Busca avançada



Criar

História

Uma mulher batalhadora

História de: Celina Mendes do Prado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/04/2015

Sinopse

Em seu depoimento para o Museu da Pessoa, Celina fala sobre sua infância difícil em Jandira, as dificuldades financeiras da família e o incentivo dos seus pais ao estudo.   Ela comenta sobre sua trajetória familiar, suas mudanças de cidade por conta de variados motivos, suas atuações profissionais em escolas públicas e privadas, e as dificuldades em ser mãe, professora, estudante e ainda voluntária em associações. Celina conta um pouco sobre a trajetória do Centro Social Carisma, como contribuiu para o seu desenvolvimento, sempre buscando melhorias para o lugar. Sobre o Criança Esperança, ela explica como conseguiu o apoio e as contribuições para melhorar o Centro.  Relata as viagens internacionais que fez para ajudar na captação de recursos para a ONG.

Tags

História completa

Meu nome é Celina Mendes do Prado. Eu nasci em Jandira, São Paulo, no dia 5 de abril de 1968. Meus pais são Antônio Mendes do Prado e Maria Antônia da Silva Prado. Meu pai é falecido já há oito anos. Ele era padeiro e a minha mãe sempre foi comerciante. Minha mãe tem 82 anos, é uma pessoa superativa, ainda trabalha, viaja sozinha, enfim. A minha mãe mora em Barueri. É um município próximo a Jandira. Eles eram do Nordeste e vieram pra São Paulo.

Meu pai era uma pessoa sempre foi muito quietão, caladão, o negócio dele era trabalhar e trazer dinheiro pra casa. O tradicional homem de casa. E a minha mãe não, a minha mãe sempre esteve mais com a gente, a relação acho que principalmente de mulher, de menina é mais com a mãe. Eu tenho oito irmãos. A minha infância toda eu passei em Jandira. Eu saí de Jandira, casei-me em 90. Me casei e fui morar em Carapicuíba. Morei 11 meses em Carapicuíba, aí meu ex-marido foi transferido pro Paraná, numa empresa que ele trabalhava, abriu uma filial, nós fomos pra lá e eu terminei de estudar. Eu fiz uma pós, eu estudei na Universidade Estadual de Ponta Grossa, lá eu tive o meu primeiro filho, enfim. Eu vivi por oito anos lá.

Fiz Letras na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Foi no último ano de faculdade eu engravidei e eu comecei a fazer uma pós logo em seguida. O curso terminou em dezembro e em janeiro, janeiro, fevereiro eu já comecei a fazer a pós e eu já estava grávida. Fiquei grávida mais ou menos dezembro, janeiro, meu filho nasceu em agosto, ele fez a pós comigo e depois que ele nasceu, depois de 15 dias eu já estava na faculdade de novo porque pós não tem licença médica. Então eu o levava de bebezinho comigo, no carrinho, e fazia a pós sexta e sábado o dia inteiro, ele ficava comigo. Ele cresceu também já nesse pique. Eu dava aula em escolas públicas do Paraná, escolas estaduais. Trabalhei numa escola chamada Elias da Rocha,

Dei aula 18 anos em escolas públicas, dei aula também numa faculdade de teologia. Dei aula no Senac também, no curso de aprendizagem. E depois eu sempre tive essa questão de voluntariado, de ajudar as pessoas, de tentar fazer alguma coisa por alguém além da minha vida.  Então foi quando nós tivemos a ideia de abrir um cursinho pré-vestibular, isso em 2005, com professores de escolas públicas. Em Osasco mesmo, na Carisma que é uma comunidade evangélica e eles também têm esse lado social. Então nós fizemos esse cursinho, a princípio nós tínhamos 30 alunos de início, depois nós chegamos a ter 180 alunos. Tínhamos várias salas de aula e tínhamos assim um grupo de 30 professores. Eu parei de dar aula e eu comecei a coordenar esse curso, tudo com professores voluntários. Eu tinha professores que eram doutores da USP e que vinham dar aula nesse cursinho. Então foi assim um momento bem bacana, de crescimento, e você via alunos conseguindo entrar... Gente assim que não teria condições de pagar um cursinho bom entrando na USP, na Fatec. Então foi assim muito recompensador.

Voltei para o estado de São Paulo. Fiz concurso e dei aula no Estado, depois eu fiz concurso em Barueri também, na escola municipal, dei aula também por um tempo e depois eu saí mesmo quando eu vim trabalhar aqui no Centro Social Carisma. Quando eu vim pra cá a gente tinha muita criança, muitos meninos, ou eles trabalhavam carregando coisas na feira ou mesmo no farol. Tinha muitos, muitos meninos mesmo que eles ficavam no farol aqui próximo a organização pedindo dinheiro ou vendendo alguma coisa e era um risco pra eles. Eu vi que era necessário eu fazer um curso de Pedagogia pra entender um pouco mais, pra fazer a elaboração de um planejamento político-pedagógico pra organização. Na verdade é uma complementação porque se você tem um curso elimina várias disciplinas, eu já tinha um curso de Letras de cinco anos, então eliminei várias disciplinas e fiz o curso de Pedagogia. Fazia à noite e final de semana no sábado. Meus filhos sempre iam pra escola de manhã e à tarde eu sempre os coloquei pra fazer alguma atividade, ou música, ou uma atividade física, ou esporte. E daí eu às cinco horas da tarde já estava em casa e eu não trabalhava todos os dias no Estado, eu tinha alguns dias livres que eu ficava com eles. Eles foram criados aqui na ONG, tudo que eu tinha quando eu dava aula no cursinho eles ficavam, trazia-os de manhãzinha, eles ficavam o dia inteiro aqui. E eles são voluntários aqui na ONG desde pequenininhos. Éramos só voluntários, quem era funcionária era a assistente social, o restante eram todos voluntários. Hoje nós temos funcionários CLTs. Eu tenho oito pessoas e eu tenho mais alguns contratados que são prestadores de serviço. Eu tenho hoje 14 pessoas. A Instituição Centro Social nasceu em 2003. Nós começamos atendendo 30 crianças.

Eu escrevi esse projeto do Criança Esperança, mas eu nunca tinha conhecido nenhuma organização que ganhou. É a mesma coisa da loteria, a gente sabe, teve um ganhador, mas você conhece quem ganhou? A gente não conhece. E o do Criança Esperança era meio parecido, você fala assim: “Não sei quem ganhou”. Falei: “Mas eu vou mandar”. Eu tenho o não, eu vou tentar o sim. E nós mandamos, quando nós mandamos eles receberam 1200 projetos do país inteiro e apenas 76 organizações foram sorteadas, foram selecionadas. Muito pouco pelo número de projetos que eles recebem. Eu sou maníaca por internet, então acho que era mais de meia noite eu estava vendo os meus e-mails e vi o e-mail do Criança Esperança. A organização recebeu, nanana, tem até tal dia pra enviar os documentos, não sei o que. Eu fiz: “Será que a gente recebeu? Que estranho esse e-mail”. O meu filho estava acordado, falou: “Mãe, deleta porque isso é vírus. Isso é vírus, não é...”. Eu falei: “Não, eu vou ligar amanhã pra ver o que é”. Tinha o telefone da pessoa. Eu liguei, falei: “Olha, eu recebi um e-mail assim.” “Não, vocês mandaram o projeto, o projeto de vocês foi selecionado e vocês realmente vão receber”. Mas eu gritava tanto, gritava tanto. Falei que é a mesma acho, eu nunca ganhei na loteria, mas foi a mesma sensação de que eu tivesse ganhado na loteria, sabe? Foi assim muito, muito bom pra gente. Não apenas pelo dinheiro, mas você fala assim: “O nosso trabalho foi consolidado, tudo que a gente fez está sendo reconhecido”. Eles mandam editais. Eles colocam no site deles, eles divulgam também na TV, na Globo, o Itaú também, a Fundação Itaú também ajuda a fazer a divulgação. Agora em abril mais ou menos eles abrem, de abril e você tem até junho, julho pra enviar o projeto.

Como eu vivo fuçando editais então falou o Criança Esperança está aberto, falei: “Vou tentar, eu vou mandar”. Mas nós já tínhamos mandado, na verdade foi o terceiro projeto que nós tínhamos mandado. Então no terceiro ano que nós ganhamos, nós já tínhamos mandado outros projetos antes e não tínhamos sido selecionados.

O projeto Educando pra Cidadania eram oficinas de esporte, na área de educação também mais pra área de português e matemática, isso na área digital e até hoje nós temos esse projeto. Na verdade o projeto virou um programa, foi tão bom pra gente e deu tanta visibilidade que nós terminamos fazendo dele um programa. Então hoje chama Programa Educando pra Cidadania, que tem as oficinas de esporte, música, cidadania e educação. Trabalhamos de oito a 14 anos e meio.

Todos os anos nós abrimos um número de vagas, só que um diferencial do nosso projeto é que as crianças quase não saem. Então quase eu não tenho vaga, só quando eu abro, tem um projeto novo ou outro, mas eles permanecem bastante tempo aqui, isso pra gente é bacana, a gente não tem muita rotatividade, criança que sai e volta. Então as atividades que nós temos hoje, ela está dentro desse programa, nessa faixa etária de oito a 14 anos e meio. Eles completam 14 anos e meio, vão pra esse outro projeto, Formação Básica pro Mercado de Trabalho, nós vimos a necessidade, falamos assim: “Pega esses alunos, eles têm 14 anos aqui, a gente vai fazer o que com eles agora?”. O adolescente não vai ficar o tempo inteiro aqui tocando percussão ou jogando bola. É época que eles necessitam de um trabalho, então em 2012 nós começamos a pensar na questão do Jovem Aprendiz que é uma parceria com o Governo Federal, do Ministério do Trabalho, através do Ministério do Trabalho, nós mandamos, a gente também não sabia, falei: “Vamos procurar como que faz esse projeto”. Nós mandamos pro Ministério do Trabalho, foi aprovado e há três anos nós começamos com sete alunos, não pagava nem os professores o número de alunos. Então eu estava dando aula, eu comecei a dar aula, porque nós não tínhamos condições de contratar professores pra dar aula pra esses sete alunos. Eles já estavam na empresa, mas o que a gente recebia da empresa não pagava o custo. Então eu e mais alguns voluntários começamos a dar aula pra esses meninos que foram pras empresas trabalhar, e eles vinham pra cá pra fazer o curso uma vez por semana na área administrativa. São rotinas administrativas. Daí cresceu, de sete a gente passou pra 20, hoje nós temos quase 150 em três anos. E a semana que vem nós começamos mais uma turma de 30 alunos de outra empresa que fechamos parceria também.

Recebemos do Criança Esperança 130 mil e com esse dinheiro nós compramos as mesas da cozinha, bancos, geladeira, freezer que nós não tínhamos, fogão industrial que nós não tínhamos, a gente tinha um fogão pequeno. Compramos os computadores da minha sala, da secretaria. Pagamos por um ano professores, todo uniforme que as crianças têm até hoje nós compramos com o dinheiro do Criança Esperança também. Na época eram 150.

Em 2012 eu fiquei sabendo de uma feira e eu comecei a pesquisar e sabia que eles cediam stands pra ONGs, que não tinha custo algum, eu falei: “Eu preciso, a gente precisa ir atrás de parcerias agora fora do Brasil”.  Porque a gente não tinha um tostão, na verdade a gente não tinha colocado no planejamento uma viagem pra Londres, passagem é cara, enfim, tudo é muito caro. Daí eu mandei um e-mail pra eles perguntando se tinha stand ainda, eles falaram: “Olha, tem stand sim”. Perguntei se eles tinham alguma bolsa, alguma coisa, se ajudavam a pagar. “Não, a gente não consegue”. Falei: “Eu vou atrás de patrocínio”. Conversei com um parceiro nosso e a pessoa assim foi superaberta, falou assim: “Não, vocês têm que ir mesmo”. Inclusive esse parceiro foi com a gente. Ele foi com a gente, ele pagou todas as despesas e ele foi e ajudou a gente na feira também. Então foi na feira que nós conhecemos outras formas de captação. Pra gente o conhecimento e a cultura de outras organizações trouxeram muito isso pra gente. Até a questão do nosso relatório que nós fazemos, nosso relatório social, eu comecei a ver outros modelos, falar: “Olha, é assim que se faz”. Também você começa a ficar sem medo de fazer as coisas. Quando eu voltei eu falei assim: “Agora eu vou escrever um projeto...”. Tinha surgido uma oportunidade de escrever um projeto em inglês pra Fedex e eu fiquei com medo, eu falei: “Não sei, vou mandar”. Nós mandamos esse projeto e foi aprovado. Foi aprovado. Não sei se eles entenderam muito bem o meu inglês, mas foi aprovado. Então essa foi uma oportunidade. Eu fui 2012, 2013, em 2014 eu fiquei sabendo de outro evento em Lisboa e que também era uma oportunidade pra gente, até mesmo porque eu queria conhecer uma fundação que ela é referência em trabalhos com jovens e adolescentes e eu queria conhecer essa Fundação da Juventude. Eu conheci o diretor de lá. E eu falei: “Lisboa daí é mais fácil, porque é mais barata a passagem, tem essa questão toda”. E era uma feira de projetos inovadores. Você não tem noção de projetos no mundo inteiro, são projetos assim um superdiferente do outro. Muito bacana. Foram três dias de feira e também eu não tinha dinheiro pra ir. Daí eu falei: “Vou precisar de um stand lá”. Liguei lá: “Olha, quanto que é um stand?”. Era baratinho, era acho que 30 euros, não era... Porque o foco era ONGs mesmo. Eu falei: “Tá, o stand é barato, dá pra pagar”. Falei: “E agora dinheiro de passagem, hospedagem? A gente precisa arrumar isso”. Nós tínhamos na época uma parceria com a Henkel do Brasil. Eu falei: “Eu vou mandar um e-mail pra eles, vou ver o que eles me falam”. E essa parceria da Henkel era através de uma fundação também nos Estados Unidos. Então tudo era por lá. Falei: “Vou mandar um e-mail, vou perguntar e ver se eles...”. Eu expliquei o que era, quais os benefícios que traria pra organização, eles falaram: “Não, vocês podem ir. Podem ir”. E eles bancaram.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+