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História

Uma longa caminhada

História de: Raimundo Nonato Farias (Curupira)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Raimundo Nonato Farias, conhecido como Curupira, relata em seu depoimento a infância vivida na cidade de São Bento, no Maranhão. Fala sobre as dificuldades dos pais para criar os oito filhos do casal. Recorda a viagem que fez a pé com dois primos entre o Maranhão e o Pará, aos 20 anos, dependendo da ajuda de desconhecidos. Lembra como era a cidade de Belém na década de 60 e como começou a trabalhar na região do Jari como vigia. Ajudando na igreja, viu a região se desenvolver.

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História completa

Sou do dia 31 de agosto de 1940, eu nasci num lugarzinho chamado Cruzeiro, no município de São Bento. Ele fica entre São Bento e outra cidade que tem chamada Peri Mirim. É a estrada que vai daqui a Pará-Maranhão.  O Cruzeiro é uma cidadezinha, ela fica na beira do campo. O campo geral no Maranhão é aquela parte alagada. São Bento, ele já fica já perto do mar, próximo do mar, de São Bento a São Luís é um dia de viagem de barco. Hoje já tem através da estrada, já tem a balsa que faz o transporte. Na época que eu era criança, ela já era uma cidade. Morava no Cruzeiro. Com a idade de 15 anos, eu fui para São Bento, eu trabalhava. Lá tinha um empresário por nome João de Quirina, eu tinha um tio que trabalhava lá com ele. Era uma fábrica, lá descaroçava o arroz, o algodão. Ele exportava arroz para São Luís, Seu João de Quirina, era um empresário.


O nome do meu pai é Antônio Lúcio Farias, o nome da minha mãe é Maria da Conceição Farias. Meu pai nasceu num lugarzinho chamado Mormorana, ele trabalhava, como carpinteiro, agricultor.  A mamãe também trabalhava na roça. Ela trabalhava, plantava mandioca, macaxeira, batata. Plantava junto com o pessoal, junto com a família, eu era pequeno na época. Eu já estava com idade de oito anos, eu já ficava com meus irmãos pequenos em casa. Eu sou o mais velho. Nós éramos oito irmãos, morreu três, nós somos cinco irmão vivos. Era eu, Luiz Fernando, José Lobato, Francisco e Rosalina, o Francisco mora no Maranhão ainda e a Rosalina mora em Belém. Os outros são falecidos, já morreram pequeno também. Teve um ataque de verme e chegou a falecer. Na época a senhora já sabe, era atrasado, não tinha médico. Às vezes a família não tinha nem como levar, e adoecia, morria e fazia o velório em casa mesmo. Às vezes se ele estava morrendo, pegava uma vela, acendia, botava na mão dele, ficar seguro ali, até dar o último suspiro.  

 

O meu pai, ele não viveu com a mamãe, eles se abandonaram, eu fui o primeiro e ela teve outros maridos. Meu pai foi embora. Eu cheguei a conhecer, mas já faleceu depois que eu cheguei aqui. Ele estava trabalhando em São Luís, numa construção lá e uma parede desabou em cima dele e faleceu. Era João Abreu o nome do pai do Luiz Fernando, ele já é falecido também, ainda convivi uns tempos ainda com ele. A mamãe, ela batia muito na gente.  Ela pegava um galho de mato assim e dava pisa daquela criada.  Eu acho que por isso hoje eu criei seis filhos e até hoje eles me obedecem. Ela que era mandona mesmo, os filhos respeitavam os pais, mãe dizia: “Olha, meu filho, você não faça isso”. Você não teimava, porque as coisas eram complicadas.

 

A casa era coberta com a palha do babaçu, tapada com a palha do babaçu, o piso era de barro mesmo, fazia o aterro, quando acabava tinha um sebo, batia ela bem batida, que ficava, parecia cimento. A parede era tapada de palha, depois a gente tapou de barro.  A gente dormia na rede. Cada filho tinha uma rede. Tinha os atadores dentro de casa. Tinha quarto, cozinha. A comida era peixe, carne ou frango. Mamãe criava muita galinha caipira, a gente criava um porco, dois, para comida. E recebia. Tinha o pessoal lá que eles botavam roça, no canavial plantando cana.  No trabalho matava o gado lá mesmo, vendia para todos os trabalhadores, a vida era boa também. Às vezes acostuma da gente passar fome. Eu fazia a comida e faço até hoje: peixe, a carne, quando tinha. Tudo aprendi com a minha mãe. A mãe botava mesmo para fazer. Hoje eu não lavo a minha roupa, hoje tem a senhora, a Ornélia, é quem lava a minha roupa, mas antes disso quem lavava era eu. Eu fazia o almoço. Às vezes, quando não tinha janta, a gente fazia um mingau de farinha e tomava e ia passando.

 

De São Bento eu já vim para cá, com 20 anos, cheguei aqui com idade de 20 anos. Eu trabalhava lá nessa fábrica lá com esse senhor. Eu deixei e vim para cá. Lá com esse senhor que eu trabalhava, era uma fábrica de beneficiar arroz, algodão, que ele comprava e lá tudo isso a gente fazia, trabalhava lá, carregava. Na época, o salário era bom, fazia 20 cruzeiros por semana. Eu comprava roupa, ajudava o meu tio também. Eu ia na praça com os amigos  olhar uma festa, não bebia, não fumava, ia só olhar. Eu fui batizado com oito ano, mas a minha mãe já levava a gente para igreja, era quase um hora de viagem. Mas todo domingo a gente ia. Depois que eu mudei para São Bento, eu caminhava direto mesmo para igreja. Mamãe não perdia missa. 

 

Meu tio veio para cá com 16 anos. Ele saiu do Maranhão, passou 16 anos sem ir lá, com 16 anos que ele estava para cá. Quando ele apareceu foi já com 32 anos. Ele voltou para cá de novo. Quando foi em 60 ele foi no Maranhão novamente e eu já vim com ele. Ele já trabalhava com agricultura aqui, trabalhava muita gente com ele. A primeira vez que eu vim para cá, em 60, veio eu e mais dois primos meus. Nós viemos por terra, caminhando. Nós viajamos 12 dias de São Bento a Bragança, Estado do Pará. Nós viajávamos até encontrar uma casa. Quando era cinco horas a gente encontrava uma casa e pedia agasalho, lá a gente dormia, pernoitava.  

 

Em Bragança, lá tinha um senhor, ele andava atrás de um porco dele que tinha fugido. A gente topou com ele umas três horas da tarde e a gente veio com ele. Já conversando, ele convidou a gente para ficar lá na casa dele. Tinha um comerciante lá que ele era de São Bento. De manhã a gente foi lá, era conhecido do meu tio aqui. Quando foi no terceiro dia nós viajamos para Belém de trem. Foi no trem de Bragança para Belém, porque o meu tio tem uma irmã que mora em Belém. Ela trabalhava lá. Tinha a Agma, que era a mulher do Seu Smith. Ele era um telegrafista da Panair na época, e ela tinha duas lojas no Ver-o-Peso.  Titia Raimunda cuidava da família. Quando quando nós viemos, já viemos direto para lá, e nós ficamos.  Nós fomos trabalhar na Copala, que era da empresa Jari. Nós trabalhamos em construção.

 

Belém já mudou muito, daquela época de 60 para cá, cresceu mais. Lá em São Bento eu trabalhei de ajudante de pedreiro, construção.  Dezoito dia a gente pegou navio, era o Rio Jari na época, e viemos para cá. Demorou três dias de viagem de Belém para a Cachoeira. Quando chegamos aqui o meu tio já estava esperando nós.  Passamos uma hora mais ou menos aqui, e fomos embora para lá para o setor onde ele trabalhava. Lá era só roça, lavoura, roção, que plantava o feijão, o arroz, a mandioca, tabaco, feijão, era tudo. Quando eu vim para cá em 60, trabalhei um ano e seis meses. Eu fui no Maranhão ver a família. Na época aqui eu saldei um dinheirão aqui, 36 cruzeiro. Fui visitar meus parentes, minha mãe, meus irmãos, passei um mês e pouco lá. Eu voltei de avião para Belém.  Em 64 eu tornei a voltar no Maranhão, fiquei noivo lá. Não deu certo, pintou uma namorada aqui, eu casei com ela. Ela era de Belém, só que ela já morava aqui.   Eu trabalhava na igreja, trabalhei como zelador. Fui tesoureiro foi na época que chegou aqui o Padre Luís.  Tinha uma senhora que trabalhava, que era a Vanda, era animadora, ela foi para Laranjal do Jari. Na visita do padre eu já fui chamado para trabalhar como animador. Quando o padre falou comigo eu disse para ele que não dava para mim ser o animador, porque eu não sabia ler nem escrever. Ele disse que não tinha problema, para ser um animador não precisava você ler, escrever. 


Na construção dessas casas aqui, eu trabalhei na empresa executiva que prestava serviço lá no Munguba de vigilante e tive que fazer um curso para poder ser vigia, sem ler e escrever. Eu ainda tentei ainda, foi aonde eu consegui assinar o nome direito. Logo que eu cheguei nós fomos para lá, daqui com quatro quilômetros. Aqui para baixo tem muitas comunidade: tem boca do Jari, tem Jarilândia, vem subindo. Paraguai, o Caracuru ali com fronte, o Vitória do Jari. E, vinha um time de lá para jogar. Eu sempre gostei de brincar uma bola, esse tempo estava novo ainda. O Orlando ia buscar a gente no fim da tarde para treinar para jogar. No primeiro dia do treino que nós chegamos aqui, na primeira bola que eu, eu peguei ela. O cara me botou esse apelido, Curupira.  Ficou, não teve jeito, eu ainda fiquei brabo ainda, mas: “Orra, cara, tu me bota um apelido desse, que tu nem conhece, a raça encarna”. Eu digo: “Quer saber, eu vou largar de mão”. E hoje é só como me chamam, em todo canto, até no Maranhão já conhecem como Curupira. 

 

Eu tenho um filho, ele adoeceu, ele teve problema na perna dele. Ela foi amputada, trombose. Tenho seis filhos. Esse mora no Laranjal, é aposentado e recebe o benefício. Tem uns que trabalha, tem uma filha que é funcionária pública tem muitos anos já. É mãe de família, o marido trabalha, ela fica em casa. Só teve um filho homem. Eu casei aqui na Cachoeira. Ela é falecida, depois do casamento foi 22 anos e ela adoeceu, morreu de ataque cardíaco. 21 anos que ela faleceu.  Arranjei uma e não deu certo, foi embora, eu não quis mais. Quando os americanos compraram dos portugueses, eu já morava aqui. Foi em 72 quando eles chegaram para cá. Na época dos portugueses, não faltava nada, o comércio aqui era sortidão, era um casarão.  Depois dos americanos teve um ano, dois, eles estavam aqui. O comércio continuou, depois eles começaram arrendar o comércio aqui para outras pessoas e as coisas foram mudando, até que hoje a gente vive por conta mesmo, acabou o comércio daqui.  Os americanos foram muito bons também.  

 

Até a chegada da EDP, tudo era por conta deles. Eles fizeram essa vila, deixaram o motor, o gerador, ainda deram óleo para gente, depois a prefeitura começou a dar manutenção. Escola sempre teve, tinha um colégio do governo aqui.  O primeiro era lá, ali acima da igreja um pouco. Hoje o colégio é aqui. A escola é do governo, só que era outra escola. Quando a empresa fez a vila, tirou de lá. Ela fez outro do mesmo jeito. Com a hidrelétrica de um lado ela mudou muito, porque quase todo mundo aqui da comunidade está empregado.  Hoje, por exemplo, aqui tem o grupo, as mulheres já estão tudo em aviso que vai começar a secadeira. Novamente elas vão trabalhar. Tem 40 e poucas mulheres já fichadas. Elas vão pegar o peixe, e quando secar elas vão pegar o peixe que fica do seco para jogar para água. Elas pega o peixe vivo, faz um processo nele, já tem outra equipe já botando eles para onde está a água. Essas mulheres dão capote em certos homens que eles trazem, elas é 10% mais trabalhadeira do que muitos. Na comunidade, aqueles que não tão empregado, têm o seu trabalho. Por exemplo, eu ainda boto minha rocinha ainda, planto banana. Sou aposentado. Vendo para Laranjal. 

 

Meu irmão mora ainda no Maranhão. Mas eu me comunico mais com a minha irmã que mora em Belém, pelo telefone. Antes disso eu mandava para o Maranhão, carta, mandava escrever. Amigo meu mesmo, pedia para escrever, parente, escrevia uma carta. Eu mandava dizer muita coisa, saber como é que estavam por lá, e aqui também a gente estava bem. Era às vezes seis em seis meses, passava até anos. Depois a comunicação ficou mais fácil, quase todo mês a gente estava entrando em contato. A notícia mais ruim que chegou para mim foi quando o meu pai faleceu, por carta. Foi já depois de uns três meses que ele tinha falecido. A mamãe escreveu de lá que ele tinha falecido. Era difícil de eu comunicar com ele, mas sempre quando a mamãe escrevia, mandava notícia dele.  Daqui não tinha os Correios, na época que eu cheguei não tinha nada. Depois que os americanos compraram, foi que começou a criar o Beradão, primeiro era Beradão, começou surgir os primeiros moradores, começou trabalho mesmo no Jari, o pessoal foi chegando.

 

Meu sonho é aquele que a gente nunca perde: a esperança. A esperança é a última que morre. A esperança é aquela, de melhora. A gente ter uma melhora da energia. Quando me aposentei o meu sonho era comprar uma geladeira, um freezer para casa e quando eu me aposentei foi a primeira coisa que eu fiz, comprei, recebi. Hoje eu tenho, por exemplo, já tenho cinco netos, já bisneto dois, três. Isso é um sonho que eu tenho de ver meus netos, meus bisnetos, meus filhos.  Eu peço isso para Deus, que ilumine o passo de cada jovem, não só da minha comunidade, mas do mundo inteiro, isso é um sonho que a gente tem. 

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