Busca avançada



Criar

História

Uma jornada rumo à independência

História de: Érica Gabriela Silva de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/12/2020

Sinopse

Pais nordestinos. Nascimento em Cubatão. Infância em São Vicente. Ajudava sua mãe quando ela era babá, momento de grande responsabilidade e maturidade. Escola. Trabalho como Menor Aprendiz. Faculdade de Comércio Exterior. Relacionamento. Ingresso no Porto de Santos. Trajetória profissional na antiga Embraport, atual DP World. Supervisora de Gate.

Tags

História completa

Meu nome é Érica Gabriela Silva de Lima, eu nasci em treze de outubro de 1992, na cidade de Cubatão, São Paulo. 

 

Bom, então quando foi por volta de dez, onze anos, minha mãe teve essa oportunidade de começar a cuidar de criança, e uma mãe foi passando para outra. A gente começou com um casal de crianças, aí foi vindo, vindo, aí chegou uma época que nós tínhamos doze, treze crianças dentro de casa para cuidar, a partir daí foi quando eu comecei a ter mais maturidade, porque minha mãe sozinha não ia dar conta, então a gente tinha que ajudar. Meu irmão também foi ficando mais velho e foi ajudando, e foi o que começou a aumentar a renda da família também, porque nessa época também teve um tempo que o meu pai ficou desempregado, então foi quando a minha vida começou a mudar. Então desde nova eu tive que ter maturidade, porque criança você tem que cuidar, tem que dar banho, tem que levar para escola, então foi uma fase muito marcante na minha vida. 

 

Com treze anos de idade eu tive a oportunidade de fazer também espanhol, pela escola pública, então foi quando… Eu sempre tive esse pensando assim, que eu queria trabalhar fora, eu queria ter uma renda para poder ajudar a minha família e também me ajudar a evoluir, porque quando você vive numa situação um pouco mais precária, a gente sabe que desde cedo você tem que começar a batalha, então eu sempre tive esse pensamento. Eu estudava, aí eu fiquei toda segunda-feira fazendo espanhol, quando foi com catorze anos eu também entrei no CAMP, que foi quando eu tive o meu primeiro emprego registrado. O CAMP era lá no Humaitá mesmo, era um programa para Menor Aprendiz, então eu 2008, foi setembro de 2008 eu tive o meu primeiro emprego registrado, era um contrato de dois anos

 

Conversei na época com a minha gerente, a gente fez um acordo, falei: “Olha, estou terminando a faculdade e eu quero ingressar no que eu estudei”, isso foi no final de 2012, dezembro de 2012 foi o último mês lá e esse último mês eu fui chamada para fazer entrevista na Embraport, que é a antiga Embraport, atual DP World Santos. Ele iniciou em 2013 e era uma empresa nova, totalmente nova, que foi o que eu tive oportunidade. Eu fiz entrevista na época para Assistente de Gate… Eu não tenho conhecidos, não tinha nenhuma indicação do Porto, então a gente sabe que é difícil você entrar, então eu posso dizer que eu entrei na fé e na coragem, pelo que eu estudei, por insistência mesmo, de mandar currículo. Quando foi dia 27 de dezembro me ligaram falando que eu tinha passado no processo da Embraport, foi quando iniciou a minha carreira no Porto. Eu inicie como Assistente de Gate. Eu comecei do zero, comecei a aprender o sistema, a gente começou a fazer uns testes, porque lá é um Gate, é onde a gente recebe os caminhões, então é um processo automatizado, então era tudo novo para mim e também para quem já estava entrando lá e já trabalhava em Gate, mas era um processo diferente, então foi a oportunidade de aprender junto com os demais. Durante esse período, quando foi uns seis meses depois, iniciou as operações e tinham… Na época eram três supervisores, e faltava um supervisor, e uma das pessoas, dos gestores que estavam lá, viu o meu trabalho - na época eu tinha vinte anos - e perguntou: “Érica, você tem interesse de ser a quarta supervisora?” Para mim foi um choque, porque a maioria das pessoas que trabalhavam comigo eram bem mais velhas do que eu. Na verdade eu fiquei assim: “E agora? O que eu faço? Porque eu não sei se estou preparada, só que também quando eu vou ter uma oportunidade dessa? Pode ser a minha primeira e última chance”, aí eu topei. Então foi quando começou a minha carreira como Supervisora de Gate lá na Embraport.

 

Hoje eu escuto mais por trás, assim, eu não tive mais casos como esse, da pessoa chegar, me encarar e falar que eu não sabia de porra nenhuma, mas assim, teve sim conflitos com pessoas que às vezes não queriam ajuda, ou às vezes que eu precisava de ajuda também, porque eu não sei de tudo. Hoje eu trabalho num Gate, também trabalho na ferrovia, então assim, às vezes você não vai ter essa ajuda, não vai ter pessoas que vão querer trabalhar junto contigo, não vão querer dividir o trabalho, e não é só lá. No começo eu pensei: “Caramba meu, eu vou ter que passar por isso mesmo?”, mas assim, se você não for para frente, não muda as coisas, entendeu? Principalmente em relação a mulher. Hoje lá é uma empresa que eles dão muito valor à mulher, então tem um quadro maior de meninas, vem crescendo, tanto em gestão quanto operacional, então a gente precisa disso. Tem horas que a gente dá uma travada, tipo: “Meu, eu não acredito que eu estou passando por isso”, mas se você não passar e der para trás, é isso que eles querem, entendeu? Eles querem que você se intimide e pare de trabalhar… Hoje não tem tanto descarado quanto no passado, mas você tem que filtrar, você vai escutar muito tipo: “Aí, olha, Fulano falou isso, isso e isso”, ou fala por trás: “Essa menina tal, tal, tal, não sabe de nada”, aí você tem que filtrar: “Será que é isso mesmo?” Vão ter críticas que são construtivas, que realmente você vai precisar escutar e vai precisar melhorar, mas vai ter muita coisa que eles vão falar para te intimidar.

 

Olha, para mim, eu acho que é muito importante [trabalhar e atuar numa área que é historicamente considerada “masculina”], não só eu, quanto para as minhas amigas de trabalho, assim, uma incentiva a outra, acho importante, a minha história é importante, mas eu vejo assim, eu me espelho em outras mulheres lá também, tem operadoras que são mães - porque eu ainda não passei por essa fase, vou passar um dia, mas por enquanto - então assim, eu vejo… Uma acaba incentivando a outra, porque a história de ninguém é fácil, você vê pessoas que já passaram por situações piores que a minha, então acho que assim, quando eu paro para ver onde eu estou hoje, eu acho que eu estou no caminho certo, porque a gente precisa disso, às vezes a gente precisa seguir em frente, ignorar, fingir demência mesmo e ir, porque se não tivesse… Se toda vez a gente recuar, não vai mudar essa história de... Vai ser um público totalmente masculino, então a gente precisa nos incentivar, dar um empurrão em você mesma e ir para frente. 

 

Eu acho que é muito importante fazer a diferença, eu acho que eu faço a diferença no mercado de trabalho e com as mulheres, para mim isso é muito importante. Eu acho que a gente precisa cada vez mais de mulheres que se arrisquem para que outras façam o mesmo. Então para mim é super importante e eu acho que cada vez mais a gente precisa de meninas assim.

 

O Porto de Santos representa toda mudança na minha vida. Eu acho que a partir dessa oportunidade que eu consegui ter uma vida melhor, eu consegui minha moto, eu consegui meu apartamento, nosso apartamento, e assim, foi o que me fez mudar, que me incentivou também a mudar. Porque minha personalidade mudou, minhas escolhas mudaram a partir dessa oportunidade que eu tive no Porto de Santos. 

 

Mas assim, o que eu me lembro é que eu sempre tive a vida corrida, apesar disso eu nunca deixei de estudar, minha mãe sempre me incentivou e eu também tive essa vontade, nenhum momento eu pensei: “Caramba, eu vou parar de estudar porque está corrido”, eu fazia. Tanto que até hoje eu tenho as minhas loucuras, eu não parei de estudar, eu faço… Terminei a minha faculdade, aí eu fiz a minha pós de Logística, fiz um tempo de inglês e agora eu voltei a estudar outra pós de Engenharia de Produção, então desde a minha infância eu sou muito dinâmica, então eu faço, entendeu? Porque eu penso que a vida é muito curta, se eu não fizer agora, eu acho que lá na frente eu ia falar: “Poxa, poderia ter feito e não fiz”.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+