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História

Uma mulher no esporte nos anos 30

História de: Elizabete Lídia Von Lhering Jung
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Carioca. De uma família muito culta. Sócia do Clube do Flamengo. Paixão pela esgrima, remo, basquete. Fundou o departamento feminino do Clube do Flamengo. Visibilidade feminina no esporte.A frente de seu tempo. Viajou o mundo.

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História completa

P/1 - Bom, boa tarde à senhora. A gente gostaria de começar a entrevista com o seu nome completo, a data de nascimento e o local de nascimento. R - Elizabete Lídia Von Ihering Jung, data 24 de junho de 1911, dia de São João... P/2 - Onde? R - São João! P/1 - Nasceu aonde? R - Rio de Janeiro P/1 - Qual o nome dos seus pais? R - Oscar Ihering e Clara Von Ihering P/1 - E qual era a atividade deles? R - Bom, o meu pai era engenheiro, formado em Viena, Áustria, engenheiro, e minha mãe era dona de casa, mãe de família. P/1 - Do Rio? R - Ela? Não, ela era gaúcha, brasileira, meu pai que era Austríaco. P/1 - E a senhora sabe como é que eles se conheceram, como é que vieram parar aqui no Rio? R - Não, meu pai quando se formou era jovem e ia começar a vida, novo, assim, e achou que o Brasil era um país promissor, ainda jovem, promissor, então veio pra cá, porque ele era engenheiro mecânico, era de máquinas, máquinas de estrada de ferro, essas coisas assim grandes, obras grandes, ele veio pro Brasil. P/2 - Ele veio sozinho? R - Veio sozinho, aí em São Paulo, conheceu minha mãe, depois se casaram e vieram pro Rio, aí eu nasci. P/1 - E a senhora teve mais irmãos? R - Não. P/1 - E a senhora conhece um pouco da origem da sua família, dos avós, dos bisavós? R - Conheço bem. R - Posso dizer? P/1 - Pode, pode. R- Pode falar? (riso) P/1 - Pode R - Tenho uma árvore genealógica que data de 1391 parece, árvore genealógica feita na Alemanha, muito bonita, grande, ta lá na minha parede, um quadro, 1391, árvore genealógica, agora o título de Von foi dado ao meu bisavô, pelo Imperador que aí então tornou-se aristocrata, é um título de nobreza o Von, mas a árvore genealógica é desde 1391. P/2 - E que época foi o Von? R - Foi no século passado, não posso precisar, em que data que o Kaiser deu a meu bisavô o titulo de Von, eu não sei. P/1 - E a senhora sabe o que, que seu bisavô fazia, o que ele fez pra receber o titulo? R - Foi em atenção aos trabalhos dele, ele era juiz consulto, todos os lugares deve conhecer Rodolph Von Ihering, as universidades de Nissen e a outra...esqueci daqui a pouco eu lembro, ele foi juiz consulto, e dizem, que foi o maior do século, o cabeça, o maior cabeça do século na Alemanha Rodolph Von Ihering, consta isso em todos as léxicos e dicionários, assim tudo consta isso, e ele devido às obras dele, recebeu esse título honorífico, e passou para o meu avô, meu tio, e eu ainda uso, mais mulher com o tempo perde, perde o título, passa sempre ao barão. P/1 - E algum deles bisavô, avô, tio-avô da senhora seguiu a carreira de advogado jurista ou foi por... R - Não, seguiram todos eles se formaram, mas o filho do Rodolph Von Ihering, ele se formou na medicina, tanto que ele fez a guerra de 70, a guerra da Rússia, foi condecorado ainda conheci a medalha toda de ferro, mas ele não se interessava muito pela medicina não, ele queria era mais ciência, ciências naturais, era um cientista, grande cientista, ele se interessava muito por tudo quanto que era da natureza, e mitologia, paleontologia, e tudo isso, e fundou, foi um dos fundadores do museu de La Plata na Argentina, que eu cheguei lá e conheci, ele era um grande paleontólogo. Depois ele foi chamado pelo governo do estado de São Paulo para fundar um museu, com o tempo se chamou Museu do Ipiranga, ele fundou, sozinho...empregou muitos anos da vida dele, sendo que a minha mãe era secretária dele, auxiliar, e ele dirigiu esse museu durante muitos anos, muitos anos, com todo amor, deu praticamente a vida dele, mas depois veio a guerra, a primeira grande guerra, e ele como alemão, sabe como é guerra é guerra, tiraram ele do cargo, e ele teve ir pra Alemanha, e ficou tão desgostoso, que dizem até que ele morreu de desgosto, mais deixou o filho dele, que era, esse era brasileiro Rodolpho Von Ihering, esse era, mais também cientista, mas era mais pra piscicultura. Tanto que ele é considerado o pai da piscicultura brasileira, esteve muitos anos no nordeste, estudou as águas dos açudes, os peixes que melhor se atavam aquelas águas, isso em...em Piracicaba, também ele foi diretor do Museu Biológico, foi também em Piracicaba ele, que há um departamento especial para isso. Ele acompanhava a piracema dos peixes, e em uma ocasião, então, ficou tão entusiasmado porque os peixes estavam subindo, você sabe o que é piracema, eles sobem aquelas, aquelas, espécie de rampas, os peixes sobem para ir desovar, e quando deu-se, anunciaram a piracema, ele ficou tão entusiasmado que saiu da cama quente e entrou dentro d’água e apanhou uma doença e então morreu, praticamente pode se dizer que ele morreu por causa disso, mas ele é muito considerado tio Rodolpho. P/2 - Irmão da sua mãe? R - É, era irmão de mamãe, eu o conheci, deixou duas filhas, que, aliás, uma faleceu agora. Ele deixou duas filhas, agora só ficou uma, que é a que toma conta de todo o acervo da família Ihering, é muito grande, muita coisa, muita coisa valiosa mesmo, eu soube que tem um álbum uma das peças é um, um livro de presença, livro de presença que as pessoas assinavam, quando foi o livro que pertenceu ao velho Rodolph todas as personalidades que iam visitá-lo, vinha gente do mundo todo visitá-lo, até um não sei se era Imperador do Japão, acho que era o filho do Imperador do Japão; o príncipe e herdeiro que teve lá, foi visitá-lo e assinou o livro, e todas aquelas personalidades ilustres em geral, eram poetas e, músicos e, bom tudo quanto é gente ilustre, e ia lá visitá-lo, cumprimenta-lo, e esse livro agora, quem está tomando conta agora é minha prima em São Paulo, ela herdou o acervo, é muita coisa mesmo o acervo Von Ihering. P/1 - E a senhora conheceu ele? R - Não, o velho Von Ihering não, meu bisavô não. Temos em casa é uns... umas taças, uns vidros de... uns copos de vinho com o brasão da família, feito especialmente pra família, um brasão, lapidado a mão, lapidados a mão e eu tenho ainda, eu ganhei três tenho dois ainda sendo que um, um eu levei pra Europa que eu dei pra universidade de presente, eles ficaram contentes, um presente uma coisa, um presente do velho Von Ihering. P/2 - A senhora ainda tem parentes na Alemanha? R - Agora tem por parte do meu marido, falecido marido, esse eu conheço bem, família Jung de Baden-Baden não sei se você conhece Baden-Baden, você conhece, já ouviu falar? P/1 - Do lado da França! P/2 - Do lado de Cherbourg. R - Perto de Cherbourg é só atravessar o Canal da Mancha, o que eu fiz isso várias vezes, e essa família da parte do meu marido mora lá há muitos anos. Todo em dois e dois anos quando nós fazíamos uma viagem, quando eu digo “nós” é eu e meu falecido marido; nós sempre fazíamos uma viagem longa mais sempre parando em Baden-Baden pra visitar a família dele posso dizer que eu conheço, conheci relativamente bem Baden-Baden cidade linda, linda, linda, aquilo é uma jóia, um jardim e no inverno então, aquilo é um centro quase que mundial de tudo quanto é, a nata dos expoentes da música, da literatura, do balé, tudo isso e do recasso também porque aquilo lá é ver as corridas de Baden-Baden é uma coisa que atraía gente do mundo inteiro. P/2 - Mas voltando um pouquinho assim é na sua infância, a senhora lembra aqui no Rio? A senhora nasceu aonde? R - Nasci aqui no Rio. P/2 - Em que bairro? R - Era na Glória, e não é muito longe, daí já era crescida não era muito longe do Flamengo simpatizei com o clube e tal comecei a freqüentar e sou Flamengo até hoje. P/2 - E a senhora morava na Glória a senhora lembra da casa? R - Não, depois moramos no Flamengo, numa daquelas transversais, aí que eu não me lembro. P/1- Lembra da casa do Flamengo, como era essa casa, onde ficava? R - Era na Rua Marquês de Abrantes perto da Rua Senador Vergueiro, se não me engano… Nem sei se existe mais hoje, acho que fizeram um prédio lá. P/1 - E que lembranças a senhora tem daquela época, da infância, se tinha, a senhora era filha única tinha amigas ou como era isso ? R - Filha única, bom ser filha única era tudo pra mim, claro carinho era tudo pra mim. Mas depois com a guerra, Primeira Guerra Mundial, meu pai sofreu muito sendo estrangeiro e aí nossa vida mudou muito pra pior. Os tempos não foram bons não durante muitos anos, não foram nada bons. Um estrangeiro cujo país esta… o país está em guerra com o Brasil, a situação não era boa. P/1 - E na escola, em que escola a senhora estudou? R - Eu estudei primeiro em uma escola pública Rodrigues Alves que fica junto ali do Palácio do Catete, defronte assim quase que do lado. E devo dizer que o ensino público era muito bom mesmo, acredito que melhor que escola particular de hoje em dia, muito bom mesmo; eram sete anos, foram sete anos, primário eram sete anos, esse era o primário e dali tinha o primário, depois tinha o secundário e depois o o... P/1 - Universidade! R - Universidade, de maneira que hoje em dia esses sete anos não são mais sete, são cinco aí depois tem o segundo grau, tem não sei o que, não sei o que , de maneira que eu não sei como que posso me codificar a minha educação. Agora depois que terminei os sete anos eu tive professores particulares de música, literatura, português e assim... P/2 - Alemão a senhora aprendeu em casa? R - Ah sim, isso era obrigado! línguas, tive professor de línguas, também inglês. Uma inglesa de Londres, uma francesa da França, e mais o alemão foi em casa mesmo assim, era obrigatório falarmos alemão em casa. Em casa mesmo falo correntemente, corretamente cansei de inglês também, espanhol de ouvidos, peguei de ouvidos, eu acho que falo não sei, e italiano também assim agente aprende quando vai a Itália e tal, professor de música professor de violino que eu estudei vários anos, tive dois, eram italianos uns falavam só italiano e eu também aprendi muita coisa. P/2 - E como era o bairro do Flamengo nessa época? R - O bairro? P/2 - Marquês de Abrantes, a praia... R- Bom não eram grandes apartamentos não, os apartamentos não eram grandes, eram mais casas, e a praia do Flamengo é que estavam começando a surgir, edifícios de apartamentos e não sei o que, mais eram residenciais. P/2 - A senhora ia a pé pra escola? R - Ah ia sim a pé, naquele tempo não havia isso, pois era escola pública não havia esse luxo de vir um carro na porta pra buscar os alunos na porta, não tinha disso não, era a pé mesmo. P/1 - E seus pais eram em relação aos estudos, como é que eles eram exigentes com a senhora... R- Ah sim, gostava que eu fizesse bem feito, estudasse bem mesmo. P/1 - E quem levou ou como é que aconteceu a aproximação com o Flamengo ? R - Por isso, porque como eu disse eu morava perto e simpatizei com o clube e passei a freqüenta-lo, por que era na praia do Flamengo ali, na praia mesmo, perto da Rua Silveira Martins, fundo do Palácio dos Catetes quase, a sede era ali, passei a freqüentar e entrei pra lá e entrei comecei a fazer esporte, e depois a sede, mais a sede mesmo era na Rua Paissandu, a sede terrestre... P/2 - A senhora freqüentava a sede da praia, a senhora lembra como é que era a sede da praia? R- Depois que eles reformaram fizeram um edifício, fizemos um jantar dançante la... P/2 - Mais antes como é que era? R - Antes era uma garagem de barcos, depois é que fizeram aquele prédio recuado, mas o movimento maior era na sede terrestre que era no fim da Rua Paissandu, tinha a sede no fim da Rua Paissandu tinha a sede terrestre. P/2 - Era perto da escola a sede da Paissandu? R - Não, não, aí não tinha nada haver com a escola; mas aí então que surgiu todos os esportes, fundou se um departamento feminino, eu sou a fundadora do departamento feminino, eu não sei mais se existe, não sei se existe mais, mas era bastante freqüentado tinha muita moça, jogava voleibol, basquetebol, tênis e havia ginástica, professora de ginástica e uns esportes terrestres, nós fazíamos... P/1- Antes de entrar nesses, nesses esportes eu queria que a senhora contasse pra gente que na verdade existe uma descrição o que, lembrança daquela sede da Rua Paissandu como é que ela era um andar dois... R - Não era uma espécie de um rinque de patinação coberto, era um andar só, como se fosse um tablado grande, enorme, e com as edificações em volta, mas o principal era o rinque ali que se faziam, jogavam basquete, voleibol, dava se as festas os bailes e era o centro mesmo, o centro do clube era ali, na Rua Paissandu, depois venderam e depois fizeram apartamentos ali não sei... não existe mais. P/1 - Bom então a chegada da senhora foi por causa da aproximação ou teve alguma pessoa que: “olha eu vou levar...”? R - Não, não. Foi espontaneamente, o ambiente era muito bom, era o tempo do amadorismo, eram todos rapazes de família eram todos estudantes, havia muito entrosamento no departamento feminino e o departamento de atletismo tinha muito entrosamento, eram todos rapazes de família bons estudantes de direito, medicina, todos eles, depois se formaram alguns até tiveram bastante nome. P/1 - E a fundação da sessão feminina no clube, como é que aconteceu isso, a idéia de... R - Não porque havia muitas moças que faziam esportes e, aquilo não estava bem organizado e resolveram regularizar as coisas e fazer um departamento feminino mesmo coisa oficial, e não era oficial porque as pessoas às vezes iam lá e jogavam e tal, mas não era uma coisa assim muito... muito perfeita não, precisava ser uma coisa meio estruturada, então fundou se o departamento feminino. P/2- Teve alguma sessão solene, alguma.... R- Deve ter havido, eu me lembro do... foi no tempo do grande presidente Dr. Faustino Esposel, grande médico e grande presidente e a diretora era...uma senhora médica acho que Dr. Ana Teixeira Leite. Mas havia muita harmonia mesmo em todos todos os esportes em todos teve uma integração total, quando, mesmo no futebol, quando o time de futebol ia jogar lá em Caixa Prego, fretava-se um ônibus assim e ia toda a turma torcer junto, eram tempos diferentes (risos). P/1 - Depois qual foi o primeiro esporte que praticou no Flamengo ? R - Eu acho que foi... Fui lá mais por causa da ginástica, primeiro, ginástica, ginástica rítmica, não era ginástica de que hoje em dia faz bailado não, que eu não tinha jeito pra bailado. Mais para ginástica sueca, mais para ginástica sueca, tinha uma boa professora. Eu nadava também mas não havia piscina, era difícil, nadava mar aberto, na praia do Flamengo. P/2 - E tinha algum uniforme para ginástica rítmica ? R - Eu acho que tinha um calção preto e uma blusa branca, se não me engano. Da esgrima, sim, nós tínhamos uniforme. Não falei da esgrima mas também pratiquei esgrima!. Na esgrima que havia uniforme para jogar. P/1 - Quais foram os esportes que a senhora praticou pra depois pegar um por um? R - Eu pratiquei um pouquinho de todos, lá no clube da Rua Paissandu a gente fazia além da ginástica, jogava voleibol, basquetebol, tênis e um pouquinho de corrida, um pouquinho... tinha mais jeito pra salto de altura, pulava, ficava, mais assim tudo sem grandes ideais sem, agora a esgrima sim. Mas a esgrima já era praticada na praia do Flamengo, no edifício da Praia do Flamengo, isso sim, que era bem organizado. Tenho o mestre d’armas, tinha aqueles armários que todo mundo guardava seus uniformes, e então ganhei o campeonato carioca. É, era pra ser a preparação para, preparativos pra olimpíadas de Monique, e eu fui disputar o campeonato brasileiro em São Paulo, com uma esgrimista, mas ela era muito forte e eu , Hlda Von Puttkammer , Von, é Von, Von, nós duas, mas ela era muito boa e ela morou muito tempo na Alemanha, se especializou lá fez cursos e tal. De maneira que ela lutava com os homens e ganhava deles, pode se dizer que nas olimpíadas eu perdi, é claro mais ficamos muito amigas, muito amigas mesmo pra toda vida, mas ela chegou até as quartas de final das olimpíadas já é alguma coisa, quartas de final, “com quem eu fui jogar, com quem eu fui jogar”, ela me ganhou com toda razão mais ela foi as quartas de final, era uma grande jogadora, uma grande esgrimista, nunca mais o Brasil teve uma Ilda. P/1 - E como é que era um treino de esgrima, consistia no que? R - Tinha as aulas, não é... As aulas, com o mestre d’armas ele dava as aulas no começo, aliás é muito cacete muito cacete mesmo, a gente tem vontade de desanimar, mas depois que as pessoas ficam entrosada no esporte e, vai se animando... Por fim, gosta e acaba gostando e aquilo se torna uma cachacinha. Eu trabalhava ainda nesta ocasião: saia correndo do banco que eu trabalhava pra ir correndo pra Praia do Flamengo, trocar a roupa e jogar. Primeiro dava a aula, depois então se jogava, depois então quando estava mais adiantado, fazia pequenos, pequenas lutas entre os esgrimistas, os rapazes e as moças, então nós jogávamos com rapazes e moças havia uma simbiose muito boa, era bom. P/2 - E era lá na sede da praia? R - Na sede da praia, sempre na praia na sede do remo. Eu também fiz remo, não sei se eu contei, uma coisa que eu gostava muito era o remo, gostei muito, mais isso já era na a garagem era na praia do Flamengo, tinha prazer grande quando pegava um esquife sozinha, e dava aquelas remadas, eu ia longe, longe, por que o mar era diferente, a Praia do Flamengo era diferente. P/1 - Como é que era? R - O mar não vinha... não estava aterrado não havia aterro ainda, o mar vinha bem mais próximo às casas, havia uma rampa, ali, por onde a gente entrava na água com os barcos... P/2 - Onde que era a rampa ficava em frente assim ? R - Bem em frente, a rampa justamente pros barcos saírem. Porque havia outros barcos, outros remadores tudo quanto era remador era lá , depois é que passou aqui pra lagoa muito tempo depois, mais era tudo lá na Praia do Flamengo, aí depois parece que venderam o prédio também, e mudaram de sede e tal... Acabou-se aquela cena. P/2- E tinha praia? As pessoas freqüentavam…? R - A praia do Flamengo, propriamente dita, era mais um pouco mais pra lá, era mais na altura da Rua Barão de Flamengo, sabe onde é? A praia, tinha uma praiazinha ali, ali que era a praia, agora a rampa não, a rampa dava direto lá nas rochas e no mar não tinha praia, muitas vezes fiz parar o transito quando eu pegava o esquife numa ponta o barqueiro, pegava na outra ponta e atravessamos a avenida, a Praia do Flamengo, grande movimento pra lá e pra cá paravam o trânsito todo pra nós passarmos levando o esquife... Foram bons tempos aqueles. P/1 - Mas aí já tinha carro naquela época? R - Onde? Ali na Praia do Flamengo, sim, sim! Muito movimento pra lá e pra cá, eles paravam todos pra nós passarmos, um dia um negrão daquele e a maioria, carregando um barco comprido e fino, paravam todo mundo, brincavam, faziam brincadeiras, eu era muito séria, mais (risos)... P/1 - Quem ensinou a senhora a remar? R- Aí tinha os remadores mais antigos, que tinham medalhas e tal, esses ensinavam, e não era só eu tinha outras também, outras moças, eles é que ensinavam aí não havia mestres, não havia preparador, alguns jogadores mais antigos que tinham medalhas eles viam que nós tínhamos boa vontade, iríamos remar... Então eles nos ensinava, primeiro com aquelas baleeiras, depois com iole, depois ia subindo e melhorando, até ficar com esquife, pra mim hoje eu sei, eram leves, eram madeiras leves. Mas hoje eu sei que o Flamengo importou uma forquilha de alumínio, se eu não me engano acho que alumínio, deve ser levíssimo! No meu tempo não era leve assim não, levíssimo de alumínio, importado, parece que da Alemanha, não sei... P/1 - E alguma vez a senhora caiu dos... R - Ah a primeira vez que se entra no esquife, a gente vira, vira logo! É tão estreitinho assim assim, é estreito assim, pra pessoa sentar e se equilibrar, agora eu não sabia, nem me disseram, acho que fizeram de propósito, pra que eu levasse um batismo de água salgada! Não me disseram que eu não devia levantar os remos, como eu estava acostumada com os outros barcos, mas assim sempre levantei os remos, levantei o remo. É que o remo tem que ficar apoiado na água, os dois, que é pra manter o equilíbrio, eu levantei e, pumba dentro d’água, batismo, o meu batismo diz que foi de água salgada mesmo. P/2 - E as ressacas eram freqüentes ali? R - Aí o barco não saia, mas eu tomava banho de mar nessa prainha do Flamengo… que era defronte ao fiador Paissandu, começo da Rua Paissandu, tinha uma prainha ali na Rua Paissandu, ali é uma bifurcação de ruas: Paissandu de um lado, Barão de Flamengo do outro. Nessa bifurcação defronte havia uma prainha, aquilo era a Praia do Flamengo. Eu, quando havia ressaca era terrível, terrível, mas eu entrava assim mesmo. P/2 - E o mar, a água vinha até... R - No paredão, batia no paredão, hoje aterraram tudo, esta muito mais largo, mas eu entrava, não ligo não, não voltava atrás. Pra entrar é fácil é relativamente fácil entrar numa ressaca mais sair naquelas ondas… Aí que é ruim, era muito ruim mesmo, mais eu fazia. P/1 - A senhora então passou por maus bocados pra tentar sair... R - Ah precisa ter muita coragem, ter força também, e ter prática de mar, por que a onda vem e leva, se não sabe que na hora que ela vai quebrar, quando a onda vem, a gente mergulha, atravessa a onda e sai depois dela, aí depois tá livre! Mas pra voltar você vem em cima da onda assim, e na hora que ela quebra se você não tem prática você vai junto rola junto, e pode acontecer um desastre... Na hora que ela quebra que é uma onda de dois metros, três metros... ai se a pessoa não tem prática e coragem mesmo, um desastre. P/2 - E como eram as roupas pra ir a praia? R - Ah engraçadíssimas! Maiô, maiô e uma peça inteira. Mas eu tinha um calçãozinho, tem… eu trouxe até um álbum que tem umas fotografias aí. Um calçãozinho preto e uma camisa do Flamengo, as listras horizontais preto e branca, era preto e vermelha e as iniciais do clube em branco bordados. E se usava muito essa roupa, mas também usava maiô inteiriço assim muito bem comportado, como se diz, né, maiô bem comportado. P/1- Por quanto tempo a senhora ou quando que começou a remar com que idade lembra ? R - Não, não me lembro não. P/1 - E por quanto tempo ? R - Fiz muitos anos, mas eu fiz por esporte mesmo, mas tinha outra... Houve uma vez uma competiçãozinha da Praia do Flamengo daquela parte da areia até o clube era uma coisa brincadeirinha ali. Nós duas só, e o pessoal acompanhando em cima perto do paredão e torcendo cada um pelas suas competidoras, torcendo acompanhando a cena e torcendo... Eu ganhei, não, mas depois aí ainda eu peguei na Lagoa e era muito rudimentar; muito precário... Quando o Flamengo abriu a garagem na Lagoa Rodrigues de Freitas, no começo aquilo era tudo muito rudimentar muito acanhado e tal… Mas mesmo assim ainda peguei, remei um pouco ali na Lagoa, eles passaram a garagem pra lá, nisso ficou muito ruim também pra mim, porque era lá na, antigamente era difícil chegar lá, ali na, não é Leblon, é uma rua, era mais difícil de ir pra lá... Ali na Praia do Flamengo, não, aquilo era caminho, mais uma das razões também por que deixei, porque os barcos todos foram pra lá não dava mais jeito de continuar. P/2 - E os rapazes, eles treinavam também lá na Lagoa, aliás, na Praia do Flamengo? R - É na Praia do Flamengo. P/2 - As competições eram lá também? R - Não as competições eram na praia de Botafogo, e parece que na Lagoa também, mas aí eram competições de vários clubes, mas o Flamengo sempre se saia bem. P/1 - E os outros esportes, a senhora falou que jogou basquete também? R - Ah jogávamos basquete, era um time feminino. Depois quando nós nos sentimos mais fortezinhas, começamos a jogar contra o time dos rapazes, lá na Rua Paissandu, no rinque da Paissandu. Claro que os rapazes ganhavam, eram rapazes todos que faziam parte do time da... que disputava o campeonato da cidade, mas nós jogávamos direitinho e o voleibol também. P/1- A senhora lembra mais ou menos algum nome dos rapazes, que tinha um tal de Martinez que foi, o Flamengo foi campeão nessa década de 30 muitas vezes, muito anos... R - Foi, foi, o basquete do Flamengo foi muito bom, no vôlei nem tanto, mais o Flamengo foi muito bom, não me lembro mais quem era, mais aí, um dia faltou um juiz, e eu resolvi ser juiz, isso no rinque, que eu chamo rinque na Rua Paissandu, no rinque da Rua Paissandu, parece que eu não me dei mal não, tanto que eu vi um jogo de basquete masculino em Niterói, um jogo amistoso, rapazes de Niterói, rapazes do Flamengo e me convidaram pra apitar, lá fui eu, fui a primeira juiz, juíza se pode dizer assim, a juíza de basquetebol, juíza feminina de basquetebol, as regras hoje já mudaram muito, não sei mais. P/2 - A primeira juíza feminina a apitar o jogo de homens? R- De masculino é, bom comecei apitando lá mesmo no ringue, fui me adaptando de tanto jogar, ver, de ver muitos campeonatos, muitos campeonatos internos, tanto de basquete, de vôlei de futebol e cada time tinha sua madrinha. Às vezes as coisas desandavam, não era como hoje em dia, mais as coisas também desandavam um pouco, P/1 - Como assim? R - Ah, brigas entre as garotas, mãe de garotas, mãe com mãe (risos). P/2 - E a sua mãe freqüentava também? R - Ah sempre me acompanhou, sempre, não me largava mesmo! Sempre me acompanhou, mas ela não se metia nisso não, e eu também, porque as outras brigavam entre si,não sei o que... Mas eu não sei eu não gostava de brigar, ganhou ganhou, perdeu perdeu, de maneira que eu ficava a parte, não tomava partido. E parece que no fim tudo, todos torciam pelo meu time, porque eu não brigava com ninguém, então torcia por mim, pelo meu time, e assim, o meu time várias vezes ganhava... P/1 - E esses campeonatos internos eram organizados pela sessão feminina, pelas…? R - Não. Pelo clube, o departamento que organizava, interno era do clube, campeonatos internos, tinha medalhas, tinha taças. P/1 - E como eram, duravam um dia inteiro, um final de semana? R - Não, não... Assim, uma noite assim, uma, duas por semana assim, todo mundo ali trabalhava. Os rapazes estudavam, trabalhavam, tinham que acordar cedo, não podia acabar muito tarde, e ser assim muito cansativo. P/2 - E tinha uniforme também ou não... R - Ah, sim todos, o uniforme do clube, sempre a camisa do clube, e um calção um calção branco ou preto... P/1 - A senhora falou que jogou muito tempo basquete, a senhora não se animou a treinar, a virar treinadora, a orientar os mais jovens depois? R - Não, porque não havia muita gente, não havia muita gente... Não havia muita gente interessada nisso, só por ser do departamento feminino, mulher só podia trabalhar com o departamento feminino. Mas não havia assim, esse interesse não, assim pelo basquete não. Pelas moças, depois eu não sei o que, que depois eu deixei comecei a trabalhar, e me afastei um pouco tal, eu não sei que fim levou o departamento feminino. Só sei que eu tenho duas carteirinhas: tenho a carteira de sócia, que é uma carteira de não 1900 e não sei quando e uma que eu tirei ano passado uma nova que eu tirei na Gávea. P/2 - Desculpe, voltando um pouquinho pro remo, essas competições, teria alguma competição além dessa feita... na praia que a senhora tenha acompanhado? R - Feminina? P/2 - Não, masculina. R - Ah nós, sim... P/2 - Alguma competição maior... R - Sim, havia competições, do Rio de Janeiro, às vezes interestaduais. P/2 - Como assim? R - Ah, dos rapazes… Moças não dava pra ir, não havia número suficiente para campeonato… Mas... P/2 - Como a gente falava, dona Lídia, das competições de remo, então a senhora falava que tinham competições interestaduais... R - Não, mas é aquele fato que a senhora se referiu foi aquela, daqueles três que foram a Santos será esse... R - Quer que eu conte, eu já contei isso naquela outra gravação, mas se quiser eu posso contar isso de novo. P/1 - Pode, à vontade. P/2 - Vamos contar novamente... R - Que três remadores do Flamengo cismaram de ir a Santos remando, os nomes já são sugestivos, Boca Larga, o Engole Garfo, e o Angelu que era o patrão do barco. Os três resolveram ir a Santos e, a madrinha foi a que vos fala, com champanhe e tudo mais. Fizeram-se todos os preparativos, tudo muito combinado e tal, e no dia da saída do barco, foi na Praia do Flamengo ali justamente na rampa da onde havia a garagem na Praia do Flamengo. Juntou gente, mais gente, porque foi muito anunciado isso, muita gente, a Praia do Flamengo ficou intransitável, e nada dos remadores chegarem, nada dos remadores chegarem, e uma lancha ali parada, soube-se que era a lancha da polícia marítima que ia proibir essa excursão não sei como é que se diz… E proibir essa excursão a lancha da polícia marítima, esperamos, esperamos e nada, depois veio a notícia que eles haviam saído há muito tempo de uma praia distante! Naquele tempo uma praia no Leblon na prainha, não sei da onde, eles já tinha saído e aquela altura já estavam longe, e eles chegaram em Santos bem, remando, mas o quando se soube da chegada deles... Foi uma alegria! Uma euforia geral do povo, dos jornais, no rádio, televisão parece que não havia , rádio e revistas, tudo uma euforia geral: Flamengo! Flamengo!. E diante disso, as autoridades resolveram mudar de posição, mas foi uma surpresa, eles que queriam prender os três rapazes, iriam prender, resolveram mudar de pensamento de posição, e mandaram… O ministro da marinha mandou um destróier, um contratorpedeiro buscá-los em Santos, um contratorpedeiro, a chegada desse contratorpedeiro ao Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara. Foi uma beleza, uma apoteose uma apoteose, centenas e centenas de embarcações de todo tipo cercando e acompanhando o destróier todo embandeirado tocando sirene, muito bonito a chegada, lindo. Depois do desembarque uma carreata de carros, em frente do carro iam os remadores, depois o presidente, depois no terceiro barco ia eu com minha mãe e mais não sei quem, a carreata de automóveis. E lá no Clube Naval, todos se dirigiram ao Clube Naval ali no fim da avenida, estava o ministro da Marinha esperando pelos remadores, o ministro e seus assessores, toda a oficialidade fardada, muitos associados do Clube Naval, tudo esperando os remadores, foram recebidos muito bem, foram condecorados, e o povo lá em baixo começou a gritar: “fulano, fulano, fulano”. De vez em quando aparecia um remador, e o remador naquela ovação. A avenida apinhada de gente, depois chamavam Engole Garfo, não sei o que aí vinha, depois Angelu então depois que os três apareceram , não tinha mais remador começaram a gritar: “madrinha, madrinha”, minha nossa senhora é a madrinha, e a madrinha teve que aparecer na sacada do Clube Naval e corresponder toda aquela ovação, foi uma coisa emocionante mesmo, eu sei que aquilo não era dirigido a mim, era dirigido a representante do Flamengo, era a ela que era dirigida toda aquela homenagem, e não a mim pessoalmente, eu sei muito bem disso, muito bonito foi muito bonito. P/1 - E quem que convidou a senhora? R- Ah, foram os remadores. P/1 - A senhora lembra da situação? R- Ah eram os três, que fizeram a... O Engole Garfo, com o Boca Larga e o Angelu, era mais resistente para alto mar. P/1 - E a senhora tava aonde, tava no Flamengo, porque assim eu queria saber, assim, o convite deles como é que eles... R - É porque eles me viam remando ali, no esquife, eu era remadora, em particular fazia esporte, em particular não era, não era pra competir, competição. Então eles me convidaram, e eu aceitei, já tinha sido madrinha de tantos outros já, tanto clubes, não, tantos times, de jogos internos, e aceitei. Foi muito bonita aquela homenagem que fizeram a eles, muito bonita foi um gesto mesmo desvairado. Foi de um barquinho, mas olha, a dois enfrentar o oceano atlântico em alto mar, a noite, de noite, ainda mais que eles saíram escondidos não poderiam ser vistos, e de noite tudo escuro, louco! P/1- E o que, a senhora quando ficou sabendo disso, que eles iam, já era madrinha iam fazer aquilo de ir até Santos, a senhora falou alguma coisa pra eles de: “olha vocês estão malucos”? R - Não, só desejei boa sorte, a madrinha tem que desejar boa sorte. P/1- Mas não ficou preocupada, não? R- Ah, fiquei, quase todo o Rio de Janeiro ficou preocupado. De manhã era um tal de telefonar pros jornais, o rádio dava notícias, isso porque eles estavam remando em alto mar e não podia se comunicar, aí eles fizeram uma parada, numa, num lugarejo aí, não sei aí parece que mandaram notícias, depois só em Santos. Mas foi uma coisa muito, muito interessante hoje e nunca mais se houve coisa igual, hoje em dia existe esse que dão a volta ao mundo sozinho e tal, mais assim os três, três pessoas remarem assim, não sei, não sei se houve, parece que houve um remador, um solitário maluco aí, que quis ir da França ao Estados Unidos e parece que chegou no meio do caminho e teve que parar. Mas esses chegaram, chegaram até Santos direitinho, gostei. P/2 - Por exemplo, a senhora falou desses três remadores, enfim dessa turma toda, vocês festejavam as vitórias tinha alguma comemoração... R - Ah sim, era muito festejado, depois nós éramos todos muito unidos. Lá no Flamengo, tudo era festejado lá no rinque da rua Paissandu, festa lá, era muito festejado. P/2 - E como é que eram essas festas? R - Bom... P/2 - Tinha música? R - Ah sim, sempre tinha música, conforme fosse podia ser uma festa esportiva ou uma cerimônia qualquer oficial, mas quando era uma festa dançante tinha orquestra, punha as mesinhas ali dançava-se, o pessoal se… nós nos divertíamos. P/2 - No próprio rinque? R - No rinque, é, depois e que ficou pronta aquela sede, fizeram abaixo a garagem, fizeram aquela sede lá atrás no fundo da avenida, da Praia do Flamengo. E ali ai ficou sendo a sede social mais era muito acanhado ali, não dava pra todo mundo, houve também uns jantares dançantes, uns shows, uns pequenos shows, mas era muito acanhado ali. P/2 - E a senhora lembra os shows de quem? R - Ah, vinha o show desses, era tempo da Dircinha Batista, da Linda Batista e aquela turma toda, da aquela turma fazia um showzinho assim um par dançante e depois, antes havia um showzinho depois havia um jantar dançante, ou então uma orquestra que tocava, era bom eu ia quase era quase todo domingo isso, era interessante. P/2 - As irmãs Batistas cantavam? R - Eu acho que uma delas foi uma vez, não era sempre não, mais parece que uma delas cantou uma vez. P/1 - E fora essas festas que tipo de lazer, de divertimento tinha o jovem daquela época? R - Todos os jovens? P/1 - É os jovens, pessoal da sua idade? R - Não, porque havia naquele tempo os clubes esportivos eram muito bem freqüentados , a mocidade ia muito aqueles clubes. Fluminense pode ver que é um clube oficialíssimo, oficialíssimo, só freqüentava sócio, jogador de futebol não podia freqüentar as festas do Fluminense não podia nem entrar na sede social, era considerado empregado do clube do Fluminense. Os outros clubes, não já era mais, um pouco mais condescendentes, mas havia todos os clubes, o Botafogo de futebol dava festas muito boas, e quando era festa de aniversário, Reveillon, essas coisas, era tudo a rigor, essas festas mais importantes era todos a rigor, muito bonito. P/2 - A rigor como, é... R - Traje a rigor, smoking, vestido longo e tal, era obrigado pra certas festas, de aniversários e outras festas, coisas mais de gala. P/2 - E a senhora tinha cabelo comprido ? R - Tinha, não era muito não, mais depois eu deixei crescer mais, mas depois houve uma, um concurso aí, pra ir pras Olimpíadas de Los Angeles. Houve um concurso pra que a rainha da delegação e fizeram um concurso aí e o voto era, tirava do jornal dos esportes que era o que patrocinava, que era muito lido, jornal dos esportes era muito, tinha muita influência nos esportes esse jornal. E a escolha era feita por intermédio de votos, o Flamengo que tem uma torcida enorme, a concorrente do Flamengo ganhou, é claro, era eu com 300 mil e tantos votos e a concorrente do Fluminense com 200 e tantos mil, quer dizer cem mil de diferença. Mas aí eu ganhei nessa parte esportiva, mas aí o nosso maior atleta que era o Sylvio de Magalhães Padilha campeão sul-americano de barreiras e tal coisa, disse que se a mulher dele não ganhasse ele não iria as olimpíadas, é eu sabia, ele não iria as olimpíadas, então, fiquei em segundo lugar e deram o primeiro lugar para ela e eu fiquei em segundo. Mas a torcida do Flamengo não se conformou , a gente em cima da hora, mesmo, resolvemos fazer um… me apoiar. Financeiramente não, economicamente... E me deram toda a roupa e não tinha condições de comprar um enxoval pra fazer uma viagem daquelas, olimpíadas, as lojas de modas me deram todo o enxoval dos pés a cabeça cada vestido mais lindos de passeio, de esporte, de tudo, de bolsa, desde o chapéu até os sapatos me deram tudo. P/2 - E como é que eram esses vestidos? R - Ah, eram lindos, a senhora se lembra da Imperial, a loja Imperial? A imperial me deu vestidos, a Moda da esquina da Rua Gonçalves Dias, conheceu a Moda? A senhora é daqui do Rio? Pois é, a Imperial era a primeira, numero um e a Moda era... me deram um vestido, eu ia la, e me dizia: “pode escolher” eu escolhia... P/2 - Onde é que ficava a Imperial? R - Na Rua Gonçalves Dias, perto da Ouvidor, e a Moda ficava na Rua Gonçalves Dias, mais na esquina, não sei se da esquina da Rua Sete, numa daquelas, uma esquina. Mas eram essas duas melhores modas do Rio de Janeiro naquela época, mas me deram vestidos maravilhosos que eu nunca pensei em ter, vestidos com franjas de vidrilhos, franja de vidrilhos, que antigamente era mais assim, com aqueles vestidos de franjas de vidrilhos, aqueles bordados, aquelas coisas, mais coisas lindas, lindíssimas, eu depois usei, ganhei, usei, ficou pra mim e eu ganhei, usava os vestidos. P/1 - Como é que foi essa viagem pra Los Angeles? R - Ah, a princípio ia tudo muito bem, mas depois aconteceu tanta coisa… Para começar era um navio mercante, mas pra ele não pagava imposto, o Brasil botou uma, um canhãozinho lá na proa que era navio misto de esportivos nacionais e navio de guerra, botou um canhãozinho la na proa. Não pagavam impostos, o navio ficou ancorado um mês e pra ajudar nas finanças enchiam os porões de café, café, pra vender quando o americano soube disso, “café tem que pagar imposto e esse canhãozinho também não vale nada”, quer dizer que ele ficou sendo um navio mercante mesmo, isso deixou todo mundo muito deprimido a situação piorou por todos os pontos de vista. Depois o Brasil também, as coisas não correram muito bem no esporte e tal, e depois na volta tava muita gente aborrecida com o que aconteceu, muita briga, muita coisa desagradável, é... A volta foi ruim. P/2 - E a delegação era brasileira que estava a bordo? R - É era só brasileiros, tinham, havia bons atletas o Sylvio Magalhães Padilha foi depois. tinha o... P/1 - Maria Lenk? R- Maria Lenk também foi e muita gente boa mesmo enfim, infelizmente, não fizeram grande coisa não. P/2 - Quanto tempo levava, a viagem? R - Ah, eu sei que a gente levou, levou muito tempo, não me lembro, eu sei que nós viajamos, chegamos lá, durante toda olimpíadas e voltamos, não sei, era muito mais de um mês, muito mais, muito mais, mas eu… A viajem foi muito desagradável, recordações muito desagradáveis. A gente sabe que o ambiente se torna, depois de tanto tempo todo mundo junto, gente de toda espécie social toda, havia gente de qualidade, mais havia os outros que não eram, de maneira que foi muito desagradável, mas no fim foi bom. P/1 - E a senhora chegou a falar com a mulher do Magalhães Padilha, ela se referiu a isso... R - A ela foi junto. P/1 - Mais ela falou com a senhora alguma coisa? R - Não, nós nos cumprimentávamos, a gente era educada, a gente se cumprimentava. Porque quando eu ganhei os 300 mil votos o lugar era meu mais, eles queriam dar o lugar a ela então fizeram inventaram uma... as qualidades individuais, ela devolveu um violão tocou um pouco de violão, cantou e eu como era esportista só sabia fazer esporte, dei um salto na piscina, tem uma fotografia até boa dando um salto de costas na piscina, mas ela ganhou. Tinha que nos dar… O ambiente não era, o navio não era grande, gente educada tem que se cumprimentar P/1 - Ganhou no tapetão como se diz. P/2 - E o concurso, as fotos saiam no jornal, como é que era essa coisa? R - Ah, não havia dia que não saísse, ainda chegava a apostar: “hoje saiu, saiu ou não saiu”, era demais, era que nem Carla Perez ou Xuxa. Pior ainda porque o jornal dizia daquilo tudo porque o jornal de esporte vivia de esporte, então procurava trazer essas, qualquer assunto, ou certo ou errado inventado ou não, mas sempre pra vender jornal. P/1 - E tinha tietagem, pelo fato de sair quase todos os dias no jornal, tinha tietagem ? R - Ah tinha sim, mas o pessoal era mais comedido, mas não é como hoje assim não. Era mais comedido, mas uma vez, tive que entrar numa loja assim, porque a turma era demais, antes que me arrancassem a roupa eu entrei num... Entrei numa loja. P/1 - Aonde foi isso? R - Eu acho que foi na, na Rua do Catete, se eu não me engano, eu não tenho certeza. Mas o pessoal se comportava, não arrancavam a roupa, nem arrancava pedaços não, mas o culpado foi o… não era o jornal dos esportes não, a noite, havia jornal a noite, saí na capa do suplemento da noite, bem na capa, grande, grande, tá aí no álbum, e o jornal dos esportes todo dia, todo dia, e quando não tinha coisa que encher, inventavam. Foi pra isso, foi pra lá: “mas eu estive lá e não disse isso”, “Ah, mas não sei o que era preciso encher o horário”. Mas depois eu fui trabalhar, como disse fui trabalhar e aos poucos fiquei um pouco com a esgrima e larguei, depois me casei e pronto, acabou tudo. P/1 - Aonde trabalhou ? R - No Banco Germânico, era na Rua da Alfândega esquina do 1º de Março, ou 1º de Março esquina da Rua da Alfândega. Mas com a guerra, quando estourou a guerra, era um banco alemão e o governo confiscou, e nós os funcionários brasileiros, ficaram todos funcionando... Uma intervenção, puseram interventores lá dentro, os brasileiros ficaram. Mas tiveram todos que ir a policia e se identificar e coisa e tal, eu também tenho o dedo lá na polícia, eu tenho ficha na polícia sim, todos nós tínhamos, identificação, agora ficha limpa, graças a Deus, ter ficha é uma coisa, limpa é outra. Depois, então, o Getúlio teve um gesto muito bonito, como havia muitos brasileiros ali e mesmo alemães naturalizados, fizeram uma inscrição de todos, de todo pessoal que trabalhava nos bancos alemães de todos os bancos do eixo, como diziam era o meu Banco Germânico, Banco Alemão, Transatlântico e tinha um japonês também um italiano também. Eles organizaram uma relação de todos esses funcionários, e depois houve um sorteio, que era quantitativamente, o Banco do Brasil ficou com mais funcionários, porque era o banco maior, e o banco, a Caixa Econômica pra onde eu cai, menos funcionários porque era menor, que o Banco do Brasil, e o banco japonês tinha menos gente assim, mas eu caí pra Caixa Econômica e lá fiquei dez anos trabalhando. E eles gostaram muito dos funcionários dos bancos porque além de ser competentes, não falo isso por mim, falo isso pelos outros; competentes, a disciplina era muito rigorosa nesses bancos de alemães, principalmente, e eles gostavam e tinham muita noção de responsabilidade, eram competentes e tinham noção de responsabilidade, tanto que os brasileiros que estavam nesses bancos subiram depressa. Alguns, e tinham sido chefes, então tinham muita prática, eram muito competentes e subiram, e causou um certo desassossego dos antigos funcionários do banco. Mas eles subiram por que tinham competência, porque eram competentes, entendiam e depois tinha muita gente que lidava com cobrança estrangeira e sessão de câmbio, nisso os alemães entendiam perfeitamente, mas os bancos brasileiros não entendia muito disso, não lidavam com isso, como é que iam entender… Depois eles acabaram aprendendo. P/2 - E que idade a senhora tinha? R - Eu tinha, a guerra foi em... deixa eu ver quantos anos, eu tinha conseguido a maioridade poucos anos antes, quando eu fiz essa excursão eu já era maior, era, já era maior ao certo eu não sei. P/2 - E a senhora votava aqui no Brasil? R- Como? P/2 - Votava? tinha a Cidadania brasileira? R- Votava... o voto veio muito depois pras mulheres, eu me lembro que uma vez, eu comecei a votar desde a primeira votação, é depois do Getúlio veio a primeira votação, voto. Eu me lembro que nós, eu estava na Caixa Econômica, e apareceram umas folhas enormes pra gente datilografar, nome, nome, e mais nomes, e disseram que eram as folhas com os nomes dos, candidatos e votantes e essa gente toda, e eles então escolheram os melhores datilógrafos. Desses bancos todos, e da Caixa Econômica eu fui uma delas, não sei quantas folhas, eu era muito rápida datilógrafa, e certeira que como diz lá no banco. Era tudo muito, muito rigoroso, e eu fiz, depois eu fiz essas folhas, aí depois eu, aí veio a primeira eleição nacional, democraticamente, primeira eleição. Aí, quando comecei a votar, aí não parei mais, votei religiosamente todas as eleições, fosse pra quem fosse eu votei, só deixei mesmo... Depois de completar 65 anos eu continuei votando, religiosamente, ali ultimamente era no Olímpico, Olímpico Clube que era mais próximo da minha casa, eu moro em Xavier da Silveira, dois passos só, ta lá, no Olímpico Clube. Mas depois que eu caí, tive uma pequena queda, sofri uma pequena fratura do fêmur, fiquei um mês no hospital imóvel, outro mês em casa imóvel, na cama sem poder sair, tinha acompanhante dia e noite, dentro de casa. Se bem que hoje, pra andar, eu preciso segurar em alguém, eu ando mas tenho que segurar. Mas o fêmur e os joelhos também reclamam, mas desde aí eu não fui mais votar, não precisava. Eu votaria, se não tivesse acontecido isso, eu votaria, mesmo não sendo obrigada. É mas não pude mais ir, deixei de ir, não votei mais, uns dois ou três anos passados que eu não voto mais. P/2 - E quando a senhora entrou pros bancos a senhora deixou o Flamengo? não praticou mais esportes? R - Não, pratiquei a esgrima. Depois que eu saia do banco, ainda pratiquei a esgrima. Mas assim, por esporte, por que eu queria fazer um esporte, era o dia inteiro ali sentada, não podia nadar, não podia remar, não podia jogar basquete, nem nada, quer mais o que a esgrima me convinha por que era aquela hora, das cinco às sete parece, e era ali na Praia do Flamengo, quer dizer eu tomava o ônibus ali na avenida, me deixava na porta do clube, bem na porta do Flamengo, eu fiz esgrima, ali. P/1 - E aonde que a senhora conheceu o seu esposo foi no... R - No Banco, ele era chefão do banco. P/1 - Ah no banco, qual? R - Banco América do Sul, ele era alemão, naturalidade alemã, mas ele era naturalizado brasileiro há muitos anos, de maneira que não sofreu nada, nem de restrição de espécie alguma, porque era brasileiro, foi sorteado também e eu era funcionária. Mas eu era fichinha, ele era chefão e eu era fichinha, não foi por isso que eu me casei com ele não, aconteceu. P/2- A senhora casou aqui no Rio? R- No Rio. P/2 - Onde? R - Casei só no civil, em casa, no civil P/1- Aí a senhora morava aonde naquela época do... R- Aí eu morava na Barata Ribeiro, morava com meus pais, e quem me casou foi um juiz que na ocasião, tinha muita projeção, porque foi um juiz, que tinha feito o primeiro casamento de uma Índia com um brasileiro, um branco brasileiro, uma Índia nativa mesmo, e era muito falado. Foi muito falado esse casamento retrato de,juiz, eu não me lembro o nome, mas foi muito falado, nunca tinha se dado um casamento no civil e no religioso de uma Índia brasileira com um brasileiro, uma coisa fora do comum, pois foi esse juiz que nos casou. P/2 - Foi uma cerimônia em casa? R - Em casa é...só civil P/1 - E teve lua de mel? R- Lua de mel, não. Logo não, porque eu tava trabalhando, e minhas férias eu não podia tirar a semana... R - A folga, eu não podia faltar, eu trabalhava na Caixa Econômica, e não sei o que houve ali justamente... Eu queria mais de uma semana, eu queria juntar as férias com mais uma semana de lua de mel, e não podia ser, naquela época porque as férias na Caixa Econômica geralmente eram já escolhidas no começo do ano, pra depois não haver, troca, colidir umas férias de um funcionário com o outro. Tudo organizado, então eu escolhi, deixei pra escolher mais tarde, juntei as férias que estavam programadas desde o início do ano, e mais uma semana de lua de mel. P/2 - E a senhora foi pra onde? R - Fui pra Friburgo, gostava muito de Friburgo, ele tinha amigos lá, tinha um hotel muito bom, mas ele gostava muito de Friburgo, de quando solteiro ele tinha ido muito lá, esse Guignard, grande artista Guignard, moravam junto na mesma casa, no mesmo hotel, ele conhecia o Guinhar perfeitamente, e eram muito amigos. O Guignard não sei se falava alemão, não sei, eram muitos amigos, e outros também faziam suas reuniões, e havia outros pintores, e o Guignard qualquer coisa que ele pegasse ele pintava. Uma vez ele quis me dar um quadro de Guignard, “eu vou levar quadro de Guignard”, porque se não levou, hoje um quadro de Guignard, não aceitou a na época ele não valia nada, ele pintava qualquer pedaço de pano que aparecesse, qualquer papel ele pintava, fez mau porque hoje o Guignard iria ajudar muito (risos). P/2 - E o seu marido gostava do Flamengo, tinha também... R - Não no esporte ele não tinha esporte nenhum. Ele gostava muito de ler, tinha uma biblioteca muito grande, em alemão e inglês, ele falava muito bem inglês, mas assuntos mais filosóficos assim, ou então aqueles poetas alemães, antigos, gente que nunca ouvi falar o nome assim. Eu lia alguma coisa sim mas, não era meu gênero não, agora música sim ele gostava e entendia, nesse ponto de entender eu entendi muito bem mesmo, coisa que eu mais gostava e gosto até hoje: música clássica. A coisa que eu mais gosto, tive que deixar porque eu não posso mais sair, mais freqüentava muito o municipal até 1900... até uns 15 anos atrás quando ele morreu, depois eu freqüentava muito o municipal tudo quanto era ópera com orquestras sinfônicas, concerto de solistas, balé, companhias francesas, companhias estrangeiras, mas a tudo eu ia mais à tudo, sempre gostei muito, e sempre gostei passei perto, sentada na frente pra ver a expressão dos, principalmente dos violinos. Porque eu estudei violino alguns anos, eu gostava de ver a expressão do artista quando toca, esse eu vi duas vezes assim a dois passos dele, ele quando entrava no palco, eu era uma mocinha ali, ele vinha muito desajeitado umas calças compridas pareciam amarrotadas, ele descia assim muito sem graça assim, mas quando ele fechava os olhos, começava a tocar era uma beleza tava no céu , era uma beleza. Aí depois eu tive um… Peguei uma mania que eu tenho uma discoteca muito grande, não são dessas de CD porque são uns discos um pouco mais antigos, de 33 rotações assim, peguei uma mania, tudo quanto aparecia, então cada vez que eu ia pra Europa, nós íamos muito a Europa, melhores os discos mais recentes dos melhores músicos, que nem havia pra venda, eu já tinha em casa, e esses discos, essa minha mania foi pedir autógrafo do próprio artista que tocava naquele disco. Eu levava a capa do disco pra eles assinarem, tanto podia ser pianista, qualquer, mesmo mestre de orquestra, o Cláudio Arrau acabamos quase que amigos porque toda vez que ele vinha eu estava lá, com o disco dele, e autógrafo geralmente eu pedia, pra fulano de tal não, eu dizia: “põe por favor”. Eu levava meu nome por escrito, “põe por favor ,fulano de tal” e o Cláudio Arrau que eu já conhecia várias vezes, da primeira vez ele botou, Cláudio Arrau, daí voltou, no segundo disco ele escreveu, sinceramente não, como é que eles dizem?... Bom, enfim, ele escreveu só muito lacônico, o terceiro disco, já foi: “ muito sinceramente”, em alemão, ele botou e “sisisisisisisissinceramente”, o superativo do superativo. E aí em uma ocasião, eu cheguei com um livro grande pra ele, e disse, falei em alemão, ele era chileno, mas falava em alemão porque ele vivia praticamente da Alemanha, eu disse a ele em alemão: “maestro, eu hoje, quem vai lhe dar o autógrafo sou eu, eu vou lhe dar o meu autógrafo”, ele olhou assim “Mas como?”. R - Então esse livro do meu tio Rodolpho, tem tudo quanto é animal da fauna do Brasil, tem desde o cachorro do mato, até pulga de percevejo, pulga essas coisas, tem tudo ali, na linguagem científica, o nome científico, e na linguagem comum, pro leigo, “isso assim, assim”. Meu Deus o pessoal já tava me olhando atravessado, por que eu tava demorando, mais eu não tinha culpa ele ficou interessado, porque apesar de ele ser espanhol ele entendia o livro em português, e eu já estava em panos quentes e o pessoal me olhando com a cara daquelas, e com o caderninho na mão e o lápis e caneta esferográfica todo mundo querendo pedir autógrafo, e eu conversando fiado com o cara, com o Cláudio Arrau sobre os bichinhos do Brasil. Mas no final, eu me despedi e tal, e ele agradeceu, e sai muito sem olhar pra cara dos outros, porque eu nem queria ver a cara que eles estavam, mas eu não tinha culpa que ele se interessasse em ler o livro... P/1 - Dona Elizabete, quando a gente esteve na sua casa a gente viu o álbum, e viu uma foto da senhora vestindo calça, calça naquela época era comum? R - Ah, calça comprida? P/1 - Calça comprida, queria saber como a senhora fez, se a senhora fez a calça... R - Eu acho que fui a primeira, aquela calça quem emprestou foi a Carmem Miranda, que eu me dava um pouco com ela, ela me emprestou, não tem molde, e me emprestou. E eu levei a um alfaiate que ela recomendou, e mandei fazer, e tirei aquela calça ali, acho que foi a primeira mulher de calças no Brasil, uma calça de uma lã branca, muito comprida, muito bonita, eu tenho a impressão que se não fui uma das primeiras, talvez a primeira, quem me cedeu aquele modelo, pra tirar o corte foi a Carmem Miranda. P/2 - E a senhora conheceu a Carmem Miranda? R - Conheci, me apresentaram, mas eu conheci até no Cassino da Urca, que ela cantava no Cassino da Urca, e ela.. Bom isso era a vida particular dela eu não tenho nada a ver com isso, ela brigou com o namorado lá, todo mundo sabia quem era namorado, um rapaz da sociedade aí, e travei conhecimento com ela, ela veio sentar na minha mesa e tal, e nós ficamos ligeiramente amigas. P/1 - Como é que ela era, me fala um pouquinho do jeito dela e.... R - Ah, aquele mesmo super agitado assim, muito exigente assim, muito viva, mas pra mim só existiu uma Carmem Miranda, quem queira imitar , nunca alguém mais imitará Carmem Miranda, era só ela, mais ninguém. P/2 - Ela vestia calça, ela tinha, ela usava calça comprida, a Carmem... R - Ela usava, ela me emprestou a calça pra tirar o molde, mas como a Carmem nunca mais haverá. Pode dizer que faz imitação perfeita, não, aquele jeitinho que ela tinha, aquele olhar, ela com aqueles movimentos de dedos, de mãos, só ela mesmo, mais ninguém, aquela malícia que ela tinha no olhar. P/1 - Dona Elizabete, agente ta começando a chegar no final, atualmente o que, que a senhora faz assim, pra se divertir quais são as...o que gosta? R - hoje em dia, não posso mais me divertir, como eu disse tenho dificuldade pra sair preciso de um acompanhante, depois que meu marido faleceu continuei ainda, passei um tempo ai sem sair, mas ai comecei a viajar sozinha, porque nós saíamos, quando nós éramos casados, e todo ano fazíamos uma viagem longa; o resto fazíamos uma viagenzinha por aqui, mas todo ano, nas férias, fazíamos uma viagem longa, e eu gostei, acostumei a viajar pelo mundo, depois que ele faleceu, eu comecei a viajar sozinha. Mas em grupos, esses grupos, eu viajei mesmo, e depois tive que parar porque, não posso mais sair sozinha, tenho que me segurar porque to com os joelhos fracos, sou capaz de cair. Mas viajei, essa é a parte forte da minha vida, viagens. P/1 - Que lugares são os mais especiais, dessas viagens? R - Ah, tudo, tudo, dei duas voltas ao mundo, uma pelo hemisfério norte outra pelo hemisfério sul, mais fora disso viajei muitas, e muitas outras viagens separadas, a primeira viagem que foi pelo hemisfério norte, só com o meu marido, nós mesmos fizemos o nosso roteiro, com o agente de viagens que era muito nosso amigo, fizemos roteiro, dois dias aqui, três dias lá, uma semana acolá... Conforme fosse achando que íamos gostar, e o agente de viagens nos dando os informes todos, nos auxiliando… Mas foi muito bonito. Aí estivemos no... visitamos a Europa, a primeira viagem que se faz a Europa é aquilo, Paris, Londres, coisa e tal, pra Roma, mas a segunda nós já fomos a... fomos espichando, espichando, fomos até o Círculo Polar Ártico ver o sol da meia noite, gostei muito, muito interessante, interessante mesmo, nós subimos, a excursão foi a, o grupinho, nós fomos num pequeno monte, pra ver o sol bem de cima assim, e muito interessante que o sol rubro, rubro assim de doer os olhos, vermelho, o sol vai descendo, vai descendo, vai se pondo, vai se pondo, e quando chega na curva do horizonte, e quando a gente pensa que ele vai sumir ele sobe outra vez. Em todo lugar o sol chega no horizonte e se põe, some de vista, não, ele sobe outra vez, e começa outro dia, por isso é que não há noite lá durante quase seis meses. Não há noite é dia, dia, dia chegando no horizonte sobe outra vez, chegando no horizonte sobe, e nós fomos lá em Kiruna na Suécia, é a maior mina de ferro do mundo, e fomos a uns 300 a 400 metros de profundidade, e vimos aquilo como é que se tira, que arranca o minério de ferro e tal e depois nós subimos, e fomos fazer uma ceia, uma ceia da meia noite, bobamente eu disse: "Mas essa cidade não tem morador, não tem ninguém na rua"," já é meia noite o que você quer", disse que era meia noite, mas eu estava acordada. Mas aí fizemos uma ceia típica, com carne de rena, carne de rena, lá no Círculo Polar Ártico, assim. E depois fizemos muitas viagens pela Europa toda, pelos outros países, depois quando ele faleceu há uns quinze anos, e eu resolvi continuar com as minhas viagens, entrava nessas excursões, grupos de excursões, e a melhor que eu já vi, que eu fiz, uma patrocinada pela Lan Chile , Lan Chile, determinou um avião só pra essa excursão, La Chile é uma companhia, separou um avião só pra uma excursão, diminuiu era um 737, mas diminuiu o número de passageiros, só pra oitenta, pros outros, pros outros ficassem, os passageiros da excursão ficassem mais à-vontade. Eram oitenta passageiros, onde devia ir cento e não sei quantos, agora a excursão era, muito bem programada, muito bem mesmo, e, tudo do bom e do melhor eu nunca vi um, o menu vinha o menu de almoço, do café da manhã tudo, você podia escolher desde o caviar até o champanhe, mas a Lan Chile fez uma coisa junto com uma empresa de São Paulo, não sei se era a Imperial Tour, começou em Santiago do Chile de, que era a Lan Chile, de Santiago fomos direto à África do Sul. Gostei muito dela, pode até, é um pouco parecido com o Rio de Janeiro, visitamos lá não sei o que não sei o que lá, e fomos a uma mina de ouro, como é que se extrai o ouro, e como é que se transforma o ouro naqueles lingotes, e quando na saída o moço lá, "quem conseguir levantar esse lingote aqui pode levá lo pra casa". Nem saiu do lugar, mas vimos como é que se faz o ouro, como é que se extrai, como é que se prepara, se purifica, pra fazer aqueles lingotes de ouro puro, isso foi muito interessante, isso daí, depois nós fomos indo pra...tudo isso no avião fretado , fretado não que era deles da Lan Chile, oitenta passageiros, gente fica lá dentro, gente, tudo gente de fala habla espanhol, habla espanhola, brasileiros nós éramos só meia dúzia, tinha que conviver com o espanhol mesmo, o tempo todo, aí nós fomos pra África. Nós fizemos um safári, safári dos leões não sei o que... fizemos um safári, mais não vimos os leões não, vimos uns outros animais lá, mas leões não vimos, depois passamos para, não, tivemos que evitar um ali na, no Sri Lanka tivemos que evitar porque estavam em guerra, então fomos pra Índia… Bom, passamos por, é na Índia, a Índia é interessantíssima, ó quando for pra parar você me fala em, se não eu não paro mais... A Índia, é um país interessantíssimo, muita coisa interessante bonita pra ver, mais eu mas eu disse: "não volto mais aqui não", primeiro um calor de 45 graus, e não era verão, porque eu nunca viajei no verão, um calor de 45 graus, as vacas no meio da rua correndo no meio dos automóveis, vaca é sagrada, vaca é animal sagrado na Índia não se pode tocar nela, os leprosos vendendo toco de mão, toco de braço, pedindo esmola, leprosos, na Índia há muito leproso. E por aí vai, esses são os pontos negativos da Índia, mais em compensação tem o Taj Mahal, todo em mármore branco, que coisa, o Taj Mahal, e palácios, aqueles sultões, aquela coisa, mais uma beleza mesmo, e fomos pra Tailândia, Bancoc é uma coisa que vale a pena viajar, aí fomos andando passamos em Bali, que hoje tá na moda Bali, e passamos por umas ilhas, que tem junto da África, não sei se é, Seychelles, fomos a Seychelles. Depois é que fomos pra, pra Bali, e de Bali então, fomos pra Hong-kong no Japão, fomos Hong-Kong, Cingapura aquela, aquela parte asiática toda do extremo oriente, depois fomos descendo e tal coisa, depois fomos a Austrália, Sydney e mais uma outra lá, depois fomos a, junto a, Nova Zelândia, que é muito bonita também, gostei muito da Nova Zelândia, em todos esses lugares sempre se vendo coisas típicas, nós demorávamos três dias ou mais, sempre se vendo coisas típicas, lá na Austrália, na Nova Zelândia, nós vimos como é que se, tosa aquele grupos de carneiros, aquele rebanho de carneiros, daquela lã pesada, daquela lã grossa… Como eles fazem com aquelas máquinas, aquilo é máquina, antigamente era a tosa, tosada, naquela ocasião não mais, era como se fosse um, era um barbeador relento, fazia “tchiiiii”, arrancava aquele... em dois minutos arrancava aquela, o bichinho ficava peladinho, engraçado eles saiam pulando, estranhando que tava faltando alguma coisa neles, era a lã. Aí depois teve uma exibição também na, na Nova Zelândia desses cães pastores, que é uma coisa como eles obedecem, como eles põe o rebanho em ordem, fazem funcionar aquilo tudo, ao menor assovio, às vezes nem é assovio, é um gesto do pastor, do dono, eles põem o rebanho em ordem, separam o rebanho, é muito interessante mesmo, depois na volta passamos na Ilha da Páscoa, onde tem os Moais, aquelas figuras grandes, os Moais, muito interessante, gostei, e na volta paramos depois em Chile outra vez, e acabou essa viagem, ainda estive depois, lá no sul da Patagônia, no sul da Argentina, pois tanto tem a Patagônia Argentina, como a Patagônia Chilena, a chilena foi até Punta Arenas, e a Argentina foi até o Ushuaia, isso conhecendo, andando muito, de ônibus, e de carros, para conhecer o interior mesmo, o habitat dos animais, muito interessante, não há muito o que se ver assim, em beleza natural, mais é interessante porque é diferente em tudo que conhece, depois também fui em uma outra viagem a Argentina não, ao Chile, Santiago eu fui umas três a quatro vezes, a Laguna San Rafael, porque as costas do Chile, são todas recortadas por ilhas, ilhotas, essas coisas, são muito recortadas, e não sei como é que um país, que não tem continente, não têm, produz tanta coisa é incrível, uma tripinha assim, acompanha assim a... dos Andes, como é? P/1 - Cordilheira... R - A Cordilheira dos Andes, e produz tanta coisa boa, eu admiro o povo chileno, fomos num navio, que levou vinte dias, é Laguna São Rafael, são os que têm as lagunas com aquelas, de gelo, aquelas, colunas... P/2 - Icebergs? R - Não tem, aquelas não é barreira de gelo, como é que chama aquilo lá...montanha de gelo, P/2- Icebergs... R - Não, mas é parado assim, ele acaba dentro d’água, assim, não, esqueci, como é que chama, vem uma avalanche e depois para, diante de um lago ou de um mar, assim para, e depois vai soltando assim, o gelo, e se torna um iceberg. Isso na Laguna San Rafael tinha muito, isso, depois tive nos Balcãs estive no, começei pelo... antes dos Balcãs, Viena, Hungria, Romênia , Bulgária, Iugoslávia, depois tinha a Tchecoslováquia, tudo isso, seguido, ei sei que no fim, eram, 45 países, hoje seria mais, porque a Iugoslávia são duas, eu contaria mais duas, a ..... P/2 - Tchecoslováquia? R - Tchecoslováquia, também são duas ou três sei lá, mais três, mas eu contei 45 mesmo, porque na ocasião era 45, gostei muito da Áustria, da Suíça, da Alemanha... P/1 - E quando a senhora conheceu esses países lá, da cortina de ferro eram muito diferentes do lado de cá...? R- A Rússia era, a Rússia… Nós fomos à Rússia, e nessa questão havia a Berlim oriental e ocidental, e quando nós passamos, a primeira vez que eu fui a Moscou eu passei aquela cortina, aquela barreira, a Muralha, Puxa mas aquele homem pegou o meu passaporte, olhou pra minha cara assim, pra ver se era eu mesma, meu retrato no passaporte, revistas, quem tinha jornal e revistas, todo mundo jogou fora, a gente tinha um medo dos russos, todo mundo jogou fora revistas, revistas normais, e quem tinha revista pornográfica então ficou pulando em ovos, querendo se desfazer, porque era, era caso de prisão lá revista pornográfica levar pra dentro da Rússia, e nós vínhamos, da onde? Vínhamos da Alemanha mesmo, pornografia lá é aberta, Alemanha ocidental de maneira que foi tivemos que nos desfazer de tudo, mas da segunda vez, aí, eu vim da Finlândia da última vez vim da Finlândia. Aí, em vez de ir direto a Moscou nós fomos … que hoje em voltou a ser, Letônia ou Lituânia, mas era a Rússia, mesmo, mas a Rússia encampou e... P/1 - União Soviética. R - E ficou sendo uma das dezesseis nações. Na ocasião era Rússia mesmo, mas aí começamos a ver o que era o povo russo, povo russo, como eles viviam, eu sempre fui anticomunista, se alguém aí é simpatizante me desculpe, mas eu sou anticomunista. Só é comunista quem não esteve lá, pelo menos naquela época, porque quem esteve lá não podia ser comunista. a Rússia é uma beleza, os palácios, do tempo dos Czares naturalmente, os palácios, os monumentos, aquelas pontes, as estátuas, os.... aquele a Praça Vermelha, e as igrejas as Basílicas, uma beleza, uma beleza, mas o povo era de amargar, grosseiro, não tratando bem o turista, fazendo pouco do turista... mas se não tão satisfeitos, nós não temos culpa, nós estamos pagando, e bem pra ficar aqui, e queremos ser servidos, se a gente pedir no café da manhã uma xícara de café, já era recebido com mau gosto, mau humor, e tudo má vontade, e detestei, detestei o povo, o turista era tratado como se estivesse fazendo favor, era ao contrário, tava deixando dólares lá. P/1 - Tem algum lugar que a senhora não conhece, e gostaria de ter conhecido? R - Sim, eu tava projetando a Ásia Menor, Istambul eu conheço, gostei muito de Istambul, do lado europeu, gostei, porque é uma cidade, eu não sei se você sabe? Você tá aqui, no barco vai se afastando, e tá na Ásia, é dupla, dois continentes, mas eu gostei de Istambul, mas eu gostaria de conhecer a Ásia menor, mais pra dentro da Turquia, porque lá há muita coisa interessante, uma coisas, em pedra não sei do que, há muita coisa interessante que eu gostaria de conhecer to projetando ir pra lá, mas aí aconteceu esse meu baque, uma distanciazinha pequena quebrei isso daqui e pronto, e nunca mais fiz... P/2 - Dona Elizabete, nós estamos chegando ao final da nossa entrevista... R - Espero que não tenha, sido muito cacete pra vocês tá aturando isso tudo... P/2 - Ao contrário, foi um prazer, mas enfim, a gente costuma sempre perguntar pros entrevistados, o que o entrevistado decorrente achou de ter deixado... O que a senhora achou de ter deixado esse depoimento pro museu do Flamengo? R - Bom, é uma pequena parcela, né uma parcelinha mínima, uma contribuição mínima para este museu. Porque o que eu disse, o que eu fiz não tem grande valor, não, pros valores que o Flamengo tem, em todos os pontos de vista no esporte no, em outras coisas, ai eu devo ter contribuído um bocadinho, um grãozinho de areia, pro Museu do Flamengo, pelo menos foi com boa vontade que eu contribui. P/1- E antes de fechar, o que é torcer pelo Flamengo? R - Bom, hoje em dia não torço mais com a mesma veemência com que eu torcia antigamente. Eu era mais moça, mas eu gritava também, fazia como minhas colegas gritava, pulava, mais hoje em dia não, hoje, ver e torcer pelo Flamengo, torcer, fazer votos que a bola entre, e faça gol, que Seu Edmundo contrate bons jogadores, não sei se é Senhor ou Doutor Edmundo, é doutor? Que o senhor Edmundo, presidente, contrate bons jogadores, pra fazer muitos gols, para voltar a ser o grande Flamengo que era, esses é meus votos, que continue ganhando os milhões lá da ISL, que entre muito dinheiro, que construa estádio, que fazer tudo que ele pretende, só não votei nele porque não pude, não tinha companhia pra vir, e olha que eu teria votado nele, que gosto dele e to de acordo com a administração dele. P/2 - Que ótimo... P/2 - Bom, muito obrigado. P/1- Muito obrigado. R - Obrigada a vocês por ter aturado todo esse tempo.

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