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História

Uma história do cinema em São Paulo

História de: Margarida Schenaider Eugido
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Margarida começa seu relato sobre sua infância difícil na fazenda e com sua família, especialmente seu pai. Nos narra sobre seu percurso profissional trabalhando na casa de pessoas ricas, onde conheceu seu marido. Também sobre como foi ser mulher naquele tempo e como eram os cinemas naquela época em São Paulo. Fala sobre as dificuldades de cuidar do marido que alguns anos depois de casar ficou cego e perdeu os movimentos, além de sua longa história de correspondência com parentes distantes do Brasil, França, Espanha e Uruguai.

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História completa

Eu me chamo Margarida Schenaider de Eugido e nasci aos 24 de maio de 1934 e moro no Estado de São Paulo. Nasci no interior de São Paulo em Piedade. Até os 12 anos. Vim pra São Paulo trabalhar em casas de família. foi terrível esse tempo, mas aí fui acostumando. Dali pra frente fui trabalhando de casa de uma, de outra, de outra até que conheci o meu marido e me casei. Conheci ele no serviço, trabalhando de casa de família, e ele sendo um pintor. O Eugido da família, e nós começamos a namorar e, entre dois anos, casamos. Havia muitas brigas e tudo (risos), mas vivemos muito bem

Ah, eu trabalhava na roça. Adorava o meu avô porque era com ele que eu trabalhava. Minha avó não. Minha avó era muito dessas iugoslavas rígidas (risos). Ah, eu trabalhava na roça. Adorava o meu avô porque era com ele que eu trabalhava. Minha avó não. Minha avó era muito dessas iugoslavas rígidas (risos). Terrível, mas a gente. eu convivia muito com meu avô, que eu adorava, e eu então fazia questão de ir com ele pra roça. Eu tinha que fazer um monte de afazeres, carregar lenha, pegar água e tratar das criações, que eram porcos, coelhos, galinha. Eu ajudava  meu avô a fazer isso, cavalos, tudo, cabras.

Depois meu pai mudou-se pra Ibiúna e eu... eu vou dizer uma coisa aqui que eu sempre falo  e gosto de falar. Se não fosse o Getúlio Vargas, Margarida seria uma analfabeta. Porque a gente tinha que trabalhar na roça, então o Getúlio Vargas na época que era presidente. ele forçou os estrangeiros a por os filhos na escola. Se não pusesse, cadeia. E graças a isso eu fui pra escola.

Tinha um clube alemão e como nossa família toda é dançarina, a gente ia pros clube dançar. E eu comecei a dançar muito cedo. Eu com 13, 14 anos já dançava nos clube lá do... chamava-se Teuto. Acho que ainda existe até lá. Hoje. E meu tio era diretor desse clube. Era assim muito familiar e a gente... eu... era a minha diversão até que me casei e foi assim. 
A diferença naquela época? Nossa, pra mim foi terrível. Eu me senti dentro de uma gaiola e eu não estava habituada com barulho. E ali passava em frente ao bonde da Cantareira. Aquilo ia bralham nas pedras. Era paralelepípedo. Aquele barulhão. E quem disse que eu que eu dormi? Então eu abria a janela e ficava olhando. Lá pras três e meia mais ou menos chegava as carroças. Carroças com aquele ferro na roda. Bralhambralham. Não tinha quem dormisse ali. Enchia o mercado de flores. Eram os chacaieiros que traziam flores nas carroças com burros. então o casco já tinha ferradura. a roda tinha aquele aro de metal pra não gastar a madeira. Maravilha o barulho. O barulho era intenso.

Porque meu pai é assim. Ele vinha buscar o nosso dinheiro e deixava a gente com, na época, cinco cruzeiros que dava pra mim. Pra São Caetano. O mês todo. Era só isso o meu dinheiro. Então ele não pensava se a gente tinha sapato, se tinha roupa, se precisava de alguma coisa. Nada. meu pai não era um um pai. Ele foi meu pai mas não era pai. Deixou muito a desejar. Então era assim. Até quando me casei, quando eu fiquei noiva, eu ergui bandeira. Também aprendi. Deixa eu te falar que eu aprendi. Eu aprendi com a vida. Eu pulava de um emprego pro outro não porque o emprego não era bom. Mas porque eu ia ganhar mais. Então eu inventava pra ele que eu ganhava tanto. E eu ganhava muito mais. Pra eu ter um dinheiro, poder me vestir.

Ele então fez uma construção lá e uma turca ficou devendo pra ele cinco mil réis. E essa turca não tinha o dinheiro. Deu esse terreno pra ele. E o que ele fez? Ele comprou material à prestação aqui em Pinheiros e eu e a minha irmã, o dinheiro meu e da minha irmã, ele pagava as prestações da casa. Então essa casa foi feita por nós. Ele só deu o trabalho. O material foi nós. Foi assim também que ele fez isso. Então nós tínhamos essa casa e essa casa tinha um terreno enorme. E a minha mãe então plantava. Ela tinha uma escadinha de filhos. Ela teve 17 filhos

Porque a minha mãe veio lá da Europa. Ela fugiu com o meu pai. porque. nem o meu avô queria o casamento, nem a minha avó do lado do meu pai queria o casamento. eles eram novos. aqui em São Caetano do Sul e fugiram pra. pra Sorocaba. onde meus. meus avós tinham sítio em Piedade. e foram pra lá, entende, começou assim. minha avó não gostava.

Eu já voltei pra São Paulo com a minha irmã e fui trabalhar na casa desse investigador.
E eu fui trabalhar lá e conheci meu marido. No primeiro dia que eu abri a janela, que eu ia limpar o quarto das crianças, eu dei de cara com meu marido pintando lá a janela. Janelinha demorou pra ser pintada (risos). Toda. Eu dei. E ele falou que eu cumprimentei, então pode ser, porque eu era educada. De modo que eu abri a janela e dei de cara com ele e falei: “Bom dia”. Pronto. E ele já estava de olho em mim lá. “É essa mesma”. Ele ficou no meu pé até que a gente começou a namorar e se casou em dois anos. Um ano de namoro e um ano de noivado. Eu conheci a família Eugido. Me interessei por eles.

Infelizmente, com oito anos de casada ele ficou doente e. pra descobrir essa doença, eu tinha metade da minha casa feita, ia fazer a outra metade que a gente - pobre faz assim, devagar - tinha todo o dinheiro. Comecei a ir aos médicos. Gastei tudo. E não achei a doença dele. Fomos pro SUS. Era o único jeito. E em Campinas foi descoberto a doença dele. Mas já era tarde demais. Era uma doença na coluna que invalidou esse homem e tinha infecção crônica no tutano da espinha. Eu vivi com ele. O médico operou, quase ele faleceu nessa operação. Começou a complicar tudo. Complicar tudo. Mas o médico falou pra mim que ele tinha cinco anos de vida. Só. Lá em Campinas. Eu fiquei lá com ele, pedi licença do trabalho e fiquei com ele lá um mês e 20 dias no hospital, dormindo numa cadeira porque não tinha outra coisa. Mas passou. Naquela época, ele ficou assim. E eu então ia de três em três meses pra Campinas com eles pra fazer lá os exame todos. E com essa o médico se enganou redondamente que ele durou até os 78 anos. Eu fiquei ali com ele. Cinco anos ele ficou acamado, minha vida foi muito difícil. Mas a cooperação que eu tive das minhas filhas que trabalhavam e ajudavam. Até o meu marido ficar cego, que ele ficou cego por glaucoma. . Ele tinha a aposentadoria dele e a gente foi trabalhando em casa. Ele trabalhou até o fim da vida dele. Até ele ficar acamado.

Era cinema então até os namoros.,. “Vamo pegar um cinema pra gente se conhecer melhor?” Era assim. Hoje acho que é barzinho, mas antigamente era cinema. “Olha, vamo pegar um cinema, vamo assistir um filme pra ver.” Então na Rua Augusta tinha dois cinemas, o Majestic, que era pra baixo da avenida Paulista. Vindo da cidade era antes da avenida Paulista, indo do Jardim Europa era depois, e tinha o Cine Paulista era pra baixo da avenida Paulista indo pro Jardim Europa. É nesse aí que a gente ia mais. Também ia no Majestic, mas naquela época era assim. Os cinemas na cidade, Ipiranga, Marabá, o Cine. O que eu mais freqüentava era esses dois. Tinha o da República que começou também. O Cine República depois tinha o mais “pulguerinha” ali no Parque Dom Pedro. Esqueci o nome daquele cinema ali. Era um pulgue... Todo mundo chamava ele pulguerinha, tinha muita pulga lá. (risos) Era tudo encarpetado. Tapetado e acho que a limpeza não era muito... Tinha o Cine Glória, tinha o Cine. Metro. Metro ia bastante também, na avenida Ipiranga o Cine Metro. Muitos filmes épicos passaram ali. Na época era só cinema então a gente qualquer coisa: “Vamos no cinema? Vamos se conhecer? Vamos. Vamos pegar um cinema?” Era assim que a gente nem... Passava no bar assim na avenida Ipiranga. Mulher não entrava no bar. Era só eles que iam comprar cigarro e a gente ficava lá na porta, ou então pra lá um pouquinho da porta do bar. A gente não entrava em bar não, de jeito nenhum. E nem entrava em carro de jeito nenhum na minha época. Quer dizer, quem se prezava não entrava. Carona de jeito nenhum. Era assim na minha época.

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