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História

Uma mulher de garra

História de: Suzy Andrea Pereira Guimarães
Autor: Mylena Carvalho
Publicado em: 18/01/2021

Sinopse

Amazonense de nascimento, revelou-se apaixonada por Roraima e foi lá que casou, teve filhos e ingressou no Banco do Brasil. A primeira lotação foi no interior do estado; com o tempo, voltou a Manaus. Identificou-se com a área de negócios do banco e chegou a Pacaraima para atuar em um posto de atendimento. Enfrenta os desafios de uma região fronteiriça e sonha com a transformação do posto em agência.

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História completa

Projeto BB 200 anos de Brasil

Realização Instituto Museu da Pessoa 

Entrevista de Suzy Andrea Pereira Guimarães

Entrevistada por Nádia Lopes e Nelita Verônica

Pacaraima, 09 de novembro de 2008

Código BB200_TM003

Transcrito por Patrícia Fonseca

 

Revisado/editado por Paulo Rodrigues Ferreira

 

ENTREVISTA

P/1—Boa tarde, Suzy.

R—Boa tarde.

P/1—Para começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, o local e a data de nascimento.

R—Suzy Andrea Pereira Guimarães.

P/1—Nasceu?

R—Em Manaus, 5 de junho de 1976.

P/1—Nomes dos seus pais?

R—Almir Fernandes Guimarães e Dalvina Pereira da Silva.

P/1—E eles são de onde?

R—Minha mãe, de Pitoía, no Maranhão. Meu pai, de Urucará, interior do Amazonas.

P/1—As atividades profissionais dos seus pais?

R—Meu pai é empresário do ramo de transporte de pessoas, fluvial; e a minha mãe é enfermeira aposentada.

P/1—Você tem irmãos?

R—Tenho. Tenho uma irmã, que já é falecida, que era mais velha, e tenho uma irmã mais nova. Que hoje está no ramo de transporte, também.

P/1—O nome?

R—Brena. Brena Adriana.

P/1—Brena Adriana. Quantos anos ela tem, mais ou menos?

R—Trinta anos. Está completando agora mês que vem.

P/1—Beleza. E sobre a sua formação, qual é a sua formação?

R—Bem, é superior incompleto. Administração. Eu estou tentando terminar, mas como tem essa situação de morar em Pacaraima, então eu creio que termino ano que vem.

P/1—Eu queria que você contasse um pouquinho como é que foi essa sua história... O seu primeiro emprego foi no banco?

R—Não, não. Eu sou técnica de contabilidade. Eu trabalhava no ramo de contabilidade, depois eu trabalhei na área de turismo com o meu pai. Aí, eu resolvi vir para Roraima porque a mãe do meu esposo é muito amiga da minha mãe, então eu vim para conhecer, gostei, a gente se conheceu e eu fiquei em Roraima. Prestei o concurso do banco em Boa Vista, passei, fui e tomei posse em Caracaraí.

P/1—Você lembra quando soube do resultado do concurso? Como é que foi isso?

R—Não lembro [risos]. Bem, quando eu fiz o concurso, eu estava grávida do Igor, do segundo filho, não é? Então, assim... Eu fiz um pouco desacreditada, minha amiga foi quem me incentivou a fazer o concurso. Que, aliás, me forçou a fazer o concurso. Porque eu achava que não tinha capacidade. Então eu fiz o concurso desacreditada, passei em vigésimo quarto lugar. Então assim... Foi muito bom, não é? Quando eu soube do resultado eu ainda estava grávida e tal, então foi assim uma novidade para mim, eu não esperava em vigésimo quarto. Foi muito bom, foi assim uma animação, paguei o maior mico no banco, não é?

P/1—E o primeiro dia de trabalho?

R—Primeiro dia de trabalho. Primeiro foi assim um choque saber que ia para o interior. Não conhecia Caracaraí, não é? Meu primeiro dia de trabalho foi assim. Eu fui muito bem acolhida, porque eu fui uma semana antes para conhecer, o gerente me deu posse, hoje é um amigo aposentado do banco, não é? Ele é da Paraíba, então ele me recebeu muito bem. Só eu de mulher, com seis homens. Então, assim... Foi uma renovada na agência porque, você sabe, o toque feminino é importante. Homem não liga para muita coisa, então para eles foi assim um ganho muito grande. Foi muito bom.

P/1—Por exemplo, o que você introduziu de novo ali?

R—Organizei um pouco, porque homem, você sabe que ele não liga se tem ou não um café da manhã adequado, não é? Por exemplo, estar ali, ter um atendimento mais cordial em relação ao cliente, você ter a figura feminina é importante. Você começa a dar aqueles toques que só a mulher tem. Então, eles sentiram muito a diferença. Ligar mais a equipe, reunir mais o pessoal, quer dizer, dar aquela coisa do elo, de ligar mais o pessoal, isso aí é “joia”,viu? Agora, a gente segura muito, não é? Porque vem tudo para cima da gente. Se há uma festa: “Suzy, organiza, ajuda nisso, ajuda aquilo...” Então, é uma coisa!

P/1—Eu acho que perdi. Quando foi que você entrou no banco exatamente?

R—Dia seis de novembro de 2000.

P/1—De 2000. Está certo. E outra coisa também que passou... Você falou que era cidade de interior, qual foi a sua primeira impressão quando você chegou lá? Foi muito diferente o lugar?

R—Muito diferente. Porque, como eu sou de Manaus, da Capital, não estava envolvida. Eu vim para Boa Vista. Boa Vista é uma Capital pequena, aí você vai para o interior, você já sente o impacto, não é? Eu cheguei lá e ainda não era asfaltada a cidade toda, a frente do banco ainda não era asfaltada; você entra e dá um conflito assim: Puxa! Você sai de um local que tinha tudo, para ir para um local em que você tem que aprender a conviver. Para mim foi um ganho importantíssimo, porque a cultura... O tratamento das pessoas... É diferente! Na Capital você tem um convívio assim superficial com o cliente; no interior não, você está junto ali.

P/1—Você pode dar um exemplo?

R—Vamos lá. Em Caracaraí eu nunca comprei verdura para a minha casa, eu tinha uma cliente que todo final de semana deixava verduras que eu nunca tinha visto: nabo, por exemplo - que não é da região - até nabo tinha na minha casa, ela ia deixar todo final de semana. Eu via muita carência do pessoal, então quando eu viajava para Manaus: “Mãe, separa o que você não quer mais que eu vou levar.” Então eu fazia muita essa parte de ajudar as pessoas - eu e o meu esposo temos muito isso. Então, eu arrecadava tudo e ia doar. Geralmente quando eu chegava em casa, tinha alguma coisa: era um cliente que tinha deixado um peixe, eu recebia galinha...

P/1—No banco?

R—No banco.

P/1—Viva?

R—Viva. Era uma forma deles...

P/1—Agradecer.

R—Agradecer pelo que a gente fazia. Eu fui convidada até para sair como governadora lá, mas aí eu já estava com transferência para Manaus, foi o tempo em que a minha irmã faleceu e tal, eu fui tirar férias e eu senti que a minha mãe precisava de mim naquele momento. Se não quem sabe eu teria entrado até na carreira, eu já tenho um pouco do sangue, meu pai foi vice-prefeito do Cará, não é? Então eu já tenho um pouquinho do lado político no meio. Quem sabe, de repente...

P/1—E a função na qual você entrou? Qual era quando você ingressou?

R—Eu era escriturária. Fiquei dois anos e meio em Caracaraí como escriturária e, às vezes, substituindo no Caixa.

P/1—E assim... Você tem alguma história dessas de atendimento ao cliente? Alguma curiosidade? Uma coisa que aconteceu?

R—A questão dos nomes, não é? Na região aqui eles fazem uma mistura assim tremenda, então, às vezes, você não acredita. Chegam pessoas com nomes assim muito esquisitos, e aí você fica até receoso de falar aquele nome.

P/1—Você pode falar alguns para a gente?

R—Ruperlíntinea, nunca vi esse nome.

P/1—Como?

R—Ruperlintinea Eu chamei Ruperlintia, ela falou: “Não, é Ruperlintinea mas pode me chamar de Rute.” Eu nunca tinha visto esse nome. Então, é muito curioso, não é?

P/1—Tem mais algum? Podia fazer uma listinha?

P/2—Uma lista.

R—[risos] Ah, tem vários! Mas assim para lembrar...

P/1—Você não lembra, não é? Tudo bem.

R—Autenticada. Tinha uma pessoa com nome de Autenticada.

P/1—Autenticada?

R—Autenticada.

P/1—Gente! É realmente...

R—É muito complicado. [risos].

P/1—E o povo assim... Porque a maioria é indígena, não é?

R—Sim.

P/1—Eles também são clientes? A maioria?

R—Tem. Aqui em Pacaraima nós temos vários indígenas clientes do banco. Por quê? Porque muitos já estudam, já são formados, dão aula, então a gente tem muito na região aqui.

P/1—E há um envolvimento na questão assim... No debate sobre a questão indígena também? Vai acabar indo para o banco? Resvalando no banco?

R—Às vezes eles, assim, ____, não é? Do conflito. Então, eles falam um pouco, eles reclamam porque eles não querem sair daqui, aqui tem muita miscigenação - branco e o índio. Então a gente sente que, às vezes, eles ficam... Quando a gente fala nessa situação, eles ficam um pouco revoltados, não é? Porque eles não querem sair daqui. Aqui é um lugar lindo, você viu.

P/1—Você entrou em 2000, não é?

R—Hum, hum.

P/1—Como é que foi a sua trajetória no banco?

R—Pois é. Assumi em Caracaraí, fiquei dois anos e meio. Recebi um convite insistente de uma colega de banco - eu não a conhecia - ela soube referências minhas por esse meu gerente, porque eu já estava em Parintins. E ela me ligava todos os dias me fazendo um convite para assumir a agência lá que abriu em São José, periferia de Manaus. E eu ___: “Não, eu não quero agora, e tal.” Quando eu fui de férias, vi que era o momento, aí eu aceitei. A Cirlene - Cirlene Sakomoto - é uma pessoa incrível no banco, eu digo que ela é a minha mentora, porque para mim é um exemplo. Ela tem hoje 30 anos de banco. É banco assim incondicional. Ela é gerente da agência Estilo, em Manaus. Então aí, de lá, eu fui para São José, passei também dois anos e meio, só que como Caixa. Só que eu tinha função de Caixa, mas atuava muito no negocial, eu acho que a minha praia é o negocial.

P/1—O que é o negocial?

R—O negocial é fazer negócios. É a pessoa jurídica, o negocial mesmo. Eu não sou muito do administrativo. Eu gosto de estar ali com as pessoas, de oferecer os produtos, de mostrar a parte do negócio mesmo. Aí, de lá, eu fui para a agência Campos Elíseos como assistente de negócios do Exclusivo. Fiquei sete meses, numa trajetória muito rápida lá e fui para a agência do Distrito Industrial como gerente de módulo de pessoa física. Lá eu cheguei a ficar um ano, eu acho que um ano e pouquinho, apareceu a oportunidade de Pacaraima, não é? Eu gosto muito de Roraima. Sou amazonense, mas apaixonada por Roraima. Quando surgiu Pacaraima, eu digo: “Bem, esse vai ser um desafio, uma mudança assim radical.” Eu aceitei. Aí vim, arrumei minhas malas e vim embora, fiquei uns três meses aí sem a família, depois a família veio.

P/1—E como é que foi?

P/2—A mudança de rotina mesmo, sabe?

R—Total. Pelo menos Pacaraima é qualidade de vida, não é? Porque, o que acontece? As crianças são pequenas ainda, precisam um pouco de mim, mais do que o normal. Então eu escolhi Pacaraima pela praticidade assim de poder estar um pouco mais perto deles, poder acompanhar melhor, ter uma qualidade de vida, poder almoçar na minha casa, por exemplo, isso eu consegui fazer. Então, eu escolhi mais por isso. Eu abri mão de muita coisa assim... Da faculdade, não é? Meus pais abriram mão do trabalho para acompanhar, mas assim... A gente ganhou muito nessa questão aí. Hoje já é um ano de Pacaraima. E assim... Isso para mim somou bastante, sabe? Essa parte assim, e a experiência também. Porque aí eu estou lidando com o negocial e com os serviços. Para mim, na carreira, foi espetacular. Porque agora eu me sinto preparada para assumir um desafio maior.

P/2—Conta para mim: como que é a rotina da Suzy? Ela acorda de manhã...

R—Suzy acorda seis e meia, levanta a molecada, arruma para ir para a aula, porque o menor e a menina vão pela manhã. De lá eu vou para o banco, e nisso o meu esposo supervisiona o restante, não é? O almoço e tal, aquela situação toda. Meio dia, meio dia e meia, eu pego as crianças na escola, a gente vai almoçar, depois passa uma horinha mais ou menos, eu vou para o banco e de lá eu retorno cinco horas, cinco e meia, dependendo do tipo de serviço, não é? E assim, por enquanto, eu não estou cursando a faculdade em Pacaraima porque não deu para transferir. Então, provavelmente, a partir do ano que vem eu já tenho que ir para Boa Vista toda noite para terminar - faltam seis disciplinas só.

P/1—Agora me fala um pouco então dessa agência de Pacaraima. O que é a agência?

R—Bem. Pacaraima… Nós somos um posto avançado de atendimento, não somos a agência ainda. Somos ligados a Monte Caburaí, que é uma agência da Capital, de Boa Vista. Mas a gente tem perspectiva de virar agência até março, nós temos três anos de existência. Um ano comigo e o restante com os colegas que assumiram anteriormente. Nós somos três funcionários: eu; Neto, que é o nosso Caixa e a Gisele, que cuida do atendimento. A Gisele, ela é gaúcha; o Neto é cearense. É assim uma mistura bem legal. Eu acho que Pacaraima precisa ter uma agência. Para a gente dar melhor condição de atendimento, porque eu sei que a gente deixa a desejar, não é? Porque não tem condições de fluir com três pessoas, a gente tem uma vaga, mas não conseguimos preencher com a relação do pessoal daqui de assumir com o do concurso novo, então ficou um pouquinho complicado. Mas a gente está muito confiante, confiante no sentido de virar agência para poder dar condições melhores de trabalho. E de serviço também.

P/1—Eu queria que você contasse um pouco assim das histórias que esse posto vive aqui na região, porque é uma região de conflito. Como é que é isso?

R—É. É bem diferente, bem típico. Porque nós somos uma agência de fronteira, a gente recebe pessoas de todos os lugares do mundo. Já atendi chilenos, venezuelanos... Aí, já tem a questão dos indígenas, a gente atende também. Então, assim... É diverso, não é? Você fica ali e, de repente, chega alguém e você tem que falar um Espanhol, tem que arranhar um Inglês, e assim a gente vai levando. E a questão desse conflito, não é? A gente viveu um período ai... Quando eu cheguei, em setembro do ano passado, cheguei assim bem no começo mesmo da situação. A gente viveu um período que vocês devem ter acompanhado pelo telejornal, pelas revistas, e a gente viveu a questão... Que eles fizeram uma manifestação, não é? Tocaram fogo em frente à Federal, tinha a questão do carro-bomba que estava estacionado até próximo do banco. Nesse dia, nós tivermos que fechar a agência, minha mãe ligou desesperada, todo mundo preocupado. Assim... Foi tremendo, porque você não espera, eu nunca tinha participado, nunca tinha visto um movimento desses. Por conta dessa demarcação indígena.

P/1—Que tinha a ver com o pessoal do arroz?

R—Tem. Com os arrozeiros. Pacaraima viveu o ano todo troca de Prefeito - a cada três meses, não é? Um ganhava, disputava no tribunal, outro ganhava, e assim ia. E mais essa questão do arroz aí. Então, foi bem complicado.

P/1—E só três funcionários ali?

R—Só três funcionários, com essa situação toda. Muitas vezes a gente teve que fechar a agência porque não tinha condições. Porque a gente tinha que zelar pela nossa integridade e o patrimônio do banco também.

P/1—E o lance de ser assim na fronteira, como é que são as pessoas que frequentam? Já aconteceu... Você teve alguma situação curiosa que aconteceu em atendimento?

R—Não. Às vezes... Mais quando chega alguém que entende muito pouco Português, que sabe se expressar mas não entende. Aí é bem curioso, não é? A Gisele fez um curso de Espanhol por conta disso. Eu, como já tinha um pouco de conhecimento da língua, porque eu já tinha recebido uma coisa no ginásio, então para mim foi mais fácil. Mas ela tinha muita dificuldade, ela ficava muito nervosa quando chegava alguém: “Suzy, me ajuda, que eu não estou entendendo.” Então, o curioso era isso, era aquele nervosismo no começo, mas agora não, a gente já se adaptou, já está bem legal, a gente fala bem, o pessoal entende, mas o curioso é isso. É difícil, não é? Quando chega alguém que você não domina a língua.

P/2—Tem alguma história engraçada com cliente? Alguma coisa pitoresca que tenha acontecido?

R—É... Porque, às vezes, você fala alguma coisa em Português que é totalmente diferente para ele, e você não consegue fazê-lo entender o que é. Então, já foi muito engraçado, a gente chegou lá e falou de uma maneira… Eu fui lá e expliquei. Ele tinha entendido outra coisa diferente.

P/2—Você não lembra o que era?

R—Não lembro o que era. Era uma coisa besta, sabe? Que ele não entendeu o que era.

P/1—E assim... Como seria a história... A importância de um DRS indígena aqui?

R—Isso aí... Porque a gente sente, a gente que está aqui na comunidade, que presencia, a gente sente a dificuldade que eles têm em relação ao plantio. A gente sabe que é um local que tem como se desenvolver, mas que precisa de uma ajuda, precisa de uma parceria firme aí. Por exemplo, a gente já tentou um DRS, creio que a gente consiga dar continuidade agora ano que vem. Depois de baixar a poeira desse conflito, eu acho que as coisas vão fluir. Eles têm uma plantação muito boa de banana, abacaxi, laranja... Gente, é uma delícia. Só que eles não têm condições de manter isso porque eles não têm água, então eles precisam de uma ligação e precisam de um local para poder vender esses produtos, que eles também não têm, é tudo na beira de estrada. Então, a gente sente que com o DRS a gente vai ter como atender isso aí, juntar os parceiros, a Prefeitura, a Funasa, a Funai em si, ajeitar todo mundo para que todo mundo possa apoiar. E o projeto de ligação, eu acho que seria assim excepcional, e o DRS teria como atender tudo, junto com a Fundação Banco do Brasil.

P/1—Eu queria que você contasse um pouco como é que foi a sua aventura, para que a gente pudesse até tentar entrevistar as pessoas aqui.

R—[risos] Olha, o primeiro contato foi interessante, porque o Mário, que é o nosso gerente lá de Monte Caburaí, ligou para mim no dia em que eu tive que descer para uma reunião de negócios lá em Boa Vista. Porque toda reunião que tem, a gente vai para participar, para ver as novas estratégias. Aí, já estava tudo certo, duas horas da tarde eu voltei ao banco só para pegar o táxi e descer: “Aí, colega Suzy, você precisa falar com Boa Vista, está todo mundo ligando para você, a Superintendência inclusive.” Eu digo: “Pronto! Aconteceu alguma coisa.” Eu fiquei preocupada. O Mário: “Suzy, você precisa arranjar uma pessoa da comunidade para dar uma entrevista para o BB 200 anos.” Aí eu digo: “Pronto! Mas tem que ser da comunidade indígena?” “Tá, comunidade indígena para mim é muito vago.” Eu disse: “Oh, Mário, está bom, eu vou dar um jeito aqui.” E, em seguida, a ___ me liga: “Suzy, eu preciso de uma pessoa da comunidade Raposa Serra do Sódico.” “Pronto! Agora complicou.” Porque aí, o que acontece? Raposa Serra do Sódico são 26 km da BR, entrando, não é? Eu digo “Bem, não vai dar tempo de ir lá, mas vamos atrás.” Peguei o táxi, desci, parei em Sorocaba, que é a comunidade mais próxima, não tinha como contatar ninguém porque o Charles estava em reunião, eles, geralmente, têm os dias certos - as datas são três dias mais ou menos - e eles vão para dentro mesmo das malocas mais distantes para reunir o pessoal e discutir, não é? Eles têm isso bem organizado. Então, não tinha como contatar ninguém, aí eu: “Tudo bem!” Fui com o Mário: “Olha, Mário, não tem como contatar agora, posso dar uma posição na segunda-feira.” isso era uma sexta. “Segunda-feira cedo, primeiro horário, eu já desço, meu primeiro compromisso, vou na comunidade e a gente vai organizar isso aí.” Só que eu ainda não tinha entendido a máxima, não é? [risos] Assim... Eu não tinha entendido como é que seria isso. Aí eu vim aqui na segunda pela manhã, fretei um táxi, vim aqui na comunidade: “Meninos, segurem a agência aí que eu estou descendo.” Conversei com o pessoal e disse como é que tinha que fazer, retornei para a agência para dar esse ok. Então assim... Eu achei bastante interessante, porque é legal você mostrar isso para o Brasil, porque a pessoa que está lá em São Paulo, que está numa agência que é grande, ela não sabe dessa dificuldade de logística que a gente tem aqui, não sabe como é que funciona. Então, você tem que parar tudo para fazer isso. Eu acho que tem que valer a pena, porque a gente tem que mostrar isso daí, porque a pessoa não tem noção do que é essa região aqui.

P/1—E como é que é ser bancária do Banco do Brasil e trabalhar com essas comunidades?

R—Ah, para mim é muito valido. Assim... E o retorno é excepcional, porque você acaba ganhando muito, não é? Muita experiência com isso. E como eu tenho muito esse lado já de ajudar, não sei por que - acho que já da formação, eu sempre estudei em escola adventista - então já tinha muito isso de ajudar as pessoas. Quando você vem para o interior, que você sente a necessidade e você sabe que tem como ajudar, é maravilhoso, não é?

P/1—E você sente que mudou alguma coisa assim na sua vida, depois que você começou a fazer esse trabalho?

R—É. A gente começa a ver a vida de maneira diferente. Porque é o que, às vezes, eu digo: as crianças reclamam de alguma coisa, reclamam que não têm e choram uma coisa, mas você pega e traz aqui, na comunidade, para eles sentirem, não é? Como é que é isso aí.

P/1—Em relação ao próprio banco, se você tivesse que falar com os colegas de outras agências, tivesse uma reunião com gerentes de várias agências, como é que você descreveria o local em que você trabalha, assim, para eles? “Olha, eu trabalho no Banco do Brasil, em tal lugar, e é assim...” Como é que você falaria? R—Bem, trabalhar no Banco do Brasil, você tem uma gama de situações que você vive. O que eu mais gosto no banco são as amizades, você tem uma família em cada ponto. Então, quando chega um colega de fora, por exemplo, aqui a gente tenta sempre mostrar o melhor, porque eu acho que o banco é isso, o banco é uma família enorme. De repente, os colegas não têm nem noção do que está se passando aqui. Como eu, de repente, não posso ter noção do que eles passam lá. Isso é muito legal no banco, porque aonde você chega, você tem o mesmo tratamento. Então, trabalhar no banco aqui, hoje, em Pacaraima, para mim é gratificante. Porque eu sei que posso contribuir para esse município melhorar, porque o banco é isso: o banco, ele não vem só para liberar crédito não, ele vem para somar com a comunidade. E o recado que eu deixo aos colegas é que quando eles tiverem que ir para algum lugar mais distante, que vão. A experiência é incrível, gente, incrível, mas você tem que se doar. Não adianta você chegar: “Ah, eu vou assumir uma agência do interior, mas eu não vou morar nesse interior.” Você não está somando nada, você tem que ir de coração aberto, com a mente livre para viver novas experiências. Eu acho que só assim a gente consegue fazer crescer, e fazer o banco crescer também. Mostrar para a comunidade que você pode. E você tem que estar limpo de qualquer preconceito, não é? Você tem formação dos conceitos a partir do momento em que você vive ali na comunidade.

P/1—E o que você diria assim, que seria o futuro do BB aqui na região?

R—O que seria o futuro do BB?

P/1—É. A seu ver. Ao que você espera.

P/2—Qual é a sua perspectiva?

R—Eu espero muito mesmo, muito mesmo... Eu estou muito confiante nesse DRS, que eu acho que isso aí é como a gente...

P/1—Do indígena?

R—Do indígena. Porque a gente tem que fazer isso, é de lei, a gente precisa cumprir isso aí. E a agência crescer mesmo, dar condições de trabalho para os colegas, porque a gente hoje trabalha não só porque a gente precisa, é porque a gente gosta também, não é? Mas dar melhores condições de trabalho e dar melhores condições de atendimento, porque hoje é complicado você ver uma pessoa ficar aguardando duas, três, quatro horas ali para ser atendido, porque nós não temos pessoal. Então, a gente tem que ser muito versátil. Eu sei que o banco tem condições de oferecer isso aí. Nós somos uma agência pioneira, então a gente não pode perder isso, porque se, de repente, chega um Bradesco, ou qualquer um outro banco concorrente, instala uma agência, a gente tem que ir embora. Eu acho que a gente não pode perder esse espaço. Se o banco está ali, ele tem que ficar ali. Então, ele tem que ter condições de ter uma agência.

P/1—O que você diria que foram as maiores lições que você tirou da sua trajetória...

P/2—Da sua vida mesmo...

P/1—Da sua vida mesmo... Mãe, bancária, e enfim...

R—É um conjunto, não é? Ser mãe, ser bancária, é complicado, mas tem como. Tudo tem um jeito na vida. Eu converso muito com os meus filhos, com o meu esposo e eles têm um entendimento muito bom disso, acho que o diálogo, a compreensão, a parceria é fundamental, e isso eu tenho, sabe? Mas por quê? Porque a gente dialoga muito, muito, muito, muito... E eu mostro para os meninos que a gente tem que ser firme em todos os momentos. Hoje nós estamos aqui, como, de repente, você pode ir para um local que só tenha um transporte fluvial, mas isso é da vida, você tem que aprender a conviver. Você tem que aprender a lidar com todas essas situações. Então, assim... Para mim, o banco, nesse ponto, ele me ajuda muito a ter uma compreensão melhor das coisas. E poder mostrar isso para os meus filhos. É muito legal, eu gosto muito de trabalhar assim, é muito versátil, você tem que ser artista mesmo, eu digo que você não é só bancário, você é artista trabalhando no banco [risos].

P/1—Suzy, a gente está quase que fechando, encerrando. O que você achou dessa ideia do banco comemorar os 200 anos através da história das pessoas? Você dando o seu depoimento, o que você achou?

R—Porque são essas histórias que formam tudo, não é? Formam o banco em si. Isso aí foi bastante válido. Porque 200 anos, qual empresa que tem hoje no Brasil que completou 200 anos? Não tem. Então, ele tem que fazer isso mesmo, tem que mostrar o Brasil para os brasileiros, porque a gente não conhece o Brasil. Muita gente nunca ouviu nem falar que existe Pacaraima. O banco tem esse papel, ele tem que mostrar isso aí. E eu achei interessantíssimo, é uma ideia maravilhosa, viu? Eu gostei muito dessa situação, eu espero que isso aí mostre, realmente, o bioma Amazônia. Que vocês falaram tanto. E as experiências que a gente trocou aqui foram fundamentais.

P/1—Você falou de bioma. Como é que você descreveria esse bioma Amazônia? O que é ele?

R—Bem. É uma mescla de tudo. De tudo o que você possa imaginar. Juntou o pessoal do Pantanal, da Amazônia, do Sul... Isso aí é uma mescla de tudo o que é o Brasil hoje. Eu vejo o bioma dessa forma assim. E depois dessa entrevista, que vai veicular aí para o pessoal, para o Brasil todo, vai ficar até um pouco mais claro, não é? De como é que funciona o Brasil. Eu achei muito interessante.

P/1—E o que você achou de dar o seu depoimento? Como é que você se sentiu dando o depoimento?

R—Ah! Eu me senti ____. Muito legal. Porque assim... Hoje, todas as experiências que eu já vivi no banco foram prazerosas. Eu digo assim que eu só tenho momentos felizes dentro do banco. Depois, são oito anos já agora, completei oito anos de banco, foi um presente. Oito anos de banco poder está aqui falando para vocês, foi mais do que um presente do BB para mim.

P/1—Tem mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar e que a gente não tenha perguntado?

R—Eu queria agradecer a vinda de vocês aqui, em nome da comunidade. Do BB de Pacaraima. E isso eu vou contar para os meus colegas e eles vão ficar assim maravilhados [risos].

P/2—Nós é que agradecemos essa recepção tão calorosa que vocês fizeram para a gente aqui.

R—Eu acho que foi muito bom, gente, olha! Muito bom mesmo.

P/2—Obrigada! É isso.

R—Ok..

---FINAL DE ENTREVISTA---

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