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História

Uma médica para chamar de sua

História de: Maria de Fátima Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2021

Sinopse

Fátima saiu a a vó Isolina, parteira da aldeia Bolsas, norte de Portugal. Ainda que proibida pelo esposo de sair de casa - “deves cuidar dos seus filhos” - Isolina saltava os muros de casa nos primeiros pedidos de socorro de uma mãe à hora da luz. Assim é Fátima: destemida, avante ao destino que lhe foi dado. Considera como seu primeiro emprego as idas junto aos pais à feira: na presença de qualquer desconhecido, berrava. A pequena Fátima cumpria sua missão de alarme de feira. Contadora de histórias nata, é uma cirurgiã que tem paixão pelo paciente acordado. Ela não recusa uma boa conversa! Não só pela destreza em que exerce sua profissão, paixão, sina - a medicina -, Fátima encanta pela risada e por fazer da sua presença algo inesquecível. É, sem dúvida, uma médica para chamar de sua.

História completa

O meu nome é Maria de Fátima Santos. Só pode ser pela origem do meu pai, que é português. Hoje, meus pacientes ficam extremamente encantados, alguns falam: “Nossa, não tem como dar errado, doutora! A senhora é Nossa Senhora de Fátima”. E, pra reforçar, ainda sou de todos os santos!


Meu primeiro emprego foi alarme de barraca de feira. Já ia, aos quatro meses, com meus pais ao trabalho: minha mãe vendia alho e cebola e meu pai, batata. Sol ou chuva a gente estava lá. Se entrasse alguém no recinto: buáááá! Eu chorava. Alarme de feira! Aos quatro anos, guerreei com minha mãe pra me por na escola. Eu via as outras crianças com uniforme: “Eu quero ir, eu quero ir!” Tanto oportunei que consegui!

 

As vendas na barraca da feira foram enfraquecendo, enfraquecendo… A primeira que deixamos foi a de batata. A barraca de cebola ainda se vendia um pouco mais. Até que a gente foi assaltado em casa. Nosso cachorro, um pastor alemão, levou dois tiros. Meu pai foi acordando devagar com o barulho. Chegando na cozinha, deu direto com os caras. Foi quando eu acordei. Pânico total! Eu tinha uns 14, 15 anos. Aí tinha, por sorte, uma madeira na sala. Eu subi no sofá, vigiei pra não fazer sombra e pensei: “O que não for a careca do meu pai aqui, vai tomar paulada!” A partir desse momento, a nossa vida mudou: meus pais já tinham um terreno em São José dos Campos e optaram por largar tudo, casa pronta, negócio pronto e fomos embora de São Paulo.

 

Num primeiro momento, eu falava que queria ser dançarina. Depois, professora. Por muito tempo, achei que fosse fazer oceanografia. Aí, quando foi pra decidir o colégio, depois da oitava série, foi a única vez que eu e a minha mãe brigamos - e brigamos feio! Ela chegou pra mim: “Vou te matricular no curso Normal!” O Normal era pra ser professora, considerada, na época, uma profissão decente. Eu disse: “Não, mãe, eu quero fazer Biológicas!” Tinha uma mesa pequena e azul na cozinha. Eu de um lado da mesa e ela do outro. Até que meu pai chegou e ficou no meio: “Mas o que está acontecendo?”, eu digo: “Ela quer que eu faça uma coisa que eu nem sei o que é, não sei no que vai dar e eu não quero fazer! Eu quero Biológicas”, ela: “E no quê que isso vai dar?”, eu disse: “Vai dar uma coisa, eu posso até ser professora!” A minha mãe sempre ganhava as discussões - ele nunca -, mas baixou um santo lá e eu respondi: “Então tá, eu faço Normal e você vai ser a responsável por eu não fazer da minha vida o que eu quero”. Parou a discussão: “Eu não! Quer fazer Biológicas? Faça Biológicas.”

 

Então segui num curso técnico em Anatomia Patológica porque já tinha a intenção de trabalhar. Quando chegou a época do vestibular, prestei Medicina por prestar, mal tinha estudado. “Por que eu quero Medicina? Não tem médico na família! E se eu desmaiar quando vir sangue?” Aí passou na televisão uma propaganda de um curso de instrumentalização cirúrgica - e nenhum lugar é melhor para saber se eu desmaio quando eu vejo sangue do que num centro cirúrgico! Fiz. Nele, descobri que eu realmente queria ser médica.

 

A entrada na faculdade pra mim foi assim: passei depois de quatro anos. Fui selecionada em Mogi e na Unesp, que é em Botucatu, e só. E tinha a lista de espera na Santa Casa. Qualquer pessoa racional teria ido para Botucatu. Mas eu pensava assim: “Se eu for pra lá, não acompanho congresso, não acompanho nada. Quando eu me formar, meu Deus do céu, o quê que vai ser?” Chorei pra caramba, foi a primeira vez que eu falei palavrão em casa. Mas em Mogi eu estaria perto de São Paulo. Fiz minha inscrição em Mogi.

 

Aí ligou um colega meu que perdeu a vaga na Santa Casa. “Fátima, presta atenção porque a lista roda muito. Eu perdi, não tenho como retomar, mas eventualmente você consegue!” Chegou um dia que me ligaram. Lembro até hoje, foi o doutor Décio: “É da residência da senhora Maria de Fátima?”, eu que atendi: “Sim, sim” “Então, aqui é da Santa Casa, você está sendo chamada para começar o curso de Medicina! Traga os seus documentos e venha até amanhã  fazer a inscrição.” Eu adoro construções antigas. Era um dia chuvoso, precisamos andar no que a gente chama de catacumba, aquilo era horroroso, escuro, o meu pai falou: “Você está demente? Você tá com algum problema?” E ele foi até lá avisando que lá tinha essa fama que tinha que se pagar para entrar: “Seu pai não tem dinheiro e seu pai não gosta de coisa errada!” Ele saiu pedindo dinheiro emprestado aos vizinhos para fazer a matrícula na Santa Casa. Conseguimos. A partir daí, a minha família não me viu mais. Quando pisei no prédio da Santa Casa a primeira vez: “É aqui que eu quero, é aqui que eu fico, é aqui que eu morro!”


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