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História

Uma mãe guerreira

História de: Josineide Maria Gomes da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Josi nos conta a respeito de sua família de Catende e Garanhuns e sua infância no interior de Pernambuco. Sabemos sobre sua vida em meio aos engenhos e os conflitos familiares. Josi nos fala também sobre sua mudança para São Paulo, as dificuldades iniciais, a escola, seus primeiros empregos e seu casamento. A partir daí, Josi nos conta sobre sua entrada no CEPE e a vida de seus cinco filhos, Elis, Taís, Laís, Caique e Vinícius, que frequentaram o Projeto Esporte Talento. Nos fala também de sua formação em administração, a morte de seu filho, além de seus sonhos para o futuro.

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História completa

Meu nome é Josineide Maria Gomes da Silva, nasci em dois de maio de 66, sou de Catende, Pernambuco. Meu pai é José Antônio Gomes da Silva, a data de nascimento dele? Ele nasceu em dois de abril de 42, ele é de Garanhuns, Pernambuco. Minha mãe? Maria José da Silva, ela nasceu no dia primeiro de maio de 44, ela também é de Catende, Pernambuco, da mesma cidade que eu. O meu pai era administrador de engenho, ele ia pra vários engenhos e, numa dessas andanças dele, ele conheceu minha mãe e eles ficaram juntos. (risos) Ela tinha acabado de separar do marido naquela época, né, bem discriminada, né, na época dela, com filho. Aí não foi muito aceita pela família do meu pai, minha avó nunca aceitou, ela gostaria que ele casasse com uma negra, né, com a mesma descendência. E a minha mãe era branca, mas mesmo assim meu pai perpetuou, aí casou com a minha e ficou até o fim da vida com ela. A gente ficou em Catende até os meus treze anos, aí a gente veio pra São Paulo. Porque a vida foi ficando difícil lá, a roça e tudo, né, aí meu pai veio tentar a vida em São Paulo, em 82. 80, 80 ele veio pra São Paulo. Aí ele conseguiu um emprego aqui numa multinacional, aí na Rolamentos Schaeffler, aí depois trouxe o restante da família e a gente se estabilizou aqui, acabamos de crescer aqui, então passei a minha adolescência aqui em São Paulo. Nos meus treze anos eu já comecei a trabalhar também, então eu comecei cedo. Trabalhava em loja, trabalhava, fazia datilografia e estudava. Na época não tinha computador, né, era datilografia. E estudava. Aí depois eu comecei a estudar à noite e trabalhar durante o dia, arrumei um emprego. É que a gente não tinha mais recurso lá, a terra estava secando, os riachos secando, então não tinha mais como viver da roça e também os engenhos, as usinas estavam fechando, as usinas de cana-de-açúcar. A solução dele foi vir pra São Paulo. A gente já tinha um tio aqui, onde deu apoio e suporte pra gente, tinha um tio que morava em Santo Amaro, e uma irmã dele que morava aqui no Rio Pequeno. Então a gente veio aqui pro Rio Pequeno, pra casa da minha tia. Aí esse meu tio de Santo Amaro arrumou esse emprego pra ele nessa empresa, onde ele ficou a vida inteira, até se aposentar. Ela era ótima e o pessoal queria levar ele. A empresa mudou, foi pra Sorocaba, aí queria levar ele, a família, ofereceu casa, tudo, mas ele preferiu ficar aqui, não acompanhou a empresa. Quando eu cheguei aqui em São Paulo eu trabalhei numa lojinha lá no Rio Pequeno, trabalhava o dia inteiro, de segunda a sábado. O dia inteiro não, na semana era meio período, que era pra dar oportunidade pro pessoal estudar. Então eu trabalhava das oito a uma e estudava à tarde. Aí depois eu vi que não tava dando lá, eu já tinha datilografia, né, fui arrumar um emprego o dia inteiro na área administrativa, auxiliar de escritório. Aí a minha mãe trabalhava numa empresa da Lapa, ali no Alto da Lapa, ela conseguiu um emprego lá na área administrativa pra mim. Aí eu fui, fiz o teste e consegui. Aí que eu comecei a estudar a noite e trabalhar no escritório, isso em 82. Aí fiquei lá nove meses nessa empresa, depois mandaram embora, tinha muito corte, aí fui mandada embora, em 82. Em seguida eu arrumei um emprego aqui no Jaguaré, em uma outra empresa. Foi? Foi. Aí também fiquei pouco tempo, acho que dois, três meses. Aí depois arrumei um outro perto do Eldorado, fiquei também um mês, mais ou menos. Depois arrumei um outro emprego numa outra empresa aqui na Corifeu de Azevedo Marques, lá perto do Shopping Continental, fiquei acho que uns seis meses lá. Aí de lá eu arrumei, em 83, final de 82 pra 83 eu arrumei na Rebouças, era uma empresa de engenharia. Aí fiquei lá uns dois anos, até ganhar a minha filha, quando eu casei. Depois que eu ganhei ela eu voltei e voltei grávida já, também. A gente morava na Vila Antônia, aqui no... é um bairro perto do Rio Pequeno, entre a Raposo, ali, o quinze da Raposo. E como a minha sogra faleceu e meu sogro morava num sobrado, aí ele pediu pra gente morar com ele. Só que a gente sabe que não dá certo, né, mas mesmo assim a gente foi, tudo. Aí moramos lá uns meses, mas aí não deu certo, aí acabamos... eles brigavam, né, essa coisa de pai e filho, não dá certo, não aceita muito, né. Você tem um ritmo de vida, né, igual aos meus filhos, eles tem um ritmo de vida hoje, eu tenho outro, então cada um tem que viver dentro do seu . Aí não deu certo, teve uma briga lá, acabei ficando na rua, literalmente, e aí a gente foi morar no fundo da casa da minha mãe, tinha um quartinho lá e a gente aumentou ele e ficou morando lá. Aí disso, assim... eu fiquei procurando emprego, né, que eu trabalhava na contabilidade, arrumei um emprego na contabilidade e fiquei sabendo que a USP tava pegando, aí minha mãe falou: “Vem e faz uma ficha.” Aí vim fazer uma ficha aqui. Aí ela ficou sabendo que o CEPEUSP estava pegando, só que era pra limpeza, auxiliar de limpeza. Aí eu falei: “Não, eu vou.” Mesmo na contabilidade. Tipo, eu ganhava 250 na contabilidade e aqui eu ia ganhar 480, aí eu falei: “Não, vou embora, o importante agora é o salário, estou precisando.” Aí vim, fiz o teste e das cinquenta mulheres que tinha eu consegui passar nas seis vagas, aí entrei aqui em 90. Aí ficaram me procurando, porque naquela época não tinha telefone, não tinha contato, né, o contato era a pessoa. Minha mãe estava de férias, tudo, aí quando ela retornou, falaram: “Então, Maria, estão procurando a sua filha aí.” Aí ela veio no CEPEUSP, conversou com a moça lá, a senhora que era responsável, ela falou: “É que ela foi aprovada, pra ela vir já trabalhar.” Isso era final de dezembro, sabe? De 89, dezembro de 89. Eu senti pra perder a vaga mesmo, aí ela disse:“Vem correndo.” Aí liguei na contabilidade, falei: “Moça, preciso sair urgente.” Aí vim e eles falaram que tinha que trazer os documentos e já começava a trabalhar. Aí já providenciei tudo, já assinei tudo, falei: “Não, é pra ontem.” Aí voltei na contabilidade e ele pediu pra ficar até o início aqui, pra ele arrumar um pessoa também. Então aqui eu comecei dia 23 de janeiro de 90 e continuei trabalhando... aí eu saía daqui às três horas, que o horário era das sete as três, aí você trabalhava sábado o dia inteiro. O PET, aí... teve uma época... o que aconteceu? Quando a criança sai da creche e vai pra escola ela não tem onde ficar, aí começa o desespero, aí ficar com a gente até... tem administração que deixa a criança ficar, tem administração na época que não deixava, você tinha que arrumar um lugar pro seu filho. Foi aí que eu vi que surgiu o Projeto Esporte e Talento, aí vim fazer a inscrição. Vim fala com eles, na época, aí falaram que tinha que fazer inscrição, preencher umas fichas pra colocar. Foi aí que eu consegui colocar a minha filha aqui. Então ela vinha da escola, almoçava comigo e vinha pra cá, então ajudou bastante. Mas antes de vir o Projeto Esporte e Talento tinha aquele... tinha um projeto da prefeitura. Isso foi em 93, por aí. Acho que foi em 93 que ela entrou. Tinha mais... tinha... antes o projeto era de sete a 17, depois ele mudou as idades. Então ela conseguiu entrar nessa época no projeto, acho que foi em 93, se não me engano. Ah, elas adoravam, elas gostavam do projeto, adoravam vir pra cá. Na época tinha lanche, tinha almoço, era bem servido. Era um projeto bem estabilizado pra atender a criançada carente mesmo, então tinha almoço, tinha lanche. Eu acho que eles almoçavam no CRUSP, na época, se não me engano. Acho que o monitor pegava a turma, levava e trazia. Depois a tarde tinha lanche. Aí dava bastante coisa pras crianças também, tênis, uniforme, mochila, então tinha uma estrutura boa pro atendimento das crianças. Eu vinha, participava, fim de semana eu vinha trazer eles, ficava lá torcendo, uma mãe louca, elas: “Para, mãe, pelo amor de deus.” “Ah, deixa eu torcer!”, grita. Sempre vinha trazer eles e participava também das atividades, tudo o que tinha aqui. Na medida do possível eu vinha e participava porque eu trabalhava... eu ainda continuei dando suporte no fim de semana, até eles me liberarem, aquela coisa assim: “Eu deixo você ir pra atividade... pra área lá, mas você tem que dar i suporte aqui.” Até se estabilizar e dizer: “Não, desvincular de vez.” Aí deu pra começar a participar das atividades de fim de semana aqui. Aí tinha as competições. Entrou a Taís, a Taís em seguida também. Ela era uma ano depois, então eu acho que 94, 95, acho que 95. 95, 96 ela deve ter entrado. Aí entrou e também, já ficavam as duas. Depois, em 94 veio o Caíque, ele também chegou a participar do projeto, em 2004, 2005, aí participava do projeto. Em 2005 eu fiquei viúva, em 2004 fiz o curso de teologia pastoral e em 2005 eu fiquei viúva do pai deles, ele faleceu, teve infarto. Aí eu comecei a faculdade em 2009 e em 2013 eu concluí o curso. Uma vitória. Poxa vida, eu acho que eu acabei realizando todos os meus sonhos, né. Criei os meus filhos, alguns formados, correram atrás de seus sonhos, já tem filhos, eu tenho cinco netos. Então agora eu acho que é finalizar o meu trabalho e viver um pouco a vida. O meu sonho é conseguir finalizar aqui e viver um pouco, viajar, conhecer um pouco o Brasil. Esse é meu sonho. Porque, assim, eu sou uma pessoa muito abençoada, graças a deus, né. Uma família abençoada, os meus filhos todos abençoados, agora estão aí, cada uma com a sua vida. Eu fiz uma faculdade, que é um sonho, né. Saí correndo atrás, então consegui. E futuramente, quem sabe, uma direção de uma escola, né, quando aposentar não parar, contribuir pra sociedade com algum trabalho assim, eu penso em algo dessa forma, como contribuir pra sociedade.

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