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História

Uma jovem em Carajás

História de: Andréa Mendes Barros Rodrigues
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Andréa Mendes nasceu em Itabira e passou a infância observando o trabalho de seu pai como engenheiro na Vale. Após sua ida para o Rio de Janeiro, decide estudar Serviço Social, área pela qual se apaixona ainda na adolescência. Após se formar é convidada para compor o Projeto Carajás, decisão que Andréa, atraída pelos desafios, toma sem dificuldade. Em Carajás vive uma série de causos e constitui o início de uma longa carreira dentro da Vale.

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História completa

P/1 – Andréa, então vamos começar com o seu nome completo, por favor, local e data de nascimento.

 

R – Andréa Mendes Barros Rodrigues, nasci dia onze de outubro 1962 em Itabira, Minas Gerais.

 

P/1 – Em Itabira? Seus pais moravam lá? O que eles faziam lá, como é que foi?

 

R – É, meu pai era engenheiro da empresa e trabalhava em Itabira, e a gente morava na Vila da Conceição, que é uma vila de engenheiros, pessoal de nível superior da empresa, e a minha mãe não trabalhava, não.

 

P/1 – E o nome do seu pai, da sua mãe?

 

R – Meu pai é o José Raimundo Mendes Barros e a minha mãe Vanda Maria Martins da Costa.

 

P/1 – (riso) Quantos irmãos você tem?

 

R – Eu tenho um total de três irmãos. E eu sou a única mulher. A mais velha e a única mulher.

 

P/1 – Você sabe o nome dos seus avós, a origem da sua família?

 

R – A origem dos dois lados, tanto paterno quanto materna, é portuguesa. Meu avô paterno é Camilo de Azevedo Barros, a minha avó é Adelina Conceição Mendes. E do lado materno, José Vidigal Martins da Costa e Anelisa Martins da Costa.

 

P/1 – Eles vieram de Portugal ou são descendentes?

 

R – Não, são descendentes, né? Não são estrangeiros, não. A origem da família é que é portuguesa.

 

P/1 – Então, mas os seus avós, onde é que moravam, e seus pais quando jovens?

 

R – A família tanto do meu pai quanto da minha mãe eram de Nova Era, em Minas. E dos meu avós também moravam lá. Meus pais se conheceram em Nova Era, depois casaram e foram para Itabira.

 

P/1 -  E aí você nasceu lá. (riso) E passou sua infância lá em Itabira?

 

R – É, eu nasci em Itabira, fiquei lá até os oito anos, quando meu pai trabalhava na Vale e foi transferido para o Rio para trabalhar no Projeto Carajás. Ele estava na parte de pesquisa geológica, então passei minha infância em Itabira e estudei em Itabira até a primeira série, sete anos. Depois fui para o Rio, onde fiquei até me formar e ir para Carajás.

 

P/1 – E como é que era a infância em Itabira?

 

R – Era uma infância meio típica porque a gente morava na Vale, ou melhor, numa vila da Vale. Então era assim, conviviam os colegas, eram filhos de empregados, a gente estudava todo mundo junto e vivia numa cidade do interior. Ainda mais numa vila, no caso da empresa, era super tranquilo. Você brincava na rua, o trânsito, os carros passavam devagar e não tinha perigo. Todo mundo te conhecia, se deixava a bicicleta na porta da casa, esquecia brinquedo, ia brincar daqui a pouquinho. Você voltava, tinha tomado banho na casa dos outros, aquela coisa muito próxima, muito tranquila. E a casa que eu morava era privilegiada em termos geográficos na Vila, porque ela era de frente com um parquinho, o parquinho da Vila, e de fundos para o clube, então era a maior mordomia. Atravessava a rua, brincava no parquinho. Se queria nadar, fazer outra coisa, passava pelo quintal, tinha um portão que dava na porta do clube. E era super tranquilo, era muito gostoso. E você acabava tendo uma interação muito grande, porque seus colegas de escola eram seus colegas, seus vizinhos... A gente brincava o tempo todo.

 

P/2 – E como era essa casa, você lembra dela? A casa que você morava? Físicos mesmo.

 

R – Interessante... Se tem sempre uma visão um pouco distorcida, eu acho que com o tempo, de que quando se é pequeno tudo é grande. Eu voltei depois trabalhar na Vale, e achei a casa bem menor do que era na minha imagem, na minha lembrança de criança. (riso) É... Tinha uma sala, uma copa, uma cozinha bem espaçosa, tinha três quartos, e tinha um terreiro enorme com canil. Meu pai tinha cachorro, tinha um pomar e tinha uns coelhinhos, alguns animais. Era muito gostosa a casa. Um jardim... Tinha um jardim grande também na frente e meus pais gostam muito de plantas, então tinha roseira, aquelas coisas todas.

 

P/1 – E a escola?

 

R – A escola eu acabava... Meus colegas foram os colegas da própria Vila, quer dizer, claro que tinham outras crianças. Mas é, a gente... Eu estudei lá até os… Quer dizer, fiz o maternal com os colegas da Vila, e depois, quando eu entrei para o primeiro ano, é que meus pais optaram em me colocar numa escola pública para que eu tivesse contato com outras crianças, com outra realidade, para não ficar também tão fechada naquele núcleo. Depois eu fui para o Rio. Quando eu mudei para o Rio, eu fui estudar, estudei em várias escolas lá no Rio e aí eu tive um outro período de adaptação que foi saindo de Itabira, cidadezinha pequenininha, morando num lugar onde todo mundo se conhecia, para uma cidade do porte do Rio. E a gente foi sozinho, só a minha família. Então foi uma adaptação maior, mais muito tranquila, porque se acaba conhecendo colegas, fazendo amizade na escola, no prédio onde você mora. E para compensar um pouquinho a diferença entre morar em uma casa e morar num apartamento, meus pais dedicavam o fim da semana para a gente. Então era programa de Parque Lage, Jardim Botânico, Parque Cidade, praia, famosa sessão de matinê todo domingo depois da missa. Ver aqueles filmes que hoje eu fico pensando que nós tivemos muita paciência. (riso) Tipo Trapalhões, né? Todo domingo. Então, assim, foi tranquilo. A a gente compensava o fato de morar em casa com esses programas de fim de semana.

 

P/2 – Quando você era pequena e morava em Itabira e tal, seu pai te levava para conhecer a mina? Você chegou a fazer esse tipo de passeio?

 

R – Nossa, demais. Imagina! Morando em Itabira, na Vila, numa cidade toda voltada para a empresa, que o maior negócio ali era a Vale. A gente adorava andar de caminhão. Imagina, menina andar de Haulpak... Você ir à mina, conhecer o local de trabalho do seu pai, uma coisa muito legal. E a gente aproveitava muito isso. Toda oportunidade que ele dava, a gente ia. E tinha também, se trabalhando em Itabira e naquela época, meu pai acabava muito absorvido também no fim de semana. Se tinha algum problema na mina e às vezes ele estava com a gente, levava. Era o maior programa para a gente, uma delícia.

 

P/1 – E que lembranças você tem desses lugares, do funcionamento das coisas? Você consegue lembrar de alguma coisa em especial ou algum fato nestas visitas?

 

R – Quer dizer, eu curti muito a Vale mesmo antes de trabalhar, porque eu morava em Itabira, então tinha um contato direto. Os amigos dos meus pais, meus vizinhos eram pessoas que trabalhavam na Vale, então você acabava... O assunto Vale do Rio Doce era uma constante. Nas férias ia para a casa dos meus avós de trem, trem da empresa. A mina... Eu saí muito pequena, eu saí quando não tinha ainda oito anos, praticamente com oito anos, então era coisa mais de criança mesmo, aquelas novidades, aqueles equipamentos enormes, assim desse tamanhozinho, pequenininha, com aquele pneu que era maior que seu pai. Então era tudo fantástico e fascinante.

 

P/1 – Essa escola em que você estudava em Itabira, essa primeira escola, era da Vale?

 

R – Não... Eu não lembro. Eu sei que eu tinha muito contato, que meu maior ciclo de amizade era coleguinhas da própria escola... Quer dizer, da Vale. Mas não sei se era uma escola da Empresa. Não lembro.

 

P/1 – Porque depois disse que falou que passou para uma escola pública em Itabira.

 

R – É que aí eu acho... Eu não sei, a lembrança que eu tenho é que acho que uma escola, quando é maternal, tem um grupinho menor, por coincidência. Não sei, podiam ser mais colegas da mesma faixa etária minha que moravam na vila e depois fiz uma interação com um grupo maior, uma escola maior, mais gente.

 

P/1 – E da cidade de Itabira, tem lembrança?

 

R – Muito pouca. Assim, em termos de cidade, das coisas, acho que a minha vida se resumia mais à mina, às lembranças, às coisas de criança que marcaram mais, as brincadeiras, as aventuras. Uma que eu lembro, a única lembrança que eu tenho da cidade, foi o dia em que resolvemos ir um bando de meninos, nós tínhamos o quê? Uns cinco anos, e resolvemos fazer um... Ir para casa à pé, fazer um piquenique. Aí tudo surgiu porque um coleguinha nosso, cada vez que a gente ia para a escola, era um carro de um dos engenheiros que levavam. “Essa semana, vai ser o carro do meu pai.” Então ele levava as crianças e apanhava o motorista que a empresa fornecia, um carro com motorista desses engenheiros. Então pra não ir aquele tanto de carro para a escola, eles revezavam. E demorou um carro. Uma vez demorou o carro e um coleguinha nosso disse: “Vou buscar o carro.” E saiu dois segundos, depois voltou. Encontrou com o motorista, né? E falou que foi uma aventura, que ele tinha ido em casa. E nós embarcamos na dele. “Vamos voltar para a casa a pé.” Aí combinamos um dia que era para terminar a aula mais cedo, ninguém entregou os bilhetinhos, demos um sumiço nos bilhetinhos, não lanchamos para lanchar no caminho. E que bando de meninos! Eram sete menininhos na beira da estrada. E todo mundo parava, conheciam a gente: “O que vocês estão fazendo?” “Não, nós estamos indo fazer um piquenique.” E ninguém entrava no carro. Aí acabaram passando a mãe de duas gêmeas e elas entraram. Passou a mãe de outra e nós ficamos três, resistindo heroicamente, que a gente ia voltando para casa a pé. Aí passou a mãe do Ênio, e eu e uma coleguinha dissemos: “Nós vamos ainda a pé!” Andamos mais meio metro e encontramos uma cobra! Oh! rapidinho entramos dentro do carro. Cheguei em casa, a minha mãe fez um terrorismo, que eu ia apanhar! Eu preocupada né! Chegou meu pai e começou a rir. (riso) Aí, depois disso, senti coragem. Um dia meu avô em casa brigou comigo, e eu vou falar para o pai que brigou comigo. Aí ele não deixou ligar para o meu pai para falar uma besteira desta. Aí disse: “Pois então eu vou lá!” E saí crente de que ia à mina contar para meu pai que meu avô reclamou! Que aventura! Eu voltei a pé da escola. Podia ir à mina a pé. Não passe da portaria. Então lembro, foi muito marcante... Os amiguinhos, as coisas lá... O que tem mais memória viva foi depois, no Rio, e aí foi uma fase em que você tem adolescência, a época da faculdade, os amigos.

 

P/2 – E em casa Andréa, como que era o clima em casa, quem tinha mais autoridade, seu pai, sua mãe? Como isso se arranjava na sua casa?

 

R – Em que sentido de autoridade? Quem era mais bravo?

 

P/2 – É. Ou quem... Ou como administrava, como é que era isso dentro da sua casa?

 

R – Era tranquilo. A minha mãe ficava em casa com a gente, então ela pegava a parte mais dura, mandava escovar dentes, fazer essas coisas. E meu pai era aquela curtição de chegar em casa e a gente brincar depois do trabalho, aquele que não pegava no batente com a gente, do desgaste. Mas os dois eram super tranquilos. Meu pai era bravo, minha mãe também, mas, assim, não sei te dizer quem era autoridade, não entendi em que sentido você falou.

 

P/2 – Um pouco mais o clima doméstico, como era a parte da educação, quem interferia mais, um pouco desse sentido. Como isso era equilibrado, na verdade.

 

R – Tranquilo. Equilibrados os dois. Nós éramos muito levados. Quer dizer, eu não. Meus irmãos eram muito levados. Eu era daquele tipo mais quietinha, bastava olhar para mim que eu já parava e não fazia, vou falar, mudar um pouquinho o tom de voz. Mas era um clima muito gostoso, aquele esquema de muita liberdade de brincar, de passar o dia. Acho que criança, quando fica muito fora de casa, não dá muito trabalho. Em apartamento é diferente. (riso)

 

P/1 – E aí a mudança para o Rio de Janeiro, uma nova cidade e um período de adaptação, como você falou. Vocês vieram para onde?

 

R – Viemos morar no Flamengo. Meu pai foi trabalhar no Projeto Carajás... A gente mudou inicialmente para Laranjeiras, desculpa. Agora nós moramos em Laranjeiras. Meus pai moraram em apartamento alugado, depois compraram no Flamengo, onde eles moram até hoje.

 

P/1 – E como que é esse apartamento? A diferença dele para aquela casa na Vila Conceição.

 

R – Não muito, não, porque o apartamento é bem grande. E tem uma área grande também nos fundos, é um prédio antigo, bem espaçoso, que é difícil hoje em dia encontrar. Foi muito gostoso morar lá. E morei até ir para Carajás. Ou melhor, ter saído de casa para trabalhar em Carajás.

 

P/2 - Você comentou que ia aos programas e ia à missa. Tinha educação religiosa na sua casa?

 

R – São católicos. Então tinha catecismo. Depois, frequentávamos a missa e tinha aquele negócio de ajudar, coroinha, a gente era coroinha. Tinha um padre muito legal, Padre Antonio, na Igreja do Largo Machado. Como é que se chama? É, e ele tinha aquela história de incentivar a gente a fazer a homilia. Depois, se você respondesse às perguntas, aí tinha um convênio com a Confeitaria Colombo, não lembro mais o nome da confeitaria, aí tinha um valezinhos para você lanchar, sabe? Era muito legal. E com isso ele motivava a comunidade e a criançada na missa das crianças. Então tinha programa. E a minha família é muito católica, não só diria católica de frequentar a missa, mas em ações. Pessoal muito caridoso, muito prestativo.

 

P/1 – E a escola aqui no Rio?

 

R – Tem várias escolas. A Franco Brasileiro, depois fui para o São Vicente de Paula até o final, até o terceiro ano. Fiz um ano de intercâmbio nos Estados Unidos quando eu tinha quinze anos, no Estado de Nova York, uma cidadezinha do interior lá. Depois fiz Serviço Social na UFRJ. É até interessante que desde pequenininha quis ser engenheira. Adorava matemática, física e achava o máximo o trabalho do meu pai. Não queria fazer outra coisa. Acho que já nasci engenheira, aí quando estava para fazer o vestibular esse colégio, o São Vicente de Paula, resolveu proporcionar um teste vocacional para a meninada. Aí fui fazer o teste vocacional e deu área de humanas, e aí o pessoal “Não... Mas você é muito forte na área humanas.” E eles tinham uma espécie de fichas sobre as profissões e davam dicas, e eu me apaixonei pelo tal de Serviço Social. “É isso que eu quero ser.” Aí tá bom! A minha mãe... Chego em casa com meu pai, minha mãe... Falando que eu ia ser assistente social. Minha mãe: “Não, isso aí é empolgação de adolescente. Que ainda está perdido e não sabe o que quer da vida.” Aí ela tinha um colega que era assistente social antiquíssimo da LBA, super experiente, um cara super sensato. E ela disse: “Primeiro, então, você vai conversar com Arnóbio para ver. Faz uma espécie de estágio, vê o que é Serviço Social. Por que você tem certeza? Serviço Social é uma profissão extremamente desgastante, você lida... Só trabalha problema do outro.” Aí fui, fiquei lá e no dia seguinte quis voltar. Depois ele ligou para os meus pais e falou: “Não tem jeito, não. Pode deixar que ela gostou mesmo do Serviço Social e ela vai se dar bem.”

 

P/1 – Quando você chega no Rio, neste período de escola, quais eram os programas que você fazia além das atividades religiosas, da escola em si, com os amigos, a diversão...? O que era?

 

R – Nessa fase a gente gostava muito de ir ao cinema. Eu não fui muito de ir em festinhas, meus amigos eram mais... A gente curtia muito ficar junto, bater papo, brincar, karaokê, aquelas coisas de adolescente. Festa que eu me refiro é discoteca, sair muito. A gente fazia mais as nossas festinhas. Eu, como tenho três irmãos, na época meu irmão caçula não participava porque a diferença minha para ele são onze anos. Então eram mais meus dois outros irmãos. A gente acabava um amigo do outro, você acabava fazendo aquela turma grande, gostava muito de ir à praia, esses programas de adolescente.

 

P/2 – E o estágio nos Estados Unidos, como foi sua ida para lá?

 

R – Super legal. Meu pai queria mandar e mandou todos os filhos. Intercâmbio é super rico, porque além de você desenvolver o inglês - você volta com o inglês fluente -, tem a experiência de vida, você amadurece muito, dá um valor danado à casa. Você volta achando que seus pais são maravilhosos. (riso) Como são mesmo. No meu caso, sempre achei. Mas, assim, era o máximo minha casa, meu esquema, meus irmãos, tudo maravilhoso. (riso) E foi legal, porque eu tinha quinze anos, tinha uma base de inglês de escola e de curso, e fui pelo Rotary, que é um intercâmbio que você fica três meses em cada família. Então, no total, você ficaria em quatro famílias. Mas eu não podia ir morando no Rio, eles não mandam adolescentes que moram em cidades porque depois vai para cidade do interior, eles têm dificuldade, têm medo. Tinham, na época, medo de adaptar. Então eu morava em Ouro Preto na época, oficialmente, nos papéis. E fui para uma cidadezinha chamada Wappingers Falls, no estado de Nova York. Foi super legal porque eu tive um contato no final só com três famílias. Interessante foi quando cheguei nos Estados Unidos, e na idade eu queria ir para o Canadá. Canadá não, para a Austrália. Não queria ir para os Estados Unidos, que eu achava o máximo a Austrália, país diferente, coalas, cangurus, e um país que eu não teria chances de ir, os Estado Unidos eram mais pertinho. Na véspera de ir um colega, o rapaz que iria trocar comigo, ficou doente e não veio. E aí a opção seria ir para os Estados Unidos. Mas as pessoas que já estavam programados, os locais que tinham, recebiam estudantes, já estavam todos agendados para quem iria para lá. Me mandaram para um lugar que eu fui a primeira estudante. Quer dizer, todo meu processo foi diferente. Só fiquei sabendo para onde estaria indo, a casa de quem, na véspera, uma semana antes de viajar. Geralmente, você tem isso num período maior, você tem uma comunicação entre os pais. E recebi um telegrama de que meu pai e minha mãe americana iriam me buscar. Aí chego eu nos Estados Unidos com a passagem de volta da VASP e com a orientação que se desse algum problema, “vai ao balcão da VASP”. Começo a esperar! Dez minutos, quinze minutos, meia hora, quarenta e um minutos... Me chega um senhor, eu imagino, no Aeroporto Kennedy, em Nova York, quinze anos, nunca saí de casa, e com a sensação de abandono. Quer dizer, todos os outros colegas meus os pais foram buscar, e nada dos meus pais chegarem. Aí chega um senhor, Andrea Barró, pensei: “Se não for esse, é com esse que eu vou.” (riso) Era o presidente do... Duas horas, não, desculpa. Quarenta e um minutos. E aí ele explica, pelo que entendi, que meu inglês não era tão bom assim, que meus pais achavam que eu iria chegar no dia seguinte. Ele liga para saber como eu era, se eu fiz boa viagem. O pessoal disse: “Não, mas a Andréa não chegou. É amanhã.” “Não, é hoje.” E aí ficou aquele impasse. A minha sorte é que o vôo teve quatro horas de atraso, mais as duas horas e quarenta e um minutos que eu fiquei esperando, senão eu teria ficado seis horas e quarenta minutos no aeroporto, porque eles não lembraram, eles achavam que eram no outro dia. Aí passou, ele me levou para a casa dele e depois eu fui para a casa dos meus pais. Aí chega um senhor de idade, uma moça nova, uma loira muito bonita, um menino loiro, um menino moreno, quase pretinho... Aí disse assim: “Bem, esse aqui deve ser meu avô, essa deve ser minha mãe, aquele ali deve ser o filho e aquele deve ser o coleguinha.” Era o meu pai, minha mãe e os dois filhos adotivos dele. Na realidade, ele tinha adotado as duas crianças, e ela era uma babysitter que depois se casou com ele. Primeiro dia, estou na sala, chega um rapaz e dá um beijo na boca da minha mãe. Eu: “Ih... Está traindo meu pai.” (riso) Era o irmão da minha mãe. Então, assim, foi ótimo! Daqui a pouco vejo meu pai dando beijo na outra, num casal que chegou. Nossa! “Ninguém vai me dar beijo na boca.” Aí eu institui, no primeiro dia, três beijinhos para casar. O pessoal achou o máximo, chegava para mim, “três beijinhos para casar”, eles até hoje mandam para mim correspondência, “three kisses”. Foi muito legal a experiência. Primeiro dia no intercâmbio, na reunião do Rotary aqueles senhores, o presidente falou para mim: “Eu não sei o que fazer com você!” Eu respondi: “Nem eu!” Eles não sabiam. Imagina eu, uma adolescente! Na realidade, antes dessa reunião, esqueci de contar uma passagem interessante, que eu acabei chegando meia-noite e meia em casa. E aquele fuso horário super cansativo, foi num domingo. Na segunda-feira, eu grogue de sono, não conseguia abrir o olho, a minha mãe me acorda para ir para a escola. Fui eu. Um sono! Eu disse assim: “Gente, não vou conseguir assistir a aula.” Estava super cansada. Aí ela me deixa na porta da escola e vai embora. E eu, o que eu faço? Fui, meu tupi-guarani ali chegando até onde o diretor e tinha uma carta do Rotary, de apresentação. O cara lê, fala, fala, fala, e eu não entendi nada. Ele falava muito rápido e manda sentar. Nessa história, eu passei o dia inteiro sentada, de oito às duas e meia. Sentada. Sabe? Tirou para levar para almoçar. E o que aconteceu? Eles me mandaram para a escola e esqueceram de me matricular! Imagina, você pegar um americano e levar para uma escola qualquer, não deve assistir aula. (riso) Aí eu só sei que eu volto para a casa e durmo o dia inteiro. Aí fui para a reunião em que eles me falam que não sabiam o que fazer comigo! E meus pais: “Está tudo bem?” “Não, tudo jóia, tudo bom!” (riso) A primeira semana foi ótima, a sensação de abandono, eles não sabiam o que fazem comigo! Não tinham nenhuma estrutura, imagina! Me mandaram para uma família riquíssima, esse meu pai era super rico, dono de ferro velho, e super legal, me levou para passear nas férias pelo Estados Unidos, praticamente todo. Aí fui para a Segunda família, inimiga do meus pais, na mesma cidade, inimigas, e nessa me dei super bem! Porque eu adorava ambos, mas minha primeira família falava assim: “Nossa! Você está tão magrinha! Deixa eu levar um negócio para você comer, não sei o quê!” E como a primeira me levou para passear para Califórnia, quase todos os estados,  a segunda me levou para o sul, para a Flórida, a famosa Disneylândia e tal. Eu tinha que ter muito cuidado, porque eles não se davam bem! Agora imagina o Rotary fazer um negócio desses! Quer dizer, colocar em famílias opostas, inimigas. A terceira família não tinha para me receber nem a quarta. Aí eu conheci uma alemã, fiquei super amiga dela, e seu pai era do Rotary, vou eu para a casa dos alemães. Só que nos meu últimos três meses, porque eu acabei viajando quase dois meses e meio nos Estado Unidos, nas férias, viajei muito. E no auge do meu inglês, falando bem pra caramba, fui para uma casa que eu não conseguia conversar com os meus pais. Que meu pai trabalhava na IBM, recém chegado nos Estados Unidos, e a minha mãe falava mal para caramba inglês, as minhas irmãs falavam inglês com sotaque de alemão, e eu com sotaque em português. Então o pessoal se divertia quando a gente conversar. E foi super legal. Eles queriam, na realidade, que eu voltasse para uma das casas, mas eu nunca faria isso! Aí eu ia voltar para qual? Teria que prestigiar quem? Eu adorava ambas as famílias. E a gente tem um vínculo até hoje. Pessoal me escreve, tive neném, uma das minhas mães fez crochê, mantinhas para mim, mandam no Natal presentes, super legal. Voltei para os Estados Unidos com o marido, na lua de mel, e encontrei com uma das famílias. E foi super legal também. Eles estavam, a minha avó estava morando na Flórida, minha avó americana, e aí minha mãe estava passeando lá e acabei encontrando. Depois, agora em 1995, voltei aos Estados Unidos para encontrá-los, aí fui, visitei escola, meus pais, aí já era uma outra realidade, meu primeiro pai morreu, meu segundo pai se divorciou, está com uma outra família, uma outra esposa. Mas foi super legal, voltar à escola e o pessoal me reconhecer depois de mais de quinze anos, o pessoal me reconhecer, os professores que ainda estavam na escola, e ir à casa das pessoas que eram meninas e agora estavam casadas, filhas de professores, de amigos meus que já estavam com filhinhos, foi super legal! Passei poucos dias, foram quatro dias. Reencontrar esse senhor que foi me apanhar no aeroporto, relembrar as histórias da época.

 

P/1 – Isso foi em que ano?

 

R – Eu voltei em 1978. 

 

P/1 – Andréa, aí você volta para terminar os estudos, o segundo grau, agora com uma outra visão, depois de passar um ano nos Estados Unidos.

 

R – E com uma preparação para fazer engenharia, vou fazer Serviço Social. (riso) Preparação que eu me refiro é no colégio, você tinha reforço em física, química, área que eu estava optando, e vou fazer Serviço Social, que tinha totalmente um outro perfil.

 

P/1 – E o vestibular foi algum problema?

 

R – Não! Fui excelente exatamente por isso! (riso) Coitados dos meus concorrentes, geralmente não gostam de matemática, de física e de inglês, que eram o meu forte. O último ano meu foi muito apertado porque eu voltei do meu intercâmbio com a pendência de duas matérias, que eram geografia e português. Então eu fiz o terceiro ano, duas matérias do segundo ano, e ainda no colégio tinha aquele preparatório para o vestibular, alguns reforços à noite de algumas matérias, dependendo da opção que você estava fazendo de carreira.

 

P/2 – E a faculdade, como é que foi esse período?

 

R – Nossa, foi ótimo. Eu, apaixonada pelo Serviço Social, consegui no primeiro ano, que é raríssimo, um estágio no LBA, sem nenhuma remuneração. Eu no primeiro ano já estava lá fazendo meu estágio. E como eu fico brava com o que eu fazia, e como tinham umas assistentes sociais na LBA que detestavam ir para a favela, Realengo, Vala do Sangue, e vai por aí na Baixada. Elas acabavam indo, me levando junto. E no final, acabava fazendo eu sozinha. Indo para os projetos, colônia de férias na Rocinha, por aí. Então, na faculdade eu tive a oportunidade de fazer um estágio durante todos os anos da faculdade, são quatro anos. Quatro anos de estágio na LBA, e em paralelo o estágio da faculdade. A faculdade não reconhecia meu estágio na LBA como estágio curricular. Então tinha que fazer estágio no fim de semana, então você vê que eu gostava muito! Eu trabalhava, eu estudava de manhã, saía da faculdade correndo, ia para a LBA, meu almoço era geralmente uma bisnaga com mortadela e coca-cola. Chegava na LBA, já tinha uma kombi me esperando para ir para os projetos. E aí dividia, comprava uma bisnaga com o motorista, pagava para o motorista, um terço era minha, dois terços eram dele. Depois, à tarde, ficava a tarde inteira na LBA, saía da LBA, ia para o curso de inglês ou computação que eu fazia, e fins de semana, sábado inteirinho de estágio, e no domingo - geralmente até duas horas da tarde - em favelas,  delegacias, hospital, que eram os campos de estágio da faculdade.

 

P/1 – E como é que eram esses estágios? O que vocês tinham que fazer?

 

R – Quer dizer, depende muito de onde e como. Na LBA, eu brinco que fiz carreira na LBA, porque a LBA tem vários estágios, tem centro de formação, depois a superintendência e a diretoria, todas aqui no Rio. E eu, no centro de formação, trabalhei com uma pessoa que depois foi transferida para a superintendência, e ela me arrumou uma vaga para estágio na superintendência. Depois ela foi participar num projeto da UNICEF com a LBA, foi para a diretoria, e fui eu atrás. Então eu brinco que fiz carreira, porque é o estágio máximo. O estágio era dependendo do local, no caso da LBA, como eu já comentei, fazia muita coisa que um profissional fazia. Exatamente pelo meu perfil. Eu vibrava com o Serviço Social, então o pessoal me dava corda. Quem não queria fazer uns programas de índio, me colocava. E com isso eu aprendi muito, tanto aprendi que, quando eu participei de um processo seletivo na Vale, o meu currículo de estágio me compensou três anos de experiência, porque eles queriam um profissional para Carajás com três anos de experiência. Eu não tinha nada, era recém formada. Mas o meu perfil, o que já tinha feito... Eu gostava tanto, gente, que fazia dois estágios, você já viu alguém fazer dois estágios? Você já viu alguém fazer um negócio desse? (riso) Um a semana toda, outro no fim de semana. E trabalhei em delegacia, primeiro campo de estágio, delegacia, convênio de universidade com delegacia, hospital universitário na Ilha do Governador... Quê mais... Favela, tinha favela Praia da Rosa na Ilha do Governador também.

 

P/1 – O que eu queria entender melhor é o que é o trabalho do Assistente Social?

 

R – Depende do campo.

 

P/1 – No caso da LBA?

 

R – A LBA tem programas institucionais, então por exemplo, colônia de férias, tinha favelas, tinha esse programa da UNICEF que era um cuidado com a criança, então se acompanhava a criança de zero à seis anos para ver a evolução dela. Você tem trabalho com gestantes para orientar, tinha uns trabalhos com lactantes, você fornecia leite e uma cesta básica para mães que tinham acabado de ter neném. Em contrapartida elas tinham que frequentar um grupo, e nesse grupo você orientava com os cuidados básicos com a criança, cuidados com ela, e fazia geralmente isso com trabalho manual, crochê, alguma coisa assim, em que você conseguisse envolver as pessoas, e com isso passar algumas coisas, trabalhar valores. No hospital universitário, a gente fazia mais era apoio, eu fiz estágio no CTI. Interessante que eu detestava hospital, alguém que passava mal, eu não aparecia, não visitava no hospital. No meu primeiro estágio, CTI. Aquele cheiro de éter, não sei o quê, curei no primeiro dia. (riso) Depois entrava no hospital como estivesse entrando em minha casa. Era mais um apoio, tinha uma ala grande de pessoas cardíacas, então você dava um suporte para o paciente que acabava ficando muito isolado no CTI e para a família, tanto dando a boa notícia quanto a má notícia, conforme a evolução do estado do paciente. Na delegacia eu passei, o primeiro projeto do convênio universidade com delegacia, que seria a gente trabalhar, humanizar um pouco a delegacia. Mas por ser o primeiro, a gente teve muita resistência do delegado, do pessoal da carceragem, então conseguimos atuar muito pouco.

 

P/1 – O Assistente Social é um tanto psicólogo também.

 

R – A gente tem uma formação. Você faz Psicologia, as matérias, tem um pouquinho de Economia, Sociologia, Direito. Eu, para sintetizar, diria o seguinte: que o Assistente Social é um profissional que te ajuda a encontrar uma solução para o seu problema. Basicamente ele vai te ouvir e te ajudar a equacionar o que você tem para resolver. Se é uma questão material, depende da instituição onde você está, se é uma instituição que promove isso, passa a dar esse suporte também.

 

P/2 – Você fez faculdade durante qual período?

 

R – De 1981 a 1985.

 

P/2 – A questão política passava alguma coisa para o trabalho de vocês, havia uma interferência nisso?

 

R – Não senti muito, não. Apesar da faculdade, de eu ter estudado na UFRJ, não me envolvia muito com essa parte política. Ou melhor, estava envolvida com outras questões. (risos) Nessa época eu fiquei noiva, eu não entendo como. Meu noivo ainda tinha paciência, porque ele não morava aqui, morava em Ouro Preto. Ele vinha, passava o final de semana e me encontrava. O programa dele era me apanhar na favela, na delegacia, e ficar comigo o quê...  Três, quatro horas no domingo. (riso)

 

P/1 – E onde você o conheceu?

 

R – Em Ouro Preto. Mas aí terminei o namoro em tempo. Namoro, não. Noivado.

 

P/1 – Como estava o mercado de trabalho para você?

 

R – O que aconteceu quando eu formei... Nunca imaginei trabalhar na Vale porque eu, como eu brinquei, fiz uma carreira na LBA, era líquido e certo que eu trabalharia na LBA. Era apaixonada pelo trabalho, mas coincidiu de ser um ano de eleição, então estavam proibidas as contratações na LBA. Aí eu comecei a fazer outras coisas alternativas. Na faculdade comecei a ir às favelas ajudar a fazer monitoria, dar suporte para o pessoal estagiário. Encontrei um amigo e montamos uma escolinha de futebol, talvez uma das primeiras. Com o projeto de… Ele era um ex-jogador de futebol, e eu como Assistente Social. A gente desenvolveria um projeto em paralelo. Preparação dos meninos, mas com acompanhamento social. E nisso me surge um telefonema da Assistente Social da Vale perguntando estava com meu currículo, que tinha uma vaga na Vale, se eu estava interessada em participar, se já estava empregada. Falei que sim, eu tinha interesse. “Ah,  mas não é para o Rio!” Disse: “Não importa para onde seja!” “É para Carajás.” Aí eu lembro que desliguei, estava indo para aula de computação e encontrei meu pai saindo do metrô. “Pai!” Eu toda contente.” Pai, recebi um telefonema da Vale! Tem uma vaga!” Eu achando que ele iria vibrar. Ele disse assim: “Na Vale, e para onde?” Respondi: “Carajás.” Ele disse: “Ah tá.” Aí virei para ele mais tarde, falei assim: “Olha, o senhor não faz nada para eu ir, mas nada para eu não ir.” E aí participei desse processo, como comentei com vocês, com pessoas mais experientes, e fui selecionando. E lembro que, por ser a única filha e a mais velha, e muito ligada a ele, ter uma relação muito forte, e ele por trabalhar na Vale, por ter trabalhado no projeto Carajás desde a época de implantação, conhecia todas as dificuldades de Carajás. E imaginava as dificuldades que eu teria pessoais e, principalmente, profissionais, de estar indo para aquele projeto. Então eu acho que ele ficou com o coração um pouco pequenininho, e quando deu tudo certo... Pena que, logo depois, ele saiu da empresa, dois anos depois. Ainda consegui usufruir um pouquinho das visitas dele. É, eu acho que fui umas duas vezes a Carajás, enquanto estava lá.

 

P/1 – Em que ano você chega em Carajás?

 

R – Em 1985.

 

P/1 – E qual era sua função específica?

 

R – Eu fui para implantar. E o que foi que mais me motivou ir para Carajás... Eu estava contando que eu tinha toda minha vida estruturada no Rio. E o que mais me motivou a ir para Carajás foi o desafio! Aquela coisa nova, um projeto grandioso, e implantar um serviço social. Imagina! Apaixonada que eu era pelo serviço social, a oportunidade de implantar, estruturar todo serviço social era uma coisa excepcional. Porque, geralmente, se você vai atuar numa área dessas, você já tem todo um serviço estruturado, você dá continuidade.

 

P/2 – Porque não tinha nada estruturado na parte social?

 

R -  Tinha um serviço social mas era um serviço social, da SUCAR na época, que era o pessoal de obra. E eu fui para a SUNOR, que era de operação. Então era uma nova equipe que estava sendo criada para uma realidade: explorar o minério de ferro por quatrocentos anos, retirar o minério. Então o serviço social que existia, tanto da Vale quanto das empreiteiras, que ali estavam atuando, construindo Carajás, era como uma realidade. Aquela coisa de obra, coisa provisória. E eu ia para atuar como uma coisa definitiva! E fui como Assistente Social. Só tinha nessa equipe, a única Assistente Social era eu. Imagina! Aquela coisa novinha de você poder idealizar e a coisa sair com a sua cara, do seu jeito, com sua experiência. Era fascinante para mim, não pensei duas vezes. Apesar de saber, meu pai passar todas as dificuldades que vivia, os problemas, e se valeria realmente a pena.

 

P/2 – Mas que tipo de problemas seu pai ressaltava? Você chegou com alguma expectativa, criou alguma ansiedade?

 

R – Carajás... Imagina! Você morar numa vila no meio do mato, floresta amazônica em que você vai conviver com as mesmas pessoas, vai trabalhar e conviver com as mesmas pessoas e ser longe de todo mundo. Naquela época nós tínhamos problemas de telefone, não tinha telefone, estava sendo estruturado. Carne o cara trazia de uma cidade próxima, verdura, legumes... Estava sendo construído Carajás. Então, quais as dificuldades que eu teria? Eu, como Assistente Social, era uma pessoa que teria que ter cuidado com minha postura, com meu comportamento. Por exemplo: estou desenvolvendo um programa de alcoolismo, brigo com meu namorado, vou ao boteco e tomo uns golinhos a mais. E depois, como que é que eu ia conversar com o pessoal sobre alcoolismo? Isso não foi ele que me orientou, mas eu senti isso logo depois, as pessoas tinham uma relação comigo como colega, tudo, mas eu tinha uma certa confiabilidade por ser Assistente Social. Você tem um caráter de sigilo, e as pessoas às vezes confidenciavam coisas que não falariam para a Andréa, e sim para a Andréa Assistente Social. Você acabava tendo que ter uma certa postura, um certo cuidado. A dificuldade que ele me colocou mais na época por ser a única filha... Eu sempre tive meu espaço, meu quarto, meu banheiro, e para Carajás eu ia dividir… Aquelas coisas de sair de casa, dividir. As dificuldades que eu teria em termos de trabalho e estar atuando basicamente sozinha. Não teria mais aquela equipe, aquela estrutura que eu tinha na LBA. Que você tinha uma série de profissionais no mesmo ramo seu. E lá, não. Eu estaria só no mundo, em todos os sentidos.

 

P/1 – Quais eram os outros profissionais que formavam a equipe?

 

R – Bem... Depende do que você fala de equipe. Por exemplo, quando eu fui, fui atuar na comunidade, fui fazer ambientações das famílias. Aí tinha uma equipe, que eram profissionais, tinha psicólogo, pedagogo, administrador, e eu como assistente social. E a gente tinha o trabalho de ambientar essas famílias que estavam vindo. Geralmente o marido ou a esposa iam trabalhar em Carajás e a família iria passar a morar lá. E morar, praticamente, dentro da empresa. As instalações eram da empresa, tudo estava sendo construído e estruturado pela empresa. A cidade estava sendo construída pela empresa. Cinema, hospital, escola, centro comercial, banco, igreja, tudo.

 

P/1 – Você tem a noção de qual era a população do núcleo urbano, quando você chegou?

 

R – Eu cheguei numa época que estava terminando a obra, ainda peguei um período de obra e a pré-operação. Então chegamos a ter 22 mil habitantes no pico. Hoje deve ter dois mil, se tiver. Então era muita gente. E, basicamente, 21 mil e alguma coisa, quase 22, era pessoal de empreiteira. Basicamente o pessoal era peão mesmo, peão de obra.

 

P/1 – Que ficaria? Ou que era só esse restante das obras?

 

R -  Não. Pessoal de obra mesmo. Que depois, logo depois, foram embora. Depois que as obras foram desativadas. 

 

P/1 – Você ia lidar com a população...?

 

R – O meu cliente, o meu foco não eram esses 21 mil habitantes. E sim esses um mil ou menos ainda, que era o pessoal que iria operar a mina, quem ficaria ali trabalhando em Carajás. Esses eram temporários, eles foram lá para desenvolver um trabalho. Quando concluído, foram construir o hospital. Construiu o hospital, eles iriam embora.

 

P/1 – E como é que era realizado este trabalho de ambientação das famílias?

 

R – Basicamente nós tínhamos que trabalhar com o choque cultural. No início a gente teve mineiro, capixaba, paraense, maranhense, que passaram a morar junto. Mas isso de vários níveis. Então a gente tinha muito problema do pessoal da região que foi recrutado para os cargos mais básicos da empresa, que passaram a usufruir de coisas que nunca imaginaram que iam ter acesso. Exemplo: uma casa linda, novinha, os primeiros moradores da casa; uma assistência médica que eles nunca tiveram acesso, de altíssimo nível; escolas. Para você ter uma ideia, a rede de escolas Pitágoras. Dinheiro... Imagina, o salário era basicamente líquido, o cara recebia... As despesas fixas que a gente tem hoje para sobreviver por exemplo aqui no Rio, a gente não tinha em Carajás. Casas subsidiadas, alimentação, o trabalho, a comunidade, a Vale criou cooperativas para você adquirir os gêneros alimentícios mais baratos, e assim por diante. Então a pessoa ia para uma realidade que nunca imaginou. Só que ia com a formação, com os hábitos dela. A criançada que não queria pôr roupa, andava peladinha, sem sapato, evacuava no passeio na frente da sua casa. A casa... O pessoal não usava o banheiro, usava o quintal até para tomar banho. Tomava banho no tanque, de caneca. E isso de fundos para a sua casa. Então a gente tinha problemas. A cerca viva... Que as casas, que tem duas que são geminadas, duas casas próximas, e o resto você tem separação com uma cerca. E na época estava em construção, não tinha ainda nenhuma separação, só o arame. Então tinham estes atritos, estes choques de cultura, estilo de vida. E até a passar o seu filho querer andar peladinho, evacuar no cantinho da sala porque o coleguinha fazia, e assim por diante.

 

P/2 – Como fazia para abordar as pessoas?

R – O trabalho era feito não pela gente. Neste exemplo que estou dando, era muito mais a escola. O menininho passava a ir para a escola e começava a ter hábitos, as professoras passavam questão de higiene, hábitos, e aí eles passavam a mudar os pais. A gente interferia mais nos empregados e nos menores aprendizes. Que nós fizemos, a Vale tinha na época um trabalho muito grande, a gente tirava adolescentes das cidades próximas e levava para dentro da empresa. Colocava eles no alojamento e fornecia a formação técnica, um curso no SENAI de mecânico ou um curso no SENAC na área administrativa. A escola, passavam a frequentar a escola, assistência médica e tudo isso. Só que você pegava esses meninos que também tinham estes hábitos e colocava nos alojamentos, e também os  empregados solteiros, também ali naquele contexto. Aí se presenciava cenas. Eu presenciei, por exemplo, de entrar... Eu tinha que visitar uns alojamentos, e você entrava acompanhada com o responsável, porque tinha que entrar no banheiro, no quarto dos homens, então geralmente ia na frente. Não esqueço uma cena de um empregado que eu conhecia muito. Eu entro no banheiro, estava ele escovando o dente no mictório, com a escovinha assim, deixou cair a água para limpar, depois pôs a mão com dificuldade até encher com a água, que é pouquinho, encher a mão dele para bochechar. E a gente via dentro do chuveiro, no cantinho, fezes, vasos quebrados, que o pessoal subia, não sentavam no vaso aí acabava quebrando. Os meninos que urinavam no quarto. Menino você já sabe, adolescente. Imagina! Você colocar todos juntos, longe de casa. Comida, levavam comida, deixavam dentro do quarto, dentro do armário, fechavam, aí a comida azedava junto com a bota e a roupa, tudo misturado. Era muito interessante.

 

P/2 – Você tinha um trabalho não só de treinar profissionalmente, como educar para uma série de procedimentos, de hábitos.

 

R – O choque que a gente tinha, as dificuldades eram que, por exemplo, você ia tomar banho no alojamento, na hora que entrava para tomar banho no chuveiro você via fezes! E aí, pô... Como é que eu vou tomar banho aqui! Mas isso foi aos pouquinhos, aí foi uma evolução, as pessoas começaram mudança de hábitos naturalmente, com algum incentivo da empresa ou da escola, ou nos cursos de formação profissional, ou mesmo com o empregado. Dando um toque no empregado! “Você não pode fazer isso, você tem que fazer aquilo.” O próprio colega repreendendo. Houve naturalmente uma mudança. E a gente acabava administrando muita exceção.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Por exemplo, nós tínhamos uma super população nos alojamentos. Porque nós tínhamos um pessoal que brincava que a gente tinha três estados civis em Carajás: o casado, que tinha a casinha dele, morava com a mulherzinha dele; o solteiro que era o meu caso, que morava em alojamento; o casado-solteiro, que era o casado, que ainda não recebeu casa e ainda estava morando no alojamento, sem a família, a família no local de origem. Então o que você podia fazer num quarto que deveria ter quatro pessoas e tivesse oito, estava super habitado. O que acontecia? Tinha uma pessoa que, por exemplo, era mais quieta e foi morar num quarto em que o pessoal era mais agitado, gostava de farra, ia dormir mais tarde. Essa pessoa te reclamava! O que você fazia? Tirava ela, colocava num quarto onde o pessoal era mais quieto. Ou então o contrário, todo mundo quietinho e um mais agitado. Ou um mulherengo queria levar uma namorada todo dia para o alojamento. Você tirava ele e colocava em outro quarto. Você tinha que administrar exceção. O que você ia fazer? Porque até onde a empresa poderia interferir? Tinha uma dificuldade para a gente, às vezes a gente tinha que parar e pensar em termos de limites. Até onde você poderia intervir na vida pessoal das pessoas que ali estavam trabalhando? Tudo bem que elas estavam trabalhando na empresa, nas instalações da empresa, morando nas instalações da empresa. No início houve interferências muito grandes, por exemplo: pessoal solteiro não comprava bebida, tinha que ter carteirinha, pessoal casado que comprava bebida. Imagina! Vinte mil habitantes, se deixar o cara comprar bebida, comprar pinga, não sei o quê, garrafas! Então o pessoal tomava todas. Estava com algum problema, insatisfeito, poderia ter quebradeira, poderia quebrar o alojamento, brigas. Mas, então, você poderia beber. Mas beber no bar, que aí é uma quantidade mais restrita, não teria chance de ficar comprando. Casado que a gente se refere é o seguinte: parte do pressuposto que é uma pessoa já estruturada, e não um pessoal solteiro.

 

P/1 – Aconteceu casos de tensão ou situações extremas entre os próprios empregados?

 

R – Nada excepcional. Casos mesmos de briga, discussão pequena. Tinha briga de marido e mulher que ia parar na polícia. Eu tinha um guarda muito interessante. Ele me achava o máximo, achava que eu tinha o dom de acalmar as pessoas. Então aparecia um casal discutindo lá, ele me chamava. Assim, onze horas da noite, meia-noite... Aí um dia falei assim: “Por que você me chama? Registra a queixa, conversa com a pessoa…” “Não, mas a senhora resolve tudo. A senhora acalma todo mundo.” “Você está me chamando de calmante?” (riso) Ele disse: “Não, mas depois eles não voltam aqui. Quando a gente resolve eles sempre voltam.” E às vezes as pessoas estavam mais exaltadas. Segurava o cara, a mulher. Nessa vez eu lembro que era um senhor, um empregado três por quatro, aquele grandão, e a mulher também devia ser uns quatro por três, enorme também. Imagina a cena! Ele me chamou e eu fiquei imaginando a cena: os dois brigando, e eu ali no meio! Mas aí o pessoal super tranquilo. O interessante é que em Carajás é que o pessoal tinha um respeito por Assistente Social, tinha um negócio assim... Não tinha padre, poucos psicólogos no início... Depois a gente teve psicólogos na comunidade. Então o pessoal achava que podia confiar em você, entendeu? Que você não ia falar o que eles tinham a liberdade de comentar com você. Eu não sei, tinha desde a época de obra. Não sei definir se é um misticismo, não sei o que seria, em torno do assistente social que dava uma credibilidade muito grande ao profissional, maior do que eu já tinha experimentado aqui no Rio, por exemplo, atuando na LBA. A ponto de logo no início da primeira semana que eu estava em Carajás, teve uma briga na Paranapanema, no alojamento, por questões de refeições, a comida estava ruim, aí o pessoal começou a discutir, brigar e no final estavam quebrando o alojamento. Aí me chamaram porque a assistente social da Vale, que atendia e dava suporte para o pessoal da empreiteira, que saiu logo depois que cheguei em Carajás, ela tinha viajado. Eu não imaginei! De noite me acordaram e eu disse assim: “Gente, o que eu vou fazer lá?” Eu nem conhecia direito Carajás, eu nem sabia nem o que era Paranapanema, o que o pessoal estava fazendo lá. Eles vão me linchar, imagina! Carajás tinha pouquíssimas mulheres. (riso) Eu ir para um acampamento do Paranapanema, alojamento, de noite, com a cara de menina, vinte e um anos! E o pessoal, na hora que eu cheguei, parou para me ouvir. E eu disse: “E agora, o que faço? Por onde começo?” Aí eu falei para o pessoal simples, como um critério que me ajuda até hoje na Vale, que é a sinceridade, tipo: “É assim gente, eu não sei como resolver, em como eu posso ajudar vocês, mas eu vim aqui pelo menos para ouvir o que vocês tem para falar.” E o pessoal: “Não, não sei quê, tal, que a gente está reclamando... ” E eu disse: “A gente pode passar isso para a direção da Paranapanema, ver o que eu posso resolver, mas eu não prometo nada porque eu nem sei, sou recém chegada.” E o pessoal foi embora.

 

P/2 – Acabou, vamos lá. (comentários do entrevistador)

 

R – Acabou a discussão. (riso)

 

P/1 – Andréa, tinha muitos casos de homossexualismo, prostituição, ou algo do gênero. (riso)?

 

R – Eu costumava falar que Carajás era uma panela de pressão. Todo lugar tem isso do que você falou. Só que, imagina: isso num lugar fechado, que as pessoas conviviam. Então você hoje e o Zé Carlos tem um relacionamento profissional. Provavelmente você sabe muito pouco da vida pessoal do outro, dos hábitos, dos problemas que vocês enfrentam fora do ambiente de trabalho. Lá, não. A gente conhecia as pessoas muito, a ponto de que eu chegava no final, passava na casa do Zé Carlos e falava assim: “A Claudia está no Zé Carlos.” Eu sabia porque o carro da Claudia estava parado na sua porta. Eu ia ao cinema, eu sabia quem eu iria encontrar. “A Claudia deve estar lá porque ela gosta de romance, mas o Zé não gosta, não.” Eu ia ao clube, você sabia quem ia estar naquela festa, naquele show que a empresa proporcionava. Eu pessoalmente, então, conhecia todo mundo. Eu brincava que eu era uma das poucas privilegiadas que ia numa festa e não encontrava ninguém conhecido. Que eu sou muito míope e tirava os óculos. (risadas) Aí, olha, que barato. Não conhecia ninguém, porque o resto se sabia exatamente, quem você iria encontrar. No início, não. No início foi uma fase muito interessante em Carajás, que tinha muita gente. Então tinha pessoal de empreiteira, os engenheiros, o pessoal da construção próprio da Vale, dessa unidade SUCAR, e o pessoal promovia muito show, muitos eventos para animar essa população toda. Aí depois, não. Lá ficou mais o pessoal, coisa da rotina, e com menos eventos de porte que eram feitos na época. O pessoal tinha grana para fazer. Imagina! Na parte de operação você tinha uma verba restrita que você tinha que administrar para um ano inteiro. É claro que a gente tinha muita coisa ainda, mas não tanto quanto no início. No início você podia até se dar o luxo de falar assim: “Nossa! Tem alguém novo! Quem é aquela pessoa?” Até porque é uma equipe que tinha muita rotação, chegava um cara, então construía a casa de hóspedes. Aí vinha um pessoal de uma empresa, depois vinha, por exemplo, a parte dos eletricistas, dos engenheiros eletricistas para fazerem determinadas instalações. Aí eles iam embora, vinha uma outra equipe, por exemplo, fazer uma outra parte. Então você tinha uma rotação maior nas próprias empreiteiras. Então eu chamava panela de pressão por quê? Nós tínhamos esse grupo de pessoas que trabalhavam e viviam no mesmo local. Então você passava a conhecer teu colega profissionalmente e pessoalmente. Os habitos, tal, num lugar fechado! A maioria, praticamente todo mundo estava longe da família, longe do seu local de origem, convivendo com os problemas. Nós tínhamos, por exemplo, casais que não estavam bem em termos de relacionamento, e tiveram a oportunidade de ir para Carajás e acharam que era uma ótima oportunidade de ficar longe da família. Aquela família que estava atrapalhando, era a sogra que estava interferindo ou coisa do gênero. Só que a relação deles já tinha desgaste, já tinha algumas mágoas, e iam para um lugar onde iriam conviver só os dois! Não tinha mais ninguém para eles até culparem pelo problema do relacionamento. Tínhamos caso, como existe em qualquer lugar, de abuso sexual. O pai com o filho, com enteado. Você tinha caso de homossexualismo, caso de alcoolismo, casos de todos os tipos... Só que, imagina, no mesmo lugar. E você convivia com aquela pessoa profissionalmente. É claro que isso não era muito público. Se fosse público, também, a maior parte destas pessoas teriam ido embora. Mas, para mim, quer dizer, eu conhecia muito essa realidade. Como eu falei antes, as pessoas tinham muita confiança no profissional, no assistente social, e acabavam confidenciando coisas que para mim eram um espanto! Quer dizer, eu não imaginava, já ouvi falar que tinha, mas imaginar que aquele meu colega, aquela pessoa que eu convivia tinha aquele tipo de comportamento diferente do que ele me aparentava enquanto colega dentro da empresa. Eu fico imaginando como é que as pessoas me viam. Porque eles não deviam olhar para mim e ver a Andréa de 21, 22, 23, de 26, quando eu saí de Carajás. Porque as pessoas me falavam coisas. Ah, assim, eu lembro de um senhor desesperado, que ele era casado-solteiro, estava longe da família, gostava muito da esposa e estava seis meses longe da esposa. E o colega de quarto dele, do quarto que ele estava, o pessoal tinha namorada. E um, especificamente, colega que morava no beliche com ele, tinha uma namorada firme, que toda noite dormia com o cara. E ele vira para mim, um senhor já, acho que devia ser quase da idade do meu pai na época, e fala para mim: “Andréa, eu não estou aguentando!” Eu disse: “Mas por quê”  “Não imagina? Estou há seis meses sem minha esposa, tem mulher no meu quarto, agora imagina: só de pensar que tem uma mulher lá todo dia, já incomoda. Agora o meu colega dorme no meu beliche, então além de saber que tem uma mulher, tem um barulho e um mexidinho.” (risos de todos). Porque o beliche balançava e o cara dormia embaixo. A tortura do cara. (riso) Aí ele me fala isso, quer dizer... Falar com uma menina! Eu ficava imaginando, acho que o desespero era tanto que eles não me viam com cara de menina. E o cara tinha uma filha mais velha do que eu.

 

P/1 – Mas podia levar namoradas para o alojamento? Como era? Tinha um controle?

 

R – É aquilo que eu falei. Até que ponto a empresa interferia, né? Não estava tendo problemas, você não ia criar muito atrito por essas coisas, porque o pessoal tinha que ter um lazer, tinha que extravasar, tinha que ter um relacionamento. O que acontecia, um dos maiores problemas que a gente teve com isso, é que o pessoal lá conhecia uma prostituta lá em Parauapebas, aí dava para gente fichá-la como empregada, como faxineira e acabava se apaixonando pela moça. Só que a moça não era fiel, ela não era namorada do cara, ela era uma profissional que ganhava o dinheiro com isso. Às vezes tinha problema, o cara chegava, estava a empregada, a namorada, com outro, aí começava a dar briga.

 

P/1 – Você tinha me contado um caso de uma faxineira.

 

R – É interessante que muitas dessas pessoas eram muito simples. Ou faxineira mesmo, ou então pessoas da comunidade mais pobres que iam trabalhar nas empresas de faxina ou nas próprias empreiteiras, fazendo esse serviço de café, limpeza... E eu lembro que uma vez, visitando o alojamento uma senhora, vi na porta na parede marcado, os alojamentos eram de madeira, umas marquinhas. Eu perguntei para ela: “O que é isso”? Aí ela me explicou: eram uns clientes dela, que ela ia marcando quantas vezes para, no final, quando o cara ia pagá-la, ela saber quanto tinha que receber. Era por mês. (riso) Concidia com a data do pagamento do cliente. Quando ele recebia, ia lá e acertava.

 

P/1 – E os empregados, os que estavam no mesmo alojamento, eles tinham assim um esquema de...?

 

R - Tinha, claro. Imagina, você iria dividir... Você ia deixar que os seus colegas presenciassem uma cena de amor com o seu namorado? Tinha todo um código, um ritual, um negócio amarrado na porta, significava que era para voltar, não podia entrar. Cada um tinha seus esqueminhas, sabe? Ou então já previamente avisava, tipo assim: “Ô, amanhã vou trazer minha namorada! Então vocês não cheguem antes de onze horas.” (riso) E às vezes dava problema porque você fazia um pacto às onze horas, aí eu chegava, estava lá, onze horas nada, onze e quinze, onze e trinta, você começava a bater. A pessoa de dentro já achava ruim porque o negócio estava bom, tinha que parar, tinha horário para terminar. (risos) Aí o pessoal que estava fora começava a ficar com raiva porque tinha que dormir, porque no outro dia tinha que trabalhar. Um problema que a gente teve, que aí a gente descobriu o homossexualismo, foi isso. O cara combinou que ia levar o namorado e o negócio deve ter ficado bom. Ele perdeu a noção da hora. O pessoal chegou, ele ficou constrangido de abrir a porta porque ele não estava com uma namorada, ele estava com um rapaz. E como é que ele fazia? O pessoal começou a perder a paciência, arrombaram a porta, pegaram ele com o cara e foi um auê. 

 

P/1 – E aí, ele foi hostilizado depois?

 

R – Olha, essa interferência, esse caso, especificamente, eu nem lembro o desfecho dele, porque logo depois eu saí. Eu não acompanhei. Mas acabava tendo muita interferência, por mais que gente quisesse ser neutro. Chegava a ponto, por exemplo, de um engenheiro encontrar um supervisor dele no fim de semana e chegar a parar o cara na segunda-feira e falar para ele: “Olha, você não deve andar sem camisa ou de chinelo havaianas, você é supervisor, você tem que cuidar da aparência.” Quer dizer, o que o cara tinha a ver, estava com calor e queria andar de chinelos, sem camisa. Então, tinha essa interferência de você ter uma postura, de você ter uma apresentação, afinal, você tinha um cargo, tinha uma responsabilidade e acabava interferindo nestes aspectos também, de o gerente achar: “Pô não quero ter um…” Tem que passar muitos valores pessoais e profissionais da pessoa de quem estava administrando ou gerenciando aquela área e então tinha interferência de o cara descobrir se era homossexual e de repente ele ter um preconceito sexual, então isso aflorava. Como é o dia-a-dia do trabalho hoje em dia? Você conhece muito pouco da vida pessoal com quem você trabalha, e lá não. Você conhecia, tudo era um livro aberto. E no início, mais ainda. Porque, como a gente tinha problemas de telefonia, você ligava de Carajás para Belém e Belém completava a sua ligação, e tinha na época dois telefones para 22 mil habitantes.

 

P/2 – Dois telefones?

 

R – É. Então o posto telefônico a TELEPARÁ era do lado do Arizona, o bar onde todo mundo se encontra. (riso) Os homens se encontram. Que era um boteco.

 

P/2 – Arizona, como que é?

 

R – Arizona, um boteco que tinha uns copinhos daqueles... Como é que chama aqueles copinhos? Aquele copo de vidro de bar. E o cara colocava uns quatrocentos copos e enchia de pinga, porque não dava tempo quando os clientes chegavam. Ele só ia entregando os copos e abastecendo. Imagina os caras tomando pinga do lado do telefone. Então você ia para a fila, Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal... Você nem pensa em telefonar, porque você não consegue, você vira a noite lá e não liga. Aí você ia telefonar e ouvia o cara: “Fulano, deixa eu falar! Ô, mãe, chama a Maria aí.” “A Maria não está aí, não. Foi à missa.” “Missa, mas hoje não é dia de missa. Onde ela foi?” Então você sabia da vida do cara e o que estava acontecendo em casa porque, para mãe ouvir, o cara tinha que gritar. Então todo mundo sabia notícia de todos. Sem contar, imagina! Cidade pequena, Carajás era mais do que pequena. Um lugar fechado em que você conhecia todo mundo. Aí essa noticiazinha se espalhava. Daqui a cinco minutos todo mundo sabia que a Maria não tinha ido à missa. (risos)

 

P/2 – É, como todo boato, ia aumentando.

 

R – Ela já estava com o padre, não estava na missa. Ela estava com o padre… E por aí.

 

P/2 – Andréa, tinha um código de ética interno?

 

R – Meu?

 

P/2 – Não, interno, dentro de Carajás. Quer dizer, um limite que as pessoas mesmo estabeleciam sem que a empresa tivesse que interferir. 

 

R – Eu acho que sim. Quer dizer, era uma coisa natural em alguns casos a empresa interferir, mas tinha um coleguismo muito grande, sabe? Carajás, hoje eu vejo o pessoal falar: “Nossa, Carajás... Você ficou cinco anos lá?” Ou: “Nunca me imaginei em Carajás.” “O último lugar em que iria trabalhar.” Mas não é o que as pessoas imaginam, você pensar isolado. Porque tinha um coleguismo muito grande. As pessoas no nosso caso, na época, todo mundo foi com espírito de pioneirismo de participar de alguma coisa, fazer alguma coisa em termos. Imagina o projeto começando. É claro que a empresa ofereceu este projeto para muitas pessoas que estavam na ativa, mas muitas não quiseram ir, até pelo que Carajás representava: distância de família, você perder todos os seus vínculos... Mas o desafio contagiou muitas pessoas. Então quem foi para lá no início, e ainda vão até hoje, acredito que hoje continua assim. São pessoas que gostam de desafios, gostam de fazer coisas diferentes, e todo mundo no mesmo barco. Imagina! Todo mundo longe da família, todo mundo foi para lá para ganhar experiência ou ganhar grana. Tem muita gente que foi para isso, que é uma oportunidade de juntar dinheiro. E convivência, você passava a conviver e trabalhar com as mesmas pessoas, então os laços se fortaleciam. Em compensação você trabalhava quase o tempo todo. Eu encontrava com você no ônibus, já começava a trabalhar: “Ô, Senhor Carlos, quando a gente for se encontrar na filmagem, você não sei o quê, não sei o quê.” Aí encontrava com a Claudia no almoço, já tinha uma pendência para resolver com ela, a oportunidade de ter encontrado. No fim de semana a mesma coisa. E o fato de você estar dentro da empresa, acontecer algum problema, você era facilmente localizado. Não precisava nem ter o celular como a gente tem hoje. Sabia onde o cara morava, até o que ele fazia. Se estava no cinema ou não estava. (riso) Porque o filme que estava passando agradava a ele ou não. Então era assim, a empresa tinha algumas coisas que ela limitava, interferia, mas tinha também esse código nosso lá em termos de empregado. Ao mesmo tempo esse relacionamento muito estreito gerava problemas. Tipo, por exemplo: casais que não estavam muito bem, começavam a ter interesse no parceiro do outro. Então a gente teve alguns casos de adultério, e vai por aí. Essa proximidade era boa, era gostosa, a gente brincava que tudo era motivo para fazer um churrasco. Chegava um, fazia churrasco. Nascia um, fazia churrasco. Morria outro, fazia churrasco. (risos) Tudo. Então eu estou falando da parte de solteiros. A gente tinha muito, a gente era um bando de solteiros, um punhado de gente recém formada que tinha ido para lá. Então a gente se reunia cada hora na casa de um para tomar uma cervejinha, um vinho. Éramos adotados pelos casados também: “Ah, vai almoçar lá em casa.” A gente: “Oba, hoje vou passar bem.” Um vai fazer uma festa. Outro vai fazer uma reunião. E tinha essas interferências também, que aí eram pessoais. Por exemplo, eu me lembro, que o pessoal ficava incomodado de eu não ter um namorado. Que tinha que arrumar um namorado no início. E cada uma das minhas colegas dessa equipe, psicóloga, pedagoga e tal, tinha uma preferência: “Você deve namorar com fulano.” “Fulano que é um bom partido.” “Siclano que é.” E aí arrumavam uns encontros para a gente tipo assim: “Ó, vai almoçar lá em casa.” Na hora em que eu ia almoçar, estava lá o pretendente, e a gente curtia muito isso. E um ficava gozando o outro. “Será que a gente vai namorar mesmo?”. (risos) Ou então davam opinião: “Ah, você devia usar o cabelo assim.” “Você devia usar uma roupa mais curta.” “Você devia fazer não sei o quê.” Que no início, para mim, incomodava demais. Porque eu, acostumada com o anonimato do Rio de Janeiro, se eu andar pelada ninguém nem dá notícia. Uma cidade que estou, sabiam quem eu era, o que gostava, o que fazia, se eu ia estar não sei onde. Aí no fundo eu acabei me distanciando um pouquinho para poder atuar e as pessoas terem uma certa credibilidade em mim e também… Interfere, mas até pouco... Espera aí, está começando a incomodar. Como é que eu uso o meu cabelo é meu departamento. (riso)

 

P/1 – Você também morava em alojamento?

 

R – Morava. A Vale tinha um critério. O pessoal de nível superior... Ela tinha alojamento para o pessoal da obra, e o nosso, que já ia ficar lá, era casa. 

 

P/1 – Casa, com mais pessoas.

 

R – É. Casa com vários quartos. Mas em uma época, o quarto que era para ter uma tinha duas pessoas.

 

P/1 – Você comentou do alcoolismo. Era um problema muito grande ali? Precisaram ser realizados programas? Como era isso?

 

R – Não, não. A Vale tinha um programa de alcoolismo, como desenvolveu depois o programa contra o fumo, que ela ajudava e vai por aí. Programa de preparação de aposentadoria, aqueles trabalhos que eu fazia, tinha campanha de operário padrão. Tinha os programas e a gente tinha os casos. Tinha alguém que já bebia, foi para Carajás e passou a beber mais. Ela tinha na época convênios com algumas instituições, você mandava a pessoa para lá, e ela era internada para desintoxicar. Eu não diria que era um grande problema em Carajás o alcoolismo, não. Talvez alguma pessoa que não tivesse problema de alcoolismo poderia começar a ficar em Carajás. Porque é aquela coisa: morreu, se você toma cerveja, nasceu. Você toma cerveja com churrasco, você acabava bebendo muito mais. Era mais um pretexto para se reunir. “Ah, vamos em casa, vamos tomar uma cervejinha.”

 

P/1 – Fazia parte então dos programas da própria empresa que já eram... 

 

R – O alcoolismo fazia.

 

P/1 – E as atividades de lazer? O que a empresa oferecia em termos da própria cidade? E o que era feito ocasionalmente, especificamente para os empregados?

 

R – A Vale teve uma preocupação muito grande em criar um espaço para que as pessoas ficassem lá uns quatrocentos anos, né? (risos) Então, quinhentos... As pessoas brincavam que eu gostava tanto de Carajás, que ia ser a última. Quando passasse o último vagão de trem, estava eu lá, fechando a porteira, o portão. E eu também não gostava que ninguém falasse mal de Carajás. As pessoas diziam assim: “Mas você defende Carajás.” Eu disse assim: “Eu não. Eu gosto daqui, estou porque gosto. E vou ficar aqui enquanto estiver bom.” “Agora, se você estiver tão insatisfeita assim…” A gente brincava que mala era cachorrinha. “Pega a sua cachorrinha e vai embora. Mas não fica aqui conosco. E passa a ver o que ter de bom aqui. Tem muita coisa boa.” Agora, não tem a praia do Rio. Não tem as boates, os outros programas, mas veja que tem bom contato com a natureza, isso é importante. Mas Carajás, a Vale criou uma infraestrutura muito grande. Ela fez um clube, não no início. Tinha piscina olímpica, tinha quadra com revestimento acústico, e você tinha os programas da natureza ali mesmo. Lagoa, você ir para uma cachoeira, você ir nadar no rio, lá em Marabá. Duzentos quilômetros para você ir à praia. Praia de rio! Você já ouviu falar? Praia de rio. É jóia. Mas tinha as coisas assim: armava eventos, shows, trazia cantores, filmes. Ela fez um teatro que eu custei para ver em Belo Horizonte, Rio, igual ao de Carajás. Aquele negócio das poltronas - como a gente vê no cinema - inclinadas para as pessoas não atrapalharem a visão. Uma cadeira toda confortável, ampla, inclinada, muito legal. Um revestimento acústico perfeito. Então, ela colocava filmes, as novidades que estavam passando aqui no Rio e em Belo Horizonte. A gente, de repente, éramos os primeiros a ver. Esses filmes bons tinham peça de teatro que ela trazia, trazia shows à comunidade, ela tinha uma preocupação muito grande nesses clubes. Então os filhos de empregados tinham opção de fazer teatro, participar da banda, grupo de capoeira, de ginástica, teatro, sabe? Se envolvia. Nós tínhamos na comunidade também coisas para as esposas, então você tinha oficinas de arte, grupos de trabalho tipo artesanato, costura, não sei o quê, atividades para as esposas se ocuparem também. Então tinha muita coisa em Carajás, bastava você querer fazer. E o que acontecia: você fazia muito mais do que você faria aqui no Rio. Por quê? Aqui no Rio quantas vezes você vai à praia? Às vezes você passa um mês sem ir à praia. Então a gente fala praia. A gente aqui não sai tanto. E lá tinha um filme, você ia ao cinema sempre. Você acabava curtindo tudo que Carajás te proporcionava pela disponibilidade de tempo e pela facilidade. Era tudo ali na esquina, pertinho. Eu, pessoalmente, nunca comprei carro em Carajás. Eu tinha uma bicicleta, que era o carro lá de casa, das meninas. Minha colega estava atrasada para a aula de inglês, vai para a garupa, eu ia pedalando, levava ela. (risos) Eu fazia compras a seis quilômetros na Vila do Núcleo, de bicicleta e voltava. E ia passear de bicicleta, que é muito plano, um lugar maravilhoso, lindo. Você andava na estrada vendo bichinho, grilinho, passarinho colorido, aquele silêncio. De vez em quando passava um carro. Então eu amava andar de bicicleta. Então eu disse: “Não compro carro.” Porque se você comprar carro, você não faz outra coisa senão andar de carro. Não era tão conhecida, porque eu brincava que eu conhecia 20% da população e os outros 80% me conheciam. Porque “Andréa”, poucas mulheres, meu nome era raríssimo lá. Não tinha. Acho que eu não conheci depois outra Andréa. E o fato de ser assistente social, todo mundo...  Eu brincava que o dia que eu estava atrasada e queria uma carona, eu olhava para trás assim, parava um carro e eu dizia: “Oi, tudo bom? Me dá uma carona.” E pegava a carona. Às vezes eu não conhecia nem a pessoa e o cara me cumprimentava, ou a mulher: “Oi, Andréa! Tudo bom?” Eu não sabia quem era, era super tranquilo. E a gente fazia conforme eu te falei, as próprias pessoas criavam seus lazeres de reunir, fazer um programa, pescar no Itacanhuns, acampar no M1. Você acaba criando oportunidades para você descontrair e fugir um pouquinho da rotina. E o interessante é que os filhos de empregados, por exemplo, faziam atividades que os empregados não teriam condições de fazer aqui. Por exemplo, um menino frequentava a banda, era grupo de teatro, era do grupo de coral. Tanto tocava, cantava, dramatizava, praticava esporte, tinha aula de inglês, e a mãe dele não ficava neurótica de ficar dirigindo, virando motorista de filho, que é o que sobra aqui para a gente, ter que levar menino na hora. O menino sozinho ia nesses lugares. A escola proporcionava e incentivava também estas atividades. Então as crianças lá, de um modo geral, os adolescentes têm uma atividade muito intensa, uma vida muito intensa, muito maior do que teriam aqui. Agora, ficam alienados também. Acha que vai atravessar a rua e não precisa olhar porque o carro pára. Deixam brinquedo na rua porque ninguém pega. Fala com qualquer um porque todo mundo é da empresa, ou é amigo do pai, ou é amigo da mãe. Não tem ladrão. Não tem essas neuras todas. 

 

P/1 – Essas atividades dos adolescentes que você está dizendo, eram gratuitos esses cursos?

 

R – Quase todos. Era assim: teve uma época que a gente teve uma preocupação de fazer alguma coisa pelo menos simbólica, até para se dar valor. Depois passou a ser explorado pela própria comunidade. Um cara que foi lá, montou um grupinho de não sei o quê, que antes as escolas proporcionavam, o clube proporciona gratuitamente. A empresa tinha uma preocupação com relação à casa. Pagar um valor simbólico, cinco reais por mês, para não caracterizar que essa casa era sua e que você estava pagando alguma coisa. No início a gente não pagava nem água, luz, nem nada. Depois a empresa começou a cobrar algumas coisas dessas. Aí já não era nem na minha época mais. 

 

P/2 – Como é que vocês tinham? Tinham um administrador ou a população tinha algum representante?

 

R – Tinha um prefeito?

 

P/2 – É isso... Tinha um prefeito?

 

R – Você tinha, na realidade, duas equipes. Eu trabalhei primeiro nesta equipe que se chama Administração Núcleo, que seria o prefeito, entre aspas. O gerente lá dessa área é que fica ligado a ele, ao teatro, à cooperativa, à feira, ao hospital, não sei o quê. E tem uma equipe que trabalha lá, administrador, psicólogo, não sei o quê, que atua na comunidade coordenando essas áreas ou os eventos que tinham lá. E tinha a equipe da mina, o pessoal que trabalhava na mina, na operação, tirando minério, beneficiando esse minério e as outras atividades afins. Aí a gente brincava que era o prefeito mas, na realidade…

 

P/2 – Não tinha essa função. 

 

R – Não!

 

P/2 – Parauapebas tinha alguma relação? Seu trabalho, por exemplo, tinha reflexo em Parauapebas por quê?

 

R – A Vale tinha uma atuação muito grande na comunidade, então, por exemplo, nas escolas, a gente tinha um trabalho de melhorar o nível das professoras. Então trazia essas professoras para fazer reciclagem, treinamento, dava oportunidade, dava recurso material e financeiro para essas escolas. E aí o que aconteceu? A gente atuava na comunidade diretamente ou indiretamente. Muitos casos de recrutamento se faziam lá na Parauapebas, no início. E eu, pessoalmente, trabalhava não diretamente, mas mais indiretamente nessa equipe que tinha psicólogo, pedagogo, assistente social... Eu como assistente social. Eu tinha colegas, tinha uma pedagoga que era responsável por esse programa de alfabetização. Então às vezes eu ia com ela, participava das aventuras, ia de helicóptero para um lugar isolado para treinar as professoras, ver o que elas estavam fazendo, acompanhar o trabalho. A Vale foi essencial para o desenvolvimento da comunidade porque ela não se restringia à atuação lá na empresa, ela tinha uma preocupação muito grande com as áreas ao redor dela. Este trabalho que a gente fazia com o menor aprendiz, de formar, de sair um mecânico, um eletricista, uma secretária, e depois esse menor ficava um ano com a gente, ele tinha grandes chances de ser aproveitado lá na empresa. No início praticamente todo mundo era aproveitado, só aquele que não levava muito jeito. E esse mesmo ia para a terra dele, voltava para Marabá, para Curionópolis, Parauapebas e era um excelente profissional para aquela comunidade. Então, quem não era aproveitado pela empresa, era aproveitado pela comunidade. E o que acontecia:, enquanto menor, ele já era quase que o responsável pela renda familiar. O que ele ganhava no mês, o pai demorava alguns meses para ganhar. E ele ganhava líquido porque não tinha despesa. A empresa bancava tudo. Então o salariozinho dele, um salário mínimo que ele recebia, era uma fortuna para a família dele. A gente teve alguns problemas era de readaptação. Essa criança, esse adolescente que passou a ter tudo, acesso a tudo, voltar para a comunidade dele, para aquela casa que não tinha luz, não tinha televisão, não tinha banheiro, era uma fossa e assim por diante.

 

P/2 – Vocês iam buscar a criança? Como era?

 

R – Tinha um trabalho junto às escolas e às comunidades, a gente... Tipo um recrutamento. E aí você tinha a oportunidade de desenvolver esse jovem, moldar. Porque era bom para a empresa, no final saia alguém com um conhecimento técnico que era difícil de se encontrar na região para as operações mais básicas, novinho, apto no sentido de ser facilmente moldável, sem vícios, não tinha trabalhado em outras empresas, com alguns cacoetes, e apto para atender, trabalhar e crescer. Tinha os opostos também. Tinha aquele cara que trabalhava a vida inteira dele em empreiteira. Ele ficava um ano, de repente queria viajar, pedir as contas, pedia para mandar embora. Aí ia trabalhar na Vale. E achava, chamava a Vale de “gatinha”, um conceito de gato em termos de empresa. Trabalho na “gato” no sentido de mamar. E a gente tinha a maior dificuldade de mostrar para o cara que a Vale não era uma “gatinha”, era uma “gatona”. Então que ele tomasse cuidado e tentasse resguardar o emprego dele, porque não era tão fácil arrumar uma outra boca daquela, né? (risos) E era interessantíssimo, você ia ao supermercado, o carrinho dessas pessoas mais simples eram só supérfluos. O cara desbundava de ter dinheiro. Danonezinhos, Yakults da vida, e Sucrilhos de não se o quê, DanUps, e todas estas besteira de supérfluos que você na sua casa compra uma vez ou outra, como mais uma sobremesa para o seu filho. O carro deles era cheio de supérfluos. E quando aparecia uma novidade... Chegou uma escada, era briga. Se você não comprasse, se estava precisando de uma escada, não vai comprar no segundo dia, não, que não tinha mais escada. O consumo era assustador. Eu tive um colega que foi trabalhar em Carajás em uma empreiteira, aí ele ia montar uma casa para ele enquanto estava em Carajás, e a gente foi comprar tudo de segunda mão, fui ajudá-lo. Eu fiquei assustada! Eu conhecia as pessoas. Na época, a gente conhecia quanto as pessoas ganhavam porque eram faixas. Ah, eu sou 3A. Então você sabe 3A ganha 722 reais e 52 centavos. Como você sabia? Quer dizer, voc~e sabia quem trabalhava na área de Recursos Humanos. Hoje você não sabe quanto que cada um ganha, nem o quanto você ganha. (risos) Você não sabe seu nível, que agora não tem mais esse negócio, eu sou L, 5L agora, depois eu vou ser 5M, e assim por diante. Agora não tem mais essa… Você tinha noção ainda sobre o que você poderia crescer na empresa. Mas o interessante é que eu fui visitar, e o pessoal que ganhava pouco e estava vendendo um fogão novinho. Tinha quatro bocas, que a mulher tinha acabado de comprar um fogão de seis bocas. A geladeira era triplex. Na época, gente, estamos falando de 1985, 1986, até 1990. Todas as novidades que surgiam, o cara já tinha. Tá novo, tá funcionando, e ele queria comprar um novo, o mais moderno. E às vezes era interessante porque eu frequentava aquela casa e frequentava a casa do chefão. O gerente geral dele. E o cara tinha um fogão quatro bocas. E o cara tinha um fogão seis bocas e a geladeira triplex. Porque o outro trouxe, que morava lá, sei lá, em Itabira, e levou para lá. E não sentiu necessidade de trocar porque estava funcionando. Então os caras consumiam assustadoramente e a gente tinha uma preocupação com isso. E o dia em que ia embora, saía com aquele tanto de coisa e não tinha para onde levar. Não tinha casa, ele não tinha pensado como a gente pensava. Vou juntar porque eu quero comprar uma casa no dia que eu sair aqui de Carajás ou sair da Vale, eu tenho meu cantinho. Ele não. Ele não se preocupava com aquilo. Ele tinha som! Interessantíssimo, eu lembro que tinha o Silizio, que era Gerente Geral, ele tinha uma Brasília, aquela Brasília, que na época Brasília já não era um carro muito novo. Mas por quê? Ele estava em Carajás. Não precisava de um carro melhor. E tinha subordinado dele que tinha sei lá, vou te dizer, nem sei, não sou boa de carro, não, mas sei lá, um Tempra, um Logus ou troço assim. Muito mais caro, porque a necessidade de afirmação dessas pessoas era muito grande. E de repente o deslumbre de ter dinheiro sem saber o que se faz com dinheiro. “Gente, estou com esse tanto dinheiro aqui. O que eu faço com ele?” Não, porque nunca teve. Estou falando dos níveis mais baixos. E sobrava dinheiro, muito dinheiro. Então ia na casa de um fulano lá, o fulano tinha um som e ainda queria comprar um som. Aí o filho pedia ao pai: “Eu quero uma bicicleta de dez marchas.” Aí o pai comprava. Interessante, no início as casas não tinham cama, não tinha mesa, mas tinham um som última geração disponível em Carajás. Com a televisão, se fosse hoje, quarenta polegadas, controle remoto com vídeo cassete seis cabeças, sei lá, sabe? Mas não tinha o resto básico. Por quê? A primeira coisa que o pessoal compra é isso. Sonhou em ter uma televisão, tem dinheiro. “Vou comprar cama? Eu já estou acostumado a dormir no chão.” Comprou uma televisão. O que você faria? Você? Aí vinha o choque de valores. Eu ia comprar primeiro a cama, depois eu iria comprar a televisão. Que aí os valores eram completamente diferentes, as necessidades, os interesses. 

 

P/2 - Quem é a população mais carente, que está ao redor do núcleo urbano de Carajás? Quer dizer, como eles viam isso? De certa forma um núcleo de prosperidade, não?

 

R – A meta de muita gente era subir, brincavam, de subir a serra, e muitos conseguiam. O que aconteceu depois é que a Vale fez, até para desenvolver, eu já não estava lá, foi construir casas em Parauapebas para o pessoal descer. Ela parou de construir casas em Carajás, que teoricamente teria que aumentar. Os solteiros estavam aí e iam casar, constituir novas famílias. Precisavam de casa para incentivar e até você ter um lugar, uma comunidade aberta para se morar, e não uma comunidade fechada como Carajás, que para alguém ir lá te visitar, tem que ter autorização, se identificar na portaria. Eu tinha muito pouca atuação em Parauapebas, como eu te falei. Mas eu senti quando, na época em que fui responsável por implantar o Núcleo de Assistência Médica lá em Carajás, eu tinha que credenciar médicos e instituições. Para atender o pai de um empregado que morava na região, em Parauapebas, em Marabá, o filho de alguém, tal. E a dificuldade que a gente tinha era a carência em termos de recursos e até nível profissional. Você ia credenciar um médico: “Ah, Doutor Fulano de tal é ótimo, está aqui um tempão, muito bom!” Aí eu ia. “Doutor Fulano de Tal, o Senhor quer ser credenciado?” “Ah, quero sim!” Por favor, me dá seu diploma. Às vezes o cara não tinha diploma. Ou tinha diploma, mas não tinha especialização. E atuava, por exemplo, como ortopedista, sem nunca ter feito o curso. E o CTI, não esqueço um dia que eu entrei no hospital, numa clínica lá, tida como boa. Aí fui conhecer as dependências. Na hora que entro no CTI, a luz apagada, aí uma greta assim, dava para eu ver do lado de fora. Imagina! De madeira... Que nível você tinha de esterilização? Uma greta enorme, dava para ver do lado de fora, a vegetação que estava lá. E, com isso, o que aconteceu? O pessoal para se credenciar começou a melhorar as instalações. A gente no início teve que credenciar muita coisa. O critério que a Vale usava, o pessoal do Rio, que era da Normativa, morria de rir comigo, porque tudo que eles exigiam, não conseguia. Se fosse seguir tudo o que tem que ter, não credencia ninguém. Então a gente começava a negociar o que podia fazer, o que era viável, o que era o mínimo necessário, aquilo que você não pode abrir mão. E com isso o que acontecia? Você credenciava aquele que tinha greta. Aí ganhava uma graninha, ele pegava e construía um prédio, ou então mandava fechar a greta. E com isso melhorando. E para a gente, de repente, credenciar ou estender o credenciamento, ele contratava mais especialistas. Aí você já alavancava em termos de nível técnico do pessoal e por aí vai. Então a Vale foi essencial para isso, para Parauapebas e para a região. Teve uma época que colocou um quartel lá, da Polícia Militar, então melhorou o nível do pessoal. No início até tinha um caso, eu não peguei, mas engraçadíssimo, que a Vale fez uma casa lá para o pessoal ir se distrair, encontrar umas mulheres, extravasar, e aí chegou um cara lá que foi conhecer, acho que um gerente. E ele disse: “Onde tem a casa da Vale aqui?” “Ah, o puteiro da Vale? Ah, o Senhor vira ali. Desce a ponte assim, depois da ponte o senhor vira, atravessa o rio e não sei o quê.” (riso) Sei que me contam - não sei se isso é verdade ou folclore - que as mesas e camas tinham todas o número de patrimônio da Vale. (riso) Essa aí não sei se é verdade. É que o pessoal teve que montar um lugar. Porque, imagina... (riso) E no início era interessante, você tinha que pensar em tudo, as necessidades básicas numa cidade... A empresa teve que, vamos dizer assim, se preocupar. Cinema... Aí tem um engenheiro da Vale que foi estudar e ver qual o som ideal. Aí você já pegava aquele que tinha uma bossa, que gostava  disso. “Pô, vai lá e descobre qual o aparelho bom para a gente comprar.” E eu brincava que era tudo aprendiz de feiticeiro. Que ninguém era especialista em nada, mas que tinha que fazer e acabava tendo que ler, tendo que se aprofundar, perguntar, descobrir como que é e fazer. E tinha que usar muita criatividade, porque às vezes não tinha recurso, tinha que inovar e dar um jeito! E dava certo porque você acaba movendo aquela massa de empregados com um objetivo, e todo mundo empolgado. E muitas coisas em seu pró mesmo, você ia usufruir daquilo. E não era só na comunidade que tinha aprendiz de feiticeiro. Era acho que em tudo. (risos) Porque o profissional que nós tínhamos lá era caro. Empregado na Vale em Carajás era muito caro. Imagina quanto que eu custava para a empresa. Assistência médica, casa, transporte, e vai por aí. Então você tinha que ter um grupo seleto de empregados, e com uma dedicação grande para suprir toda necessidade. O que não acontece hoje para mim. O meu custo hoje na empresa é muito menor do que foi em Carajás. Por que hoje ela se preocupa com o quê? Comigo no trabalho. Antes ela se preocupava comigo no trabalho, quer dizer, despesas inerentes ao meu desempenho profissional, e com a minha vida pessoal. Tudo que eu precisava para estar ali em Carajás. De repente, um convênio... Tinha um tal de tratamento fora de domicílio. Estou tentando lembrar é a sigla. Se você estivesse passando mal e a Vale não tivesse recursos em Carajás, te mandava para um hospital acompanhado de alguém. Pagava o hotel para a pessoa, todas as despesas de traslado, tudo para aquela pessoa. Quer dizer, se é você com seu filho, ou você com sua esposa. Então era uma despesa alta.

 

P/1 – Ainda hoje é assim em Carajás?

 

R – Eu perdi muito contato com a estrutura de Carajás. Como é que Carajás funciona hoje. Eu fui a Carajás depois que eu saí só uma vez. Fizeram uma homenagem a meu pai, deram o nome dele ao Centro de Formação Profissional lá de Carajás, que eu acho muito legal, que foi meu último trabalho lá, e depois prestigiaram ele.

 

P/1 – Ele não contou.

 

R – Não contou? (risos) Tá vendo … (risos) E eu já estava em Santa Luzia, acho que 1995, 1996, e aí me falaram: “Vão fazer uma surpresa para o seu pai. Ele não vai saber que você vai. Nós vamos te mandar para Carajás, você vai em outro vôo.” Fui por Belém. Ele foi direto para Carajás. E a ideia era que na hora da homenagem eu aparecesse, mas eu disse: “Não, eu não vou confiar no coração do meu pai, deixa eu aparecer antes, porque é muita emoção junto!” E aí foi legal eu, como filha, presenciar uma homenagem que a minha empresa estava prestando para o meu pai. Foi legal mesmo! Aí eu voltei. Mas foi vapt-vupt. Aquela coisa de ir num dia e no dia seguinte voltar. Então, não cheguei muito... E eu não acompanhei muito o trabalho de Carajás, porque as pessoas que eu trabalhei, os vínculos que eu tinha, as pessoas que eu tinha acabaram também saindo, sendo transferidas. E eu acabei tendo contato com elas, mas em uma outra realidade. Elas já num outro local de trabalho ou mesmo fora da empresa. 

 

P/1 – E você fica em Carajás até quando? E por que você sai?

 

R – Eu fiquei em Carajás durante cinco anos. E durante esses cinco anos eu tive quatro oportunidades de transferência. O que na Vale, em Carajás, era raro, como Assistente Social. E eu adorava Carajás. Só que eu sabia que Carajás tinha um limite. Chegava um tempo que você ia saturar e querer sair. Na minha quarta oportunidade de ser transferida, não foi como Assistente Social, foi para desenvolver um trabalho numa secretaria lá em Vitória. Na verdade para trabalhar em Vitória, na ferrovia. E me deram como desafio estruturar uma secretaria que estava ligada aos superintendente e que passaria a ficar com o gerente de apoio. E queriam que eu estruturasse a secretaria, racionalizasse e modernizasse para poder ser transferida e não ficar mais ligada ao superintendente. E aí eu pensei: “Daqui a pouco estou jogando minha sorte fora. Daqui a pouco eu quero sair daqui e não vou ter oportunidade.” E uma coisa que sempre me moveu é desafio. Sabe aquela coisa de... Ser Assistente Social na Vale. Eu já não atuava mais como Assistente Social e conhecia muito o trabalho das minhas colegas. E não me motivava ir para um lugar que já está quarenta anos com o serviço social implantado para desenvolver um programa de serviço social. Quando foi isso diferente, racionalizar, modernizar, uma área de uma unidade diferente - no caso a ferrovia -, aí eu resolvi ir. 

 

P/1 – Mas por que esse convite? Você como Assistente Social, convidada para uma reestruturação?

 

R – Eu só atuei como Assistente Social nos meus seis primeiros meses na empresa. Só Assistente Social, o que aconteceu? Eu era uma das poucas solteiras da equipe, com disponibilidade e com perfil assim, fui muito de “não sei fazer mas vou aprender”. Tem que fazer? Tem. Então tá. E acabava me destacando naquilo que eu fazia. E meu gerente começou a me usar muito como coringa. Férias da responsável pelo setor de pessoal, “vai a Andréa”, eu ficava no lugar. Recrutamento, treinamento e assim por diante. Até para o médico, eu brincava que eu tirava o lugar dele. Mas aí era mais na parte administrativa, comprar remédio, liberar atestado, mas eu brincava que se demorasse um pouquinho eu ia estar receitando também. E o que aconteceu? No meu primeiro ano em Carajás eu já fui responsável por estruturar um setor de benefício e, depois, implantar um Núcleo de Assistência Médica. Depois teve um recrutamento enorme em Carajás e eu fiquei à frente dele porque a pessoa que estava, estava de férias, aí coincidiu. Depois fui mexer com Centro de Formação Profissional, reestruturar ele porque a Vale estava mudando o perfil de mecânico, eletricista, de operador, para operador mantenedor. Então nós não tínhamos mais sentido em formar menor eletricista, mecânico, e sim operador mantenedor. Então tinha todo aquele trabalho com o SENAC para reestruturar a formação deles, o currículo, conhecimento básico, e também o funcionamento do Centro de Formação. Mas eu passei, além destas coisas que eu fiquei responsável… Ah, a secretaria nossa... Eu cheguei a fazer um trabalho na secretaria da SUMIC, que eu acabei descobrindo que eu tinha um perfil muito grande em O e M, de racionalização, modernização, implantar coisas novas, estruturar...

 

P/1 – OIM?

 

R – É Organização e Métodos. Aí, o que aconteceu, numa visita do pessoal de Vitória, do meu futuro chefe. Ele me viu lá mexendo e achou interessante uma Assistente Social que tinha um perfil mais generalista. E nesta época eu estava dando uma ajuda, com o pessoal lá na secretaria. Aí acho que depois surgiu aquela coisa, vamos ter que organizar a secretaria. Tem até uma moça lá em Carajás que mexeu com isso. E aí, enquanto eu estava para ir para Vitória, aí pesou, eu estava satisfeita, não planejava sair de Carajás. Mas aí pesou esta questão de: “Depois eu vou querer? E aí será que eu vou ter uma oportunidade? Uma oportunidade boa?” O que acontecia nessa época? Quem estava em Carajás, todo mundo sabia que tinha um limite. Depois ia saturar. Ou porque o filho ia estar na época de ir para a faculdade, ou porque a pessoa cansou mesmo, desgastou. Então tinha uma espécie de um acordo verbal. Tem uma vaga de Assistente Social em Itabira. Ela saiu. Foi demitida ou aposentou. Mandava a de Carajás para lá, e contratava uma nova para Carajás. Com isso, estava renovando o quadro. Então por isso que eu tive essas oportunidades enquanto Assistente Social antes de aceitar. E aí fui para Vitória mexer com a secretaria. Era uma equipe muito grande a secretaria. E eu sai de uma Vale moderna, inovadora, enxuta - porque é caro um empregado -, para uma Vale mais formal, mais tradicional, da Vale que era a ferrovia. E que tinha protocolo. Eu acostumada a encontrar com você e: “Resolve uma para mim, não sei o quê, ô. Estou com problemas lá na minha sala. Dá para você mandar consertar? Fazer uma manutenção e pronto.” E pronto, não mandava nada por escrito, não fazia nada. E  estranha era toda formal. Essa secretaria era responsável por aquilo que eu chamava de “au-au”. De fulano “au” ciclano. Se eu tinha que pedir para a manutenção, eu pedia para o meu chefe, de Andréa “au” fulano. “Favor autorizar para eu pregar um quadro na minha sala.” Aí ele mandava para o chefe do cara da manutenção. Aí o cara mandava para o responsável por pregar o quadro, e assim por diante. Só que isso era papel, tinha pastinha, se chamava processo, tinha protocolo. E tinha contínuo, que era o cara que ia na minha sala, pegava minha pasta, colocava na sala do meu chefe, depois ia do meu chefe, põe na pasta. Imagina quanto tempo isso demorava.

 

P/1 – Andréa, só um minutinho por favor!

 

(pausa)



P/1 – Vou ligar, vamos ver. A gente vai falar de Vitória. Depois de Vitória, você foi para Belo Horizonte?

 

R –  Acho melhor passar, tem que ser vapt-vupt.

 

P/1 – E aí, Andréa? Você chegou na secretaria para fazer esse trabalho. Você estava relatando como era na secretaria. E aí, o que foi empreendido?

 

R – O interessante é que eu fui numa época mas, antes das mudanças que ocorreram na Vale, na gestão do Wilson Brunner, e era uma estrutura bem formal mesmo. E eu comecei a fazer um trabalho que eu comecei a mexer com tudo, com as pessoas, com as áreas, tipo assim: tinha ligado à secretaria um setor de xerox, que tinha várias áreas de xerox com várias pessoas. Então tinha um gerente geral que tinha uma xerox do lado dele e a gente foi fazer um trabalho de racionalizar, que então tinha que ter uma central de xerox. Não ia ter tantas equipes espalhadas para atender usuários e a gente queria racionalizar em termos de espaço físico também. Aí eu lembro do pessoal mexendo comigo: “Menina, menina.Você foge e não faz muito auê, não, que você volta para Carajás.” Por que menina? Eu era novinha. Eu tinha cinco anos de Vale, e tinha gente com 35 anos de Vale. O mais novo devia ter uns vinte e poucos. Então era assim, neném em termos de Vale. Eu lembro do meu gerente, que eu fiz esse trabalho para ele, a pessoa com quem trabalhei, ele ficava assim brincando comigo. Que na época tinha uma novela chamada Rainha da Sucata e eu tinha que modernizar a secretaria mas não tinha verba. Que na empresa você tem que fazer orçamento, tem que ser aprovado. Aí o que eu fiz? Com o apoio dele, é claro. O corredor da superintendência, eu coloquei tudo para fora: mesa, cadeira, tudo que estava sobrando. Por quê? Nós tínhamos um contínuo que tinha mesa, cadeira, sofá, cofre, armário… O cara era contínuo! Mas é porque o fulano saiu, aí tinha um cofre, deu para ele. Tinha gente que comprava de uma cooperativa, comprava óleo, açúcar, guardava no armário da empresa para levar para quando estivesse acabando em casa, para a mulher não gastar tudo, e assim por diante. Aí aquela coisa de trabalhar as pessoas, para... “Vem cá, você precisa disso?” “Não.” “Então vamos liberar?” “Você precisa de quê? Um lugar para você sentar.” Você está falando isso com pessoas de trinta anos de empresa, pessoas antigas. E eu tinha que implementar essas mudanças. Mas de que forma? Nova, de outro lugar, então eu comecei a criar grupos para a gente discutir. Tinha representante de cada área. Porque na secretaria tinha várias sub-áreas. Tinha xerox, teletipo... Como fala?

 

P/1 – Telégrafo...

 

R – É, telex... Não sei o quê. Tinha a parte de cadastro, a parte de datilografia. E cada setorzinho desse que eu estou falando, tinha um supervisor de uma equipe. Então, criava reuniões diárias, com os representantes de cada área dessa. Aí a gente discutia, o que a gente podia fazer, melhorar. Aí o pessoal sugeria desde coisas realmente interessantes, à coisas do tipo: “Olha...  Podia tirar aquele relógio que fica de costas para mim? Porque eu fico tendo que virar para olhar as horas. Porque se a gente colocar de lado, aí fica mais fácil para mim.” Daí as sugestões eram de todos os níveis. E a gente trabalhando isso. E como eu tenho uma formação de Serviço Social, muita técnica de grupo, e tentando motivar as pessoas, e passar a importância dessa mudança. Mas a gente tinha que validar isso com os supervisores de cada área. Os caras filtravam o que era importante, entendeu? E depois bater o martelo pelo supervisor geral da secretaria. Então tinha uma hierarquia danada nas mudanças. E eu, com muito jeito, ia fazendo as mudanças. E eu lembro que esse meu gerente fica brincando comigo negócio da “Rainha da Sucata”, que aos poucos fui convencendo o pessoal e fui tirando as coisas. E chegou um ponto, em que eu estava com muita coisa disponível. E eu tinha que trocar isso por coisas que eu precisava para a secretaria: computador, cadeira giratória em vez de cadeira fixa para o pessoal digitar. E coloquei tudo no corredor. Aí você passava e falava assim: “Olha, Andréa, estou precisando de uma mesa dessa. Me dá?” “Não. Dar, não! Troco. Troco por uma cadeira giratória. Troco por não sei o quê.” E eu lembro que tinha um gerente lá CTC, que tinha uma mesa enorme, linda, maravilhosa, e ele queria uma mesa pequenininha. Aí ele queria trocar. E eu fiquei apaixonada com a mesa. Eu disse assim: “Essa mesa vai ficar para mim.” E esse meu gerente brincava que se eu saísse da Vale, eu podia montar um “ferro velho”, que eu levava jeito com esse negócio de troca. Que eu não preocupasse, não. Que se o pessoal ficasse com muita raiva de mim e resolvesse me matar, que essa mesa, ela servia... Era uma mesa enorme, que tinha sido de alguém importante lá. E era um granito muito grosso, muito bonito, que ele dava, aquele granito para ser a minha lápide, e que também me arrumava um ônibus para levar o pessoal lá para o meu enterro. Chegando lá, e ele me falando um negócio desse. E ele foi maravilhoso, ele me deu suporte para fazer estas mudanças numa época em que não se falava em mudança. E o que aconteceu? A gente conseguiu trabalhar o pessoal para mudar. Uma datilógrafa que sempre datilografou na mesma máquina, que colocava uma toalhinha em cima do colo, todo um ritual para trabalhar, a aprender a mexer no computador. E estava super legal, porque ela foi transferida para uma área que a gente tinha que enxugar, para uma área que as pessoas não tinham a experiência dela, então ela se sentiu super valorizada. Que ela era a única que sabia digitar e tal. Pena que esse trabalho culminou com um corte na empresa, e muitas dessas pessoas foram mandadas embora. Então esse reaproveitamento, esse trabalho todo que a gente estava fazendo de reduzir, mas motivando e criando novos horizontes, foi interrompido com essa grande mudança que teve na empresa, que foram uma série de enxugamentos no quadro, uma nova realidade. A SUESTE, então... Eu conheci uma SUESTE formal, toda estruturada, para uma SUESTE cheia de mudanças. Em um ano... Não chegou a um ano, depois que eu estava lá, veio esse momento na empresa, de corte, de redução.

 

P/2 – Quando isso?

 

R – Ah, eu não lembro mais. Foi em 1990... Acho que foi 1991, 1992 que teve na empresa esse processo de demissão. 

 

P/1 – Quantos anos você ficou em Vitória?

 

R – Fiquei cinco em Carajás, três na ferrovia em Vitória e dois na ferrovia em Belo Horizonte. E estou há cinco em Santa Luzia. Então, um total de quinze. To ficando velha, hein, gente. Não façam as contas da minha idade. (risos)

 

P/1 – Mas então, da secretaria da ferrovia em Vitória você foi para ferrovia em Belo Horizonte?

 

R – Aí eu conheci, estava trabalhando em Vitória, eu conheci meu marido, que na época era amigo do meu irmão. Já amigo dele há oito anos e eu não o conhecia. E aí foi paixão à primeira vista. A gente começou a namorar, um programa muito bom que eu recomendo, namoro de dois anos, eu morando em Vitória e ele em Belo Horizonte. Uma estrada muito legal. (risos) Todo fim de semana você pegar nove horas muita curva. E aí de repente surgiu, a gente começou a pensar em casar. E eu tive muita sorte porque eu trabalhava na ferrovia e tinha uma área da ferrovia em Belo Horizonte. Meu marido trabalhava em Belo Horizonte e não tinha chance de ir para Vitória. Do que eu tive a oportunidade: de simplesmente mudar de departamento, mudar de área. Eu fui transferida, eu me lembro, eu só mudei de Vitória para Belo Horizonte, para um outro departamento. Então foi uma transferência super tranquila. Eu brinco que foi uma das transferências mais rápidas que deve ter acontecido na Vale. Que em cinco minutos eu fui transferida, tudo de boca. (riso) Tipo assim, meu chefe disse: “Ah, você quer ir para Belo Horizonte? Vou falar com o superintendente.” “Como você quer ir para Belo Horizonte. Todo mundo está querendo vir de Belo Horizonte para cá. Mas, se você quer é fácil.” Aí ligou para o gerente. “A Andréa está querendo ir para lá.” Eles me conheciam.

 

P/2 – Já conheciam né?

 

R – “Ah, que ótimo!” Porque eu trabalhava em Vitória, depois eu saí da secretaria, eu trabalhei numa área chamada Desenvolvimento de Projetos. Não, primeiro eu fui acessora de Gerente Geral. Então muitas coisas que eu fazia, eu tinha contato com o pessoal, fazia relatório, tivemos um momento de reclassificação dos empregados na Vale. Eu estava à frente disso, então tive contato com todo mundo. Depois eu trabalhei numa área chamada Desenvolvimento de Projeto, deixei de ser assessora do Gerente Geral e fui transferida para o Departamento de Recursos Humanos, e aí fui ficar à frente de uma área chamada de Desenvolvimento de Projetos, que era a gente pensar em algumas coisas para fazer para a ferrovia. Então fizemos o REAL, que era um programa de realocação de Recursos Humanos, Banco Real, Banco de Recursos Humanos Realocados. Plagiamos o Banco Real. Aí eu tinha muito contato com o pessoal, então eu ficava na sede. Sede no sentido de Vitória, então tinha contato geral com o pessoal. Fizemos depois um workshopping, que a gente tinha que reestruturar e atender bem os nossos clientes. E o pessoal estava reclamando da área de treinamento, da área de pessoal, que nós tínhamos uma dificuldade geográfica. Vitória até Itabira, ou ao longo da ferrovia, às vezes as coisas não aconteciam, não chegavam como deveria acontecer. Então a gente começou a chamar os nossos clientes. A gente criou um tal de workshopping para discutir.” Vem cá, qual a missão? O que vocês querem? Qual a visão de futuro? Qual a nossa visão de futuro? Vossos objetivos. O que é atender vocês? As necessidades de vocês.” E aí criamos, depois nos reestruturamos. Então eu tinha muito contato trabalhando nessa área. Aí o Gerente lá me conhecia e disse: “Não, claro.” Fui transferida. Aí liguei para o marido e disse assim: “Olha, estou transferida.” Na época, eu fazia um curso de pós-graduação, aí terminei o curso e vim embora para Belo Horizonte.

 

P/1 – Em que área era o curso?

 

R – Eu fiz na Administração de Recursos Humanos. Porque eu trabalhava em RH, dentre outras coisas, e não tinha formação. Eu sou Assistente Social. Então fiz essa pós.

 

P/1 – Belo Horizonte você vem para ferrovia. 

 

R – Vim para a ferrovia, vim trabalhar aqui e participei... Na época a Vale estava com um problema de qualidade total. Aí eu participei deste programa. Trabalhava também na área de transporte ao longo da linha. Uma forma de a gente divulgar a parte de Recursos Humanos para os empregados. Fiz várias coisas em Belo Horizonte, mais nessa área de apoio de Recursos Humanos. Aí acabou a área que eu atuava, era a quarta regional. E aí eu fui transferida para o Centro de Tecnologia da Vale, centro de pesquisa. E para lá eu fui, inicialmente, para a área de benefício. A gente ia fazer um processo grande de credenciamento de profissionais da empresa. E depois eu passei por várias áreas. Eu, na realidade, tenho dificuldade de definir o que eu fiz na Vale. Ou melhor, o que eu faço na Vale. Ou qual é o meu negócio. Porque eu já trabalhei em várias coisas. No Centro de Pesquisa eu desenvolvi projetos de economia, eu trabalhei na área de economia, trabalhei na área de materiais, na área de serviços gerais. E cada coisa com um foco. Tipo assim, vai e resolve isso. Vai na área de economia que tem um problema de fundo rotativo, localize essa diferença e tenta resolver isso para não ter mais problema, e vai por aí. Agora mesmo, recentemente, eu estava responsável pelo programa Gestão Ambiental, um programa de energia. Então aparecem para mim coisas em que eu nunca mexi. E acho super legal. O que mais me motiva na Vale é isso, e meu sonho é que, enquanto eu trabalhar na Vale, que eu espero que seja por muito tempo, continue sendo sempre assim. Sabe? Desafios constantes, coisa diferente, coisa que eu não sei nem por onde começar. E depois que ela está organizada, estruturada, outra pessoa mexe, e eu vou fazer outra coisa.

 

P/1 – Quer dizer, continua tendo aquele cerne da Assistente Social. Problemas que você tem de solucionar.

 

R – É. (risos) Eu fico pensando se você me perguntasse assim: “Você se arrepende de ter feito Serviço Social?” Eu não. A minha carreira profissional, se eu te falar, eu não atuei como Assistente Social. Eu posso dizer que eu fui uma boa Assistente Social durante quatro anos de formação, de curso. Vibrava e fazia. E depois nunca mais fiz o que geralmente uma Assistente Social faz, em termos de programa e tal. Mas eu acho que toda minha carreira, meus quinze anos de Vale, atuando em outras coisas, com outros títulos que não de Assistente Social, sempre teve a base do Serviço Social nas minha ações, nas minhas preocupações, na coisa de envolver as pessoas, de trabalhar as mudanças de comportamento. Mas se você me perguntar assim: “Você se arrepende de ter feito Serviço Social?” “Seria interessante para você ter feito Administração ou mesmo Engenharia?” Porque engenharia te dá um bom... O que tem de engenheiro na Vale como Administrador, gerenciando, administrando. Eu diria que não, porque eu fiz o Serviço Social por paixão, adorava. Nossa, se você falasse para mim em Serviço Social, meu olho brilhava, eu era apaixonada. E se você perguntar para mim: “Foi legal trabalhar na Vale?” Nossa... Maravilhoso! “Você pensou em trabalhar na Vale?” Nunca. Na minha casa os meus irmãos fizeram engenharia, outro também terminou informática. Esse eu achava, sim: “Vão trabalhar na Vale?” Agora, eu? Assistente Social? Não tinha campo. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Porque eu descobri um perfil meu, diferente do que eu imaginava, essa parte de humanas que era forte. Acabei descobrindo que eu tinha um dom muito forte para desafio, coisa nova, estruturar, melhorar, rever uma rotina, tudo na área administrativa. Então...

 

P/1 – E na Vale você pôde desenvolver essas suas habilidades?

 

R – Tive a sorte de um gerente olhar e dizer assim: “Bem, ou eu estava incomodando muito como Assistente Social, que acho que não era bem o caso, mas quem sabe, essa daí serve para outra coisa, deixa eu aproveitar ela.” E aí me colocou. E aí eu fui criando um perfil e fui criando uma certa fama de uma experiência. Olha, recentemente lá na SUTEC, depois que eu tive um filho... Eu tenho um filhinho de dois anos. Eu voltei de licença, e me deram para fazer o documento de aposentadoria especial para o pessoal que trabalhou lá em Santa Luzia. E para Docegeo do Brasil inteiro. Porque fecharam os escritórios da Docegeo. Eu nunca mexi com isso. E quem mexe com isso em toda a empresa é alguém da área de pessoal. Eu trabalho na área de materiais. Meu último trabalho, antes de fazer licença, foi reestruturar a área de materiais. Nós tínhamos três almoxarifados, zerar os estoques, e substituir os estoques por contratos de fornecimento ou uma por forma de você ter o material no menor custo, no menor prazo. É possível, mas sem estoque, estoque zero que é uma meta de várias áreas da empresa. Que lá era fácil de realizar por ser um Centro de Pesquisa. Você não precisa ter um equipamento, por exemplo, uma peça de um haulpak, que você tem que ter em estoque, porque se não tiver o equipamento pára, de um caminhão. Lá não tem isso, é uma área, um Centro de Pesquisa, você precisa de um monte de reagente, você precisa de vidraria, você precisa de equipamentos da planta piloto, que você consegue fazendo contrato de consignação ou tipo de just-in-time ou assim por diante. Então era meu último trabalho antes de sair de licença. Foi esse e renegociar todos os contratos da Vale, que eu era responsável por contratos e materiais. Reduzi 30% dos nossos contratos de fornecimento de material e de serviço. Meta jóia, né? (risos) Nem tive férias durante minha gravidez porque peguei esse desafio pela frente. Quando eu voltei, o gerente novo me colocou para mexer com a aposentadoria especial, e continuar na área de material para a gente fazer novos contratos. Tínhamos algumas metas para fazer também. E eu fazendo essas duas coisas. Um dia, numa sexta-feira, a auditoria era na semana seguinte, uma auditoria externa. Nós somos certificados 14000. Ele passa e me fala que eu ia ser responsável pelo sistema. E que estava mudando o representante com facilitador. Porque nós estávamos com vários problemas na área, e que seria estratégico a gente ter um novo... Falar para o auditor que nós estávamos com muitos problemas, mas que a gente tinha um novo representante como facilitador que poderia equacionar. Então fui assumir. Tudo meu na Vale. Estou dando exemplo, talvez não seja claro. Quase tudo que eu peguei na Vale foi assim. “Pega e faça.” Começa esse último meu trabalho, que foi esse sistema de Gestão da Qualidade Ambiental, que eu sou responsável na minha área, ou melhor na minha gerência, que é gerência de esporte e logística. Eu tenho cinco papéis no sistema, nas outras áreas. Você tem um representante, um facilitador... Eu sou representante, sou facilitadora, sou coordenadora de área, sou fiscal de contrato e sou auditora. Então ele me deu na véspera da auditoria. Então é interessante que eu recebo os desafios e geralmente é assim: “Toma!” E aí a primeira reação é aquele choque! “Como é que eu começo?” Saiu o cara da manutenção, tinha que ficar alguém responsável pelo programa Gestão da Qualidade, programa da Gestão Ambiental. Tem um tema que é energia, economizar, racionalizar energia. Aí me colocaram para ser responsável. Eu não saco nada de energia, mas eu sei que se você puser um dedinho na tomada, você leva choque. E que eu faço com isso? Tínhamos que atender a demanda contratada no horário de ponta, fora de ponta, sei lá o que era isso! E a parte técnica, como é que a gente controla? Eu não conheço. Então o interessante é que eu recebo esses desafios, e aí vem a minha... A primeira coisa que eu fiz na Vale, que me ajudou muito, foi a sinceridade de falar que eu não sei. Então chego para o pessoal: “Ô, eu não saco nada!” Tinha um engenheiro eletricista lá, eu cheguei para ele e disse assim: “Me puseram responsável por um PGA de energia, não tenho a mínima ideia. Você me ajuda? Você me dá suporte técnico?” “Dou.” “Beleza.” Cheguei para o meu chefe e disse: “Olha, então sou e ele tá?” Na parte técnica.” E aí comecei, liguei para SEMI: “Vem cá, tem que fazer isso, isso e isso.” “Eu tenho que pedir para reduzir, para mudar o horário de ponta. O que é isso? Me explica? Como é que funciona, que eu não entendo nada.” Eu assumo que eu não sei, e com isso as pessoas, acho, têm uma certa boa vontade de me ensinar. Porque não sou arrogante de dizer: “Ó, quero mudar o horário de ponta.” Se o cara me fizesse uma pergunta, eu ia ratear: “Essa daí não saca nada.” (risos) Eu assumo e com isso eu pego cada rabo de foguete que eu amo, adoro. Aí eu descasco o pepino e depois que ele está descascadinho... Aí, felizmente, que eu tenho que agradecer muito a Vale, passo para o outro e pego outro. Essa semana mesmo, esse processo de aposentadoria especial, que eu sou responsável, a minha função na Vale é: responsável pelo processo de aposentadoria especial, pela área de materiais. Isso, hoje. Pelo sistema de Gestão da Qualidade Ambiental. O que tem a ver uma coisa com a outra? São coisas completamente diferentes. Aí, essa semana, eu estou passando o processo todo de aposentadoria especial para uma colega nova que está indo para lá no TCJ e, com certeza, pegando uma outra coisa diferente. Já está organizado, muita coisa estruturada, os pepinos, os processos pendentes, porque foram fechados todos os escritórios da Docegeo, e o pessoal foi demitido porque acabaram os níveis básicos da Docegeo. Só ficou técnico de mineração e geólogo. Então o capataz, auxiliar de campo e tal, foram demitidos, e esse serviço foi terceirizado. Aí eu fiquei com essa meta de fazer esses processos. Então agora que a coisa já está na rotina, que eu amo quando está na rotina. Faz o outro! Deixa... Implementar e tal é comigo. Na hora que vira rotina, está rotina, então já tem outra pessoa. E são oportunidades! Porque se eu tiver que fazer rotina, eu vou fazer, eu vou tentar fazer o melhor possível, mas não é o meu perfil. Eu gosto dessa coisa do desafio, de não saber nem por onde começar. E estou tendo oportunidade, quinze anos com diferentes gerentes, tendo essa oportunidade de crescer, e como você cresce enormemente. Faz muita besteira também, diga-se de passagem.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa. Ao longo da sua trajetória na Vale, o fato de ser mulher influenciou em alguma coisa, dificultou?

 

R – Eu não senti. Se dificultou não me contaram. (risos) Tipo assim, perdi uma oportunidade porque eu era mulher, ou deixei de fazer alguma coisa porque eu era mulher, nunca percebi. Eu tento fazer... Tudo que eu faço, eu tento fazer assim, me dando um pouquinho. Então eu acho que eu fico meio alheia um pouco às interferências externas, tipo assim, de focar muito naquilo que estou fazendo. E vejo o seguinte: tudo tem um lado ruim. Por exemplo, ir para Carajás, tinha um lado ruim. Mas estou lá em Carajás, eu vou fazer o quê? Vou ficar lamentando o que é que eu deixei para trás? Não. Vou curtir o que tem de bom aqui. Valorizar o que tem de bom. Viver aquilo que eu estou vivendo ali e depois passar para uma outra experiência, mas não lamentar o que eu deixei para trás. Então, profissionalmente, qualquer coisa que me dêem para fazer… SS-8030, que é o documento de aposentadoria especial, que é muito legal, diga-se de passagem, para não falar o contrário. Eu curti fazer. Eu vibrei fazendo aquilo. Agora não é mais comigo. Jóia. Vou pegar e fazer outra coisa. Então essas coisas... Você falar para mim: “Você sentiu uma discriminação? Limitou?” Não sei, se teve eu acho que não me dei conta. Porque eu não estava antenada para pensar, ou então achar que fulano estava me discriminando, ou fulano estava me perseguindo por ser mulher ou não. Como é difícil te responder isso. 

 

P/2 – E a privatização? Como é que você viveu isso?

 

R – Grávida. 

 

P/2 – Grávida? (risos)

 

R – Estou brincando. Eu estava grávida, então estava participando dessa parte de negociação de contrato. Eu não participei, claro, do processo de privatização, porque não cabia ä minha função. Eu vou dizer assim, eu senti o processo de privatização, toda aquela expectativa que a gente ficou. Como é que seria e o que aconteceria com a gente amanhã. É isso que você perguntou?

 

P/2 – É. (risos)

 

P/2 – E mudou alguma coisa, você acha que houve uma diferença daquela Vale para a outra?

 

R – Bem, mudou. Para a Vale acho que foi excelente. Para a empresa. Porque o desempenho dela está muito melhor. Ela não tem as amarras que ela tinha enquanto estatal. Agora, consequentemente, para você, empregado, neste aspecto muda. Você tem mais autonomia de trabalho, que a empresa tendo mais, você também tem. O que mudou para a gente enquanto empregado, que houve em termos de perda, esse outro ponto é positivo. Perda foi de benefícios, que a gente tinha vários benefícios. E que antes do processo de privatização acontecer já começaram a ser cortados, até preparando-se para a privatização. Então você fala assim: eu tinha algumas coisas que hoje não tenho. Mas, de um modo geral, nas outras empresas também não tem. Então a Vale está cada vez mais próxima dessas empresas que estão hoje no mercado, e está fazendo isso até para se tornar, continuar competitiva. 

 

P/1 – E quais são seus sonhos?

 

R – Demais.

 

P/1 – Vários, então!

 

R – Vários.

 

P/1 – E o que você achou de ter participado deste projeto? Ter dado o seu depoimento?

 

R – Achei muito legal. Fiquei super contente de ter sido convidada, sabe? Coisa assim. Eu... Nossa! Tão pouco tempo de empresa em relação às outras pessoas que eu acho que teriam muito a acrescentar em termos de memória da Vale. Então fiquei até orgulhosa. Ou lembraram, ou alguém me indicou. E eu acho super interessante. Acho que é um trabalho que deveria ser feito, talvez, até antes, bem antes. Nós perdemos muitas pessoas que tinham muito à acrescentar nesse projeto. Perdeu porque morreu. Porque saiu da empresa, que não está hoje. Apesar de vocês estarem resgatando isso. Eu acho fascinante isso. Eu, pessoalmente, gosto quando conheço uma pessoa, ou mesmo um amigo, como você conheceu fulano, se é casado, como é que você veio trabalhar na Vale. Eu gosto de conhecer cada história. Então eu gosto de conhecer os causos. Já ouviu falar os causos, muita gente gosta de contar. Adoro. Meu assunto predileto na empresa é tentar resgatar isso um pouquinho e viver um pouquinho do que as pessoas viveram. Então eu acho esse projeto muito legal! Exatamente por isso, porque vocês estão resgatando um pouquinho a história da Vale através da história das pessoas. Porque quando a gente fala Vale, Vale é uma coisa estática que você chega, olha, esta é a Vale. A Vale é um somatório de pessoas que vestiram a camisa dela, que vestem, e que construíram a Vale. E como você estava comentando antes, você acaba construindo com um pouquinho da sua história, seu jeitão, seus valores. O que a Vale é, o somatório do que as pessoas são, do que os empregados são, a cara da Vale hoje é a nossa cara. Então achei muito legal, achava até que essa memória seria mais direcionada, mais direcionada à sua experiência profissional, nem tanto a sua vida, história de vida pessoal. Mas, tem tudo a ver.

 

P/1 – Uma está ligada à outra.

 

R – Super ligada. Você não pode separar.

 

P/1 – Exatamente.

 

P/1 – Então a gente agradece muito a sua participação

 

P/2 – Muito obrigado.

 

P/1 – Obrigada.

 

R – Eu que agradeço a oportunidade. (risos) 

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