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História

Uma mulher apoiando as outras

História de: Ana Fontes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/07/2021

Sinopse

Primeira infância com a família na casa próxima ao Rio São Francisco . Viagem de ônibus com a mãe e os irmãos para São Paulo. Primeiras impressões e dificuldades ao chegar em Diadema. O trabalho no chão de fábrica. Recordações do período escolar e da faculdade de Publicidade. As desigualdades enfrentadas no mercado de trabalho. O casamento e as experiências da maternidade. A decisão de empreender e a ideia embrionária que deu origem a Rede Mulher Empreendedora. O desenvolvimento da Rede Mulher Empreendedora e os principais aprendizados de sua carreira. Sonhos para o futuro.

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História completa

P/1 – Vamos lá! Ana, queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.


R – Oi, eu sou Ana Lucia Pedro Fontes, eu nasci em Igreja Nova, Alagoas. Tenho 54 anos, até amanhã. (risos) É isso.


P/1 – Isso. E quais os nomes dos seus pais?


R – Minha mãe se chama Maria Laudice Davino dos Santos e meu pai se chamava... ele faleceu há três anos, Josino Pedro dos Santos.


P/1 – E como você os descreveria?


R – Pessoas muito simples, muito batalhadoras. Muito guerreiras, porque passaram, também tiveram uma infância muito dura e muito difícil, então eu os considero pessoas, assim, muito vencedoras, dentro de tudo que foi oferecido para eles na vida. De todas as dificuldades que eles tiveram, eu os considero muito vencedores.


P/1 – E você sabe como eles se conheceram?


R – Sim, porque a cidade lá onde eu nasci é um povoado, né? Na época, acho que não tinha nem nome direito de cidade, era um povoado e as pessoas todas se conheciam. Minha mãe é de uma família de onze irmãos, ela e mais dez irmãos e o meu pai teve uma família um pouco diferente. Na verdade, a mãe dele o teve e o doou para uma outra família, uma outra pessoa criar, que era o irmão mais velho dele e ele foi criado com essa outra família. E aí, como é um povoado, eles se conheciam, as pessoas se conheciam, acabou que eles se encontraram. Não assim, no sentido de encontrar, acabou que eles se gostaram um do outro. Minha mãe disse que naquela época não tinha muito essa coisa de namorar muito tempo, ela se casou com quatorze anos. É muito duro você pensar nisso hoje, ela se casou com quatorze e meu pai tinha... dezenove, porque ele tinha cinco ou seis anos a mais que ela. Então, ela se casou muito jovem, ela teve a primeira filha com quinze, que foi minha irmã mais velha, então, muito, muito jovem, assim. Ela disse que isso era muito comum, naquela época, as meninas se casavam muito cedo e, inclusive, era uma coisa meio de conceito de sociedade na época, que se casasse mais tarde era uma coisa ruim. Uma sociedade machista, onde achava que as meninas tinham que casar muito cedo, então, ela se casou muito cedo, ela praticamente não teve adolescência... com quinze anos ela já estava com uma filha e assim foi, sucessivamente, até ela ter vinte e oito anos, com vinte e oito anos ela tinha dez filhos.


P/1 – E como é sua relação com os seus irmãos?


R – É uma relação muito boa, assim: a gente é aquele estilo de família grande mesmo, que briga, que fala, que briga um com o outro, daqui a pouco não fala mais, daqui a pouco volta a falar, é bem aquela família super confusa. A minha... eles tiveram dez filhos, mas dois morreram muito pequenos, lá em Alagoas mesmo, lá no sertão, porque tinha muita fome, muita... não tinha acesso a nada, né? Nós morávamos numa casa de taipa, então era bem complicada a situação. Então, dois morreram pequenos e oito sobreviveram até a vida adulta. A gente sempre teve uma relação muito próxima e muito de ajudar um ao outro, muito de defender um ao outro, esse estilo mesmo, assim, de irmão, briga, ajuda, vai para lá, vêm para cá, mas a gente é muito, muito, unido. A gente fala que, se alguém mexe com um, está todo mundo, se junta aquele bolinho ali, fica todo mundo junto. (risos) A gente tem uma relação boa de família.


P/1 – E o que seus pais faziam?


R – A minha mãe era dona de casa lá em Alagoas, ela era, assim, sertaneja, então plantava, cuidava dos filhos, pescava, fazia as coisas como se fosse uma vida, eu falo para ela, que é quase de indígena mesmo. Porque era uma vida, assim, de muita subsistência, então era tudo para poder viver. E o meu pai era pescador, ele foi pescador até quando ficou lá, ele pescava e vendia na feira, quando conseguia pescar, vendia o que era a mais na feira e o que ficava para a família. Então, ele pescava peixe, camarão, também era lavrador, né, que fala? Lavrador também, porque também cuidava da roça, como todo mundo lá, era essa a vida. Era uma vida muito de subsistência. Plantava milho, mandioca, feijão, plantava as coisas ali para sobreviver, faziam farinha. Farinha de mandioca, que era uma coisa muito comum na época e a partir daí eles sobreviviam de vender, de trocar uma família com a outra e quando vinha a seca, aí era a coisa mais triste, porque eles não conseguiam plantar nada, não conseguiam pegar peixes e aí a vida ficava bem difícil.


P/1 – E você lembra, assim, de alguma época marcante, ou de seca, alguma recordação, assim, de alguma dificuldade que vocês tiveram? 


R- Eu lembro muito pouco porque, na verdade, eu saí de lá, eu tinha quatro anos. Os meus pais... em 1970, teve uma das maiores secas no nordeste inteiro, não só em Alagoas e aí, assim, não tinha o que fazer. Não tinha absolutamente nada, não existia nada do que existe hoje, que é muito justo, tipo Bolsa Família, Auxílio Emergencial, esse negócio de auxílio defeso, quando você não pode pescar, aí o Estado dá uma ajuda, não tinha nada disso. Então, eles não tinham muita alternativa: ou você plantava e pescava para comer ou você ficava sem comer. E todo mundo era muito pobre, então, não tinha uma coisa assim: “Ah, alguém tinha mais dinheiro”, não tinha, era uma relação de todo mundo. Aí eles resolveram - como tinha uma irmã do meu pai que morava aqui em São Paulo - como milhões de nordestinos, tentar a vida aqui em São Paulo. E juntaram o que foi possível, o meu avô, na época, pai da minha mãe, também ajudou um pouco, para eles juntarem dinheiro para a passagem, para vir para São Paulo. E aí, o meu pai veio na frente, né? Porque era uma viagem de ônibus de dois dias e meio, quase três dias, era uma viagem muito... e naqueles ônibus bem “mequetrefe”, sabe, bem ruim, não era um ônibus bom, gostoso, (risos) nada disso. Daí meu pai veio na frente, com dois irmãos mais velhos, para poder alugar a casa, conseguir arrumar o lugar para a gente ficar e conseguir arrumar emprego. E ele veio, com os meus dois irmãos mais velhos, alugou um quarto e cozinha perto de onde a minha tia, que era a irmã dele, morava, que foi em Diadema e depois, dois meses depois a minha mãe veio, na mesma viagem de ônibus, de dois dias e meio, com os seis filhos menores e ela veio sozinha com os seis filhos numa viagem de dois dias e meio. Então, ela, na verdade, conta para gente que tinha muito medo de nos perder no meio do caminho, porque era uma viagem muito dura. Ela falou que ela trouxe, assim, comida para comer no ônibus, coisas para fazer, para poder ficar ali e para a gente não ter que sair muito do ônibus, ela falou que só saía para a gente ir ao banheiro, para a gente alguma coisa, mas ela evitava o máximo possível. Eu tinha quatro anos, o meu irmão mais novo tinha três e o mais novo tinha seis meses e aí os três maiores tinham idades, assim, era um ano, dois, de diferença de um para outro. Eram todos muito pequenos e ela colocava os maiores para ajudar os menores. Então, foi uma viagem assim. Eu lembro de muito pouca coisa de lá, eu lembro da gente... a nossa casa ficava perto do Rio São Francisco, então eu lembro um pouco, de uma lembrança assim, de ter água, eu lembro um pouquinho da casa de taipa, que são aquelas madeirinhas com barro, porque não tinha cimento, eu lembro da gente brincando no que eles chamavam de terreiro, que era o terreiro da casa, não é o terreiro... era o terreiro ali da casa, mas muito pouco. Agora, eu lembro da viagem, da gente passando mal. (risos) Eu lembro, assim, talvez isso tenha ficado marcado porque, imagina... criança, viagem de ônibus, dois dias e meio, ela disse que ela comprou quatro bancos, quatro cadeiras para a gente viajar em sete, porque era ela e nós seis, então ela falou que ela juntava todo mundo, uma parte ficava sentadinho ali no chão, um no colo, o outro no colo do outro e a gente ficou ali naquele... e eu lembro da gente comendo um doce, que é um doce muito típico lá, que chama Mariola e aí eu lembro da sensação da viagem, eu lembro desse doce que a gente comia. Mas não é uma sensação gostosa, não, porque eu lembro de a gente ficar enjoado. (risos) Mas, assim, ela falou que ficou com muito medo, porque chegou na rodoviária aqui do Tietê e não tinha telefone na época, não tinha como avisar, não tinha, era tudo por carta, ela falou que não sabia se meu pai ia estar lá no horário que ela chegasse, ela chegou com aqueles sacos de coisas, tinha muito medo de sair ali e alguém pegar uma das crianças, porque eles ouviam muitas histórias, tinha muito lenda também, tinha coisa ruim, mas tinha muita lenda e ela disse que tinha medo de alguém pegar a gente na rodoviária, porque tinha ouvido falar que pegavam crianças. E aí meu pai estava lá, com o marido da minha... com o meu tio e aí ajudaram a gente a chegar até Diadema. Porque da rodoviária do Tietê até Diadema dava uma hora e pouco, era uma outra viagenzinha. (risos)


P/1 – Ana, eu vou voltar só um pouquinho, depois vou querer saber mais sobre essa sua viagem, mas você conhece a história dos seus avós?


R – Eu conheço um pouco das histórias dos meus avós, do que a minha mãe e o meu pai contam. O pai do meu pai e a mãe do meu pai, eu tenho poucas histórias, eu só sei que a mãe do meu pai era o que eles chamavam lá de castanheira. Castanheira é aquela pessoa que pega castanha do caju, cozinha no fogo, mas é no fogo de... no chão, assim, numa fogueira e depois que ela está bem preta, a casca da castanha de caju, eles batem com uma madeira, porque aí tira aquela castanha, que é a amêndoa, que a gente conhece como castanha. Então, a mãe do meu pai era conhecida como Dodô, mas o nome dela era Maria Petiomilha e meu pai disse que ela era castanheira, que era uma pessoa com muita dificuldade, que teve o filho e não conseguiu ficar. Enfim, eram muitas situações difíceis. E o pai dele, o meu avô, eu não tenho muito, assim, meu pai nunca falava muito, não sei se porque ele não teve convivência com ele, porque ele foi criado pelo irmão mais velho, então meu pai falava pouco da família dele, acho que também devia ser muito duro para ele, porque ele foi doado, para... nessa época, então, eu acho que foi bem difícil. Agora, da minha mãe, aí eu tenho sim, muita convivência, até porque os meus avós, quando a gente veio para Diadema, veio morar aqui, de vez em quando [eles] vinham para São Paulo. Não era uma coisa frequente, porque a viagem era muito longa e eles não viajavam de avião, mas eles vinham para São Paulo. E a minha a avó, a mãe dela, a minha bisavó, era mãe solteira, que eles chamavam de ‘mãe solteira’ na época e ela se casou também muito nova com o meu avô, eles tiveram onze filhos e, numa situação muito difícil também, numa situação de vida muito difícil. O meu avô criava gado. Falando assim parece que era uma pessoa rica, mas ele tinha terra, muita terra, mas a terra não valia nada, porque era uma terra ou para o gado ou para plantação, mas eles não tinham muito estudos, não tinham muito conhecimento, então acabava que não valia muita coisa. Eu sei que a vida deles não era muito fácil e o meu avô era uma pessoa muito difícil. Minha mãe fala, muito por alto, ela nunca se aprofundou muito nisso, que tinha uma relação de violência também, né, que era uma questão de violência, inclusive, contra a mulher, porque a minha avó ali em casa, cuidando dos filhos, tudo, então era uma relação muito difícil, pelo que minha mãe fala. Meu avô morreu jovem, ele morreu com sessenta e poucos anos, ele teve um câncer no estômago e acabou falecendo. A minha avó viveu até os oitenta e seis anos e, assim, morreu bem mais velha, mas a gente não teve convivência, assim, com eles, próxima, de neto e avô. Tinha quando eles vinham, aí eles ficavam um pouco e depois voltavam, a gente tem um pouco essa lembrança de pessoas mais velhas. Quando o meu avô vinha, de vez em quando ele pegava uns pacotinhos, assim, de dinheiro, embrulhava bem o dinheiro e falava para a minha mãe: “Olha, isso é para os netos”. Mas era uma coisa muito... (risos) uma lembrança, assim, muito distante. E a minha mãe conta também que uma irmã da minha avó - isso é uma coisa que eu, volta e meia, pergunto para ela, porque eu queria muito entender, mas ela não lembra mais detalhes - uma tia minha, uma irmã da minha avó, foi... sofreu um feminicídio. Ela foi assassinada pelo marido. E a minha mãe disse que isso não foi... o marido não foi preso, não teve... eu falei: “Mãe, mas como assim?” e ela falou: “Ah, porque, minha filha, lá não tinha lei como tem hoje aqui, como era uma terra muito difícil, as pessoas tinham que lidar com o que era possível lá”. Então, ela disse que lembra, na infância dela, da história da minha, na verdade, da tia dela e minha tia-avó, que faleceu assassinada pelo marido, de uma forma muito triste, muito triste, ela foi... ele botou fogo nela, dentro de casa. Então, uma coisa bem difícil, mas ela não lembra muitos detalhes e, como minha avó já faleceu e meu avô também, os meus tios também não têm muita lembrança, acaba que a gente não sabe muito.


P/1 – E vocês tinham algum costume de família, desde receita... você falou da farofa, da farinha, né? Tinha mais alguma coisa que você lembre, de algum cheiro, algum sabor? 


R – Tem uma coisa que até hoje a minha mãe faz, ela fazia todos os domingos, mas agora ela não faz mais todos os domingos, (risos) porque ela está com oitenta anos, mas ela fazia uma galinha, que a gente, assim, como se fosse quase uma tradição de família, essa galinha cozida no molho da galinha, tem todo um jeito de fazer. Outro dia a gente estava falando, eu e as minhas duas irmãs, assim: “Gente, como é que a gente vai fazer para aprender a fazer essa galinha?” (risos). Ela, minha mãe, ensinou meu pai, na época, também a fazer, minha irmã mais velha que já faleceu também sabia, mas aí eu e minhas outras duas irmãs, a gente não sabe (risos). É uma galinha que tem, assim, toda uma história mesmo, era coisa do domingo, da gente se reunir, da minha mãe ficar ali na beira da pia. Na verdade, antes, não era nem na beira da pia, ela pegava a galinha na granja, ela matava ela mesma a galinha. Eu lembro quando a gente morava - mesmo aqui em São Paulo, em Diadema - num lugar que era meio distante e ela pendurava a galinha na cerca - isso eu lembro de quando eu era criança - até a galinha morrer, depois ela depenava a galinha na água quente, eu lembro disso também, aí depois ela ia partindo e tem um ritual de cortar essa galinha, tem partes específicas (risos) nesse ritual e aí, isso, assim, a minha vida inteira, eu tenho cinquenta e quatro anos e cinquenta e quatro anos a gente, de domingo, a galinha, a gente tem, todo mundo tem essa lembrança. Então, é uma galinha feita com molho, com temperos nordestinos, minha mãe faz com pimenta do reino, muito colorau, tem um jeito todo certo e aí, de uns anos para cá, foi proibido ter granja, né? Porque em Diadema ainda tinha, até alguns anos atrás, então a minha mãe ia de domingo na granja - aí ela já não matava mais - escolhia e o pessoal da granja matava do jeito que ela queria, porque não podia ser pescoço cortado, tinha que ser o pescoço destroncado, eram umas coisas assim (risos) e ela escolhia, levava para casa e fazia. E depois foi proibido ter granja, então ela vai agora num mini frigorífico, que também é lá em Diadema, mas também tem que ter a tal da galinha caipira, não pode ser frango, não pode ser galinha branca, tem que ser galinha vermelha, tem todo uns ‘paranauês’ aí, (risos) para poder fazer esse prato. E, ela faz até hoje, agora não todo domingo, ela faz uma vez a cada quinze dias, mas até hoje, como a gente não pode almoçar mais com ela, por conta da pandemia, o que ela faz: ela continua fazendo a galinha, ela liga para a gente e fala: “Oh, separei um potinho para cada um” e a gente vai lá, com as partes que cada um gosta. (risos) Então, eu adoro pé de galinha e moela, ela manda os pezinhos e a moela (risos) para mim, até hoje ela faz isso e a gente vai lá e busca, porque não dá para comer lá, né? Mas isso é assim: a galinha é uma coisa de ritual para gente, volta e meia a gente fala isso, Deus o livre, quando a nossa mãe se for: “Meu Deus, quem vai fazer a galinha? Como é que a gente vai passar isso?”, porque sabiam ela, meu pai, minha irmã mais velha e agora nós, as mais novas, vamos assim dizer, acabamos não aprendendo. Precisamos aprender. (risos) Precisamos aprender, porque é maravilhosa, quem come diz que gosta muito. (risos)


P/1 – E me conta uma coisa: quando os seus pais decidiram mudar de cidade, houve uma conversa, assim, com vocês? Como foi isso, esse momento?


R – Não teve assim. Eles, na verdade, foram quase empurrados para sair de lá. Porque, como não tinha peixe, a lavoura não tinha, estava seca, o meu avô não tinha como ajudar, porque ele também tinha os outros filhos, cada filho também tinha um monte de filhos, assim, que nem a minha mãe, então era muita gente passando dificuldades junto. Na verdade, meu pai e minha mãe dizem que não teve o que conversar, eles não tinham uma alternativa, eles não tinham saída e o que eles tinham dificuldade era como fazer para poder arrumar dinheiro para passagem para todo mundo, porque eles não tinham essa coisa de terra, lá não valia nada. Então eles se juntaram, meu avô juntou, minha avó juntou, várias pessoas ajudaram, para dar o dinheiro para vir, o meu pai na frente, para conseguir alugar uma casa e arrumar emprego. Porque, assim, as pessoas vinham na época e já vinham com alguém aqui que já sabia: “Olha, tem um emprego”, porque já vinha, já tinha que vir empregado, porque senão não conseguia viver, ia morar na rua. E eles dizem que não teve muita opção, não teve muita discussão. Minha mãe diz que ela e o meu pai falaram: “Vamos tentar, vamos ver o que vai dar, vamos ver o que vai acontecer. Se não der, a gente volta com todo mundo”, porque lá, a família toda ficou lá. Quando eles vieram, essa tia do meu pai não era uma pessoa bacana, ela não ajudou a gente, meu pai veio por causa dela, mas ela acabou não sendo uma pessoa que ajudou a gente. Quem, no fim, ajudou muito a gente foi uma vizinha nossa, que é amiga e irmã da minha mãe até hoje, que foi uma vizinha que ajudou com coisas, né? Até coisas que a gente não tinha: não tinha prato, não tinha colher, não tinha garfo, não tinha essas coisas, não tinha dinheiro para comprar essas coisas. Não deu para trazer isso de lá, até porque lá não tinha quase nada. Então, assim, ela foi ajeitando e ajudando a minha mãe. Minha mãe trabalhou muitos anos como faxineira, lavava roupa, fazia faxina, limpava peixe para os vizinhos, ela fazia muito isso. Eu lembro, na minha infância, tinha o carroceiro da sardinha, que era um senhor que vendia sardinha no bairro e vendia sardinha assim: ele passava... sardinha era uma coisa muito barata na época, então, sei lá, um quilo de sardinha era um real, ele vendia tipo um litro, assim, uma lata. Só que as vizinhas não gostavam de limpar sardinha e a minha mãe sabia limpar muito bem. Então, o que ela fazia? Ela limpava, em troca de eles darem um quilo de sardinha para ela. Ela limpava um quilo, a pessoa dava um quilo; ela limpava outro quilo, a pessoa dava outro quilo. Era assim que ela conseguia fazer as coisas, então, não tinha... e eram dez bocas para sustentar, porque era ela, meu pai e oito filhos. Então, eles tinham muito que se virar, eles tinham muito que tentar conseguir de alguma forma e todos nós trabalhamos desde muito cedo, muito cedo, todo mundo. Então, trabalhava meu pai... trabalhavam os meus irmãos, minhas irmãs trabalhavam de doméstica, olhando... eu trabalhei desde dos dez, onze anos, olhando filho de vizinho, limpando casa, ajudando vizinho a limpar casa, em troca ou de dinheiro ou de comida, ou de alguma coisa que desse para ajudar, porque era muita gente, imagina dez pessoas todos os dias café, almoço, janta, tudo isso. E, na época, é uma coisa muito... hoje tem muitas igrejas, organização, muita organização social, na época não tinha. Não tinha nem Bolsa Família e nem nenhum programa de governo e não tinha também muitas organizações sociais que ajudavam. O que a minha mãe fazia, ela ia numa igreja que dava roupa, roupa usada, tudo isso ela... porque não tinha como comprar roupa para tanta gente. E ela falou que aqui a gente sofreu muito, porque a gente veio numa época que era muito frio, a gente veio em abril para São Paulo, eles falam... não lembro o dia, mas a gente veio em abril e aí, maio, junho e julho foi um dos piores... ela disse que, assim, ia para o quintal da casa onde a gente morava, que era uma casa muito simplória e o balde congelava, assim, o primeiro... a camada de água. Ela falou que era muito difícil, porque não tinha coberta suficiente, não tinha roupa suficiente, não tinha sapato para todo mundo. A gente ia para a escola, isso eu lembro, quando eu era pequena, eu ia de Havaianas e de meia e ela botava um elastiquinho atrás, na Havaianas, para poder segurar a meia. A gente tinha vergonha, mas a gente não tinha muita opção. Então, ela se virava, assim, por isso que eu falo: dentro de tudo que eles tiveram que passar, assim, muito fortes, muito, eles conseguiram, assim, duas pessoas semianalfabetas, sem nenhuma instrução, sem nenhuma orientação, num mundo gigantesco como era aqui São Paulo, sem saber direito o que fazer, como começar. Eu falo que eles fizeram o melhor que eles puderam, né? A gente teve muito problema, muita dificuldade, passamos – nossa! - os piores perrengues da vida, mas diante de tudo que eles enfrentaram, eu acho que eles foram felizes demais.


P/1 – E você lembra qual foi sua primeira impressão ao chegar em São Paulo?


R – Ah, eu lembro que eu fiquei com medo, né? Eu lembro de medo porque, assim, era muito estranho. A gente, lá em Alagoas, minha mãe diz que a gente ficava solto. Porque na roça, no terreiro, uma irmã minha já quase se afogou várias vezes, (risos) porque a gente morava perto do rio. Então, assim, era uma vida muito ali e todo mundo conhecia todo mundo, vizinho, não tinha vizinho perto, assim, mas era nas roças, você andava e ia até a outra roça, não sei o quê e então a minha mãe falou que era uma vida muito solta. Que era muito... e aqui ela tinha muito medo, porque as pessoas falavam também que aqui tinha muita violência, que tinha gente que pegava crianças, muitas dessas coisas. Então, esse medo ela passou para a gente também, (risos) porque ela tinha medo, ela falava: “Olha, não pode ir para a rua, não pode ir para o quintal, não pode ir sozinha, não pode ir não sei pra onde”. Um pouquinho maior, aí eu lembro de ficar com menos medo, mas no começo a gente tinha muito medo, todo mundo, tinha medo de pegarem a gente. A minha mãe falava, o meu irmão mais novo, o caçula, era bem loirinho e ele gostava... minha mãe o deixava com o cabelo bem compridinho e aí, eu não sei, minha mãe colocava na cabeça que alguém queria pegá-lo. Então, ela falava assim: “Toma cuidado, porque o Beto, alguém pode querer pegar o seu irmão, o Beto, porque ele é muito bonitinho, não sei o quê”. A gente brinca com ele até hoje por causa disso. (risos) Tinha uma coisa muito de medo no começo, depois que a gente foi aprendendo. E o duro de tudo, Luiza, é que a gente saiu do sertão, dessa coisa de morar num lugar onde a gente tinha uma coisa de família, quintal e tudo isso e a gente veio para Diadema e, na época, Diadema era considerada a cidade mais violenta do Brasil. Então, assim, a gente não veio para um lugar que era seguro, muito pelo contrário, era um lugar realmente assustador porque, na época, o número de assassinatos em Diadema era gigante, era uma cidade muito, assim, muito violenta, era uma cidade que tinha uma polícia violenta, que tinha todo um sistema de opressão que hoje a gente consegue reconhecer, mas que na época a gente não reconhecia. A gente tinha medo da polícia, a gente tinha medo de tudo, porque a gente era pobre, minha mãe falava isso sempre: “Olha, presta atenção”. Ela tinha uma coisa também da gente andar limpo na rua, (risos) ela falava: “Vocês têm que andar arrumadinho e limpo porque... para as pessoas não acharem que vocês são pessoas de rua, não sei o quê”. Então, tinha uma coisa muito de medo, sabe, deles também, né? De acharem que a pobreza significava a gente não ter direito, não ter acesso e tudo mais. Então, era muito, muito assustador. Eu lembro de muitas coisas, assim, de medo, da gente, na infância, sabe? E lembro dela também, dela e meu pai, mais ela, minha mãe, ela administrava as coisas por conta da falta, da escassez, como se fosse um regime militar, eram dez pessoas. Então, assim, ela tinha que organizar as coisas, a gente nunca - eu lembro até eu ser adolescente - pegava comida no prato, na panela, era a minha mãe que colocava comida no prato para a gente porque, se cada um fosse pegar na panela o que queria, (risos) não sobrava para o próximo, então ela fazia um regime militar mesmo, ela... você podia colocar o arroz e feijão e ela colocava a mistura e, no dia do pagamento - que, na época, era dia dez e dia vinte - eles faziam a compra do mês, quando a gente estava numa situação melhor, quando boa parte de nós trabalhava, ela comprava assim: um chocolate para cada um e um Danone para cada um, um potinho de Danone, ela comprava vários e tinha um para cada um. Ela separava, assim, bem direitinho para cada um e ela falava: “Olha, não pode pegar, esse é seu, esse é da sua irmã, esse é do seu irmão” e por aí vai. Então, a gente foi criado, assim, muito na escassez, ela fazia essas organizações, para poder as coisas funcionarem, senão não dava certo, acho que não teria conseguido, porque tinha muita gente para sustentar, muita dificuldade. Eles tinham, faziam isso para poder conseguir, minimamente, sustentar a família. Meu pai trabalhava, minha mãe chegou a trabalhar naquelas fábricas de costura, que hoje, infelizmente, são os bolivianos que trabalham, mas na época eram as nordestinas, naqueles porões, fazendo roupa, ela passava o dia inteiro ali, ia cedinho, deixava tudo organizado para a gente, ia cedinho para lá, trabalhava o dia inteiro, voltava, cuidava das coisas, tinha uma distribuição de tarefas entre nós, cuidava das coisas e costurava para fora. Ela costurava roupa para fora e, no final de semana, ela limpava sardinha, o tal do peixe, para ganhar outro peixe. Então, por isso que eu falo, eles são verdadeiros vencedores, verdadeiros guerreiros, porque não tinham nenhuma condição, né? O que a vida deu, eles acabaram se virando, dentro das possibilidades do conhecimento, eles não tinham conhecimento, acho que isso era muito difícil também, né?


P/1 – E como era a sua rotina, quando você ainda era criança? Assim, você comentou que você ia para a escola, você trabalhava, queria saber um pouquinho e se tinha tempo para brincar. 


R – Muito pouco. Assim: a gente ia para a escola, teve um período que eu estudei de manhã, no outro período eu acho que estudei à tarde. Então, todo mundo ia para a escola, quem ia para escola. Acho que a partir do sexto ou sétimo ano, não lembro, teve um período que eu fui para a noite e aí, durante o dia, trabalhava o dia inteiro. Eu comecei a trabalhar com carteira registrada com quatorze anos de idade que, na época, podia e antes fazendo esses bicos, né? Ajudando uma vizinha, olhando o filho de uma vizinha, olhando, limpando uma criança, indo fazer compra no mercadinho para vizinhas, em troca de moedinhas, essas coisas. Era uma rotina muito assim: como minha mãe tinha medo da cidade em si, de tudo que representava, então a minha rotina era ir para a escola... eu sempre gostei de estudar, não é a mesma realidade dos meus irmãos, porque alguns gostavam, outros não. Então, eu gostava de estudar, gostava muito de ler e aí, o que eu fazia? Ia para a escola, fazia a lição sozinha, porque minha mãe não conseguia ajudar, a ajudava com a casa, com a comida - porque nessa época ela já não trabalhava mais na costura, nessas fábricas - ajudava com a casa. E aí é uma lembrança bem chata para mim, ela falava: “A gente precisa pensar no que vai comer à noite ou se vai ter comida para todo mundo”, porque chegava todo mundo à noite e, às vezes, não tinha comida e ela me mandava pedir aos vizinhos e eu tinha muita vergonha, muita vergonha e ela falava assim: “Ah, vai lá no fulano, ver se ela pode emprestar um quilo de arroz ou se ela pode emprestar o feijão, não sei o quê”. Isso eu tinha muita vergonha e tinha muita vergonha também de ir à...  Nem sei se era mercadinho que chamava, mas num lugar lá que vendia, tipo um mercadinho e vendia fiado. Então, a gente tinha conta lá também, eram umas coisas, assim, que não eram legais, né? Claro, que a gente também... a gente morava numa rua, numa época que era uma rua de terra e aí, à noite, assim, numa época mais gostosa, onde a gente conseguia uma condição um pouquinho melhor, a gente brincava na rua, de queimada, de pega-pega, brincava com os vizinhos e voltava para casa imundo, nojento, de terra (risos) e ela mandava tomar banho e a gente dormia, assim, era tomar banho e se virar para dormir. Então, tem essas lembranças boas também, de brincar, mas tem as lembranças também de ter que conviver com essa dificuldade, com essa situação difícil. As coisas começaram a melhorar quanto mais gente começou a trabalhar formal, quando mais de nós começaram a trabalhar em fábrica, em empresa, com carteira registrada e aí, quanto mais gente com carteira registrada, nós conseguíamos mais recursos, mesmo que os salários fossem baixos e aí a gente conseguia juntar e pagar a água, pagar luz, pagar aluguel e sobrar dinheiro para comida. Eu lembro que, quando eu trabalhava, tinha o holerite, que era um envelope amarelo, um envelope pardo que a gente recebia, porque as pessoas não tinham conta em Bancos, a gente recebia o dinheiro dentro de um envelope. (risos) Eu sou dessa época ainda! (risos) E aí a gente chegava, no dia do pagamento, todo mundo que trabalhava fora chegava com os envelopes, eu lembro disso, da gente sentar na mesa e a minha mãe... a gente dava o envelope para ela e aí ela tirava, pegava o envelope de cada um... por exemplo, sei lá, dava um pouquinho de dinheiro para mim, para alguma coisa e praticamente todo o dinheiro ficava para a casa, para sustentar tudo que a gente tinha ali. Então, assim, nunca foi tranquilo, nunca foi fácil, nunca foi... era sempre uma batalha, sabe? Sempre uma batalha. Mas eu tenho boas lembranças - mesmo sendo essa batalha, essa dificuldade - de amigos, de brincando, de brincando na rua, de brincando de terra, brincando de queimada, né? Então, isso são lembranças gostosas daquela época.


P/1 – E você lembra do primeiro dia de trabalho com carteira assinada, registrada?


R – Eu lembro. Eu trabalhei no chão de fábrica. O primeiro trabalho foi no final do ano, foi em outubro, novembro e dezembro, não era carteira assinada, mas era num bazar que vendia brinquedos no final do ano. Então, eu fui a vendedora que mais vendi brinquedo. Os donos do bazar eram muito chatos, muito difíceis, me tratavam bem mal, mas, assim, eu fiquei muito feliz, porque eu ganhei dinheiro e o dinheiro deu para a gente fazer um Natal, né, assim, juntando de todo mundo, a gente conseguiu ter ceia de Natal, mas isso já era, assim, tinha quase quatorze anos. Então, era uma época já mais para frente e aí, no ano seguinte, eu consegui um emprego, que uma amiga minha também me ajudou, num chão de fábrica, numa fábrica que fazia brinquedos infláveis, que eram aquelas boias de piscina, brinquedo inflável e eu trabalhava no chão de fábrica, enchendo esses bichinhos infláveis (risos) o dia inteiro, das sete da manhã às cinco da tarde, ficava de pé, era uma torneirinha de ar e você enchia os bichinhos, para ver se eles não estavam furados, né? E no dia seguinte, você ia olhar e via o que não estava furado, você murchava, dobrava, embalava, para poder vender. Eu trabalhei nessa fábrica acho que quatro anos, dos quatorze aos dezoito, dezenove anos, trabalhei bastante tempo. Depois eu saí do chão de fábrica e aí fui trabalhar na recepção dessa fábrica, dessa empresa, porque aí era uma menina, né, jovem e eu gostava muito de trabalhar, eu queria sempre mostrar que eu conseguia fazer as coisas e aí um dos chefes lá falou: “Ah, bota ela na recepção, para atender as pessoas que vêm trazer produtos para consertar” e eu lembro que eu fiquei muito feliz, porque eu ia trabalhar no escritório (risos) e eu ia sair do chão de fábrica, porque no chão de fábrica usava uniforme, bota, aquelas coisas todas e eu ia trabalhar no escritório, do lado da telefonista, que era uma moça que também estava muitos anos lá. E eu lembro que eu não fui bem aceita pelo pessoal do escritório, porque eu era do chão de fábrica, então o pessoal do chão de fábrica achava que eu era metida, porque eu tinha ido trabalhar no escritório (risos) e o pessoal do escritório não me aceitava muito bem, porque eu vim do chão de fábrica. E eu não entendia isso muito direito na época, eu tipo: vamos fazer as coisas, eu trabalhava e assim foi, aí eu saí da recepção, depois eu fui ser auxiliar de vendas de arquivos, né, fazia os arquivos dos papéis lá, do time de vendas e aí fui aprendendo as coisas, fui desenvolvendo e aprendendo as coisas.

P/1 – E você pensava no que você queria fazer quando crescesse? Assim, isso era presente no pensamento?


R – Era. Eu queria muito, muito, muito ser jornalista. Eu tinha muita admiração pelo Hélio Costa que, na época, era jornalista; pelo Carlos Nascimento, eu via aquele pessoal no jornal, eu falava: “Nossa”. Era meio sonho infantil mesmo, eu queria muito fazer jornalismo, eu queria muito trabalhar com notícia na televisão, era sonho de infância. Não deu certo, assim, por um lado, porque depois eu fui fazer faculdade de Publicidade, mas era um sonho, eu tinha muita vontade de trabalhar com comunicação. Gostava muito de ler, muito, adorava ler, lia muitas bobagens no começo, lia fotonovela, quando eu era menor, depois comecei a ler gibi, depois li aquelas revistas que chamava... revista não, aqueles livros que chamavam Bárbara, Bianca, Sabrina, acho que não é da época de vocês, vocês não devem nem saber o que é isso, mas eram uns livros de história de romance e as histórias eram quase sempre as mesmas (risos). Eu li, sei lá, uns quinhentos desses livros, porque você comprava e depois você podia trocar, trocava com outras pessoas e eu gostava muito. Então, sempre gostei de ler e tinha muita vontade de trabalhar com isso, com comunicação. Era meio sonho de infância.


P/1 – E quais são as suas lembranças, assim, da escola?


R – Da escola, eu tenho lembranças até que boas da escola que eu estudei, estudei na mesma escola. No primeiro ano estudei numa escola um pouco distante, porque no primeiro ano minha mãe não conseguiu a escola perto de casa, mas foi só no primeiro ano. Eu lembro do nome da minha professora de primeiro ano, que chamava Gema Terezinha Malta, eu não esqueço do nome dela até hoje, porque ela era muito doce, muito gentil. Eu lembro de uma coleguinha que foi muito gentil comigo, que chamava Magnólia, no primeiro ano. Então, assim, eu lembro... eu tenho muito boas lembranças da escola estadual, pública. Depois eu fiz aí a minha vida inteira até o terceiro ano do ensino médio, que na época era o colegial, eu fiz nessa outra escola que eu fiquei a vida inteira e que passo por lá volta e meia, quando vou na casa da minha mãe, eu passo na frente da escola, que é a Escola Estadual Niceia Albarello Ferrari e, assim, eu tenho ótimas lembranças: de amigos, de pessoas, assim, lembranças gostosas de aprendizado, tenho lembranças, assim, de professores e professoras muito bons, muito bons. Uma professora que ela, do bolso dela, fazia tipo uma competição, que o aluno que tirasse a melhor nota, ela dava um colarzinho, devia custar cinco reais o colarzinho. (risos) Era um colarzinho dourado, que a gente achava que era de ouro (risos), mas não era. E ela fazia, assim, para incentivar todo mundo, né, ela tirava do bolso dela e fazia meio uma competição, aí ela falava: “Olha, quem tirar a melhor nota...” e eu lembro que eu ficava muito, assim, ansiosa porque eu queria tirar sempre a melhor nota. (risos) Então eu tenho ótimas recordações, assim, não só dos professores, mas da escola. Na minha época tinha uma diretora que era muito rígida, muito rígida, mas não era rígida de um jeito ruim, ela era rígida, assim, de ajudar: “Oh, você tem que estudar, estudar vai ser bom”, botava todo mundo na fila, fazia todo mundo levantar quando ela entrasse na classe, fazia todo mundo fazer as coisas direitinho, comer a merenda no horário, então, era muito organizada. Hoje eu consigo entender; na época a gente brincava, a gente falava: “Ai, meu Deus, se esconde, que vem a Dona Sir, porque ela era muito brava. (risos) Então, era muito... eu tenho lembranças maravilhosas da época da escola, foram as lembranças mais felizes, assim, de estar dentro daquele ambiente ali, de conhecer outros amigos e poder aprender. Nossa, os professores eram ótimos, né, eram ótimos, ótimos, ótimos, pessoas muito incríveis. 


P/1 – E como seguiu sua formação? Você continuou em Diadema?


R – Continuei em Diadema. Assim, eu morei até eu casar. Eu casei depois, com vinte e seis anos, eu morei em Diadema a minha vida inteira com minha família. Eu queria fazer faculdade, só que eu não tinha condição de fazer uma faculdade pública, porque eu não conseguia. Trabalhava à noite... trabalhava de dia e estudava à noite e ainda fazia alguns bicos, algumas coisas, eu fazia doces para vender para ajudar a pagar a faculdade. E aí, eu prestei vestibular em escola particular, passei na Anhembi-Morumbi na época, que era uma escola, uma faculdade que estava começando, era pequena ainda e aí eu passei, só que eu não tinha dinheiro para pagar a matrícula, porque era a mensalidade e matrícula juntos no mesmo mês e aí não tinha condição. E não tinha nenhum programa na época, não tinha Prouni, não tinha Fies, não tinha nada disso, o que a gente... minha mãe comentou com uma vizinha que morava na frente da casa da gente e essa vizinha falou: “Mas o que você pretende fazer?” e não dava, eu conseguia pagar a mensalidade, mas eu não conseguia pagar a matrícula e aí ela falou: “Não, eu vou ajudar a Ana” e aí essa vizinha emprestou o dinheiro, mas depois ela não quis receber de volta, muito fofa ela. Ela emprestou o dinheiro e aí eu paguei a matrícula e depois fui pagando a mensalidade, mas eu pagava a mensalidade juntando dois salários, porque não era só para a faculdade, o salário era para comer, para pagar ônibus, para pagar todas as coisas, que tinha que se virar. Eles, meu pai e minha mãe, não tinham condição de pagar. Então, eu tinha que juntar dois meses para pagar uma mensalidade, tanto que eu saí da faculdade depois que eu terminei os quatro anos, eu saí devendo um ano e aí eu paguei depois que eu terminei a faculdade, que eu terminei de pagar. Então, não era um processo muito simples não, mas fiz, fiquei muito feliz quando eu passei para Publicidade, fiquei feliz que eu passei para essa faculdade. Depois que eu terminei o colegial eu ainda fiquei um ano, pensando como é que ia fazer, como é que eu ia juntar dinheiro para fazer as coisas, mas foi muito interessante, assim. E eu lembro um episódio que, para mim, ficou bem-marcado da faculdade, que uma vez eu cheguei no pátio lá da faculdade e tinha um cartaz gigantesco escrito “lista dos devedores”. (risos) Na época, eles podiam fazer isso, né, não tinha código de defesa do consumidor nem nada, eu entrei na faculdade em 1988 e tinha uma lista dos devedores no pátio, eles faziam essa lista, a primeira vez que eu vi essa lista eu fiquei muito chateada, eu fiquei com vergonha, porque eu fiquei pensando: “Puxa, que feio, meu nome vai estar lá na lista dos devedores” e aí depois eu vi que a lista era muito grande, aí eu falei: “Ah, então tem muita gente, está tudo certo”. (risos) Eles faziam a lista dos devedores e quem devia não recebia a folha de prova bimestral, você tinha que... seu nome era chamado e, se você estava devendo, você tinha que buscar a folha de prova na tesouraria, porque você estava devendo. Era horrível, um negócio absurdo, assim, expor as pessoas à situação vexatória. E meu nome começava com A. A primeira vez que isso aconteceu eu fiquei muito, assim, vermelha, envergonhada, nossa, eu fiquei muito mal, mas aí, assim, quando eu vi que me chamaram, mas chamaram mais um monte de gente para buscar a folha de prova, eu falei: “Ah, tá bom”. Aí, no fim, virou até uma tiração de sarro nossa, que eram os devedores que iam buscar a prova na tesouraria, mas era muito feio, muito ruim. Então, a gente tinha que enfrentar isso, porque não tinha programa tipo Fies, Prouni e bolsas, essas coisas não tinha. Fazer faculdade naquela época era privilégio do privilégio do privilégio do privilégio, era só quem ou conseguia estudar num colégio particular bom e fazer uma faculdade pública, o que é um contrassenso, ou para quem realmente tinha recurso. Eu não tinha nenhuma das duas coisas: eu tinha estudado numa escola pública, não tinha recurso para pagar uma faculdade particular, então, você tinha que ter muita determinação para fazer, se não a maioria dos meus amigos não fez faculdade, a maioria dos meus amigos foi procurar emprego, né, foi se concentrar em trabalhar. Gente muito bacana, com muito potencial, tudo, mas não tiveram condição, né? Então, é bem difícil (risos).


P/1 – E qual foi, assim, sua primeira impressão ao chegar na faculdade? Era um ambiente diferente do que você estava acostumada?


R – Ah, eu achava que as pessoas eram ricas. (risos) Eu achava, assim, que só eu tinha uma situação ruim, difícil, eu via aquelas pessoas bem-vestidas, bem arrumadas, pessoas super ajeitadas, eu achava que as pessoas eram ricas. Depois eu entendi que não, que era muita gente com uma situação talvez não tão difícil quanto a minha, mas em situações também de batalha, de luta também para poder conseguir estar ali, mas a primeira impressão foi muito de sonho, assim: puxa vida, né, estou conseguindo entrar naquele pátio, aquele ambiente ali, com um monte de gente que já tinha meio aqueles estereótipos de Publicidade, gente com cabelo diferente, com cabelo colorido, gente com roupas legais, que era o estilo que, na época, achavam que era cool, né? Então, eu achei aquilo tudo muito bacana, muito legal, a realização de um sonho. Fiquei muito feliz de poder fazer a faculdade e poder estar ali. Depois eu percebi, né, que as pessoas realmente, também como eu, tinham dificuldades, as pessoas realmente estavam tentando superar seus desafios, cada um tinha uma batalha específica e eu tenho amigos da faculdade, uma turma, até hoje. São mais de trinta anos de formados e nós temos... até hoje a nossa turma se reúne, assim. (risos)


P/1 – E como foi a formatura, você teve? Tinha que fazer TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]?


R – Tive. Nós tivemos, tivemos o grupo de trabalho, TCC, que deu muita briga, (risos) ficamos de mal, depois voltamos. Então, assim: nosso TCC era criar uma campanha publicitária, na época nós criamos de uma... uma das meninas trabalhava na Sharp e aí nós criamos uma campanha publicitária para uma câmera da Sharp, não esqueço até hoje, era uma câmera que chamava VLL170B (risos) e aí o nosso grupo de trabalho eram cinco, né, nós fizemos o TCC. Foi super duro fazer esse TCC, assim, porque a gente tinha que trabalhar, todo mundo, a semana inteira. A gente se reunia de sábado, nem todo mundo estava com a mesma disposição, com a mesma vontade, ritmos diferentes, pessoas diferentes. A gente fez, foi nosso TCC, acho que a gente tirou nota... sei lá, nove e pouco, foi super bem avaliado. A gente tem fotos, assim, a nossa turma é muito unida, tanto do grupo do TCC, quanto do outro grupo, a gente tem três grupos que se juntaram e são amigos até hoje, de três grupos diferentes de TCC. Então, a gente tem uma relação muito bacana. A formatura, para mim, teve algumas simbologias difíceis, né, porque, de terminar, de se formar, foi muito bacana, mas no dia da formatura minha família não pôde ir, porque minha mãe tinha um problema de saúde mental, ela na época foi diagnosticada com esquizofrenia. Não é para menos, com uma situação de vida toda difícil dessa e ela teve uma crise, né, de... enfim, uma crise muito forte e aí a gente buscou ajuda espiritual na época e aí todos... toda a minha família teve que ficar com ela no dia da minha formatura, que estava previsto que as pessoas iam e aí ninguém pôde ir, eu fui à minha formatura sozinha. (risos) Então, isso foi bem difícil. (risos) Mas eu, assim... já foi pior lembrar disso, hoje faz parte (risos), faz parte.


P/1 – E na época você trabalhava onde?


R – Na época eu trabalhava já na Autolatina, porque foi também uma mega conquista, eu conseguir trabalhar numa multinacional, porque até então eu tinha trabalhado em empresas lá em Diadema mesmo, né? Empresas legais, tudo, mas empresas lá em Diadema. E aí eu tinha entrado, foi uma decisão também bem dura, foi uma decisão no terceiro ano de faculdade, porque eu passei no estágio na Autolatina, só que era para ganhar menos do que o que eu ganhava na empresa que eu trabalhava, que era uma indústria de  conexões de aço, mas aí eu tomei a decisão, hoje eu considero que foi uma das decisões mais difíceis, mas muito acertada, porque eu queria entrar na área de comunicação e era um estágio na área de Marketing e aí eu entrei na Autolatina, eu fiquei super feliz, porque era uma coisa meio de sonho, né, trabalhar numa empresa grande, numa multinacional, foi muito simbólico. E aí eu fiquei nessa empresa, eu lembro de muito, assim, não me senti parte, sabe? Não me senti inserida dentro daquele ambiente. Eu tive muita dificuldade de ajuste dentro da organização, porque eu não tinha o perfil que a maioria das pessoas lá tinham. Eu era de uma família humilde, tinha estudado em escola pública, tinha feito uma faculdade que não era de primeira linha e eu não falava inglês. Então, eu ouvia isso o tempo inteiro, como sendo impeditivo, sabe? E, assim, eu sentia que as pessoas me tratavam diferente, eu sentia isso em tudo, nas ações, nas coisas. Então, não foi um processo fácil de adaptação, mas no ano que eu entrei como estagiária foi... eu fui a única estagiária efetivada, naquele ano. Porque a minha forma de combater isso, o que eu nem entendia que era preconceito, eu nem sabia elaborar isso, a única forma que eu entendia, eu falava: “Eu vou trabalhar bastante, mostrar que eu sei fazer as coisas, vou estudar bastante, vou entender das coisas que eu estou aqui, para poder me sair melhor, porque é o único jeito, eu não tenho como mudar a minha história e o meu passado, né?” E aí foi o que eu fiz e naquele ano... eles não efetivavam direto como funcionário, mas me efetivaram como terceira, que era terceirizada, na época, nem existia muito bem esse conceito, por uma empresa de pesquisa, eu fui a única estagiária terceirizada naquele ano. Então, foi muito bacana, fiquei lá na empresa por mais três anos e aí eu pedi demissão, para trabalhar numa agência, porque eu queria muito entender o que era o universo de uma agência de propaganda, uma agência de comunicação. Fiquei um ano nessa agência e aí me chamaram de volta, aí eu voltei como funcionária mesmo, CLT, bonitinho, como funcionária da Autolatina na época. (risos)


P/1 – E como você entendeu o que você tinha vivido, experienciado preconceito?


R – Porque as coisas não eram assim: eu via para as outras pessoas, que tinham vindo de escola boa, que tinham feito faculdade de primeira linha, eu via que as coisas eram mais fáceis para elas. Eu ficava com muita raiva, não vou falar que era uma coisa simples não, eu tinha dificuldade para elaborar aquilo. E várias vezes conversava com o meu chefe, eu falava: “Mas por que eu não posso participar desses processos?”, porque tinham processos seletivos internos, para vagas melhores ou para posições melhores. Na época, eu lembro de um processo de trainee que teve, todo ano tinha uma turma de trainee e os trainees era uma coisa, assim, como se fosse, sabe, eram os reis que entravam na empresa. E aí eu fui questionar a minha chefe, o RH, eu falei: “Eu não posso entrar no programa de trainee?” E aí, assim: “Como você quer entrar no programa de trainee? Você não fez uma faculdade de primeira linha, você não fala inglês, então: você não tem boa formação”, mas eles falavam isso na minha cara, não era uma coisa disfarçada não. Aí eu fui ao RH e eu lembro que conversei, na época, com o cara de RH, um gerente, eu falei para ele: “Mas eu não acho certo vocês não deixarem eu nem participar”. E aí eu, tolamente, né, porque eu não entendia qual era a regra do jogo, falei: “Não, eu quero participar”. E eu acho que eles ficaram com receio, porque eu falei que eu queria participar, eles me deixaram participar do processo, mas obviamente eu não passei, né, porque eu não tinha os requisitos que eu ouvia o tempo inteiro: “Ah, você não estudou em escola de primeira linha. Ah, você não fez faculdade de primeira linha, blá, blá, blá, não fala inglês”. Então, assim, aquilo foi me deixando realmente bastante chateada, só que eu não elaborava o preconceito, não entendia o preconceito, eu não conseguia falar sobre isso para as pessoas: “Ah, vocês estão sendo preconceituosos”. Eu falava de injustiça, eu falava: “Isso não é justo, eu estou aqui, eu tenho um ótimo desempenho, eu faço tudo que é exigido do meu cargo, eu entrego muito mais do que o que vocês me pedem e vocês não me dão acesso e condição a uma coisa que eu gostaria, para ter uma carreira mais... conseguir outros passos na minha carreira”, mas não dava certo, não andava. E aí eu ficava muito chateada, aquilo me consumia, porque eu via outras pessoas com menos capacidade, com menos entrega, mas porque tinham os requisitos que eles queriam, tendo carreiras mais rápidas do que a minha. Então, era tudo muito complicado, muito difícil. Eu lembro que teve um chefe que falou para mim: “Às vezes, você tem que se conformar com as coisas, Ana”. Eu falava: “Não, mas porque eu tenho que me conformar? Eu tenho capacidade, eu não estou... se não tivesse capacidade, está tudo bem, mas eu tenho” e ele falou assim: “Meu, você briga muito, você fica...”, como se o fato de eu querer melhorar fosse alguma coisa que eu não devesse querer, sabe? Então, assim, não foi um processo fácil. O que eu fiz para tentar superar isso e eu fiz isso também não elaborado, eu fiquei refletindo assim: “Como que eu faço para poder eliminar esses fatores que me bloqueiam nas coisas, para eu poder desenvolver melhor minha carreira?” Aí o colégio não tinha como mudar, o colégio não tinha como fazer, aí ele... a questão da faculdade, a solução que eu encontrei foi fazer uma pós bacana, na época, eu fiz pós em Marketing na ESPM. Guardei todo o dinheiro, assim, quase tudo, para poder fazer essa pós, fiz porque a ESPM, na época, era uma faculdade super considerada na área de Comunicação e Marketing e foi o que eu, na minha cabeça, falei: “Tá bom, eles querem marca, então vou lá. A faculdade que eu fiz eles não consideram a melhor, vou fazer uma pós em Marketing na ESPM”. Fiz, eu falei: “Bom, então isso... vamos tirar esse tiquezinho aqui”. Um outro que era muito difícil era o inglês porque, em escola pública, imagina, vem de família pobre, escola pública, você não aprende inglês, você fica aprendendo ano após ano o verbo To be. Então, não é uma coisa que é muito fácil, eu tinha muita dificuldade de aprender inglês, muita, eu não tinha paciência, não tinha disciplina, não conseguia, aprender inglês adulto é muito difícil. Aí eu fiz um curso numa escola simples, que era o CNA, era o que eu conseguia pagar, tinha gente que era meu colega e falava assim: “Ah, mas você tem que fazer num Alumni, você tem que fazer na Berlitz”, eu falava: “Mas eu não tenho dinheiro, fofinho, para fazer nem na Alumni e nem na Berlitz. Eu tenho dinheiro para fazer CNA”. E aí eu fiz durante três anos, só que não evoluía, o inglês não evoluía, até que na época, ganhei uma viagem para Orlando, fui sorteada, ganhei uma viagem para Orlando, fui lá, mas não aprendi nada, o inglês não evoluía, não andava e aí eu tive a ideia, falei assim: “Meu...”, eu já estava casada, tudo, não tinha minhas filhas e eu falei para o meu marido, na época: “Eu preciso tirar esse negócio da frente, eu preciso aprender inglês”. E aí eu fui ver um curso fora, fiz a mesma coisa: juntei dinheiro, né, cara e coragem, consegui uma casa de família lá em Londres, adulta, né, eu fui fazer um intercâmbio com um monte de adolescente, eu era adulta (risos), então era um negócio muito doido. E aí pedi uma licença não remunerada no Banco Autolatina, que eu trabalhava na época, fui falar com minha gerente, falei com meu diretor, eu falei: “Olha, eu sei que não é uma coisa normal, mas eu queria muito tirar essa questão da frente, eu queria aprender inglês” e aí eles permitiram que eu tirasse a licença não remunerada, aí depois eu pedi, ainda, para esse meu diretor, eu falei: “Você não pode, além da licença não remunerada, arrumar um estágio para mim na Volkswagen de lá, né, em Londres?” E ele mexeu os pauzinhos lá dele e conseguiu, daí eu fiz - acho que foram quase três meses - um curso de inglês, todo dia de manhã, eu fazia das oito a uma lá, em Londres e à tarde eu fazia três vezes por semana um estágio na Volkswagen, que ficava a uns quarenta quilômetros... quarenta minutos de Londres. Eu ia para lá e trabalhava para aprender melhor o inglês. Foi, assim, a melhor coisa que eu fiz na vida. Comi lanche durante três meses, assim: eu comia refeição na casa de família, que era de manhã, a parte da manhã que estava incluído e à noite e durante o dia eu tinha que me virar. Então, como eu não tinha muito dinheiro, eu fazia o que era possível. Comia o fish and chips lá dos londrinos, (risos) aquele peixe no jornal, comi várias vezes (risos) e falei: “Não, eu tenho que me virar”. E foi isso que me ajudou muito na carreira. Quando eu voltei a trabalhar, fiquei mais um tempo, aí consegui uma promoção, depois eu já fiquei, um tempo depois, grávida da minha primeira filha, eu fui promovida e as coisas começaram a caminhar um pouco melhor. Não vou dizer também que foi fácil, porque uma pessoa lá, um trainee que vinha desse processo levava um ano, dois anos pra conseguir um cargo executivo, eu levei dez anos, durante esse processo todo. (risos) Então, não era uma coisa fácil, mas era o que era possível.


P/1 – E como você conheceu o seu marido?


R – Ah, isso tem uma história muito legal: eu conheci o meu marido no cursinho para a faculdade, porque antes de eu entrar na primeira faculdade, eu fiz três meses de intensivão. Eu não tinha dinheiro para fazer um cursinho o ano inteiro, porque não dava, aí tinha um programa que eles chamavam de ‘intensivão’, que você fazia de outubro até dezembro, até o começo de dezembro, para dar um reforço no que você sabia do ensino médio, para você tentar uma faculdade e aí eu fui fazer o Etapa, na Ana Rosa. Consegui, juntei, fiz todos ao ‘paranauês’ lá, ainda consegui desconto, fiz um monte de coisa e aí, no primeiro dia de aula, não sei se foi no primeiro dia de aula, eram aquelas classes grandes, gigantes e fui eu e uma amiga. Essa amiga queria fazer cursinho, porque ela queria arrumar um namorado (risos) e eu queria fazer cursinho porque eu queria entrar na faculdade, tinha muita vontade de entrar na faculdade. No fim, ela não arrumou namorado e eu arrumei namorado no cursinho (risos) e aí foi muito legal, porque um dia eu cheguei atrasada para a aula e eu estava com uma mochila e eu estava com um pacote de absorvente na mochila, (risos) eu estava num... eu estava menstruada e aí eu fui me sentar e, no que eu fui me sentar, a mochila estava aberta e o pacote de absorvente caiu no chão. (risos) Meu marido diz que ele não lembra direito disso até hoje, ele fala que ele olhou, mas ele não olhou como eu acho que ele olhou, ele virou para trás e tinha um monte de absorvente caído no chão (risos) e era eu tentando botar os absorventes dentro da mochila. Ele olhou, assim, deu aquela risadinha sem graça, né e aí... enfim, aí a gente passou a conversar, falar um oi, dar umas risadinhas bestas e um mês depois a gente estava namorando, assim. A gente começou namorar no cursinho, ele era bem quietinho, eu também era mais quieta, aí a gente começou a falar um com o outro e um dia a gente foi assistir uma peça de teatro, que fazia parte do cursinho também, que era para a gente aprender sobre cultura, tudo e a gente começou a namorar lá. E, de lá para cá, são trinta anos, quase trinta anos, meu Deus, (risos) de casado e uns trinta e poucos juntos. (risos)


P/1 – E como foi o casamento de vocês?


R – Ah, foi supersimples. A gente se casou na igreja, assim: a família dele também católica, que nem a minha família, queriam que casasse na igreja. A gente também estava naquele começo de vida de não ter recurso, como a gente se vira? A gente comprou um apartamento financiado no BNH, maior bobagem que a gente fez na vida (risos). Na época era BNH, não lembro o nome, que era um sistema de habitação, que era o apartamento que você comprava pra financiar em trinta anos, era uma coisa de doido (risos). A gente comprou num bairro muito simples aqui da zona sul de São Paulo, mas aí foi entregue, foi o nosso começo de vida. A gente se casou numa cerimônia, numa igreja aqui da Vila Mariana, uma igreja que chama São Francisco, com a família junto. Assim, não ia fazer festa, no fim meu irmão ajudou, contratou um buffet, aí o outro levou o som, aquelas coisas bem de improvisado, né? (risos) A gente alugou um salão, aí veio gente da minha família, gente da família dele, alguns amigos nossos. Foi bem gostoso, tinha umas cento e poucas pessoas, nada grandioso. Eu aluguei o meu vestido de uma amiga também, que morava no interior e que é minha amiga e comadre até hoje. Então, assim, foi tudo muito simples, mas muito cheio de simbologia para a gente. Eu me casei com vinte e seis anos, a gente se casou cedo, os dois, nós temos a mesma idade, a gente casou muito cedo, também batalhador ele, eu brinco que ele é mais playboy do que eu, (risos) ele fica bravo, (risos) porque ele é de uma família também simples, tudo, mas com uma jornada menos desafiadora, vamos assim dizer, do que a minha. (risos)


P/1 – E, Ana, como foi se tornar mãe? Como foi sua gravidez?


R – Tem uma história bem triste antes, que é uma história, que hoje já consigo falar com mais tranquilidade, mas eu tinha muita dificuldade de falar. Eu tive uma primeira gravidez com trinta e cinco anos, a gente esperou bastante para ter filhos, nos casamos com vinte e seis e eu fiquei grávida da minha primeira filha com trinta e cinco. Ela faleceu, porque nasceu prematura, de sete meses, seis para sete meses. Foi um processo muito difícil, foi uma gravidez muito difícil, porque foi uma gravidez de alto risco, eu fiquei em casa três meses de cama, não podia sair, só podia levantar para ir ao banheiro, porque eu tive uma gravidez de altíssimo risco, foi um processo muito duro, porque... ai, ainda tenho dificuldade de falar nisso. (risos) Eu fiquei quase trinta dias no hospital no último mês de gravidez dela, para poder conseguir com que ela ficasse mais tempo. Ela nasceu e faleceu dia 6 de agosto de 2001, eu não pude ir ao velório, nem no enterro dela. (choro) Vixi, está vendo? (risos). Isso tem dezenove anos e, mesmo assim, ainda emociona. Foi bem difícil. E aí eu tinha um problema de saúde que, na época, a gente não sabia direito o que era, aí o médico falou: “Olha, é melhor vocês esperarem, então, não precisa evitar, vai durar, vai esperar mais uns dois, três anos para você ficar grávida e vai tocando a vida”. Foi um processo duro, porque eu estava de licença, eu tive que sair de licença maternidade porque, como ela nasceu, tudo, teve todo processo jurídico legal, enfim, foi uma etapa muito dura na minha jornada e aí, para nossa surpresa, ela nasceu e faleceu dia 6 de agosto, em dezembro eu fiquei grávida de novo, (risos) assim, sem muita expectativa, né, que ia ficar grávida com essa rapidez, porque o médico falou: “Olha, a chance de você ficar grávida rápido não vai ser tão rápido assim” e aí a Daniela, que é minha filha hoje tem dezoito anos, nasceu no dia 18 de agosto do ano seguinte, também no mês de agosto do ano seguinte, também foi uma gravidez de risco, também passei por algumas dificuldades na gravidez dela, mas felizmente consegui levar até os nove meses e aí está uma moça, (risos) com dezoito anos, muito maravilhosa. E a Daniela hoje, enfim... aí eu queria muito, eu insisti muito na época com o meu marido, porque eu queria muito ter dois filhos, duas meninas, dois meninos, duas crianças, eu queria ter dois filhos e passou um tempo depois que a Daniela nasceu, eu comentei com o meu marido: “E se a gente adotar?” Porque eu não queria mais ter gravidez, porque eu falei: “Eu não dou mais conta, meu organismo já não dá conta disso”, ele falou: “Vamos”, eu falei: “Nossa, vamos?”, ele falou: “Vamos”. (risos) Eu falei: “Vamos pensar um pouco”. Aí passou um tempo, uns meses, eu falei: “Você está no ‘vamos’ ainda?”, ele falou: “Estou” e aí nós fizemos o processo para entrar na fila de adoção, nós fizemos processo de aprovação, tem toda uma documentação, entrevista, tudo mais e entramos na fila de adoção. Na época, a Daniela tinha três anos, acho que não tinha nem três ainda e a gente achou que era rápido, a gente falou: “Ah, a gente vai entrar na fila e vai ser rápido” e aí não foi, né, demorou dois anos e meio para chegar a nossa vez na fila. E aí um dia ligaram do Fórum, a gente ficou muito, muito, muito emocionado, chegou nossa segunda filha, que é a Evelyn, que hoje tem treze anos, na época ela chegou com dez meses, era assim uma “pitchutchuca”. Eu lembro que a psicóloga do Fórum falou: “Olha, Ana...” - ligou e falou: “... chegou sua vez na fila, sua e de Luciano, nós temos uma menina, chama Evelyn, ela tem dez meses e ela pesa nove quilos (risos) e eu lembro: “Nossa, que fofinha!” (risos) E aí a gente fez o processo todo, foi muito emocionante para a gente, foi muito forte, assim, esse processo de conhecer a Evelyn, de conhecer a história dela. Foi muito emocionante, porque o Fórum ligou na quarta-feira, na quinta-feira a gente foi lá conhecer a história e na sexta-feira de manhã, fomos conhecer a Evelyn no abrigo e à tarde a trouxemos para casa. (risos) De quarta-feira para sexta-feira foi uma loucura. E a gente não tinha - porque na época a Daniela já estava com cinco anos - berço mais, a gente não tinha nada de bebê e tivemos que correr atrás de tudo na sexta-feira, assim, enlouquecidamente. Foi muito bacana, assim, porque ficamos num vai para lá, vem para cá, corre com tudo e a Evelyn veio para casa no dia 17 de outubro, numa sexta-feira, foi um dia muito simbólico para a gente, ela estava com dez meses, uma gordinha, fofinha e hoje ela está com treze anos, uma ‘pirulona’, mais alta que eu, ‘magrelona’. (risos) E, enfim, foi, assim, bem importante, bem simbólico para a gente também.


P/1 – E no nascimento da Daniela, que eu imagino que foi um nascimento de se tornar mãe também, como foi esse momento? Como foi levá-la pra sua casa? Como foi sentir todas essas emoções?


R - Foi muito assustador no começo, (risos) porque eu tinha medo de tudo, né? Eu tinha medo de pegá-la no colo, tinha medo de machucar, tinha medo de dar banho. Quem deu os primeiros banhos foi meu marido. (risos) Quem deu os primeiros banhos foi ele, ele falou assim: “Não, vamos aqui juntos”. Quando ela nasceu foi muito forte, ela nasceu num domingo, às nove e cinco da manhã, foi programado por conta da gravidez de risco, então teve que ser uma cesariana, não dava para ser um parto normal, assim, ela nasceu supergrande, com quatro quilos. Foi aquela coisa de ser mãe, né, que é um misto de sentimentos: você tem muita alegria, mas você começa a ter um medo danado, é uma coisa maluca, não sei porque você começa ter um medo danado, você tem medo de tudo, você tem medo de machucar, você tem medo de você morrer, você tem medo de um monte de coisa, então é um misto de sentimentos muito... e foi muito, muito, muito forte quando ela chegou em casa, né, quando a gente chegou com ela em casa, porque também, querendo ou não, lembrava da outra situação, que eu cheguei em casa sem ninguém, então foi bem forte. A gente... no começo o Luciano ficou comigo durante quase trinta dias, porque ele tirou férias, foi muito bom. No primeiro dia que ele voltou a trabalhar eu chorei o dia inteiro, (risos) eu falava: “Meu Deus, eu não vou conseguir sozinha”. (risos) Mas foi muito, assim: ser mãe, para mim, é uma das melhores coisas da minha vida, assim, ser mãe das duas. Mãe em todos os sentidos, mãe da Evelyn, mãe da Dani, para mim não tem coisa melhor na vida. Não sei se eu sou a melhor mãe para elas, mas eu sei que eu adoro ser mãe delas. (risos)


P/1 – E você lembra de alguma história marcante com as duas, assim, tem algum momento que vocês gostam de viver juntos, alguma atividade?


R - Elas gostam muito de ficar na... assim, no espaço aberto, no sol, gostam muito de praia, né, assim, aquela coisa do mar. A Evelyn, quando era pequenininha, assim, mexer as perninhas, a Dani também mexer as perninhas, fazer aquelas brincadeiras na areia, né, de estar... corre atrás das ondinhas, se joga, não sei o que nas ondinhas, (risos) isso é uma das coisas que a gente, inclusive, está sentindo muita falta, porque não pode fazer isso há mais de um ano. Lembro muito: a gente morava numa casa com quintal e a gente comprou uma piscininha, né, a Dani tinha cinco e pouco, a Evelyn ainda era um bebezinho, tem umas fotos lindas dessa época, no quintal com grama e a gente botou aquela piscininha Regan ali, elas ficavam brincando, uma do lado da outra, dentro da piscina, a gente em volta. Eu, Luciano, às vezes, as irmãs do Luciano ali com a gente. Muito gostoso essa convivência das duas. Nem sempre foi pacífica, né, porque são irmãs, (risos) como todos os irmãos brigam volta e meia, mas é muito gostoso ver a relação de brincar ao ar livre, de sair. A gente gosta muito, gostava, ainda gosta, mas não dá para fazer, de ir num parque que fica aqui perto, que é o Parque do Ipiranga, que tem o Museu do Ipiranga, que as pessoas conhecem mais o museu, mas atrás tem um parque, um parque mesmo, com lugar para criança brincar e a gente gostava muito de lá, muito, com as duas, muito. Então, a gente olhava ali, porque o Museu do Ipiranga, a parte da frente é super bonita, atrás tem esse parque com parquinho e tudo mais, lugar para andar de bicicleta, de skate e do outro lado tem aquela área superaberta, que tem uma pista gigante ali, onde tem também área dos cachorros. Ali é o lugar que é muito, muito simbólico pra gente, que a gente gostava muito de ir. Agora temos um pouco de medo ainda, por conta da pandemia.


P/1 – E na época que vocês tiveram a Daniela, você ainda estava trabalhando na multinacional?


R - Ainda estava trabalhando, eu trabalhei lá dezoito anos, eu fiquei lá dezoito anos. Eu entrei como estagiária, depois eu fui efetivada como terceirizada, depois eu saí durante um ano, depois eu voltei e ao todo eu fiquei dezoito anos lá, quando eu pedi demissão em 2007. A Daniela tinha cinco, foi em 2007, em dezembro eu pedi para sair, eu tinha a Daniela, mas não tinha vindo a Evelyn ainda, eu estava na fila de adoção. A Evelyn veio em 2008, eu já tinha saído de lá, tinha trabalhado uns meses numa outra organização, que também não gostei e aí, em 2008, outubro de 2008 veio a Evelyn, aí eu comecei a ser empreendedora e aí fiquei. (risos)


P/1 – E quando o empreendedorismo começou a fazer parte da sua vida?


R – Com a vinda da Evelyn, na verdade, assim. Eu, na verdade, estava muito infeliz no ambiente corporativo, nessa multinacional, eu já tinha uma consciência mais elaborada do processo discriminatório, né e tudo mais e a discriminação não passou a ser mais a questão da faculdade, nem da língua e passou a ser o fato de eu ser mulher. Eu era a única mulher executiva, durante muito tempo, tinha que superar muito mais desafios, eu tinha que provar muito mais o tempo inteiro e isso cansa! A gente não tem saúde emocional para ficar superando o tempo inteiro, então aquilo cansava demais. Eu trabalhava muito, eu continuo trabalhando muito hoje, mas eu não tinha a flexibilidade de tempo e de horário, então eu ia para lá, ficava lá, às vezes, voltava para casa nove, dez horas da noite e eu já não enxergava mais propósito nem nada, eu estava muito cansada, mentalmente, fisicamente e tudo mais, aí eu pedi demissão, não sabia se eu ia empreender, eu ainda fui trabalhar numa outra organização, fiquei seis meses, sete meses ao todo nessa outra organização e foi aí que eu realmente decidi, que eu falei: “Meu, acho que eu posso tentar alguma coisa no ambiente empreendedor”. Eu abri meu primeiro negócio no final de 2008 para 2009, aí abri com outro sócio, não deu certo, as coisas não andaram bem, nunca tinha tido negócio formal ou oficial, a gente não se entendeu, mas eu gostei de empreender, gostei de conseguir fazer as coisas, gostei de poder criar o meu próprio jeito de construir o negócio e foi aí que me apaixonei, aí o bichinho do empreendedorismo não me largou mais, toda vez que alguém falava: “Ai, você tem que largar esse negócio e ir para o mundo dos negócios, para poder ganhar dinheiro”, eu falava: “Gente, eu vou fazer alguma coisa para conciliar essas duas coisas, porque não é possível, eu quero criar o meu próprio mundo dos negócios”. Então, acho que isso fez muita diferença. E a partir daí eu não larguei mais, desde 2008 que eu sou empreendedora, em 2009 o meu primeiro CNPJ, que foi o ElogieAki, que foi um site de elogios na internet, de recomendações positivas, depois eu abri a Rede Mulher Empreendedora e depois... tudo paralelo, um espaço de coworking, que era um escritório compartilhado. Assim: é muito ralação, muito difícil você empreender no Brasil, é muita dificuldade, então, assim, eu me apaixonei pelo universo empreendedor e depois me apaixonei pelo universo de empreendedorismo social, de impacto e pela causa das mulheres e estou nela desde então, apesar dos altos e baixos, porque é sempre muito difícil você empreender, é sempre muito difícil você conseguir, lidar com risco, porque empreender tem muito a ver com o risco, mas, assim, eu não troco por nada - claro que hoje é mais fácil, porque onze anos, na verdade, no total, treze anos se passaram - acho que a jornada que eu construí no ambiente empreendedor, impactar a vida de milhões de mulheres pelo Brasil afora, para mim não tem preço melhor. (risos) 


P/1 – E como você... como foi esse processo de escolher a causa das mulheres? Acho que foi esse o termo que você usou.  


R - Na verdade, o processo de escolher a causa foi uma descoberta, Luiza. Eu fui, com o primeiro negócio, selecionada para participar de um programa, que era um programa social de uma fundação que chama Fundação Goldman Sachs, que oferecia curso para mulheres - de gestão de negócio - no mundo inteiro, em mais de vinte países, eram cursos gratuitos, nas melhores universidades de negócio. Aqui no Brasil quem fazia era a FGV, a Fundação Getúlio Vargas e aí eu me inscrevi no processo seletivo e estava com ElogieAki, na época, que era a plataforma de recomendações positivas e eu lembro que eu fui selecionada para participar do processo seletivo. O processo seletivo foi super difícil, não foi um processo fácil, tinha várias etapas, inclusive uma entrevista final com o pessoal da Fundação Goldman Sachs dos Estados Unidos, que vieram para São Paulo, para fazer entrevistas com as finalistas. Então, assim, era um processo muito elaborado de seleção e eu conheci, durante esse processo, várias outras empreendedoras, na sala de espera, nas conversas, esperando pelas entrevistas conheci várias e aí, na etapa final, eu fui aprovada. E aí, no primeiro dia de aula, na FGV, imagina a simbologia, né? O primeiro dia que eu entrei no prédio da FGV, aquilo para mim era uma coisa absolutamente surreal, porque a melhor escola de negócios da América Latina, aquilo tinha uma coisa, assim, muito forte e aí eu entrei na sala de aula e o coordenador do curso, que é meu amigo e hoje é vice-diretor da GV, tanto que eu o infernizei, os coordenadores do curso falaram assim: “Vocês são as trinta e cinco privilegiadas que foram selecionadas para esse processo desse programa, que se chama 1000 Mulheres. É um programa onde vocês vão, durante três meses, dois dias inteiros por semana, sexta-feira e sábado o dia inteiro, aprender como fazer a gestão do negócio de vocês, com os melhores professores aqui da GV, tudo de graça”. Então, assim, aquilo foi uma coisa muito forte, só que ao invés de eu me sentir feliz, me deu um negócio, assim, me deu uma coisa, um incômodo, que eu não sabia direito o que era e aí eu fiquei elaborando esse incômodo, na segunda semana do curso, eu fiquei assim: gente, eles disseram, nesse primeiro dia de aula, que tinham mais de mil inscrições para as trinta e cinco vagas que nós fomos aprovadas e aí eu comecei a perguntar para os coordenadores, eu falei assim: “E as novecentas e tantas que não passaram, o que vai acontecer com elas?”, eles falaram: “Ana, a gente tem recurso para uma turma a cada seis meses, de trinta e cinco mulheres, então as outras a gente não tem o que fazer”. Eu fiquei matutando, pensando o que eu poderia fazer e aí, na segunda semana, mulheres, né, nós já estávamos amigas de infância, a nossa turma, as trinta e cinco, a gente já sabia da vida uma da outra, todo mundo já se conhecia, eu falei: “Gente, eu vou começar a escrever sobre o que a gente aprende aqui. Eu sempre gostei de comunicação, eu vou escrever”. Na época era um blog e eu dei o nome para esse blog de Rede Mulher Empreendedora, aí eu falei: “Quem sabe, o que a gente aprende aqui, eu ensino para outras mulheres”. E aí eu pedi para a coordenadora do curso, eu falei: “Eu posso mandar para as que foram as mil inscritas?”, ela falou: “Pode, me dá o endereço do blog, a comunicação e eu mando para elas” e foi isso que ela fez. E aí para minha surpresa, assim, durante o programa inteiro, tudo que eu aprendia, eu transformava na minha linguagem, que é uma linguagem mais simples, mais direta, mais objetiva e passava nesse blog. Então, ensinava a fazer a gestão, como contratar, fazer planilha financeira, fazer várias coisas, só que eu não sabia de todos os assuntos. Então, o que eu fiz? Eu comecei a pegar mulheres da turma, eu falei: “Você sabe de contabilidade?” Tinha uma contadora, tinha outra que sabia de vendas, tinha outra que sabia de marketing, tinha outra que sabia de RH (risos), eu falei: “Me ajuda aqui? Você me ajuda a escrever também aqui no blog”. E foi assim que surgiu a Rede Mulher Empreendedora. Assim: era uma coisa que eu fazia, eu fazia à noite, de final de semana, para poder ajudar outras mulheres, ensinando o que eu aprendia lá na classe, só que a diferença era a minha linguagem. E o que foi mais assustador: deu doze meses depois, a gente terminou o curso, teve a formatura e tudo mais e eu continuei alimentando, com doze meses eu tinha cem mil mulheres acompanhando esse blog, eu falei: “Meu Deus do céu, o que é isso?” E aí eu tinha um espaço de coworking, a ElogieAki ainda existia, eu falei: “O que eu vou fazer com isso?” e aí eu pensei: “Eu vou tentar transformar isso num negócio” e foi caminhando, assim, as coisas foram acontecendo. Aí eu entendi a causa das mulheres que, para mim, não era ainda uma causa, eu entendi que o que eu estava fazendo estava ajudando outras mulheres que, como eu, também estavam empreendendo, mas não se reconheciam. Na época, eu brinco que tudo era mato, não tinha ninguém falando de mulher, ninguém falando de empreendedorismo feminino e não tinha ninguém falando de mulheres dentro do ambiente de negócios. Então, por isso que foi um sucesso muito grande, porque eu era a única referência, tudo o que a gente falava virava, assim, rastilho de pólvora, todo mundo compartilhava, divulgava. Tinha post - quando vieram as redes sociais, quando veio o Facebook - meu que tinha, assim, milhares de compartilhamentos, porque não tinham outras referências. E foi assim que eu fui entendendo que tinha uma causa, que eram as mulheres, que tinha uma causa que era geração de renda, ou seja, ajudar as mulheres a conquistar a independência financeira e foi... a Rede foi crescendo de forma orgânica, ela não foi um negócio construído como negócio, com plano estruturado, ela foi construída baseada na minha dificuldade de ajudar outras mulheres e do meu inconformismo. O Tales, que é vice-diretor da GV e que eu tenho o maior carinho, e a Maria José, na época eram os coordenadores e continuam hoje na GV. Eu faço muita questão de sempre dar crédito, porque eles me ajudaram, eles me orientaram, eles me deram apoio e fazem isso até hoje e foi muito bacana, porque eles falaram: “Ana, mas, assim, fica quieta. (risos) Faz o seu curso (risos) e fica quieta aqui” e eu não quis fazer o curso e ficar quieta, eu falei: “Não, eu quero aprender o que está aqui e passar para outras pessoas”. Então, acho que isso tem muita simbologia, sabe? É muito bacana, foi muito importante para mim e foi muito importante esse começo da Rede. Entender essa causa, entender as mulheres e, de lá para cá, a Rede hoje tem onze anos, é a maior plataforma de apoio às mulheres do mundo. Nós temos um milhão de mulheres dentro da nossa plataforma, a gente, assim, ajuda essas mulheres com tudo gratuito, tudo: curso, capacitação, treinamento, mentoria e a gente é financiado por fundações e organizações internacionais que nos apoiam. Então, isso é muito importante  


P/1 – E nessa época que a Rede estava virando um negócio, aí o ElogieAki ficou... você fechou, não? É isso?


R - Eu fechei. Na verdade, assim, o que eu fiz? Eu tinha três negócios: o ElogieAki, o espaço de coworking e a Rede. Só que a Rede não era um negócio, ela era um movimento, que eu gostava de fazer, mas que não me dava retorno financeiro e eu tinha que viver do ElogieAki e do espaço de coworking. Aí o ElogieAki a gente teve uma briga de sociedade, nós dissolvemos a nossa sociedade, eu e mais os dois sócios e, na dissolução, a gente vendeu o ElogieAki, então em 2011 eu vendi o ElogieAki, não me pertence mais, ele existe até hoje. Em 2014, a Rede continuava como movimento e tudo mais, porque eu abri a Rede em 2010, em 2014 eu fechei o espaço de coworking, por quê? Eu falei: “Gente, eu estou dedicando mais tempo, mais amor, (risos) mais tudo, para a Rede, então tenho que fazer a Rede ser um negócio social, ser um negócio que tem uma causa que ajuda as mulheres, mas que também dá retorno financeiro, para eu poder conseguir ajudar mais gente e aí eu fechei o espaço de coworking em 2014 e aí, de lá para cá, só a Rede Mulher Empreendedora e eu botei na cabeça que eu ia fazer a Rede virar um negócio social, virou um negócio social, que hoje é essa referência que a gente tem. Teve muitos altos e baixos, muitos desafios no meio do caminho, porque muitas vezes eu não tinha dinheiro para pagar as contas. Porque eu fazia tudo de graça e eu acreditava e acredito até hoje que é importante, para a gente ser inclusivo, a gente dar oportunidade para pessoas que não têm dinheiro para pagar. Então, tudo que a gente faz na Rede é de graça até hoje. Então, eu tinha que buscar outras formas de fazer um modelo de negócio acontecer e isso não foi um processo fácil, foi um processo bem complicado. Então, foi a partir daí que eu consegui criar outros modelos de negócio e aí, sim, focar só na Rede Mulher Empreendedora.

P/1 – E quais são... foram ou são os maiores aprendizados com essa experiência?


R – Nossa, muitos... tem muitos aprendizados importantes, assim. Eu tive muita gente que me ajudou nessa jornada, eu acho que esse foi um dos principais aprendizados porque, quando eu saí do ambiente corporativo eu estava meio descrente nas pessoas, sabe? (risos) Porque era um ambiente muito competitivo, era um ambiente onde as pessoas não estavam verdadeiramente interessadas em ajudar as outras pessoas e eu queria muito sair desse universo e trabalhar no universo mais colaborativo. Então, eu, para a minha alegria, tive muito mais gente que me ajudou do que gente que foi do mal. A gente teve gente do mal, assim, não tem como, a gente vive... é natureza humana, mas, felizmente, a maioria das pessoas me deu a mão, abriu a porta, fez uma recomendação, me ajudou, me deu um conselho, me deu uma palavra amiga e, assim, isso foi super importante para mim, esse foi um primeiro aprendizado. O segundo aprendizado foi que é possível você criar um negócio, mesmo que você não tenha dinheiro. As pessoas têm muito uma noção de que ter negócio tem a ver só com dinheiro e, assim, não foi fácil, não estou falando que é fácil, mas foi possível, eu criei um negócio que não tinha recurso financeiro nenhum, baseado em colaboração. Então, esse foi o segundo grande aprendizado: é possível criar um negócio sem dinheiro. O terceiro grande aprendizado é que as pessoas falavam para mim, as pessoas gostam muito de falar de colaboração e de voluntariado, mas as pessoas não gostam de fazer e isso foi muito curioso porque, na verdade, foi exatamente o contrário comigo. Até hoje eu tenho dificuldade de lidar com a quantidade de voluntários que se candidatam para nos ajudar. (risos) Então, assim, era uma coisa que as pessoas falavam: “Imagina, Ana, não dá para criar um negócio colaborativo baseado em voluntariado”, eu falei: “Dá”. E foi muito legal, não é simples, porque você tem que criar regras, modelos, trazer as pessoas certas e hoje a gente tem um negócio com mil voluntários no Brasil inteiro, que ajudam a Rede a chegar a mais mulheres. Então, esse também foi um aprendizado muito importante para a gente. Foi muito importante para mim, muito importante para minha jornada, entender que o meu sonho não era um devaneio, era um sonho de verdade: (risos) trabalhar com voluntariado e colaboração. E outro aprendizado, Luiza, que também foi muito importante, foi entender que o Brasil é muito grande. As pessoas têm uma percepção de que o Brasil é São Paulo ou são as capitais. A quantidade de mulheres fazendo coisas incríveis, assim, construindo coisas legais por esse Brasil é tão importante, é tão bacana! Assim: você vê mulheres, lá, ribeirinhas, nós estamos fazendo um programa agora pra mulheres ribeirinhas; mulheres indígenas; mulheres venezuelanas; mulheres trans; mulheres negras; mulheres de todos os cantos do Brasil, fazendo coisas incríveis. Então, a gente procura aqui na Rede, a gente fala muito isso: o Brasil não é São Paulo, o Brasil não são as capitais, o Brasil é muito maior que São Paulo e as capitais, o Brasil é gigantesco e tem muita gente fazendo coisas incríveis. Então, esse foi um aprendizado muito importante. Ainda mais para mim, que nasci no sertão de Alagoas, ter uma coisa, um negócio que chegue em mulheres do Brasil inteiro! Então, esse foi um aprendizado muito incrível, muito importante também para a gente. E, assim, por último - tem outros aprendizados, claro - que você tocar um negócio, você nunca vai fazer sozinho, né? Por mais que você... eu tive muitos problemas de sociedade, mas eu acredito muito em trabalhar junto com outras pessoas, então a Rede, hoje, tem trinta colaboradores diretos, tem mil voluntários no Brasil inteiro, tem um Conselho com onze pessoas que nos ajudam, então não faço nada sozinha, eu super acredito que fazer as coisas juntos é muito melhor. (risos)


P/1 – E você consegue identificar o que fez com que você não desistisse, que você enfrentasse todos os desafios?


R – Eu acho que tem uma combinação: o fato de eu ter essa história muito... não romantizando desigualdades, mas essa história de desafios... assim, eu nunca tive nada fácil, então, para mim, desistir das coisas não era uma opção.  (risos) Então, essa característica, para o mundo dos negócios, é uma característica muito importante, né? Porque, assim, eu não tinha outra opção, eu acreditava muito fortemente que o que eu estava fazendo, o que estou fazendo é uma coisa certa, ajuda e impacta a vida de outras pessoas, então eu tenho que arrumar uma forma de dar certo. Então, acho que essa coisa do “eu tenho que arrumar uma forma de dar certo” tem muito a ver com a minha jornada. De a gente não ter opção. Então, assim: ah, eu tenho que ir para a escola, está frio, eu não tenho sapato, eu tenho que ir de chinelo e meia com elastiquinho atrás, eu não tenho outra opção. Ah, eu não tenho comida, tem que pedir emprestado para o vizinho, não tem outra opção. Então, eu acho que o não ter essas opções criou uma força e uma resistência, uma resiliência... mais uma vez não romantizando desigualdade, que me fez persistir, sabe? Muita gente, muitas vezes, falou para mim: “Ana, desiste”. E pessoas que não que queriam meu mal, é que estavam vendo a dificuldade financeira que eu estava passando nos primeiros anos da Rede, que não fechava a conta, que eu ficava o tempo inteiro tendo que buscar alternativas e as pessoas falavam: “É melhor você desistir agora, larga isso e depois você pensa lá na frente, volta para o mundo corporativo, você precisa ajudar a sustentar a sua família e tudo mais”, mas eu acreditava muito no que eu estava fazendo, eu acredito muito no que eu estou fazendo. E, assim, eu sou muito resiliente, eu sou muito assim, não tem... tem que dar certo, eu tenho que achar um caminho para dar certo. (risos) Se não deu até aqui, eu tenho que arrumar uma outra forma de fazer dar certo. (risos)


P/1 – E tem alguma história, de alguma mulher que você tenha conhecido, marcante, que você queira compartilhar?


R – Nossa, tem tanta história bacana, Luiza, assim e algumas simbólicas. Tem uma mulher de Minas Gerais, eu já nem lembro mais o nome dela, ela mandou um e-mail para mim e ela - no começo da Rede, a Rede tinha uns quatro, cinco anos - falou: “Olha, eu estou muito feliz com o que vocês estão fazendo para nos ajudar, eu fiz os cursos, estou lá no grupo da Rede, trocando ideias com outras empreendedoras e estou feliz porque as coisas estão dando certo, meu negócio está faturando mil e quinhentos reais por mês e, por conta disso, eu consegui separar do meu marido”. E teve uma simbologia muito grande porque, no primeiro momento, eu fiquei muito assustada, eu fiquei pensando: “Meu Deus, eu criei uma rede que separa os maridos”, que fazem as mulheres se separarem. (risos) E aí eu fui falar com essa mulher no dia seguinte, eu mandei uma mensagem para ela e eu fui perguntar e aí ela explicou a história dela: ela tinha dois filhos pequenos, o marido era alcoólatra, era abusivo, ele era violento, só que ela dependia dele financeiramente. Então, quando o negócio dela começou a faturar um mínimo, que é esse mil e quinhentos reais, ela conseguiu sustentar a casa com o negócio. Uma família, ela era do interior... eu lembro, não vou lembrar da cidade, mas ela era de Minas, do interior de Minas e ela falou assim: “Não, eu estou muito melhor agora”. E foi aí que eu entendi o nosso propósito muito claramente, porque eu falei: “Puxa vida, o que a gente precisa fazer é ajudar as mulheres a gerar renda, porque com renda elas têm independência financeira e com independência financeira elas conseguem sair, inclusive, de relações abusivas, porque quando ela depende financeiramente do companheiro, ela tem mais dificuldades de sair dessas relações abusivas. Então, ficou muito claro que o que a gente estava fazendo estava no caminho certo, que era ajudá-la a conseguir conquistar essa renda e ajudar a desenvolver os negócios. Eu falo que me deu um certo alívio, (risos) porque eu fiquei com muito receio na época e, assim, foi muito simbólico. Hoje a gente tem mulheres na Rede, Luiza, assim, que são nossas voluntárias, que começaram como empreendedoras na Rede, começaram com um tipo de negócio e que hoje estão fazendo coisas muito diferentes. A gente conseguiu fazer, a gente tem um time de especialistas na Rede, que são mulheres que ensinam para outras mulheres e é muito legal que, no começo, elas não se enxergavam como especialistas. A gente tem a Dilma, por exemplo, a Dilma Campos, ela é dona de uma agência de marketing, de eventos e aí a gente fez a Dilma virar palestrante e ela fala para mim hoje (risos) que ela jamais a imaginava ser palestrante e hoje a Dilma faz eventos, agora não mais na pandemia, mas ela faz evento, o último que ela fez para a gente tinha três mil pessoas na plateia e ela foi fazer uma palestra sobre negociação. Quer dizer: ela não se enxergava palestrante, ela não se enxergava nesse lugar e a gente mostrou para ela, a gente a jogou (risos) nesse lugar, a gente falou: “Não, a sua história é bacana, você tem um conhecimento incrível, você organiza isso numa apresentação, você tem a referência, é genuíno o que você fala, então vamos lá colocar”. E como a Dilma, a gente tem hoje sessenta especialistas na Rede, que ensinam outras mulheres nos mais diversos temas e territórios, que não se reconheciam como especialistas e a gente foi lá e falou para ela: “Você tem o seu negócio, você é empreendedora e você também pode aproveitar esse seu conhecimento e passar para outra mulher”. Então, assim, é muito simbólico, porque a gente fala que aqui na Rede é uma mulher levando a outra, uma mulher apoiando a outra, porque a gente não quer deixar nenhuma mulher para trás, (risos) a gente não solta mesmo a mão de ninguém e a gente segue firme, porque não tem outra forma da gente fazer, da gente se apoiar e se ajudar.


P/1 – Falando em especialista, eu queria que você falasse como foi a experiência de participar do programa Winning Women, como conselheira, também ensinando? Como você conheceu a Ernst & Young? Como foi?


R – Nossa, tem uma história muito bacana com o programa Winning Women, porque era um programa meio de sonho, assim, sabe? Aquele programa desejado. E aí eu me inscrevi em 2014, a Rede estava naquela fase ainda meio como é que vai fazer, como é que não vamos fazer, ainda testando modelos de negócio e eu me inscrevi no programa e eu achei que eu não ia passar. Daí passei pelas etapas de ficha, tudo e fui para a entrevista com o sócio, na época da EY e esse sócio ficou apaixonado pela Rede, ele falou assim: “Eu quero trabalhar para você, na Rede” e eu lembro que foi muito engraçado, porque negócio social não era uma coisa tão conhecida na época, ele falou: “Nossa, Ana, o que você está fazendo é tão bacana”. Ele falou: “A gente precisa ter um negócio social na nossa turma, a gente precisa. Pode deixar, que eu vou te ajudar a defender a sua participação”, mas eu falei: “Bom, está tudo bem, é uma entrevista bacana” e não achei que eu ia passar. E aí passou um tempo, depois eles me informaram: “Olha, você foi aprovada para a classe de 2014, que na época era segunda turma do Winning Women, era o começo do programa. E foi muito, assim: eu fiquei tão feliz, porque era um grupo muito exclusivo, eram poucas mulheres. Eles me ajudaram absurdamente, então me ajudaram até fazer apresentação de marketing da Rede, me ajudaram a abrir portas, me ajudaram com conexões, me ajudaram com... a alavancar o negócio da Rede e isso eu como aluna participante. Só que eu sou tão enxerida, que eu me metia tanto no programa, (risos) que eu falava: “Ah, vocês podem fazer isso, trazer tal pessoa, fazer não sei o quê” e eu comecei a falar do programa para um monte de mulheres da Rede. Claro que nem todas podiam participar, porque tinha alguns requisitos lá e aí eu comecei a falar para muitas mulheres da Rede e aí eles viram muitas mulheres da Rede estavam se inscrevendo no programa. (risos) Aí, na época, as duas gestoras vieram marcar uma reunião comigo e falaram assim: “Ana, fala o que você acha que é bacana ter no programa, quais são as referências” e aí eu fui falando, me meti, falei o que eu achava que era legal e tudo mais e fui acompanhando e ajudando, dando dica, referência e foi andando. Passou um tempo, eles falaram: “Você está muito ativa aqui no programa, a tua experiência é muito importante, você já atendeu milhares de mulheres na Rede. Acho que está na hora...” e aí eles me convidaram, acho que foi em 2017 ou 2018, se não me falha a memória, para ser conselheira do programa. Aí eu fiquei muito honrada, muito honrada porque, assim, é realmente um dos programas que eu mais admiro - e eu já participei de vários programas de capacitação e de acompanhamento e eu falo isso até hoje - foi muito importante eu participar como conselheira, eu adoro fazer a mentoria para as mulheres. A gente está com uma mentorada agora que, assim, ela se apaixonou pela gente, a gente se apaixonou por ela, eu vivo falando dela para todo mundo, então eu acho que isso é muito bacana porque, quando você faz uma mentoria e quando você é conselheira, não é só uma relação de mão única, é uma relação realmente de troca: eu ensino para elas, mas elas também me ensinam, a gente troca ideia de forma muito constante e eu acho que é essa a riqueza desse programa do Winning Women. É um programa que tem uma riqueza de mulheres, de percepções, as conselheiras, eu também peço opinião para outras conselheiras sobre nosso negócio. Então, essa riqueza dessa troca que eu acho que é fundamental.


P/1 – Queria saber quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória como mulher, mãe, empreendedora, negra…


R – Nossa, tem tantos momentos simbólicos! Assim, eu acho que... claro, o nascimento e a vinda das minhas duas filhas são, para mim, os momentos mais importantes da minha jornada, da minha vida, da Daniela e da Evelyn, para mim tem toda simbologia de eu me tornar mãe de todas as formas. O pedido de demissão da multinacional, que era o sonho da minha vida, aquilo foi muito difícil, não foi um processo fácil, as pessoas me perguntam sobre isso até hoje e eu falo: “Gente, não foi fácil”. Parece fácil agora falando, porque a Rede deu certo, porque o negócio deu certo, porque as coisas caminharam, mas, na época, era um salto no escuro, eu não sabia o que eu ia enfrentar e muita gente me criticou na época, muita gente falou: “Você está fazendo uma loucura de pedir demissão de uma empresa, num cargo onde você chegou, com a condição financeira  que você está, com filha para criar”, muita gente me desaconselhou a fazer o que eu fiz. Então, esse foi um momento também muito duro, muito difícil, de enfrentar. Tem também o momento onde... na verdade, não um, mas vários momentos em que eu quis desistir da Rede, vários. E eu acho importante falar sobre isso, porque as pessoas veem só a parte bonita e a parte bacana e ficam achando que a gente não tem momentos de vontade de desistir. Eu tive muitas vezes, assim, que eu ia dormir e falava: “Amanhã eu vou fazer o processo de fechamento, vou voltar para o universo corporativo, não vou dar conta”, porque as contas não fechavam. E é assustador você não ter dinheiro para pagar as contas, você ficar endividado, é muito difícil. Então, acho importante, assim, a gente falar que tem esses momentos duros da gente querer desistir. Eu acho que esses momentos têm e a gente tem que deixar claro. Quando eu abri o Instituto da Rede para mim foi um momento muito simbólico, porque eu queria muito, muito, muito trabalhar numa organização totalmente social e trabalhar com mulheres em vulnerabilidade que era, assim, meu sonho. Então, poder trabalhar com mulheres indígenas, trans, venezuelanas, poder trabalhar com mulheres de 50 +, enfim, foi muito importante a abertura do instituto, não foi fácil, eu levei mais de três anos gestando a ideia do instituto e um ano para colocar a operação de pé. Então, foi um momento muito simbólico, muito importante. E um outro momento simbólico, que tem a ver com o instituto, foi a primeira doação internacional que a gente recebeu. Não é por conta do dinheiro, em si - a gente recebeu a primeira doação internacional em 2018, a gente recebeu um milhão de dólares do Google, a fundação do Google - mas porque abriu as portas para a gente conseguir outros apoios internacionais e abriu as portas, aqui no Brasil, para todo mundo olhar para nossa organização e falar: “Ué, o Google está investindo nesse pessoal? (risos) O que eles têm, que o Google gostou do trabalho deles e está investindo?” Então, tem um momento muito simbólico nisso também, acho que é bem importante. Assim, momentos pessoais, óbvio, não tem como não deixar de falar da minha filha, não tem. Assim, para mim foi uma época muito dura. Tem o meu casamento, uma menina super jovem com vinte e seis anos, querendo casar, eu e o meu marido, então eu acho que isso tem um momento muito importante também e ele é meu companheiro de vida até hoje. Se não fosse também por ele - eu jamais posso tirar o mérito - estar junto, apoiar, acreditar nas ideias que eu tinha, também seria bem difícil, porque ele também tem um papel muito fundamental em toda essa jornada, em toda essa história. Nossa, tem tantos outros momentos, Luiza!  (risos) Tem tantas coisas, assim, muito simbólicas, claro, tem momentos muito legais e momentos também difíceis.


P/1 – E como é seu dia a dia, hoje, com a pandemia? O que essa pandemia afetou a sua vida particular também, o seu negócio? Quais foram... sei lá, tiveram alguns aprendizados, desafios nessa pandemia? 


R – Assim, a pandemia foi um susto para a gente como negócio, porque a gente estava totalmente estruturado para fazer um negócio presencial e nós tivemos que dar um Duplo Twist Carpado e reorganizar o nosso negócio (risos), pondo para o online, uma coisa que a gente não estava preparado para fazer. Então, acho que tem esse ponto. O segundo ponto é que, as empreendedoras foram muito afetadas pela pandemia e a demanda para a gente ajudá-las foi muito forte o ano passado. Então, a gente também teve que se reorganizar, para conseguir atendê-las de uma forma melhor. Isso foi muito importante também. A gente conseguiu se estruturar muito rapidamente, em trinta dias a gente tinha reorganizado tudo, para conseguir atendê-las com a demanda de uma forma diferente, não presencial, no online. O ano também foi o maior ano de captação de recursos para a Rede e para o instituto, nós captamos quarenta e cinco milhões de reais o ano passado, para projeto sociais, foi a maior captação de recursos da nossa história, porque a pandemia, ninguém queria uma pandemia para isso, eu não queria uma pandemia para isso, mas a pandemia fez com que as empresas adotassem uma postura muito mais solidária, muito mais responsável em relação à sociedade e muito mais responsável em relação às mulheres, acho que esse tem um fator muito importante. Então, foi um ano muito importante para nós, em termos de captação de recursos. E também pessoalmente foi um ano desafiador porque, com duas adolescentes dentro de casa, trabalhando de casa, com o time inteiro da Rede trabalhando de casa, na Rede e no instituto, eu e meu marido trabalhando aqui lado a lado, no ambiente doméstico e, para ajudar tudo isso, eu resolvi fazer uma mudança de casa no meio da pandemia, só que eu não previa a pandemia, a decisão foi antes da pandemia, (risos) a gente tinha comprado... olha o movimento que nós fizemos, totalmente contrário ao que todo mundo estava fazendo: nós morávamos numa casa com quintal e tudo mais e mudamos para um apartamento. (risos) Só que a gente não sabia que viria a pandemia e a gente fez isso por questões de segurança. Então, assim, foi também um momento muito complicado para a gente fazer essa mudança, estamos nos adaptando, está sendo um processo de adaptação. Então, assim, não está sendo fácil, não vou glamourizar esse momento, não está sendo fácil. A minha mais nova está sofrendo muito com a escola online, é muito difícil, principalmente para adolescente. A mais velha até conseguiu se adaptar mais, porque ela está fazendo cursinho, então ela estuda das sete da manhã quase, até sete da noite, no quarto dela e faz os intervalos. Até que ela conseguiu se adaptar bem, mas a mais nova teve muito mais dificuldade para essa adaptação. A gente também, aqui dentro de casa, está tentando se adaptar, porque tem de tudo, né: a reforma do vizinho, tem várias coisas (risos) acontecendo ao mesmo tempo, mas a gente tem trabalhado muito e adaptado. Porque o que eu tenho falado, inclusive, para o meu time da Rede, do Instituto, é que a gente tem que cuidar da saúde emocional, porque esse é um momento muito difícil que a gente está vivendo, porque é um momento, não só um momento de dificuldade como país, a gente está vivendo uma crise política, uma crise econômica e uma crise de saúde tudo junto. E, fora isso, a questão da saúde emocional, que para nós é muito importante. Então, eu tenho falado muito para as pessoas se cuidarem, para elas priorizarem a saúde mental, porque isso é fundamental para a gente sair. Vai passar e a gente vai conseguir sair dessa, não tenho dúvidas disso, vai sair com alguns arranhões, alguns machucados, mas a gente vai conseguir sair.


P/1 – Ana, quais são seus sonhos para o futuro? 


R – Ah, eu tenho muita, muita vontade, eu tenho pensado muito nisso, eu acho que a pandemia também meio que coloca a gente para pensar nessas coisas, né? Eu queria muito trabalhar com políticas públicas, é uma vontade muito grande que eu tenho de conseguir, de verdade, fazer transformação social. A gente faz transformação social, mas para gerar um impacto muito maior, a gente precisa de política pública no nosso Brasil, a gente precisa ajudar a incluir mais mulheres nos ambientes de poder, a incluir mais mulheres nos ambientes de negócio, geração de renda e eu quero muito movimentar políticas públicas. Não estou falando com isso que eu quero entrar na política, na verdade eu quero movimentar políticas públicas no espaço onde a gente está hoje, quer fazer advocacy, levar e gerar informação. Eu hoje represento o Brasil no W20, que é o grupo de engajamento do G20, das vinte economias mais relevantes do planeta, para tratar da causa das mulheres. Então, é o que eu gosto de fazer, né: estudar e movimentar e ver o que a gente pode fazer, para transformar a nossa sociedade. Quero que a Rede não precise mais ser ativista em relação à causa da inclusão e diversidade e que a Rede passe a ser, sim, uma rede de apoio para as mulheres, para o desenvolvimento dos negócios. Infelizmente a gente vive no sétimo país mais desigual do planeta, então para as mulheres a situação é muito mais dramática e a gente ainda tem que fazer um trabalho de advocacy, de ativismo, para poder conquistar direitos, não para conquistar supremacia feminina. Hoje a gente vive num mundo de supremacia masculina. O que a gente quer não é a supremacia feminina, a gente quer direitos iguais, direitos humanos para as mulheres, que elas não sofram violência, que elas não sejam mortas por serem mulheres e que elas tenham as mesmas condições e oportunidades que os homens. Então, meu sonho, de verdade, é que as minhas filhas possam andar na rua sem ter medo e sem que eu tenha medo delas andarem na rua porque elas são mulheres, que elas consigam fazer as escolhas que elas quiserem na vida delas, que elas escolham qualquer profissão, qualquer caminho e não que elas escolham coisas porque elas são mulheres e que elas tenham todas as condições e oportunidades. Tanto as minhas filhas, mas quanto todas as outras mulheres do nosso país e quiçá do nosso planeta.


P/1 – Para finalizar, queria saber se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar mais alguma coisa que não tenha investigado?


R – Ah, eu queria finalizar, Luiza, dizendo assim: que a gente - parece piegas e parece clichê - não faz nada sozinho, sabe? Assim, eu faço muita questão de... não dá para nomear, porque é muita gente que me ajudou nessa jornada toda, mas agradecer a cada uma das pessoas e a cada pessoa que fez a diferença. Como eu te falei, eu tive muita gente ruim em todo o processo, episódios muito ruins, mas a maioria dos episódios foi de gente muito boa que deu a mão, que recomendou, deu uma palavra amiga e que está e esteve junto. Eu acho que isso: é mais importante olhar para esse lado, do que olhar para as pessoas ruins, porque eu acho que se não fossem essas pessoas, terem me dado oportunidade, de terem olhado, terem dado a mão, terem dado conselho, talvez eu não teria conseguido resistir a estar nessa situação de hoje, que a gente consegue impactar a vida de milhões de mulheres. Então, acho que é isso, agradecer a todo mundo que está junto, que vem junto comigo e agradecer, obviamente, aos meus ancestrais,as pessoas que vieram antes e que me trouxeram até aqui: meus avós, meus bisavós, meu pai e minha mãe, todo mundo, porque sem eles eu não estaria aqui. (risos)


P/1 – Ana, obrigada, obrigada, obrigada de verdade. Você não sabe como eu gostaria de estar presencial, para poder dar um abraço. (risos)


R - Eu amo abraços, eu adoraria também. (risos)


P/1 – Mas, de verdade, eu e toda equipe do Museu, a gente agradece muito pelo seu tempo, pela sua disponibilidade, pela sua importância... não só nesse tema, mas pelo seu impacto. Então, eu agradeço de coração por esse tempinho e pretendo... gostaria muito de te conhecer um dia presencialmente, ao vivo e em cores. (risos)


R – Faço questão de conhecer vocês, faço questão, realmente, eu não vejo a hora de a gente poder se encontrar. (risos)


P/1 – Bru, quer falar alguma coisa?


P/2 – Ah, eu estou... Ana, é a minha primeira entrevista, então eu estou super emocionada. (risos) Nossa, eu agradeço demais. Foi, assim, uma delícia passar esse tempo com você, eu sei que é curto para revisitar a sua vida inteira, mas, assim, para a gente tem uma importância incrível e muito obrigada, mesmo. (risos)


R – Nossa, eu que agradeço, tentei não chorar, (risos) tentei controlar, porque são etapas bem duras, mas muito obrigada, vocês foram muito gentis: Bruna, Alisson, Luiza, muito obrigado, espero poder conhecê-los em breve, viu? (risos) Obrigada, gente!

 

[Fim da Entrevista]

Entrevista de Ana Fontes Entrevistada por Luiza Gallo e Bruna Ghirardello São Paulo, 06/07/2021 Projeto: Mulheres Empreendedoras - Ernst & Young Realizado por Museu da Pessoa Entrevista n.º: PCSH_HV999 Transcrito por Selma Paiva  Revisado por Bruna Ghirardello P/1 – Vamos lá! Ana, queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento. R – Oi, eu sou Ana Lucia Pedro Fontes, eu nasci em Igreja Nova, Alagoas. Tenho 54 anos, até amanhã. (risos) É isso. P/1 – Isso. E quais os nomes dos seus pais? R – Minha mãe se chama Maria Laudice Davino dos Santos e meu pai se chamava... ele faleceu há três anos, Josino Pedro dos Santos. P/1 – E como você os descreveria? R – Pessoas muito simples, muito batalhadoras. Muito guerreiras, porque passaram, também tiveram uma infância muito dura e muito difícil, então eu os considero pessoas, assim, muito vencedoras, dentro de tudo que foi oferecido para eles na vida. De todas as dificuldades que eles tiveram, eu os considero muito vencedores. P/1 – E você sabe como eles se conheceram? R – Sim, porque a cidade lá onde eu nasci é um povoado, né? Na época, acho que não tinha nem nome direito de cidade, era um povoado e as pessoas todas se conheciam. Minha mãe é de uma família de onze irmãos, ela e mais dez irmãos e o meu pai teve uma família um pouco diferente. Na verdade, a mãe dele o teve e o doou para uma outra família, uma outra pessoa criar, que era o irmão mais velho dele e ele foi criado com essa outra família. E aí, como é um povoado, eles se conheciam, as pessoas se conheciam, acabou que eles se encontraram. Não assim, no sentido de encontrar, acabou que eles se gostaram um do outro. Minha mãe disse que naquela época não tinha muito essa coisa de namorar muito tempo, ela se casou com quatorze anos. É muito duro você pensar nisso hoje, ela se casou com quatorze e meu pai tinha... dezenove, porque ele tinha cinco ou seis anos a mais que ela. Então, ela se casou muito jovem, ela teve a primeira filha com quinze, que foi minha irmã mais velha, então, muito, muito jovem, assim. Ela disse que isso era muito comum, naquela época, as meninas se casavam muito cedo e, inclusive, era uma coisa meio de conceito de sociedade na época, que se casasse mais tarde era uma coisa ruim. Uma sociedade machista, onde achava que as meninas tinham que casar muito cedo, então, ela se casou muito cedo, ela praticamente não teve adolescência... com quinze anos ela já estava com uma filha e assim foi, sucessivamente, até ela ter vinte e oito anos, com vinte e oito anos ela tinha dez filhos. P/1 – E como é sua relação com os seus irmãos? R – É uma relação muito boa, assim: a gente é aquele estilo de família grande mesmo, que briga, que fala, que briga um com o outro, daqui a pouco não fala mais, daqui a pouco volta a falar, é bem aquela família super confusa. A minha... eles tiveram dez filhos, mas dois morreram muito pequenos, lá em Alagoas mesmo, lá no sertão, porque tinha muita fome, muita... não tinha acesso a nada, né? Nós morávamos numa casa de taipa, então era bem complicada a situação. Então, dois morreram pequenos e oito sobreviveram até a vida adulta. A gente sempre teve uma relação muito próxima e muito de ajudar um ao outro, muito de defender um ao outro, esse estilo mesmo, assim, de irmão, briga, ajuda, vai para lá, vêm para cá, mas a gente é muito, muito, unido. A gente fala que, se alguém mexe com um, está todo mundo, se junta aquele bolinho ali, fica todo mundo junto. (risos) A gente tem uma relação boa de família. P/1 – E o que seus pais faziam? R – A minha mãe era dona de casa lá em Alagoas, ela era, assim, sertaneja, então plantava, cuidava dos filhos, pescava, fazia as coisas como se fosse uma vida, eu falo para ela, que é quase de indígena mesmo. Porque era uma vida, assim, de muita subsistência, então era tudo para poder viver. E o meu pai era pescador, ele foi pescador até quando ficou lá, ele pescava e vendia na feira, quando conseguia pescar, vendia o que era a mais na feira e o que ficava para a família. Então, ele pescava peixe, camarão, também era lavrador, né, que fala? Lavrador também, porque também cuidava da roça, como todo mundo lá, era essa a vida. Era uma vida muito de subsistência. Plantava milho, mandioca, feijão, plantava as coisas ali para sobreviver, faziam farinha. Farinha de mandioca, que era uma coisa muito comum na época e a partir daí eles sobreviviam de vender, de trocar uma família com a outra e quando vinha a seca, aí era a coisa mais triste, porque eles não conseguiam plantar nada, não conseguiam pegar peixes e aí a vida ficava bem difícil. P/1 – E você lembra, assim, de alguma época marcante, ou de seca, alguma recordação, assim, de alguma dificuldade que vocês tiveram?  R- Eu lembro muito pouco porque, na verdade, eu saí de lá, eu tinha quatro anos. Os meus pais... em 1970, teve uma das maiores secas no nordeste inteiro, não só em Alagoas e aí, assim, não tinha o que fazer. Não tinha absolutamente nada, não existia nada do que existe hoje, que é muito justo, tipo Bolsa Família, Auxílio Emergencial, esse negócio de auxílio defeso, quando você não pode pescar, aí o Estado dá uma ajuda, não tinha nada disso. Então, eles não tinham muita alternativa: ou você plantava e pescava para comer ou você ficava sem comer. E todo mundo era muito pobre, então, não tinha uma coisa assim: “Ah, alguém tinha mais dinheiro”, não tinha, era uma relação de todo mundo. Aí eles resolveram - como tinha uma irmã do meu pai que morava aqui em São Paulo - como milhões de nordestinos, tentar a vida aqui em São Paulo. E juntaram o que foi possível, o meu avô, na época, pai da minha mãe, também ajudou um pouco, para eles juntarem dinheiro para a passagem, para vir para São Paulo. E aí, o meu pai veio na frente, né? Porque era uma viagem de ônibus de dois dias e meio, quase três dias, era uma viagem muito... e naqueles ônibus bem “mequetrefe”, sabe, bem ruim, não era um ônibus bom, gostoso, (risos) nada disso. Daí meu pai veio na frente, com dois irmãos mais velhos, para poder alugar a casa, conseguir arrumar o lugar para a gente ficar e conseguir arrumar emprego. E ele veio, com os meus dois irmãos mais velhos, alugou um quarto e cozinha perto de onde a minha tia, que era a irmã dele, morava, que foi em Diadema e depois, dois meses depois a minha mãe veio, na mesma viagem de ônibus, de dois dias e meio, com os seis filhos menores e ela veio sozinha com os seis filhos numa viagem de dois dias e meio. Então, ela, na verdade, conta para gente que tinha muito medo de nos perder no meio do caminho, porque era uma viagem muito dura. Ela falou que ela trouxe, assim, comida para comer no ônibus, coisas para fazer, para poder ficar ali e para a gente não ter que sair muito do ônibus, ela falou que só saía para a gente ir ao banheiro, para a gente alguma coisa, mas ela evitava o máximo possível. Eu tinha quatro anos, o meu irmão mais novo tinha três e o mais novo tinha seis meses e aí os três maiores tinham idades, assim, era um ano, dois, de diferença de um para outro. Eram todos muito pequenos e ela colocava os maiores para ajudar os menores. Então, foi uma viagem assim. Eu lembro de muito pouca coisa de lá, eu lembro da gente... a nossa casa ficava perto do Rio São Francisco, então eu lembro um pouco, de uma lembrança assim, de ter água, eu lembro um pouquinho da casa de taipa, que são aquelas madeirinhas com barro, porque não tinha cimento, eu lembro da gente brincando no que eles chamavam de terreiro, que era o terreiro da casa, não é o terreiro... era o terreiro ali da casa, mas muito pouco. Agora, eu lembro da viagem, da gente passando mal. (risos) Eu lembro, assim, talvez isso tenha ficado marcado porque, imagina... criança, viagem de ônibus, dois dias e meio, ela disse que ela comprou quatro bancos, quatro cadeiras para a gente viajar em sete, porque era ela e nós seis, então ela falou que ela juntava todo mundo, uma parte ficava sentadinho ali no chão, um no colo, o outro no colo do outro e a gente ficou ali naquele... e eu lembro da gente comendo um doce, que é um doce muito típico lá, que chama Mariola e aí eu lembro da sensação da viagem, eu lembro desse doce que a gente comia. Mas não é uma sensação gostosa, não, porque eu lembro de a gente ficar enjoado. (risos) Mas, assim, ela falou que ficou com muito medo, porque chegou na rodoviária aqui do Tietê e não tinha telefone na época, não tinha como avisar, não tinha, era tudo por carta, ela falou que não sabia se meu pai ia estar lá no horário que ela chegasse, ela chegou com aqueles sacos de coisas, tinha muito medo de sair ali e alguém pegar uma das crianças, porque eles ouviam muitas histórias, tinha muito lenda também, tinha coisa ruim, mas tinha muita lenda e ela disse que tinha medo de alguém pegar a gente na rodoviária, porque tinha ouvido falar que pegavam crianças. E aí meu pai estava lá, com o marido da minha... com o meu tio e aí ajudaram a gente a chegar até Diadema. Porque da rodoviária do Tietê até Diadema dava uma hora e pouco, era uma outra viagenzinha. (risos) P/1 – Ana, eu vou voltar só um pouquinho, depois vou querer saber mais sobre essa sua viagem, mas você conhece a história dos seus avós? R – Eu conheço um pouco das histórias dos meus avós, do que a minha mãe e o meu pai contam. O pai do meu pai e a mãe do meu pai, eu tenho poucas histórias, eu só sei que a mãe do meu pai era o que eles chamavam lá de castanheira. Castanheira é aquela pessoa que pega castanha do caju, cozinha no fogo, mas é no fogo de... no chão, assim, numa fogueira e depois que ela está bem preta, a casca da castanha de caju, eles batem com uma madeira, porque aí tira aquela castanha, que é a amêndoa, que a gente conhece como castanha. Então, a mãe do meu pai era conhecida como Dodô, mas o nome dela era Maria Petiomilha e meu pai disse que ela era castanheira, que era uma pessoa com muita dificuldade, que teve o filho e não conseguiu ficar. Enfim, eram muitas situações difíceis. E o pai dele, o meu avô, eu não tenho muito, assim, meu pai nunca falava muito, não sei se porque ele não teve convivência com ele, porque ele foi criado pelo irmão mais velho, então meu pai falava pouco da família dele, acho que também devia ser muito duro para ele, porque ele foi doado, para... nessa época, então, eu acho que foi bem difícil. Agora, da minha mãe, aí eu tenho sim, muita convivência, até porque os meus avós, quando a gente veio para Diadema, veio morar aqui, de vez em quando [eles] vinham para São Paulo. Não era uma coisa frequente, porque a viagem era muito longa e eles não viajavam de avião, mas eles vinham para São Paulo. E a minha a avó, a mãe dela, a minha bisavó, era mãe solteira, que eles chamavam de ‘mãe solteira’ na época e ela se casou também muito nova com o meu avô, eles tiveram onze filhos e, numa situação muito difícil também, numa situação de vida muito difícil. O meu avô criava gado. Falando assim parece que era uma pessoa rica, mas ele tinha terra, muita terra, mas a terra não valia nada, porque era uma terra ou para o gado ou para plantação, mas eles não tinham muito estudos, não tinham muito conhecimento, então acabava que não valia muita coisa. Eu sei que a vida deles não era muito fácil e o meu avô era uma pessoa muito difícil. Minha mãe fala, muito por alto, ela nunca se aprofundou muito nisso, que tinha uma relação de violência também, né, que era uma questão de violência, inclusive, contra a mulher, porque a minha avó ali em casa, cuidando dos filhos, tudo, então era uma relação muito difícil, pelo que minha mãe fala. Meu avô morreu jovem, ele morreu com sessenta e poucos anos, ele teve um câncer no estômago e acabou falecendo. A minha avó viveu até os oitenta e seis anos e, assim, morreu bem mais velha, mas a gente não teve convivência, assim, com eles, próxima, de neto e avô. Tinha quando eles vinham, aí eles ficavam um pouco e depois voltavam, a gente tem um pouco essa lembrança de pessoas mais velhas. Quando o meu avô vinha, de vez em quando ele pegava uns pacotinhos, assim, de dinheiro, embrulhava bem o dinheiro e falava para a minha mãe: “Olha, isso é para os netos”. Mas era uma coisa muito... (risos) uma lembrança, assim, muito distante. E a minha mãe conta também que uma irmã da minha avó - isso é uma coisa que eu, volta e meia, pergunto para ela, porque eu queria muito entender, mas ela não lembra mais detalhes - uma tia minha, uma irmã da minha avó, foi... sofreu um feminicídio. Ela foi assassinada pelo marido. E a minha mãe disse que isso não foi... o marido não foi preso, não teve... eu falei: “Mãe, mas como assim?” e ela falou: “Ah, porque, minha filha, lá não tinha lei como tem hoje aqui, como era uma terra muito difícil, as pessoas tinham que lidar com o que era possível lá”. Então, ela disse que lembra, na infância dela, da história da minha, na verdade, da tia dela e minha tia-avó, que faleceu assassinada pelo marido, de uma forma muito triste, muito triste, ela foi... ele botou fogo nela, dentro de casa. Então, uma coisa bem difícil, mas ela não lembra muitos detalhes e, como minha avó já faleceu e meu avô também, os meus tios também não têm muita lembrança, acaba que a gente não sabe muito. P/1 – E vocês tinham algum costume de família, desde receita... você falou da farofa, da farinha, né? Tinha mais alguma coisa que você lembre, de algum cheiro, algum sabor?  R – Tem uma coisa que até hoje a minha mãe faz, ela fazia todos os domingos, mas agora ela não faz mais todos os domingos, (risos) porque ela está com oitenta anos, mas ela fazia uma galinha, que a gente, assim, como se fosse quase uma tradição de família, essa galinha cozida no molho da galinha, tem todo um jeito de fazer. Outro dia a gente estava falando, eu e as minhas duas irmãs, assim: “Gente, como é que a gente vai fazer para aprender a fazer essa galinha?” (risos). Ela, minha mãe, ensinou meu pai, na época, também a fazer, minha irmã mais velha que já faleceu também sabia, mas aí eu e minhas outras duas irmãs, a gente não sabe (risos). É uma galinha que tem, assim, toda uma história mesmo, era coisa do domingo, da gente se reunir, da minha mãe ficar ali na beira da pia. Na verdade, antes, não era nem na beira da pia, ela pegava a galinha na granja, ela matava ela mesma a galinha. Eu lembro quando a gente morava - mesmo aqui em São Paulo, em Diadema - num lugar que era meio distante e ela pendurava a galinha na cerca - isso eu lembro de quando eu era criança - até a galinha morrer, depois ela depenava a galinha na água quente, eu lembro disso também, aí depois ela ia partindo e tem um ritual de cortar essa galinha, tem partes específicas (risos) nesse ritual e aí, isso, assim, a minha vida inteira, eu tenho cinquenta e quatro anos e cinquenta e quatro anos a gente, de domingo, a galinha, a gente tem, todo mundo tem essa lembrança. Então, é uma galinha feita com molho, com temperos nordestinos, minha mãe faz com pimenta do reino, muito colorau, tem um jeito todo certo e aí, de uns anos para cá, foi proibido ter granja, né? Porque em Diadema ainda tinha, até alguns anos atrás, então a minha mãe ia de domingo na granja - aí ela já não matava mais - escolhia e o pessoal da granja matava do jeito que ela queria, porque não podia ser pescoço cortado, tinha que ser o pescoço destroncado, eram umas coisas assim (risos) e ela escolhia, levava para casa e fazia. E depois foi proibido ter granja, então ela vai agora num mini frigorífico, que também é lá em Diadema, mas também tem que ter a tal da galinha caipira, não pode ser frango, não pode ser galinha branca, tem que ser galinha vermelha, tem todo uns ‘paranauês’ aí, (risos) para poder fazer esse prato. E, ela faz até hoje, agora não todo domingo, ela faz uma vez a cada quinze dias, mas até hoje, como a gente não pode almoçar mais com ela, por conta da pandemia, o que ela faz: ela continua fazendo a galinha, ela liga para a gente e fala: “Oh, separei um potinho para cada um” e a gente vai lá, com as partes que cada um gosta. (risos) Então, eu adoro pé de galinha e moela, ela manda os pezinhos e a moela (risos) para mim, até hoje ela faz isso e a gente vai lá e busca, porque não dá para comer lá, né? Mas isso é assim: a galinha é uma coisa de ritual para gente, volta e meia a gente fala isso, Deus o livre, quando a nossa mãe se for: “Meu Deus, quem vai fazer a galinha? Como é que a gente vai passar isso?”, porque sabiam ela, meu pai, minha irmã mais velha e agora nós, as mais novas, vamos assim dizer, acabamos não aprendendo. Precisamos aprender. (risos) Precisamos aprender, porque é maravilhosa, quem come diz que gosta muito. (risos) P/1 – E me conta uma coisa: quando os seus pais decidiram mudar de cidade, houve uma conversa, assim, com vocês? Como foi isso, esse momento? R – Não teve assim. Eles, na verdade, foram quase empurrados para sair de lá. Porque, como não tinha peixe, a lavoura não tinha, estava seca, o meu avô não tinha como ajudar, porque ele também tinha os outros filhos, cada filho também tinha um monte de filhos, assim, que nem a minha mãe, então era muita gente passando dificuldades junto. Na verdade, meu pai e minha mãe dizem que não teve o que conversar, eles não tinham uma alternativa, eles não tinham saída e o que eles tinham dificuldade era como fazer para poder arrumar dinheiro para passagem para todo mundo, porque eles não tinham essa coisa de terra, lá não valia nada. Então eles se juntaram, meu avô juntou, minha avó juntou, várias pessoas ajudaram, para dar o dinheiro para vir, o meu pai na frente, para conseguir alugar uma casa e arrumar emprego. Porque, assim, as pessoas vinham na época e já vinham com alguém aqui que já sabia: “Olha, tem um emprego”, porque já vinha, já tinha que vir empregado, porque senão não conseguia viver, ia morar na rua. E eles dizem que não teve muita opção, não teve muita discussão. Minha mãe diz que ela e o meu pai falaram: “Vamos tentar, vamos ver o que vai dar, vamos ver o que vai acontecer. Se não der, a gente volta com todo mundo”, porque lá, a família toda ficou lá. Quando eles vieram, essa tia do meu pai não era uma pessoa bacana, ela não ajudou a gente, meu pai veio por causa dela, mas ela acabou não sendo uma pessoa que ajudou a gente. Quem, no fim, ajudou muito a gente foi uma vizinha nossa, que é amiga e irmã da minha mãe até hoje, que foi uma vizinha que ajudou com coisas, né? Até coisas que a gente não tinha: não tinha prato, não tinha colher, não tinha garfo, não tinha essas coisas, não tinha dinheiro para comprar essas coisas. Não deu para trazer isso de lá, até porque lá não tinha quase nada. Então, assim, ela foi ajeitando e ajudando a minha mãe. Minha mãe trabalhou muitos anos como faxineira, lavava roupa, fazia faxina, limpava peixe para os vizinhos, ela fazia muito isso. Eu lembro, na minha infância, tinha o carroceiro da sardinha, que era um senhor que vendia sardinha no bairro e vendia sardinha assim: ele passava... sardinha era uma coisa muito barata na época, então, sei lá, um quilo de sardinha era um real, ele vendia tipo um litro, assim, uma lata. Só que as vizinhas não gostavam de limpar sardinha e a minha mãe sabia limpar muito bem. Então, o que ela fazia? Ela limpava, em troca de eles darem um quilo de sardinha para ela. Ela limpava um quilo, a pessoa dava um quilo; ela limpava outro quilo, a pessoa dava outro quilo. Era assim que ela conseguia fazer as coisas, então, não tinha... e eram dez bocas para sustentar, porque era ela, meu pai e oito filhos. Então, eles tinham muito que se virar, eles tinham muito que tentar conseguir de alguma forma e todos nós trabalhamos desde muito cedo, muito cedo, todo mundo. Então, trabalhava meu pai... trabalhavam os meus irmãos, minhas irmãs trabalhavam de doméstica, olhando... eu trabalhei desde dos dez, onze anos, olhando filho de vizinho, limpando casa, ajudando vizinho a limpar casa, em troca ou de dinheiro ou de comida, ou de alguma coisa que desse para ajudar, porque era muita gente, imagina dez pessoas todos os dias café, almoço, janta, tudo isso. E, na época, é uma coisa muito... hoje tem muitas igrejas, organização, muita organização social, na época não tinha. Não tinha nem Bolsa Família e nem nenhum programa de governo e não tinha também muitas organizações sociais que ajudavam. O que a minha mãe fazia, ela ia numa igreja que dava roupa, roupa usada, tudo isso ela... porque não tinha como comprar roupa para tanta gente. E ela falou que aqui a gente sofreu muito, porque a gente veio numa época que era muito frio, a gente veio em abril para São Paulo, eles falam... não lembro o dia, mas a gente veio em abril e aí, maio, junho e julho foi um dos piores... ela disse que, assim, ia para o quintal da casa onde a gente morava, que era uma casa muito simplória e o balde congelava, assim, o primeiro... a camada de água. Ela falou que era muito difícil, porque não tinha coberta suficiente, não tinha roupa suficiente, não tinha sapato para todo mundo. A gente ia para a escola, isso eu lembro, quando eu era pequena, eu ia de Havaianas e de meia e ela botava um elastiquinho atrás, na Havaianas, para poder segurar a meia. A gente tinha vergonha, mas a gente não tinha muita opção. Então, ela se virava, assim, por isso que eu falo: dentro de tudo que eles tiveram que passar, assim, muito fortes, muito, eles conseguiram, assim, duas pessoas semianalfabetas, sem nenhuma instrução, sem nenhuma orientação, num mundo gigantesco como era aqui São Paulo, sem saber direito o que fazer, como começar. Eu falo que eles fizeram o melhor que eles puderam, né? A gente teve muito problema, muita dificuldade, passamos – nossa! - os piores perrengues da vida, mas diante de tudo que eles enfrentaram, eu acho que eles foram felizes demais. P/1 – E você lembra qual foi sua primeira impressão ao chegar em São Paulo? R – Ah, eu lembro que eu fiquei com medo, né? Eu lembro de medo porque, assim, era muito estranho. A gente, lá em Alagoas, minha mãe diz que a gente ficava solto. Porque na roça, no terreiro, uma irmã minha já quase se afogou várias vezes, (risos) porque a gente morava perto do rio. Então, assim, era uma vida muito ali e todo mundo conhecia todo mundo, vizinho, não tinha vizinho perto, assim, mas era nas roças, você andava e ia até a outra roça, não sei o quê e então a minha mãe falou que era uma vida muito solta. Que era muito... e aqui ela tinha muito medo, porque as pessoas falavam também que aqui tinha muita violência, que tinha gente que pegava crianças, muitas dessas coisas. Então, esse medo ela passou para a gente também, (risos) porque ela tinha medo, ela falava: “Olha, não pode ir para a rua, não pode ir para o quintal, não pode ir sozinha, não pode ir não sei pra onde”. Um pouquinho maior, aí eu lembro de ficar com menos medo, mas no começo a gente tinha muito medo, todo mundo, tinha medo de pegarem a gente. A minha mãe falava, o meu irmão mais novo, o caçula, era bem loirinho e ele gostava... minha mãe o deixava com o cabelo bem compridinho e aí, eu não sei, minha mãe colocava na cabeça que alguém queria pegá-lo. Então, ela falava assim: “Toma cuidado, porque o Beto, alguém pode querer pegar o seu irmão, o Beto, porque ele é muito bonitinho, não sei o quê”. A gente brinca com ele até hoje por causa disso. (risos) Tinha uma coisa muito de medo no começo, depois que a gente foi aprendendo. E o duro de tudo, Luiza, é que a gente saiu do sertão, dessa coisa de morar num lugar onde a gente tinha uma coisa de família, quintal e tudo isso e a gente veio para Diadema e, na época, Diadema era considerada a cidade mais violenta do Brasil. Então, assim, a gente não veio para um lugar que era seguro, muito pelo contrário, era um lugar realmente assustador porque, na época, o número de assassinatos em Diadema era gigante, era uma cidade muito, assim, muito violenta, era uma cidade que tinha uma polícia violenta, que tinha todo um sistema de opressão que hoje a gente consegue reconhecer, mas que na época a gente não reconhecia. A gente tinha medo da polícia, a gente tinha medo de tudo, porque a gente era pobre, minha mãe falava isso sempre: “Olha, presta atenção”. Ela tinha uma coisa também da gente andar limpo na rua, (risos) ela falava: “Vocês têm que andar arrumadinho e limpo porque... para as pessoas não acharem que vocês são pessoas de rua, não sei o quê”. Então, tinha uma coisa muito de medo, sabe, deles também, né? De acharem que a pobreza significava a gente não ter direito, não ter acesso e tudo mais. Então, era muito, muito assustador. Eu lembro de muitas coisas, assim, de medo, da gente, na infância, sabe? E lembro dela também, dela e meu pai, mais ela, minha mãe, ela administrava as coisas por conta da falta, da escassez, como se fosse um regime militar, eram dez pessoas. Então, assim, ela tinha que organizar as coisas, a gente nunca - eu lembro até eu ser adolescente - pegava comida no prato, na panela, era a minha mãe que colocava comida no prato para a gente porque, se cada um fosse pegar na panela o que queria, (risos) não sobrava para o próximo, então ela fazia um regime militar mesmo, ela... você podia colocar o arroz e feijão e ela colocava a mistura e, no dia do pagamento - que, na época, era dia dez e dia vinte - eles faziam a compra do mês, quando a gente estava numa situação melhor, quando boa parte de nós trabalhava, ela comprava assim: um chocolate para cada um e um Danone para cada um, um potinho de Danone, ela comprava vários e tinha um para cada um. Ela separava, assim, bem direitinho para cada um e ela falava: “Olha, não pode pegar, esse é seu, esse é da sua irmã, esse é do seu irmão” e por aí vai. Então, a gente foi criado, assim, muito na escassez, ela fazia essas organizações, para poder as coisas funcionarem, senão não dava certo, acho que não teria conseguido, porque tinha muita gente para sustentar, muita dificuldade. Eles tinham, faziam isso para poder conseguir, minimamente, sustentar a família. Meu pai trabalhava, minha mãe chegou a trabalhar naquelas fábricas de costura, que hoje, infelizmente, são os bolivianos que trabalham, mas na época eram as nordestinas, naqueles porões, fazendo roupa, ela passava o dia inteiro ali, ia cedinho, deixava tudo organizado para a gente, ia cedinho para lá, trabalhava o dia inteiro, voltava, cuidava das coisas, tinha uma distribuição de tarefas entre nós, cuidava das coisas e costurava para fora. Ela costurava roupa para fora e, no final de semana, ela limpava sardinha, o tal do peixe, para ganhar outro peixe. Então, por isso que eu falo, eles são verdadeiros vencedores, verdadeiros guerreiros, porque não tinham nenhuma condição, né? O que a vida deu, eles acabaram se virando, dentro das possibilidades do conhecimento, eles não tinham conhecimento, acho que isso era muito difícil também, né? P/1 – E como era a sua rotina, quando você ainda era criança? Assim, você comentou que você ia para a escola, você trabalhava, queria saber um pouquinho e se tinha tempo para brincar.  R – Muito pouco. Assim: a gente ia para a escola, teve um período que eu estudei de manhã, no outro período eu acho que estudei à tarde. Então, todo mundo ia para a escola, quem ia para escola. Acho que a partir do sexto ou sétimo ano, não lembro, teve um período que eu fui para a noite e aí, durante o dia, trabalhava o dia inteiro. Eu comecei a trabalhar com carteira registrada com quatorze anos de idade que, na época, podia e antes fazendo esses bicos, né? Ajudando uma vizinha, olhando o filho de uma vizinha, olhando, limpando uma criança, indo fazer compra no mercadinho para vizinhas, em troca de moedinhas, essas coisas. Era uma rotina muito assim: como minha mãe tinha medo da cidade em si, de tudo que representava, então a minha rotina era ir para a escola... eu sempre gostei de estudar, não é a mesma realidade dos meus irmãos, porque alguns gostavam, outros não. Então, eu gostava de estudar, gostava muito de ler e aí, o que eu fazia? Ia para a escola, fazia a lição sozinha, porque minha mãe não conseguia ajudar, a ajudava com a casa, com a comida - porque nessa época ela já não trabalhava mais na costura, nessas fábricas - ajudava com a casa. E aí é uma lembrança bem chata para mim, ela falava: “A gente precisa pensar no que vai comer à noite ou se vai ter comida para todo mundo”, porque chegava todo mundo à noite e, às vezes, não tinha comida e ela me mandava pedir aos vizinhos e eu tinha muita vergonha, muita vergonha e ela falava assim: “Ah, vai lá no fulano, ver se ela pode emprestar um quilo de arroz ou se ela pode emprestar o feijão, não sei o quê”. Isso eu tinha muita vergonha e tinha muita vergonha também de ir à...  Nem sei se era mercadinho que chamava, mas num lugar lá que vendia, tipo um mercadinho e vendia fiado. Então, a gente tinha conta lá também, eram umas coisas, assim, que não eram legais, né? Claro, que a gente também... a gente morava numa rua, numa época que era uma rua de terra e aí, à noite, assim, numa época mais gostosa, onde a gente conseguia uma condição um pouquinho melhor, a gente brincava na rua, de queimada, de pega-pega, brincava com os vizinhos e voltava para casa imundo, nojento, de terra (risos) e ela mandava tomar banho e a gente dormia, assim, era tomar banho e se virar para dormir. Então, tem essas lembranças boas também, de brincar, mas tem as lembranças também de ter que conviver com essa dificuldade, com essa situação difícil. As coisas começaram a melhorar quanto mais gente começou a trabalhar formal, quando mais de nós começaram a trabalhar em fábrica, em empresa, com carteira registrada e aí, quanto mais gente com carteira registrada, nós conseguíamos mais recursos, mesmo que os salários fossem baixos e aí a gente conseguia juntar e pagar a água, pagar luz, pagar aluguel e sobrar dinheiro para comida. Eu lembro que, quando eu trabalhava, tinha o holerite, que era um envelope amarelo, um envelope pardo que a gente recebia, porque as pessoas não tinham conta em Bancos, a gente recebia o dinheiro dentro de um envelope. (risos) Eu sou dessa época ainda! (risos) E aí a gente chegava, no dia do pagamento, todo mundo que trabalhava fora chegava com os envelopes, eu lembro disso, da gente sentar na mesa e a minha mãe... a gente dava o envelope para ela e aí ela tirava, pegava o envelope de cada um... por exemplo, sei lá, dava um pouquinho de dinheiro para mim, para alguma coisa e praticamente todo o dinheiro ficava para a casa, para sustentar tudo que a gente tinha ali. Então, assim, nunca foi tranquilo, nunca foi fácil, nunca foi... era sempre uma batalha, sabe? Sempre uma batalha. Mas eu tenho boas lembranças - mesmo sendo essa batalha, essa dificuldade - de amigos, de brincando, de brincando na rua, de brincando de terra, brincando de queimada, né? Então, isso são lembranças gostosas daquela época. P/1 – E você lembra do primeiro dia de trabalho com carteira assinada, registrada? R – Eu lembro. Eu trabalhei no chão de fábrica. O primeiro trabalho foi no final do ano, foi em outubro, novembro e dezembro, não era carteira assinada, mas era num bazar que vendia brinquedos no final do ano. Então, eu fui a vendedora que mais vendi brinquedo. Os donos do bazar eram muito chatos, muito difíceis, me tratavam bem mal, mas, assim, eu fiquei muito feliz, porque eu ganhei dinheiro e o dinheiro deu para a gente fazer um Natal, né, assim, juntando de todo mundo, a gente conseguiu ter ceia de Natal, mas isso já era, assim, tinha quase quatorze anos. Então, era uma época já mais para frente e aí, no ano seguinte, eu consegui um emprego, que uma amiga minha também me ajudou, num chão de fábrica, numa fábrica que fazia brinquedos infláveis, que eram aquelas boias de piscina, brinquedo inflável e eu trabalhava no chão de fábrica, enchendo esses bichinhos infláveis (risos) o dia inteiro, das sete da manhã às cinco da tarde, ficava de pé, era uma torneirinha de ar e você enchia os bichinhos, para ver se eles não estavam furados, né? E no dia seguinte, você ia olhar e via o que não estava furado, você murchava, dobrava, embalava, para poder vender. Eu trabalhei nessa fábrica acho que quatro anos, dos quatorze aos dezoito, dezenove anos, trabalhei bastante tempo. Depois eu saí do chão de fábrica e aí fui trabalhar na recepção dessa fábrica, dessa empresa, porque aí era uma menina, né, jovem e eu gostava muito de trabalhar, eu queria sempre mostrar que eu conseguia fazer as coisas e aí um dos chefes lá falou: “Ah, bota ela na recepção, para atender as pessoas que vêm trazer produtos para consertar” e eu lembro que eu fiquei muito feliz, porque eu ia trabalhar no escritório (risos) e eu ia sair do chão de fábrica, porque no chão de fábrica usava uniforme, bota, aquelas coisas todas e eu ia trabalhar no escritório, do lado da telefonista, que era uma moça que também estava muitos anos lá. E eu lembro que eu não fui bem aceita pelo pessoal do escritório, porque eu era do chão de fábrica, então o pessoal do chão de fábrica achava que eu era metida, porque eu tinha ido trabalhar no escritório (risos) e o pessoal do escritório não me aceitava muito bem, porque eu vim do chão de fábrica. E eu não entendia isso muito direito na época, eu tipo: vamos fazer as coisas, eu trabalhava e assim foi, aí eu saí da recepção, depois eu fui ser auxiliar de vendas de arquivos, né, fazia os arquivos dos papéis lá, do time de vendas e aí fui aprendendo as coisas, fui desenvolvendo e aprendendo as coisas. P/1 – E você pensava no que você queria fazer quando crescesse? Assim, isso era presente no pensamento? R – Era. Eu queria muito, muito, muito ser jornalista. Eu tinha muita admiração pelo Hélio Costa que, na época, era jornalista; pelo Carlos Nascimento, eu via aquele pessoal no jornal, eu falava: “Nossa”. Era meio sonho infantil mesmo, eu queria muito fazer jornalismo, eu queria muito trabalhar com notícia na televisão, era sonho de infância. Não deu certo, assim, por um lado, porque depois eu fui fazer faculdade de Publicidade, mas era um sonho, eu tinha muita vontade de trabalhar com comunicação. Gostava muito de ler, muito, adorava ler, lia muitas bobagens no começo, lia fotonovela, quando eu era menor, depois comecei a ler gibi, depois li aquelas revistas que chamava... revista não, aqueles livros que chamavam Bárbara, Bianca, Sabrina, acho que não é da época de vocês, vocês não devem nem saber o que é isso, mas eram uns livros de história de romance e as histórias eram quase sempre as mesmas (risos). Eu li, sei lá, uns quinhentos desses livros, porque você comprava e depois você podia trocar, trocava com outras pessoas e eu gostava muito. Então, sempre gostei de ler e tinha muita vontade de trabalhar com isso, com comunicação. Era meio sonho de infância. P/1 – E quais são as suas lembranças, assim, da escola? R – Da escola, eu tenho lembranças até que boas da escola que eu estudei, estudei na mesma escola. No primeiro ano estudei numa escola um pouco distante, porque no primeiro ano minha mãe não conseguiu a escola perto de casa, mas foi só no primeiro ano. Eu lembro do nome da minha professora de primeiro ano, que chamava Gema Terezinha Malta, eu não esqueço do nome dela até hoje, porque ela era muito doce, muito gentil. Eu lembro de uma coleguinha que foi muito gentil comigo, que chamava Magnólia, no primeiro ano. Então, assim, eu lembro... eu tenho muito boas lembranças da escola estadual, pública. Depois eu fiz aí a minha vida inteira até o terceiro ano do ensino médio, que na época era o colegial, eu fiz nessa outra escola que eu fiquei a vida inteira e que passo por lá volta e meia, quando vou na casa da minha mãe, eu passo na frente da escola, que é a Escola Estadual Niceia Albarello Ferrari e, assim, eu tenho ótimas lembranças: de amigos, de pessoas, assim, lembranças gostosas de aprendizado, tenho lembranças, assim, de professores e professoras muito bons, muito bons. Uma professora que ela, do bolso dela, fazia tipo uma competição, que o aluno que tirasse a melhor nota, ela dava um colarzinho, devia custar cinco reais o colarzinho. (risos) Era um colarzinho dourado, que a gente achava que era de ouro (risos), mas não era. E ela fazia, assim, para incentivar todo mundo, né, ela tirava do bolso dela e fazia meio uma competição, aí ela falava: “Olha, quem tirar a melhor nota...” e eu lembro que eu ficava muito, assim, ansiosa porque eu queria tirar sempre a melhor nota. (risos) Então eu tenho ótimas recordações, assim, não só dos professores, mas da escola. Na minha época tinha uma diretora que era muito rígida, muito rígida, mas não era rígida de um jeito ruim, ela era rígida, assim, de ajudar: “Oh, você tem que estudar, estudar vai ser bom”, botava todo mundo na fila, fazia todo mundo levantar quando ela entrasse na classe, fazia todo mundo fazer as coisas direitinho, comer a merenda no horário, então, era muito organizada. Hoje eu consigo entender; na época a gente brincava, a gente falava: “Ai, meu Deus, se esconde, que vem a Dona Sir, porque ela era muito brava. (risos) Então, era muito... eu tenho lembranças maravilhosas da época da escola, foram as lembranças mais felizes, assim, de estar dentro daquele ambiente ali, de conhecer outros amigos e poder aprender. Nossa, os professores eram ótimos, né, eram ótimos, ótimos, ótimos, pessoas muito incríveis.  P/1 – E como seguiu sua formação? Você continuou em Diadema? R – Continuei em Diadema. Assim, eu morei até eu casar. Eu casei depois, com vinte e seis anos, eu morei em Diadema a minha vida inteira com minha família. Eu queria fazer faculdade, só que eu não tinha condição de fazer uma faculdade pública, porque eu não conseguia. Trabalhava à noite... trabalhava de dia e estudava à noite e ainda fazia alguns bicos, algumas coisas, eu fazia doces para vender para ajudar a pagar a faculdade. E aí, eu prestei vestibular em escola particular, passei na Anhembi-Morumbi na época, que era uma escola, uma faculdade que estava começando, era pequena ainda e aí eu passei, só que eu não tinha dinheiro para pagar a matrícula, porque era a mensalidade e matrícula juntos no mesmo mês e aí não tinha condição. E não tinha nenhum programa na época, não tinha Prouni, não tinha Fies, não tinha nada disso, o que a gente... minha mãe comentou com uma vizinha que morava na frente da casa da gente e essa vizinha falou: “Mas o que você pretende fazer?” e não dava, eu conseguia pagar a mensalidade, mas eu não conseguia pagar a matrícula e aí ela falou: “Não, eu vou ajudar a Ana” e aí essa vizinha emprestou o dinheiro, mas depois ela não quis receber de volta, muito fofa ela. Ela emprestou o dinheiro e aí eu paguei a matrícula e depois fui pagando a mensalidade, mas eu pagava a mensalidade juntando dois salários, porque não era só para a faculdade, o salário era para comer, para pagar ônibus, para pagar todas as coisas, que tinha que se virar. Eles, meu pai e minha mãe, não tinham condição de pagar. Então, eu tinha que juntar dois meses para pagar uma mensalidade, tanto que eu saí da faculdade depois que eu terminei os quatro anos, eu saí devendo um ano e aí eu paguei depois que eu terminei a faculdade, que eu terminei de pagar. Então, não era um processo muito simples não, mas fiz, fiquei muito feliz quando eu passei para Publicidade, fiquei feliz que eu passei para essa faculdade. Depois que eu terminei o colegial eu ainda fiquei um ano, pensando como é que ia fazer, como é que eu ia juntar dinheiro para fazer as coisas, mas foi muito interessante, assim. E eu lembro um episódio que, para mim, ficou bem-marcado da faculdade, que uma vez eu cheguei no pátio lá da faculdade e tinha um cartaz gigantesco escrito “lista dos devedores”. (risos) Na época, eles podiam fazer isso, né, não tinha código de defesa do consumidor nem nada, eu entrei na faculdade em 1988 e tinha uma lista dos devedores no pátio, eles faziam essa lista, a primeira vez que eu vi essa lista eu fiquei muito chateada, eu fiquei com vergonha, porque eu fiquei pensando: “Puxa, que feio, meu nome vai estar lá na lista dos devedores” e aí depois eu vi que a lista era muito grande, aí eu falei: “Ah, então tem muita gente, está tudo certo”. (risos) Eles faziam a lista dos devedores e quem devia não recebia a folha de prova bimestral, você tinha que... seu nome era chamado e, se você estava devendo, você tinha que buscar a folha de prova na tesouraria, porque você estava devendo. Era horrível, um negócio absurdo, assim, expor as pessoas à situação vexatória. E meu nome começava com A. A primeira vez que isso aconteceu eu fiquei muito, assim, vermelha, envergonhada, nossa, eu fiquei muito mal, mas aí, assim, quando eu vi que me chamaram, mas chamaram mais um monte de gente para buscar a folha de prova, eu falei: “Ah, tá bom”. Aí, no fim, virou até uma tiração de sarro nossa, que eram os devedores que iam buscar a prova na tesouraria, mas era muito feio, muito ruim. Então, a gente tinha que enfrentar isso, porque não tinha programa tipo Fies, Prouni e bolsas, essas coisas não tinha. Fazer faculdade naquela época era privilégio do privilégio do privilégio do privilégio, era só quem ou conseguia estudar num colégio particular bom e fazer uma faculdade pública, o que é um contrassenso, ou para quem realmente tinha recurso. Eu não tinha nenhuma das duas coisas: eu tinha estudado numa escola pública, não tinha recurso para pagar uma faculdade particular, então, você tinha que ter muita determinação para fazer, se não a maioria dos meus amigos não fez faculdade, a maioria dos meus amigos foi procurar emprego, né, foi se concentrar em trabalhar. Gente muito bacana, com muito potencial, tudo, mas não tiveram condição, né? Então, é bem difícil (risos). P/1 – E qual foi, assim, sua primeira impressão ao chegar na faculdade? Era um ambiente diferente do que você estava acostumada? R – Ah, eu achava que as pessoas eram ricas. (risos) Eu achava, assim, que só eu tinha uma situação ruim, difícil, eu via aquelas pessoas bem-vestidas, bem arrumadas, pessoas super ajeitadas, eu achava que as pessoas eram ricas. Depois eu entendi que não, que era muita gente com uma situação talvez não tão difícil quanto a minha, mas em situações também de batalha, de luta também para poder conseguir estar ali, mas a primeira impressão foi muito de sonho, assim: puxa vida, né, estou conseguindo entrar naquele pátio, aquele ambiente ali, com um monte de gente que já tinha meio aqueles estereótipos de Publicidade, gente com cabelo diferente, com cabelo colorido, gente com roupas legais, que era o estilo que, na época, achavam que era cool, né? Então, eu achei aquilo tudo muito bacana, muito legal, a realização de um sonho. Fiquei muito feliz de poder fazer a faculdade e poder estar ali. Depois eu percebi, né, que as pessoas realmente, também como eu, tinham dificuldades, as pessoas realmente estavam tentando superar seus desafios, cada um tinha uma batalha específica e eu tenho amigos da faculdade, uma turma, até hoje. São mais de trinta anos de formados e nós temos... até hoje a nossa turma se reúne, assim. (risos) P/1 – E como foi a formatura, você teve? Tinha que fazer TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]? R – Tive. Nós tivemos, tivemos o grupo de trabalho, TCC, que deu muita briga, (risos) ficamos de mal, depois voltamos. Então, assim: nosso TCC era criar uma campanha publicitária, na época nós criamos de uma... uma das meninas trabalhava na Sharp e aí nós criamos uma campanha publicitária para uma câmera da Sharp, não esqueço até hoje, era uma câmera que chamava VLL170B (risos) e aí o nosso grupo de trabalho eram cinco, né, nós fizemos o TCC. Foi super duro fazer esse TCC, assim, porque a gente tinha que trabalhar, todo mundo, a semana inteira. A gente se reunia de sábado, nem todo mundo estava com a mesma disposição, com a mesma vontade, ritmos diferentes, pessoas diferentes. A gente fez, foi nosso TCC, acho que a gente tirou nota... sei lá, nove e pouco, foi super bem avaliado. A gente tem fotos, assim, a nossa turma é muito unida, tanto do grupo do TCC, quanto do outro grupo, a gente tem três grupos que se juntaram e são amigos até hoje, de três grupos diferentes de TCC. Então, a gente tem uma relação muito bacana. A formatura, para mim, teve algumas simbologias difíceis, né, porque, de terminar, de se formar, foi muito bacana, mas no dia da formatura minha família não pôde ir, porque minha mãe tinha um problema de saúde mental, ela na época foi diagnosticada com esquizofrenia. Não é para menos, com uma situação de vida toda difícil dessa e ela teve uma crise, né, de... enfim, uma crise muito forte e aí a gente buscou ajuda espiritual na época e aí todos... toda a minha família teve que ficar com ela no dia da minha formatura, que estava previsto que as pessoas iam e aí ninguém pôde ir, eu fui à minha formatura sozinha. (risos) Então, isso foi bem difícil. (risos) Mas eu, assim... já foi pior lembrar disso, hoje faz parte (risos), faz parte. P/1 – E na época você trabalhava onde? R – Na época eu trabalhava já na Autolatina, porque foi também uma mega conquista, eu conseguir trabalhar numa multinacional, porque até então eu tinha trabalhado em empresas lá em Diadema mesmo, né? Empresas legais, tudo, mas empresas lá em Diadema. E aí eu tinha entrado, foi uma decisão também bem dura, foi uma decisão no terceiro ano de faculdade, porque eu passei no estágio na Autolatina, só que era para ganhar menos do que o que eu ganhava na empresa que eu trabalhava, que era uma indústria de  conexões de aço, mas aí eu tomei a decisão, hoje eu considero que foi uma das decisões mais difíceis, mas muito acertada, porque eu queria entrar na área de comunicação e era um estágio na área de Marketing e aí eu entrei na Autolatina, eu fiquei super feliz, porque era uma coisa meio de sonho, né, trabalhar numa empresa grande, numa multinacional, foi muito simbólico. E aí eu fiquei nessa empresa, eu lembro de muito, assim, não me senti parte, sabe? Não me senti inserida dentro daquele ambiente. Eu tive muita dificuldade de ajuste dentro da organização, porque eu não tinha o perfil que a maioria das pessoas lá tinham. Eu era de uma família humilde, tinha estudado em escola pública, tinha feito uma faculdade que não era de primeira linha e eu não falava inglês. Então, eu ouvia isso o tempo inteiro, como sendo impeditivo, sabe? E, assim, eu sentia que as pessoas me tratavam diferente, eu sentia isso em tudo, nas ações, nas coisas. Então, não foi um processo fácil de adaptação, mas no ano que eu entrei como estagiária foi... eu fui a única estagiária efetivada, naquele ano. Porque a minha forma de combater isso, o que eu nem entendia que era preconceito, eu nem sabia elaborar isso, a única forma que eu entendia, eu falava: “Eu vou trabalhar bastante, mostrar que eu sei fazer as coisas, vou estudar bastante, vou entender das coisas que eu estou aqui, para poder me sair melhor, porque é o único jeito, eu não tenho como mudar a minha história e o meu passado, né?” E aí foi o que eu fiz e naquele ano... eles não efetivavam direto como funcionário, mas me efetivaram como terceira, que era terceirizada, na época, nem existia muito bem esse conceito, por uma empresa de pesquisa, eu fui a única estagiária terceirizada naquele ano. Então, foi muito bacana, fiquei lá na empresa por mais três anos e aí eu pedi demissão, para trabalhar numa agência, porque eu queria muito entender o que era o universo de uma agência de propaganda, uma agência de comunicação. Fiquei um ano nessa agência e aí me chamaram de volta, aí eu voltei como funcionária mesmo, CLT, bonitinho, como funcionária da Autolatina na época. (risos) P/1 – E como você entendeu o que você tinha vivido, experienciado preconceito? R – Porque as coisas não eram assim: eu via para as outras pessoas, que tinham vindo de escola boa, que tinham feito faculdade de primeira linha, eu via que as coisas eram mais fáceis para elas. Eu ficava com muita raiva, não vou falar que era uma coisa simples não, eu tinha dificuldade para elaborar aquilo. E várias vezes conversava com o meu chefe, eu falava: “Mas por que eu não posso participar desses processos?”, porque tinham processos seletivos internos, para vagas melhores ou para posições melhores. Na época, eu lembro de um processo de trainee que teve, todo ano tinha uma turma de trainee e os trainees era uma coisa, assim, como se fosse, sabe, eram os reis que entravam na empresa. E aí eu fui questionar a minha chefe, o RH, eu falei: “Eu não posso entrar no programa de trainee?” E aí, assim: “Como você quer entrar no programa de trainee? Você não fez uma faculdade de primeira linha, você não fala inglês, então: você não tem boa formação”, mas eles falavam isso na minha cara, não era uma coisa disfarçada não. Aí eu fui ao RH e eu lembro que conversei, na época, com o cara de RH, um gerente, eu falei para ele: “Mas eu não acho certo vocês não deixarem eu nem participar”. E aí eu, tolamente, né, porque eu não entendia qual era a regra do jogo, falei: “Não, eu quero participar”. E eu acho que eles ficaram com receio, porque eu falei que eu queria participar, eles me deixaram participar do processo, mas obviamente eu não passei, né, porque eu não tinha os requisitos que eu ouvia o tempo inteiro: “Ah, você não estudou em escola de primeira linha. Ah, você não fez faculdade de primeira linha, blá, blá, blá, não fala inglês”. Então, assim, aquilo foi me deixando realmente bastante chateada, só que eu não elaborava o preconceito, não entendia o preconceito, eu não conseguia falar sobre isso para as pessoas: “Ah, vocês estão sendo preconceituosos”. Eu falava de injustiça, eu falava: “Isso não é justo, eu estou aqui, eu tenho um ótimo desempenho, eu faço tudo que é exigido do meu cargo, eu entrego muito mais do que o que vocês me pedem e vocês não me dão acesso e condição a uma coisa que eu gostaria, para ter uma carreira mais... conseguir outros passos na minha carreira”, mas não dava certo, não andava. E aí eu ficava muito chateada, aquilo me consumia, porque eu via outras pessoas com menos capacidade, com menos entrega, mas porque tinham os requisitos que eles queriam, tendo carreiras mais rápidas do que a minha. Então, era tudo muito complicado, muito difícil. Eu lembro que teve um chefe que falou para mim: “Às vezes, você tem que se conformar com as coisas, Ana”. Eu falava: “Não, mas porque eu tenho que me conformar? Eu tenho capacidade, eu não estou... se não tivesse capacidade, está tudo bem, mas eu tenho” e ele falou assim: “Meu, você briga muito, você fica...”, como se o fato de eu querer melhorar fosse alguma coisa que eu não devesse querer, sabe? Então, assim, não foi um processo fácil. O que eu fiz para tentar superar isso e eu fiz isso também não elaborado, eu fiquei refletindo assim: “Como que eu faço para poder eliminar esses fatores que me bloqueiam nas coisas, para eu poder desenvolver melhor minha carreira?” Aí o colégio não tinha como mudar, o colégio não tinha como fazer, aí ele... a questão da faculdade, a solução que eu encontrei foi fazer uma pós bacana, na época, eu fiz pós em Marketing na ESPM. Guardei todo o dinheiro, assim, quase tudo, para poder fazer essa pós, fiz porque a ESPM, na época, era uma faculdade super considerada na área de Comunicação e Marketing e foi o que eu, na minha cabeça, falei: “Tá bom, eles querem marca, então vou lá. A faculdade que eu fiz eles não consideram a melhor, vou fazer uma pós em Marketing na ESPM”. Fiz, eu falei: “Bom, então isso... vamos tirar esse tiquezinho aqui”. Um outro que era muito difícil era o inglês porque, em escola pública, imagina, vem de família pobre, escola pública, você não aprende inglês, você fica aprendendo ano após ano o verbo To be. Então, não é uma coisa que é muito fácil, eu tinha muita dificuldade de aprender inglês, muita, eu não tinha paciência, não tinha disciplina, não conseguia, aprender inglês adulto é muito difícil. Aí eu fiz um curso numa escola simples, que era o CNA, era o que eu conseguia pagar, tinha gente que era meu colega e falava assim: “Ah, mas você tem que fazer num Alumni, você tem que fazer na Berlitz”, eu falava: “Mas eu não tenho dinheiro, fofinho, para fazer nem na Alumni e nem na Berlitz. Eu tenho dinheiro para fazer CNA”. E aí eu fiz durante três anos, só que não evoluía, o inglês não evoluía, até que na época, ganhei uma viagem para Orlando, fui sorteada, ganhei uma viagem para Orlando, fui lá, mas não aprendi nada, o inglês não evoluía, não andava e aí eu tive a ideia, falei assim: “Meu...”, eu já estava casada, tudo, não tinha minhas filhas e eu falei para o meu marido, na época: “Eu preciso tirar esse negócio da frente, eu preciso aprender inglês”. E aí eu fui ver um curso fora, fiz a mesma coisa: juntei dinheiro, né, cara e coragem, consegui uma casa de família lá em Londres, adulta, né, eu fui fazer um intercâmbio com um monte de adolescente, eu era adulta (risos), então era um negócio muito doido. E aí pedi uma licença não remunerada no Banco Autolatina, que eu trabalhava na época, fui falar com minha gerente, falei com meu diretor, eu falei: “Olha, eu sei que não é uma coisa normal, mas eu queria muito tirar essa questão da frente, eu queria aprender inglês” e aí eles permitiram que eu tirasse a licença não remunerada, aí depois eu pedi, ainda, para esse meu diretor, eu falei: “Você não pode, além da licença não remunerada, arrumar um estágio para mim na Volkswagen de lá, né, em Londres?” E ele mexeu os pauzinhos lá dele e conseguiu, daí eu fiz - acho que foram quase três meses - um curso de inglês, todo dia de manhã, eu fazia das oito a uma lá, em Londres e à tarde eu fazia três vezes por semana um estágio na Volkswagen, que ficava a uns quarenta quilômetros... quarenta minutos de Londres. Eu ia para lá e trabalhava para aprender melhor o inglês. Foi, assim, a melhor coisa que eu fiz na vida. Comi lanche durante três meses, assim: eu comia refeição na casa de família, que era de manhã, a parte da manhã que estava incluído e à noite e durante o dia eu tinha que me virar. Então, como eu não tinha muito dinheiro, eu fazia o que era possível. Comia o fish and chips lá dos londrinos, (risos) aquele peixe no jornal, comi várias vezes (risos) e falei: “Não, eu tenho que me virar”. E foi isso que me ajudou muito na carreira. Quando eu voltei a trabalhar, fiquei mais um tempo, aí consegui uma promoção, depois eu já fiquei, um tempo depois, grávida da minha primeira filha, eu fui promovida e as coisas começaram a caminhar um pouco melhor. Não vou dizer também que foi fácil, porque uma pessoa lá, um trainee que vinha desse processo levava um ano, dois anos pra conseguir um cargo executivo, eu levei dez anos, durante esse processo todo. (risos) Então, não era uma coisa fácil, mas era o que era possível. P/1 – E como você conheceu o seu marido? R – Ah, isso tem uma história muito legal: eu conheci o meu marido no cursinho para a faculdade, porque antes de eu entrar na primeira faculdade, eu fiz três meses de intensivão. Eu não tinha dinheiro para fazer um cursinho o ano inteiro, porque não dava, aí tinha um programa que eles chamavam de ‘intensivão’, que você fazia de outubro até dezembro, até o começo de dezembro, para dar um reforço no que você sabia do ensino médio, para você tentar uma faculdade e aí eu fui fazer o Etapa, na Ana Rosa. Consegui, juntei, fiz todos ao ‘paranauês’ lá, ainda consegui desconto, fiz um monte de coisa e aí, no primeiro dia de aula, não sei se foi no primeiro dia de aula, eram aquelas classes grandes, gigantes e fui eu e uma amiga. Essa amiga queria fazer cursinho, porque ela queria arrumar um namorado (risos) e eu queria fazer cursinho porque eu queria entrar na faculdade, tinha muita vontade de entrar na faculdade. No fim, ela não arrumou namorado e eu arrumei namorado no cursinho (risos) e aí foi muito legal, porque um dia eu cheguei atrasada para a aula e eu estava com uma mochila e eu estava com um pacote de absorvente na mochila, (risos) eu estava num... eu estava menstruada e aí eu fui me sentar e, no que eu fui me sentar, a mochila estava aberta e o pacote de absorvente caiu no chão. (risos) Meu marido diz que ele não lembra direito disso até hoje, ele fala que ele olhou, mas ele não olhou como eu acho que ele olhou, ele virou para trás e tinha um monte de absorvente caído no chão (risos) e era eu tentando botar os absorventes dentro da mochila. Ele olhou, assim, deu aquela risadinha sem graça, né e aí... enfim, aí a gente passou a conversar, falar um oi, dar umas risadinhas bestas e um mês depois a gente estava namorando, assim. A gente começou namorar no cursinho, ele era bem quietinho, eu também era mais quieta, aí a gente começou a falar um com o outro e um dia a gente foi assistir uma peça de teatro, que fazia parte do cursinho também, que era para a gente aprender sobre cultura, tudo e a gente começou a namorar lá. E, de lá para cá, são trinta anos, quase trinta anos, meu Deus, (risos) de casado e uns trinta e poucos juntos. (risos) P/1 – E como foi o casamento de vocês? R – Ah, foi supersimples. A gente se casou na igreja, assim: a família dele também católica, que nem a minha família, queriam que casasse na igreja. A gente também estava naquele começo de vida de não ter recurso, como a gente se vira? A gente comprou um apartamento financiado no BNH, maior bobagem que a gente fez na vida (risos). Na época era BNH, não lembro o nome, que era um sistema de habitação, que era o apartamento que você comprava pra financiar em trinta anos, era uma coisa de doido (risos). A gente comprou num bairro muito simples aqui da zona sul de São Paulo, mas aí foi entregue, foi o nosso começo de vida. A gente se casou numa cerimônia, numa igreja aqui da Vila Mariana, uma igreja que chama São Francisco, com a família junto. Assim, não ia fazer festa, no fim meu irmão ajudou, contratou um buffet, aí o outro levou o som, aquelas coisas bem de improvisado, né? (risos) A gente alugou um salão, aí veio gente da minha família, gente da família dele, alguns amigos nossos. Foi bem gostoso, tinha umas cento e poucas pessoas, nada grandioso. Eu aluguei o meu vestido de uma amiga também, que morava no interior e que é minha amiga e comadre até hoje. Então, assim, foi tudo muito simples, mas muito cheio de simbologia para a gente. Eu me casei com vinte e seis anos, a gente se casou cedo, os dois, nós temos a mesma idade, a gente casou muito cedo, também batalhador ele, eu brinco que ele é mais playboy do que eu, (risos) ele fica bravo, (risos) porque ele é de uma família também simples, tudo, mas com uma jornada menos desafiadora, vamos assim dizer, do que a minha. (risos) P/1 – E, Ana, como foi se tornar mãe? Como foi sua gravidez? R – Tem uma história bem triste antes, que é uma história, que hoje já consigo falar com mais tranquilidade, mas eu tinha muita dificuldade de falar. Eu tive uma primeira gravidez com trinta e cinco anos, a gente esperou bastante para ter filhos, nos casamos com vinte e seis e eu fiquei grávida da minha primeira filha com trinta e cinco. Ela faleceu, porque nasceu prematura, de sete meses, seis para sete meses. Foi um processo muito difícil, foi uma gravidez muito difícil, porque foi uma gravidez de alto risco, eu fiquei em casa três meses de cama, não podia sair, só podia levantar para ir ao banheiro, porque eu tive uma gravidez de altíssimo risco, foi um processo muito duro, porque... ai, ainda tenho dificuldade de falar nisso. (risos) Eu fiquei quase trinta dias no hospital no último mês de gravidez dela, para poder conseguir com que ela ficasse mais tempo. Ela nasceu e faleceu dia 6 de agosto de 2001, eu não pude ir ao velório, nem no enterro dela. (choro) Vixi, está vendo? (risos). Isso tem dezenove anos e, mesmo assim, ainda emociona. Foi bem difícil. E aí eu tinha um problema de saúde que, na época, a gente não sabia direito o que era, aí o médico falou: “Olha, é melhor vocês esperarem, então, não precisa evitar, vai durar, vai esperar mais uns dois, três anos para você ficar grávida e vai tocando a vida”. Foi um processo duro, porque eu estava de licença, eu tive que sair de licença maternidade porque, como ela nasceu, tudo, teve todo processo jurídico legal, enfim, foi uma etapa muito dura na minha jornada e aí, para nossa surpresa, ela nasceu e faleceu dia 6 de agosto, em dezembro eu fiquei grávida de novo, (risos) assim, sem muita expectativa, né, que ia ficar grávida com essa rapidez, porque o médico falou: “Olha, a chance de você ficar grávida rápido não vai ser tão rápido assim” e aí a Daniela, que é minha filha hoje tem dezoito anos, nasceu no dia 18 de agosto do ano seguinte, também no mês de agosto do ano seguinte, também foi uma gravidez de risco, também passei por algumas dificuldades na gravidez dela, mas felizmente consegui levar até os nove meses e aí está uma moça, (risos) com dezoito anos, muito maravilhosa. E a Daniela hoje, enfim... aí eu queria muito, eu insisti muito na época com o meu marido, porque eu queria muito ter dois filhos, duas meninas, dois meninos, duas crianças, eu queria ter dois filhos e passou um tempo depois que a Daniela nasceu, eu comentei com o meu marido: “E se a gente adotar?” Porque eu não queria mais ter gravidez, porque eu falei: “Eu não dou mais conta, meu organismo já não dá conta disso”, ele falou: “Vamos”, eu falei: “Nossa, vamos?”, ele falou: “Vamos”. (risos) Eu falei: “Vamos pensar um pouco”. Aí passou um tempo, uns meses, eu falei: “Você está no ‘vamos’ ainda?”, ele falou: “Estou” e aí nós fizemos o processo para entrar na fila de adoção, nós fizemos processo de aprovação, tem toda uma documentação, entrevista, tudo mais e entramos na fila de adoção. Na época, a Daniela tinha três anos, acho que não tinha nem três ainda e a gente achou que era rápido, a gente falou: “Ah, a gente vai entrar na fila e vai ser rápido” e aí não foi, né, demorou dois anos e meio para chegar a nossa vez na fila. E aí um dia ligaram do Fórum, a gente ficou muito, muito, muito emocionado, chegou nossa segunda filha, que é a Evelyn, que hoje tem treze anos, na época ela chegou com dez meses, era assim uma “pitchutchuca”. Eu lembro que a psicóloga do Fórum falou: “Olha, Ana...” - ligou e falou: “... chegou sua vez na fila, sua e de Luciano, nós temos uma menina, chama Evelyn, ela tem dez meses e ela pesa nove quilos (risos) e eu lembro: “Nossa, que fofinha!” (risos) E aí a gente fez o processo todo, foi muito emocionante para a gente, foi muito forte, assim, esse processo de conhecer a Evelyn, de conhecer a história dela. Foi muito emocionante, porque o Fórum ligou na quarta-feira, na quinta-feira a gente foi lá conhecer a história e na sexta-feira de manhã, fomos conhecer a Evelyn no abrigo e à tarde a trouxemos para casa. (risos) De quarta-feira para sexta-feira foi uma loucura. E a gente não tinha - porque na época a Daniela já estava com cinco anos - berço mais, a gente não tinha nada de bebê e tivemos que correr atrás de tudo na sexta-feira, assim, enlouquecidamente. Foi muito bacana, assim, porque ficamos num vai para lá, vem para cá, corre com tudo e a Evelyn veio para casa no dia 17 de outubro, numa sexta-feira, foi um dia muito simbólico para a gente, ela estava com dez meses, uma gordinha, fofinha e hoje ela está com treze anos, uma ‘pirulona’, mais alta que eu, ‘magrelona’. (risos) E, enfim, foi, assim, bem importante, bem simbólico para a gente também. P/1 – E no nascimento da Daniela, que eu imagino que foi um nascimento de se tornar mãe também, como foi esse momento? Como foi levá-la pra sua casa? Como foi sentir todas essas emoções? R - Foi muito assustador no começo, (risos) porque eu tinha medo de tudo, né? Eu tinha medo de pegá-la no colo, tinha medo de machucar, tinha medo de dar banho. Quem deu os primeiros banhos foi meu marido. (risos) Quem deu os primeiros banhos foi ele, ele falou assim: “Não, vamos aqui juntos”. Quando ela nasceu foi muito forte, ela nasceu num domingo, às nove e cinco da manhã, foi programado por conta da gravidez de risco, então teve que ser uma cesariana, não dava para ser um parto normal, assim, ela nasceu supergrande, com quatro quilos. Foi aquela coisa de ser mãe, né, que é um misto de sentimentos: você tem muita alegria, mas você começa a ter um medo danado, é uma coisa maluca, não sei porque você começa ter um medo danado, você tem medo de tudo, você tem medo de machucar, você tem medo de você morrer, você tem medo de um monte de coisa, então é um misto de sentimentos muito... e foi muito, muito, muito forte quando ela chegou em casa, né, quando a gente chegou com ela em casa, porque também, querendo ou não, lembrava da outra situação, que eu cheguei em casa sem ninguém, então foi bem forte. A gente... no começo o Luciano ficou comigo durante quase trinta dias, porque ele tirou férias, foi muito bom. No primeiro dia que ele voltou a trabalhar eu chorei o dia inteiro, (risos) eu falava: “Meu Deus, eu não vou conseguir sozinha”. (risos) Mas foi muito, assim: ser mãe, para mim, é uma das melhores coisas da minha vida, assim, ser mãe das duas. Mãe em todos os sentidos, mãe da Evelyn, mãe da Dani, para mim não tem coisa melhor na vida. Não sei se eu sou a melhor mãe para elas, mas eu sei que eu adoro ser mãe delas. (risos) P/1 – E você lembra de alguma história marcante com as duas, assim, tem algum momento que vocês gostam de viver juntos, alguma atividade? R - Elas gostam muito de ficar na... assim, no espaço aberto, no sol, gostam muito de praia, né, assim, aquela coisa do mar. A Evelyn, quando era pequenininha, assim, mexer as perninhas, a Dani também mexer as perninhas, fazer aquelas brincadeiras na areia, né, de estar... corre atrás das ondinhas, se joga, não sei o que nas ondinhas, (risos) isso é uma das coisas que a gente, inclusive, está sentindo muita falta, porque não pode fazer isso há mais de um ano. Lembro muito: a gente morava numa casa com quintal e a gente comprou uma piscininha, né, a Dani tinha cinco e pouco, a Evelyn ainda era um bebezinho, tem umas fotos lindas dessa época, no quintal com grama e a gente botou aquela piscininha Regan ali, elas ficavam brincando, uma do lado da outra, dentro da piscina, a gente em volta. Eu, Luciano, às vezes, as irmãs do Luciano ali com a gente. Muito gostoso essa convivência das duas. Nem sempre foi pacífica, né, porque são irmãs, (risos) como todos os irmãos brigam volta e meia, mas é muito gostoso ver a relação de brincar ao ar livre, de sair. A gente gosta muito, gostava, ainda gosta, mas não dá para fazer, de ir num parque que fica aqui perto, que é o Parque do Ipiranga, que tem o Museu do Ipiranga, que as pessoas conhecem mais o museu, mas atrás tem um parque, um parque mesmo, com lugar para criança brincar e a gente gostava muito de lá, muito, com as duas, muito. Então, a gente olhava ali, porque o Museu do Ipiranga, a parte da frente é super bonita, atrás tem esse parque com parquinho e tudo mais, lugar para andar de bicicleta, de skate e do outro lado tem aquela área superaberta, que tem uma pista gigante ali, onde tem também área dos cachorros. Ali é o lugar que é muito, muito simbólico pra gente, que a gente gostava muito de ir. Agora temos um pouco de medo ainda, por conta da pandemia. P/1 – E na época que vocês tiveram a Daniela, você ainda estava trabalhando na multinacional? R - Ainda estava trabalhando, eu trabalhei lá dezoito anos, eu fiquei lá dezoito anos. Eu entrei como estagiária, depois eu fui efetivada como terceirizada, depois eu saí durante um ano, depois eu voltei e ao todo eu fiquei dezoito anos lá, quando eu pedi demissão em 2007. A Daniela tinha cinco, foi em 2007, em dezembro eu pedi para sair, eu tinha a Daniela, mas não tinha vindo a Evelyn ainda, eu estava na fila de adoção. A Evelyn veio em 2008, eu já tinha saído de lá, tinha trabalhado uns meses numa outra organização, que também não gostei e aí, em 2008, outubro de 2008 veio a Evelyn, aí eu comecei a ser empreendedora e aí fiquei. (risos) P/1 – E quando o empreendedorismo começou a fazer parte da sua vida? R – Com a vinda da Evelyn, na verdade, assim. Eu, na verdade, estava muito infeliz no ambiente corporativo, nessa multinacional, eu já tinha uma consciência mais elaborada do processo discriminatório, né e tudo mais e a discriminação não passou a ser mais a questão da faculdade, nem da língua e passou a ser o fato de eu ser mulher. Eu era a única mulher executiva, durante muito tempo, tinha que superar muito mais desafios, eu tinha que provar muito mais o tempo inteiro e isso cansa! A gente não tem saúde emocional para ficar superando o tempo inteiro, então aquilo cansava demais. Eu trabalhava muito, eu continuo trabalhando muito hoje, mas eu não tinha a flexibilidade de tempo e de horário, então eu ia para lá, ficava lá, às vezes, voltava para casa nove, dez horas da noite e eu já não enxergava mais propósito nem nada, eu estava muito cansada, mentalmente, fisicamente e tudo mais, aí eu pedi demissão, não sabia se eu ia empreender, eu ainda fui trabalhar numa outra organização, fiquei seis meses, sete meses ao todo nessa outra organização e foi aí que eu realmente decidi, que eu falei: “Meu, acho que eu posso tentar alguma coisa no ambiente empreendedor”. Eu abri meu primeiro negócio no final de 2008 para 2009, aí abri com outro sócio, não deu certo, as coisas não andaram bem, nunca tinha tido negócio formal ou oficial, a gente não se entendeu, mas eu gostei de empreender, gostei de conseguir fazer as coisas, gostei de poder criar o meu próprio jeito de construir o negócio e foi aí que me apaixonei, aí o bichinho do empreendedorismo não me largou mais, toda vez que alguém falava: “Ai, você tem que largar esse negócio e ir para o mundo dos negócios, para poder ganhar dinheiro”, eu falava: “Gente, eu vou fazer alguma coisa para conciliar essas duas coisas, porque não é possível, eu quero criar o meu próprio mundo dos negócios”. Então, acho que isso fez muita diferença. E a partir daí eu não larguei mais, desde 2008 que eu sou empreendedora, em 2009 o meu primeiro CNPJ, que foi o ElogieAki, que foi um site de elogios na internet, de recomendações positivas, depois eu abri a Rede Mulher Empreendedora e depois... tudo paralelo, um espaço de coworking, que era um escritório compartilhado. Assim: é muito ralação, muito difícil você empreender no Brasil, é muita dificuldade, então, assim, eu me apaixonei pelo universo empreendedor e depois me apaixonei pelo universo de empreendedorismo social, de impacto e pela causa das mulheres e estou nela desde então, apesar dos altos e baixos, porque é sempre muito difícil você empreender, é sempre muito difícil você conseguir, lidar com risco, porque empreender tem muito a ver com o risco, mas, assim, eu não troco por nada - claro que hoje é mais fácil, porque onze anos, na verdade, no total, treze anos se passaram - acho que a jornada que eu construí no ambiente empreendedor, impactar a vida de milhões de mulheres pelo Brasil afora, para mim não tem preço melhor. (risos)  P/1 – E como você... como foi esse processo de escolher a causa das mulheres? Acho que foi esse o termo que você usou.   R - Na verdade, o processo de escolher a causa foi uma descoberta, Luiza. Eu fui, com o primeiro negócio, selecionada para participar de um programa, que era um programa social de uma fundação que chama Fundação Goldman Sachs, que oferecia curso para mulheres - de gestão de negócio - no mundo inteiro, em mais de vinte países, eram cursos gratuitos, nas melhores universidades de negócio. Aqui no Brasil quem fazia era a FGV, a Fundação Getúlio Vargas e aí eu me inscrevi no processo seletivo e estava com ElogieAki, na época, que era a plataforma de recomendações positivas e eu lembro que eu fui selecionada para participar do processo seletivo. O processo seletivo foi super difícil, não foi um processo fácil, tinha várias etapas, inclusive uma entrevista final com o pessoal da Fundação Goldman Sachs dos Estados Unidos, que vieram para São Paulo, para fazer entrevistas com as finalistas. Então, assim, era um processo muito elaborado de seleção e eu conheci, durante esse processo, várias outras empreendedoras, na sala de espera, nas conversas, esperando pelas entrevistas conheci várias e aí, na etapa final, eu fui aprovada. E aí, no primeiro dia de aula, na FGV, imagina a simbologia, né? O primeiro dia que eu entrei no prédio da FGV, aquilo para mim era uma coisa absolutamente surreal, porque a melhor escola de negócios da América Latina, aquilo tinha uma coisa, assim, muito forte e aí eu entrei na sala de aula e o coordenador do curso, que é meu amigo e hoje é vice-diretor da GV, tanto que eu o infernizei, os coordenadores do curso falaram assim: “Vocês são as trinta e cinco privilegiadas que foram selecionadas para esse processo desse programa, que se chama 1000 Mulheres. É um programa onde vocês vão, durante três meses, dois dias inteiros por semana, sexta-feira e sábado o dia inteiro, aprender como fazer a gestão do negócio de vocês, com os melhores professores aqui da GV, tudo de graça”. Então, assim, aquilo foi uma coisa muito forte, só que ao invés de eu me sentir feliz, me deu um negócio, assim, me deu uma coisa, um incômodo, que eu não sabia direito o que era e aí eu fiquei elaborando esse incômodo, na segunda semana do curso, eu fiquei assim: gente, eles disseram, nesse primeiro dia de aula, que tinham mais de mil inscrições para as trinta e cinco vagas que nós fomos aprovadas e aí eu comecei a perguntar para os coordenadores, eu falei assim: “E as novecentas e tantas que não passaram, o que vai acontecer com elas?”, eles falaram: “Ana, a gente tem recurso para uma turma a cada seis meses, de trinta e cinco mulheres, então as outras a gente não tem o que fazer”. Eu fiquei matutando, pensando o que eu poderia fazer e aí, na segunda semana, mulheres, né, nós já estávamos amigas de infância, a nossa turma, as trinta e cinco, a gente já sabia da vida uma da outra, todo mundo já se conhecia, eu falei: “Gente, eu vou começar a escrever sobre o que a gente aprende aqui. Eu sempre gostei de comunicação, eu vou escrever”. Na época era um blog e eu dei o nome para esse blog de Rede Mulher Empreendedora, aí eu falei: “Quem sabe, o que a gente aprende aqui, eu ensino para outras mulheres”. E aí eu pedi para a coordenadora do curso, eu falei: “Eu posso mandar para as que foram as mil inscritas?”, ela falou: “Pode, me dá o endereço do blog, a comunicação e eu mando para elas” e foi isso que ela fez. E aí para minha surpresa, assim, durante o programa inteiro, tudo que eu aprendia, eu transformava na minha linguagem, que é uma linguagem mais simples, mais direta, mais objetiva e passava nesse blog. Então, ensinava a fazer a gestão, como contratar, fazer planilha financeira, fazer várias coisas, só que eu não sabia de todos os assuntos. Então, o que eu fiz? Eu comecei a pegar mulheres da turma, eu falei: “Você sabe de contabilidade?” Tinha uma contadora, tinha outra que sabia de vendas, tinha outra que sabia de marketing, tinha outra que sabia de RH (risos), eu falei: “Me ajuda aqui? Você me ajuda a escrever também aqui no blog”. E foi assim que surgiu a Rede Mulher Empreendedora. Assim: era uma coisa que eu fazia, eu fazia à noite, de final de semana, para poder ajudar outras mulheres, ensinando o que eu aprendia lá na classe, só que a diferença era a minha linguagem. E o que foi mais assustador: deu doze meses depois, a gente terminou o curso, teve a formatura e tudo mais e eu continuei alimentando, com doze meses eu tinha cem mil mulheres acompanhando esse blog, eu falei: “Meu Deus do céu, o que é isso?” E aí eu tinha um espaço de coworking, a ElogieAki ainda existia, eu falei: “O que eu vou fazer com isso?” e aí eu pensei: “Eu vou tentar transformar isso num negócio” e foi caminhando, assim, as coisas foram acontecendo. Aí eu entendi a causa das mulheres que, para mim, não era ainda uma causa, eu entendi que o que eu estava fazendo estava ajudando outras mulheres que, como eu, também estavam empreendendo, mas não se reconheciam. Na época, eu brinco que tudo era mato, não tinha ninguém falando de mulher, ninguém falando de empreendedorismo feminino e não tinha ninguém falando de mulheres dentro do ambiente de negócios. Então, por isso que foi um sucesso muito grande, porque eu era a única referência, tudo o que a gente falava virava, assim, rastilho de pólvora, todo mundo compartilhava, divulgava. Tinha post - quando vieram as redes sociais, quando veio o Facebook - meu que tinha, assim, milhares de compartilhamentos, porque não tinham outras referências. E foi assim que eu fui entendendo que tinha uma causa, que eram as mulheres, que tinha uma causa que era geração de renda, ou seja, ajudar as mulheres a conquistar a independência financeira e foi... a Rede foi crescendo de forma orgânica, ela não foi um negócio construído como negócio, com plano estruturado, ela foi construída baseada na minha dificuldade de ajudar outras mulheres e do meu inconformismo. O Tales, que é vice-diretor da GV e que eu tenho o maior carinho, e a Maria José, na época eram os coordenadores e continuam hoje na GV. Eu faço muita questão de sempre dar crédito, porque eles me ajudaram, eles me orientaram, eles me deram apoio e fazem isso até hoje e foi muito bacana, porque eles falaram: “Ana, mas, assim, fica quieta. (risos) Faz o seu curso (risos) e fica quieta aqui” e eu não quis fazer o curso e ficar quieta, eu falei: “Não, eu quero aprender o que está aqui e passar para outras pessoas”. Então, acho que isso tem muita simbologia, sabe? É muito bacana, foi muito importante para mim e foi muito importante esse começo da Rede. Entender essa causa, entender as mulheres e, de lá para cá, a Rede hoje tem onze anos, é a maior plataforma de apoio às mulheres do mundo. Nós temos um milhão de mulheres dentro da nossa plataforma, a gente, assim, ajuda essas mulheres com tudo gratuito, tudo: curso, capacitação, treinamento, mentoria e a gente é financiado por fundações e organizações internacionais que nos apoiam. Então, isso é muito importante   P/1 – E nessa época que a Rede estava virando um negócio, aí o ElogieAki ficou... você fechou, não? É isso? R - Eu fechei. Na verdade, assim, o que eu fiz? Eu tinha três negócios: o ElogieAki, o espaço de coworking e a Rede. Só que a Rede não era um negócio, ela era um movimento, que eu gostava de fazer, mas que não me dava retorno financeiro e eu tinha que viver do ElogieAki e do espaço de coworking. Aí o ElogieAki a gente teve uma briga de sociedade, nós dissolvemos a nossa sociedade, eu e mais os dois sócios e, na dissolução, a gente vendeu o ElogieAki, então em 2011 eu vendi o ElogieAki, não me pertence mais, ele existe até hoje. Em 2014, a Rede continuava como movimento e tudo mais, porque eu abri a Rede em 2010, em 2014 eu fechei o espaço de coworking, por quê? Eu falei: “Gente, eu estou dedicando mais tempo, mais amor, (risos) mais tudo, para a Rede, então tenho que fazer a Rede ser um negócio social, ser um negócio que tem uma causa que ajuda as mulheres, mas que também dá retorno financeiro, para eu poder conseguir ajudar mais gente e aí eu fechei o espaço de coworking em 2014 e aí, de lá para cá, só a Rede Mulher Empreendedora e eu botei na cabeça que eu ia fazer a Rede virar um negócio social, virou um negócio social, que hoje é essa referência que a gente tem. Teve muitos altos e baixos, muitos desafios no meio do caminho, porque muitas vezes eu não tinha dinheiro para pagar as contas. Porque eu fazia tudo de graça e eu acreditava e acredito até hoje que é importante, para a gente ser inclusivo, a gente dar oportunidade para pessoas que não têm dinheiro para pagar. Então, tudo que a gente faz na Rede é de graça até hoje. Então, eu tinha que buscar outras formas de fazer um modelo de negócio acontecer e isso não foi um processo fácil, foi um processo bem complicado. Então, foi a partir daí que eu consegui criar outros modelos de negócio e aí, sim, focar só na Rede Mulher Empreendedora. P/1 – E quais são... foram ou são os maiores aprendizados com essa experiência? R – Nossa, muitos... tem muitos aprendizados importantes, assim. Eu tive muita gente que me ajudou nessa jornada, eu acho que esse foi um dos principais aprendizados porque, quando eu saí do ambiente corporativo eu estava meio descrente nas pessoas, sabe? (risos) Porque era um ambiente muito competitivo, era um ambiente onde as pessoas não estavam verdadeiramente interessadas em ajudar as outras pessoas e eu queria muito sair desse universo e trabalhar no universo mais colaborativo. Então, eu, para a minha alegria, tive muito mais gente que me ajudou do que gente que foi do mal. A gente teve gente do mal, assim, não tem como, a gente vive... é natureza humana, mas, felizmente, a maioria das pessoas me deu a mão, abriu a porta, fez uma recomendação, me ajudou, me deu um conselho, me deu uma palavra amiga e, assim, isso foi super importante para mim, esse foi um primeiro aprendizado. O segundo aprendizado foi que é possível você criar um negócio, mesmo que você não tenha dinheiro. As pessoas têm muito uma noção de que ter negócio tem a ver só com dinheiro e, assim, não foi fácil, não estou falando que é fácil, mas foi possível, eu criei um negócio que não tinha recurso financeiro nenhum, baseado em colaboração. Então, esse foi o segundo grande aprendizado: é possível criar um negócio sem dinheiro. O terceiro grande aprendizado é que as pessoas falavam para mim, as pessoas gostam muito de falar de colaboração e de voluntariado, mas as pessoas não gostam de fazer e isso foi muito curioso porque, na verdade, foi exatamente o contrário comigo. Até hoje eu tenho dificuldade de lidar com a quantidade de voluntários que se candidatam para nos ajudar. (risos) Então, assim, era uma coisa que as pessoas falavam: “Imagina, Ana, não dá para criar um negócio colaborativo baseado em voluntariado”, eu falei: “Dá”. E foi muito legal, não é simples, porque você tem que criar regras, modelos, trazer as pessoas certas e hoje a gente tem um negócio com mil voluntários no Brasil inteiro, que ajudam a Rede a chegar a mais mulheres. Então, esse também foi um aprendizado muito importante para a gente. Foi muito importante para mim, muito importante para minha jornada, entender que o meu sonho não era um devaneio, era um sonho de verdade: (risos) trabalhar com voluntariado e colaboração. E outro aprendizado, Luiza, que também foi muito importante, foi entender que o Brasil é muito grande. As pessoas têm uma percepção de que o Brasil é São Paulo ou são as capitais. A quantidade de mulheres fazendo coisas incríveis, assim, construindo coisas legais por esse Brasil é tão importante, é tão bacana! Assim: você vê mulheres, lá, ribeirinhas, nós estamos fazendo um programa agora pra mulheres ribeirinhas; mulheres indígenas; mulheres venezuelanas; mulheres trans; mulheres negras; mulheres de todos os cantos do Brasil, fazendo coisas incríveis. Então, a gente procura aqui na Rede, a gente fala muito isso: o Brasil não é São Paulo, o Brasil não são as capitais, o Brasil é muito maior que São Paulo e as capitais, o Brasil é gigantesco e tem muita gente fazendo coisas incríveis. Então, esse foi um aprendizado muito importante. Ainda mais para mim, que nasci no sertão de Alagoas, ter uma coisa, um negócio que chegue em mulheres do Brasil inteiro! Então, esse foi um aprendizado muito incrível, muito importante também para a gente. E, assim, por último - tem outros aprendizados, claro - que você tocar um negócio, você nunca vai fazer sozinho, né? Por mais que você... eu tive muitos problemas de sociedade, mas eu acredito muito em trabalhar junto com outras pessoas, então a Rede, hoje, tem trinta colaboradores diretos, tem mil voluntários no Brasil inteiro, tem um Conselho com onze pessoas que nos ajudam, então não faço nada sozinha, eu super acredito que fazer as coisas juntos é muito melhor. (risos) P/1 – E você consegue identificar o que fez com que você não desistisse, que você enfrentasse todos os desafios? R – Eu acho que tem uma combinação: o fato de eu ter essa história muito... não romantizando desigualdades, mas essa história de desafios... assim, eu nunca tive nada fácil, então, para mim, desistir das coisas não era uma opção.  (risos) Então, essa característica, para o mundo dos negócios, é uma característica muito importante, né? Porque, assim, eu não tinha outra opção, eu acreditava muito fortemente que o que eu estava fazendo, o que estou fazendo é uma coisa certa, ajuda e impacta a vida de outras pessoas, então eu tenho que arrumar uma forma de dar certo. Então, acho que essa coisa do “eu tenho que arrumar uma forma de dar certo” tem muito a ver com a minha jornada. De a gente não ter opção. Então, assim: ah, eu tenho que ir para a escola, está frio, eu não tenho sapato, eu tenho que ir de chinelo e meia com elastiquinho atrás, eu não tenho outra opção. Ah, eu não tenho comida, tem que pedir emprestado para o vizinho, não tem outra opção. Então, eu acho que o não ter essas opções criou uma força e uma resistência, uma resiliência... mais uma vez não romantizando desigualdade, que me fez persistir, sabe? Muita gente, muitas vezes, falou para mim: “Ana, desiste”. E pessoas que não que queriam meu mal, é que estavam vendo a dificuldade financeira que eu estava passando nos primeiros anos da Rede, que não fechava a conta, que eu ficava o tempo inteiro tendo que buscar alternativas e as pessoas falavam: “É melhor você desistir agora, larga isso e depois você pensa lá na frente, volta para o mundo corporativo, você precisa ajudar a sustentar a sua família e tudo mais”, mas eu acreditava muito no que eu estava fazendo, eu acredito muito no que eu estou fazendo. E, assim, eu sou muito resiliente, eu sou muito assim, não tem... tem que dar certo, eu tenho que achar um caminho para dar certo. (risos) Se não deu até aqui, eu tenho que arrumar uma outra forma de fazer dar certo. (risos) P/1 – E tem alguma história, de alguma mulher que você tenha conhecido, marcante, que você queira compartilhar? R – Nossa, tem tanta história bacana, Luiza, assim e algumas simbólicas. Tem uma mulher de Minas Gerais, eu já nem lembro mais o nome dela, ela mandou um e-mail para mim e ela - no começo da Rede, a Rede tinha uns quatro, cinco anos - falou: “Olha, eu estou muito feliz com o que vocês estão fazendo para nos ajudar, eu fiz os cursos, estou lá no grupo da Rede, trocando ideias com outras empreendedoras e estou feliz porque as coisas estão dando certo, meu negócio está faturando mil e quinhentos reais por mês e, por conta disso, eu consegui separar do meu marido”. E teve uma simbologia muito grande porque, no primeiro momento, eu fiquei muito assustada, eu fiquei pensando: “Meu Deus, eu criei uma rede que separa os maridos”, que fazem as mulheres se separarem. (risos) E aí eu fui falar com essa mulher no dia seguinte, eu mandei uma mensagem para ela e eu fui perguntar e aí ela explicou a história dela: ela tinha dois filhos pequenos, o marido era alcoólatra, era abusivo, ele era violento, só que ela dependia dele financeiramente. Então, quando o negócio dela começou a faturar um mínimo, que é esse mil e quinhentos reais, ela conseguiu sustentar a casa com o negócio. Uma família, ela era do interior... eu lembro, não vou lembrar da cidade, mas ela era de Minas, do interior de Minas e ela falou assim: “Não, eu estou muito melhor agora”. E foi aí que eu entendi o nosso propósito muito claramente, porque eu falei: “Puxa vida, o que a gente precisa fazer é ajudar as mulheres a gerar renda, porque com renda elas têm independência financeira e com independência financeira elas conseguem sair, inclusive, de relações abusivas, porque quando ela depende financeiramente do companheiro, ela tem mais dificuldades de sair dessas relações abusivas. Então, ficou muito claro que o que a gente estava fazendo estava no caminho certo, que era ajudá-la a conseguir conquistar essa renda e ajudar a desenvolver os negócios. Eu falo que me deu um certo alívio, (risos) porque eu fiquei com muito receio na época e, assim, foi muito simbólico. Hoje a gente tem mulheres na Rede, Luiza, assim, que são nossas voluntárias, que começaram como empreendedoras na Rede, começaram com um tipo de negócio e que hoje estão fazendo coisas muito diferentes. A gente conseguiu fazer, a gente tem um time de especialistas na Rede, que são mulheres que ensinam para outras mulheres e é muito legal que, no começo, elas não se enxergavam como especialistas. A gente tem a Dilma, por exemplo, a Dilma Campos, ela é dona de uma agência de marketing, de eventos e aí a gente fez a Dilma virar palestrante e ela fala para mim hoje (risos) que ela jamais a imaginava ser palestrante e hoje a Dilma faz eventos, agora não mais na pandemia, mas ela faz evento, o último que ela fez para a gente tinha três mil pessoas na plateia e ela foi fazer uma palestra sobre negociação. Quer dizer: ela não se enxergava palestrante, ela não se enxergava nesse lugar e a gente mostrou para ela, a gente a jogou (risos) nesse lugar, a gente falou: “Não, a sua história é bacana, você tem um conhecimento incrível, você organiza isso numa apresentação, você tem a referência, é genuíno o que você fala, então vamos lá colocar”. E como a Dilma, a gente tem hoje sessenta especialistas na Rede, que ensinam outras mulheres nos mais diversos temas e territórios, que não se reconheciam como especialistas e a gente foi lá e falou para ela: “Você tem o seu negócio, você é empreendedora e você também pode aproveitar esse seu conhecimento e passar para outra mulher”. Então, assim, é muito simbólico, porque a gente fala que aqui na Rede é uma mulher levando a outra, uma mulher apoiando a outra, porque a gente não quer deixar nenhuma mulher para trás, (risos) a gente não solta mesmo a mão de ninguém e a gente segue firme, porque não tem outra forma da gente fazer, da gente se apoiar e se ajudar. P/1 – Falando em especialista, eu queria que você falasse como foi a experiência de participar do programa Winning Women, como conselheira, também ensinando? Como você conheceu a Ernst & Young? Como foi? R – Nossa, tem uma história muito bacana com o programa Winning Women, porque era um programa meio de sonho, assim, sabe? Aquele programa desejado. E aí eu me inscrevi em 2014, a Rede estava naquela fase ainda meio como é que vai fazer, como é que não vamos fazer, ainda testando modelos de negócio e eu me inscrevi no programa e eu achei que eu não ia passar. Daí passei pelas etapas de ficha, tudo e fui para a entrevista com o sócio, na época da EY e esse sócio ficou apaixonado pela Rede, ele falou assim: “Eu quero trabalhar para você, na Rede” e eu lembro que foi muito engraçado, porque negócio social não era uma coisa tão conhecida na época, ele falou: “Nossa, Ana, o que você está fazendo é tão bacana”. Ele falou: “A gente precisa ter um negócio social na nossa turma, a gente precisa. Pode deixar, que eu vou te ajudar a defender a sua participação”, mas eu falei: “Bom, está tudo bem, é uma entrevista bacana” e não achei que eu ia passar. E aí passou um tempo, depois eles me informaram: “Olha, você foi aprovada para a classe de 2014, que na época era segunda turma do Winning Women, era o começo do programa. E foi muito, assim: eu fiquei tão feliz, porque era um grupo muito exclusivo, eram poucas mulheres. Eles me ajudaram absurdamente, então me ajudaram até fazer apresentação de marketing da Rede, me ajudaram a abrir portas, me ajudaram com conexões, me ajudaram com... a alavancar o negócio da Rede e isso eu como aluna participante. Só que eu sou tão enxerida, que eu me metia tanto no programa, (risos) que eu falava: “Ah, vocês podem fazer isso, trazer tal pessoa, fazer não sei o quê” e eu comecei a falar do programa para um monte de mulheres da Rede. Claro que nem todas podiam participar, porque tinha alguns requisitos lá e aí eu comecei a falar para muitas mulheres da Rede e aí eles viram muitas mulheres da Rede estavam se inscrevendo no programa. (risos) Aí, na época, as duas gestoras vieram marcar uma reunião comigo e falaram assim: “Ana, fala o que você acha que é bacana ter no programa, quais são as referências” e aí eu fui falando, me meti, falei o que eu achava que era legal e tudo mais e fui acompanhando e ajudando, dando dica, referência e foi andando. Passou um tempo, eles falaram: “Você está muito ativa aqui no programa, a tua experiência é muito importante, você já atendeu milhares de mulheres na Rede. Acho que está na hora...” e aí eles me convidaram, acho que foi em 2017 ou 2018, se não me falha a memória, para ser conselheira do programa. Aí eu fiquei muito honrada, muito honrada porque, assim, é realmente um dos programas que eu mais admiro - e eu já participei de vários programas de capacitação e de acompanhamento e eu falo isso até hoje - foi muito importante eu participar como conselheira, eu adoro fazer a mentoria para as mulheres. A gente está com uma mentorada agora que, assim, ela se apaixonou pela gente, a gente se apaixonou por ela, eu vivo falando dela para todo mundo, então eu acho que isso é muito bacana porque, quando você faz uma mentoria e quando você é conselheira, não é só uma relação de mão única, é uma relação realmente de troca: eu ensino para elas, mas elas também me ensinam, a gente troca ideia de forma muito constante e eu acho que é essa a riqueza desse programa do Winning Women. É um programa que tem uma riqueza de mulheres, de percepções, as conselheiras, eu também peço opinião para outras conselheiras sobre nosso negócio. Então, essa riqueza dessa troca que eu acho que é fundamental. P/1 – Queria saber quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória como mulher, mãe, empreendedora, negra… R – Nossa, tem tantos momentos simbólicos! Assim, eu acho que... claro, o nascimento e a vinda das minhas duas filhas são, para mim, os momentos mais importantes da minha jornada, da minha vida, da Daniela e da Evelyn, para mim tem toda simbologia de eu me tornar mãe de todas as formas. O pedido de demissão da multinacional, que era o sonho da minha vida, aquilo foi muito difícil, não foi um processo fácil, as pessoas me perguntam sobre isso até hoje e eu falo: “Gente, não foi fácil”. Parece fácil agora falando, porque a Rede deu certo, porque o negócio deu certo, porque as coisas caminharam, mas, na época, era um salto no escuro, eu não sabia o que eu ia enfrentar e muita gente me criticou na época, muita gente falou: “Você está fazendo uma loucura de pedir demissão de uma empresa, num cargo onde você chegou, com a condição financeira  que você está, com filha para criar”, muita gente me desaconselhou a fazer o que eu fiz. Então, esse foi um momento também muito duro, muito difícil, de enfrentar. Tem também o momento onde... na verdade, não um, mas vários momentos em que eu quis desistir da Rede, vários. E eu acho importante falar sobre isso, porque as pessoas veem só a parte bonita e a parte bacana e ficam achando que a gente não tem momentos de vontade de desistir. Eu tive muitas vezes, assim, que eu ia dormir e falava: “Amanhã eu vou fazer o processo de fechamento, vou voltar para o universo corporativo, não vou dar conta”, porque as contas não fechavam. E é assustador você não ter dinheiro para pagar as contas, você ficar endividado, é muito difícil. Então, acho importante, assim, a gente falar que tem esses momentos duros da gente querer desistir. Eu acho que esses momentos têm e a gente tem que deixar claro. Quando eu abri o Instituto da Rede para mim foi um momento muito simbólico, porque eu queria muito, muito, muito trabalhar numa organização totalmente social e trabalhar com mulheres em vulnerabilidade que era, assim, meu sonho. Então, poder trabalhar com mulheres indígenas, trans, venezuelanas, poder trabalhar com mulheres de 50 +, enfim, foi muito importante a abertura do instituto, não foi fácil, eu levei mais de três anos gestando a ideia do instituto e um ano para colocar a operação de pé. Então, foi um momento muito simbólico, muito importante. E um outro momento simbólico, que tem a ver com o instituto, foi a primeira doação internacional que a gente recebeu. Não é por conta do dinheiro, em si - a gente recebeu a primeira doação internacional em 2018, a gente recebeu um milhão de dólares do Google, a fundação do Google - mas porque abriu as portas para a gente conseguir outros apoios internacionais e abriu as portas, aqui no Brasil, para todo mundo olhar para nossa organização e falar: “Ué, o Google está investindo nesse pessoal? (risos) O que eles têm, que o Google gostou do trabalho deles e está investindo?” Então, tem um momento muito simbólico nisso também, acho que é bem importante. Assim, momentos pessoais, óbvio, não tem como não deixar de falar da minha filha, não tem. Assim, para mim foi uma época muito dura. Tem o meu casamento, uma menina super jovem com vinte e seis anos, querendo casar, eu e o meu marido, então eu acho que isso tem um momento muito importante também e ele é meu companheiro de vida até hoje. Se não fosse também por ele - eu jamais posso tirar o mérito - estar junto, apoiar, acreditar nas ideias que eu tinha, também seria bem difícil, porque ele também tem um papel muito fundamental em toda essa jornada, em toda essa história. Nossa, tem tantos outros momentos, Luiza!  (risos) Tem tantas coisas, assim, muito simbólicas, claro, tem momentos muito legais e momentos também difíceis. P/1 – E como é seu dia a dia, hoje, com a pandemia? O que essa pandemia afetou a sua vida particular também, o seu negócio? Quais foram... sei lá, tiveram alguns aprendizados, desafios nessa pandemia?  R – Assim, a pandemia foi um susto para a gente como negócio, porque a gente estava totalmente estruturado para fazer um negócio presencial e nós tivemos que dar um Duplo Twist Carpado e reorganizar o nosso negócio (risos), pondo para o online, uma coisa que a gente não estava preparado para fazer. Então, acho que tem esse ponto. O segundo ponto é que, as empreendedoras foram muito afetadas pela pandemia e a demanda para a gente ajudá-las foi muito forte o ano passado. Então, a gente também teve que se reorganizar, para conseguir atendê-las de uma forma melhor. Isso foi muito importante também. A gente conseguiu se estruturar muito rapidamente, em trinta dias a gente tinha reorganizado tudo, para conseguir atendê-las com a demanda de uma forma diferente, não presencial, no online. O ano também foi o maior ano de captação de recursos para a Rede e para o instituto, nós captamos quarenta e cinco milhões de reais o ano passado, para projeto sociais, foi a maior captação de recursos da nossa história, porque a pandemia, ninguém queria uma pandemia para isso, eu não queria uma pandemia para isso, mas a pandemia fez com que as empresas adotassem uma postura muito mais solidária, muito mais responsável em relação à sociedade e muito mais responsável em relação às mulheres, acho que esse tem um fator muito importante. Então, foi um ano muito importante para nós, em termos de captação de recursos. E também pessoalmente foi um ano desafiador porque, com duas adolescentes dentro de casa, trabalhando de casa, com o time inteiro da Rede trabalhando de casa, na Rede e no instituto, eu e meu marido trabalhando aqui lado a lado, no ambiente doméstico e, para ajudar tudo isso, eu resolvi fazer uma mudança de casa no meio da pandemia, só que eu não previa a pandemia, a decisão foi antes da pandemia, (risos) a gente tinha comprado... olha o movimento que nós fizemos, totalmente contrário ao que todo mundo estava fazendo: nós morávamos numa casa com quintal e tudo mais e mudamos para um apartamento. (risos) Só que a gente não sabia que viria a pandemia e a gente fez isso por questões de segurança. Então, assim, foi também um momento muito complicado para a gente fazer essa mudança, estamos nos adaptando, está sendo um processo de adaptação. Então, assim, não está sendo fácil, não vou glamourizar esse momento, não está sendo fácil. A minha mais nova está sofrendo muito com a escola online, é muito difícil, principalmente para adolescente. A mais velha até conseguiu se adaptar mais, porque ela está fazendo cursinho, então ela estuda das sete da manhã quase, até sete da noite, no quarto dela e faz os intervalos. Até que ela conseguiu se adaptar bem, mas a mais nova teve muito mais dificuldade para essa adaptação. A gente também, aqui dentro de casa, está tentando se adaptar, porque tem de tudo, né: a reforma do vizinho, tem várias coisas (risos) acontecendo ao mesmo tempo, mas a gente tem trabalhado muito e adaptado. Porque o que eu tenho falado, inclusive, para o meu time da Rede, do Instituto, é que a gente tem que cuidar da saúde emocional, porque esse é um momento muito difícil que a gente está vivendo, porque é um momento, não só um momento de dificuldade como país, a gente está vivendo uma crise política, uma crise econômica e uma crise de saúde tudo junto. E, fora isso, a questão da saúde emocional, que para nós é muito importante. Então, eu tenho falado muito para as pessoas se cuidarem, para elas priorizarem a saúde mental, porque isso é fundamental para a gente sair. Vai passar e a gente vai conseguir sair dessa, não tenho dúvidas disso, vai sair com alguns arranhões, alguns machucados, mas a gente vai conseguir sair. P/1 – Ana, quais são seus sonhos para o futuro?  R – Ah, eu tenho muita, muita vontade, eu tenho pensado muito nisso, eu acho que a pandemia também meio que coloca a gente para pensar nessas coisas, né? Eu queria muito trabalhar com políticas públicas, é uma vontade muito grande que eu tenho de conseguir, de verdade, fazer transformação social. A gente faz transformação social, mas para gerar um impacto muito maior, a gente precisa de política pública no nosso Brasil, a gente precisa ajudar a incluir mais mulheres nos ambientes de poder, a incluir mais mulheres nos ambientes de negócio, geração de renda e eu quero muito movimentar políticas públicas. Não estou falando com isso que eu quero entrar na política, na verdade eu quero movimentar políticas públicas no espaço onde a gente está hoje, quer fazer advocacy, levar e gerar informação. Eu hoje represento o Brasil no W20, que é o grupo de engajamento do G20, das vinte economias mais relevantes do planeta, para tratar da causa das mulheres. Então, é o que eu gosto de fazer, né: estudar e movimentar e ver o que a gente pode fazer, para transformar a nossa sociedade. Quero que a Rede não precise mais ser ativista em relação à causa da inclusão e diversidade e que a Rede passe a ser, sim, uma rede de apoio para as mulheres, para o desenvolvimento dos negócios. Infelizmente a gente vive no sétimo país mais desigual do planeta, então para as mulheres a situação é muito mais dramática e a gente ainda tem que fazer um trabalho de advocacy, de ativismo, para poder conquistar direitos, não para conquistar supremacia feminina. Hoje a gente vive num mundo de supremacia masculina. O que a gente quer não é a supremacia feminina, a gente quer direitos iguais, direitos humanos para as mulheres, que elas não sofram violência, que elas não sejam mortas por serem mulheres e que elas tenham as mesmas condições e oportunidades que os homens. Então, meu sonho, de verdade, é que as minhas filhas possam andar na rua sem ter medo e sem que eu tenha medo delas andarem na rua porque elas são mulheres, que elas consigam fazer as escolhas que elas quiserem na vida delas, que elas escolham qualquer profissão, qualquer caminho e não que elas escolham coisas porque elas são mulheres e que elas tenham todas as condições e oportunidades. Tanto as minhas filhas, mas quanto todas as outras mulheres do nosso país e quiçá do nosso planeta. P/1 – Para finalizar, queria saber se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar mais alguma coisa que não tenha investigado? R – Ah, eu queria finalizar, Luiza, dizendo assim: que a gente - parece piegas e parece clichê - não faz nada sozinho, sabe? Assim, eu faço muita questão de... não dá para nomear, porque é muita gente que me ajudou nessa jornada toda, mas agradecer a cada uma das pessoas e a cada pessoa que fez a diferença. Como eu te falei, eu tive muita gente ruim em todo o processo, episódios muito ruins, mas a maioria dos episódios foi de gente muito boa que deu a mão, que recomendou, deu uma palavra amiga e que está e esteve junto. Eu acho que isso: é mais importante olhar para esse lado, do que olhar para as pessoas ruins, porque eu acho que se não fossem essas pessoas, terem me dado oportunidade, de terem olhado, terem dado a mão, terem dado conselho, talvez eu não teria conseguido resistir a estar nessa situação de hoje, que a gente consegue impactar a vida de milhões de mulheres. Então, acho que é isso, agradecer a todo mundo que está junto, que vem junto comigo e agradecer, obviamente, aos meus ancestrais,as pessoas que vieram antes e que me trouxeram até aqui: meus avós, meus bisavós, meu pai e minha mãe, todo mundo, porque sem eles eu não estaria aqui. (risos) P/1 – Ana, obrigada, obrigada, obrigada de verdade. Você não sabe como eu gostaria de estar presencial, para poder dar um abraço. (risos) R - Eu amo abraços, eu adoraria também. (risos) P/1 – Mas, de verdade, eu e toda equipe do Museu, a gente agradece muito pelo seu tempo, pela sua disponibilidade, pela sua importância... não só nesse tema, mas pelo seu impacto. Então, eu agradeço de coração por esse tempinho e pretendo... gostaria muito de te conhecer um dia presencialmente, ao vivo e em cores. (risos) R – Faço questão de conhecer vocês, faço questão, realmente, eu não vejo a hora de a gente poder se encontrar. (risos) P/1 – Bru, quer falar alguma coisa? P/2 – Ah, eu estou... Ana, é a minha primeira entrevista, então eu estou super emocionada. (risos) Nossa, eu agradeço demais. Foi, assim, uma delícia passar esse tempo com você, eu sei que é curto para revisitar a sua vida inteira, mas, assim, para a gente tem uma importância incrível e muito obrigada, mesmo. (risos) R – Nossa, eu que agradeço, tentei não chorar, (risos) tentei controlar, porque são etapas bem duras, mas muito obrigada, vocês foram muito gentis: Bruna, Alisson, Luiza, muito obrigado, espero poder conhecê-los em breve, viu? (risos) Obrigada, gente! [Fim da Entrevista]

Entrevista de Ana Fontes

Entrevistada por Luiza Gallo e Bruna Ghirardello

São Paulo, 06/07/2021

Projeto: Mulheres Empreendedoras - Ernst & Young

Realizado por Museu da Pessoa

Entrevista n.º: PCSH_HV999

Transcrito por Selma Paiva 

Revisado por Bruna Ghirardello


P/1 – Vamos lá! Ana, queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.


R – Oi, eu sou Ana Lucia Pedro Fontes, eu nasci em Igreja Nova, Alagoas. Tenho 54 anos, até amanhã. (risos) É isso.


P/1 – Isso. E quais os nomes dos seus pais?


R – Minha mãe se chama Maria Laudice Davino dos Santos e meu pai se chamava... ele faleceu há três anos, Josino Pedro dos Santos.


P/1 – E como você os descreveria?


R – Pessoas muito simples, muito batalhadoras. Muito guerreiras, porque passaram, também tiveram uma infância muito dura e muito difícil, então eu os considero pessoas, assim, muito vencedoras, dentro de tudo que foi oferecido para eles na vida. De todas as dificuldades que eles tiveram, eu os considero muito vencedores.


P/1 – E você sabe como eles se conheceram?


R – Sim, porque a cidade lá onde eu nasci é um povoado, né? Na época, acho que não tinha nem nome direito de cidade, era um povoado e as pessoas todas se conheciam. Minha mãe é de uma família de onze irmãos, ela e mais dez irmãos e o meu pai teve uma família um pouco diferente. Na verdade, a mãe dele o teve e o doou para uma outra família, uma outra pessoa criar, que era o irmão mais velho dele e ele foi criado com essa outra família. E aí, como é um povoado, eles se conheciam, as pessoas se conheciam, acabou que eles se encontraram. Não assim, no sentido de encontrar, acabou que eles se gostaram um do outro. Minha mãe disse que naquela época não tinha muito essa coisa de namorar muito tempo, ela se casou com quatorze anos. É muito duro você pensar nisso hoje, ela se casou com quatorze e meu pai tinha... dezenove, porque ele tinha cinco ou seis anos a mais que ela. Então, ela se casou muito jovem, ela teve a primeira filha com quinze, que foi minha irmã mais velha, então, muito, muito jovem, assim. Ela disse que isso era muito comum, naquela época, as meninas se casavam muito cedo e, inclusive, era uma coisa meio de conceito de sociedade na época, que se casasse mais tarde era uma coisa ruim. Uma sociedade machista, onde achava que as meninas tinham que casar muito cedo, então, ela se casou muito cedo, ela praticamente não teve adolescência... com quinze anos ela já estava com uma filha e assim foi, sucessivamente, até ela ter vinte e oito anos, com vinte e oito anos ela tinha dez filhos.


P/1 – E como é sua relação com os seus irmãos?


R – É uma relação muito boa, assim: a gente é aquele estilo de família grande mesmo, que briga, que fala, que briga um com o outro, daqui a pouco não fala mais, daqui a pouco volta a falar, é bem aquela família super confusa. A minha... eles tiveram dez filhos, mas dois morreram muito pequenos, lá em Alagoas mesmo, lá no sertão, porque tinha muita fome, muita... não tinha acesso a nada, né? Nós morávamos numa casa de taipa, então era bem complicada a situação. Então, dois morreram pequenos e oito sobreviveram até a vida adulta. A gente sempre teve uma relação muito próxima e muito de ajudar um ao outro, muito de defender um ao outro, esse estilo mesmo, assim, de irmão, briga, ajuda, vai para lá, vêm para cá, mas a gente é muito, muito, unido. A gente fala que, se alguém mexe com um, está todo mundo, se junta aquele bolinho ali, fica todo mundo junto. (risos) A gente tem uma relação boa de família.


P/1 – E o que seus pais faziam?


R – A minha mãe era dona de casa lá em Alagoas, ela era, assim, sertaneja, então plantava, cuidava dos filhos, pescava, fazia as coisas como se fosse uma vida, eu falo para ela, que é quase de indígena mesmo. Porque era uma vida, assim, de muita subsistência, então era tudo para poder viver. E o meu pai era pescador, ele foi pescador até quando ficou lá, ele pescava e vendia na feira, quando conseguia pescar, vendia o que era a mais na feira e o que ficava para a família. Então, ele pescava peixe, camarão, também era lavrador, né, que fala? Lavrador também, porque também cuidava da roça, como todo mundo lá, era essa a vida. Era uma vida muito de subsistência. Plantava milho, mandioca, feijão, plantava as coisas ali para sobreviver, faziam farinha. Farinha de mandioca, que era uma coisa muito comum na época e a partir daí eles sobreviviam de vender, de trocar uma família com a outra e quando vinha a seca, aí era a coisa mais triste, porque eles não conseguiam plantar nada, não conseguiam pegar peixes e aí a vida ficava bem difícil.


P/1 – E você lembra, assim, de alguma época marcante, ou de seca, alguma recordação, assim, de alguma dificuldade que vocês tiveram? 


R- Eu lembro muito pouco porque, na verdade, eu saí de lá, eu tinha quatro anos. Os meus pais... em 1970, teve uma das maiores secas no nordeste inteiro, não só em Alagoas e aí, assim, não tinha o que fazer. Não tinha absolutamente nada, não existia nada do que existe hoje, que é muito justo, tipo Bolsa Família, Auxílio Emergencial, esse negócio de auxílio defeso, quando você não pode pescar, aí o Estado dá uma ajuda, não tinha nada disso. Então, eles não tinham muita alternativa: ou você plantava e pescava para comer ou você ficava sem comer. E todo mundo era muito pobre, então, não tinha uma coisa assim: “Ah, alguém tinha mais dinheiro”, não tinha, era uma relação de todo mundo. Aí eles resolveram - como tinha uma irmã do meu pai que morava aqui em São Paulo - como milhões de nordestinos, tentar a vida aqui em São Paulo. E juntaram o que foi possível, o meu avô, na época, pai da minha mãe, também ajudou um pouco, para eles juntarem dinheiro para a passagem, para vir para São Paulo. E aí, o meu pai veio na frente, né? Porque era uma viagem de ônibus de dois dias e meio, quase três dias, era uma viagem muito... e naqueles ônibus bem “mequetrefe”, sabe, bem ruim, não era um ônibus bom, gostoso, (risos) nada disso. Daí meu pai veio na frente, com dois irmãos mais velhos, para poder alugar a casa, conseguir arrumar o lugar para a gente ficar e conseguir arrumar emprego. E ele veio, com os meus dois irmãos mais velhos, alugou um quarto e cozinha perto de onde a minha tia, que era a irmã dele, morava, que foi em Diadema e depois, dois meses depois a minha mãe veio, na mesma viagem de ônibus, de dois dias e meio, com os seis filhos menores e ela veio sozinha com os seis filhos numa viagem de dois dias e meio. Então, ela, na verdade, conta para gente que tinha muito medo de nos perder no meio do caminho, porque era uma viagem muito dura. Ela falou que ela trouxe, assim, comida para comer no ônibus, coisas para fazer, para poder ficar ali e para a gente não ter que sair muito do ônibus, ela falou que só saía para a gente ir ao banheiro, para a gente alguma coisa, mas ela evitava o máximo possível. Eu tinha quatro anos, o meu irmão mais novo tinha três e o mais novo tinha seis meses e aí os três maiores tinham idades, assim, era um ano, dois, de diferença de um para outro. Eram todos muito pequenos e ela colocava os maiores para ajudar os menores. Então, foi uma viagem assim. Eu lembro de muito pouca coisa de lá, eu lembro da gente... a nossa casa ficava perto do Rio São Francisco, então eu lembro um pouco, de uma lembrança assim, de ter água, eu lembro um pouquinho da casa de taipa, que são aquelas madeirinhas com barro, porque não tinha cimento, eu lembro da gente brincando no que eles chamavam de terreiro, que era o terreiro da casa, não é o terreiro... era o terreiro ali da casa, mas muito pouco. Agora, eu lembro da viagem, da gente passando mal. (risos) Eu lembro, assim, talvez isso tenha ficado marcado porque, imagina... criança, viagem de ônibus, dois dias e meio, ela disse que ela comprou quatro bancos, quatro cadeiras para a gente viajar em sete, porque era ela e nós seis, então ela falou que ela juntava todo mundo, uma parte ficava sentadinho ali no chão, um no colo, o outro no colo do outro e a gente ficou ali naquele... e eu lembro da gente comendo um doce, que é um doce muito típico lá, que chama Mariola e aí eu lembro da sensação da viagem, eu lembro desse doce que a gente comia. Mas não é uma sensação gostosa, não, porque eu lembro de a gente ficar enjoado. (risos) Mas, assim, ela falou que ficou com muito medo, porque chegou na rodoviária aqui do Tietê e não tinha telefone na época, não tinha como avisar, não tinha, era tudo por carta, ela falou que não sabia se meu pai ia estar lá no horário que ela chegasse, ela chegou com aqueles sacos de coisas, tinha muito medo de sair ali e alguém pegar uma das crianças, porque eles ouviam muitas histórias, tinha muito lenda também, tinha coisa ruim, mas tinha muita lenda e ela disse que tinha medo de alguém pegar a gente na rodoviária, porque tinha ouvido falar que pegavam crianças. E aí meu pai estava lá, com o marido da minha... com o meu tio e aí ajudaram a gente a chegar até Diadema. Porque da rodoviária do Tietê até Diadema dava uma hora e pouco, era uma outra viagenzinha. (risos)


P/1 – Ana, eu vou voltar só um pouquinho, depois vou querer saber mais sobre essa sua viagem, mas você conhece a história dos seus avós?


R – Eu conheço um pouco das histórias dos meus avós, do que a minha mãe e o meu pai contam. O pai do meu pai e a mãe do meu pai, eu tenho poucas histórias, eu só sei que a mãe do meu pai era o que eles chamavam lá de castanheira. Castanheira é aquela pessoa que pega castanha do caju, cozinha no fogo, mas é no fogo de... no chão, assim, numa fogueira e depois que ela está bem preta, a casca da castanha de caju, eles batem com uma madeira, porque aí tira aquela castanha, que é a amêndoa, que a gente conhece como castanha. Então, a mãe do meu pai era conhecida como Dodô, mas o nome dela era Maria Petiomilha e meu pai disse que ela era castanheira, que era uma pessoa com muita dificuldade, que teve o filho e não conseguiu ficar. Enfim, eram muitas situações difíceis. E o pai dele, o meu avô, eu não tenho muito, assim, meu pai nunca falava muito, não sei se porque ele não teve convivência com ele, porque ele foi criado pelo irmão mais velho, então meu pai falava pouco da família dele, acho que também devia ser muito duro para ele, porque ele foi doado, para... nessa época, então, eu acho que foi bem difícil. Agora, da minha mãe, aí eu tenho sim, muita convivência, até porque os meus avós, quando a gente veio para Diadema, veio morar aqui, de vez em quando [eles] vinham para São Paulo. Não era uma coisa frequente, porque a viagem era muito longa e eles não viajavam de avião, mas eles vinham para São Paulo. E a minha a avó, a mãe dela, a minha bisavó, era mãe solteira, que eles chamavam de ‘mãe solteira’ na época e ela se casou também muito nova com o meu avô, eles tiveram onze filhos e, numa situação muito difícil também, numa situação de vida muito difícil. O meu avô criava gado. Falando assim parece que era uma pessoa rica, mas ele tinha terra, muita terra, mas a terra não valia nada, porque era uma terra ou para o gado ou para plantação, mas eles não tinham muito estudos, não tinham muito conhecimento, então acabava que não valia muita coisa. Eu sei que a vida deles não era muito fácil e o meu avô era uma pessoa muito difícil. Minha mãe fala, muito por alto, ela nunca se aprofundou muito nisso, que tinha uma relação de violência também, né, que era uma questão de violência, inclusive, contra a mulher, porque a minha avó ali em casa, cuidando dos filhos, tudo, então era uma relação muito difícil, pelo que minha mãe fala. Meu avô morreu jovem, ele morreu com sessenta e poucos anos, ele teve um câncer no estômago e acabou falecendo. A minha avó viveu até os oitenta e seis anos e, assim, morreu bem mais velha, mas a gente não teve convivência, assim, com eles, próxima, de neto e avô. Tinha quando eles vinham, aí eles ficavam um pouco e depois voltavam, a gente tem um pouco essa lembrança de pessoas mais velhas. Quando o meu avô vinha, de vez em quando ele pegava uns pacotinhos, assim, de dinheiro, embrulhava bem o dinheiro e falava para a minha mãe: “Olha, isso é para os netos”. Mas era uma coisa muito... (risos) uma lembrança, assim, muito distante. E a minha mãe conta também que uma irmã da minha avó - isso é uma coisa que eu, volta e meia, pergunto para ela, porque eu queria muito entender, mas ela não lembra mais detalhes - uma tia minha, uma irmã da minha avó, foi... sofreu um feminicídio. Ela foi assassinada pelo marido. E a minha mãe disse que isso não foi... o marido não foi preso, não teve... eu falei: “Mãe, mas como assim?” e ela falou: “Ah, porque, minha filha, lá não tinha lei como tem hoje aqui, como era uma terra muito difícil, as pessoas tinham que lidar com o que era possível lá”. Então, ela disse que lembra, na infância dela, da história da minha, na verdade, da tia dela e minha tia-avó, que faleceu assassinada pelo marido, de uma forma muito triste, muito triste, ela foi... ele botou fogo nela, dentro de casa. Então, uma coisa bem difícil, mas ela não lembra muitos detalhes e, como minha avó já faleceu e meu avô também, os meus tios também não têm muita lembrança, acaba que a gente não sabe muito.


P/1 – E vocês tinham algum costume de família, desde receita... você falou da farofa, da farinha, né? Tinha mais alguma coisa que você lembre, de algum cheiro, algum sabor? 


R – Tem uma coisa que até hoje a minha mãe faz, ela fazia todos os domingos, mas agora ela não faz mais todos os domingos, (risos) porque ela está com oitenta anos, mas ela fazia uma galinha, que a gente, assim, como se fosse quase uma tradição de família, essa galinha cozida no molho da galinha, tem todo um jeito de fazer. Outro dia a gente estava falando, eu e as minhas duas irmãs, assim: “Gente, como é que a gente vai fazer para aprender a fazer essa galinha?” (risos). Ela, minha mãe, ensinou meu pai, na época, também a fazer, minha irmã mais velha que já faleceu também sabia, mas aí eu e minhas outras duas irmãs, a gente não sabe (risos). É uma galinha que tem, assim, toda uma história mesmo, era coisa do domingo, da gente se reunir, da minha mãe ficar ali na beira da pia. Na verdade, antes, não era nem na beira da pia, ela pegava a galinha na granja, ela matava ela mesma a galinha. Eu lembro quando a gente morava - mesmo aqui em São Paulo, em Diadema - num lugar que era meio distante e ela pendurava a galinha na cerca - isso eu lembro de quando eu era criança - até a galinha morrer, depois ela depenava a galinha na água quente, eu lembro disso também, aí depois ela ia partindo e tem um ritual de cortar essa galinha, tem partes específicas (risos) nesse ritual e aí, isso, assim, a minha vida inteira, eu tenho cinquenta e quatro anos e cinquenta e quatro anos a gente, de domingo, a galinha, a gente tem, todo mundo tem essa lembrança. Então, é uma galinha feita com molho, com temperos nordestinos, minha mãe faz com pimenta do reino, muito colorau, tem um jeito todo certo e aí, de uns anos para cá, foi proibido ter granja, né? Porque em Diadema ainda tinha, até alguns anos atrás, então a minha mãe ia de domingo na granja - aí ela já não matava mais - escolhia e o pessoal da granja matava do jeito que ela queria, porque não podia ser pescoço cortado, tinha que ser o pescoço destroncado, eram umas coisas assim (risos) e ela escolhia, levava para casa e fazia. E depois foi proibido ter granja, então ela vai agora num mini frigorífico, que também é lá em Diadema, mas também tem que ter a tal da galinha caipira, não pode ser frango, não pode ser galinha branca, tem que ser galinha vermelha, tem todo uns ‘paranauês’ aí, (risos) para poder fazer esse prato. E, ela faz até hoje, agora não todo domingo, ela faz uma vez a cada quinze dias, mas até hoje, como a gente não pode almoçar mais com ela, por conta da pandemia, o que ela faz: ela continua fazendo a galinha, ela liga para a gente e fala: “Oh, separei um potinho para cada um” e a gente vai lá, com as partes que cada um gosta. (risos) Então, eu adoro pé de galinha e moela, ela manda os pezinhos e a moela (risos) para mim, até hoje ela faz isso e a gente vai lá e busca, porque não dá para comer lá, né? Mas isso é assim: a galinha é uma coisa de ritual para gente, volta e meia a gente fala isso, Deus o livre, quando a nossa mãe se for: “Meu Deus, quem vai fazer a galinha? Como é que a gente vai passar isso?”, porque sabiam ela, meu pai, minha irmã mais velha e agora nós, as mais novas, vamos assim dizer, acabamos não aprendendo. Precisamos aprender. (risos) Precisamos aprender, porque é maravilhosa, quem come diz que gosta muito. (risos)


P/1 – E me conta uma coisa: quando os seus pais decidiram mudar de cidade, houve uma conversa, assim, com vocês? Como foi isso, esse momento?


R – Não teve assim. Eles, na verdade, foram quase empurrados para sair de lá. Porque, como não tinha peixe, a lavoura não tinha, estava seca, o meu avô não tinha como ajudar, porque ele também tinha os outros filhos, cada filho também tinha um monte de filhos, assim, que nem a minha mãe, então era muita gente passando dificuldades junto. Na verdade, meu pai e minha mãe dizem que não teve o que conversar, eles não tinham uma alternativa, eles não tinham saída e o que eles tinham dificuldade era como fazer para poder arrumar dinheiro para passagem para todo mundo, porque eles não tinham essa coisa de terra, lá não valia nada. Então eles se juntaram, meu avô juntou, minha avó juntou, várias pessoas ajudaram, para dar o dinheiro para vir, o meu pai na frente, para conseguir alugar uma casa e arrumar emprego. Porque, assim, as pessoas vinham na época e já vinham com alguém aqui que já sabia: “Olha, tem um emprego”, porque já vinha, já tinha que vir empregado, porque senão não conseguia viver, ia morar na rua. E eles dizem que não teve muita opção, não teve muita discussão. Minha mãe diz que ela e o meu pai falaram: “Vamos tentar, vamos ver o que vai dar, vamos ver o que vai acontecer. Se não der, a gente volta com todo mundo”, porque lá, a família toda ficou lá. Quando eles vieram, essa tia do meu pai não era uma pessoa bacana, ela não ajudou a gente, meu pai veio por causa dela, mas ela acabou não sendo uma pessoa que ajudou a gente. Quem, no fim, ajudou muito a gente foi uma vizinha nossa, que é amiga e irmã da minha mãe até hoje, que foi uma vizinha que ajudou com coisas, né? Até coisas que a gente não tinha: não tinha prato, não tinha colher, não tinha garfo, não tinha essas coisas, não tinha dinheiro para comprar essas coisas. Não deu para trazer isso de lá, até porque lá não tinha quase nada. Então, assim, ela foi ajeitando e ajudando a minha mãe. Minha mãe trabalhou muitos anos como faxineira, lavava roupa, fazia faxina, limpava peixe para os vizinhos, ela fazia muito isso. Eu lembro, na minha infância, tinha o carroceiro da sardinha, que era um senhor que vendia sardinha no bairro e vendia sardinha assim: ele passava... sardinha era uma coisa muito barata na época, então, sei lá, um quilo de sardinha era um real, ele vendia tipo um litro, assim, uma lata. Só que as vizinhas não gostavam de limpar sardinha e a minha mãe sabia limpar muito bem. Então, o que ela fazia? Ela limpava, em troca de eles darem um quilo de sardinha para ela. Ela limpava um quilo, a pessoa dava um quilo; ela limpava outro quilo, a pessoa dava outro quilo. Era assim que ela conseguia fazer as coisas, então, não tinha... e eram dez bocas para sustentar, porque era ela, meu pai e oito filhos. Então, eles tinham muito que se virar, eles tinham muito que tentar conseguir de alguma forma e todos nós trabalhamos desde muito cedo, muito cedo, todo mundo. Então, trabalhava meu pai... trabalhavam os meus irmãos, minhas irmãs trabalhavam de doméstica, olhando... eu trabalhei desde dos dez, onze anos, olhando filho de vizinho, limpando casa, ajudando vizinho a limpar casa, em troca ou de dinheiro ou de comida, ou de alguma coisa que desse para ajudar, porque era muita gente, imagina dez pessoas todos os dias café, almoço, janta, tudo isso. E, na época, é uma coisa muito... hoje tem muitas igrejas, organização, muita organização social, na época não tinha. Não tinha nem Bolsa Família e nem nenhum programa de governo e não tinha também muitas organizações sociais que ajudavam. O que a minha mãe fazia, ela ia numa igreja que dava roupa, roupa usada, tudo isso ela... porque não tinha como comprar roupa para tanta gente. E ela falou que aqui a gente sofreu muito, porque a gente veio numa época que era muito frio, a gente veio em abril para São Paulo, eles falam... não lembro o dia, mas a gente veio em abril e aí, maio, junho e julho foi um dos piores... ela disse que, assim, ia para o quintal da casa onde a gente morava, que era uma casa muito simplória e o balde congelava, assim, o primeiro... a camada de água. Ela falou que era muito difícil, porque não tinha coberta suficiente, não tinha roupa suficiente, não tinha sapato para todo mundo. A gente ia para a escola, isso eu lembro, quando eu era pequena, eu ia de Havaianas e de meia e ela botava um elastiquinho atrás, na Havaianas, para poder segurar a meia. A gente tinha vergonha, mas a gente não tinha muita opção. Então, ela se virava, assim, por isso que eu falo: dentro de tudo que eles tiveram que passar, assim, muito fortes, muito, eles conseguiram, assim, duas pessoas semianalfabetas, sem nenhuma instrução, sem nenhuma orientação, num mundo gigantesco como era aqui São Paulo, sem saber direito o que fazer, como começar. Eu falo que eles fizeram o melhor que eles puderam, né? A gente teve muito problema, muita dificuldade, passamos – nossa! - os piores perrengues da vida, mas diante de tudo que eles enfrentaram, eu acho que eles foram felizes demais.


P/1 – E você lembra qual foi sua primeira impressão ao chegar em São Paulo?


R – Ah, eu lembro que eu fiquei com medo, né? Eu lembro de medo porque, assim, era muito estranho. A gente, lá em Alagoas, minha mãe diz que a gente ficava solto. Porque na roça, no terreiro, uma irmã minha já quase se afogou várias vezes, (risos) porque a gente morava perto do rio. Então, assim, era uma vida muito ali e todo mundo conhecia todo mundo, vizinho, não tinha vizinho perto, assim, mas era nas roças, você andava e ia até a outra roça, não sei o quê e então a minha mãe falou que era uma vida muito solta. Que era muito... e aqui ela tinha muito medo, porque as pessoas falavam também que aqui tinha muita violência, que tinha gente que pegava crianças, muitas dessas coisas. Então, esse medo ela passou para a gente também, (risos) porque ela tinha medo, ela falava: “Olha, não pode ir para a rua, não pode ir para o quintal, não pode ir sozinha, não pode ir não sei pra onde”. Um pouquinho maior, aí eu lembro de ficar com menos medo, mas no começo a gente tinha muito medo, todo mundo, tinha medo de pegarem a gente. A minha mãe falava, o meu irmão mais novo, o caçula, era bem loirinho e ele gostava... minha mãe o deixava com o cabelo bem compridinho e aí, eu não sei, minha mãe colocava na cabeça que alguém queria pegá-lo. Então, ela falava assim: “Toma cuidado, porque o Beto, alguém pode querer pegar o seu irmão, o Beto, porque ele é muito bonitinho, não sei o quê”. A gente brinca com ele até hoje por causa disso. (risos) Tinha uma coisa muito de medo no começo, depois que a gente foi aprendendo. E o duro de tudo, Luiza, é que a gente saiu do sertão, dessa coisa de morar num lugar onde a gente tinha uma coisa de família, quintal e tudo isso e a gente veio para Diadema e, na época, Diadema era considerada a cidade mais violenta do Brasil. Então, assim, a gente não veio para um lugar que era seguro, muito pelo contrário, era um lugar realmente assustador porque, na época, o número de assassinatos em Diadema era gigante, era uma cidade muito, assim, muito violenta, era uma cidade que tinha uma polícia violenta, que tinha todo um sistema de opressão que hoje a gente consegue reconhecer, mas que na época a gente não reconhecia. A gente tinha medo da polícia, a gente tinha medo de tudo, porque a gente era pobre, minha mãe falava isso sempre: “Olha, presta atenção”. Ela tinha uma coisa também da gente andar limpo na rua, (risos) ela falava: “Vocês têm que andar arrumadinho e limpo porque... para as pessoas não acharem que vocês são pessoas de rua, não sei o quê”. Então, tinha uma coisa muito de medo, sabe, deles também, né? De acharem que a pobreza significava a gente não ter direito, não ter acesso e tudo mais. Então, era muito, muito assustador. Eu lembro de muitas coisas, assim, de medo, da gente, na infância, sabe? E lembro dela também, dela e meu pai, mais ela, minha mãe, ela administrava as coisas por conta da falta, da escassez, como se fosse um regime militar, eram dez pessoas. Então, assim, ela tinha que organizar as coisas, a gente nunca - eu lembro até eu ser adolescente - pegava comida no prato, na panela, era a minha mãe que colocava comida no prato para a gente porque, se cada um fosse pegar na panela o que queria, (risos) não sobrava para o próximo, então ela fazia um regime militar mesmo, ela... você podia colocar o arroz e feijão e ela colocava a mistura e, no dia do pagamento - que, na época, era dia dez e dia vinte - eles faziam a compra do mês, quando a gente estava numa situação melhor, quando boa parte de nós trabalhava, ela comprava assim: um chocolate para cada um e um Danone para cada um, um potinho de Danone, ela comprava vários e tinha um para cada um. Ela separava, assim, bem direitinho para cada um e ela falava: “Olha, não pode pegar, esse é seu, esse é da sua irmã, esse é do seu irmão” e por aí vai. Então, a gente foi criado, assim, muito na escassez, ela fazia essas organizações, para poder as coisas funcionarem, senão não dava certo, acho que não teria conseguido, porque tinha muita gente para sustentar, muita dificuldade. Eles tinham, faziam isso para poder conseguir, minimamente, sustentar a família. Meu pai trabalhava, minha mãe chegou a trabalhar naquelas fábricas de costura, que hoje, infelizmente, são os bolivianos que trabalham, mas na época eram as nordestinas, naqueles porões, fazendo roupa, ela passava o dia inteiro ali, ia cedinho, deixava tudo organizado para a gente, ia cedinho para lá, trabalhava o dia inteiro, voltava, cuidava das coisas, tinha uma distribuição de tarefas entre nós, cuidava das coisas e costurava para fora. Ela costurava roupa para fora e, no final de semana, ela limpava sardinha, o tal do peixe, para ganhar outro peixe. Então, por isso que eu falo, eles são verdadeiros vencedores, verdadeiros guerreiros, porque não tinham nenhuma condição, né? O que a vida deu, eles acabaram se virando, dentro das possibilidades do conhecimento, eles não tinham conhecimento, acho que isso era muito difícil também, né?


P/1 – E como era a sua rotina, quando você ainda era criança? Assim, você comentou que você ia para a escola, você trabalhava, queria saber um pouquinho e se tinha tempo para brincar. 


R – Muito pouco. Assim: a gente ia para a escola, teve um período que eu estudei de manhã, no outro período eu acho que estudei à tarde. Então, todo mundo ia para a escola, quem ia para escola. Acho que a partir do sexto ou sétimo ano, não lembro, teve um período que eu fui para a noite e aí, durante o dia, trabalhava o dia inteiro. Eu comecei a trabalhar com carteira registrada com quatorze anos de idade que, na época, podia e antes fazendo esses bicos, né? Ajudando uma vizinha, olhando o filho de uma vizinha, olhando, limpando uma criança, indo fazer compra no mercadinho para vizinhas, em troca de moedinhas, essas coisas. Era uma rotina muito assim: como minha mãe tinha medo da cidade em si, de tudo que representava, então a minha rotina era ir para a escola... eu sempre gostei de estudar, não é a mesma realidade dos meus irmãos, porque alguns gostavam, outros não. Então, eu gostava de estudar, gostava muito de ler e aí, o que eu fazia? Ia para a escola, fazia a lição sozinha, porque minha mãe não conseguia ajudar, a ajudava com a casa, com a comida - porque nessa época ela já não trabalhava mais na costura, nessas fábricas - ajudava com a casa. E aí é uma lembrança bem chata para mim, ela falava: “A gente precisa pensar no que vai comer à noite ou se vai ter comida para todo mundo”, porque chegava todo mundo à noite e, às vezes, não tinha comida e ela me mandava pedir aos vizinhos e eu tinha muita vergonha, muita vergonha e ela falava assim: “Ah, vai lá no fulano, ver se ela pode emprestar um quilo de arroz ou se ela pode emprestar o feijão, não sei o quê”. Isso eu tinha muita vergonha e tinha muita vergonha também de ir à...  Nem sei se era mercadinho que chamava, mas num lugar lá que vendia, tipo um mercadinho e vendia fiado. Então, a gente tinha conta lá também, eram umas coisas, assim, que não eram legais, né? Claro, que a gente também... a gente morava numa rua, numa época que era uma rua de terra e aí, à noite, assim, numa época mais gostosa, onde a gente conseguia uma condição um pouquinho melhor, a gente brincava na rua, de queimada, de pega-pega, brincava com os vizinhos e voltava para casa imundo, nojento, de terra (risos) e ela mandava tomar banho e a gente dormia, assim, era tomar banho e se virar para dormir. Então, tem essas lembranças boas também, de brincar, mas tem as lembranças também de ter que conviver com essa dificuldade, com essa situação difícil. As coisas começaram a melhorar quanto mais gente começou a trabalhar formal, quando mais de nós começaram a trabalhar em fábrica, em empresa, com carteira registrada e aí, quanto mais gente com carteira registrada, nós conseguíamos mais recursos, mesmo que os salários fossem baixos e aí a gente conseguia juntar e pagar a água, pagar luz, pagar aluguel e sobrar dinheiro para comida. Eu lembro que, quando eu trabalhava, tinha o holerite, que era um envelope amarelo, um envelope pardo que a gente recebia, porque as pessoas não tinham conta em Bancos, a gente recebia o dinheiro dentro de um envelope. (risos) Eu sou dessa época ainda! (risos) E aí a gente chegava, no dia do pagamento, todo mundo que trabalhava fora chegava com os envelopes, eu lembro disso, da gente sentar na mesa e a minha mãe... a gente dava o envelope para ela e aí ela tirava, pegava o envelope de cada um... por exemplo, sei lá, dava um pouquinho de dinheiro para mim, para alguma coisa e praticamente todo o dinheiro ficava para a casa, para sustentar tudo que a gente tinha ali. Então, assim, nunca foi tranquilo, nunca foi fácil, nunca foi... era sempre uma batalha, sabe? Sempre uma batalha. Mas eu tenho boas lembranças - mesmo sendo essa batalha, essa dificuldade - de amigos, de brincando, de brincando na rua, de brincando de terra, brincando de queimada, né? Então, isso são lembranças gostosas daquela época.


P/1 – E você lembra do primeiro dia de trabalho com carteira assinada, registrada?


R – Eu lembro. Eu trabalhei no chão de fábrica. O primeiro trabalho foi no final do ano, foi em outubro, novembro e dezembro, não era carteira assinada, mas era num bazar que vendia brinquedos no final do ano. Então, eu fui a vendedora que mais vendi brinquedo. Os donos do bazar eram muito chatos, muito difíceis, me tratavam bem mal, mas, assim, eu fiquei muito feliz, porque eu ganhei dinheiro e o dinheiro deu para a gente fazer um Natal, né, assim, juntando de todo mundo, a gente conseguiu ter ceia de Natal, mas isso já era, assim, tinha quase quatorze anos. Então, era uma época já mais para frente e aí, no ano seguinte, eu consegui um emprego, que uma amiga minha também me ajudou, num chão de fábrica, numa fábrica que fazia brinquedos infláveis, que eram aquelas boias de piscina, brinquedo inflável e eu trabalhava no chão de fábrica, enchendo esses bichinhos infláveis (risos) o dia inteiro, das sete da manhã às cinco da tarde, ficava de pé, era uma torneirinha de ar e você enchia os bichinhos, para ver se eles não estavam furados, né? E no dia seguinte, você ia olhar e via o que não estava furado, você murchava, dobrava, embalava, para poder vender. Eu trabalhei nessa fábrica acho que quatro anos, dos quatorze aos dezoito, dezenove anos, trabalhei bastante tempo. Depois eu saí do chão de fábrica e aí fui trabalhar na recepção dessa fábrica, dessa empresa, porque aí era uma menina, né, jovem e eu gostava muito de trabalhar, eu queria sempre mostrar que eu conseguia fazer as coisas e aí um dos chefes lá falou: “Ah, bota ela na recepção, para atender as pessoas que vêm trazer produtos para consertar” e eu lembro que eu fiquei muito feliz, porque eu ia trabalhar no escritório (risos) e eu ia sair do chão de fábrica, porque no chão de fábrica usava uniforme, bota, aquelas coisas todas e eu ia trabalhar no escritório, do lado da telefonista, que era uma moça que também estava muitos anos lá. E eu lembro que eu não fui bem aceita pelo pessoal do escritório, porque eu era do chão de fábrica, então o pessoal do chão de fábrica achava que eu era metida, porque eu tinha ido trabalhar no escritório (risos) e o pessoal do escritório não me aceitava muito bem, porque eu vim do chão de fábrica. E eu não entendia isso muito direito na época, eu tipo: vamos fazer as coisas, eu trabalhava e assim foi, aí eu saí da recepção, depois eu fui ser auxiliar de vendas de arquivos, né, fazia os arquivos dos papéis lá, do time de vendas e aí fui aprendendo as coisas, fui desenvolvendo e aprendendo as coisas.

P/1 – E você pensava no que você queria fazer quando crescesse? Assim, isso era presente no pensamento?


R – Era. Eu queria muito, muito, muito ser jornalista. Eu tinha muita admiração pelo Hélio Costa que, na época, era jornalista; pelo Carlos Nascimento, eu via aquele pessoal no jornal, eu falava: “Nossa”. Era meio sonho infantil mesmo, eu queria muito fazer jornalismo, eu queria muito trabalhar com notícia na televisão, era sonho de infância. Não deu certo, assim, por um lado, porque depois eu fui fazer faculdade de Publicidade, mas era um sonho, eu tinha muita vontade de trabalhar com comunicação. Gostava muito de ler, muito, adorava ler, lia muitas bobagens no começo, lia fotonovela, quando eu era menor, depois comecei a ler gibi, depois li aquelas revistas que chamava... revista não, aqueles livros que chamavam Bárbara, Bianca, Sabrina, acho que não é da época de vocês, vocês não devem nem saber o que é isso, mas eram uns livros de história de romance e as histórias eram quase sempre as mesmas (risos). Eu li, sei lá, uns quinhentos desses livros, porque você comprava e depois você podia trocar, trocava com outras pessoas e eu gostava muito. Então, sempre gostei de ler e tinha muita vontade de trabalhar com isso, com comunicação. Era meio sonho de infância.


P/1 – E quais são as suas lembranças, assim, da escola?


R – Da escola, eu tenho lembranças até que boas da escola que eu estudei, estudei na mesma escola. No primeiro ano estudei numa escola um pouco distante, porque no primeiro ano minha mãe não conseguiu a escola perto de casa, mas foi só no primeiro ano. Eu lembro do nome da minha professora de primeiro ano, que chamava Gema Terezinha Malta, eu não esqueço do nome dela até hoje, porque ela era muito doce, muito gentil. Eu lembro de uma coleguinha que foi muito gentil comigo, que chamava Magnólia, no primeiro ano. Então, assim, eu lembro... eu tenho muito boas lembranças da escola estadual, pública. Depois eu fiz aí a minha vida inteira até o terceiro ano do ensino médio, que na época era o colegial, eu fiz nessa outra escola que eu fiquei a vida inteira e que passo por lá volta e meia, quando vou na casa da minha mãe, eu passo na frente da escola, que é a Escola Estadual Niceia Albarello Ferrari e, assim, eu tenho ótimas lembranças: de amigos, de pessoas, assim, lembranças gostosas de aprendizado, tenho lembranças, assim, de professores e professoras muito bons, muito bons. Uma professora que ela, do bolso dela, fazia tipo uma competição, que o aluno que tirasse a melhor nota, ela dava um colarzinho, devia custar cinco reais o colarzinho. (risos) Era um colarzinho dourado, que a gente achava que era de ouro (risos), mas não era. E ela fazia, assim, para incentivar todo mundo, né, ela tirava do bolso dela e fazia meio uma competição, aí ela falava: “Olha, quem tirar a melhor nota...” e eu lembro que eu ficava muito, assim, ansiosa porque eu queria tirar sempre a melhor nota. (risos) Então eu tenho ótimas recordações, assim, não só dos professores, mas da escola. Na minha época tinha uma diretora que era muito rígida, muito rígida, mas não era rígida de um jeito ruim, ela era rígida, assim, de ajudar: “Oh, você tem que estudar, estudar vai ser bom”, botava todo mundo na fila, fazia todo mundo levantar quando ela entrasse na classe, fazia todo mundo fazer as coisas direitinho, comer a merenda no horário, então, era muito organizada. Hoje eu consigo entender; na época a gente brincava, a gente falava: “Ai, meu Deus, se esconde, que vem a Dona Sir, porque ela era muito brava. (risos) Então, era muito... eu tenho lembranças maravilhosas da época da escola, foram as lembranças mais felizes, assim, de estar dentro daquele ambiente ali, de conhecer outros amigos e poder aprender. Nossa, os professores eram ótimos, né, eram ótimos, ótimos, ótimos, pessoas muito incríveis. 


P/1 – E como seguiu sua formação? Você continuou em Diadema?


R – Continuei em Diadema. Assim, eu morei até eu casar. Eu casei depois, com vinte e seis anos, eu morei em Diadema a minha vida inteira com minha família. Eu queria fazer faculdade, só que eu não tinha condição de fazer uma faculdade pública, porque eu não conseguia. Trabalhava à noite... trabalhava de dia e estudava à noite e ainda fazia alguns bicos, algumas coisas, eu fazia doces para vender para ajudar a pagar a faculdade. E aí, eu prestei vestibular em escola particular, passei na Anhembi-Morumbi na época, que era uma escola, uma faculdade que estava começando, era pequena ainda e aí eu passei, só que eu não tinha dinheiro para pagar a matrícula, porque era a mensalidade e matrícula juntos no mesmo mês e aí não tinha condição. E não tinha nenhum programa na época, não tinha Prouni, não tinha Fies, não tinha nada disso, o que a gente... minha mãe comentou com uma vizinha que morava na frente da casa da gente e essa vizinha falou: “Mas o que você pretende fazer?” e não dava, eu conseguia pagar a mensalidade, mas eu não conseguia pagar a matrícula e aí ela falou: “Não, eu vou ajudar a Ana” e aí essa vizinha emprestou o dinheiro, mas depois ela não quis receber de volta, muito fofa ela. Ela emprestou o dinheiro e aí eu paguei a matrícula e depois fui pagando a mensalidade, mas eu pagava a mensalidade juntando dois salários, porque não era só para a faculdade, o salário era para comer, para pagar ônibus, para pagar todas as coisas, que tinha que se virar. Eles, meu pai e minha mãe, não tinham condição de pagar. Então, eu tinha que juntar dois meses para pagar uma mensalidade, tanto que eu saí da faculdade depois que eu terminei os quatro anos, eu saí devendo um ano e aí eu paguei depois que eu terminei a faculdade, que eu terminei de pagar. Então, não era um processo muito simples não, mas fiz, fiquei muito feliz quando eu passei para Publicidade, fiquei feliz que eu passei para essa faculdade. Depois que eu terminei o colegial eu ainda fiquei um ano, pensando como é que ia fazer, como é que eu ia juntar dinheiro para fazer as coisas, mas foi muito interessante, assim. E eu lembro um episódio que, para mim, ficou bem-marcado da faculdade, que uma vez eu cheguei no pátio lá da faculdade e tinha um cartaz gigantesco escrito “lista dos devedores”. (risos) Na época, eles podiam fazer isso, né, não tinha código de defesa do consumidor nem nada, eu entrei na faculdade em 1988 e tinha uma lista dos devedores no pátio, eles faziam essa lista, a primeira vez que eu vi essa lista eu fiquei muito chateada, eu fiquei com vergonha, porque eu fiquei pensando: “Puxa, que feio, meu nome vai estar lá na lista dos devedores” e aí depois eu vi que a lista era muito grande, aí eu falei: “Ah, então tem muita gente, está tudo certo”. (risos) Eles faziam a lista dos devedores e quem devia não recebia a folha de prova bimestral, você tinha que... seu nome era chamado e, se você estava devendo, você tinha que buscar a folha de prova na tesouraria, porque você estava devendo. Era horrível, um negócio absurdo, assim, expor as pessoas à situação vexatória. E meu nome começava com A. A primeira vez que isso aconteceu eu fiquei muito, assim, vermelha, envergonhada, nossa, eu fiquei muito mal, mas aí, assim, quando eu vi que me chamaram, mas chamaram mais um monte de gente para buscar a folha de prova, eu falei: “Ah, tá bom”. Aí, no fim, virou até uma tiração de sarro nossa, que eram os devedores que iam buscar a prova na tesouraria, mas era muito feio, muito ruim. Então, a gente tinha que enfrentar isso, porque não tinha programa tipo Fies, Prouni e bolsas, essas coisas não tinha. Fazer faculdade naquela época era privilégio do privilégio do privilégio do privilégio, era só quem ou conseguia estudar num colégio particular bom e fazer uma faculdade pública, o que é um contrassenso, ou para quem realmente tinha recurso. Eu não tinha nenhuma das duas coisas: eu tinha estudado numa escola pública, não tinha recurso para pagar uma faculdade particular, então, você tinha que ter muita determinação para fazer, se não a maioria dos meus amigos não fez faculdade, a maioria dos meus amigos foi procurar emprego, né, foi se concentrar em trabalhar. Gente muito bacana, com muito potencial, tudo, mas não tiveram condição, né? Então, é bem difícil (risos).


P/1 – E qual foi, assim, sua primeira impressão ao chegar na faculdade? Era um ambiente diferente do que você estava acostumada?


R – Ah, eu achava que as pessoas eram ricas. (risos) Eu achava, assim, que só eu tinha uma situação ruim, difícil, eu via aquelas pessoas bem-vestidas, bem arrumadas, pessoas super ajeitadas, eu achava que as pessoas eram ricas. Depois eu entendi que não, que era muita gente com uma situação talvez não tão difícil quanto a minha, mas em situações também de batalha, de luta também para poder conseguir estar ali, mas a primeira impressão foi muito de sonho, assim: puxa vida, né, estou conseguindo entrar naquele pátio, aquele ambiente ali, com um monte de gente que já tinha meio aqueles estereótipos de Publicidade, gente com cabelo diferente, com cabelo colorido, gente com roupas legais, que era o estilo que, na época, achavam que era cool, né? Então, eu achei aquilo tudo muito bacana, muito legal, a realização de um sonho. Fiquei muito feliz de poder fazer a faculdade e poder estar ali. Depois eu percebi, né, que as pessoas realmente, também como eu, tinham dificuldades, as pessoas realmente estavam tentando superar seus desafios, cada um tinha uma batalha específica e eu tenho amigos da faculdade, uma turma, até hoje. São mais de trinta anos de formados e nós temos... até hoje a nossa turma se reúne, assim. (risos)


P/1 – E como foi a formatura, você teve? Tinha que fazer TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]?


R – Tive. Nós tivemos, tivemos o grupo de trabalho, TCC, que deu muita briga, (risos) ficamos de mal, depois voltamos. Então, assim: nosso TCC era criar uma campanha publicitária, na época nós criamos de uma... uma das meninas trabalhava na Sharp e aí nós criamos uma campanha publicitária para uma câmera da Sharp, não esqueço até hoje, era uma câmera que chamava VLL170B (risos) e aí o nosso grupo de trabalho eram cinco, né, nós fizemos o TCC. Foi super duro fazer esse TCC, assim, porque a gente tinha que trabalhar, todo mundo, a semana inteira. A gente se reunia de sábado, nem todo mundo estava com a mesma disposição, com a mesma vontade, ritmos diferentes, pessoas diferentes. A gente fez, foi nosso TCC, acho que a gente tirou nota... sei lá, nove e pouco, foi super bem avaliado. A gente tem fotos, assim, a nossa turma é muito unida, tanto do grupo do TCC, quanto do outro grupo, a gente tem três grupos que se juntaram e são amigos até hoje, de três grupos diferentes de TCC. Então, a gente tem uma relação muito bacana. A formatura, para mim, teve algumas simbologias difíceis, né, porque, de terminar, de se formar, foi muito bacana, mas no dia da formatura minha família não pôde ir, porque minha mãe tinha um problema de saúde mental, ela na época foi diagnosticada com esquizofrenia. Não é para menos, com uma situação de vida toda difícil dessa e ela teve uma crise, né, de... enfim, uma crise muito forte e aí a gente buscou ajuda espiritual na época e aí todos... toda a minha família teve que ficar com ela no dia da minha formatura, que estava previsto que as pessoas iam e aí ninguém pôde ir, eu fui à minha formatura sozinha. (risos) Então, isso foi bem difícil. (risos) Mas eu, assim... já foi pior lembrar disso, hoje faz parte (risos), faz parte.


P/1 – E na época você trabalhava onde?


R – Na época eu trabalhava já na Autolatina, porque foi também uma mega conquista, eu conseguir trabalhar numa multinacional, porque até então eu tinha trabalhado em empresas lá em Diadema mesmo, né? Empresas legais, tudo, mas empresas lá em Diadema. E aí eu tinha entrado, foi uma decisão também bem dura, foi uma decisão no terceiro ano de faculdade, porque eu passei no estágio na Autolatina, só que era para ganhar menos do que o que eu ganhava na empresa que eu trabalhava, que era uma indústria de  conexões de aço, mas aí eu tomei a decisão, hoje eu considero que foi uma das decisões mais difíceis, mas muito acertada, porque eu queria entrar na área de comunicação e era um estágio na área de Marketing e aí eu entrei na Autolatina, eu fiquei super feliz, porque era uma coisa meio de sonho, né, trabalhar numa empresa grande, numa multinacional, foi muito simbólico. E aí eu fiquei nessa empresa, eu lembro de muito, assim, não me senti parte, sabe? Não me senti inserida dentro daquele ambiente. Eu tive muita dificuldade de ajuste dentro da organização, porque eu não tinha o perfil que a maioria das pessoas lá tinham. Eu era de uma família humilde, tinha estudado em escola pública, tinha feito uma faculdade que não era de primeira linha e eu não falava inglês. Então, eu ouvia isso o tempo inteiro, como sendo impeditivo, sabe? E, assim, eu sentia que as pessoas me tratavam diferente, eu sentia isso em tudo, nas ações, nas coisas. Então, não foi um processo fácil de adaptação, mas no ano que eu entrei como estagiária foi... eu fui a única estagiária efetivada, naquele ano. Porque a minha forma de combater isso, o que eu nem entendia que era preconceito, eu nem sabia elaborar isso, a única forma que eu entendia, eu falava: “Eu vou trabalhar bastante, mostrar que eu sei fazer as coisas, vou estudar bastante, vou entender das coisas que eu estou aqui, para poder me sair melhor, porque é o único jeito, eu não tenho como mudar a minha história e o meu passado, né?” E aí foi o que eu fiz e naquele ano... eles não efetivavam direto como funcionário, mas me efetivaram como terceira, que era terceirizada, na época, nem existia muito bem esse conceito, por uma empresa de pesquisa, eu fui a única estagiária terceirizada naquele ano. Então, foi muito bacana, fiquei lá na empresa por mais três anos e aí eu pedi demissão, para trabalhar numa agência, porque eu queria muito entender o que era o universo de uma agência de propaganda, uma agência de comunicação. Fiquei um ano nessa agência e aí me chamaram de volta, aí eu voltei como funcionária mesmo, CLT, bonitinho, como funcionária da Autolatina na época. (risos)


P/1 – E como você entendeu o que você tinha vivido, experienciado preconceito?


R – Porque as coisas não eram assim: eu via para as outras pessoas, que tinham vindo de escola boa, que tinham feito faculdade de primeira linha, eu via que as coisas eram mais fáceis para elas. Eu ficava com muita raiva, não vou falar que era uma coisa simples não, eu tinha dificuldade para elaborar aquilo. E várias vezes conversava com o meu chefe, eu falava: “Mas por que eu não posso participar desses processos?”, porque tinham processos seletivos internos, para vagas melhores ou para posições melhores. Na época, eu lembro de um processo de trainee que teve, todo ano tinha uma turma de trainee e os trainees era uma coisa, assim, como se fosse, sabe, eram os reis que entravam na empresa. E aí eu fui questionar a minha chefe, o RH, eu falei: “Eu não posso entrar no programa de trainee?” E aí, assim: “Como você quer entrar no programa de trainee? Você não fez uma faculdade de primeira linha, você não fala inglês, então: você não tem boa formação”, mas eles falavam isso na minha cara, não era uma coisa disfarçada não. Aí eu fui ao RH e eu lembro que conversei, na época, com o cara de RH, um gerente, eu falei para ele: “Mas eu não acho certo vocês não deixarem eu nem participar”. E aí eu, tolamente, né, porque eu não entendia qual era a regra do jogo, falei: “Não, eu quero participar”. E eu acho que eles ficaram com receio, porque eu falei que eu queria participar, eles me deixaram participar do processo, mas obviamente eu não passei, né, porque eu não tinha os requisitos que eu ouvia o tempo inteiro: “Ah, você não estudou em escola de primeira linha. Ah, você não fez faculdade de primeira linha, blá, blá, blá, não fala inglês”. Então, assim, aquilo foi me deixando realmente bastante chateada, só que eu não elaborava o preconceito, não entendia o preconceito, eu não conseguia falar sobre isso para as pessoas: “Ah, vocês estão sendo preconceituosos”. Eu falava de injustiça, eu falava: “Isso não é justo, eu estou aqui, eu tenho um ótimo desempenho, eu faço tudo que é exigido do meu cargo, eu entrego muito mais do que o que vocês me pedem e vocês não me dão acesso e condição a uma coisa que eu gostaria, para ter uma carreira mais... conseguir outros passos na minha carreira”, mas não dava certo, não andava. E aí eu ficava muito chateada, aquilo me consumia, porque eu via outras pessoas com menos capacidade, com menos entrega, mas porque tinham os requisitos que eles queriam, tendo carreiras mais rápidas do que a minha. Então, era tudo muito complicado, muito difícil. Eu lembro que teve um chefe que falou para mim: “Às vezes, você tem que se conformar com as coisas, Ana”. Eu falava: “Não, mas porque eu tenho que me conformar? Eu tenho capacidade, eu não estou... se não tivesse capacidade, está tudo bem, mas eu tenho” e ele falou assim: “Meu, você briga muito, você fica...”, como se o fato de eu querer melhorar fosse alguma coisa que eu não devesse querer, sabe? Então, assim, não foi um processo fácil. O que eu fiz para tentar superar isso e eu fiz isso também não elaborado, eu fiquei refletindo assim: “Como que eu faço para poder eliminar esses fatores que me bloqueiam nas coisas, para eu poder desenvolver melhor minha carreira?” Aí o colégio não tinha como mudar, o colégio não tinha como fazer, aí ele... a questão da faculdade, a solução que eu encontrei foi fazer uma pós bacana, na época, eu fiz pós em Marketing na ESPM. Guardei todo o dinheiro, assim, quase tudo, para poder fazer essa pós, fiz porque a ESPM, na época, era uma faculdade super considerada na área de Comunicação e Marketing e foi o que eu, na minha cabeça, falei: “Tá bom, eles querem marca, então vou lá. A faculdade que eu fiz eles não consideram a melhor, vou fazer uma pós em Marketing na ESPM”. Fiz, eu falei: “Bom, então isso... vamos tirar esse tiquezinho aqui”. Um outro que era muito difícil era o inglês porque, em escola pública, imagina, vem de família pobre, escola pública, você não aprende inglês, você fica aprendendo ano após ano o verbo To be. Então, não é uma coisa que é muito fácil, eu tinha muita dificuldade de aprender inglês, muita, eu não tinha paciência, não tinha disciplina, não conseguia, aprender inglês adulto é muito difícil. Aí eu fiz um curso numa escola simples, que era o CNA, era o que eu conseguia pagar, tinha gente que era meu colega e falava assim: “Ah, mas você tem que fazer num Alumni, você tem que fazer na Berlitz”, eu falava: “Mas eu não tenho dinheiro, fofinho, para fazer nem na Alumni e nem na Berlitz. Eu tenho dinheiro para fazer CNA”. E aí eu fiz durante três anos, só que não evoluía, o inglês não evoluía, até que na época, ganhei uma viagem para Orlando, fui sorteada, ganhei uma viagem para Orlando, fui lá, mas não aprendi nada, o inglês não evoluía, não andava e aí eu tive a ideia, falei assim: “Meu...”, eu já estava casada, tudo, não tinha minhas filhas e eu falei para o meu marido, na época: “Eu preciso tirar esse negócio da frente, eu preciso aprender inglês”. E aí eu fui ver um curso fora, fiz a mesma coisa: juntei dinheiro, né, cara e coragem, consegui uma casa de família lá em Londres, adulta, né, eu fui fazer um intercâmbio com um monte de adolescente, eu era adulta (risos), então era um negócio muito doido. E aí pedi uma licença não remunerada no Banco Autolatina, que eu trabalhava na época, fui falar com minha gerente, falei com meu diretor, eu falei: “Olha, eu sei que não é uma coisa normal, mas eu queria muito tirar essa questão da frente, eu queria aprender inglês” e aí eles permitiram que eu tirasse a licença não remunerada, aí depois eu pedi, ainda, para esse meu diretor, eu falei: “Você não pode, além da licença não remunerada, arrumar um estágio para mim na Volkswagen de lá, né, em Londres?” E ele mexeu os pauzinhos lá dele e conseguiu, daí eu fiz - acho que foram quase três meses - um curso de inglês, todo dia de manhã, eu fazia das oito a uma lá, em Londres e à tarde eu fazia três vezes por semana um estágio na Volkswagen, que ficava a uns quarenta quilômetros... quarenta minutos de Londres. Eu ia para lá e trabalhava para aprender melhor o inglês. Foi, assim, a melhor coisa que eu fiz na vida. Comi lanche durante três meses, assim: eu comia refeição na casa de família, que era de manhã, a parte da manhã que estava incluído e à noite e durante o dia eu tinha que me virar. Então, como eu não tinha muito dinheiro, eu fazia o que era possível. Comia o fish and chips lá dos londrinos, (risos) aquele peixe no jornal, comi várias vezes (risos) e falei: “Não, eu tenho que me virar”. E foi isso que me ajudou muito na carreira. Quando eu voltei a trabalhar, fiquei mais um tempo, aí consegui uma promoção, depois eu já fiquei, um tempo depois, grávida da minha primeira filha, eu fui promovida e as coisas começaram a caminhar um pouco melhor. Não vou dizer também que foi fácil, porque uma pessoa lá, um trainee que vinha desse processo levava um ano, dois anos pra conseguir um cargo executivo, eu levei dez anos, durante esse processo todo. (risos) Então, não era uma coisa fácil, mas era o que era possível.


P/1 – E como você conheceu o seu marido?


R – Ah, isso tem uma história muito legal: eu conheci o meu marido no cursinho para a faculdade, porque antes de eu entrar na primeira faculdade, eu fiz três meses de intensivão. Eu não tinha dinheiro para fazer um cursinho o ano inteiro, porque não dava, aí tinha um programa que eles chamavam de ‘intensivão’, que você fazia de outubro até dezembro, até o começo de dezembro, para dar um reforço no que você sabia do ensino médio, para você tentar uma faculdade e aí eu fui fazer o Etapa, na Ana Rosa. Consegui, juntei, fiz todos ao ‘paranauês’ lá, ainda consegui desconto, fiz um monte de coisa e aí, no primeiro dia de aula, não sei se foi no primeiro dia de aula, eram aquelas classes grandes, gigantes e fui eu e uma amiga. Essa amiga queria fazer cursinho, porque ela queria arrumar um namorado (risos) e eu queria fazer cursinho porque eu queria entrar na faculdade, tinha muita vontade de entrar na faculdade. No fim, ela não arrumou namorado e eu arrumei namorado no cursinho (risos) e aí foi muito legal, porque um dia eu cheguei atrasada para a aula e eu estava com uma mochila e eu estava com um pacote de absorvente na mochila, (risos) eu estava num... eu estava menstruada e aí eu fui me sentar e, no que eu fui me sentar, a mochila estava aberta e o pacote de absorvente caiu no chão. (risos) Meu marido diz que ele não lembra direito disso até hoje, ele fala que ele olhou, mas ele não olhou como eu acho que ele olhou, ele virou para trás e tinha um monte de absorvente caído no chão (risos) e era eu tentando botar os absorventes dentro da mochila. Ele olhou, assim, deu aquela risadinha sem graça, né e aí... enfim, aí a gente passou a conversar, falar um oi, dar umas risadinhas bestas e um mês depois a gente estava namorando, assim. A gente começou namorar no cursinho, ele era bem quietinho, eu também era mais quieta, aí a gente começou a falar um com o outro e um dia a gente foi assistir uma peça de teatro, que fazia parte do cursinho também, que era para a gente aprender sobre cultura, tudo e a gente começou a namorar lá. E, de lá para cá, são trinta anos, quase trinta anos, meu Deus, (risos) de casado e uns trinta e poucos juntos. (risos)


P/1 – E como foi o casamento de vocês?


R – Ah, foi supersimples. A gente se casou na igreja, assim: a família dele também católica, que nem a minha família, queriam que casasse na igreja. A gente também estava naquele começo de vida de não ter recurso, como a gente se vira? A gente comprou um apartamento financiado no BNH, maior bobagem que a gente fez na vida (risos). Na época era BNH, não lembro o nome, que era um sistema de habitação, que era o apartamento que você comprava pra financiar em trinta anos, era uma coisa de doido (risos). A gente comprou num bairro muito simples aqui da zona sul de São Paulo, mas aí foi entregue, foi o nosso começo de vida. A gente se casou numa cerimônia, numa igreja aqui da Vila Mariana, uma igreja que chama São Francisco, com a família junto. Assim, não ia fazer festa, no fim meu irmão ajudou, contratou um buffet, aí o outro levou o som, aquelas coisas bem de improvisado, né? (risos) A gente alugou um salão, aí veio gente da minha família, gente da família dele, alguns amigos nossos. Foi bem gostoso, tinha umas cento e poucas pessoas, nada grandioso. Eu aluguei o meu vestido de uma amiga também, que morava no interior e que é minha amiga e comadre até hoje. Então, assim, foi tudo muito simples, mas muito cheio de simbologia para a gente. Eu me casei com vinte e seis anos, a gente se casou cedo, os dois, nós temos a mesma idade, a gente casou muito cedo, também batalhador ele, eu brinco que ele é mais playboy do que eu, (risos) ele fica bravo, (risos) porque ele é de uma família também simples, tudo, mas com uma jornada menos desafiadora, vamos assim dizer, do que a minha. (risos)


P/1 – E, Ana, como foi se tornar mãe? Como foi sua gravidez?


R – Tem uma história bem triste antes, que é uma história, que hoje já consigo falar com mais tranquilidade, mas eu tinha muita dificuldade de falar. Eu tive uma primeira gravidez com trinta e cinco anos, a gente esperou bastante para ter filhos, nos casamos com vinte e seis e eu fiquei grávida da minha primeira filha com trinta e cinco. Ela faleceu, porque nasceu prematura, de sete meses, seis para sete meses. Foi um processo muito difícil, foi uma gravidez muito difícil, porque foi uma gravidez de alto risco, eu fiquei em casa três meses de cama, não podia sair, só podia levantar para ir ao banheiro, porque eu tive uma gravidez de altíssimo risco, foi um processo muito duro, porque... ai, ainda tenho dificuldade de falar nisso. (risos) Eu fiquei quase trinta dias no hospital no último mês de gravidez dela, para poder conseguir com que ela ficasse mais tempo. Ela nasceu e faleceu dia 6 de agosto de 2001, eu não pude ir ao velório, nem no enterro dela. (choro) Vixi, está vendo? (risos). Isso tem dezenove anos e, mesmo assim, ainda emociona. Foi bem difícil. E aí eu tinha um problema de saúde que, na época, a gente não sabia direito o que era, aí o médico falou: “Olha, é melhor vocês esperarem, então, não precisa evitar, vai durar, vai esperar mais uns dois, três anos para você ficar grávida e vai tocando a vida”. Foi um processo duro, porque eu estava de licença, eu tive que sair de licença maternidade porque, como ela nasceu, tudo, teve todo processo jurídico legal, enfim, foi uma etapa muito dura na minha jornada e aí, para nossa surpresa, ela nasceu e faleceu dia 6 de agosto, em dezembro eu fiquei grávida de novo, (risos) assim, sem muita expectativa, né, que ia ficar grávida com essa rapidez, porque o médico falou: “Olha, a chance de você ficar grávida rápido não vai ser tão rápido assim” e aí a Daniela, que é minha filha hoje tem dezoito anos, nasceu no dia 18 de agosto do ano seguinte, também no mês de agosto do ano seguinte, também foi uma gravidez de risco, também passei por algumas dificuldades na gravidez dela, mas felizmente consegui levar até os nove meses e aí está uma moça, (risos) com dezoito anos, muito maravilhosa. E a Daniela hoje, enfim... aí eu queria muito, eu insisti muito na época com o meu marido, porque eu queria muito ter dois filhos, duas meninas, dois meninos, duas crianças, eu queria ter dois filhos e passou um tempo depois que a Daniela nasceu, eu comentei com o meu marido: “E se a gente adotar?” Porque eu não queria mais ter gravidez, porque eu falei: “Eu não dou mais conta, meu organismo já não dá conta disso”, ele falou: “Vamos”, eu falei: “Nossa, vamos?”, ele falou: “Vamos”. (risos) Eu falei: “Vamos pensar um pouco”. Aí passou um tempo, uns meses, eu falei: “Você está no ‘vamos’ ainda?”, ele falou: “Estou” e aí nós fizemos o processo para entrar na fila de adoção, nós fizemos processo de aprovação, tem toda uma documentação, entrevista, tudo mais e entramos na fila de adoção. Na época, a Daniela tinha três anos, acho que não tinha nem três ainda e a gente achou que era rápido, a gente falou: “Ah, a gente vai entrar na fila e vai ser rápido” e aí não foi, né, demorou dois anos e meio para chegar a nossa vez na fila. E aí um dia ligaram do Fórum, a gente ficou muito, muito, muito emocionado, chegou nossa segunda filha, que é a Evelyn, que hoje tem treze anos, na época ela chegou com dez meses, era assim uma “pitchutchuca”. Eu lembro que a psicóloga do Fórum falou: “Olha, Ana...” - ligou e falou: “... chegou sua vez na fila, sua e de Luciano, nós temos uma menina, chama Evelyn, ela tem dez meses e ela pesa nove quilos (risos) e eu lembro: “Nossa, que fofinha!” (risos) E aí a gente fez o processo todo, foi muito emocionante para a gente, foi muito forte, assim, esse processo de conhecer a Evelyn, de conhecer a história dela. Foi muito emocionante, porque o Fórum ligou na quarta-feira, na quinta-feira a gente foi lá conhecer a história e na sexta-feira de manhã, fomos conhecer a Evelyn no abrigo e à tarde a trouxemos para casa. (risos) De quarta-feira para sexta-feira foi uma loucura. E a gente não tinha - porque na época a Daniela já estava com cinco anos - berço mais, a gente não tinha nada de bebê e tivemos que correr atrás de tudo na sexta-feira, assim, enlouquecidamente. Foi muito bacana, assim, porque ficamos num vai para lá, vem para cá, corre com tudo e a Evelyn veio para casa no dia 17 de outubro, numa sexta-feira, foi um dia muito simbólico para a gente, ela estava com dez meses, uma gordinha, fofinha e hoje ela está com treze anos, uma ‘pirulona’, mais alta que eu, ‘magrelona’. (risos) E, enfim, foi, assim, bem importante, bem simbólico para a gente também.


P/1 – E no nascimento da Daniela, que eu imagino que foi um nascimento de se tornar mãe também, como foi esse momento? Como foi levá-la pra sua casa? Como foi sentir todas essas emoções?


R - Foi muito assustador no começo, (risos) porque eu tinha medo de tudo, né? Eu tinha medo de pegá-la no colo, tinha medo de machucar, tinha medo de dar banho. Quem deu os primeiros banhos foi meu marido. (risos) Quem deu os primeiros banhos foi ele, ele falou assim: “Não, vamos aqui juntos”. Quando ela nasceu foi muito forte, ela nasceu num domingo, às nove e cinco da manhã, foi programado por conta da gravidez de risco, então teve que ser uma cesariana, não dava para ser um parto normal, assim, ela nasceu supergrande, com quatro quilos. Foi aquela coisa de ser mãe, né, que é um misto de sentimentos: você tem muita alegria, mas você começa a ter um medo danado, é uma coisa maluca, não sei porque você começa ter um medo danado, você tem medo de tudo, você tem medo de machucar, você tem medo de você morrer, você tem medo de um monte de coisa, então é um misto de sentimentos muito... e foi muito, muito, muito forte quando ela chegou em casa, né, quando a gente chegou com ela em casa, porque também, querendo ou não, lembrava da outra situação, que eu cheguei em casa sem ninguém, então foi bem forte. A gente... no começo o Luciano ficou comigo durante quase trinta dias, porque ele tirou férias, foi muito bom. No primeiro dia que ele voltou a trabalhar eu chorei o dia inteiro, (risos) eu falava: “Meu Deus, eu não vou conseguir sozinha”. (risos) Mas foi muito, assim: ser mãe, para mim, é uma das melhores coisas da minha vida, assim, ser mãe das duas. Mãe em todos os sentidos, mãe da Evelyn, mãe da Dani, para mim não tem coisa melhor na vida. Não sei se eu sou a melhor mãe para elas, mas eu sei que eu adoro ser mãe delas. (risos)


P/1 – E você lembra de alguma história marcante com as duas, assim, tem algum momento que vocês gostam de viver juntos, alguma atividade?


R - Elas gostam muito de ficar na... assim, no espaço aberto, no sol, gostam muito de praia, né, assim, aquela coisa do mar. A Evelyn, quando era pequenininha, assim, mexer as perninhas, a Dani também mexer as perninhas, fazer aquelas brincadeiras na areia, né, de estar... corre atrás das ondinhas, se joga, não sei o que nas ondinhas, (risos) isso é uma das coisas que a gente, inclusive, está sentindo muita falta, porque não pode fazer isso há mais de um ano. Lembro muito: a gente morava numa casa com quintal e a gente comprou uma piscininha, né, a Dani tinha cinco e pouco, a Evelyn ainda era um bebezinho, tem umas fotos lindas dessa época, no quintal com grama e a gente botou aquela piscininha Regan ali, elas ficavam brincando, uma do lado da outra, dentro da piscina, a gente em volta. Eu, Luciano, às vezes, as irmãs do Luciano ali com a gente. Muito gostoso essa convivência das duas. Nem sempre foi pacífica, né, porque são irmãs, (risos) como todos os irmãos brigam volta e meia, mas é muito gostoso ver a relação de brincar ao ar livre, de sair. A gente gosta muito, gostava, ainda gosta, mas não dá para fazer, de ir num parque que fica aqui perto, que é o Parque do Ipiranga, que tem o Museu do Ipiranga, que as pessoas conhecem mais o museu, mas atrás tem um parque, um parque mesmo, com lugar para criança brincar e a gente gostava muito de lá, muito, com as duas, muito. Então, a gente olhava ali, porque o Museu do Ipiranga, a parte da frente é super bonita, atrás tem esse parque com parquinho e tudo mais, lugar para andar de bicicleta, de skate e do outro lado tem aquela área superaberta, que tem uma pista gigante ali, onde tem também área dos cachorros. Ali é o lugar que é muito, muito simbólico pra gente, que a gente gostava muito de ir. Agora temos um pouco de medo ainda, por conta da pandemia.


P/1 – E na época que vocês tiveram a Daniela, você ainda estava trabalhando na multinacional?


R - Ainda estava trabalhando, eu trabalhei lá dezoito anos, eu fiquei lá dezoito anos. Eu entrei como estagiária, depois eu fui efetivada como terceirizada, depois eu saí durante um ano, depois eu voltei e ao todo eu fiquei dezoito anos lá, quando eu pedi demissão em 2007. A Daniela tinha cinco, foi em 2007, em dezembro eu pedi para sair, eu tinha a Daniela, mas não tinha vindo a Evelyn ainda, eu estava na fila de adoção. A Evelyn veio em 2008, eu já tinha saído de lá, tinha trabalhado uns meses numa outra organização, que também não gostei e aí, em 2008, outubro de 2008 veio a Evelyn, aí eu comecei a ser empreendedora e aí fiquei. (risos)


P/1 – E quando o empreendedorismo começou a fazer parte da sua vida?


R – Com a vinda da Evelyn, na verdade, assim. Eu, na verdade, estava muito infeliz no ambiente corporativo, nessa multinacional, eu já tinha uma consciência mais elaborada do processo discriminatório, né e tudo mais e a discriminação não passou a ser mais a questão da faculdade, nem da língua e passou a ser o fato de eu ser mulher. Eu era a única mulher executiva, durante muito tempo, tinha que superar muito mais desafios, eu tinha que provar muito mais o tempo inteiro e isso cansa! A gente não tem saúde emocional para ficar superando o tempo inteiro, então aquilo cansava demais. Eu trabalhava muito, eu continuo trabalhando muito hoje, mas eu não tinha a flexibilidade de tempo e de horário, então eu ia para lá, ficava lá, às vezes, voltava para casa nove, dez horas da noite e eu já não enxergava mais propósito nem nada, eu estava muito cansada, mentalmente, fisicamente e tudo mais, aí eu pedi demissão, não sabia se eu ia empreender, eu ainda fui trabalhar numa outra organização, fiquei seis meses, sete meses ao todo nessa outra organização e foi aí que eu realmente decidi, que eu falei: “Meu, acho que eu posso tentar alguma coisa no ambiente empreendedor”. Eu abri meu primeiro negócio no final de 2008 para 2009, aí abri com outro sócio, não deu certo, as coisas não andaram bem, nunca tinha tido negócio formal ou oficial, a gente não se entendeu, mas eu gostei de empreender, gostei de conseguir fazer as coisas, gostei de poder criar o meu próprio jeito de construir o negócio e foi aí que me apaixonei, aí o bichinho do empreendedorismo não me largou mais, toda vez que alguém falava: “Ai, você tem que largar esse negócio e ir para o mundo dos negócios, para poder ganhar dinheiro”, eu falava: “Gente, eu vou fazer alguma coisa para conciliar essas duas coisas, porque não é possível, eu quero criar o meu próprio mundo dos negócios”. Então, acho que isso fez muita diferença. E a partir daí eu não larguei mais, desde 2008 que eu sou empreendedora, em 2009 o meu primeiro CNPJ, que foi o ElogieAki, que foi um site de elogios na internet, de recomendações positivas, depois eu abri a Rede Mulher Empreendedora e depois... tudo paralelo, um espaço de coworking, que era um escritório compartilhado. Assim: é muito ralação, muito difícil você empreender no Brasil, é muita dificuldade, então, assim, eu me apaixonei pelo universo empreendedor e depois me apaixonei pelo universo de empreendedorismo social, de impacto e pela causa das mulheres e estou nela desde então, apesar dos altos e baixos, porque é sempre muito difícil você empreender, é sempre muito difícil você conseguir, lidar com risco, porque empreender tem muito a ver com o risco, mas, assim, eu não troco por nada - claro que hoje é mais fácil, porque onze anos, na verdade, no total, treze anos se passaram - acho que a jornada que eu construí no ambiente empreendedor, impactar a vida de milhões de mulheres pelo Brasil afora, para mim não tem preço melhor. (risos) 


P/1 – E como você... como foi esse processo de escolher a causa das mulheres? Acho que foi esse o termo que você usou.  


R - Na verdade, o processo de escolher a causa foi uma descoberta, Luiza. Eu fui, com o primeiro negócio, selecionada para participar de um programa, que era um programa social de uma fundação que chama Fundação Goldman Sachs, que oferecia curso para mulheres - de gestão de negócio - no mundo inteiro, em mais de vinte países, eram cursos gratuitos, nas melhores universidades de negócio. Aqui no Brasil quem fazia era a FGV, a Fundação Getúlio Vargas e aí eu me inscrevi no processo seletivo e estava com ElogieAki, na época, que era a plataforma de recomendações positivas e eu lembro que eu fui selecionada para participar do processo seletivo. O processo seletivo foi super difícil, não foi um processo fácil, tinha várias etapas, inclusive uma entrevista final com o pessoal da Fundação Goldman Sachs dos Estados Unidos, que vieram para São Paulo, para fazer entrevistas com as finalistas. Então, assim, era um processo muito elaborado de seleção e eu conheci, durante esse processo, várias outras empreendedoras, na sala de espera, nas conversas, esperando pelas entrevistas conheci várias e aí, na etapa final, eu fui aprovada. E aí, no primeiro dia de aula, na FGV, imagina a simbologia, né? O primeiro dia que eu entrei no prédio da FGV, aquilo para mim era uma coisa absolutamente surreal, porque a melhor escola de negócios da América Latina, aquilo tinha uma coisa, assim, muito forte e aí eu entrei na sala de aula e o coordenador do curso, que é meu amigo e hoje é vice-diretor da GV, tanto que eu o infernizei, os coordenadores do curso falaram assim: “Vocês são as trinta e cinco privilegiadas que foram selecionadas para esse processo desse programa, que se chama 1000 Mulheres. É um programa onde vocês vão, durante três meses, dois dias inteiros por semana, sexta-feira e sábado o dia inteiro, aprender como fazer a gestão do negócio de vocês, com os melhores professores aqui da GV, tudo de graça”. Então, assim, aquilo foi uma coisa muito forte, só que ao invés de eu me sentir feliz, me deu um negócio, assim, me deu uma coisa, um incômodo, que eu não sabia direito o que era e aí eu fiquei elaborando esse incômodo, na segunda semana do curso, eu fiquei assim: gente, eles disseram, nesse primeiro dia de aula, que tinham mais de mil inscrições para as trinta e cinco vagas que nós fomos aprovadas e aí eu comecei a perguntar para os coordenadores, eu falei assim: “E as novecentas e tantas que não passaram, o que vai acontecer com elas?”, eles falaram: “Ana, a gente tem recurso para uma turma a cada seis meses, de trinta e cinco mulheres, então as outras a gente não tem o que fazer”. Eu fiquei matutando, pensando o que eu poderia fazer e aí, na segunda semana, mulheres, né, nós já estávamos amigas de infância, a nossa turma, as trinta e cinco, a gente já sabia da vida uma da outra, todo mundo já se conhecia, eu falei: “Gente, eu vou começar a escrever sobre o que a gente aprende aqui. Eu sempre gostei de comunicação, eu vou escrever”. Na época era um blog e eu dei o nome para esse blog de Rede Mulher Empreendedora, aí eu falei: “Quem sabe, o que a gente aprende aqui, eu ensino para outras mulheres”. E aí eu pedi para a coordenadora do curso, eu falei: “Eu posso mandar para as que foram as mil inscritas?”, ela falou: “Pode, me dá o endereço do blog, a comunicação e eu mando para elas” e foi isso que ela fez. E aí para minha surpresa, assim, durante o programa inteiro, tudo que eu aprendia, eu transformava na minha linguagem, que é uma linguagem mais simples, mais direta, mais objetiva e passava nesse blog. Então, ensinava a fazer a gestão, como contratar, fazer planilha financeira, fazer várias coisas, só que eu não sabia de todos os assuntos. Então, o que eu fiz? Eu comecei a pegar mulheres da turma, eu falei: “Você sabe de contabilidade?” Tinha uma contadora, tinha outra que sabia de vendas, tinha outra que sabia de marketing, tinha outra que sabia de RH (risos), eu falei: “Me ajuda aqui? Você me ajuda a escrever também aqui no blog”. E foi assim que surgiu a Rede Mulher Empreendedora. Assim: era uma coisa que eu fazia, eu fazia à noite, de final de semana, para poder ajudar outras mulheres, ensinando o que eu aprendia lá na classe, só que a diferença era a minha linguagem. E o que foi mais assustador: deu doze meses depois, a gente terminou o curso, teve a formatura e tudo mais e eu continuei alimentando, com doze meses eu tinha cem mil mulheres acompanhando esse blog, eu falei: “Meu Deus do céu, o que é isso?” E aí eu tinha um espaço de coworking, a ElogieAki ainda existia, eu falei: “O que eu vou fazer com isso?” e aí eu pensei: “Eu vou tentar transformar isso num negócio” e foi caminhando, assim, as coisas foram acontecendo. Aí eu entendi a causa das mulheres que, para mim, não era ainda uma causa, eu entendi que o que eu estava fazendo estava ajudando outras mulheres que, como eu, também estavam empreendendo, mas não se reconheciam. Na época, eu brinco que tudo era mato, não tinha ninguém falando de mulher, ninguém falando de empreendedorismo feminino e não tinha ninguém falando de mulheres dentro do ambiente de negócios. Então, por isso que foi um sucesso muito grande, porque eu era a única referência, tudo o que a gente falava virava, assim, rastilho de pólvora, todo mundo compartilhava, divulgava. Tinha post - quando vieram as redes sociais, quando veio o Facebook - meu que tinha, assim, milhares de compartilhamentos, porque não tinham outras referências. E foi assim que eu fui entendendo que tinha uma causa, que eram as mulheres, que tinha uma causa que era geração de renda, ou seja, ajudar as mulheres a conquistar a independência financeira e foi... a Rede foi crescendo de forma orgânica, ela não foi um negócio construído como negócio, com plano estruturado, ela foi construída baseada na minha dificuldade de ajudar outras mulheres e do meu inconformismo. O Tales, que é vice-diretor da GV e que eu tenho o maior carinho, e a Maria José, na época eram os coordenadores e continuam hoje na GV. Eu faço muita questão de sempre dar crédito, porque eles me ajudaram, eles me orientaram, eles me deram apoio e fazem isso até hoje e foi muito bacana, porque eles falaram: “Ana, mas, assim, fica quieta. (risos) Faz o seu curso (risos) e fica quieta aqui” e eu não quis fazer o curso e ficar quieta, eu falei: “Não, eu quero aprender o que está aqui e passar para outras pessoas”. Então, acho que isso tem muita simbologia, sabe? É muito bacana, foi muito importante para mim e foi muito importante esse começo da Rede. Entender essa causa, entender as mulheres e, de lá para cá, a Rede hoje tem onze anos, é a maior plataforma de apoio às mulheres do mundo. Nós temos um milhão de mulheres dentro da nossa plataforma, a gente, assim, ajuda essas mulheres com tudo gratuito, tudo: curso, capacitação, treinamento, mentoria e a gente é financiado por fundações e organizações internacionais que nos apoiam. Então, isso é muito importante  


P/1 – E nessa época que a Rede estava virando um negócio, aí o ElogieAki ficou... você fechou, não? É isso?


R - Eu fechei. Na verdade, assim, o que eu fiz? Eu tinha três negócios: o ElogieAki, o espaço de coworking e a Rede. Só que a Rede não era um negócio, ela era um movimento, que eu gostava de fazer, mas que não me dava retorno financeiro e eu tinha que viver do ElogieAki e do espaço de coworking. Aí o ElogieAki a gente teve uma briga de sociedade, nós dissolvemos a nossa sociedade, eu e mais os dois sócios e, na dissolução, a gente vendeu o ElogieAki, então em 2011 eu vendi o ElogieAki, não me pertence mais, ele existe até hoje. Em 2014, a Rede continuava como movimento e tudo mais, porque eu abri a Rede em 2010, em 2014 eu fechei o espaço de coworking, por quê? Eu falei: “Gente, eu estou dedicando mais tempo, mais amor, (risos) mais tudo, para a Rede, então tenho que fazer a Rede ser um negócio social, ser um negócio que tem uma causa que ajuda as mulheres, mas que também dá retorno financeiro, para eu poder conseguir ajudar mais gente e aí eu fechei o espaço de coworking em 2014 e aí, de lá para cá, só a Rede Mulher Empreendedora e eu botei na cabeça que eu ia fazer a Rede virar um negócio social, virou um negócio social, que hoje é essa referência que a gente tem. Teve muitos altos e baixos, muitos desafios no meio do caminho, porque muitas vezes eu não tinha dinheiro para pagar as contas. Porque eu fazia tudo de graça e eu acreditava e acredito até hoje que é importante, para a gente ser inclusivo, a gente dar oportunidade para pessoas que não têm dinheiro para pagar. Então, tudo que a gente faz na Rede é de graça até hoje. Então, eu tinha que buscar outras formas de fazer um modelo de negócio acontecer e isso não foi um processo fácil, foi um processo bem complicado. Então, foi a partir daí que eu consegui criar outros modelos de negócio e aí, sim, focar só na Rede Mulher Empreendedora.

P/1 – E quais são... foram ou são os maiores aprendizados com essa experiência?


R – Nossa, muitos... tem muitos aprendizados importantes, assim. Eu tive muita gente que me ajudou nessa jornada, eu acho que esse foi um dos principais aprendizados porque, quando eu saí do ambiente corporativo eu estava meio descrente nas pessoas, sabe? (risos) Porque era um ambiente muito competitivo, era um ambiente onde as pessoas não estavam verdadeiramente interessadas em ajudar as outras pessoas e eu queria muito sair desse universo e trabalhar no universo mais colaborativo. Então, eu, para a minha alegria, tive muito mais gente que me ajudou do que gente que foi do mal. A gente teve gente do mal, assim, não tem como, a gente vive... é natureza humana, mas, felizmente, a maioria das pessoas me deu a mão, abriu a porta, fez uma recomendação, me ajudou, me deu um conselho, me deu uma palavra amiga e, assim, isso foi super importante para mim, esse foi um primeiro aprendizado. O segundo aprendizado foi que é possível você criar um negócio, mesmo que você não tenha dinheiro. As pessoas têm muito uma noção de que ter negócio tem a ver só com dinheiro e, assim, não foi fácil, não estou falando que é fácil, mas foi possível, eu criei um negócio que não tinha recurso financeiro nenhum, baseado em colaboração. Então, esse foi o segundo grande aprendizado: é possível criar um negócio sem dinheiro. O terceiro grande aprendizado é que as pessoas falavam para mim, as pessoas gostam muito de falar de colaboração e de voluntariado, mas as pessoas não gostam de fazer e isso foi muito curioso porque, na verdade, foi exatamente o contrário comigo. Até hoje eu tenho dificuldade de lidar com a quantidade de voluntários que se candidatam para nos ajudar. (risos) Então, assim, era uma coisa que as pessoas falavam: “Imagina, Ana, não dá para criar um negócio colaborativo baseado em voluntariado”, eu falei: “Dá”. E foi muito legal, não é simples, porque você tem que criar regras, modelos, trazer as pessoas certas e hoje a gente tem um negócio com mil voluntários no Brasil inteiro, que ajudam a Rede a chegar a mais mulheres. Então, esse também foi um aprendizado muito importante para a gente. Foi muito importante para mim, muito importante para minha jornada, entender que o meu sonho não era um devaneio, era um sonho de verdade: (risos) trabalhar com voluntariado e colaboração. E outro aprendizado, Luiza, que também foi muito importante, foi entender que o Brasil é muito grande. As pessoas têm uma percepção de que o Brasil é São Paulo ou são as capitais. A quantidade de mulheres fazendo coisas incríveis, assim, construindo coisas legais por esse Brasil é tão importante, é tão bacana! Assim: você vê mulheres, lá, ribeirinhas, nós estamos fazendo um programa agora pra mulheres ribeirinhas; mulheres indígenas; mulheres venezuelanas; mulheres trans; mulheres negras; mulheres de todos os cantos do Brasil, fazendo coisas incríveis. Então, a gente procura aqui na Rede, a gente fala muito isso: o Brasil não é São Paulo, o Brasil não são as capitais, o Brasil é muito maior que São Paulo e as capitais, o Brasil é gigantesco e tem muita gente fazendo coisas incríveis. Então, esse foi um aprendizado muito importante. Ainda mais para mim, que nasci no sertão de Alagoas, ter uma coisa, um negócio que chegue em mulheres do Brasil inteiro! Então, esse foi um aprendizado muito incrível, muito importante também para a gente. E, assim, por último - tem outros aprendizados, claro - que você tocar um negócio, você nunca vai fazer sozinho, né? Por mais que você... eu tive muitos problemas de sociedade, mas eu acredito muito em trabalhar junto com outras pessoas, então a Rede, hoje, tem trinta colaboradores diretos, tem mil voluntários no Brasil inteiro, tem um Conselho com onze pessoas que nos ajudam, então não faço nada sozinha, eu super acredito que fazer as coisas juntos é muito melhor. (risos)


P/1 – E você consegue identificar o que fez com que você não desistisse, que você enfrentasse todos os desafios?


R – Eu acho que tem uma combinação: o fato de eu ter essa história muito... não romantizando desigualdades, mas essa história de desafios... assim, eu nunca tive nada fácil, então, para mim, desistir das coisas não era uma opção.  (risos) Então, essa característica, para o mundo dos negócios, é uma característica muito importante, né? Porque, assim, eu não tinha outra opção, eu acreditava muito fortemente que o que eu estava fazendo, o que estou fazendo é uma coisa certa, ajuda e impacta a vida de outras pessoas, então eu tenho que arrumar uma forma de dar certo. Então, acho que essa coisa do “eu tenho que arrumar uma forma de dar certo” tem muito a ver com a minha jornada. De a gente não ter opção. Então, assim: ah, eu tenho que ir para a escola, está frio, eu não tenho sapato, eu tenho que ir de chinelo e meia com elastiquinho atrás, eu não tenho outra opção. Ah, eu não tenho comida, tem que pedir emprestado para o vizinho, não tem outra opção. Então, eu acho que o não ter essas opções criou uma força e uma resistência, uma resiliência... mais uma vez não romantizando desigualdade, que me fez persistir, sabe? Muita gente, muitas vezes, falou para mim: “Ana, desiste”. E pessoas que não que queriam meu mal, é que estavam vendo a dificuldade financeira que eu estava passando nos primeiros anos da Rede, que não fechava a conta, que eu ficava o tempo inteiro tendo que buscar alternativas e as pessoas falavam: “É melhor você desistir agora, larga isso e depois você pensa lá na frente, volta para o mundo corporativo, você precisa ajudar a sustentar a sua família e tudo mais”, mas eu acreditava muito no que eu estava fazendo, eu acredito muito no que eu estou fazendo. E, assim, eu sou muito resiliente, eu sou muito assim, não tem... tem que dar certo, eu tenho que achar um caminho para dar certo. (risos) Se não deu até aqui, eu tenho que arrumar uma outra forma de fazer dar certo. (risos)


P/1 – E tem alguma história, de alguma mulher que você tenha conhecido, marcante, que você queira compartilhar?


R – Nossa, tem tanta história bacana, Luiza, assim e algumas simbólicas. Tem uma mulher de Minas Gerais, eu já nem lembro mais o nome dela, ela mandou um e-mail para mim e ela - no começo da Rede, a Rede tinha uns quatro, cinco anos - falou: “Olha, eu estou muito feliz com o que vocês estão fazendo para nos ajudar, eu fiz os cursos, estou lá no grupo da Rede, trocando ideias com outras empreendedoras e estou feliz porque as coisas estão dando certo, meu negócio está faturando mil e quinhentos reais por mês e, por conta disso, eu consegui separar do meu marido”. E teve uma simbologia muito grande porque, no primeiro momento, eu fiquei muito assustada, eu fiquei pensando: “Meu Deus, eu criei uma rede que separa os maridos”, que fazem as mulheres se separarem. (risos) E aí eu fui falar com essa mulher no dia seguinte, eu mandei uma mensagem para ela e eu fui perguntar e aí ela explicou a história dela: ela tinha dois filhos pequenos, o marido era alcoólatra, era abusivo, ele era violento, só que ela dependia dele financeiramente. Então, quando o negócio dela começou a faturar um mínimo, que é esse mil e quinhentos reais, ela conseguiu sustentar a casa com o negócio. Uma família, ela era do interior... eu lembro, não vou lembrar da cidade, mas ela era de Minas, do interior de Minas e ela falou assim: “Não, eu estou muito melhor agora”. E foi aí que eu entendi o nosso propósito muito claramente, porque eu falei: “Puxa vida, o que a gente precisa fazer é ajudar as mulheres a gerar renda, porque com renda elas têm independência financeira e com independência financeira elas conseguem sair, inclusive, de relações abusivas, porque quando ela depende financeiramente do companheiro, ela tem mais dificuldades de sair dessas relações abusivas. Então, ficou muito claro que o que a gente estava fazendo estava no caminho certo, que era ajudá-la a conseguir conquistar essa renda e ajudar a desenvolver os negócios. Eu falo que me deu um certo alívio, (risos) porque eu fiquei com muito receio na época e, assim, foi muito simbólico. Hoje a gente tem mulheres na Rede, Luiza, assim, que são nossas voluntárias, que começaram como empreendedoras na Rede, começaram com um tipo de negócio e que hoje estão fazendo coisas muito diferentes. A gente conseguiu fazer, a gente tem um time de especialistas na Rede, que são mulheres que ensinam para outras mulheres e é muito legal que, no começo, elas não se enxergavam como especialistas. A gente tem a Dilma, por exemplo, a Dilma Campos, ela é dona de uma agência de marketing, de eventos e aí a gente fez a Dilma virar palestrante e ela fala para mim hoje (risos) que ela jamais a imaginava ser palestrante e hoje a Dilma faz eventos, agora não mais na pandemia, mas ela faz evento, o último que ela fez para a gente tinha três mil pessoas na plateia e ela foi fazer uma palestra sobre negociação. Quer dizer: ela não se enxergava palestrante, ela não se enxergava nesse lugar e a gente mostrou para ela, a gente a jogou (risos) nesse lugar, a gente falou: “Não, a sua história é bacana, você tem um conhecimento incrível, você organiza isso numa apresentação, você tem a referência, é genuíno o que você fala, então vamos lá colocar”. E como a Dilma, a gente tem hoje sessenta especialistas na Rede, que ensinam outras mulheres nos mais diversos temas e territórios, que não se reconheciam como especialistas e a gente foi lá e falou para ela: “Você tem o seu negócio, você é empreendedora e você também pode aproveitar esse seu conhecimento e passar para outra mulher”. Então, assim, é muito simbólico, porque a gente fala que aqui na Rede é uma mulher levando a outra, uma mulher apoiando a outra, porque a gente não quer deixar nenhuma mulher para trás, (risos) a gente não solta mesmo a mão de ninguém e a gente segue firme, porque não tem outra forma da gente fazer, da gente se apoiar e se ajudar.


P/1 – Falando em especialista, eu queria que você falasse como foi a experiência de participar do programa Winning Women, como conselheira, também ensinando? Como você conheceu a Ernst & Young? Como foi?


R – Nossa, tem uma história muito bacana com o programa Winning Women, porque era um programa meio de sonho, assim, sabe? Aquele programa desejado. E aí eu me inscrevi em 2014, a Rede estava naquela fase ainda meio como é que vai fazer, como é que não vamos fazer, ainda testando modelos de negócio e eu me inscrevi no programa e eu achei que eu não ia passar. Daí passei pelas etapas de ficha, tudo e fui para a entrevista com o sócio, na época da EY e esse sócio ficou apaixonado pela Rede, ele falou assim: “Eu quero trabalhar para você, na Rede” e eu lembro que foi muito engraçado, porque negócio social não era uma coisa tão conhecida na época, ele falou: “Nossa, Ana, o que você está fazendo é tão bacana”. Ele falou: “A gente precisa ter um negócio social na nossa turma, a gente precisa. Pode deixar, que eu vou te ajudar a defender a sua participação”, mas eu falei: “Bom, está tudo bem, é uma entrevista bacana” e não achei que eu ia passar. E aí passou um tempo, depois eles me informaram: “Olha, você foi aprovada para a classe de 2014, que na época era segunda turma do Winning Women, era o começo do programa. E foi muito, assim: eu fiquei tão feliz, porque era um grupo muito exclusivo, eram poucas mulheres. Eles me ajudaram absurdamente, então me ajudaram até fazer apresentação de marketing da Rede, me ajudaram a abrir portas, me ajudaram com conexões, me ajudaram com... a alavancar o negócio da Rede e isso eu como aluna participante. Só que eu sou tão enxerida, que eu me metia tanto no programa, (risos) que eu falava: “Ah, vocês podem fazer isso, trazer tal pessoa, fazer não sei o quê” e eu comecei a falar do programa para um monte de mulheres da Rede. Claro que nem todas podiam participar, porque tinha alguns requisitos lá e aí eu comecei a falar para muitas mulheres da Rede e aí eles viram muitas mulheres da Rede estavam se inscrevendo no programa. (risos) Aí, na época, as duas gestoras vieram marcar uma reunião comigo e falaram assim: “Ana, fala o que você acha que é bacana ter no programa, quais são as referências” e aí eu fui falando, me meti, falei o que eu achava que era legal e tudo mais e fui acompanhando e ajudando, dando dica, referência e foi andando. Passou um tempo, eles falaram: “Você está muito ativa aqui no programa, a tua experiência é muito importante, você já atendeu milhares de mulheres na Rede. Acho que está na hora...” e aí eles me convidaram, acho que foi em 2017 ou 2018, se não me falha a memória, para ser conselheira do programa. Aí eu fiquei muito honrada, muito honrada porque, assim, é realmente um dos programas que eu mais admiro - e eu já participei de vários programas de capacitação e de acompanhamento e eu falo isso até hoje - foi muito importante eu participar como conselheira, eu adoro fazer a mentoria para as mulheres. A gente está com uma mentorada agora que, assim, ela se apaixonou pela gente, a gente se apaixonou por ela, eu vivo falando dela para todo mundo, então eu acho que isso é muito bacana porque, quando você faz uma mentoria e quando você é conselheira, não é só uma relação de mão única, é uma relação realmente de troca: eu ensino para elas, mas elas também me ensinam, a gente troca ideia de forma muito constante e eu acho que é essa a riqueza desse programa do Winning Women. É um programa que tem uma riqueza de mulheres, de percepções, as conselheiras, eu também peço opinião para outras conselheiras sobre nosso negócio. Então, essa riqueza dessa troca que eu acho que é fundamental.


P/1 – Queria saber quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória como mulher, mãe, empreendedora, negra…


R – Nossa, tem tantos momentos simbólicos! Assim, eu acho que... claro, o nascimento e a vinda das minhas duas filhas são, para mim, os momentos mais importantes da minha jornada, da minha vida, da Daniela e da Evelyn, para mim tem toda simbologia de eu me tornar mãe de todas as formas. O pedido de demissão da multinacional, que era o sonho da minha vida, aquilo foi muito difícil, não foi um processo fácil, as pessoas me perguntam sobre isso até hoje e eu falo: “Gente, não foi fácil”. Parece fácil agora falando, porque a Rede deu certo, porque o negócio deu certo, porque as coisas caminharam, mas, na época, era um salto no escuro, eu não sabia o que eu ia enfrentar e muita gente me criticou na época, muita gente falou: “Você está fazendo uma loucura de pedir demissão de uma empresa, num cargo onde você chegou, com a condição financeira  que você está, com filha para criar”, muita gente me desaconselhou a fazer o que eu fiz. Então, esse foi um momento também muito duro, muito difícil, de enfrentar. Tem também o momento onde... na verdade, não um, mas vários momentos em que eu quis desistir da Rede, vários. E eu acho importante falar sobre isso, porque as pessoas veem só a parte bonita e a parte bacana e ficam achando que a gente não tem momentos de vontade de desistir. Eu tive muitas vezes, assim, que eu ia dormir e falava: “Amanhã eu vou fazer o processo de fechamento, vou voltar para o universo corporativo, não vou dar conta”, porque as contas não fechavam. E é assustador você não ter dinheiro para pagar as contas, você ficar endividado, é muito difícil. Então, acho importante, assim, a gente falar que tem esses momentos duros da gente querer desistir. Eu acho que esses momentos têm e a gente tem que deixar claro. Quando eu abri o Instituto da Rede para mim foi um momento muito simbólico, porque eu queria muito, muito, muito trabalhar numa organização totalmente social e trabalhar com mulheres em vulnerabilidade que era, assim, meu sonho. Então, poder trabalhar com mulheres indígenas, trans, venezuelanas, poder trabalhar com mulheres de 50 +, enfim, foi muito importante a abertura do instituto, não foi fácil, eu levei mais de três anos gestando a ideia do instituto e um ano para colocar a operação de pé. Então, foi um momento muito simbólico, muito importante. E um outro momento simbólico, que tem a ver com o instituto, foi a primeira doação internacional que a gente recebeu. Não é por conta do dinheiro, em si - a gente recebeu a primeira doação internacional em 2018, a gente recebeu um milhão de dólares do Google, a fundação do Google - mas porque abriu as portas para a gente conseguir outros apoios internacionais e abriu as portas, aqui no Brasil, para todo mundo olhar para nossa organização e falar: “Ué, o Google está investindo nesse pessoal? (risos) O que eles têm, que o Google gostou do trabalho deles e está investindo?” Então, tem um momento muito simbólico nisso também, acho que é bem importante. Assim, momentos pessoais, óbvio, não tem como não deixar de falar da minha filha, não tem. Assim, para mim foi uma época muito dura. Tem o meu casamento, uma menina super jovem com vinte e seis anos, querendo casar, eu e o meu marido, então eu acho que isso tem um momento muito importante também e ele é meu companheiro de vida até hoje. Se não fosse também por ele - eu jamais posso tirar o mérito - estar junto, apoiar, acreditar nas ideias que eu tinha, também seria bem difícil, porque ele também tem um papel muito fundamental em toda essa jornada, em toda essa história. Nossa, tem tantos outros momentos, Luiza!  (risos) Tem tantas coisas, assim, muito simbólicas, claro, tem momentos muito legais e momentos também difíceis.


P/1 – E como é seu dia a dia, hoje, com a pandemia? O que essa pandemia afetou a sua vida particular também, o seu negócio? Quais foram... sei lá, tiveram alguns aprendizados, desafios nessa pandemia? 


R – Assim, a pandemia foi um susto para a gente como negócio, porque a gente estava totalmente estruturado para fazer um negócio presencial e nós tivemos que dar um Duplo Twist Carpado e reorganizar o nosso negócio (risos), pondo para o online, uma coisa que a gente não estava preparado para fazer. Então, acho que tem esse ponto. O segundo ponto é que, as empreendedoras foram muito afetadas pela pandemia e a demanda para a gente ajudá-las foi muito forte o ano passado. Então, a gente também teve que se reorganizar, para conseguir atendê-las de uma forma melhor. Isso foi muito importante também. A gente conseguiu se estruturar muito rapidamente, em trinta dias a gente tinha reorganizado tudo, para conseguir atendê-las com a demanda de uma forma diferente, não presencial, no online. O ano também foi o maior ano de captação de recursos para a Rede e para o instituto, nós captamos quarenta e cinco milhões de reais o ano passado, para projeto sociais, foi a maior captação de recursos da nossa história, porque a pandemia, ninguém queria uma pandemia para isso, eu não queria uma pandemia para isso, mas a pandemia fez com que as empresas adotassem uma postura muito mais solidária, muito mais responsável em relação à sociedade e muito mais responsável em relação às mulheres, acho que esse tem um fator muito importante. Então, foi um ano muito importante para nós, em termos de captação de recursos. E também pessoalmente foi um ano desafiador porque, com duas adolescentes dentro de casa, trabalhando de casa, com o time inteiro da Rede trabalhando de casa, na Rede e no instituto, eu e meu marido trabalhando aqui lado a lado, no ambiente doméstico e, para ajudar tudo isso, eu resolvi fazer uma mudança de casa no meio da pandemia, só que eu não previa a pandemia, a decisão foi antes da pandemia, (risos) a gente tinha comprado... olha o movimento que nós fizemos, totalmente contrário ao que todo mundo estava fazendo: nós morávamos numa casa com quintal e tudo mais e mudamos para um apartamento. (risos) Só que a gente não sabia que viria a pandemia e a gente fez isso por questões de segurança. Então, assim, foi também um momento muito complicado para a gente fazer essa mudança, estamos nos adaptando, está sendo um processo de adaptação. Então, assim, não está sendo fácil, não vou glamourizar esse momento, não está sendo fácil. A minha mais nova está sofrendo muito com a escola online, é muito difícil, principalmente para adolescente. A mais velha até conseguiu se adaptar mais, porque ela está fazendo cursinho, então ela estuda das sete da manhã quase, até sete da noite, no quarto dela e faz os intervalos. Até que ela conseguiu se adaptar bem, mas a mais nova teve muito mais dificuldade para essa adaptação. A gente também, aqui dentro de casa, está tentando se adaptar, porque tem de tudo, né: a reforma do vizinho, tem várias coisas (risos) acontecendo ao mesmo tempo, mas a gente tem trabalhado muito e adaptado. Porque o que eu tenho falado, inclusive, para o meu time da Rede, do Instituto, é que a gente tem que cuidar da saúde emocional, porque esse é um momento muito difícil que a gente está vivendo, porque é um momento, não só um momento de dificuldade como país, a gente está vivendo uma crise política, uma crise econômica e uma crise de saúde tudo junto. E, fora isso, a questão da saúde emocional, que para nós é muito importante. Então, eu tenho falado muito para as pessoas se cuidarem, para elas priorizarem a saúde mental, porque isso é fundamental para a gente sair. Vai passar e a gente vai conseguir sair dessa, não tenho dúvidas disso, vai sair com alguns arranhões, alguns machucados, mas a gente vai conseguir sair.


P/1 – Ana, quais são seus sonhos para o futuro? 


R – Ah, eu tenho muita, muita vontade, eu tenho pensado muito nisso, eu acho que a pandemia também meio que coloca a gente para pensar nessas coisas, né? Eu queria muito trabalhar com políticas públicas, é uma vontade muito grande que eu tenho de conseguir, de verdade, fazer transformação social. A gente faz transformação social, mas para gerar um impacto muito maior, a gente precisa de política pública no nosso Brasil, a gente precisa ajudar a incluir mais mulheres nos ambientes de poder, a incluir mais mulheres nos ambientes de negócio, geração de renda e eu quero muito movimentar políticas públicas. Não estou falando com isso que eu quero entrar na política, na verdade eu quero movimentar políticas públicas no espaço onde a gente está hoje, quer fazer advocacy, levar e gerar informação. Eu hoje represento o Brasil no W20, que é o grupo de engajamento do G20, das vinte economias mais relevantes do planeta, para tratar da causa das mulheres. Então, é o que eu gosto de fazer, né: estudar e movimentar e ver o que a gente pode fazer, para transformar a nossa sociedade. Quero que a Rede não precise mais ser ativista em relação à causa da inclusão e diversidade e que a Rede passe a ser, sim, uma rede de apoio para as mulheres, para o desenvolvimento dos negócios. Infelizmente a gente vive no sétimo país mais desigual do planeta, então para as mulheres a situação é muito mais dramática e a gente ainda tem que fazer um trabalho de advocacy, de ativismo, para poder conquistar direitos, não para conquistar supremacia feminina. Hoje a gente vive num mundo de supremacia masculina. O que a gente quer não é a supremacia feminina, a gente quer direitos iguais, direitos humanos para as mulheres, que elas não sofram violência, que elas não sejam mortas por serem mulheres e que elas tenham as mesmas condições e oportunidades que os homens. Então, meu sonho, de verdade, é que as minhas filhas possam andar na rua sem ter medo e sem que eu tenha medo delas andarem na rua porque elas são mulheres, que elas consigam fazer as escolhas que elas quiserem na vida delas, que elas escolham qualquer profissão, qualquer caminho e não que elas escolham coisas porque elas são mulheres e que elas tenham todas as condições e oportunidades. Tanto as minhas filhas, mas quanto todas as outras mulheres do nosso país e quiçá do nosso planeta.


P/1 – Para finalizar, queria saber se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar mais alguma coisa que não tenha investigado?


R – Ah, eu queria finalizar, Luiza, dizendo assim: que a gente - parece piegas e parece clichê - não faz nada sozinho, sabe? Assim, eu faço muita questão de... não dá para nomear, porque é muita gente que me ajudou nessa jornada toda, mas agradecer a cada uma das pessoas e a cada pessoa que fez a diferença. Como eu te falei, eu tive muita gente ruim em todo o processo, episódios muito ruins, mas a maioria dos episódios foi de gente muito boa que deu a mão, que recomendou, deu uma palavra amiga e que está e esteve junto. Eu acho que isso: é mais importante olhar para esse lado, do que olhar para as pessoas ruins, porque eu acho que se não fossem essas pessoas, terem me dado oportunidade, de terem olhado, terem dado a mão, terem dado conselho, talvez eu não teria conseguido resistir a estar nessa situação de hoje, que a gente consegue impactar a vida de milhões de mulheres. Então, acho que é isso, agradecer a todo mundo que está junto, que vem junto comigo e agradecer, obviamente, aos meus ancestrais,as pessoas que vieram antes e que me trouxeram até aqui: meus avós, meus bisavós, meu pai e minha mãe, todo mundo, porque sem eles eu não estaria aqui. (risos)


P/1 – Ana, obrigada, obrigada, obrigada de verdade. Você não sabe como eu gostaria de estar presencial, para poder dar um abraço. (risos)


R - Eu amo abraços, eu adoraria também. (risos)


P/1 – Mas, de verdade, eu e toda equipe do Museu, a gente agradece muito pelo seu tempo, pela sua disponibilidade, pela sua importância... não só nesse tema, mas pelo seu impacto. Então, eu agradeço de coração por esse tempinho e pretendo... gostaria muito de te conhecer um dia presencialmente, ao vivo e em cores. (risos)


R – Faço questão de conhecer vocês, faço questão, realmente, eu não vejo a hora de a gente poder se encontrar. (risos)


P/1 – Bru, quer falar alguma coisa?


P/2 – Ah, eu estou... Ana, é a minha primeira entrevista, então eu estou super emocionada. (risos) Nossa, eu agradeço demais. Foi, assim, uma delícia passar esse tempo com você, eu sei que é curto para revisitar a sua vida inteira, mas, assim, para a gente tem uma importância incrível e muito obrigada, mesmo. (risos)


R – Nossa, eu que agradeço, tentei não chorar, (risos) tentei controlar, porque são etapas bem duras, mas muito obrigada, vocês foram muito gentis: Bruna, Alisson, Luiza, muito obrigado, espero poder conhecê-los em breve, viu? (risos) Obrigada, gente!


[Fim da Entrevista]


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