, na época, ela é de Vitória de Jari. A gente se reunia, eles trouxeram capacitação de sociativismo, de cooperativismo, e de outros cursos de capacitação pra gente, pra gente poder estar formando a associação.

 

A gente teve muita dificuldade no início. De início eu me afastei, porque eu trabalhava com patchwork e eu colocava na associação, não vendia. Eu tinha que pagar a mensalidade, porque a gente paga uma mensalidade pra sustento da associação e eu tinha essa dificuldade. A gente juntava um pouco de dinheiro pra estar comprando material, cada uma comprava seu material. Foi aí que veio a questão do edital da Petrobras, o edital do Governo do Estado e a gente conseguiu mandar o projeto e a gente conseguiu captar o recurso.

 

A gente arrumou o primeiro espaço pra produzir foi em Vitória do Jari. As máquinas que a gente comprou ficaram paradas, foi que a Fundação também cedeu espaço aqui na Escola da Madeira. A gente trouxe as máquinas pra cá, pra começar a fazer beneficiamento, porque a gente já tinha o maquinário, mas não tinha o espaço pra montar. Até por conta da energia que, algumas máquinas de beneficiamento que é trifásico a máquina, a gente teve muita dificuldade nessa questão. A gente também conseguiu um local, o local é muito grande, é um pouco afastado. Enquanto a gente estava trabalhando aqui, estava construindo o espaço de Vitória, a gente fez um empréstimo e conseguiu. No ano passado que a gente conseguiu pagar, só que foi três anos que a gente pagava. Tinha associado na época, de 2009, no final do ano a gente conseguiu retirar mil e pouco.

 

Cada uma associada. Os principais compradores são as pessoas que vem de fora, mulheres, no aeroporto eu vendo, não é aquela questão de ser só mulher, no aeroporto eu vendo bastante pra homens. Temos, no aeroporto uma lojazinha mesmo, é um espaço, como é esse aqui, só que é menor, que a Jari cedeu pra gente, sem custo. Hoje eu vou dizer pra você, a gente tira em torno de 200 reais, 300 reais por mês. Nós temos custos. A gente tem muito porque você vê que tudo é caro, nós temos alimentação e a questão do transporte principalmente. A gente compra de São Paulo, o material. Esse material, todo material praticamente nós nunca comprava aqui, que é a questão do metal, do fio, a gente manda comprar em São Paulo, vem pelos Correios, pelo PAC que é um trabalho dos Correios.

 

Eu fui escolhida no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios. O Sebrae procurou a gente pra contar a história sendo a história da pessoa e da associação. Eu fui escolhida pela minha história. Quando foi no dia 14 de março, ela me ligou: “Lembra da história que você me contou? Você foi selecionada entre as histórias pra vir para o prêmio em Macapá”. Eu fui pra Macapá e ganhei o prêmio estadual e depois quem ganhava o prêmio estadual, era também selecionado pra Brasília. Eles levaram a gente pra conhecer alguns lugares lá em Brasília.

 

O coordenador do Sebrae falou, “Olha essa pessoa que veio, que foi a premiada veio de muito longe”, quando ele falou meu nome, eu fiquei assim, “Ai, meu Deus, eu não estou acreditando”! Através do prêmio, eles marcaram a viagem. A gente passou dez dias lá na Itália e levaram a gente pra conhecer vários museus, várias cidades, fui no Vaticano, vi o Papa. Os principais desafios hoje é comercializar e o relacionamento entre as pessoas. Eu sou a presidente da associação hoje, fui eleita em 2010. Nós fazemos colar, brinco, pulseira, terço, grampo de cabelo, chaveiros, cintos. São feitas de sementes da região da Amazônia, mesmo: açaí, olho de boi, caranã, paxiúba, jatobá, tucumã, jupati, aturiá, bacara, tem vários tipos de sementes, que a gente utiliza da Amazônia. Hoje a associação trouxe um benefício muito grande, uma questão de reconhecimento. A gente visitou várias empresas, aprendi a valorizar, cada vez mais, meu trabalho.

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