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História

Uma mulher Liberal

História de: Hércia Marinho Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Hércia relembra momentos marcantes de sua infância e juventude nos engenhos do nordeste, conta diversos casos como: a história de quando ensinou usineiros a ler, mas parou no momento em que o dono da fazenda, cujas ideias eram contrarias as delas, que sempre apoiou o Partido Liberal, disse que ela estava criando novos eleitores para ele e relembra também um caso marcante da história da Paraíba: o assassinato de João Pessoa cometido por João Dantas por causa da revelação de uma amante.

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História completa

P: Dona Hércia, eu gostaria que a senhora repetisse o sei nome, o local e a sua data de nascimento, seu e de seus pais e se a senhora souber dos seus avós também.

 

R: Pois não. É meu nome é Hércia Marinho Silva, nasci no dia 11 de agosto 1907, em Itabaiana, uma pequena cidade do estado da Paraíba. O nome do meu pai (Belfôncio?) Falcão Marinho a minha mãe (Onorina?) Alves Falcão Marinho. E o que mais você quer?

 

P: O local de nascimento dos seus pais?

 

R: Os meus pais nasceram em Timbaúba, pequena cidade de Pernambuco.

 

P: Os seus avós?

 

R: Os meus avós?

 

P: Qual o nome deles?

 

R: O nome dos meus avós paternos é João (Chacon?) Marinho Falcão e da minha vó é... Um momentinho eu esqueci no momento.

 

P: Não tem importância.

 

R: E dos pais de minha mãe era Liberalino Pereira da Silva a mãe chamava-se Maria, sim, lembrei o nome da minha vó paterna Clarinda Falcão.

 

P: Eu gostaria que a senhora falasse um pouco como foi a sua infância.

 

R: Pois não. Os meus primeiros dez anos vivi em Itabaiana era muito pequena, mas alguma coisa ainda eu ainda lembro. Passei três sustos ou três medos na minha vida de infância. Primeiro é que meu irmão aprontava e meu pai ele... Diziam gazetear aula, ele gazeteou aula meu irmão e atravessou o rio paraíba, uma enchente muito grande. Vieram avisar meu pai, meu pai prometeu uma surra. Eu com medo da surra que meu irmão ia me levar escondi em baixo da cama de minha mãe. Eu tinha uma maracanã, maracanã é um pássaro pequeno como se fosse um papagaio, muito parecido com um papagaio, mas ele é pequenino e não fala como um papagaio, mas essa maracanã chamava andava atrás de mim e dizia: “eta, eta eu escondi em baixo da cama.” E sumi de casa, todos me procuravam minha mãe, pai, eu me lembro, os vizinhos e até os soldados me procuravam na cidade. Anoiteceu e eu desaparecida e quando minha mãe entra no quarto, talvez eu bati na maracanã e a maracanã fez um ruído e minha mãe olhou e eu estava em baixo da cama, dormi a tarde toda e entrou pela noite. E eu estava toda urinada, era muito pequena talvez seis anos, bem, o outro susto eu fui para a escola. Eu me lembro que levava uma carta de ABC, era só as consoantes as vogais carta de ABC, e eu fui para a escola, logo que entrei vi na mesa da professora uma palmatória, na minha visão era muito grande e eu fiquei amedrontada. Depois durante o período, muitas crianças uma sala só ela bateu num menino, o menino levou quatro bolos, dois em cada mão. Eu me apavorei quando terminou a aula ela bate palma e sai todas as crianças, mas eu não saí, me levantei da carteira me encostei na parede e fiquei, não sai. Ela deve ter percebido mandou chamar minha mãe e ela veio me buscar eu estava toda urinada. Minha mãe perguntou: “O que foi?” e eu disse: “a palmatória e o menino apanhou levou bolos e eu tive muito medo”. Foi o primeiro dia de aula e o último. Minha me procurou uma escola que não tivesse palmatória. Eu esqueci totalmente esse período da outra escola, sei que a professora se chamava dona Margarida e ali eu aprendi as letras e, depois, passei para uma cartilha, bem, foi o segundo susto que eu passei a palmatória. Era usada em todas as escolas

 

P: Quer dizer, havia uma cartilha e essa cartilha era diferente desse primeiro livro que a senhora tinha?

 

R: Não.

 

P: Ou é o mesmo?

 

R:  Não, a cartilha era um livrinho e o outro era um folheto, um pequeno folheto, tinha as letras as vogais e no final tinha, assim um, umas sílabas, a cartilha ABC.

 

P: Certo, certo.

 

R: É, eu não sei bem quando passei, não me lembro, passei da cartilha para um livrinho, passados não entendo lembro-me que em Itabaiana o carnaval não se usava, usava umas pequenas usava banho de água, saia os vizinho numa casa noutra e dava um banho com um caldeirão, não havia baldes plásticos naquele tempo era caldeirão e jogava uma água e dava um banho nos vizinhos, uns e outros. E eu estava em casa quando chega uma turma de amigos de meu pai e de minha mãe dando banho no meu pai na minha mãe e um senhor, um daqueles, me pegou e me botou dentro do (povou?), a (povou?) com a água que a gente bebia, eu não sei porque havia tanta água. Nessa cidade Itabaiana que o povo (brincava?), então tinha uma cera faziam umas coizinhas, assim, pequenas com água perfumada chamava-se laranjinho, tinha um assim, redondinho e quadrados pequenos e então iam a tarde para a calçada, o comércio fechava era o passeio naquela calçada e levavam aquelas laranjinhas e jogavam na pessoa ela arrebentava e perfumava a água era perfumada. O carnaval era somente isso, então, eu tomei um banho dentro do (povoa, furna? ). Então, pela primeira vez eu vi um carro alegórico, não havia, no clube, moças eram só rapazes com a camisa azul clara e calça branca. Um grupo de rapazes viu o carro alegórico, em cima era uma meia lua, uma moça muito bonita os cabelos soltos ela vestida de azul e quela meia lua do vestido brilhava, só isso, essa meia lua vinha em cima de uma carroça uma carroça assim baixa e era um burro ou era um cavalo que puxava e essa lua eu vi por muitos anos a beleza daquela meia lua da moça, bem, e a vida era, não tinha telefone, não tinha luz elétrica e pior a rua era escura. Então passou um cometa e de madrugada  meus pais acordaram, muitas pessoas ali do lugar iam até um certo ponto da cidade, a um certo local, não tinha luz, viam o cometa e falava era uma estrela com cauda não falava o nome e isso não sei o ano, eu nasci digamos seis anos depois.

 

P: A senhora tinha treze?

 

R: Doze ou quatorze era. Depois é que eu soube que era o cometa Halley, era aquele cometa, eu não vi meus pais não me acordaram pra ver e passaram-se os anos tranquilos e a rua na minha visão era larga o calçamento não era paralelepípedo eram pedras desiguais e a beleza, não haviam brinquedos.

 

P: Isso tudo em Itabaiana?

 

R: Em Itabaiana, até os dez anos que eu fiquei e lá na feira tinha minha mãe não me dava um tostão, era um níquel e tinha as moedinhas de cobre vintém. Eu ia para a feira comprava louça de barro era panelinha, tigela, xícara, tudo, em louça de barro. Bonecas? Não, não havia brinquedos, mas eu ganhei no Natal do farmacêu..., sim não tinha hospital e médicos se tinha eu não sabia e também não via muita gente doente.

 

P/2: ______________________________

R: Eu não vi ninguém doente nesse período, eu sei que meu pai teve aquela doença que fica pálido, é essa doença.

 

P/2: Hanseníase?

 

R: Não que a pele fica amarela.

 

P/2: Malária

 

R: Não, outra doença, chamava-se icterícia. Eu me lembro que os olhos ficaram amarelos o couro cabeludo e tomou o remédio na farmácia, só tinha farmácia, não tinha, se tinha médico eu não cheguei a ver, nunca tive, eu não tivw sarampo, não tive coqueluche e nunca tomei vacina.

 

P/2: E o farmacêutico, ele cuidava das pessoas?               

 

R: Ele dava remédio certo as pessoas, meu pai tomou remédio lá no farmacêutico

 

P/2: O farmacêutico fazia o remédio ou ____________

 

R: Não, ele não fazia, comprava na farmácia e esse farmacêutico era amigo de todo mundo. Ele me deu uma boneca, foi a primeira boneca da minha vida a boneca não era daqui do Brasil, ela tinha o rosto de louça era muito bonita e era muito grande e eu pequena, eu não sei, talvez tivesse seis anos, eu não sei, e então, quando eu peguei a boneca sai passeando com ela na calçada pus no ombro a boneca, era grande muito grande, muito pesada e virou no meu ombro caiu e quebrou. Eu chorei muito, mas não lembro de ter outra boneca, foi aquela. Então, me lembro isso, com talvez nove ou dez anos que vinha aos domingos o trem do Recife pra Paraíba que, hoje é João Pessoa naquele tempo Paraíba, vinha e aos domingos todo mundo, as moças os rapazes iam para a estação ver o trem passar, muitos passageiros, era a diversão, cinema não tinha.              (risos). E o carnaval como lhe disse eram jogando as laranjinhas e dando banho com caldeirão de água, não tinha nada mais, a não ser o clube alegórico, o carro alegórico, foi essa meia lua e muitos anos eu via essa meia lua linda, muito bonita. As moças moças não...

 

P/2:                      . 

                                     

R: Minha imaginação ficou, gravou, gravou na minha mente aquela moça bonita, não podia existir um carro alegórico mais bonito do que aquele. Então tinha moças, só eram rapazes vestidos. Na feira, além da loucinha de barro, toda feira vinha um senhor com uma macaquinha e a gente dava um trocado.

 

P/1 : Que feira era essa?

 

R: Era a feira livre que tinha em Itabaiana, era uma vez na semana, parece que era nos sábados tudo vendia, tudo ali abastecia. E essa macaquinha ele dava dois pratos pequenos a macaquinha jogava e equilibrava uns dois pratos e depois dois ovos e ela nunca quebrou e a gente dava                          e era a grande festa, a grande atração da feira. E a louça de barro. A Igreja era muito bonita, ainda existe em Itabaiana, perto de Itabaiana tinha um lugarejo pequeno com uma Igreja em forma de cruz muitas pessoas vinham ver a beleza a arquitetura daquela igreja. Não havia diversão para as crianças, nada. Mas um dia passei um segundo susto a palmatória, foi muito grande, minha mãe foi me buscar a professora percebeu. Eu não quis sair para os meninos não verem como eu estava e minha mãe, a professora com certeza viu, minha mãe me levou para casa.

 

P/2: Você lembra o que estudou?                      

 

R: Esqueci totalmente o que estudei na segunda escola, só me lembrava da palmatória bloqueou a minha memória. Agora o terceiro susto que eu passei e que um dia uma tia minha não morava nessa rua principal morava um pouco afastada e para ir para a casa dela ia pela linha do trem. Então chamam minha tia dizendo estava acontecendo um crime próximo à casa, ela vai comigo segurando minha mão e vamos muito ligeiro pela linha do trem a uma certa altura ela disse alguma coisa a mim e corre. Eu não entendi o que ela disse, ela correu e desmaiou. Os fundos do quintal davam para a linha do trem e pegam a minha tia e socorrem e eu continuei naquele mesmo caminho na linha do trem. Um pouco adiante vem um homem passa por mim ele estava com a farda de soldado aberta, túnica, era uma túnica aberta ensanguentado e ele com uma faca grande, sujo de sangue e ele lambendo a faca, eu passo por junto dele passo uma criança, talvez sete anos, passo ele não me viu, não é? Quando eu olho e vejo aquele homem lambendo o sangue e ai foi que eu vi que era o assassino. Naquele tempo eu não entendia bem e eu me assustei corri e tinha uma pedra enorme assim perto do trilho era uma pedra muito grande eu corri escondi atrás daquela pedra e fiquei escorada com medo, mas já tinha passado ai minha tia disse que tinha dito para mim corresse com ela, eu não percebi. Foram os três sustos que eu passei lá em Itabaiana.

 

P/1: Depois de Itabaiana a Senhora foi para onde?

 

R: Bem, Itabaiana ai nós fomos morar na Paraíba. Meu pai foi trabalhar numa grande fábrica naquele tempo, fábrica de sabão e sabonete, Saboaria Paraibana fazia sabão e muitos sabonetes, bonitas as caixas de sabonetes. Ele tomava conta de uma seção. Quando saiu dali, naquele tempo não havia leis trabalhistas, ele não ganhou nada saiu, saiu. E também não sei porque meu pai saiu. Na Paraíba eu comecei, mudamos pra Paraíba depois meu pai resolveu morar num sítio longe do centro da cidade e meu pai saia de casa às quatro horas da manhã para vir trabalhar na saboaria. Eu fiquei no sítio e não estudei, não tinha só tinha um sítio, outro sítio, outro sítio. Ficamos ali, eu me lembro, no sítio, hoje eu vejo que era muito pequena eu brincava sozinha com as árvores, pegava caco de prato colocava em certas árvores depois eu vinha vender coisas. Brincava sozinha. Voltamos a morar na Paraíba, mesmo na capital e comecei a estudar, e minha mãe, eu terminei estudando no colégio de freiras. Ainda hoje tem esse colégio das Neves na Paraíba a irmandade é francesa, eram franceses a irmã superior, e aquela da minha classe a irmã (Augustinho?) muito boa. Mas tinha uma, ensinava catecismo, ensinava bordado, estudei dois anos nesse colégio, mas não gostei. A do catecismo, sim, a classe era grande tinha muitas alunas talvez quarenta. Então tinha uma menina que tinha vindo do Rio de Janeiro, a menina tinha um anel chamava-se (morfise?) lindo pequeno, não é, pra mão dela                   . Eu era apaixonada por aquele anel e um dia na aula de catecismo a freira disse que quem usava joias quando morresse ia ficar uma cobrinha, o que era um anel, virava uma cobrinha no dedo, se fosse uma corrente de ouro era uma cobrinha. Eu acreditei e tinha muita pena da menina quando olhava para a mão da menina, quando ela morresse ia ser uma cobrinha no dedo. Minha mãe quis me dar de presente no meu aniversário uma corrente de ouro com uma medalinha que, estava na moda, tinha escrito “Deus te guie” e uma estrela, pequenina a medalha “Deus te guie”. Eu não aceitei, pedi a minha mãe que não me desse que eu não usava, mas não disse a minha mãe o porquê, não dizia que não queria aquele presente. Eu pensava assim que quando morrer vou ficar com aquela cobra no pescoço. Depois de grande me lembro que o Papa tinha um anel no dedo e falavam que a máquina de escrever do Papa tinha aros de ouro e ai eu pensava e como é quando ele morrer? Vai ficar com a cobra no dedo? Isso eu não gostei das freiras, elas amedrontavam as meninas, qualquer coisa que fazíamos levavam para o quarto da Irmã Superior. Então essa Irmã Superior era um monstro, uma fera, toda menina tinha medo. E um dia no recreio correndo eu e outra menina batemos numa pequena, a freira da classe das crianças disse que nós tínhamos que ir para o quarto da Irmã Superior e eu fui com muito medo e a outra também. Quando nós chagamos lá a Superior era muito meiga, muito boa passou a mão na cabeça e disse que tivéssemos cuidado quando corresse, não batesse nos menores para não cair, que tivéssemos cuidado. E foi totalmente diferente do que a freira tinha dito. Ainda tem esse colégio na Paraíba, tem uma ladeira ao lado do colégio é íngremem é muito longa, eu então, quando saia da escola a minha bolsa era muito grande era uma espécie de vime, enorme a bolsa com um livro um caderno e eu acho que os lápis, uma bolsa enorme e o lanche. Eu jogava a bolsa para rebolar na ladeira, as outras vinham e tomavam conta e descia a ladeira correndo, mas era num ímpeto tão grande da ladeira da minha carreira quando chegava no fim embaixo não podia parar, eu atravessava a rua e parava do outro lado.

 

P/1: Dona Hércia, uma coisa a senhora fez, estudou terminou o segundo grau, fez mais um curso. A senhora teve incentivo dos pais? Era comum as moças da sua época estudarem até onde a senhora chegou ou não?

 

R: Era comum. Estudarmos, estudarmos sim (vinham)? três. Como eu te disse, fizemos um ano, uma espécie de uma admissão fizemos as provas e entramos na academia de comércio, então, éramos três moças e maioria de rapazes. Quando eu fiz isso nessa ladeira alguém, algum vizinho avisou a minha mãe. Minha mãe mandava um homem, seu Francisco, me buscar na saída ele estava lá. Pegava a minha bolsa e eu não podia correr. No colégio eu gostava muito de pular, pulei na corda em um concurso, o prêmio era um santinho de papel e um bombom, naquele tempo chamava-se confeite que é bala, um confeite e um santinho. E eu comecei, pulou uma pulou outra, eu dei 400 pulos, quando eu estou nos 400 pulos toca a campainha, acabou o recreio. Como fazíamos uma fila para entrar na classe e naquela fila quando entrava na classe ajoelhava rezava antes de começar as aulas. Eu dei 400 pulos fui para a fila não descansei, entro na classe e me ajoelho para rezar, eu senti mal e desmaiei, eu desmaiei na carteira e a freira ficou lá depois da oração é que ela veio me ver, meus braços e rosto estava o suor na carteira, desmaiei, também descansei ai ela baixou minha nota ótima, era boa, ai o comportamento bom. Ganho o santo o confete e a nota baixa!

 

P/2: O que a Senhora mais gostava nessa fase da infância?

 

R: Brincar na calçada a noitinha. Já mocinha eu tinha uma amiga de infância e outras meninas da rua, brincávamos na calçada pulando chamava-se calçadinha do amor. Era pulando e uma menina tentando segurar qualquer uma daquelas que estivesse pulando ali na calçada. Era o que eu gostava e patinava. Troquei, meu irmão tinha os patins e eu tinha uma mesa, onde eu guardava meus cadernos ai ele trovou comigo a mesa pelos patins e eu patinava muito bem porque era magrinha, patinava o dia todo.

 

P/2: Tinha bom calçamento?

 

R: Tinha calçada, então, nos patins o mais difícil era andar equilibrado, o patins que ele não. E naquele tempo, eu não sei, eu patinava muito, a rua era calçada, eu passava o dia, minha mãe dizia: “Vai ali na quitanda comprar qualquer coisa, eu patinava. A nossa casa tinha um quintal comprido e cimentado eu vinha pelo portão no patins, comprava, rodeava e entrava pela frente da casa.

 

P/2: E a senhora patinou até que idade?

 

R: Bom eu patinei talvez dois anos, ai meu irmão resolveu tirar umas bolinhas que tinha dentro dos patinas, ai parou os patins.

 

P/2: Você tinha quantos anos?

 

R: Uns 14 anos, patinava 12 anos, quatorze anos patinava muito. Tinha uma praça ainda tem hoje Venâncio Neiva, uma praça muito boa para patinar e eu ia patinar, estava usando isso, algumas moças alguns rapazes patinando. Eu ia para a praça atrapalhar.

 

P/2: E a senhora estava em que curso nessa época?

 

R: Ai nessa idade ainda estava estudando em colégio. Depois desse colégio que eu não gostei, colégio da freira. E eu notava que elas tinham certa preferência por umas meninas que pintavam e bordavam na classe e eu não sabia porque elas consentiam, até que um dia uma que depois eu cheguei a conhecer a família. Ela disse: “ Ela não faz nada comigo porque meu pai manda sacos de açúcar”. O pai dessa menina era usineiro, dava muitos presentes ao colégio.

 

P/2: Tinham outras filhas de usineiros lá?

 

R: Como?

 

P/2: Tinha muitas filhas de usineiros na escola?

 

R: Bem, eu conheci esta a família Ribeiro Coutinho, família tradicional.

 

P/2 : E existe até hoje?

 

R: Existe. Então essa moça da interna, ela mudou, mas quando menina, na minha idade e tudo e tudo, se ela calçava uma sand... era interna, ficava a vontade usava um sapatinho uma sandália desabotoava e lá ficava andando com aquele desabotoado o vestido era uma espécie de uma chita, uma moça rica, mas usava era uma chita, ela usava o cabelo despenteado, ela não era má, mas era relaxada. Tinha uma outra da família Vergara, a família que tinha o maior armazém de estivas da Paraíba, Alice Vergara quando foi não tinha mais carteira veio para ela que a família fez uma carteira alta ela parecia uma galinha, assim ala se acomodava ali. Então a freira resolveu que cada menina dentro de sua carteira fizesse um altarzinho, uma caixinha forrada com um pano bonito um santinho e tal. E nos                cada retalho e forrava e botava o santinho de pano ou de papel.

Ai a Alice Vergara, ela gordinha, disse: “Venha ver o meu altar”. Quando nós fomos olhar ela forrou com um pano bonito a caixa e botou um espelho e não sei o que, não sei o que. Coisa assim _________. (riso)

 

P/2: A senhora fez até que curso, até onde a senhora estudou?

 

R: Até o final, eu me formei havia nesse tempo chamava-se... Eu não sei o que é que equivale a esse curso, chamava-se Academia de Comércio eram três anos.

_______________________________________________________________________ .

 

P/2:_____________________________

 

P/1: A senhora fez o primeiro grau, fez o segundo grau?

 

R: É

 

P/1: E isso eqüivaleria como se fosse um curso superior?

 

R: Então fizemos um, muitos alunos, fizemos um ano de admissão, um ano de admissão. Me lembro que tinha um professor de matemática um de geografia, não sei porque francês, mas tinha francês. Depois fizemos os exames e entramos na Academia de Comércio. Hoje deve ser, era o Academia de Comércio hoje o Comércio que é atualmente.

 

P/2: Seria como uma escola técnica, né? De segundo grau ou profissionalizante.

 

R: É

 

P/1: Mas a senhora fez um outro curso entre o primeiro grau e fazer este curso a senhora fez outro, não é?

 

R: Não sei, não sei direito. O primeiro grau e o segundo grau não era assim que se chamava. Sei que não...

 

P/2: Era primário, ginásio, não?

 

R: Não, primário, ginásio não se falava em ginásio, mas eu acredito que fosse mais ou menos o ginásio. Quando eu saí do colégio das freiras eu fui para outra escola muito boa, me lembro que nessa escola nós fazíamos a caligrafia, a caligrafia americana escrevia com a mão direita e a caligrafia vertical com a mão esquerda. E eu escrevia com a mão esquerda porque aprendi. Quando sai dali foi que eu fiz o primeiro ano de admissão para entrar na Academia de Comércio.

 

P/1: Certo

 

R: Ainda existe na Paraíba essa Academia de Comércio, três anos.

 

P/2: E como foi que a senhora saiu da casa de seus pais?

 

R: Quando casei.

 

P/2: Casou-se?

 

R: Bem, eu fiquei na casa Paraíba, não é, com ­­________estudando. E ao mesmo tempo um menino, quando andava nos patins, eu brincava muito na rua na calçada correr, pular. Namorado? Não, não um dia arranjei um namorado ou ele quis namorar comigo, mas depois eu soube que ele chegou lá na esquina me viu correndo, pulando na calçada foi embora, desistiu. Não era possível, não é? Era menina mesmo a cabeça e eu tinha uma colega de infância muito bonita e todos os rapazes que chegavam na paraíba queriam namorar com ela, eu não me preocupava muito com isso. Da Paraíba...

 

P/2: A senhora se casou com quantos anos?

 

R: Mais de 20. Da Paraíba meu pai deixou a saboaria a razão eu não sei. Então nós mudamos para uma pequena cidade Santa Rita, pequena cidade perto da Paraíba. Eu não gostei da cidade do interior achei que não era isso o que eu gostaria. Meu pai de lá resolveu morar no engenho, fomos morar no engenho (Claraneta?) esse engenho, eu preferi morar no mato do que naquela cidade, era uma cidade muito... Havia cinema mudo, não é, e por exemplo não tinha nada, muito sem graça essa cidade. Ai meu pai estava plantando cana para a usina do Doutor Flávio Ribeiro Coutinho que era de uma família riquíssima de usineiros, todos os irmãos tinham usina. E papai foi plantar cana, ficamos lá um ano na usina, ai eu resolvi, não sei se falei com meu pai, resolvemos ir para o Recife. Eu vim na frente, eu sempre fui corajosa, quando pequena tinha tido medo, não é, dá palmatória___________(riso). Da surra do meu irmão, do homem que passou com a faca, mas quando cresci fiquei corajosa. Como disse a você patinava muito, no engenho não havia condução e eu andava a cavalo, mandei fazer calças, umas botas, andava montada como homem o que não se usava.

 

P/2: As mulheres não montavam?

 

R: Montavam, mas como é cilhão, sentadas cilhão. E eu não quis, eu vou montada e andava muito bem a cavalo. E a única condução que eu tinha era essa, eu não podia ir do engenho para Santa Rita onde eu tinha uma tia a pé que era muito longe.

 

P/2: Era boa a vida no engenho?

 

R: Era, era boa cana, canavial.

 

P/2: A sua vida no engenho com a família?

 

R: Bom. Eu resolvi que tinha uns homens, esses homens que trabalhavam no heito, chamava-se cambiteiros esses homens carregavam as canas, cortavam as canas punham no cambito nos burros e chegavam na margem tinha um trenzinho Maria Fumaça com vagões e vão buscar canas, eles jogavam ali de longe.

 

R: Eu resolvi dar aula pra eles, não havia luz era candeeiro, eu dava aula ensinava.

 

P/2: O que?

 

R: Ensinando as primeiras letras, eles não sabiam ler nem escrever.

 

P/1: E a senhora fazia isso onde?

 

R: No engenho. Um ano que passei tinha três alunos, os que quiseram eu ensinei, não pagava não, era eu que queria encher o tempo, eu não podia ficar sem fazer nada, eu tinha que inventar uma coisa e eu inventei. Ai quando o usineiro que era amigo de meu pai indo lá no engenho disse: “É bom que você ensine porque eles vão ser meus futuros eleitores. Eu não gostei, não gostei porque eu não gostava da política, gostava muito do usineiro Flávio Ribeiro Coutinho, ele foi governador da Paraíba e foi interventor também, mas eu não gostava da política dele. Eu ai disse a meu pai...

 

P/1: Por que?

 

R: Porque eram partidos diferentes. Ele era Perrepista e eu era Liberal. Então eu disse a meu pai que não estava gostando, ali o engenho era terra de muro baixo, ali quem mandava era o usineiro. Eu ensinei mais um pouco e ai eu disse: “ Eu não vou continuar fazendo eleitores pra essa família que eu não gosto, gostava da família não gostava era da política da família.

 

P/1: Dona Hércia, de onde veio o seu interesse pela política? Como surgiu isso?

 

R: Sempre. Não era eu que gostava de política, eu ia aos comícios, eu ia a qualquer manifestação do meu partido que era o Liberal. Eu ia a missa a João Pessoa, eu tinha uma cor vermelha na minha roupa que o símbolo do partido era a cor vermelha. E minha mãe já sabia, minha mãe já sabia. Eu dizia: “Olhe eu vou demorar”.

 

P/1: Seu pai se opunha?

 

R: Não ele não ia______(riso). Sim e outra coisa que eu vi interessante no Recife quando estava lá. Bem, eu disse ai que não ficava ali não. Um dia esse usineiro muito amigo nosso ele saia andando vendo as terras, chegava na nossa casa tomava café, descansava, conversava com papai com a mamãe ai disse assim para mim: “Eu vou arrumar um noivo pra você, eu sei que você está precisando casar”. Eu respondi: “Quando eu quiser casar não precisa o senhor procurar não, eu mesma procuro meu noivo”. Ai ele movia os lábios, dava umas respostas ríspidas. Assim mamãe fazia de conta...   “Você não devia dizer isso com o seu Flávio não”. “Mas eu não sei ficar calada.” _________ casamento mas eu cortava. Então quando eu cheguei do Recife com o meu __________ fui trabalhar como datilógrafa numa companhia que fazia as obras do Porto do Recife. Tinha oficinas no Pina, numa praia, tinha grandes oficinas. Essa companhia chamava-se (ComBrasil?), Companhia de Mineração e Metalurgia Brasil, (ComBrasil?) do Rio de Janeiro. O dono era riquíssimo, essa companhia muito rica do Rio de Janeiro. Então construíram armazéns, tinha pedreiras muitas coisas. Tinha três datilógrafos, tinha um datilógrafo que era exclusivamente para fazer a folha de pagamento. Eram grandes o carro da máquina, muito grande e as folhas grandes. Um dia esse moço saiu do emprego e também não sei porque, eu não perguntava, não é? E no dia do pagamento o engenheiro aflito, Doutor Romeu de Sá Freire, Doutor Sá Freire estava angustiado porque que iria fazer essas folhas de pagamento? Eu disse a ele: “Eu faço.”  Porque eu via o Leopoldino fazer as folhas de pagamento na máquina ao meu lado onde estava a minha carteira, eu via ele fazendo, e eu disse: “Eu faç.”. Eu fiz as folhas de pagamento, trabalhei, eram grandes muitas seções eu fiz. Eu ganhava 300 mil reis, era o meu ordenado, ai ele me passou para 400, deu 100. O datilógrafo que fazia isso ganhava 600, ele só me aumentou 100.

 

P/2:___________

 

R: E o que é que eu ia dizer?________(riso). Eu já estava noiva. Bem, e então o escritório no primeiro andar, ao lado tinha uma firma alemã (Herme Stousi?) e esse (Herme Stousi?) era o dono do prédio. E a (ComBrasil?) alugava aqueles salões. Tinha um alemão baixinho, Adolfo, pequenininho um dia eu vou saindo para almoçar e Adolfo disse assim: “Você quer ver o Zepelim” Eu disse assim: “Quero.” Em vez de ir almoçar eu fui com ele, no carro, onde estava estacionado o Zepelim. Então o Zepelim eu visitei com ele, o Zepelim enorme mas dentro poucos compartimentos mais era engrenagens de ferros lá dentro daquele balão. Então eu tomei uma cerveja, copinho pequeno, quente horrível. Depois ele... Um alemão alto, forte, ele disse: “Aperte a mão do alemão.” Eu apertei a mão. E disse assim: “Esta mão foi ele que jogou as bombas em Paris”. Eu era louca pela França, louca por Paris. Ah! Eu fiquei (doente?). Eu disse: “Agora que você vai me dizer isso, eu não apertaria a mão”. Mas o alemão não entendia o que eu estava dizendo, Adolfo junto de mim e me bate. “Você me faz apertar a mão desse homem que jogou bombas em Paris?”. Eles me deram um copo, um prato, mas não era, era um papelão diferente e todos os pratos eram assim, não tinha prato que _________. O Zepelim era muito bonito.

 

P/2: E era espaçoso na cabine?

 

R: Não, dentro da cabine era pouca coisa, tinha, pequeno, grande era o balão. Tinha uma portinha entrava e via o esqueleto do Zepelim. Ele ficava suspenso no ar preso numa estaca grande, né, a ponta e a escadinha ele não ficava no chão, ficava suspenso. Era muito bonito quando ele chegava no Recife primeiro ele voava, sobrevoava a cidade e depois é que ia para o campo de (Xiquiá?) e onde ficava. Eu entrei no Zepelim e tive esse prato muito tempo, mas com as mudanças ele quebrou e eu não guardei mais, muita mudança. Foi uma coisa bonita que eu vi foi o Zepelim. Vi também quando o primeiro, os nomes eu esqueci, o primeiro avião que atravessou o Atlântico, mas era em terra não água. Ele pousou no recife.

 

P/2:___________________________

 

R:_________________

 

P/2: Ah _________________

 

R: É lá no Recife tem um local onde eles pousaram e tem um monumento. No Recife o rio era muito limpo, rio Capibaribe, atravessou a cidade, muito limpo. Eu com o meu noivo e com uma amiga fizemos um passeio num barquinho no Capibaribe e passamos por trás do Palácio do Governo, O Palácio do Governo no Recife é os jardins atrás dá para o rio e tem a escadinha que ___________ quando fugiu do palácio ele pegou o rebocador. Quatro de Outubro, fugiu. Depois nós soubemos, foi para Maceió. A família Pessoa de Queirós era uma família tradicional do Recife, na revolução eles eram a favor dos perrepistas, chamavam, não é? Incendiaram a casa dele um palacete, não era uma mansão, um palacete belíssimo, só ficaram as grades circulando, queimaram tudo, era na rua do Imperador. Eles tinham um jornal do Comércio e tinham qualquer coisa mais, arrebentaram tudo. Eles fugiram não sei para onde, todos os perrepistas. E quando João Dantas matou João Pessoa que prendem João, prendem João Dantas ele foi assassinado dentro da detenção, entraram e mataram João Dantas.

 

P/2: Mataram?

 

R: É o assassino de João Pessoa.  João Dantas assassinou João Pessoa. João Dantas morava na Paraíba advogado, não é? Policiais entraram na casa dele arrombaram móveis e tiraram as cartas íntimas que ele tinha, ele tinha uma namorada, um caso, não é, com uma moça, esqueci o nome dessa moça. Eles tiraram as cartas e publicaram nos jornais. Foi horrível não deviam ter feito isso não, João Pessoa não sabia, eles faziam pra agradar. Então João Dantas saiu da Paraíba e veio para o Recife, porque o Recife era estado do  ________ que era perrepista. Junto ao governo só tinha Rio Grande do Sul, Minas e Paraíba. E os outros estados todos contra estes três estados, sendo que o Rio Grande do Sul, grande Minas e a paraíba pequenina lá João Pessoa. E tinha uma cidade, ainda tem, (Princesa?) uma cidade da Paraíba que tinha um perrepista é Pereira, João ou José Pereira. Ele combatia João Pessoa, numa pequena cidade do sertão combatendo o governo. Como esse homem podia combater? É que__________ mandava munição caminhões de munição, não pelo litoral pelo sul do estado para (Princesa?). Era ele que fornecia  a munição tudo, tudo para Pereira, João Pereira combater João Pessoa.

 

R: Casualmente eu soube de uma amiga minha, era o irmão dela tenente Cícero Correia era ele que comandava levava os caminhões pra  (Princesa?) e o, esse, Cícero Correia ele estava lá no ____________ ele andava num carro oficial muito bem vestido e tudo. Agora na revolução eu não sei o destino dele, ele sumiu mas ele fez muita coisa contra o estado e o João Dantas veio para o Recife porque no Recife ele estava... O governo era do partido dele. Então dois dias antes de matar João Pessoa eu estava na porta do escritório que __________trabalhava e perderam uma chave de escritório. Eu estou assim embaixo quando eu olho a avenida lá do outro lado eu vejo João Dantas, ele me conhecia ele atravessou a rua e vem falar comigo. Ele era bonito mas tinha uma cor muito feia, ele era um pálido, uma palidez doentia, feia a pele era pálida, pálido sempre foi. Então ele falou comigo: “Você está morando aqui?” Eu disse: “É estou morando aqui e você?. “Não eu estou passando uns tempos”. Falou comigo depois _______ numa quinta-feira. No cábado ele assassinou João Pesso,a atirou. João Pessoa. Era 5 horas ou 5:30 da tarde tinha uma casa de chá, não é, e ele foi João Pessoa estava lá com os correligionários fazendo um lanche. Ele entra e atirou. Eu lhe disse o nome da casa de chá?

 

P/1: Não

 

R: Eu sei que ele atirou, hoje é um banco onde foi essa casa de chá. Ele atirou e matou João Pessoa. Mas foi um corre-corre no recife, fecharam-se as casas comerciais, todo mundo correu para suas casas, mas não aconteceu nada, a não ser o corpo de João Pessoa, ficou numa igreja e todos que passavam entravam na igreja na porta principal saia pelo (oitão), todo mundo visitando o cadáver dele. Depois ele vai pra paraíba ai vem, da Paraíba vem num navio o (Estif?), não e, parou no Porto do Recife. E ele foi enterrado no Rio de Janeiro, não ficou na Paraíba. Ele vivia no Rio de Janeiro mas ele tinha, fazia coisas aqui diferentes. Se você chegasse na Paraíba queria fazer uma visita a (conselho?), você podia ir no Palácio, não tinha marcado uma audiência, não entra e fala com ele. No governo dele os presos, soltavam-se os presos toda manhã depois do café. Os presos iam limpar as ruas depois recolhiam e os soldados, mas eles nunca fizeram nada pra tentar a fuga.

 

P/1: Dona Hércia, ao longo de sua vida e hoje em dia a senhora continua mantendo esse contato com a política, continua se interessando?

 

R: Um pouco porque eu sou do PT. Eu votei em Lula, votei em Suplicy, Erundina. Eu fiz... A campanha que eu fiz para Erundina foi boca a boca. Na porta do apartamento que eu moro eu consegui 20 e tantos votos pra Erundina. Ai eu dizia: “A minha campanha eu faço boca a boca”. Quem quiser que entenda como é que eu faço. E primeiro, primeiro de tudo porque ela é mulher, mulher. Segundo nordestina, foi a prime... D ordestina que derrubou Mal... Desculpe________ malufista. Nordestina não, não é __________, nordestina derrubou Maluf, e uma das melhores prefeitas, honesta e como disse, agora, Suplicy, ela está deixando a casa arrumada, ela não fez mais porque não pode. Seis hospitais ela construiu, não tem um só médico que tenha feito greve, municipal não, não teve greve pagam bem, as professoras também. As escolas ela recuperou, não fez tanta escola, recuperou as que estavam estragadas. Então uma boa administradora e honesta e tudo que se disser de Erundina é mentira ela é uma mulher e tanto. Primeira mulher que eu dou muito valor ao trabalho da mulher. Quando perguntam a mim: “Você trabalha, a senhora trabalha?” “Perfeitamente, trabalho e muito.” Eu hoje tenho problemas na vista, sou quase cega, mas eu continuo trabalhando, eu faço o almoço, pela manhã eu faço o café, ponho a mesa faço o almoço, faço um arroz que minha filha elogia muito. Eu faço pratos, quando hoje, sempre gostei muito de ler, então tem muitas receitas, quando eu estou um pouco esquecida peço a minha leitora que é minha filha: “Leia pra eu lembrar o que é os ingredientes que eu pus.” Trabalho muito, 85 anos continuo trabalhando, acho que dou muito valor ao trabalho de uma dona de casa porque uma funcionária trabalha até as 5 horas, vai para casa encerrou o expediente, a dona de casa não, se um filho, se é marido ou se é neto precisa ela vai pra cozinha fazer o chá, a sopa, esquentar o jantar de qualquer um, ela continua trabalhando. Hoje depois do problema da vista eu estou mais quietinha, não é, mas criei dois filhos e três netos, foi eu que criei os netos e quando, hoje, elogiam: “Fulano é muito bem educado”. Fui eu que eduquei e se disser que não é bem educado, então não fui eu não, foi a mãe (riso).

 

P/2: Dona Hércia, e o sonho que a senhora tem?

 

R: Sonho? Eu realizei meus sonhos, eu realizei os meus sonhos. Gosto de viajar, sinto falta de ler, eu lia muito, tanto que Iara diz que eu tenho uma cultura geral porque li muito, realmente eu lia muito mas, hoje a TV é que me orienta dia a dia, a TV me ajuda, não é? Eu me interesso pela arte, por quadros. Olhe a primeira viagem eu já fui duas vezes  à Europa e não sei se irei a terceira depois desse problema de vista, não me animo muito. A primeira vez que visitei cinco países. Quando estive na Holanda o que eu gostaria de ver eu vi: museus. Eu vi os quadros de Van Gogh lindos, lindos, achei, vi outros quadros no museu em Paris, não é, mas adorei os quadros. Sim na Espanha na _________ eu fui ver quadros de Picasso, Guernica. Olhe nunca sonhei na minha vida ver o quadro do Guernica e vi muita coisa bonita. A Holanda é belíssima andei naqueles canais a minha neta traduzia pra mim. E os canais, também na Bélgica andei nos canais. Depois na Espanha foi quando eu vi Picasso e foi...  Passeei. Portugal fiquei encantada com Lisboa, visitei todos os museus de Lisboa todos. Na França, na segunda viagem não sai da França, ai nós fomos, Iara dirigindo, que ela dirige tem carteira internacional, fomos visitar uma região a Normandia linda a Normandia. E viajamos conheci a terra de Santa Terezinha do Menino Jesus estivemos lá, tem uma basílica lindíssima. A cidade é... Me esqueci e depois vi o local onde filmaram Joana Dark lá. Uma coisa eu não entendia como é da Segunda Guerra Mundial não havia TV, era toda semana um filme no cinema trazia o jornal a notícia da guerra, então quando Hitler entrou em Paris eu chorei, ele na avenida Champs Eliseés no Arco do Triunfo ele entrou e eu chorei no cinema porque eu gostava da Alemanha e adorava, sempre adorei a França. Então, agora eu não entendia como era que os alemães estavam na Holanda e rapidamente entraram em Paris. Então na minha primeira viagem à França, na casa de minha neta passei dois meses, nós fomos à Holanda ai eu vi a distância a França, Bélgica, Holanda. Nós passeamos muito na Holanda depois viemos pra Bélgica quando resolve o marido de minha neta que, eu chamo de neto, resolveu invés de dormir na Bélgica ele conduziu logo pra casa. Eu ai pensei “mais uma noite em claro viajando, eu não durmo”. Saímos de lá jantamos na Bélgica, jantamos num restaurante eu não sei o nome desse restaurante era um de português que tinha (vinho?), era a dona a esposa do dono, a dona era a garçonete . Dali da mesa resolvemos voltar. Você acredita era 9:15 da noite...  

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