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História

Uma mistura chinesa, indonésia e brasileira

História de: Rebeca Jun Lin
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Lin fala sobre as origens de sua família, seu trabalho como professora e intérprete de chinês e sobre o grupo de dança tradicional Tang Yun, que fundou em São Paulo.

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História completa

P1 - Boa tarde, Lin. Tudo bem?

R - Boa tarde. Tudo bem.

P1 - Tudo bem. Vamos começar então com a pergunta mais básica: eu gostaria que você me dissesse o seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.

R - Meu nome é Lin Jun. Eu nasci em 26 de setembro [de] 1968. E eu nasci na cidade de Fuzhou, na China.

P1 - E qual o nome dos seus pais, Lin?

R - Meu pai chama Lin Chan Chau. Minha mãe [se] chama Lin Mau Na.

P1 - Você tem irmãos?

R - Eu tenho um irmão mais novo. Ele [se] chama Lin Shu.

P1 - Certo. E qual é a ocupação dos seus pais, Lin?

R - O meu pai é engenheiro mecânico. A minha mãe é professora e intérprete chinês-inglês.

P1 - Certo. Então, vamos começar a falar um pouquinho da sua infância, Lin. Você nasceu na China e ficou quanto tempo, antes de você vir até o Brasil?

R - Eu nasci na China. E eu cresci na cidade de Fuzhou, [fiquei] até dezessete anos.  Aos dezessete anos, eu imigrei para o Brasil.

1 - E quais as lembranças que você tem da casa onde você morava, da sua infância na China?

R - Ah, bastantes memórias. Na verdade, eu cresci numa faculdade, porque a minha mãe foi professora na faculdade, ela ensinava inglês. Aí, quando era criança, eu brinquei bastante no quintal da faculdade, com as outras crianças. Depois, a gente se mudou para mais centro, né, região mais centro. Aí comecei a frequentar escola: escola primária, secundária. No final, quando eu terminei o colégio, o terceiro grau do colégio, aí meus pais resolveram emigrar para o Brasil. Por isso eu terminei meu estudo. Eu prestei, até, faculdade, só que eu não comecei a frequentar faculdade na China.

P1 - Certo. E, voltando um pouquinho para sua infância, do que você mais gostava de brincar quando você era criança? 

R - Mais de brincar? Naquela época, a gente não tinha muitos brinquedos, porque naquela época a China era mais pobre. Não é como agora. Hoje em dia, a criança tem bastante brinquedo. Então, nós aproveitamos, nós brincamos muito fora de casa. Por exemplo: no jardim, com as plantas. E, às vezes, aquela área de construção que tem areia, tijolos; pegava areia, tijolos, fazia casinha. Então, é mais ou menos assim.

P1 - E quais as lembranças que você tem dos seus primeiros anos de escola, Lin? O que você lembra, até hoje, que acabou te marcando?

R - Ah, a primária, eu fui nos primeiros três anos, era uma escola no subúrbio da China. Então, ao redor da escola tem as plantações. E o caminho, aquele caminho pra escola é no meio da plantação. Então, depois das aulas, a gente, muitas vezes, ficava brincando nas plantações, aquelas ruas estreitas dentro da plantação. Mas, quando chove, aí fica difícil, porque escorrega bastante. Muitas vezes a gente cai, fica cheio de lama. (risos) Aí, a partir do quinto ano, eu comecei a frequentar uma escola mais disciplinada. Então, aquela escola que é bem mais disciplinada, precisa estudar bastante. Acabou muitas brincadeiras, tinha que dedicar bastante [tempo] no estudo. Só que na escola tem esses cursos, né? Por exemplo: curso de pintura, curso de fazer... tinha um curso de fazer aviãozinho, (risos) eu até participei. Porque esse curso, a maioria são os meninos, garotos, só que eu também fui, participei. E tem uma equipe que toca tambor, essas coisas. Só que o meu professor não me deixava participar, porque ele disse que isso ia comprometer o meu estudo. 

P1 - E tinha alguma matéria que você gostava mais, na época? Como, por exemplo, língua chinesa ou matemática? Alguma coisa que você gostasse de estudar?

R - Ah, chinês, né? A língua chinesa foi a matéria que eu mais gostava, uma das matérias. Eu escrevia bastante redação. A minha redação era boa, eu tirava notas muito boas na redação. E a geografia também. Quando eu era criança, já me interessei bastante pela geografia. Então, isso me ajuda bastante na minha profissão atual, né, trabalhar com o turismo. Eu já conhecia muitas cidades do mundo, da China, do Brasil. E eu não gosto da matemática, nem física, química. (risos) Biologia, eu também gostava, porque pode fazer algumas experiências, né, na matéria de biologia.

P1 - E, nessa época de infância, Lin, você gostava de ler histórias, ou alguém contava histórias pra você?

R - Sim. Eu gostava de ler. Costumo ler bastante livros. Porque, na China, a gente tem muitos livros de literatura. Literatura tradicional, composta por aqueles livros que foram escritos há muitos anos, que fazem parte da literatura chinesa tradicional. E os livros contemporâneos, mas que são escritos por escritoras, né, mulheres [que escrevem] que a vida pode nos trair bastante.

P1 - E, chegando nos seus estudos um pouco mais avançados, mais próximos, no seu ensino médio, como a gente diria aqui no Brasil, você já era adolescente, o que mudou pra você? Você mudou de escola? Você adquiriu novas distrações, novas atividades? Conta pra gente como foi um pouco da sua adolescência, antes de você vir para o Brasil.

R - Tá. No colégio, eu troquei pra outra escola, porque na China é assim: o primário era cinco anos, agora são seis anos. Agora, a gente tem, pra mudar pra secundário, são três anos, mais três anos, então, são [no] total seis anos. Nesses seis anos, eu estudava no mesmo colégio. Esse colégio [é] o melhor colégio da cidade de Fuzhou. Então, dá pra imaginar que é bem mais disciplinado, rigoroso e precisa estudar bastante, porque essa escola tem tradição dos alunos, a porcentagem dos alunos que conseguem ingressar na universidade, é muito alto. Então, por exemplo: noventa por cento dos estudantes que fazem esse colégio, conseguem passar no vestibular e entrar na faculdade. Isso, na China, é muito difícil, porque lá tem bastante concorrência, né? Geralmente, numa escola, se tiver cinquenta por cento que consegue ingressar na universidade, já é muito bom, mas esse colégio consegue levar noventa por cento dos alunos. Então, dá pra imaginar que é (risos) bem mais, assim, esforçado, né? Tem que se esforçar bastante pra tirar notas altas. Mas, mesmo assim, a gente teve atividade, por exemplo, esportes, praticava esportes. Eu jogava basquete. Embora eu não tenha altura, mas eu jogava basquete. Na nossa classe, tem uma equipe de basquete feminina. Na verdade, em toda classe tem de ficar competindo uma com a outra, mas a maioria do tempo, temos que nos dedicar ao nosso estudo, temos bastante matéria, exercício pra fazer, todos os dias.

P1 - E, Lin, quando você terminou o seu ensino médio, os seus pais decidiram vir para o Brasil. Você sabe qual foi o motivo de vocês terem vindo pra cá?

R - Sei. O motivo principal, deixa eu explicar o motivo principal. Os meus pais não são nascidos na China. Eles nasceram na Indonésia, que é outro país asiático. Foram os meus avós que foram pra Indonésia e se radicaram naquele país. Então, os meus pais nasceram lá. E, com o estabelecimento da República Popular da China, muitos estudantes resolveram retornar para a China pra estudar e para trabalhar na China, porque a China é nossa pátria. Então, tanto o meu pai, como a minha mãe, eles foram pra China na década de cinquenta, do século passado. Então, quando terminaram o estudo universitário, eles ficaram na China e começaram a vida profissional lá. No caso do meu pai, meus avós retornaram pra China, alguns anos depois. Só que os avós maternos ficaram na Indonésia. E na década de sessenta do século passado, a Indonésia começa a perseguir os chineses. Então, houve perseguição. E a Indonésia rompeu, também, a relação diplomática com a China. Então, assim, cortaram a relação entre a minha mãe e seus pais. Ela tem uma irmã mais nova, também. E, logo depois, o pai dela faleceu. Só que ainda tem a mãe e a irmã, estavam morando na Indonésia. Até o século passado, a China demorou pra voltar [a ter] essa relação diplomática com a Indonésia. Então, para visitar os parentes, a minha mãe não ia conseguir ir diretamente da China pra lá. Então, ela estava sempre pensando um jeito de poder, através de um terceiro país e o destino final era a Indonésia, mesmo. Então, surgiu essa possibilidade de que a gente pudesse ir pro Brasil. E depois, com o estabelecimento no Brasil, fazer viagem para a Indonésia. Então, esse foi o motivo, né? E outra coisa: que a gente também tem uma parente, quer dizer, a tia da minha mãe já morava no Brasil faz tempo. Então, a convite dela, a nossa família resolveu emigrar para o Brasil. 

P1 - Então, vocês vieram pra cá, porque já existiam parentes aqui e também pra que a sua mãe conseguisse viajar pra Indonésia, pra visitar a mãe dela, a sua avó e a irmã dela. Em que ano vocês chegaram no Brasil? E como foi, pra você, chegar num país completamente diferente? Como você se sentiu?

R - Então, eu cheguei no Brasil dia 25 de janeiro de 1986. A nossa viagem pro Brasil também não foi tão fácil, porque, pra vir pro Brasil, a gente tem que ir de Fuzhou para Hong Kong. Só que ainda bem que nós temos parentes em Hong Kong. Então, eles nos recolheram alguns dias, a gente fez descanso em Hong Kong. Aí depois rumou ao Brasil. E a passagem foi comprada pelo meu parente aqui no Brasil, um tio, o meu tio-avô. Essa passagem era bem complicada, porque foi a mais barata que ele encontrou. Fez a trajetória, assim, de Hong Kong pra Vancouver, Canadá. Depois de Vancouver pra Toronto, também Canadá. De Toronto pra Peru. Lima, Peru. De Peru pra Santiago do Chile. Aí, do Chile para São Paulo. Então, fez uma escala, várias escalas e demorou quarenta horas pra chegar no Brasil. Essa viagem foi bem cansativa. Então, com essa viagem longa, chegamos em São Paulo. E os meus tios-avôs não moram em São Paulo, eles moram em Campinas. Então, assim que chegamos em São Paulo, ele veio nos buscar, a gente foi comer num restaurante. E depois da janta, a gente pegou o carro e foi para Campinas. Então, essa viagem realmente foi muito longa, muito cansativa para, finalmente, chegar na terra do Brasil.

P1 - E, nos primeiros meses que você esteve aqui, como você se sentiu com as diferenças, um país diferente, uma cultura, uma língua diferente em todo lugar? Como você se sentiu? Como foi o seu processo de adaptação aqui?

R - No começo, era bastante difícil, porque eu não falava nenhuma palavra. Na China, naquela época, não era fácil você conseguir aprender português. Hoje em dia, até, fica mais fácil. Muitas faculdades têm curso de português. Naquela época, Fuzhou não tinha nenhum tradutor de português. Então, os nossos documentos foram traduzidos, eu acho que para inglês ou espanhol. Então, nós não tivemos muito tempo pra descansar também. No dia seguinte, os meus pais vão pra fábrica do meu tio, pra começar a conhecer o serviço que eles precisam fazer. E o meu irmão conseguiu ingressar na escola, na escola primária. Ele era mais novo que eu, ficava mais fácil de ingressar. Só que o colégio que admitiu o meu irmão verificou que eu já estava formada pelo colégio, no segundo grau. Eles diziam que não podiam me admitir, porque eu já era formada. Então, pra aprender português, eu tive que contratar um professor particular. Ainda bem que, por sorte, eu consegui uma professora particular que era vizinha do meu tio. Ela [se] chama Ester. Ela é professora de História numa escola primária. Então, com ela [eu] comecei o meu estudo de português. Ela usava o livro didático infantil pra me ensinar, né? Aquele tipo de livro cheio de desenhos, pra poder pegar vocabulários. E ela também me levava pra festa dos brasileiros, pra encontro dos seus amigos, pra poder se familiarizar, pra conversar com os brasileiros. No início, eu não consegui. Mas, com o tempo, eu consegui conversar com eles. 

P1 - E o que você, nessa época, Lin, você e a sua família, conseguiram manter, de hábitos de vocês? Por exemplo: como alimentação, outros hábitos que vocês tinham? Foi difícil manter esses hábitos aqui, quando vocês chegaram? 

R - Nos primeiros meses, até conseguimos, porque a gente não tinha casa ainda, né, morava na casa dos meus parentes. Então, eles preparavam a comida tipo chinês. Mas também tinha comida brasileira, porque a empregada da casa era brasileira. Ela fazia comida brasileira tipo feijoada, feijão, essas coisas. Mas, pra mim, eu acho que eu consegui [me] adaptar bem. Eu nunca recusei comida brasileira. Eu consegui pegar fácil, né: costume, comida. E o tempo também, pra mim, é agradável, porque na China o tempo é mais rigoroso, né? Tem as quatro estações, bem rigorosas, inverno. Embora Fuzhou fique numa região semelhante como São Paulo, mas [o] inverno é bem mais frio e [o] verão é bem mais quente. E Campinas é uma cidade com o tempo muito agradável. Então, pra mim, essa parte até que foi fácil. O mais difícil de lidar eu acho que é a saudade. A saudade da cidade de onde mora os parentes, amigos, colegas. Eu tinha bastante saudade deles.

P1 - E depois que foi passando o tempo, qual foi o seu próximo passo, aqui? Você resolveu fazer faculdade, ou começou a trabalhar? Me conta como foi esse período.

R - Então, depois de seis... eu acho quatro meses, nove meses, a gente ficou na casa do parente. Aí depois a gente saiu da casa do parente e começou a nossa própria vida. Aí eu fui trabalhar num restaurante chinês, porque todo mundo precisava ganhar dinheiro pra ajudar a família. A gente quase não tinha nada, né? Cada um veio pro Brasil com uma mala de vinte quilos. É mínima. E também não tinha muito dinheiro. Pra começar a nova vida, todo mundo tinha que trabalhar, até o meu irmão tinha que ajudar. Então, o meu primeiro emprego no Brasil foi num restaurante chinês. Eu trabalhava no caixa, fazia cobrança. Mas, no final de semana, o restaurante ficava bem cheio, tinha bastante cliente. Então, o patrão, geralmente, tomava o lugar do caixa, ele mesmo fazia cobrança e mandava eu pra fazer pedido, levar os pratos. E aí que deu bastante erro, né? Até ficava meio engraçado, porque o meu vocabulário era limitado. Então, teve uma vez, o cliente pediu guardanapo. Eu não sabia o que era guardanapo, pensei que fosse guaraná. Eu trouxe uma garrafa de guaraná pra eles. Aí eles ficaram: “Não. Não é isso”. Aí eu não sabia o que aconteceu, né, o que deu errado. Ainda bem, os meus colegas brasileiros me ajudaram a resolver o problema. Eu fiquei preocupada, mas o cliente foi amigável, né, me perdoou. E ficou sabendo que eu era imigrante nova. Então, esse foi o meu primeiro emprego. E, ao mesmo tempo, eu estudei bastante e consegui ingressar na escola, na faculdade, dois anos depois da imigração. Então, em 1988, no final de 1988, eu prestei faculdade. E me tornei aluna da PUC Campinas, curso de Letras.

P1 - E como foi essa experiência, pra você, da faculdade? Fazer uma faculdade aqui, deve ser bastante diferente, né? Como foi esse período pra você?

R - É. É bem diferente, mesmo. Primeiro, não era fácil, porque esse curso de Letras, é de língua portuguesa e de inglês. Então, inglês, pra mim, não era difícil, eu estudava na China, tenho bastante conhecimento. Mas [na] parte de português, eu era mais fraca. Embora eu já tivesse dois anos de estudo, mas não era sistemático. Então, aqueles livros gramáticos, né, ali, aula de gramática, literatura brasileira, literatura portuguesa, essas matérias são muito difíceis para mim. Eu me lembro que eu tirava nota três, por exemplo, assim, pra literatura brasileira, quatro pra gramática. Era bem mais difícil. Só que os meus colegas me deram bastante ajuda, os meus colegas, porque muitas vezes o professor fica citando, né? Então, cada um tem que anotar, eu não conseguia. Os meus colegas me emprestavam o caderno de anotação para eu copiar, fazer cópia. Aí, com o tempo, eu vou levando, consegui fazer melhor. E, no terceiro ano, eu já conseguia todas as matérias, conseguia levar bem. No quarto ano, eu até fui monitora de algumas matérias. Por exemplo: literatura inglesa, (risos) eu fui monitora, ajudando os meus colegas. Então, foi sorte que eu encontrei os professores brasileiros e os meus colegas me deram bastante ajuda. Eu consegui terminar esse curso em quatro anos. O previsto era quatro anos. Eu consegui terminar regularmente, não fui reprovada em nenhuma matéria.

P1 - Durante esse tempo, você continuava no restaurante chinês, ou você mudou de emprego?

R - Eu mudei de emprego, mesmo. Eu saí do restaurante, porque aquele trabalho não ficava bem pro meu estudo, porque restaurante tem que trabalhar até muito tarde. Restaurante costuma fechar [às] onze e meia, meia-noite, aí atrapalha o meu estudo do dia seguinte. Então, eu mudei para um emprego em loja que vende presentes, "boutique", que chama. E eu trabalhava à tarde. De manhã eu fiz faculdade e à tarde trabalhava na "boutique". Nas férias também. Principalmente nas férias de Natal, a "boutique" tem um horário bem extensivo, assim, das oito horas da manhã até às dez horas da noite. Então, a gente tinha bastante trabalho durante o Natal.

P1 - E quando você se formou, Lin, você já pensava em trabalhar com tradução, ou isso acabou surgindo depois, por acaso?

R - Eu sempre pensava em trabalhar na parte de tradução, porque a minha mãe é uma tradutora excelente. Então, depois de me formar, eu consegui trabalho aqui em São Paulo, num jornal da comunidade chinesa. Esse jornal era recém-formado também, não tinha funcionários. Então, os fundadores do jornal, me encontrei no Consulado da China. Então, quando eles ficaram sabendo que eu ia me formar na faculdade, me convidaram pra ser funcionária lá. Então, no início de 1992, eu me mudei pra São Paulo e comecei a trabalhar nesse jornal, que chamava “Jornal Chinês do Brasil”. E há alguns anos, mudou de nome pra “Jornal Chinês para a América do Sul”.

P1 - E, nessa vinda pra São Paulo, você se adaptou com outra cidade? Os seus pais vieram juntos, ou não? Conta um pouquinho pra gente. 

R - Os meus pais ficaram em Campinas, o meu irmão também. Eu vim sozinha pra São Paulo. No início, eu fui para um tipo de pensão. (risos) Pensão. Eu morava com algumas mocinhas, todas elas estavam fazendo faculdade em São Paulo. Eu fui morar com elas. E, depois de alguns anos, eu consegui juntar dinheiro e comprar o meu primeiro apartamento. Isso foi sete anos depois. Aí, em São Paulo, eu tinha que viver sozinha, fazer comida sozinha. Só que fui levando, né, a vida, aqui, sozinha, em São Paulo.

P1 - E pelo fato de você trabalhar em [um] jornal da comunidade chinesa, em São Paulo, isso fez com que você tivesse mais contato com a comunidade chinesa aqui?

R - Sim, sem dúvida. Isso fez eu ter mais contato com a comunidade. Na verdade, os primeiros seis anos em Campinas, eu não tinha muito contato com a comunidade, tinha mais contato com os brasileiros. Aí, depois de eu me mudar pra São Paulo, eu consegui, conheci a Associação Chinesa do Brasil, que é uma das associações mais tradicionais e a maior associação da comunidade chinesa. Então, naquela época, eles necessitavam [de] uma pessoa que pudesse dar aula de português pra novos imigrantes, novos chegados. Aí eles me convidaram pra dar aula. Eu fui lá dar aula gratuita para os imigrantes chineses, por alguns meses, mais ou menos um ano.

P1 - E, falando sobre as suas outras atividades, né, você falou que trabalha com turismo, você trabalha com tradução e também você tem o “Tang Yun”, não é? Teve essa questão das danças tradicionais da China. Vamos começar pelo “Tang Yun”. Como surgiu essa ideia? Como isso começou, pra você?

R - “Tang Yun” é um grupo artístico que eu montei, em 1999. Já faz vinte e poucos anos. Porque, naquela época, como eu já tinha contato com a comunidade chinesa, então, todos os anos, durante o Festival da Primavera, a comunidade organizava festa pra comemorar a chegada do Ano Novo chinês. E essas festas eram bem simples. Então, um lugar mais simples, a pessoa canta, a pessoa dança. Mas eu percebi que era sem organização, né? Esses programas que eram apresentados, não eram treinados, organizados. Então, eu estava pensando: “Talvez eu possa fazer um grupo, né? Chamar essas pessoas que gostam de artes, então, pra juntar, né? A gente consegue ensaiar [um] programa melhor e consegue mostrar, tanto pra comunidade, como para os brasileiros que gostam da cultura chinesa”. Por isso surgiu essa ideia de juntar as pessoas. Então, eu chamei algumas pessoas que tinham a mesma ideia. E a gente arrumou algum lugar pra treinar. Foi difícil, no início, porque a gente não tinha recursos pra alugar a sala, essas coisas. Então, a gente emprestava a sala da associação, emprestava até restaurante quando ficava fechado, _______ mexia as cadeiras e mesas e arrumava espacinho pra ensaiar. Às vezes, a gente fazia ensaio no parque. E até teve uma vez, a gente ia ensaiar no metrô, nos espaços do metrô, né, para poder atender a apresentação. Foi assim que também o número de pessoas aumentou a cada ano. E a programação que a gente consegue fazer fica cada vez melhor. E, em 2019, a gente fez uma festa, pra comemorar vinte anos do grupo. Hoje em dia, tem bastante criança, faz curso, entra no curso de dança, curso de música, instrumento musical, até pintura, essas coisas.

P2 - Lin, como são essas danças tradicionais chinesas? Você tem como comentar pra gente, mais ou menos?

R - Danças tradicionais? Então, a China é formada por 56 etnias, minorias. Cada etnia, minoria, tem sua cultura diferente. Tem o seu vestuário, roupa diferente, a música, dança diferentes. Então, isso se torna um recurso muito rico pra dança folclórica chinesa. Por exemplo: cada etnia tem a sua própria música, a própria música, dança. Então, a gente pode explorar. Esse ano, a gente explora a dança da etnia Qiang, próximo ano a gente explora outra etnia, Mongólia, tipo assim. Então, todo ano sai uma dança folclórica diferente.

P2 - E onde vocês costumam se apresentar?

R - A gente costuma nos apresentar nas festas que a comunidade organiza. Por exemplo: Ano Novo chinês, dia da comemoração da fundação da República Popular da China. E, a partir de 2016, a Câmara Municipal aprovou o quinze de agosto como o Dia do Imigrante Chinês. Então, a partir daquele ano, é mais uma data pra comemorar. Todo ano, a gente faz festa pra comemorar o Dia do Imigrante Chinês. A gente costuma comemorar no “outdoor”, por exemplo. Aquele grande “outdoor”... o Anhembi. No Memorial da América Latina. E muitas vezes a gente também faz comemoração no parque, no Parque Ibirapuera, Parque Villa-Lobos e outros parques.

P2 - E como é que são essas festividades? Por exemplo: o dia do Ano Novo chinês e o Dia do Imigrante?

R - A programação tem bastante programa. Por exemplo: na Liberdade, Praça da Liberdade, todos [os] anos, a gente organiza festival para comemorar o Ano Novo chinês. Geralmente, começa com dança de dragão e dança de leões, pra iniciar, pra esquentar o palco, e depois segue com as danças folclóricas, artes marciais, apresentação de pinturas de ____, né? Então, cada ano, conforme que tipo de animal. Por exemplo: ano do cachorro. Então, os pintores pintam cachorros na hora. Eles fazem pintura no local, no palco. Ano de tigre é pintado o tigre. Tem a prática de Tai Chi, né? O Tai Chi Chuan, o Tai Chi. E às vezes a gente também organiza passeio de bicicleta. Por vários anos, antes da festa, teve passeio de bicicleta com o apoio da CET, faz uma voltinha na cidade de São Paulo. E no dia de festival também tem as bancas. Bancas, tipo: bancas de comida, que vendem comida tradicional, artesanatos, acupuntura, caligrafias, pinturas. Mais ou menos assim. 

P2 - E o grupo de dança, atualmente, tem alguma sede?

R - Atualmente tem. O grupo de dança tem sede no Cambuci, Avenida Lins de Vasconcelos, 998. A gente tem uma sede que promove essas aulas da cultura chinesa, todo fim de semana.

P2 - Lin, você pode comentar um pouquinho sobre as suas atividades na agência de turismo?

R - Ah, sim. Na agência de turismo, a minha função é mais levar a pessoa pra passear. Então, meus colegas montam grupo. Eles trabalham com passagem aérea, depois montam o grupo. Eu sou como guia, né, levando o pessoal para passear. Tanto no Brasil, como no exterior. Assim, eu também faço passeio. Porque eu gosto bastante de viajar, mesmo. É a minha preferida atividade. (risos) 

P2 - E vocês já conseguiram agendar alguma viagem pra China, ou ainda não?

R - Não. Por enquanto, ainda não. Por enquanto, pra ir na China, primeiro tem que enfrentar quarentena. A China ainda pede quarentena de pelo menos duas semanas. E outra coisa é o visto, né? Como eu já me naturalizei brasileira, por enquanto não está liberado o visto, ainda.

P2 - E quando foi que você se naturalizou?

R - Foi em 1994. Já faz bastante tempo.

P2 - E por que você escolheu o nome Rebeca como o seu nome brasileiro?

R - Porque, depois de chegar no Brasil, para a pessoa, para facilitar a pessoa, pra facilitar os meus amigos brasileiros, muitos chineses acataram nomes brasileiros. Aí eu escolhi meu nome pela Bíblia. Como eu sou cristã, então eu pego a Bíblia para ver. Então, eu escolhi uma personalidade, Rebeca, que, na Bíblia, essa personalidade é bonita, é sábia. Então, eu escolhi esse nome. (risos) 

P2 - E, quando você veio da China pro Brasil, você sentiu que tinha muitas diferenças, né? Mas tem alguma semelhança que você percebeu, entre os dois lugares?

R - Ah, sim. A China e o Brasil têm bastante semelhança. Por exemplo: tanto o chinês como o brasileiro gostam de fazer amizade. Então, essa parte, a gente gosta de amigos. Então, meus amigos brasileiros também gostam. Gostam de se reunir pra comer junto, pra beber junto, pra fazer atividade junto. Essa parte é bem semelhante, mesmo.

P2 - Quando você chegou aqui, você estranhou muito a comida?

R - Alguma coisa, mas a maioria das comidas, eu consegui aceitar com facilidade. Até queijo. Porque a maioria do chinês não gosta de queijo. (risos) Mas, para mim, tudo bem. Tudo bem, eu consegui me adaptar com queijo. Até quando eu pedia pizza, a minha preferência era quatro queijos. (risos)

P2 - E seu processo de alfabetização do português, como é que foi?

R - Eu tinha conhecimento em inglês. Então, até não foi tão difícil, pra mim, conseguir aprender. A diferença é na pronúncia, né? O inglês, porque tem a pronúncia diferente. Português, eu acho que fica mais fácil, porque você consegue ver letras, ler essas letras e não muda. Pra inglês fica difícil, você lê uma coisa, só que pronuncia outra coisa. E a parte de português mais difícil era conjugação de verbo porque, em chinês, às vezes não há conjugação de verbo: um verbo é tanto pra ontem, pra hoje e pra amanhã, não muda. Pra nós, pra vocês, pra eles, pra elas, pra nós, não muda. Então, um verbo é uma palavra pra todos. Mas em português muda toda hora, muda de tempo, de personalidade. Então, essa é a parte mais difícil. E, em chinês, não há singular, plural. Então, essa é a parte de diferença. E gênero também, não tem diferença de masculino e feminino. Então, é também outra parte mais difícil.

P2 - Tem algum conhecimento que foi passado de geração em geração na sua família, que você usa até hoje?

R - Conhecimento de geração... (risos) então, não sei. Mas essa parte que eu tinha explicado que a minha mãe tem facilidade com línguas. Então, ela é uma professora e tradutora. Essa parte, eu acho que eu herdei da minha mãe, né? Porque eu também dou aula, também faço tradução. Então, essa parte eu peguei dela.

P2 - Você costuma traduzir a comunidade chinesa, em geral, assim, na mídia?

R - Sim, sim.  Essa parte que eu prestei bastante serviço gratuito para a comunidade chinesa, nas reuniões da comunidade, do festival, eu, geralmente, faço o papel de apresentadora. Então, apresentadora, que eu faço a parte tanto de chinês, como português. Muitas vezes eu tinha que fazer a parte do português, porque quando o meu parceiro não fala português, então ele fala chinês, eu faço a parte de português, pra poder transmitir, né? Tanto pra chinês, como pros nossos amigos brasileiros que estão assistindo a programação.

P2 - E, falando no seu parceiro, como é que você o conheceu? Se você puder comentar.

R - Não, não. Esse parceiro não é aquele parceiro. Eu estou falando que, quando faz evento, geralmente, a gente fica um par, né? Um moço e uma moça, pra trabalhar junto.

P2 - E você chegou a retornar pra China em algum momento assim? E, se sim, você sentiu alguma diferença de quando você veio?

R - Ah, sem dúvida. A primeira volta pra China foi depois de sete anos no Brasil. Eu cheguei em 1986. Eu só consegui voltar pra China em 1993. Aí, a mudança era bem grande, sabe? Porque durante sete anos, a China mudou bastante. E, naquela época, a China evoluiu muito rapidamente, né, a parte econômica. Então, as ruas, os bairros, os prédios ficaram bem diferentes. E, depois disso, eu faço viagem, mais ou menos, a cada dois anos. E, às vezes, uma vez por ano. Mas dá pra perceber bastante diferença, toda vez, quando retorna pra China, porque a China é grande, não é toda vez que eu vou pro mesmo lugar. Às vezes eu vou pra Pequim, às vezes pra Xangai, às vezes pra minha terra natal. Então, eu vou, toda vez, toda viagem, eu escolhia um lugar diferente pra ir, né? Por exemplo: essa viagem eu faço pra ficar mais tempo em Pequim e faço viagens ao redor e próxima vez, mais pro sul da China, para Guangzhou. Então, não é, assim, uma vez... eu não conseguia viajar pra várias cidades. Então, cada vez eu vou para um lugar diferente. Aí, próxima vez, eu vou de novo e percebo que mudou bastante. Então, sempre foi assim.

P2 - Nessas viagens, teve algum momento inesquecível que você passou, que você queira comentar com a gente? 

R - Inesquecível? Foi quando eu voltei pra minha cidade natal. Houve comemoração dos duzentos anos da fundação do meu colégio, onde eu fiz o segundo grau. Teve uma comemoração bem grande, convidaram bastante gente, muitos ex-alunos. Aí eu consegui reencontrar com meus colegas, meus professores. E meus professores já tinham idade bem avançada. Por exemplo: eles tinham cinquenta anos quando me ensinavam, agora já têm oitenta e poucos anos. E meus colegas, muitos, depois, foram pra outros países. Por exemplo: eu tenho colegas no Canadá, nos Estados Unidos. Então, a gente voltou lá e teve encontro bem, assim, emocionado e bastante alegria de reencontrar os colegas de infância.

P2 - A tua cidade natal também mudou bastante?

R - A cidade natal também mudou bastante. Quando eu saí de lá, muitas ruas ainda eram mais estreitas, muitos bairros ainda eram mais antigos, os prédios mais baixos. Mas agora, também, muitos prédios foram derrubados e construíram novos prédios. Até o bairro residencial [em] que eu morava, já era bem diferente, bastante diferente. Já não encontro mais aqueles prédios antigos que eu morava. Em vez daqueles prédios, eram outros prédios, levantados posteriormente.

P2 - Mas os monumentos, os prédios grandes continuam, né? Porque você falou da sua escola.

R - Isso. O da minha escola também mudou bastante. A minha escola é no Centro da cidade, então não era muito grande, embora seja uma escola bem central, na cidade. Hoje, a última vez que eu fui, eles conseguiram construir uma área nova num lugar mais distante, mais ou menos subúrbio, assim. Conseguiram levantar outra área da escola. A mesma escola, só que agora tem em dois lugares, né? Essa área nova é bem maior, com os prédios novos, que tem bastante salas, que tem as tecnologias novas, tipo computador, com vídeos, essas coisas, equipadas.

P2 - Nós estamos caminhando, agora, pras perguntas finais. E aí a gente gostaria de saber quais são as coisas mais importantes pra você hoje.

R - Hoje, na verdade, eu estou pensando tanto como tradutora, tradução, como mídia. Já completei mais de vinte anos de trabalho. Então, eu estou pensando, está chegando a hora de fazer resumos, como essa entrevista é mais ou menos um resumo da minha vida, de trinta anos, né? Então, eu estou começando a fazer esse tipo de trabalho. Por exemplo: escrever alguns artigos sobre a minha vida de imigração. E eu estou trabalhando para fazer um livro didático de português, também. Porque, quando eu cheguei, não tinha, até hoje, não tinha um livro bom, adequado, pra ensinar os novos imigrantes. Então, eu estou fazendo esse trabalho, pensando em fazer pra ajudar os novos chegados [a] dominarem mais fácil o português.

P2 - Você quer dizer que não tem nenhum livro entre chinês e o português, né? Como é que você ensina essas pessoas?

R - Tem _____. Até eu posso mostrar. Como eu estou fazendo essa parte do trabalho, então na minha sala tem bastante esse tipo de livro. Esse aqui foi um livro que muitos chineses aprenderam português, com esse livro. Só que esse livro acho que foi feito quarenta ou cinquenta anos atrás. Então, bem antigo. Assim, bem antigo! E, durante esses anos, o português mudou bastante, né? O português mudou, a gente deixou de usar muitas coisas, agora ficou bem mais fácil. Então, esse livro já não é bom pro pessoal usar. Tem outros livros que são, simplesmente, todos em português, então esse pra imigrante novo também fica difícil, porque não vai entender nada, pra começar. Então, esses livros também, tudo é em português. Eu estou pensando, né, juntar essas lições e colocar explicação em chinês, pra ajudar as pessoas a entender melhor. Eu tinha feito um livrinho didático há muitos anos, em 1992, pra ensinar os alunos nas associações, assim, bem simples. Esse aqui foi bem simples. Agora, eu queria fazer um mais completo, tipo assim, só que mais novo.

P2 - E quais são os seus planos pro futuro, os seus sonhos?

R - Sonhos? (risos) Se ainda tenho, né? Eu ainda tenho bastante coisa que eu queria fazer, porque esses vinte poucos anos, eu faço bastante tradução, mas essas traduções são mais pra documentos. Eu ainda não tive a oportunidade de traduzir livros, livros de literatura, esses tipos de livros. Eu gostaria, quando eu me aposentar - isso, daqui a dez anos -, [que] eu possa pegar alguns livros brasileiros e fazer tradução pra chinês e pegar livro chinês, fazer tradução pro português. Isso é um dos meus sonhos.

P2 - Tem algum livro em português ou chinês, que você acha que valeria a pena traduzir, assim?

R - Eu ainda não tenho ideia. Se tiver sugestão... (risos) eu posso pensar. Eu estou pensando, porque não é tão assim em breve, né? Porque vai demorar. Eu acho que ainda vai demorar, mais ou menos, uns dez anos pra realizar. (risos)

P2 - E, por fim, como é que foi contar a sua história pra gente?

R - Ah, foi uma experiência agradável poder contar a nossa própria história pra outras pessoas, porque foi muita experiência, muita passagem de vida inesquecível, né? Eu acho que é bom compartilhar essas experiências, pra poder... pra que outras pessoas também possam conhecer a nossa vida, conhecer o nosso esforço para adaptar-se à nova vida, a se entrosar na sociedade brasileira, pra fazer amizade, pra se tornar... hoje em dia, acho que eu posso falar: não sou chinesa, também não sou brasileira. Eu sou uma mistura de chinês e brasileiro: sino-brasileiro. Então, eu também gostaria de aproveitar a minha experiência e conhecimento pra promover amizade, intercâmbio, cooperação entre dois países.

P2 - Tá, Lin, então, em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece a sua entrevista. Muito obrigada.

R - Obrigada vocês por me darem essa oportunidade.

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