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História

Uma longa batalha

Sinopse

Infância em São Paulo. Falecimento da mãe aos 11 anos de idade. Gravidez na adolescência. Questões familiares. Formação em Gestão Financeira. Batalha contra a dependência química de seu filho. Grupos de apoio e voluntariado.

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História completa

Meu filho sempre foi o amor da minha vida. Acho que amor nenhum se compara ao de um filho. Você tem o amor de mãe, o amor de pai, o amor de marido, mas o de filho, é sua carne, é seu sangue, e você dá a vida por ele. Ele voltou e já era um homem, já estava entrando na idade adulta. Tinha o meu marido ao meu lado, e aí começou uma outra fase, porque até então a minha vida aqui estava mais calma.

Aos 20 anos, ela começou a ficar um mar de calma, e aos 30 e pouco começou a ficar um mar de turbilhão de novo, por quê? Porque meu filho começou a não querer dividir essa mãe, que sou eu, com meu marido. Eles começaram uma coisa dos dois dependerem de mim, dos dois quererem atenção, e aí meu filho começou uma outra fase na vida dele, que ainda não se resolveu, que é uma fase que atinge todo mundo da família. Ele começou a sair muito, começou a ter um monte de amizades, e começou a fazer uso de drogas. Aí começou uma nova fase nebulosa na minha vida, mas com muito aprendizado.

Lembro, lembro, porque assim, boba eu nunca fui. Soube que ele ia usar, experimentar, mas achei que fosse uma fase e que iria passar, só que quando ele voltou a morar comigo em São Paulo, essa fase não passava. Um dia, eu descobri na internet que tinha um teste que você fazia, em que você pegava o cabelo ou a unha da pessoa, mandava analisar e dava o que ela estava consumindo. Até ali, conversando com a minha irmã, nós tínhamos suposições. Eu peguei o cabelo dele e mandei fazer esse teste. Na época, eu paguei muito caro, e aí deu o que ele consumia e a quantidade que ele consumia. Ele já estava com 21 anos, e a casa caiu para ele. Não tinha como negar, o teste estava ali, e nós começamos o processo de correr atrás de tratamento.

Passa por vários psicólogos, passa por vários psiquiatras, gasta rios de dinheiro, paga terapeuta, ele falta em consulta… Bom, isso foi se arrastando. E aí, meu marido começou a ficar invocado com isso, mas assim, eu escondi dele por dois anos essa fase em que ele estava usando drogas. Só que ele estava trocando o dia pela noite. Meu marido não aguentou, pôs ele para fora de casa, "Vamos ver se ele vira homem". Eu ainda ganhava bem, e como mãe, "Tenho que ajudar", Comecei a pagar aluguel para ele, mobiliar a casa e tal. Depois de um tempo, a namorada dele foi namorar com ele, e ainda assim, ele arrumava um emprego, ficava três ou quatro meses, não dava certo e saía. Enfim, essa fase foi… A cada ano que passava, ele não tinha mais como negar, e a gente pagando tratamento, e ele faltando. Essa fase foi se estendendo dos 22 aos 27 anos. Com 25 anos, ele estava trabalhando em um restaurante, e quando estava com 27 anos, foi demitido, e entrou em um processo de consumo bem grande. Foi outra fase da minha vida em que eu tive que entrar em um mundo que também não conhecia, que é o mundo da dependência química.

Até então eu só ia ao terapeuta, psicólogo, e tal. Aí foi quando eu me vi em um grupo de apoio. Primeiro eu frequentei o Nar-Anon, que é para familiares de dependentes químicos, mas eu não gostei, e depois eu comecei a frequentar o Amor Exigente e fiquei por cinco anos neste grupo, que também dá apoio para familiares de dependentes químicos e para dependentes químicos. Foi quando eu entrei de cabeça no mundo das drogas, de internação, de clínica terapêutica, de recaída… Eu falo que só não fui na Cracolândia, porque no dia em que estava marcado de eu conhecer e um amigo iria me levar, teve um motim da polícia e eu não fui, mas eu conheci muitas mães que tiveram seus filhos lá, e tiveram que resgatar. Eu, graças a Deus, ainda não passei por isso, mas é um processo muito complicado.

A minha maior dificuldade é vencer o preconceito, porque assim, até  então, apesar de ter mudado de classe social quando era criança, de ter frequentado cortiços e outros lugares, eu não tinha contato com a dependência de drogas, eu não tive nenhum amigo dependente de drogas, e nem na família. Na minha época, às vezes foi um porre que tomei. Na minha adolescência, com maconha você vê um ou outro.

Na época, eu trabalhava no banco, e dei uma festa. Quando entro no quartinho de empregada, o pessoal está lá com um prato cheirando cocaína. "Ah, a gente guardou uma carreirinha aqui para você", "Não, obrigada", porque eu sempre tive medo que se eu fosse experimentar… Eu já tinha perdido muita coisa, então achava que não iria conseguir sair dessa, então meu contato com drogas foi quase nulo. Mas eu lembro de uma fase que me marcou muito, voltando um pouco, nessa fase em que eu trabalhei no banco, eu fui na festa de uma amiga minha e ela fez um bolo para o filhinho dela de três anos de idade. Eu sabia que o marido dela tinha problemas com drogas já há um tempo, só que não sabia como era isso. De repente, começou a sumir todo mundo da festa e deixaram as crianças sozinhas no salão de festas. Eu fui com uma outra amiga buscar a bolsa, "Cadê todo mundo da festa? Só estavam as crianças". E aí, quando cheguei nessa sala, estava todo mundo usando drogas. Quer dizer, largaram as crianças no salão de festas, e estava todo mundo lá, usando cocaína no apartamento. Você leva um choque, "Poxa, mas a festa está acontecendo lá. Eles largaram as crianças". Quando eu tive que fazer parte de um grupo e fui conhecer… Porque assim, a psicóloga falava, a terapeuta falava, porque no meu mundo, eu não tinha ninguém… Das minhas amigas, os filhos estavam indo para a faculdade. Você não tem com quem desabafar sobre isso e falar, "Não, meu filho está usando drogas". Eu fui aconselhada pela psicóloga, "Além de você, existem outras pessoas que também têm esse mesmo tipo de problema", e aí eu fui conhecer esses grupos de apoio.

Hoje eu ainda convivo com isso, ainda convivo com esse problema, ele ainda não está totalmente recuperado, ele já teve quatro internações, ainda não trabalha. O que ele faz? Hoje ele produz marmitas. Depois que fiquei desempregada, comecei a desenvolver marmitas caseiras, porque ele fez Gastronomia, então às vezes a gente se ajuda. Só que você vê que ele era uma pessoa sensível e carinhosa… Até hoje é, mas tem muitos altos e baixos. Mais baixos do que altos. Essa fase de aceitação para mim, acho que foi a mais complicada, a mais complicada mesmo.

Quando apareceu essa situação na minha vida, comecei a participar de grupos de apoio que são trabalhos voluntários, e a fazer voluntariado dentro desse grupo. Isso foi muito bacana, muito enriquecedor, porque a vida não é só dinheiro, não é só status. Quando você faz o bem para alguém, você tem um retorno muito melhor do que um retorno financeiro, é imensurável. Essa questão do voluntariado entrou na minha vida, eu falo que não foi por um acaso, mas foi na porta de uma situação ruim, que acabou trazendo alguma coisa boa.

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