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História

Uma lição para a vida

História de: Helena Nallin
Autor: Centro de Memória de Cosmópolis
Publicado em: 26/01/2016

Sinopse

Por Eliezer Barbosa.

Em dias em que vivemos uma arquitetura familiar em constante transformação, Helena Nallin mostra como uma vida simples pode formar homens e mulheres para fazer a diferença à sua volta. A situação faz a pessoa e isso fica bem claro quando nos anos de 1950, com opções profissionais bastante limitadas para as mulheres, Dona Helena iniciou sua jornada como professora. Helena foi minha professora e com ela aprendi muito. Sigo a mesma profissão e missão, e os ensinamentos de Helena continuam presentes em minha vida. Realizar essa entrevista foi uma visita ao passado. Passeamos por salas de aulas, escolas, alunos. Como professor, aprendi sobre como era a vida e o sistema de educação naquela época e como os professores levavam adiante esta importante tarefa. Como aluno, entendi o que movia a dedicação daquela mulher que nos ensinava todos os dias. Como cidadão e pai de família, saí com a certeza de que precisamos investir na formação das nossas crianças e fazer com esmero tudo que nos foi dado.

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História completa

Meus pais eram libaneses. Eles eram muito cultos. A maior herança que meu pai deixou para nós filhos foi o amor pelo conhecimento. Ele dizia que só o conhecimento iria nos manter integrados na vida. Para ele, era de grande importância que nós estudássemos e tivéssemos um diploma para sobreviver, fazendo parte da sociedade e transmitindo alguma coisa. Ele considerava o conhecimento algo muito importante. Ele sempre nos falava que essa capacidade para estudar vinha de Deus, então, não poderíamos trancá-la numa gaveta. Ela deveria ser usada para o bem da sociedade. Tudo isso que ele nos ensinava sempre foi muito importante, sempre me fez refletir que, se Deus nos deu uma cabeça, então não deveríamos ficar sem fazer nada, e que, fazendo parte desse mundo, eu deveria participar dele da melhor maneira e não da pior, sendo minha contribuição uma obrigação.

 

Agradeço muito a Deus todos os dias pela minha vida e pelos pais maravilhosos que eu tive, os quais já faleceram. Minha mãe veio do Líbano quando era criança, e meu pai já moço. Quando meu pai se casou com minha mãe ela tinha vinte e três anos e ele quarenta. Viveram cinquenta anos juntos. Eu admiro muito a educação que meu pai tinha com a minha mãe e com os filhos, algo que não existe muito hoje em dia. Meu pai nunca bateu num filho, nunca gritou com um filho. Quando precisava puxar nossa orelha, ele chamava a gente e falava que o que estávamos fazendo era indecente para uma família, para uma pessoa, para uma criança de família, e dizia “não faça mais isso”, e eu e meus irmãos não fazíamos mais. Ele me dizia: “filha, você só vai ser feliz com o que tem dentro de você, o que tiver fora te dá conforto e não te dá felicidade. Você tem que ter aí dentro amor, paz, alegria, conhecimento. Tudo que você tiver dentro de você é importante, se tiver fora não faz diferença nenhuma”. E naquele tempo só os ricos tinham valor, e muitas vezes eu pensava que ele falava isso só porque não éramos ricos. Mas não era. Hoje, na verdade há muito tempo, eu sei o quanto meu pai era sábio.

 

Meu pai conheceu minha mãe quando foi se despedir do meu avô. Ele (avô) ia para o Líbano, pois sempre levava notícias para lá, e nesse dia, quem serviu o almoço foi minha mãe que era a filha mais velha. E ele simplesmente se encantou com ela. Logo depois escreveu uma carta para meu avô pedindo a mão dela em casamento. Meu avô conversou com minha mãe e contou sobre a carta e ela lhe perguntou: “Quem pai, aquele velho”? Ela tinha vinte e três anos e ele quarenta. Meu avô disse para ela que não o considerava velho, que ele era um moço de boa família, culto, e que ela lhe daria muita alegria em se casar com ele. E minha mãe concordou. Ela viu meu pai três vezes, aquele dia que ele veio almoçar, mais duas vezes e eles casaram. Nunca vi meus pais brigarem, discutirem, nunca o vi maltratar minha mãe, nem minha mãe responder para ele. O que meu pai falava estava falado, e isso valia para minha mãe também. Ele a ajudava em tudo que podia, levava cafezinho para ela na cama. Quando minha mãe tinha filhos ele fazia canja, nunca vi homem fazer isso. Quando nós filhos ficávamos doentes, imagine... sete filhos, eles tiveram nove, mas criaram sete, pois dois morreram, era meu pai quem cuidava da gente. Farmacêutico nunca veio em casa, meu pai pincelava nossa garganta, dava injeção, remédio, fazia tudo que fosse preciso. Ele não era médico, mas tudo que fosse necessário ele fazia. Mesmo eles tendo se visto apenas três vezes antes de casarem, ela aprendeu a respeitá-lo, a gostar dele e os dois viveram cinquenta anos juntos. Lembro-me que meu pai sempre me falava: “Filha, o que você quer para você, faça para os outros, porque vai voltar para você”. Quando eu me recordo de como ele era cuidadoso com os filhos, com a mulher, com a família, sinto muito orgulho e reflito como meu pai era sábio!

 

Minha mãe era muito religiosa, muito mesmo. Ela tratava bem de todo mundo. Meu pai não deixava minha mãe limpar chão, lavar roupa – naquela época ainda não existia máquina de lavar. Ele dizia que esses serviços eram “brutos” e que não eram para ela. Ele sempre arrumava alguém para fazer, porque ele tinha muito respeito por ela, um respeito que existia entre eles, de marido e mulher e eu ficava impressionada. Eu não vejo isso hoje em dia. Hoje um quer ter mais direito que o outro. Meu pai e minha mãe passaram pra gente um estilo de vida. Minha mãe fazia flores de pano para festa de formatura, pois, naquele tempo não existiam muitos enfeites. Ela tingia e fazia arranjos que hoje nós encontramos com facilidade. Essa era a distração dela, além de cuidar dos filhos, o que não é tarefa fácil.

 

Eu agradeço muito a Deus pelos pais que tive, irmãos, todos eles, que também eram maravilhosos. É muito importante acordar agradecendo o que a gente tem. Hoje em dia as pessoas já acordam resmungando pelo que não tem. Pedem mais do que agradecem. Sempre digo: “Deus, muito obrigado porque eu estou em pé, estou andando, estou falando”. Hoje em dia as coisas acontecem porque as pessoas dão mais importância para as coisas materiais e se esquecem de valorizar o que é importante, o que tem dentro da gente.

 

Na minha infância, criança não tinha direito de nada, só de obedecer. Criança não brincava na rua e na porta de casa com bola. O que a gente mais fazia mesmo era brincar de teatrinho. Na nossa turminha brincava eu, meus irmãos, dois deles, os colegas deles e uma amiga minha mais velha. Então a gente fazia teatrinho e tinha que declamar poesias, e é por isso que eu gosto muito de poesia. Eu pegava o livro e decorava a poesia que eu não sabia nem o que queria dizer, mas eu declamava e a gente fazia teatrinho – era nossa distração. Era tudo improvisado, podia ser teatro inventado ou declamação. Lembro-me que eu gostava de colocar uma saia rodada para brincar. A gente cantava, contava histórias, e era essa a nossa distração. Não existia televisão, computador, só rádio. Não tinha quase nada, então a gente brincava de fazer teatro em casa. Minha mãe não deixava ficar na rua, os meus irmãos ainda ficavam na porta.

 

A gente lia muito, muitas vezes aqueles livros que eu nem sabia o que queria dizer, porém, sempre pedia a autorização da minha mãe para ler. Eu me lembro do livro chamado “O Crime do Padre Amaro” e minha mãe não deixava ler. Até hoje eu não li esse livro, preciso qualquer dia ler, só por curiosidade. Eu era criança e só me lembro da minha mãe me dizer: “Filha, esse livro não é pra você, mais tarde você lê”. E eu o deixava na estante. Minha mãe e meu pai tinham muitos livros. Além do português, meu pai lia e falava árabe e falava também francês. E com isso, o pessoal de Piracicaba que vinha do Líbano, pedia para ele escrever cartas para seus amigos e parentes, eles ditavam em português e meu pai escrevia em árabe para enviar. Fico feliz por ter convivido em um ambiente onde o que importava era a postura, a maneira de viver, a educação e a cultura. Naquele tempo só milionário estudava e eu sinto muito orgulho do meu pai e minha mãe por terem conseguido estudar os sete filhos.

 

Fui estudar em colégio de freira, minha mãe queria educação religiosa para nós e foi conversar com as freiras. Éramos quatro irmãs mulheres e ficava pesado para ela pagar a escola para todas, mas ela conseguiu. Posso dizer que isso foi algo muito bom, porque nós tínhamos um professor de música que era fabuloso e ele me colocou no coral. Eu não pensava que tinha condições de cantar no coral, mas fui e fiquei muito feliz. Naquela época os exames eram muito rígidos, tinha exame oral de música, de desenho, de todas as disciplinas e a gente tinha que fazer na lousa, imagine nossa tensão! Quando ele falava: “Zero”, a gente ficava gelada! A dificuldade era muito grande, principalmente para quem não entende muito de música. Mas valeu a pena, eu aprendi a gostar de música.

 

A educação em Cosmópolis Antigamente as mulheres eram professoras ou donas de casa. Não tinha muita alternativa. Então foi a opção que eu tive, estudei e já comecei a trabalhar. Na época que me formei todas as escolas pertenciam ao Estado. Então, para podermos ingressar numa escola e lecionar precisávamos ter pontos. Para obter esses pontos, a gente começava lecionando em escolas muito longe de casa. A primeira classe que eu peguei foi na cidade de Biguá, muita gente nunca nem ouviu falar, mas era uma estação que ficava a três horas de Peruíbe e seis de Santos. Não tinha água, nem luz, era uma estação de japoneses, por sinal um povo muito educado, e lá eu fiquei por um ano. Depois de Biguá eu fui para perto de Jaú, numa outra cidade pequena chamada Boracéia. Trabalhei em Oswaldo Cruz também, a doze horas da minha casa. E era assim que funcionava naquele tempo, para ingressar numa escola a gente tinha que fazer os pontos. Foi esse o motivo da minha chegada aqui em Cosmópolis. Eu fui chegando e foi o mais perto que consegui de Piracicaba. Não tinha nada mais perto.

 

Cheguei em Cosmópolis no ano de 1961. Nessa época tinha a escola do Rodrigo que não era como é hoje, pois naquele tempo as escolas funcionavam de uma maneira diferente. Tinha o primário que era da 1ª a 4ª série e depois os alunos faziam um curso para ingressar no ginásio. Esse curso não existia, mas depois foi incluído. Era chamado de curso para admissão ao ginásio. Esse curso só tinha no Gepan (Ginásio Paulo de Almeida Nogueira). O curso de admissão ao ginásio era de um ano e o aluno tinha que saber tudo que aprendeu no primário e mais as coisas que se aprendia no ginásio para entrar. Se não soubesse não entrava. Isso valia para as disciplinas de português, matemática e estudos sociais. O aluno tinha que saber todos os verbos, os tipos de verbos, conjugar tudo, saber toda a tabuada, saber tudo de matemática, tudo de estudos sociais. Recordo-me muito de uma aluna que eu tive, inteligentíssima. Ela fez o curso comigo e no exame obteve nota 8,0 de português. E para conseguir 8,0 de português nessa prova de admissão, o aluno precisava ser excelente, pois além das questões precisava fazer também uma redação. Ela obteve nota 7,0 de matemática e 4,5 em estudos sociais. E eles não a aprovaram para estudar no ginásio. Eu fui falar com a diretora: “Vocês estão ficando loucos,a menina obteve nota 8,0 de português, 7,0 de matemática e vocês reprovaram a menina porque ela teve 4,5 de estudos sociais”? E eu fiquei muito triste, pois a garota ficou tão desgostosa que nunca mais estudou. Pouco tempo atrás eu mandei um recado para ela, porque foi uma grande tristeza ela não ter sido aprovada e não ter dado continuidade aos seus estudos. E ela respondeu pedindo que eu não ficasse triste, que isso não fez falta para ela. Senti muito porque a menina ficou abalada e nunca mais quis estudar. A educação era muito rígida. Depois do ginásio, os alunos que quisessem exercer a função de professor cursavam o antigo magistério – mais três anos, ou a pessoa poderia optar por outro curso que fosse de sua escolha. Entretanto, aqui em Cosmópolis o curso de magistério não existia, ele foi implantado na década de 1980.

 

Estudar era ainda muito limitado. As oportunidades de educação aumentaram quando começou a funcionar a Escola de comércio. Eu lecionei lá um bom tempo, dando aulas de português, em virtude da carência de professores no início. O grande diferencial da Escola de Comércio foi a oportunidade que as pessoas tiveram de estudar à noite. Muita gente só pôde dar continuidade aos estudos por meio dessa escola. Em geral, os alunos que estudavam lá não tinham feito o ginásio e precisavam estudar à noite. Muitos eram casados e trabalhavam. Atualmente ela é conhecida como escola Dr. Moacir do Amaral. Permanência em Cosmópolis Meus planos eram de ir embora de Cosmópolis. Minha intuição dizia que se eu permanecesse aqui por um ano acabaria ficando. Estava decidida então a sair da cidade na próxima remoção.

 

No entanto, eu conheci meu marido que trabalhava no Gepan como secretário e nós acabamos nos casando. Quando eu o vi, pensei comigo, vou namorar esse rapaz e me casar com ele. Não sabia nada sobre ele, se era solteiro, casado. Eu sempre tive uma intuição muito grande, já tive para várias pessoas, minhas irmãs, alguns amigos. Naquele dia fui até o Gepan para perguntar se eles tinham o curso de admissão para o ginásio. Minha intenção era dar aulas para os alunos que iriam fazer a prova de admissão – quem aplicava os exames eram os professores do ginásio. Eu e outra colega apenas ministrávamos o curso e assim eu aproveitaria o tempo que tinha livre, pois não havia muita coisa para se fazer em Cosmópolis na época.

 

Logo que consegui pegar as aulas do curso, observei que o Oswaldo Heitor Nallin ia sempre à sala dos professores para conversar. Lembro-me até de uma professora que sempre me falava: “o secretário está vindo sempre aqui conversar, por que será né”? Ele ia lá só para me ver. Começamos a namorar, namoramos por quatro anos e em 1965 nos casamos. Sala de Aula Na época que eu dava aulas aqui na cidade os alunos eram muito bons perto do que são hoje em dia, eles obedeciam. Eu sempre falava para eles que eu não era melhor que eles, mas que era a professora deles. E explicava que como professora alguma coisa de cultura eu tinha a mais. Explicava que não existe ninguém melhor ou pior nesse mundo, que todos somos iguais, só que graças a Deus eu havia conseguido estudar e tinha um diploma e era isso que me diferenciava deles. Isso bastava, eles me obedeciam, me respeitavam e me queriam bem.

 

Eu era muito mole de coração, não podia ver uma criança doente. Recordo-me muito do caso de dois alunos, eram dois irmãos que brigavam muito na classe. O menino batia muito na irmã, brigavam o dia inteiro, e observando os dois eu pensava que aquilo não era normal, então chamei a mãe do menino. Expliquei para ela que constantemente a menina estava chorando porque ele batia nela. Contei para ela como era o comportamento dele com a irmã, e disse que ele batia muito na menina. Eu sempre prestava bastante atenção na atitude das crianças, e falei para ela que acreditava que alguma coisa não estava certa com ele. A mãe decidiu levá-lo ao médico para fazer uma avaliação e ele tinha mesmo um problema. Eu não sei exatamente o que era, mas ele iniciou um tratamento e melhorou muito.

 

Mais um caso que nunca me esqueço, foi o de outra criança que todo dia tinha dor de cabeça. Eu também tinha muita dor de cabeça, mas eu era velha, ele era criança. Uma criança com tanta dor de cabeça faz a gente desconfiar que algo está errado. Do mesmo modo, chamei a mãe desse outro aluno e pedi que ela levasse seu filho ao médico. Expliquei para ela que ele reclamava de dor de cabeça todos os dias e que eu desconfiava que tivesse alguma coisa errada com o menino. Ele tinha um tumor na cabeça, que tristeza. Ele então tratou, melhorou, ficou bom, só que depois já na fase adulta ele morreu. Isso são coisas que o professor precisa avaliar, as atitudes das crianças precisam ser observadas. Você já pensou, uma criança todo dia de cabeça baixa e eu perguntava para ele: “Todo dia você tem dor de cabeça filho”? “Sempre foi assim”? “Você falava isso para a outra professora”? E ele me respondeu que falava, mas que ela dizia que era “fita” dele. São coisas que o professor precisa avaliar com seriedade, pois, como poderia ser “fita” uma criança todo dia com dor de cabeça? Isso foi mais uma coisa que aprendi com meus pais – observar o que não era natural na atitude das crianças e sempre tentar ajudar.

 

Os pais respeitavam muito os professores antigamente porque não tinha outro meio de educação. Eles nos davam total apoio, então naquele tempo dar aula era um prazer. Pena que a profissão do professor hoje não é mais a mesma. Os alunos quase não os respeitam mais, infelizmente. Eu acredito que isso vem acontecendo porque o mundo abriu as portas, os pais não são respeitados e os professores também não. Tornou-se mais difícil ser educador hoje. Eu tinha muita amizade com meus colegas professores, porém com a diretoria não muito. Os diretores tinham o costume de fazer as coisas que eram de lei. E eu não concordava com alguns critérios de mudanças que eles aprovavam. Houve um ano que eles tiraram meus alunos bons, no meio do ano, em agosto, e passaram para outro professor. E pegaram os do outro professor e transferiram para mim. Eu cheguei a fazer um drama por causa dessa mudança. O diretor alegou que fez isso porque era de lei, mas me responda: “Tudo que é de lei é certo”? Tem tanta lei que não é correta. Eu havia trabalhado com essa classe até o meio do ano e a hora que ficou fácil de conduzi-los, vem o diretor e tira os alunos de mim. Então me desentendi com ele, não de brigar, mas não falei amém. Quando eu considerava que eles estavam errados eu questionava.

 

Como professora primária eu gostava de dar aula para o terceiro e quarto anos, não gostava de dar aula para o primeiro e segundo porque não era minha prática alfabetizar. Eu sempre gostei mais de educá-los civicamente, então, nesse ano, quando eles tiraram meus alunos, os quais eu havia trabalhado até junho, fiquei brava. Lembro que o diretor ficou bravo comigo e deixamos até de conversar. Talvez, se fosse hoje eu iria dialogar com ele, pedir por favor, não faça isso, vamos ver o que a gente pode fazer, mas naquele tempo eu falei: “Escuta, você está fazendo uma coisa errada”, e o professor falar que o diretor estava fazendo algo errado naquela época, você pode imaginar! Naquela época continuar estudando não era fácil. Aqui em Cosmópolis só era possível estudar até o ginásio e depois não tinha mais como continuar. A pessoa tinha que ter muito amor no estudo e ir estudar fora. Em geral, quem podia prosseguir com os estudos tinha que pagar escola, pagar viagem, pois a opção mais próxima era Campinas. Era muito difícil. Hoje as pessoas têm tudo mais fácil. Primeira dama Meu marido foi prefeito de 1977 até 1982, seis anos, pois na época o mandato foi prorrogado por mais dois. Quando eu descobri que ele iria se candidatar eu disse a ele que detestava política. E sua resposta foi determinada: “Se você não gosta então não se meta, pois eu gosto e vou melhorar minha cidade”. Daí quando ele ganhou a eleição, eu cheguei para Deus e disse: “Senhor, você me deu um cargo que não pedi, mas meu marido pediu e como mulher dele tenho a obrigação de fazer alguma coisa pela minha cidade, só que não sei o que fazer, o senhor sabe que eu não sei nada, mas se o senhor me iluminar eu faço”. No período que fui primeira dama, as mudanças mais importantes foram as creches e a Casa da Criança.

 

Lembro-me que quando falei em abrir creche, fui muito questionada, acharam uma besteira. Eu sabia que muitas mães não teriam como trabalhar sem a creche, pois, onde deixariam seus filhos? As três primeiras creches e a Casa da Criança fui eu quem abriu, com muito sacrifício. A Casa da Criança foi um projeto criado para tirar as crianças da rua. Os pais trabalhavam e a criançada ficava na rua. Eu me preocupava vendo que as drogas começavam a se espalhar pela cidade e sabia que essas crianças seriam um alvo fácil. Foi então que decidi abrir essa casa para as crianças terem um espaço proveitoso de lazer, onde pudessem praticar alguma atividade como jogar futebol, aprender a trabalhar na horta, estudar religião e desse modo fugir das drogas. Só que naquele tempo a prefeitura não tinha dinheiro porque não existiam indústrias na cidade, até mesmo a Petrobrás estava começando a se instalar aqui na região. Então tive a ideia de inscrever Cosmópolis no programa do Silvio Santos, o “Cidade contra Cidade” e ganhamos um carro.

 

Levei um rapaz que se chama Shasça (Glayton Leite), para uma das provas, um rapaz inteligentíssimo, muito culto. Rifamos o carro para começar a construção da Casa da Criança em terreno cedido pela Prefeitura. Muitas pessoas me criticaram. Entretanto, eu pensei no futuro das crianças. Achava muito importante tirá-las da rua. O asfalto foi outra transformação maravilhosa para a cidade. Cosmópolis não tinha asfalto. Quando a gente ia para o cemitério, se estivesse chovendo o coitado do falecido levava até xingo. Era barro puro. O Oswaldo investiu no asfalto da cidade. Ele era muito inteligente, tinha visão de futuro. Outro dia quando fui ao cemitério me lembrei dele – ele me falava assim: “Preciso comprar mais uma quantia de terra lá pro cemitério, porque daqui a pouco não vai ter nenhum lugar pra enterrar defunto”. E eu respondia “pra que isso, não há necessidade”. Mas ele comprou. O Oswaldo não era um homem que fazia pra hoje, ele pensava no futuro. Esse terreno da minha casa ele comprou quando era solteiro, eu nem sabia, aqui era tudo mato praticamente. Quando nos casamos morávamos numa casa alugada, e só depois ele me contou sobre seus planos de construir nossa casa. Naquela época, ele fez também o serviço de água para cem mil habitantes. A obra começou na administração do Kiosia e depois ele terminou e até hoje não falta água em Cosmópolis. Ele começou a trazer indústrias para a cidade. A grande dificuldade era a falta de dinheiro, mas ele tentou fazer o melhor. É muito gratificante ver todas essas conquistas. Um serviço de água que ninguém pode reclamar.

 

A doação do terreno da rodoviária e a construção também foi ele que conseguiu, só não deu tempo de inaugurar porque estava no final do mandato. Lembro de uma vez que eu o acompanhei para São Paulo. Quem autorizava a instalação das creches era a LBA, Legião Brasileira de Assistência. Ele não tinha pressa de voltar, quando ele precisava resolver um o problema, ele insistia até resolver. E eu fui lá para conversar, buscar ajuda e orientações, pois tinha pouca experiência sobre o funcionamento da creche. Ele foi buscar a assinatura do governador para o terreno que havia recebido em doação. Então quando chegamos ao departamento responsável, ele foi logo dizendo que era de Cosmópolis e que estava lá para buscar o documento com a assinatura do governador. O rapaz respondeu que não estava lá. Perguntamos onde estava e ele nos respondeu que se encontrava num outro departamento, o qual ficava do outro lado de São Paulo. Já era tarde e eu falei para ele: “Oswaldo, vamos embora, as crianças estão sozinhas em casa”. E ele me respondeu que só sairia de lá com o papel assinado pelo governador.

 

Seguimos para esse outro departamento e obtivemos a mesma resposta, que o documento também não se encontrava lá. O atendente disse que deveria estar naquele primeiro departamento onde estávamos anteriormente. E o Oswaldo com muita calma disse que lá não estava e que já havíamos estado lá, mas que ele não tinha pressa e que ele podia procurar com calma. E ele se sentou. Faltavam dez minutos para as cinco, horário que eles fechavam. Ele com muita educação pediu ao rapaz que fizesse o favor de verificar onde estava o papel assinado, pois não iria embora sem ele. Não demorou nem dez minutos e eles trouxeram o papel. Ele já sabia que funcionário público não vê a hora de terminar o expediente. Com sua educação, paciência e persistência ele conseguiu pegar o documento. Ele me dizia: “Você acha que eu vim de lá até aqui para buscar uma assinatura do governador e depois de todo esse sacrifício eu vou embora sem?”. Ele conseguiu trazer o Fórum para nossa cidade. Foi informado que só se conseguisse um prédio adequado, a instalação do mesmo seria permitida. E ele muito inteligente, pediu dinheiro ao Governo do Estado para a construção de uma biblioteca para o setor de educação. A biblioteca, entretanto já existia; embora muito simples, pois eu mesma a iniciara utilizando uma sala da Escola de Comércio. Se ele tivesse pedido o dinheiro para fazer o Fórum eles não teriam dado, mas como ele pediu para a biblioteca eles deram e ele construiu o prédio, instalou a biblioteca que depois se tornou o fórum. E assim ele conseguiu trazer o fórum para Cosmópolis. Tudo que ele conseguiu foi usando sua inteligência. Ele trouxe o Banco do Brasil, o Banespa, a Caixa Econômica Federal. Ele conseguia tudo com muita insistência, trabalho e graças a sua visão de futuro. Nunca devemos nos esquecer que o lugar que a gente vive faz parte da nossa vida, então precisamos contribuir com ele da melhor maneira possível.

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