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História

Uma imigrante chinesa no MasterChef

História de: Jiang Pu
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Nesta entrevista, Jiang Pu fala sobre sua chegada ao Brasil, com 12 anos, e como conseguiu se adaptar ao país. Fala também sobre sua família e sobre sua participação no programa Masterchef.    

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História completa

(00;26) P/1 – Oi, Jiang, tudo bem com você?

R – Olá, tudo bem.

(00:31) P/1 – Que bom! A gente começa pelo mais básico, que é: qual o seu nome completo, local e data de nascimento? 

R – Meu nome é Jiang. Na verdade, completo, é Jiang Pu, estou morando em São Paulo. Nasci no dia primeiro de janeiro de 1989.

(00:55) P/1 – E onde você nasceu?

R – Eu nasci na China, uma cidade chamada Guilin, é uma cidade de turismo, cheia de árvore verde.

(01:12) P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

R – Meu pai é Jiang Zapsheng e minha mãe é Li Chunjie. 

(01:25) P/1 – E o que eles fazem, ou faziam?

R – Eles tinham uma sobreloja na Rua 25 de Março, trabalharam uns dez, doze, quinze 15 anos lá. Agora eles estão aposentados e estão vivendo uma vida mais relaxada.

(01:52) P/1 – Você sabe qual é a origem deles, de onde eles vieram?

R – Meus pais? A gente veio da China, né? A cidade onde eles moraram… Na verdade, nem a minha mãe e nem meu pai eram da cidade onde eu nasci. A história é engraçada, os meus avós, por causa da guerra, vieram de lugares diferentes, de províncias diferentes. O meu avô paterno veio da província de Hunan, que é uma província colada da cidade onde eu nasci, aí depois da guerra ele ficou lá para trabalhar. Conheceu a minha avó e formaram uma família lá, mas eles se mudaram para três cidades, depois se fixaram em Guilin. 

A minha mãe… A parte materna é mais longe ainda. Uma fica em Sichuan, que é quase interno [interior] e uma fica em Shandong, lá perto da Rússia. Aí também por causa da guerra, eles se juntaram e, no final, eles ficaram na cidade onde eu nasci.

(03:12) P/1 – E você tem irmãos?

R – Tem um irmão nascido aqui, porque eu passei a época de filha única. Meu único irmão nasceu aqui no Brasil.

(03:27) P/1 – E teve algum motivo especial por que eles imigraram para o Brasil?

R – Eles vieram em 1997. O Brasil tinha acabado de se tornar [para o] sistema [da moeda] real, então naquela época era quase oitenta centavos de real para um dólar e um dólar dá para trocar [por] dez moedas da China; dez reais dá para um adulto sobreviver um dia na China. Então, valia muito a pena eles viverem aqui. Mesmo com o mesmo trabalho, eles conseguiam esse câmbio, eles conseguiam talvez cinco vezes, dez vezes mais a recompensa.

(04:14) P/1 – E a sua infância, você lembra onde você passou a sua infância? A casa em que você cresceu?

R – Sim, sim, eu lembro. Como os meus pais trabalham, na verdade, no sistema de indústria - acho que hoje ainda existe isso no Brasil - todo funcionário trabalhava ao lado da fábrica, ou morava ao lado do trabalho. Tem área residencial, tem área de lazer, tem um campo de quadra, tem uma sala enorme de teatro. Eu morava naqueles lugares, não precisava sair do bairro, a vida estava completa lá dentro. 

(04:59) P/1 – E esse período ainda era na China, né?

R – Isso, na China.

(05:05) P/1 – E quando você veio para cá?

R – Eu vim pra aqui com doze anos, quase completando o ensino fundamental da China, da sexta série. .

(05:18) P/1 – E, falando na escola, como é que foi a primeira vez que você pisou na escola? Você tem alguma lembrança disso?

R – Sinceramente, meus pais foram muito duros. Então, chegando aqui, [quando] passou a primeira semana, eu consegui mudar o fuso - doze horas de fuso, né? - e meu pai já me colocou na escola. Cheguei lá, não entendi nada, nem o português, nem a matemática conseguia. E o pior que aqui a letra é cursiva, né?

(05:57) P/1 – E qual a primeira lembrança que você tem, da época da escola?

R – Ah, quando cheguei no Brasil? Seria isso, né? Quando eu cheguei aqui meus pais me deram uma semana para me acostumar com um novo fuso horário, que são doze horas de diferença e depois eles já me botaram na escola direto, era uma escola que não tinha nenhum descendente asiático, literalmente. Cheguei lá no primeiro dia, não estava entendendo nada, meus pais nem me explicaram como era aqui, que tinha intervalo... Não é intervalo, tem um lanche, inclusive meus pais nem deixaram lanche para mim. (risos) 

Era tudo diferente, nem a lousa eu conseguia entender. Aqui [era] tudo letra cursiva, então eu olhava: “O que está acontecendo? Só um monte de desenho, eu não consigo nem distinguir”. Aula de português, aula de história ou era aula de geografia? Para mim tudo era igual. 

Essa é a primeira lembrança que eu tenho sobre a escola no Brasil. Mas depois fui fazendo aulas particulares, à tarde eu voltava com uma professora chinesa me ensinando tudo. Isso foi até uns três anos, até eu conseguir entender tudo o que a professora falava na aula e conseguir fazer a prova. 

Olha, foi chocante. Na primeira prova a professora não quis me dar a prova, porque eu não entendia.

 

(07:43) P/1 – E, voltando um pouquinho, na China como era a escola onde você frequentava?

R – Na China a aula, a escola são dois quarteirões… Na verdade, como a gente fala aqui, é um bairro. Tudo em volta, já tem tudo, a escola fica a dois quarteirões da casa, então eu caminhava e chegava lá. 

No primeiro dia eu acho que meu pai me levou: “É aqui. Essa é sua sala, senta”. Aí eu olhava a professora, depois apagava toda a memória do que eu tinha aprendido, depois volta para casa feliz. Depois, no segundo dia, o meu pai nem me levou.  “Olha, vai direto”. Fui seguindo todos os amigos, até hoje eu fico pensando: “Nossa, como eu não errei a sala?” Porque eu não lembrava, eu só lembro do primeiro dia, o meu pai me levando: “Olha, é aqui a sua sala” e pronto. Aí foi assim, frequentando as aulas.

 

(08:46) P/1 – E quando você veio para o Brasil, você sentiu alguma diferença? É que você comentou do lanche, né, do intervalo?

R – Isso.

(08:54) P/1 – Não tinha isso, na China?

R – Não, na China, deixa eu ver... Acho que são quatro aulas de manhã e duas ou três aulas, depende do verão ou inverno. O inverno tem pouca luz, então são duas horas, duas aulinhas à tarde; o verão é mais longo, o dia mais longo, são três aulas à tarde. Chegava acho que às sete e pouco, não me recordo, eu acho que sete ou sete e vinte começa a primeira aula. Aí faz quarenta minutos, dez minutos de intervalo; quarenta minutos, dez minutos de intervalo; completa quatro horas, passa em casa, almoça e depois a gente tira uma soneca em casa. Acho que volta às duas horas da tarde, duas e pouco, volta para fazer a aula, no mesmo esquema: quarenta minutos de aula, dez minutos de intervalo, quarenta minutos de aula, aí depois acabou.

(09:55) P/1 – E quando você chegou no Brasil, a primeira vez que você chegou no país mesmo, qual foi a sua primeira impressão?

R – Eu acho que é impressionante. A gente chega no avião… Nós, às vezes, temos essa memória do Aeroporto Congonhas... Não, Guarujá. Congonhas é Guarujá, né? 

(10:19) P/1 – Guarulhos. 

R - Guarulhos. Aeroporto de Guarulhos, pega toda aquela Marginal, cheia de favelas. (risos) Era assustador, você olhando: “Gente! O que é isso? Favelas”. Aí vai passando e chega ao Centro, que é um monte de prédio antigo, até chegar onde a gente mora, que é mais um residencial mais tranquilo. Era impressionante aquele caminho inteiro, primeiro saindo de um monte de mato, depois favela, aí no final chega a civilização, uma construção mais bonita, mais acabada, mais feitinho. É isso que eu lembro, no caminho do táxi, olhando lá fora: “Nossa!” Acho que essa foi a primeira impressão que eu tive do Brasil.

(11:12) P/1 – Você estranhou o clima? É um clima parecido ou é muito diferente?

R – É parecido onde eu vivi, o lugar é um calor... Na verdade, onde eu vivi, como é perto de países na Ásia, tem aqueles mansos de calor. No verão é muito quente, 42 graus é normal no calor. Chegando em São Paulo até acho mais fresquinho, só que para tratar essa diferença de temperatura - de manhã mais frio; no almoço, no meio-dia é muito quente, depois volta a usar casaco - demorou um pouquinho para acostumar. 

(12:03) P/1 – E aí, na escola, depois no ensino médio a sua vida mudou bastante? Você conseguiu entender melhor as matérias na escola?

R – Ah, sim, no colegial eu já conseguia entender melhor as partes. Não sei se você sabe, as exatas para o chinês são mais reforçadas; com essa reforçada, eu consegui ser melhor nas matérias exatas. Em física, matemática eu conseguia tirar quase 100%, dez. Aí o português é cinco pontinhos e não tem mais para cima. (risos)

(12:42) P/1 – E teve algum professor da época da escola, pode ser até do ensino fundamental, como do médio, que te marcou?

R – Marcou. Ajudar... Na verdade, eu tenho mais memória só de professores particulares que eu tive. São meninas, também imigrantes chineses, que são mais velhas, que se formaram antes. Elas ajudavam, vinham aqui em casa à tarde, quase três vezes por semana; sentavam comigo, pegavam material, aulinha para ajudar, faziam uma tradução de lição, ensinavam o que foi ensinado na escola. Isso que eu tenho mais memória sobre elas. E cada uma tem uma personalidade tão diferente; por causa da origem delas na China, elas carregam uma personalidade diferente. Isso me marcou mais do que as professoras da escola.

(13:51) P/1 – E tem essa relação do tipo, dependendo do lugar onde você é da China, você é de uma personalidade diferente, é isso?

R – Sim, sim. Carrega um pouquinho, tipo que nem nordestino, baiano, mineiro. Você vê a diferença da região, que eles carregam mesmo no comportamento. São mais liberais, falam com mais gesto, isso é uma diferença marcante também.

(14:19) P/1 – E depois que você terminou o ensino médio, qual foi o seu próximo passo?

R – Eu fui fazer uma faculdade, né? É que o chinês, a minha família enxerga a educação [como] muito importante, então meu pai exigiu. Ele pagou todo aquele curso para mim, pagou todos aqueles professores particulares para mim e quer que a filha estude numa universidade. Fui prestar o vestibular e entrei na USP, aí fui continuando, fazendo e completando o meu ensino.

(15:00) P/1 – E como foi a faculdade, para você? Você tem algum momento marcante, dessa época?

R – A faculdade foi algo impressionante para mim, porque sempre estudei no Colégio Etapa. Lá é cercado de professores, então já tem tudo marcado para você: é aula um, aula dois, aula três e intervalo; o cursinho, vestibular, simulação, tudo é marcadinho. Aí, chegando na faculdade: “Onde fica a sala?” Não sei. “Onde fica a grade de horários?” Não sei. (risos) Foi muito difícil achar, porque é quase uma autonomia na faculdade, a professora chegou na mesa e perguntou: “E aí, eu passei a lista, essa lista de livros, vocês leram? Não leu? Está bom, faz esses exercícios e eu volto a explicar na próxima semana” “Oi? (risos) Como? Eu tenho que ler o livro, né, você me passar a informação?” É muita autonomia na faculdade, é muito diferente do que eu costumava [fazer].

(16:13) P/1 – E o que te levou a fazer Estatística?

R – A Estatística foi uma escolha de estratégia que eu fiz. (risos) Porque, naquela época, na segunda fase não precisava fazer todas as matérias. Estatística exige só três matérias: português, matemática e física e eu só não zerei português, tirei o mínimo, mas consegui acertar quase tudo de matemática, 70% de física. Consegui somar todos os pontos e entrar no segundo corte.

(16:54) P/1 – E você, na faculdade, fez algum estágio, começou a trabalhar?

R – Trabalhei no último ano, como sempre, tudo nessa... É que Estatística é um curso que precisa muito de prática. A gente pode atuar em várias áreas: área de Biologia, área de Finanças, praticamente nesses dois ramos; eu até tenho um amigo que trabalha para militares, para desenvolver aqueles aviões. É muito amplo, então a gente precisa fazer estágio para entender de qual área a gente mais gosta. 

Fui fazer estágio, peguei uma consultoria pequena, bem simples, que acho que tem quinze funcionários, não passa disso. Fui trabalhar, depois me formei e me efetivei.

Em todo esse processo eu percebi que eu não gosto muito de trabalhar no escritório, porque é algo assim: todo dia olha naquele quadradinho, olhava o computador, sem conversa. A gente quer olhar número, a gente faz modelo, faz simulação, aí é tempo de esperar um resultado. Era algo depressivo para mim.

(18:19) P/1 – E quando você descobriu que não era isso o que você queria na parte de escritório, o que você começou a fazer?

R – Aí, eu comecei... Na verdade, antes de começar a trabalhar, eu tinha um sonho. Eu gosto muito de cozinhar, eu gosto de mexer nas comidas, ver a execução de um prato saindo. Nas festas ou reuniões da faculdade eu sempre me encarregava da parte de fazer os doces ou fazer os banquetes. Fazia bolo, brigadeiro para aniversário. Chegava um momento que todo mundo: “Nossa!” Claro, naquela época elogio a gente ganha e eu acho muito engraçado, todo mundo: “Nossa, está muito gostoso, pode casar”. Esse era um elogio que eu recebia no começo. “Por que, né?” Aí depois falavam: “Nossa, muito bom, pode vender”. 

E foi assim: “Nossa, eu acho que eu gosto”. Toda noite, depois do trabalho, eu chegava em casa e fazia alguma coisa na cozinha para relaxar, é uma terapia para mim. Eu sempre tive aquele sonho: “Quando eu ganhar dinheiro no meu trabalho, eu aposento e eu quero abrir uma padaria, uma loja de café, alguma coisa assim, dessas de estilo pequenininho”. 

Depois que eu me vi frustrada no trabalho, falei: “Não, eu acho que vou adiantar esse meu sonho, eu quero ser agora”. Comecei a fazer uns cursinhos aqui, até cheguei a fazer uns bolos para as pessoas, de encomenda. Aí começou a abertura da primeira inscrição do Masterchef, do reality show de culinária. Meus amigos, amigas e amigos: “Olha, vai lá e se inscreve, você consegue”. Eu falava: “Não, não consigo, não”. Você olha esse programa de fora, a pessoa tem que ser muito craque, tem que ser muito ninja, falei: “Não, não vou conseguir, não”. 

Passou a primeira temporada, a exibição lá na tela, eu acompanhei. Olhei e falei: “Acho que consigo!” (risos) Eu acho que isso é um caráter de chinês, a gente fica muito assim: “Não, a gente não é bom nisso”. A gente, às vezes, se não é topo das áreas, normalmente costuma falar que não é bom em nada. Quando eu vi realmente os exemplos que tinha lá, falei: “Ah, está bom, eu acho que eu consigo”. Aí fiz a inscrição da segunda temporada. 

Na verdade, eu fiz quando? Eu fiz em outubro a inscrição, quando eu fui chamada foi quase lá em fevereiro, já tinha esquecido. Recebi a ligação, foi engraçado: eu estava esperando o ônibus, estava no ponto de ônibus quando chegou o telefone, tocou o telefone e atendi: “Alô?” “Oi, aqui é a produção do Masterchef”. Olhei o ônibus que eu esperava subindo, aí deu um tranco na cabeça e eu: “Calma aí, você falou que é do Masterchef?” (risos) O meu ônibus chegou, o que eu faço? (risos) Deu branco, de processar as informações na cabeça. Aí foi assim, foram fazendo a seleção, finalmente consegui e começou a gravação. 

No começo eu esperava aparecer na TV, para conseguir alguma chance de trabalhar em algum restaurante conhecido, nomeado. Aí foi até o terceiro lugar, surpresa pra mim. Depois disso mudou toda a vida, por causa dessa exibição toda fui chamada para eventos, mais pessoas me conhecem, me reconhecem na rua. Agora acho que, com esse tempo passando, abaixou um pouquinho esses absurdos e a fama, mas ainda estou firme que vou abrir mais alguma coisa, algum lugar que eu posso cozinhar para alguém.

(23:03) P/1 – E que tipo de comida você gosta de cozinhar?

R – Eu gosto mais de doce. Eu acho que as mulheres sempre têm essa paixão pelo doce. Aquela delicadeza, umas cinco horas para fazer uma forminha bonitinha de gatinha, de animal.

(23:25) P/1 – E de onde surgiu essa influência para cozinhar, para fazer doce?

R – Eu acho que é muito assim: no meu caso é necessidade. (risos) Porque [quando] cheguei aqui, naquela época não tinha muito importação e exportação de produtos chineses para cá. Para eu conseguir comer aquela comida que  costumava [comer], comecei a mexer na cozinha. E meus pais, como trabalham no ‘atacadismo’, quase não têm folga, a única folga é o domingo à tarde; só aquele intervalo que eles não trabalham, o restante eles trabalham, saindo oito horas da manhã e voltando quase sete horas da noite. Eu me virava literalmente nos almoços. A minha mãe voltava cansada, ela simplesmente fazia algo comestível, com carne, um legume e um arroz comestível e pronto. Então, eu reclamava: “Mãe, essa coisa está horrível”. Ela me olhava: “Faz você mesma”. Aí eu comecei: “Está bom, eu vou fazer”. Comecei fritando um ovo, começa a caprichar um pouco, até um momento que meu pai me olhou assim: “Quer fazer um jantar para gente?” Eu falei: “Está bom, posso fazer”. Aí comecei a fazer o jantar para a família inteira.

(24:56) P/1 – E quando você morava na China, depois que você veio pro Brasil, a comida era bem diferente que você costumava comer?

R – Era muito diferente. A gente tem um costume de comer uns legumes, folhas verdes refogadas, na verdade. Todo dia a gente come um legume refogado, em toda refeição. E aqui, eu acho que isso é por causa do... Depois fui entendendo o histórico, eu acho que é por causa... São Paulo é muito grande, então o transporte era muito caro; se um legume não é produtivo ou é muito delicado, então ele perde o lugar na mesa. [Quando] você vai no mercado ou vai na feira, são sempre aqueles a escolha verde; você conta na mão, você sabe, só tem aquele lá, não tem outra opção. É isso que faz muita diferença, faz falta para mim. 

(25:56) P/1 – E doce? Aproveitando que você falou que você gosta de doce, na China os doces são diferentes do Brasil ou têm alguma semelhança?

R – O doce é mesmo diferente, viu, por causa que a ideia [de] doce na China é alguma coisa entre a refeição, para preencher a barriga, então são doces grandes, pesados, massa folhada, doce de feijão - recheio de grãos, de tipos de feijão diferentes, para dar uma sustância na barriga. Não são aqueles leves, como aqui que tem o costume daqueles doces, doces de abóbora, batata, que são puramente açúcar. Aqui é mais [assim] por causa da produção de cana, então as pessoas estão mais acostumadas a comer excesso de açúcar, bem doce, doce mesmo. Essa é a diferença.

(26:56) P/1 – E voltando um pouco para o Masterchef, como é que foi essa experiência para você, quando você estava lá?

R – Eu acho que foi alguma coisa incrível e inesquecível na vida, né? Eu posso explicar para meus netos: “Olha, a vovó participou na TV”. Até hoje em dia é engraçado, minhas filhas, eu falo: “A mamãe foi na TV”. Aí elas olham: “Mamãe, como? (risos) Como assim, entrou na TV?” (risos) É uma coisa inexplicável, tipo: participei, aproveitei, gostei muito do resultado, mas repetir? Nunca vou repetir.

(27:39) P/1 – E depois que acabou, o que você começou a fazer dessa parte que você sempre quis, de comida? Você conseguiu trabalhar em algum lugar famoso? 

R – Eu não consegui ser chamada, infelizmente. Acho que primeiro por causa do meu rótulo, que é [de] uma descendente chinesa. Infelizmente, no mercado brasileiro não tem esse ramo de asiático, o chinês não é forte, então não fui chamada para essas áreas. Aí eu decidi abrir a minha, junto com ______  eu montei os negócios e o restaurante funcionou uns quase dois anos. Mas eu não sou uma administradora, não sou uma administradora boa, então fechei no final. Era muito complicado o mercado de trabalho. Quando se trata de um serviço, é difícil achar mão de obra qualificada, o compromisso. Talvez, no futuro, eu veja se tem algum possível jeito de trabalhar, sem tanta equipe de apoio.

(29:15) P/1 – E aí, depois disso, você acabou fazendo alguma outra coisa?

R – Depois veio a pandemia, depois fechei. Ainda penso, às vezes eu penso: “Nossa, ainda bem que eu fechei!” (risos) Porque foi feia a pandemia, deu um tremendo terremoto na área de serviço, nem somente na gastronomia, no turismo também. Foi parado o mercado. Eu fiquei em casa, tenho duas crianças pequenas, aí comecei a incentivar o estudo delas. Comecei a estudar pedagogia, virei uma pedagoga, para tentar enriquecer a vida delas aqui, presa em apartamento. Foi isso até hoje, talvez com melhoramento eu volto ao mercado, no futuro, mas o planejamento é isso, né?

(30:21) P/1 – E falando nas suas filhas, qual é o nome delas e a idade?

R – A grande se chama Cecília, de cinco anos; a pequena se chama Emily, tem dois anos.

(30:35) P/1 – E como foi a experiência, para você, de ser mãe pela primeira vez?

R – Eu acho que a primeira a gente sempre estraga. (risos) Porque antes eu comprei vários livros, sabe livro do primeiro dia, dois dias, até semanas, primeira semana, duas semanas - não são dias, são semanas de desenvolvimento. Eu segui tudo do livro [com] a primeira, aí foi seguindo o livro; nossa, foi tudo corretíssimo, tudo corretíssimo. Aí chegou a segunda: “Ah, deixa, vai”. Viu a irmã mais velha comendo bolo: “Toma para você, não precisa se preocupar com o açúcar, toma”. Isso eu acho que é a diferença para as duas, mas encarar esse papel de mãe eu acho que foi difícil para mim, porque é uma responsabilidade enorme. Toda decisão que eu faço sobre ela pode modificar a vida inteira dela, isso foi um peso na consciência enorme, que eu sinto.

(31:50) P/1 – E o seu marido, como é que você o conheceu?

R – A gente estudou na faculdade juntos. Quando a gente entrou tinha dezoito, dezenove, o conheci aí todo carequinha, um moleque. Ele é brasileiro, né, eu nunca imaginava namorar ou casar com um brasileiro, porque a comunidade ainda é muito fechada. Eu o conheci e fomos colegas por quase quatro anos, cinco anos, aí eu o olhei: “Até que não é tão ruim assim...” - comecei a pensar - “... namorar com brasileiro”. Aí depois: “Ah. Não é tão ruim casar com brasileiro”. Aí foi indo, a gente decidiu casar e tivemos filhas, as crianças, até hoje.

(32:52) P/1 – E você lembra do dia do seu casamento?

R – Sim, sim. É um dia... Nosso casamento foi uma mega disputa entre costumes, porque no costume chinês o casamento é totalmente outra coisa, o brasileiro é outra. Eu estava muito indecisa, porque o chinês costumava… Os restaurantes chineses, que são uns dois restaurantes, provavelmente só dois, fazem aquele banquete enorme, todo mundo vem e come e enche a barriga; aqueles pratos exóticos, comer aqueles pratos exóticos do tipo barbatana de tubarão, comer aqueles lá sashimis de lagosta, bem dessa coisa de rico. O brasileiro é mais assim: altares ou uma festa toda decorada. Então, foi assim, tentando achar um meio termo, para conseguir juntar as duas culturas diferentes.

(34:04) P/1 – E seus pais foram ok de você casar com brasileiro, eles aceitaram?

R – Eu tive que fazer uns passinhos pouco a pouco, né, antes de começar a falar: “Mãe, estou namorando”. Já ter uma conversa até com os meus pais, porque é normal, quando chega a idade, os amigos, ou amigos dos pais [dizerem]: “Eu tenho uma parente ou eu tenho uma sobrinha”. E quando os deixa conhecer, não é um casamento arrumado, vamos dizer, mas eles vão apresentando os solteiros que eles acham qualificados. É isso que eles fazem, é um costume, é mais uma chance para conhecer, porque a comunidade é pequena. Eu não posso dizer que é arrumado, porque [se] você olhar [e disser] “não, eu não gosto”, não tem como te pegar e juntar. Então, já tive um jogo aberto com o meu pai: “Olha, infelizmente eu não... Eu me formei aqui e eu não vou para a China, não tem como eu voltar para trabalhar na China, porque todos meus diplomas são do Brasil. Segundo: como eu não vou voltar e eu vou trabalhar aqui, vou viver aqui, então eu preciso achar alguém que tem a mesma experiência, que vive aqui também, então olha para o seu redor, quem tem filho nessa situação”. 

Meu pai ficou surpreso. Raramente, na minha época, a gente tinha formados em faculdade. É muito raro, a maioria dos chineses abandonam a escola e vão trabalhar na 25 de Março. Ele olhou ao redor e não tinha mesmo. Eu falei: “Então, outra opção: eu posso conhecer um cara na China e trazer o cara para cá.” “Mas você acha que algum homem vai querer? Um homem machista chinês vai querer vir aqui? Vai querer vir aqui e viver da família da mulher? Você acha que, no financeiro, você vai gostar? Olha, não, não vai, não”. Então, falei: “Pronto, não tem opção, então me deixa em paz, que eu vou achar o cara certo aqui”.

(36:29) P/1 – Você falou da comunidade, que ela é bem pequena. Onde está a maior parte da comunidade chinesa, em São Paulo?

R – Na região da Liberdade, agora é mais concentrada da região do Centro ou perto da 25 de Março, Brás. Essas são mais voltadas…

(36:53) P/1 – E tem algum centro, algum lugar que as pessoas da comunidade se reúnem, festejam alguma coisa em comum?

R – Tem o maior, que é o evento do Ano Novo, que é não é o Ano Novo do calendário solar. A gente comemora com o calendário lunar. Praticamente era meio ‘casado’ com o Carnaval. O Ano Novo Chinês está, nos últimos anos, ‘casando’ com o carnaval, perfeitamente. A gente faz um festival lá no bairro da Liberdade, monta um palco, vai uns grupos fazendo dança, fazendo canto, tudo música chinesa, essa comemoração que eu acho que tem. 

Às vezes o governo chinês manda um grupo de artistas. Agora, por causa da pandemia, não tem, mas quase todo ano tem grupos, aí tem ingresso de graça para gente, os descendentes. Aí vai lá assistir show. Acho que é mais ou menos o Ano Novo ou o aniversário da China, que é primeiro de outubro, que também tem um festival grande. E acho que, fora disso, são os pequenos, que não chegam a ser um festival para público, é mais comemorativo entre as famílias.

 

(38:25) P/1 – Você falando dos seus pais, na relação com a 25 de Março, você sempre... Como eu vou dizer? Era tradutora dos seus pais também, quando eles vieram para o Brasil?

R – Sim, isso eu acho que ajudou em parte, porque imagina, meu irmão comigo tem dez anos de diferença. Então, quando ele começou a estudar, com cinco anos, eu tinha quinze. Eu participava de todas as reuniões de pais dele. Se meus pais estão passando mal e precisam ir ao hospital, eu vou junto também, para fazer essa tradução, então eu sempre ajudei. Na verdade, hoje em dia é difícil uma adolescente tendo esse acesso de uma vida de adulto, então, me emancipei para essa vida de responsabilidade. Ajudava nas compras, eu que revia os contratos de compras, eu olhava tudo, pesquisava. 

Eu lembro [que] na época não tinha GPS, ainda não tinha internet certa. Pegava o caderno amarelo, cortava toda a parte do mapa e sentava ao lado, do outro lado do copiloto, aí eu começava: “Aqui são os caminhos”. Eu fazia tudo isso para os meus pais.

 

(40:08) P/1 – E outra coisa relacionada a adaptação no Brasil: tem alguma diferença muito grande entre a China e o Brasil?

R – A cultura é uma diferença, né, primeiro. Os brasileiros são muito mais calorosos, eles gostam de expressar o que eles sentem no momento. Os chineses são mais assim, para o interno, eles vão pensar: “Não, se eu mostrar essa emoção negativa não é correto, não é socialmente correto”, então eles encolhem tudo. Aqui as pessoas expressam muito mais livremente, para conseguir entender essa diferença de expressão. [Se] a cara está feliz, está feliz mesmo; [se] a cara está triste, está triste mesmo. Para conseguir mudar esses comportamentos, acho que foi a maior diferença que eu senti.

(41:07) P/1 – E tem alguma semelhança entre as culturas?

R – Ah, tem várias, né? Tem o receptivo, eu acho que essa parte, sim. Se você é meu convidado, eu te cuido de cabeça até o pé. Os dois povos fazem isso. Se você é meu convidado, meu camarada, vem aqui e serve cerveja, (risos) serve churrasco aqui. O chinês também: “Vem aqui na minha casa, olha o chá, toma, chá maravilhoso, olha aqui a comida”, empurrando as comidas até o teto. É muito esse jeito de receber os convidados, era muito semelhante.

(41:58) P/1 – A gente sabe que a China é uma cultura milenar. Tem alguma coisa que foi passado para você, dos seus ancestrais até agora, seus avós para os seus pais e para você?

R – Como eu disse sobre a... Eu não sei como traduzir. O chinês é assim, a gente meio assim: não pode ser... A gente sempre sabe que tem alguém melhor que eu, então a gente nunca fala: “Eu sou a melhor!” A gente sabe que tem outra pessoa que é melhor, então às vezes eu sinto que falta essa confiança em mim, essa parte de cultura todo mundo... Tem mais um exemplo:  eu fui ensinada que não posso olhar no olho do outro quando estou na conversa, principalmente quem é superior ou uma hierarquia ou mais velho. Eu não posso olhar direto e isso é um jeito de encarar; não é submissão, eu não posso olhar. Então, até hoje a pessoa conversa, eu tento não olhar, aí depois a minha consciência fala: “Não, volta, porque isso é mal-educado no Brasil”. (risos) Aí eu volto para olhar o olho da outra pessoa. Isso é uma coisa que eu acho que marca bastante no meu dia a dia. Só de olhar e não poder olhar, eu olho.

(43:37) P/1 – Jiang, voltando um pouquinho para a sua infância, a relação com seu irmão aqui no Brasil, vocês gostam de brincar, pela...

R – ... diferença de idade? Eu acho que eu sou mais assim: tentamos dar umas brincadeiras quando era jovem, mas eu praticamente não sei... Bom, falando agora não vai receber multa, né? (risos) Eu cuidava dele no fim de semana, então quando eu cheguei aqui, ele tinha quase três anos e eu tinha doze anos. No fim de semana eu o pegava, ficava com ele em casa, fazia tudo. Uma mãezinha pequena.

(44:26) P/1 – E qual é o nome dele?

R – Fábio.

(44:30) P/1 – Ele nasceu no Brasil, né?

R – Ele nasceu no Brasil. Fez todo o ensino aqui, ele é ruim de chinês. (risos) Talvez os meus pais o tenham incentivado depois, colocaram na aula de chinês, uma vez por semana, mas infelizmente até hoje ele não fala chinês fluente. Por causa desse ponto eu dou muita, muita importância para ensinar minhas às filhas o chinês. Antes da pandemia, a grande estava em uma escola bilíngue chinês, só para ela ter esse costume e continuar falando e praticando as linguagens.

(45:20) P/1 – E você ainda sabe escrever os caracteres?

R – Sim, sim. É que eu recebi, eu estudei até a sexta série, né? Então, eu consigo ler, escrever e entender a maioria das partes.

(45:37) P/1 – A sua filha também já está na escola e também está aprendendo essa parte?

R – Ela estava, só que eu vejo que ela não tem tanto incentivo assim, ainda é pequena. Eu espero um dia que elas não venham todas revoltadas, para falar: “Eu não quero aprender chinês”. (risos) Eu espero, mas eu estou tentando dar um incentivo positivo pra ela, que é legal você falar uma coisa diferente do que o outro, assim. Essa idade quer ser diferente, né?

(46:14) P/1 – E você também tenta influenciá-las com a cultura chinesa, de alguma forma?

R – Eu queria, mas a grande… Antes da pandemia, a gente a levou para viajar para a China. Ela já foi duas vezes, até completar três anos, para ver a família, para ela entender: “Olha, você tem a família aqui. Essa é sua prima, essa é sua priminha, essa é sua tia”. Eu acho que isso é uma parte importante, para ela sentir na pele a diferença, para ela ter esse reconhecimento, porque meu irmão, se você pergunta: “De onde você é?” “Eu sou do Brasil, sou brasileiro”. Ele já não tem mais esse reconhecimento de outra nacionalidade.

(47:08) P/1 – E desde que você veio para o Brasil e quando você voltou na China, viajando, visitando, você sentiu alguma diferença grande?

R – Muita diferença. Olha, eu voltei três vezes ao longo, deixa eu ver... De doze anos. Fui voltando, fui visitar as famílias, as minhas avós. Era muito diferente. Toda vez, chegando lá na minha cidade pequena, toda vez [era] eu chegando e olhando: “Onde é aqui?” A reforma é constante lá; a construção, a urbanização é muito constante. Toda hora está chegando lá gente, não conheço, não consigo mais me localizar onde é onde. Eles abrem ou emendam o largo ou diminuem o largo, perdem todas as... Os monumentos ficam. Só para eu localizar o monumento, eu olhava aquele muro gigante de dez mil, quantos mil anos atrás, eu falava: “Acho que eu me localizei”. Você olhava o prédio tudo é novinho, as ruas são espaçosas, com tudo novinho. Tudo à sua volta. Olhei e falei: “Nossa, não conheço mais”. Isso acho que é muito... Essa é a diferença que eu sinto mais. 

Também a tecnologia avançada. Nas últimas duas vezes que eu voltei eu não precisava andar mais com a carteira na mão, eu usava celular. A primeira vez foi até mais fácil, eu consegui comprar um chip sem usar identidade chinesa, aí conseguia usar e fazer o pagamento pelo celular. Na segunda vez que eu voltei era muito mais, a segurança era mais avançada, eu não consegui um telefone sem ser moradora, sem ter RG. Tem que ser tudo registrado. Eu tive que pegar na minha prima emprestado, para conseguir usar, conseguir o pagamento. E lá, na última vez que eu voltei também senti… Era a câmera de segurança, quase toda esquina de rua, de cruzamento, tem uma câmera de segurança. O furto e o assalto diminuíram bastante lá, está diminuindo bastante por causa dessa medida de segurança. Se você pensar do outro jeito, tipo o pensamento ocidental, você vai pensar: “Meu Deus, está faltando privacidade, não tem privacidade”. Aí coube aquele jogo: “Você quer perder a privacidade para ter segurança ou você prefere a privacidade e você cuida da sua segurança?” Isso eu acho que é um tema muito discutido, sobre essa diferença de cultura de um oriental e de um ocidental.

 

(50:23) P/1 – E você comentou da muralha, você estava falando da Muralha da China?

R – Não, a minha cidade tem uma muralha que é dos antigos, não chega ser igualzinho à Muralha de Pequim. Só para você entender, a muralha que a gente fala é um trecho desde lá no deserto, perto do Oriente Médio, até a pontinha, caminho do mar, que faz quase lá na Rússia. É um trecho gigantesco, só que ele foi quebrando, foi com o tempo destruindo, aí sobrou um pedaço pequeno. Em Pequim, na região de Pequim tem uns trechos reservados, por causa de ser uma capital antiga, que eles têm a maior parte reservada e restaurada. Quando [se] fala muralha, o pessoal só pensa lá, mas fora da cidade de Pequim tem lá no deserto, tem indo para lá, muito longe. A minha cidade tem um pedaço de muro, que é um muro antigo que protege a cidade, sobraram umas partes e hoje em dia está tombado. Eu lembro [que] quando era pequena, eu passava por baixo, não tinha proteção, não era tombado. Eu passava por baixo, olhava e passava na pedra, tudo escorregadio por causa da umidade; são pedras, passava assim, escorregando. Isso eu tenho de memória de infância. Hoje em dia já está tudo reservado, você só pode ver de uns dez metros de longe, olhando só fora. Isso também é uma diferença, uma mudança que hoje tem.

(52:13) P/1 – E agora, indo para a parte final da entrevista, que é uma parte mais pessoal, o que você faz, hoje em dia?

R – Agora? Agora eu estou mais cuidando das crianças. Provavelmente agora me defino como uma dona de casa, voltando para a educação das crianças, das minhas crianças, não é das… Desculpa. (risos) E provavelmente, depois que elas crescerem um pouquinho, eu volto para a minha carreira.

(52:52) P/1 – E você também tem, mas eu não sei se é, uma carreira de influencer, né? Por assim dizer. (risos)

R – Sim, sim. Eu tenho um canal, tenho várias contas de redes sociais. Por enquanto eu parei a produção por causa dessas correrias do dia a dia, mas eu planejo fazer algumas séries diferentes, para mostrar essa cultura chinesa: gastronomias, essa diferença. Depois que eu tive as crianças, eu notei muito mais essa diferença de ensinos, diferenças de culturas, de conceitos. É muito bacana e eu queria mostrar para as pessoas, para refletir ou para ajudar.

(53:43) P/1 – E qual é o nome do seu canal?

R – Do Youtube? É o Jiang Lab, que eu parei faz muito tempo, mas talvez eu volte, para editar.

(54:02) P/1 – E quais são as coisas mais importantes para você, hoje?

R – Acho que eu vou colocando a família em primeiro lugar. Hoje está a família primeiro lugar e segundo lugar vai ser a carreira.

(54:25) P/1 – Você também já falou de seus sonhos, mas você tem algum outro sonho para o futuro?

R – Aposentar e viajar pelo mundo? (risos)

(54:41) R – Ótimo, adorei. E, por fim, nossa última pergunta é: como foi para você contar sua história para a gente?

R – Eu recebi por um aviso da... Nossa, apaguei da memória... professora...

(54:58) P/1 - ... Verena?

R - Isso, que é a professora de chinês da Escola Confúcio... 

(55:11) P/1 - Instituto Confúcio. 

R – Instituto, não é escola. Instituto Confúcio. Eu conheci uns projetos sobre essa cultura, aí ela me indicou.

(55:24) P/1 – E como foi, para você, contar pra gente essa sua história?

R – Eu acho que é legal. Às vezes a gente tem que compartilhar um pouquinho, talvez vai ajudar as pessoas, outras pessoas que têm essa dificuldade de identificação, de se identificar. Eu senti muito na adolescência: o que eu sou? Eu sou chinesa? Mas quando eu volto para a China, as pessoas me olham e eu não sou chinesa, porque eu vivi lá fora. Quando eu estou aqui no Brasil, eu me sinto brasileira, mas as pessoas me olham pela aparência e falam que eu sou chinesa. Eu queria mostrar que pode ter um jeito de equilibrar isso, pode ter essa possibilidade para você viver.

(56:19) P/1 – Tem alguma coisa que eu não perguntei, que você gostaria de comentar?

R – Acho que foi completo, sobre essa daqui. O que mais [pesa] para o imigrante de fora, sempre é essa questão de se localizar: “Onde eu estou? Quem eu sou?” Essa é uma pergunta tão antiga: “Quem eu sou?” Até você achar a sua posição e ficar confortável, leva um pouquinho de tempo, mas não precisa ficar frustrada. Eu vejo muito adolescentes dessa idade de se procurar identidade ficarem frustrados, acham que são... “Não, eu sou diferente, eu não sou aceito”. Mas eu acho que pode ficar tranquilo, que você vai achar o seu lugar.

(57:12) P/1 – Então, em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece a sua entrevista, ela foi incrível.

R – Ah, obrigada eu, pelo convite. 



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