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História

Uma geração de graffiti paulistano

História de: Julio Barreto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2016

Sinopse

Neste depoimento, Júlio Barreto nos fala sobre suas raízes húngaras e sobre a relação de sua família com a USP, onde sua mãe dá aulas até hoje. Depois, nos fala sobre a casa de sua infãncia, localizada no Alto da Lapa, onde deu muito trabalho aos seus pais com suas travessuras feitas na rua e dentro do lar em companhia de seus irmãos. Nos conta também sobre sua relação com a arte na escola, seu primeiro amor e a vida na Santos do surfe, do grafite e dos primeiros contatos com drogas. A partir daí, vemos o começo da história de Júlio Barreto artista, fugindo dos guardas locais, fazendo acordos com a polícia e marcando a Baixada Santista, até subir para São Paulo, onde deixou grafites conhecidos ainda hoje, junto de pessoas como Alex Vallauri e Rubens Matuck. Júlio nos fala sobre suas técnicas, sua formação artística, seus sonhos em abrir um ateliê e de ver sua irmã famosa como ele. Por fim, sabemos um pouco mais sobre seu casamento e sua relação com seu filho.

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História completa

Eu nasci em São Paulo, no dia 29 de maio de 1966, às oito horas e alguns minutos da noite.

 

O meu pai chamava-se Luís Barreto de Souza, um psiquiatra, minha mãe é a Vilma de Katinsky Barreto de Souza, professora da Letras, na USP.Olha, o meu avô, Ladislau Leopoldo Katinsky De Katina e Pielesz, húngaro, casou com a Professora Anita Casalino, filha de italianos, aqui no Brasil já, ele tinha fugido da guerra, porque ele foi aviador, era engenheiro, mas, como aviador trabalhou, depois que derrubaram o amigo dele, o Barão Vermelho Richthofen, ele veio pro Brasil. Eu nasci quando a gente morava na Rua Itambé, em 66 a gente morava na Itambé, em 70, 1970, a gente mudou pra Brigadeiro Gavião Peixoto.

 

Ela fica no Alto da Lapa, perto da Rua Mercedes, a Brigadeiro Gavião Peixoto, ela vem como se fosse da Anhanguera e ela vai dar na Rua Barão de Jundiaí, Clélia, é uma veia. Era uma casa que tinha, tem uma puta biblioteca, uma puta garagem, duas putas salas enormes, uns quartos enormes, casa antiga, casa assim, sabe, um banheiro desse tamanho dessa sala, sabe, aí tem quintal, era uma casa antiga que o meu pai deu uma reformada, ampliou umas coisas e fez uma edícula pra gente, pros moleques, porque a gente quebrava tudo na casa, quebrava tudo.

 

No começo a gente estudou, quando a gente morava na, eu não lembro qual escola que eu ia quando eu morava na Itambé, de 66 até 70 eu não sabia qual era a escola, eu estudava na escolinha Angélica, que ela era duas ruas acima, no Alto da Lapa, então eu lembro da gente ir a pé pra escola, começou ali. Depois a escolinha Angélica mudou pra rua Passo da Pátria, aí eu estudei lá, depois, de lá eu fui estudar na Aclimação, porque na Aclimação tinha a Escola Experimental Irmã Catarina, que era uma escola que aceitava a Elisa, a minha irmã mais velha, né, depois da Silvia, que a Elisa tinha um problema, uns problemas, aí juntou que tinha a sede pros excepcionais e a sede pros normais. O que o Barretão fez? A Silvia só que ficou em Indianópolis, no Brooklin, estudou na Escola Waldorf, o Chico até tentou, até tentaram colocar o Chico, mas ele foi expulso, porque pegaram ele chutando bola, depois do tricô, que ensinaram ele a fazer, ele tricotou uma bola, aí começou a chutar a bola: “Seu filho, não sei o que, foi convidado”, mesmo porque eles não gostavam do meu pai, por serem antroposóficos, o meu pai psiquiatra alopata. Então eu passei o ginásio, acho que o ginásio no Irmã Catarina, por isso que a gente ia de motorista, depois eu fui, aí começou, né, aí eu fui pro Equipe, passei um ano no Equipe, foi o ano que eu saí da casa da minha mãe por causa de uma briga, eu fui morar na casa da minha tia, essa que faleceu agora, e Equipe. Aí foi Objetivo, Santo Ivo, até eu realmente estudar de verdade no Colégio das Bandeiras, que só ia vagabundo, tinha uma puta liberdade, eu era um puta playboy, playboy no sentido, assim, eu ia de lambreta, eu tinha uma lambreta 67, sabe, estudava à noite, porque de dia trabalhava, porque tinha que trabalhar, né?

 

Daí o que eu me lembro é que eu era pequeno e o Vallauri, o Alex Vallauri, que era vizinho de muro, o filho da Léia, ele estampava umas roupas numa prensa e a prensa não enxergava, então ele tintava, passava a tinta na madeira e punha lá, imprimia, tal e pendurava no varal, ele e um amigo, não lembro agora, Neno, era pequenininho, aí eu comecei vendo isso, as imagens, essas estampas.Eu ainda tinha uns oito, nove, eu frequentava a casa dele, porque eu era, né, vizinho, tal, então eu ficava brincando com carimbo, eu ficava vendo os desenhos. Aos 12 a gente tava estampando e aí ele falou assim: “Vamos pichar?”, eu falei: “Vamos”, ele tinha pegado uma das figuras que ele imprima, que era uma bota, cortou, pegou um disco, abriu o disco, fez uma máscara de uma bota e a gente foi pichar na viela. Eu comecei assim, segurando a máscara e vendo ele pichar, daí pra frente a gente saiu pichando, pintando

 

Olha, o grafite nos anos 70, começo dos anos 80, era uma coisa meio cabulosa de fazer, qualquer coisa que você fizesse na rua, você ou era elogiado ou você era muito xingado. Comecei então aos doze, 1978, dei umas paradas, óbvio, tal, o Alex também foi morar em Nova Iorque, aí eu fazia algumas coisas, umas máscaras ou outras, de vez em quando fazia uns pichos, vamos dizer, uns grafites, mas nada, assim, muito, né, e era proibidíssimo, era super proibido, por isso eu fazia umas máscaras que cabiam embaixo do braço. Até um dia que eu me enchi, fiz logo um Spirit, né, dentre as centenas de imagens, que eu olhava a rua, via onde era interessante, o ponto aqui, aquele muro ali, o ônibus para aqui, as pessoas olham, tal: “Ah, tá, já sei”, então eu estudava a cidade pra saber aonde eu ia colocar tal desenho que conversasse com os transeuntes. Isso era uma das coisas que o Vallauri me ensinou, né, e depois eu conheci o Matuck e vi que não tava errado, que eu tava mais ou menos certo, na medida que eu trabalhava de acordo com o que os outros também já trabalhavam, então eu sabia, né, tanto que hoje, se eu tô junto com eles, é porque, não sei, coincidiu, né, da gente trabalhar junto.

 

Eu conheci Patrícia em 2001, a gente se casou em 2008 e ficamos casados até 2013, aí em 2013 eu fui mandado embora, com uma certa razão e com outra certa não razão, eu dou razão pros dois lados, fui mandado embora. Eu tenho um filho com a Patrícia, que veio depois de muita luta, muito custo, muita batalha, moro hoje aqui na Vila Madalena e eles moram em Moema.

 

Olha, os meus sonhos hoje são: conseguir fazer um trabalho legal, conseguir ter dinheiro pra comprar uma casinha pequenininha pra mim, pra eu poder ter o meu ateliê, com os meus livros, uma casa pra mim, pro meu filho, que vai ficar com ela, e uma casa onde eu possa receber as pessoas pra ensinar o que eu sei, seja dando aula, dando curso ou festa ou o que quiser. Assim, eu acho que eu tô nessa, porque, cara, eu tenho visto a morte esse tempo todo, o que sobra, meu? Não sobra nada pra mim, tem que sobrar pro resto, que sobre bom, né, que seja bom.

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