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História

Uma fusão de conhecimentos

História de: Moacir Carnelós Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/09/2009

Sinopse

Moacir á paulistano. Nascido na Freguesia do Ó, acompanhou a cidade crescer e a urbanização mudar radicalmente o seu bairro. Desde muito cedo começou a trabalhar. Seu primeiro emprego foi na Abril Cultural. Na época da faculdade, escolheu fazer Biologia, que se tornou a sua profissão, e na qual trabalhou por anos. Mas a grande mudança da sua vida foi quando nasceu a sua primeira filha, Joana. Foi então que ele passou a se dedicar quase exclusivamente a ela, criando um laço afetivo muito forte.

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História completa

P/1 – Moacir, pra gente começar, eu queria que você falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Moacir Carnelós Filho. Eu nasci aqui em São Paulo na Freguesia do Ó, em 09 de julho de 1968.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – Minha mãe se chama Terezinha Zonta Carnelós, meu pai é Moacir Carnelós.

 

P/1 – E o que eles faziam quando você era menor?

 

R – Minha mãe, logo quando ela casou, ela parou de trabalhar e foi cuidar dos filhos, da casa. Meu pai é mecânico de automóveis.

 

P/1 – E qual é a origem da sua família?

 

R – Do lado da minha mãe eles vêm da Itália. Do lado do meu nonno - a gente chamava o avô de “nonno” - ele é filho do Vêneto, de gente do Vêneto, de veneziano. Não sei ser exato. A minha mãe é uma mistura de veneziano com calabrês. A minha nonna, aliás, a mãe da minha mãe. Do lado do meu pai, a família Carnelós vem do Vêneto, também perto de Veneza tem uma região que chama Carnia, e Carnelós é uma derivação desse Carnia.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Só falei italiano até agora. E aí a minha avó, a mãe do meu pai é de família de espanhóis do sul da Espanha, de Almeria.

 

P/1 – E você tem irmãos, irmãs?

 

R – Eu tenho uma irmã, Cristina, mais velha que eu três anos.

 

P/1 – E como que era a convivência com a sua irmã quando vocês eram pequenos?

 

R – Muito boa, muito pacífica, muito tranquila. E comparada aos meus filhos hoje, que eu vejo minha filha e meu filho que tem a diferença de idade igual muito pacífica eu e minha irmã sempre fomos muito bem. E eu cresci também com os meus primos então foi tranquilo, nunca teve muito problema não.

 

P/2 – Moacir, e como que era a sua casa, a região ali da Freguesia do Ó quando você era criança? Como você se lembra disso?

 

R – Quando eu era bem pequeno ainda era uma rua de terra, aquela região mudou bastante. É interessante porque minha mãe nasceu ali e era um sítio onde ela nasceu. Esse sítio virou a escola onde eu fiz o meu primeiro grau. E a região foi urbanizando mesmo. O meu nonno chegou lá com a família há uns, minha mãe nasceu lá então há uns 70 anos. Chegou lá, era bem interiorzão ainda Freguesia do Ó era bem interior. E quando era pequeno, eu lembro que ainda a minha rua ainda era de terra, mas depois foi urbanizando, foi urbanizando. É até interessante, porque tem uma trajetória que até me motivou, até agora eu estou trabalhando muito com ambientalismo, de entender que a minha mãe brincou num ribeirão, que ela contava que era um ribeirão que tinha peixe etc. E quando eu conheci, o processo de urbanização já estava avançado, então já tinha virado um córrego já desaguando todo o esgoto, então era um negócio morto feio, fedido. E agora existe uma avenida em cima, não existe nem mais o córrego, nem mais o ribeirão. Então assim: minha mãe brincou no ribeirão, eu vi um córrego fedido e a minha filha está vendo uma avenida. Então acho um impacto urbano muito forte.

 

P/1 – E você lembra das suas brincadeiras preferidas lá, ainda pequeno com sua irmã, seus primos?

 

R – Acho que a brincadeira mais usual era brincar de bola, e bicicleta. Eu nunca fui muito bom de esportes assim: peão, empinar pipa, todas essas coisas exigiam um pouquinho a mais de cuidado e eu nunca fui muito bom não, sempre o pessoal sempre jogava melhor que eu. Mas eu nunca me incomodei com isso também, achava natural, tinha que ter muito empenho; eu não tinha estímulo necessário para ter o empenho da coisa. Esses esportes de criança, tem esportes coletivos que você precisa ter essa vontade de ganhar. Eu nunca tive essa vontade de ganhar em esporte coletivo, pra mim é indiferente o resultado, o que é fundamental pra quem joga. Então rapidamente eu saí fora dos esquemas de esportes coletivos. Foi exclusão mútua, eu não gostava e o povo também não gostava de quem não curtia muito.

 

P/2 – Você tem uma lembrança mais antiga que te marca desse período da infância? O mais remoto que você consegue.

 

R – O mais pra trás? Olha, eu lembro muito do quintal da casa da minha avó. Acho que marcante mesmo, eu lembro muito de natal que tinha a família toda reunida. Não tem muita memória muito pequeno não.

 

P/2 – Como que eram esses natais?

 

R – É legal, família, festa, uva, sempre lembro que é época de uva. Eu tenho uma lembrança muito grande de ter muita uva, eu sempre achei muito interessante, até hoje eu acho.

 

P/1 – E você lembra de alguma história de assombração, alguma coisa que vocês tinham medo?

 

R – Ah então, minha família é espírita, ela vem espírita lá da Espanha, é muito sem graça, não tem assombração. Não tem medo. A minha família, eu nasci numa casa espírita, algumas gerações já de espírita. Hoje eu acredito em espíritos, em coisas que eu não consigo explicar, a ciência não consegue explicar, é deficiência da ciência, mas a gente cresce no meio de um ambiente que você consegue, você vê coisas que não tem explicação mesmo, você convive com coisas que não tem explicação. Eu, por exemplo, nunca fui ao pediatra, eu ficava doente e a minha avó, que é do lado espanhol da família, minha avó era médium, incorporava um espírito e falava: “Tal coisa”, remédio era chá, alguma coisa e era esse o remédio. Nunca teve médico nem nada.

 

P/2 – E sempre o resultado foi satisfatório?

 

R – Sim, eu nunca fui pro hospital, nunca fui hospitalizado, não tinha muita coisa. É bem diferente essa coisa. Então essa coisa de assombração não rolava, a gente era meio assombração. Quando eu era pequeno eu não podia falar que era espírita porque o pessoal ficava com medo. Hoje em dia é mais aceito, mas quando eu era pequeno na escola não podia falar simplesmente. Eu não estou falando de coisa muito tempo atrás não.

 

P/2 – E esse quintal que você disse que se lembra dele, como que era? A sua casa, de modo geral? Suas brincadeiras ali?

 

R – Eu tinha os meus primos, eu era o mais velho, o primo mais velho na casa do meu pai; tinha a minha irmã, mas eu era dos meninos o mais velho. Então a gente brincava muito de futebol, os meus primos sempre melhor de futebol que eu, de longe, a gente jogava muita bola. Não tem muita lembrança. E da casa da minha nonna era outro universo, que eram outros primos, um quintal maior, tinha outras brincadeiras também... Pra falar a verdade, eu acho que eu era um pouco fora do esquema. Por exemplo, quando era uns 12 anos, eu fui no Play Center, achei um saco aquilo, achei uma brincadeira de ficar chacoalhando pra cima e pra baixo, não achava nada interessante. Então eu nunca fui muito dado a brincadeirade esporte, de ação, de muita dinâmica, eu achava um exercício meio fútil.

 

P/2 – E o que te entretinha nessa época?

 

R – Mais leitura mesmo. Era muito leitor, eu gostava muito de leitura.

 

P/2 – Qual que é uma lembrança, uma leitura que te marca dessa fase das primeiras leituras?

 

R – Ah, de pequeno eu lembro muito que eu gostava de quadrinho, de ler quadrinho. Eu aprendi a ler em casa com quadrinho, eu fui pra escola eu já sabia ler. Porque a minha irmã era um pouco mais velha, então ela voltava da aula de alfabetização, ela tinha a lousa e ela passava pra mim aquilo que ela aprendia. Então eu quando entrei na escola eu já sabia a ler e a escrever. Que hoje eu vejo o meu filho, Murilo, com quatro anos já tá dominando, escreve o próprio nome, já reconhece todas as letras, já vai falando. Mas com quatro anos ninguém, criança nenhuma aprendia a ler nessa idade, e eu um pouquinho mais velho que isso e já comecei a dominar a leitura. Fora quadrinhos, coisas de criança. Eu ganhei, quando era muito pequeno, uma enciclopédia, eu li tudo aquilo lá, achava maravilhoso, lia várias vezes a mesma coisa e até hoje eu faço isso: eu leio a mesma coisa várias vezes, adoro reler. A própria enciclopédia de vez em quando eu pego para matar a saudade.

 

P/1 – Você já gostava de ciência desde pequeno já.

 

R – Então, essa coisa de ciência é uma, eu acho que uma fusão mesmo de conhecimentos. Eu já pensei muito sobre isso. Por um lado, a minha mãe que sempre gostou muito de natureza porque ela cresceu num sítio. A família da minha mãe é muito voltada pra essa coisa interior, apesar dela ter nascido aqui em São Paulo, mas ela nasceu numa São Paulo numa outra era, uma roça. Então esse conhecimento com a natureza, essa lida com a natureza é uma coisa que eu aprendi muito com o nonno. Convivia muito com ele, com a minha mãe também, a minha mãe conhecia muita planta, conhece muito mato, muita coisa. E o meu pai, por ser mecânico, ele no interior já curtia mecânica, ele nunca curtiu muito a natureza, nunca curtiu muito essas coisas, dá um cacto pra ele eu acho que morre, esquece de por água. Mas essa coisa da mecânica estimula o raciocínio lógico, de equipamento, que pra ciência é tudo pra quem trabalha em laboratório, como eu trabalhei muito tempo. Então acho que foi uma fusão mesmo de conhecimentos.

 

P/1 – E você lembra das comidas que você gostava de pequeno, os sabores?

 

R – Olha, eu só não como manteiga, o resto eu gosto, eu como tudo.

 

P/2 – Manteiga?

 

R – É, manteiga na comida eu como, mas pão com manteiga eu não como. É só isso, o resto eu gosto de tudo.

 

P/1 – Mas você não lembra dos pratos especiais, tinha a da uva lá que você falou, coisas da vovó?

 

R – Então: uva, eu acho uma delícia, figo, eu acho uma coisa deliciosa. Comida italiana todas, 100%; acho uma delícia conhecer, desde pequeno, fui apresentado. Mas eu gosto muito, eu gosto dessa mistura. Eu vejo uma química muito interessante também na comida, como mistura dos sabores etc. Agora que eu tenho cozinhado bastante também, então você começa a mexer na coisa, começa a interferir, você começa a perceber um monte de coisa. Mas eu gosto muito, sou muito comilão. Eu não conheço ninguém que come mais do que eu, eu sempre como mais que todo mundo, onde eu vou sempre eu estou comendo mais do que todo mundo.

 

P/1 – E como é que foi quando você começou a ir na escola? Você já sabia...

 

R – Já sabia ler, então, aí foi uma coisa legal, mas logo de cara teve um problema de uma defasagem, eu comecei a ficar bagunceiro porque o que era óbvio pra mim ninguém tinha visto ainda, então começou a surgir um certo problemade defasagem, de ficar. Mas eu acho que não foi muito traumático, pra mim não foi.

 

P/1 – Mas você gostava de ir pra escola?

 

R – Adorava, sempre gostei. Adorava, gostava muito.

 

P/2 – Como que era a escola? O nome dela? A sua sala?

 

R – A primeira escola que eu entrei, eu não pude entrar numa escola pública. Estudei a minha vida inteira em escola pública, mas o primeiro ano eu não pude porque como eu faço aniversário em julho, ou entrava com sete anos e meio, ou com seis anos e meio, e em escola pública você não podia entrar com seis anos e meio, você tinha que ter os sete anos completos. Então eu entrei numa escola pequena, particular, lá da Freguesia, que era uma casinha, era uma casa, uma sala de aula, chamava Pardalzinho. Tem que lembrar que aqui eu tenho que contar minha história e às vezes não sabem. Pra mim é obvio, mas eu vou contar. Minha professora chamava Isabel, era uma negra linda, achava ela linda, era uma negrona linda, super carinhosa, super legal. E foi muito legal essa escola, foi um momento interessante de conhecer. Eu nunca achei ruim, nunca tive problema nenhum com a escola, achava legal. Tinha uma coisa muito engraçada, a gente brincava muito e sempre tinha uma coisa que eu não vejo hoje: os meninos ficavam perseguindo as meninas e tinha um conflito, tem essa rivalidade menino e menina nessa idade, é bem característico. Mas a gente era meio perverso, a gente perseguia mesmo as meninas.

 

P/1 – O que vocês faziam?

 

R – Brigar, arrastar, jogar no chão. Então, puxando a minha memória eu lembro muito disso era bem rixa, eram duas gangues, as meninas e os meninos. E hoje eu vejo que as meninas são muito mais agressivas, combativas, e quando eu era pequeno não, as meninas eram mais bobonas, mais delicadas até. Eu vejo hoje, que eu dei aula no ano passado eu convivi com as turminhas, eu vejo que as meninas muitas vezes batem nos meninos.

 

P/2 – Com mais frequência.

 

R – Com mais freqüência. Isso não tinha, eu achava uma coisa diferente, quando eu era pequeno era mais ou menos isso.

 

P/2 – E aí você mudou pra outra escola?

 

R – Aí eu fui para uma escola pública, daí eu podia entrar numa escola pública perto de onde eu morava. Era outro universo, era uma escola grande, bem grande. E engraçado, porque, a maioria era periferia, então eu era muito diferente: eu era loiro, tinha acho que uns três, quatro loiros na escola, e de óculos só eu. Então era muito destacado. E tinha um cara que me chamava de “tipo estranho”, eu era muito estranho perto da média ali. É bem interessante, se você pensar que numa escola inteira tinha um palmeirense e um são paulino, na escola inteira, o resto era corintiano e santista, era bem periferia, era outro momento da periferia também. Mas eu acho interessante porque tinha essa divisão ainda, palmeirense era da Lapa, Pompéia, onde tinha o Palmeiras, são paulino era no Morumbi, aquela região ali, e a periferia mesmo era santista por causa do Pelé, claro, e corintiano, a grossa maioria. Ainda é, bastante na Zona Norte. Eu morei na Pompéia quando eu casei, tinha jogo do Corinthians, não tinha um rojão, nada, zero, só eu.

 

P/2 – Você é corintiano?

 

R – Eu sou corintiano. Família: eu e minha esposa nós somos corintianos, e as crianças não tiveram escolha.

 

P/1 – E desse tempo de escola aí você lembra de umas coisas marcantes com o passar do tempo? Umas travessuras? Uma professora legal?

 

R – É então, eu nunca fui pra diretoria, eu nunca fui muito de aprontar, eu nunca fui muito de encrenca, briguento; eu nunca fui briguento, nunca briguei na escola, nunca tive briga nenhuma com ninguém. Mas eu brigava com os professores, eu era briguento com os professores, sempre briguei muito com professor, até hoje. Sempre briguei muito com professor, era meio espírito de corporativismo, os alunos contra os professores. Então eu nunca briguei com aluno porque eu acho que a gente tem que brigar com quem tá no poder .

 

P/1 – E você paquerava também na escola? Você lembra de alguns momentos ou você era um pouco mais fechado?

 

R – Ah, isso mais velho, não quando era pequeno; isso já no ginásio. Tem uma coisa interessante: durante um tempo tinha uma menina na minha classe que eu achava ela bonita, linda, e ela sempre me dava um papel de bala com nozinho, eu pegava e guardava, sempre quase todo dia. No ano seguinte eu descobri o que dizia aquilo lá: era um código para pedir um beijo, e eu tinha uma acumulado só que tinha acabado o ano já .

 

P/1 – Perdeu a chance!

 

R – Não tive a informação necessária, achava só interessante: dava o papelzinho, eu guardava, legal, não tinha o menor significado aquilo.

 

P/2 – Tem alguém especial nessa época? Algum amigo, amiga, professor, alguém que quando você se lembra desse período da infância, início da adolescência?

 

R – Ah, como é bairro, a gente tinha um grupinho, não uma pessoa especial, mas tinha um grupinho de amigos que a gente sempre se encontrava, sempre jogava bola juntos, fazia campeonato de botão, fazia campeonato de futebol de botão, era uma delícia isso.

 

P/2 – Você perdeu o contato com essas pessoas?

 

R – Eu vi um ou outro, faz muito tempo que a gente não se vê. Que eu mudei de bairro também, agora mudei de cidade também. Mas alguns deles passam na porta da minha mãe e cumprimentam, porque como é um bairro meio fechado, os pais dos meus amigos eram amigos também, a minha mãe conhecia os pais, alguns colegas meus também. Então, foi uma geração, amizade de gerações. Então alguns às vezes passam lá em casa, na casa dos meus pais e cumprimentam a minha mãe, minha irmã, conversam um pouco, eu tenho informação. Eu tenho informação através deles dos meus pais sobre os amigos. É uma coisa curiosa, na minha geração poucos fizeram uma faculdade, a maioria ficou no máximo no ginásio, e avançou um pouco para o colégio. O pessoal trabalhava, ia trabalhar cedo. Que também era uma coisa difícil, eu com 14 comecei a trabalhar e tinha que estudar a noite também, tinha que fazer colégio à noite. Eu fui fazer o colégio a noite já. Então o pessoal meio que desistia, não tinha estímulo para ter o segundo grau, não fazia sentido. No máximo no máximo o segundo grau. Poucas pessoas de uma escola inteira quiseram fazer uma faculdade não tinha muita gente.

 

P/2 – Você começou a trabalhar com o quê?

 

R – Eu fui trabalhar na Abril, na Abril Cultural. Uma coisa interessante: que um amigo meu trabalha, colega de classe, de ginásio, aí quando estava nessa transição de 13 para 14, que eu ia para o colégio, ele falou que tinha uma vaga lá onde ele trabalhava na Lapa, aí eu fui lá fazer uma entrevista, só que eu errei o endereço. Ele trabalhava na área de produção, no ciclo do livro, e aí eu errei o prédio e entrei na Editora Abril e estavam também fazendo uma seleção. E eu acabei entrando por ali mesmo, fui fazer a seleção. E foi interessante porque com 14 anos, e tinha aqueles testes psicotécnicos, aquelas coisas, e eu achava super obvio aquele negócio, foi uma lógica, é só lógica, você vai fazendo a coisa e eu achava fácil aquilo. Fui fazendo, fazendo, fazendo, terminei, passei, tinha um monte de moleque, eu fui o único escolhido, era uma vaga só. Acho que essa coisa de psicotécnico.

 

P/1 – Era pra fazer o quê?

 

R – Era trabalhar em escritório, era de auxiliar de escritório. Eu achei maravilhoso porque com 14 anos eu comecei a correr em São Paulo, eu trabalhava no escritório, eu tinha o meu trabalho no escritório, mas eu fazia serviços na rua também. Então ia pra alguns lugares entregar correspondência, pagar conta, essas coisas. Uma empresa grande que nem a Abril, era uma empresa bem grande, e a diretoria fica onde ao lado é hoje o edifício da Abril ali em Pinheiros, tinha o prédio Passarelli, que hoje ao olhar, você vai olhar é um prédio pequenininho perto do edifício da Abril ali, mas eu ia muito lá. Então comecei a correr São Paulo por conta disso e achei maravilhoso, com 14 anos eu tinha o meu salário, dava as minhas voltas, gastava tudo com fliperama, comida, comia muito, gastava com muita comida. Era legal, porque eu tinha o meu trabalho e era um emprego um pouco diferenciado para a época, porque tinha o ônibus próprio da empresa, tinha todos os benefícios. Que hoje é uma coisa meio óbvia, mas antigamente não era; ter salário, ter plano de saúde, ter transporte, refeição, tudo isso tinha lá. Então foi um trabalho bem interessante.

 

P/1 – E o colegial a noite era legal?

 

R – O colégio a noite era legal. Eu fiz o primeiro ano em colégio na Freguesia. Aí eu achei que estava ficando muito dentro do bairro mesmo, estava ficando muito endógeno ali, estava muito aquelas cabecinhas e aquelas ideias da periferia; aí eu fui estudar na Pompéia, num colégio na Pompéia. E aí tinha gente de toda São Paulo, e estudava a noite. Depois, cada um ia pra um bairro. Então eu achei a diversidade um pouco mais interessante. Na época, muito legal. Eu lembro de toda a minha infância, juventude, muita alegria, muita diversão, não tinha muita crise, nunca tive muita crise com os meus pais, que eu vejo que era a maioria das pessoas tem nessa idade; pra mim foi meio fluido, foi tranquilo, me divertia bastante.

 

P/2 – Como que era essa sua relação com os pais no dia a dia mesmo? Vocês se viam? Como é que era?

 

R – Ótima, ótima! Eu acho que eu sou muito privilegiado com os meus pais, tenho a relação muito boa mesmo com eles. Eles são muito compreensíveis. Que eu acho também que é uma herança da educação deles que meus avós também sempre foram muito legais, muito tolerantes, muito pacíficos. Eu acho que é uma cultura da paz mesmo, não tem essa coisa agressiva de punição, nunca apanhei, minha mãe nunca gritou, nunca me bateu. Meu pai uma vez ou outra, acho que quando eu passei muito do limite ele deve ter brigado comigo, mas eu não lembro de apanhar, essa coisa opressiva, nunca teve isso. Era um ambiente favorável para você ser criativo, é claro que você apronta um monte com isso, mas tem uma tolerância que você vai se autocorrigindo, isso é uma coisa bem interessante que eu vejo. E na adolescência, como logo cedo eu fui trabalhar e conquistei uma independência também financeira pro meu universo, eu podia fazer as minhas coisinhas e também de estar no mundo, conhecendo o mundo de uma maneira livre mesmo. Que eu acho que a liberdade é a palavra chave tem uma coisa que a gente vên a própria educação. Meu pai nunca foi um cara que perguntou onde eu ia quando era adolescente, nunca, eu que falava porque eu queria, nunca “Onde você foi? Onde você vai? Que horas você vai voltar” nunca teve esse tipo de questionamento, nunca teve essa coisa. Porque também acho que eu nunca fui um cara que aprontei. Existia uma confiança mútua ali. E até hoje isso, esse tipo de trato continua valendo, eles confiam muito.

 

P/1 – Moacir, quanto tempo você ficou na Abril?

 

R – Fiquei três anos, fiquei até os 17 anos.

 

P/1 – E aí você foi estudando a noite também?

 

R – Eu fiz o colégio. Aí eu saí porque também mudou de endereço, ela ia mudar para a Raposo Tavares, alguma coisa, daí ficou inviável de eu ir. Era uma época muito interessante, porque eu conseguia ir trabalhar de ônibus, eu voltava, saía do trabalho às cinco da tarde, ia pra casa, tomava banho, jantava, depois eu ia para o colégio. Hoje é impensável isso: você sair às cinco horas da tarde de um ponto como a Lapa, ir até a Freguesia de ônibus, pegava um ônibus, dois ônibus da Lapa até a Freguesia, chegava em casa, jantava, tomava banho, jantava e pegava um ônibus para a Pompéia sete horas da noite eu estava na Pompéia . Isso é interessante porque isso...

 

P/1 – Mudou muito.

 

R – 83, 84 isso dava tempo.

 

P/2 – Moacir, você falou de mudar de ares você, foi para uma escola que era mais cosmopolita...

 

R – É...

 

P/2 – Como é que é isso na prática, como é que isso se traduziu pra você na sua lembrança, o que na prática tinha de experiências diferentes que você viveu ali? Como é que foi isso?

 

R – Ah, foi muito legal porque era um colégio mais antigo, mais estável. Mas tinha mais gente com ideias diferentes, gente mais velha também. E eu sempre andei com gente mais velha, minha tendência sempre foi andar com gente mais velha. Então foi muito interessante, que daí você já começa viver a noite, começa a curtir. Eu basicamente saía à noite de final de semana porque eu trabalhava de dia, estudava a noite, então sábado e domingo a gente aproveitava para passear também. E aí você conhece gente de lugares diferentes, daí você começa a conhecer lugares diferentes também, foi isso que eu busquei mais, também porque eu sentia que onde eu estava ali no colégio - eu ficava ali na Freguesia, com o pessoal dali -, então tudo rodava ali e eu achava uma coisa muito pouco. Tinha pouca variação de uma pessoa para outra. Então você vai num ambiente de maior diversidade, você consegue ter informações diferentes, foi por aí que eu busquei.

 

P/2 – E o que você conheceu de especial nessa época? Lugar? Gente?

 

R – Ah, a gente fazia muita coisa, passeava muito, gostava muito de música, de show, em ver, fui apresentado para a música, músicas diferentes, pra coisas diferentes. Você conhece o mundo mesmo, acho que não tem uma coisa especial, uma coisa que destacasse.

 

P/2 – Você traz amizades dessa época até hoje ou não, perdeu o contato?

 

R – Também perdi o contato, perdi o contato. Tem só uma coisa que é assim: eu não tenho muito apego também, acho que as pessoas mudam. Nessa época você tem muita afinidade pela idade, depois você volta a conhecer, até rever algumas pessoas esporadicamente, mas você vê que cada um tomou um rumo tão diferente do seu que você: “Meu, valeu a pena naquela época, agora não precisa ficar mais resgatando, não tem muito assunto”. Ou é ficar falando do passado, ou o presente é insuportável, cada um tá tomando um rumo tão diferente, você vê as pessoas de uma maneira tão diferente, cada um amadurece de um jeito. Eu tive uns amigos de adolescência que me acompanharam até recentemente. Tinha um amigo muito grande, o Luciano, que agora mudou de cidade também, a gente perdeu o contato. Eu tinha um mundo, vamos dizer, tinha um grupo da escola com quem eu tinha, na adolescência, que eu saía e curtia as coisas; tinha um grupo do bairro que eu conhecia algumas pessoas também, de curtir; e tinha um grupo de um outro bairro, que eu curti. Então, eu nunca fiquei preso a uma turma só, eu meio que transitava entre as turmas, era mais independente delas. Não ficava fechado com um grupinho que fazia tudo junto todo final de semana. Que vai crescendo junto...nunca gostei disso.

 

P/1 – E quando você chegou lá com os seus 17 anos, que você saiu da Abril, e já devia estar quase no fim do colegial.

 

R – Terminei o colégio aí eu fui fazer cursinho. Aí foi uma doideira total.

 

P/2 – Por quê?

 

R – Ah, porque daí você descobre tudo que você quer na vida. Você experimenta do que você pode, que você é mais velho também. Eu sempre tive um receio muito grande. Na adolescência inteira, era uma época meio pesada, a polícia era uma coisa muito opressora. Então eu sempre tive muito medo da FEBEM, de ser preso e ir pra FEBEM. Isso era um pavor de qualquer moleque de periferia, era ser preso e ir pra FEBEM, e ia mesmo ,até hoje vai. O meu pai não tinha a menor condição, não tinha a menor. Se eu fosse preso eu ia ficar preso porque não tinha advogado, não tinha grana pra advogado nem nada. Então você tem que ser correto para não dançar.

 

P/1 – Mas que você aprontava que você tinha medo da FEBEM?

 

R – Nada, não tinha muita coisa, é assim: era uma polícia agressiva mesmo. Da periferia. Ainda tinha as histórias todas que o pessoal contava da época da repressão, dessas viaturas, viaturas chapas frias que eles chamam, que não era oficial, que passava, pegava a pessoa, enfiava dentro do carro e levava embora. São as histórias da época da repressão, da época da Ditadura. Então a gente tinha muito medo disso porque ainda existia a polícia civil, era uma coisa muito de amedrontar mesmo, e a polícia militar já amedrontava por si só por ser militar. Mas eu nunca tive muita encrenca com polícia não, a gente sempre tinha muita distância desse tipo de coisa. E aí, quando você vai crescer, aí depois dos 18 anos, você começa a ficar independente: “Não, agora eu posso responder por mim mesmo.” Porque ser preso quando você é menor de idade é terrível porque tem seus pais, você vê amigos que passaram por isso. Ia preso, menor de idade, daí o pai tem que ir lá na delegacia e tudo, aquela coisa. Então tinha essa, esse, vamos dizer, esse elemento para você se policiar para não dançar. Aí com 18 anos aí me tornei independente, vamos dizer, legalmente independente.

 

P/1 – E o que você gostava de fazer naquela época dos 16, 18 anos para se divertir?

 

R – Ah, acho que tá tudo muito ligado com a música. Naquela época o movimento Punk era muito forte, o discurso Punk era muito interessante, muito atraente. Eu nunca andei vestido de punk, eu nunca gostei, porque eu achava uma moda também, então eu andava com a minha roupa. Mas, era muito ligado com essa coisa do movimento, da ideologia de periferia que tem tudo a ver com Punk. O que tem hoje no Rap, que se escuta todo aquele discurso do Rap, era o mesmo discurso, só que com outra batida, com outro esquema, esquema Punk. Então eu curtia muito essa coisa da música, do Rock.

 

P/1 – Você ia em festinhas?

 

R – Ia, fazia festinhas, a gente fazia festinhas. Gravava uma fita pra festa, a fitinha e botava lá só rock’n’roll a noite inteira .

 

P/1 – Lá na sua casa?

 

R – Não, na minha casa não, salão de festas, amigos, casa de amigos. Meu pai foi um cara que nunca gostou de música, ele nunca curtiu muito, não gostava de música. Então a gente nunca agitou muito por respeitar o cara, também fica pentelhando o cara nunca teve muito sentido. Mas essa coisa da ideologia do Punk, você está buscando eu acho que eu trago comigo até hoje. Porque, era uma época que só dava coturno, e chutava as coisas. Eu raciocínio no meio desse chutar as coisas; é uma experiência, você não traduz no ato de chutar. Mesmo eventualmente você chuta alguma coisa, mas essa coisa de dar um chute nas coisas é bem da ideologia. Eu falo, trabalhando com movimento ambientalista agora lá em Mairiporã, eu falo que eu faço parte da sociedade civil incomodada, é um incomodo, eu estou incomodado. E eu acho que faz parte dessa época, dessa coisa de entender como é que funcionam os mecanismos. Mesmo porque quando eu trabalhava, trabalhando desde os 14, você vê que é uma exploração econômica muito grande, você vive a exploração econômica, você vê que você trabalha pra caramba e você não tem nada mal dá pra você continuar trabalhando, você ganha para trabalhar no final das contas.

 

Então existia muito essa coisa de experienciar a exploração econômica. Hoje em dia eu tenho uma outra leitura, você vai vendo a coisa mais macro, etc. Dá mais raiva até porque você vai entendendo a coisa. Por exemplo, a Europa continua explorando a América de uma maneira acintosa, desde 1500 pra cá só tirando recurso, só tirando recurso, só tirando recurso. A gente faz uma releitura, quando eu vejo hoje, você vai na Europa, você vê aquela exuberância, a primeira coisa que eu sinto é raiva, muita raiva, muita raiva mesmo. Eu olho para aquele povo todo feliz, estável bonito, uma moeda só, todo mundo é legal, aí você vê que são 500 anos de exploração do mundo inteiro tirando recurso do mundo inteiro e colocando lá. Tem que ficar lindo, tem que ficar muito bom. Aí você vai ver o padrão de vida deles é horrível, eles não vivem bem. Estão a 500 anos explorando o mundo e não vivem bem. Tem gente que fala assim: então deixa a história deles pra lá e vamos pensar na nossa aqui, vamos ver o que a gente pode fazer aqui. Tem muito disso da época da juventude, esse discurso Punk, essa ideologia Punk. Que agora eu acho que não tem mais a ver com Punk, o Punk é um movimento situado, mas pra que serviu? Pra chamar a atenção pra essa coisa libertária, esse discurso anarquista, libertário.

 

E eu tenho estudado muito, aliás é o que eu mais estudo, o que eu mais leio em questão de política e filosofia.. Que eu falo: a palavra chave sempre vai ser a liberdade, eu fico atrás da liberdade, eu fico querendo onde não pode ser exercida a liberdade, porque a liberdade você já nasce com ela e as pessoas vão tirando; é o contrário, o pessoal pensa que você conquista a sua liberdade. Não, você já nasce livre e aí as pessoas vão tirando as suas liberdades: de escolha, de pensamento, é o contrário.

 

P/1 – E conta um pouco mais do tempo da sua juventude aí, teve o movimento Punk, que foi muito forte pra você e livros. Outras coisas que você gostaria de fazer.

 

R – Ah, literatura tem muita coisa interessante. Eu vou falar um livro interessante, um marco na minha vida assim: eu quando tinha, sei lá, 12 anos por aí, 11 anos, eu lia “A Revolução dos Bichos”, que eu achei uma fábula, você com 11, 12 anos, você lê uma fábula de bichinhos. E aí você vê toda a exploração ali, tudo descrito ali. Fiquei revoltadíssimo com aquele livro e aí a minha professora de ginásio, estava no ginásio ainda, ela falou assim: “Não é possível que você tenha lido esse livro!” Eu falei: “Eu li, li e gostei, entendi. Tá tudo mostrando ali, o cenário todo de manipulação e tal”. Isso me marcou muito porque ela era uma professora de português e ela não admitiu que eu tivesse lido e entendido o livro. Fiquei revoltado com ela, mas achei que era besteira da cabeça dela.

 

P/1 – Também você ficou revoltado com todos os seus professores.

 

R – Quase todos, quase todos. Tinham professores que eu gostava muito. A questão de trato, arrogância, eu nunca gostei, nunca gostei de professor arrogante. Eu tive que engolir, na minha história de vida só um professor que eu engoli, que eu estava precisando de nota e tinha que passar, me formar na faculdade. Eu ficava pensando, ele falando aquele monte de coisa, eu falei: “Eu vou ficar quieto que eu tenho que passar de ano.” Foi a única vez que eu fiquei quieto, que o resto todas eu briguei.

 

P/2 – E uma briga na sua história de estudante, uma discussão que tenha sido mais forte?

 

R – Quando eu fui presidente do diretório acadêmico, primeiro ano da faculdade. Foi assim: meu primeiro ano da faculdade foi quando entrou aquele Plano Cruzado que congelou os preços etc. A gente entrou na faculdade, entrei no primeiro ano, eu fiz Mackenzie. No primeiro mês a gente já fez uma medida judicial qualquer e começamos a depositar em Juízo, eu já entrei na faculdade no meio de uma plenária, todo mundo discutindo o que a universidade tinha reajustados os valores da mensalidade e era proibido o reajuste, que tinha sido tudo congelado na época e a universidade reajustou. E aí no primeiro mês da faculdade estava aquele monte de gente, os alunos veteranos fazendo uma mobilização porque estava todo mundo revoltado. Eu achei o máximo! Eu entrei na faculdade já com revolta total.

 

Foi interessante porque eu, na realidade eu nem me formei lá, eu fiquei três anos lá, que eu vivia plenitude do mundo acadêmico, não do mundo de estudos acadêmicos, mas o mundo acadêmico. Porque o Mackenzie era muito interessante: porque era um lugar fechado, era um lugar interessante, não sei se ainda é. Porque são várias faculdades diferentes num espaço muito pequeno, então você acaba convivendo com pessoal de outras áreas, convivendo com alunos de outras áreas, então você começa a viver um mundo mais diferente. Então a gente tinha uma roda, sentava num bar para tomar cerveja, tinha o pessoal de Direito, Engenharia. Era mais comum você ter uma amizade multidisciplinar, vamos dizer, eram discursos multidisciplinares. Uma vez até levantaram uma questão: se alguém morresse num trem a velocidade da luz haveria crime ou não. Aí cada um foi pirar numa coisa: o físico, o outro não sei o que lá, porque na velocidade da luz você não ia saber aconteceu o crime? Não aconteceu? Então existia uma coisa muito rica, essa coisa do Mackenzie; eu lembro que era uma época muito rica, bem cosmopolita. Era o que tinha acontecido no colégio, só que numa outra estância ali, num outro momento de vida, foi muito interessante isso.

 

As amizades do Mackenzie eu carrego até hoje, os amigos do Mackenzie eu tenho até hoje comigo porque a gente tem a mesma idade, somos contemporâneos. Eu fiz três anos de Mackenzie, daí eu parei e falei: “Não, não vou continuar pagando”. Não estava com condição de pagar, etc. E eu já tinha decidido que eu não ia terminar a faculdade lá e no final desse terceiro ano o meu pai enfartou, meu pai teve um enfarte na véspera da eleição do Collor. Acho que ele também tava meio nervoso com a situação toda, além de ser fumante, muito fumante; tinha uma dieta que não era muito equilibrada, então ele enfartou. Muito nervoso, muito tenso. Isso marcou muito na minha vida. Eu falei assim: a genética tá aí, é só escolher o caminho, se você ficar nervoso, tenso, fumante logo você vai ter um enfarte. Isso daí que a família toda, a maioria do pessoal tem problema cardíaco ou problema vascular e morre, ou tem um derrame, acidente vascular ou um problema cardíaco. Então isso aí foi um sinalzinho muito potente, falou: “Olha, muda o comportamento ou não entra nessa neura”.

 

Então, mas eu terminei o colégio, eu terminei o terceiro ano do Mackenzie, meu pai enfartou, tal, não tinha mesmo condições de continuar numa faculdade paga, etc. Eu trabalhava fazia estágio na USP, no IPEN, Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, mas eu ganhava uma bolsa de como é que chama? Bolsa de iniciação, tipo bolsa de iniciação, então não conseguia me sustentar. Daí eu parei e fui prestar vestibular de novo. Aí eu prestei vestibular pra Botucatu, passei, cheguei lá e era uma bebedeira incrível, lugar maravilhoso, mas eu falei: “Meu, aí é que eu não vou estudar mesmo aqui”. Eu vou pro interior, no meio de um monte de pinguço, pessoal de Biologia. “Não, não vai dar”.

 

Daí eu voltei pra São Paulo, prestei Letras, passei em Letras na USP; eu fiz um ano de italiano, fui estudar italiano. E era outro universo, porque você sai da Biologia, trabalhando em laboratório, etc. a noite, não sei o que, aí vai estudar de manhã, tinha poucos homens, no meio das meninas Letras. Achava engraçado aprender a língua porque italiano é uma coisa que me interessava também. Até que eu aprendi bem, aprendi bem, em um ano eu consegui captar a língua, posso falar que eu converso, leio bem em italiano, converso. Eu fiquei um ano fazendo Letras e foi uma coisa incrível, descobri que fora da área de exatas as pessoas pensam e tem opinião. Porque nessa área de exatas você não tem opinião, você tem que saber o que é uma coisa objetiva, você tem que medir, aferir, calcular, mas você não pode achar que é isso e o outro achar que não é isso. Na área de humanidades não foi uma revelação pra mim com 20 e poucos anos que eu podia pensar e ter uma opinião diferente do meu colega do lado, e diferente do professor ainda, que era uma coisa mais absurda ainda. Você pode interpretar um poema e ter a sua interpretação do poema e aceita. Isso foi uma coisa que me marcou muito porque depois eu terminei esse ano de italiano lá na Letras, na USP, eu prestei o vestibular de Biologia na USP mesmo, aí eu fui até o final, aí eu fiz a faculdade inteira até o final, fiquei dez anos somando Mackenzie, tudo, dez anos na faculdade.

 

P/2 – Isso a gente já tá falando começo pro meio da década de 90? 92?

 

R – Foi, foi 90... Eu entrei no Mackenzie em 87, 88, 89, em 90 eu fiz Letras um ano, em 91 entrei na Biologia da USP.

 

P/2 – Então Botucatu você foi lá e volta já.

 

R – Fui lá, enchi a cara uma semana e voltei. É muito bom isso aqui, mas...

 

P/1 – Você curtiu a calourada.

 

R – Não ia dar. Não ia dar certo ali. Essa semana estava passando até uma entrevista com um cara contemporâneo de Botucatu, que hoje ele é ambientalista, tal, apareceu uma entrevista dele na TV etc. seguiu carreira lá de Botucatu. Morava numa república, que eu dormi nessa semana, república dele chamava “Morde Bunda”, olha o nome da república!  Daí pra frente você imagina. É tão calor lá que eles colocavam pinga na geladeira, pra tomar pinga gelada, é muito calor. Então garrafas de pinga na geladeira pra tomar. Então eu falei: “Não, não vai dar certo”. Porque o ritmo do pessoal do interior é pinga mesmo, vai muito na pinga e eu não estava acostumado com tanta, esse esporte aí, então eu saí de lá.

 

P/2 – E a USP? Como que foram os anos de USP?

 

R – Ah então a USP foi assim: se por um lado foi um alívio por não ter que pagar, por outro lado foi uma decepção total porque é um lugar muito isolado. Pensando nessa experiência prévia que eu tive no Mackenzie, de um campus multidisciplinar mesmo, da convivência multidisciplinar, você vai pra lá e cada um no seu quadrado. O planejamento da USP foi pensado nisso, isolar as unidades. Eu trabalhei com um filósofo que ele tem uns 80 anos já, ele falou: “O desenho, o plano original da USP não era esse de fragmentar, era mais ou menos como na UNICAMP, ter uma coisa mais concêntrica, uma coisa diferente. Foi desenhado, a USP foi redesenhada pela Ditadura mais ou menos para isolar”, diz ele, eu também nunca fui conferir essas histórias. Mas parece verdadeira esse isolamento todo que tem. E na prática é isso que acontece: uma unidade não dialogada com a outra. Então eu fui lá fazer a faculdade, mas já com outra visão.

 

Eu fiz três anos de Mackenzie mas nem pedi validação, nem nada, comecei do zero lá na USP. Falei: “Vou fazer o curso completo lá”. Fiquei lá seis anos à noite, fazendo faculdade. Aí você vê que a mentalidade é meio separada mesmo, isso trouxe reflexos muito grandes no meu próprio desenvolvimento profissional. Hoje se fala transdisciplinaridade multidisciplinar, etc, como se fosse a coisa mais novidade. Sempre funcionou bem, sempre foi a multidisciplinar, transdisciplinar. E lá na USP não, tem essa separação, foi muito marcante pra mim. Tanto é que as amizades da USP são pouquíssimas, eu tenho pouco contato com o pessoal da USP porque realmente existe uma elite, se sente elite ali. O que me motivou entrar também na USP foi isso, porque eu pagava pra estudar no Mackenzie, e trabalhava num instituto dentro da USP e via os profissionais formados lá na USP etc. pessoal meio tapado, sabe? E tem o preconceito ainda de quem não é da USP. Eu falei: “Pô, eu estou pagando para estudar e estou ensinando o pessoal aqui”, em certas coisas eu ensinava o pessoal que era profissional lá. Eu, aluno estagiário, ensinando o pessoal, “E ainda tem o preconceito porque eu sou do Mackenzie”. Eu falei: “Olha, que coisa ridícula”. Aí toda a minha situação financeira também, falei: “Não, eu vou estudar ali”, prestei vestibular de novo, entrei e me formei lá, mas com certo afastamento, não tive muita essa coisa, não vestia a camisa, nunca tive uma caneta escrito USP, nunca gostei. Apesar de ter feito mestrado lá depois, e vou fazer o doutorado lá também, mas é por causa da estrutura, não é por causa da ideologia do local.

 

Então essa vivencia acadêmica que eu posso dizer eu trago anterior na USP eu fui meio focalizado, eu fui lá pra estudar, fazer prova, passar, entender e aprender. Porque tem recurso, porque sim o curso é bom na área de Biologia, com certeza um dos melhores, mas a mentalidade não é uma das melhores, a mentalidade é muito fechada, muito elitista, muito parece assim: quem está no topo não tem que se preocupar, não tem nada melhor para conquistar. Só que eles se acham que estão no topo, o problema é esse eles se sentem no topo ali. Na realidade não existe isso.

 

P/2 – Você trabalhava com o que nessa época? Você estudou a noite lá, você trabalhava onde?

 

R – Ah então, essa experiência de laboratório, eu tenho uma experiência bem legal também, que logo de cara quando eu comecei a faculdade eu fui trabalhar no IPEN, e no IPEN eu aprendi as técnicas básicas de laboratório; um laboratório de fazer pesquisa na área nuclear. Então eu estudava basicamente os efeitos da radiação em sistemas biológicos. Então eu aprendi fazer cultura de bactéria, de fungo, trabalhava com caramujo, cachorro rato, camundongo. E tive uma experiência muito grande de técnicas diferentes, de microscopia, trabalhar com bicho vivo, de fazer microscopia eletrônica. É meio que você vai entendendo a realidade, vai pesquisando a realidade, os níveis da realidade duma maneira muito legal. Quem entra numa faculdade e vai pra um laboratório e segue carreira que nem teve amigos meus que fizeram isso, hoje estão no topo da carreira, são um dos maiores especialistas, tá numa coisa meio afunilada. E eu nunca gostei muito desse funil, sempre achei meio ruim. Já me decidi por uma área e trabalhar já e me aprofundar eu sempre busquei mais diversidade de técnica. E no IPEN eu fiquei três anos aprendendo várias técnicas diferentes.

 

Aí quando eu fui pra Letras, eu dei um tempo, fui estudar Letras, saí de laboratório. Quando eu voltei pra Biologia na USP eu entrei, eu fui trabalhar num hospital. Fui trabalhar num hospital no laboratório de emergência. Então era outra dinâmica, saí do mundo acadêmico de pesquisa que você antecipa: “Ah, vou fazer um experimento depois de amanhã”, aí você vai lentamente, prepara as coisas. Eu fui trabalhar num laboratório de emergência, então tinha que fazer os exames em 15 minutos pra sair todos. Uma pessoa entra na UTI lá e precisa sair todos os exames em 15 minutos. Então eu colocava vários tubos ao mesmo tempo, vários relógios, trabalhava, e era funcionário público. Trabalhava de plantão de 12 horas nessa loucura, foi um outro universo. E aí então foi um contraste muito grande porque uma hora eu estava num laboratório calmo, tranquilo, estudava a noite na cidade, no Mackenzie, de repente eu estava trabalhando no hospital muito agitado e fazia faculdade à noite, naquele lugar tranquilo, sereno, que era a Biologia da USP. Os grilos ali a noite cantando...

 

P/2 – E que hospital que era esse?

 

R – Eu trabalhei, na verdade, em dois hospitais. Trabalhei também em outro laboratório de análises clínicas na época do Mackenzie, brevemente, mas eu trabalhei em dois hospitais na Zona Norte. Eram hospitais novos recém-inaugurados, o Hospital Geral de Vila Penteado e outro o Hospital Geral de Taipas, que eram dois hospitais na época que viraram referência, uma referência de maternidade, outro referência de queimadura, alguma coisa, tratamento de pele, alguma coisa, não lembro direito.

 

P/2 – Durante mais ou menos os seis anos de faculdade na USP você...

 

R – Não, eu fiquei um ano e pouco, o esquema era muito pesado, era plantão de 12 horas e eu saía do plantão às sete horas da noite e depois eu ia pra USP, então eu chegava atrasado sempre nas aulas etc. Aí logo, acho que eu estava no segundo ano da USP de Biologia, teve um concurso para técnico de laboratório num Instituto lá dentro da USP. Daí eu fui lá e foi uma coisa engraçada, foi uma coisa interessante: eu fui prestar concurso, e era umas dez pessoas pra uma vaga de técnico de laboratório, segundo grau. E eu estava me graduando ainda, não estava formado, técnico de segundo grau. Aí tinha as dez pessoas, então tinha gente formada, gente com doutorado, gente que nem eu, graduando, para prestar num laboratório lá de fisiologia, laboratório de fisiologia animal. Aí eu fui lá, estava fazendo laboratório, estava trabalhando em laboratório direto e estava bem, com a mão bem treinada. É uma coisa que eu não tenho mais hoje: treinamento de laboratório, pegar tubinho. Recentemente eu voltei para o laboratório eu vi que já não tá mais, não tenho mais essa, eu estou mais para enxada do que pro tubo de ensaio.

 

E aí eu fui prestar, eu fui concorrer pra essa vaga, aí eu fui lá, os testes escritos, não sei o que lá, aí tinha um teste que era entrar numa sala de cultura e fazer uma pequena manipulação pra saber se você também já teve uma experiência prática pra coisa, nada muito complicado, mas tem gente que se atrapalha, que não é da área. Então eles queriam um técnico com uma mão boa já para treinar. Então foram as pessoas todas lá fazer o teste com uma senhora que era técnica do laboratório, que estava aposentando e ia entrar alguém no lugar dela. E eu entrei lá no laboratório, todo mundo foi lá e fez um teste com ela, estava na sala, é uma sala fechada. Então você entra sozinho, sai sozinho, ela estava lá dentro. Eu entrei me apresentei: “Boa tarde!” “Boa tarde!” Mexi, manipulei, não sei o quê. Ela olhou para a minha cara, e falou: “Olha, meu filho, o Rui...” o Rui Cordeiro o chefe do laboratório, o dono do laboratório “quem vai escolher, mas eu quero ficar com você, eu quero que você trabalhe comigo, a minha alma casou com a sua”. Numa entrevista de trabalho isso. E foi muito interessante. E até hoje eu tenho amizade com ela. Que daí ela me passou todas as técnicas, eu acabei entrando, fui escolhido lá por outros motivos também, mas principalmente porque ela pontuou muito isso com o Rui; muito querida a Marilene.

 

Eu vou aproveitar o gancho da Marilene pra falar uma coisa que sempre aconteceu comigo: eu sempre trabalhei com mulheres mais velhas. Acho que por conta dessa relação que eu sempre tive com a minha mãe uma relação muito pacífica, muito amável. Eu lembro que até eu casar eu sempre me atrasava para sair para o trabalho porque eu ficava lá batendo papo de manhã, tomando café e conversando, sempre batendo muito papo com ela. Eu sempre trabalhei muito com senhoras mais velhas, que eu sempre fui parceiro, então: eu trabalhei logo quando eu entrei no primeiro estágio no IPEN, a minha orientadora era a Nélida, uma argentina, me adorava, eu também curtia trabalhar com ela; depois eu trabalhei com a Marilene; eu trabalhei antes no hospital também com uma médica que era chefe do laboratório de emergência, uma senhora muito agitada. Depois eu trabalhei mais pra frente, quando eu me formei eu saí da USP e eu fui trabalhar com uma inglesa, a Jeniffer, eu fui para a área comercial. Eu me formei, eu fui para a área comercial, eu trabalhei com uma senhora também mais velha e agora recentemente também eu estou trabalhando com uma, a Marisa, que é regente, professora da UNESP, e com a Lucia, que é professora da PUC, a Lucia Santaella, professora da PUC. Sempre tive muita afinidade com senhoras mais velhas para trabalhar, e eu acho que é onde está a sabedoria. Gente que não só trabalha como teve filho também e fez os malabares de cuidar de filho porque hoje em dia você ser mãe é tão fácil quanto ser pai, eu acho. Você tem uma babá, você tem um esquema. Antigamente não. Você tinha que ser profissional e tinha que ser mãe também, tem que cuidar muito mais. Não existia essa facilidade de babá, de escolinha, não sei o quê. Acho que essas mulheres têm um valor inestimável.

 

P/2 – E quando você se formou, e aí como foi a sua vida? Você falou que foi pra área comercial.

 

R – É então, aí eu me formei. Daí eu passei cinco anos no laboratório lá com o Rui, trabalhando com o Rui e com a Marilene. E, depende, da área de pesquisa na Biologia você tem o ritmo de laboratório, o pessoal que trabalha com botânica, por exemplo, pega uma folha, faz lá a lâmina, vai examinar, é um laboratório super silencioso, quieto, gente tranquila, gente do bem, pacífico. Laboratório de fisiologia animal: é um laboratório agitado, porque você trabalha com coisas dinâmicas, você pega, mata o rato, pega o fígado, faz a cultura de célula, já testa a droga, já passa num outro aparelho, não sei o que lá, é uma coisa dinâmica. O pessoal que trabalha com zoologia, que trabalha com bicho, tem que pegar bicho no mato, não tem gente mais agitada do que isso. Então cada laboratório tem uma dinâmica. Eu trabalhei cinco anos no laboratório de fisiologia celular, eu trabalhava com sistema imunológico, células do sistema imunológico, então era uma coisa bem dinâmica, bem agitada. Só que eu me formei, ao me formar eu comecei a perceber que assim: o meu caminho ou era fazer uma pós-graduação, um mestrado, que era um caminho natural.

 

Aí eu fui ver e foi uma grande decepção com a Universidade de São Paulo ali e tal, porque tinha um cara que estava se formando ali em doutorado, estava concluindo o curso de doutorado e ele contestou a banca de uma maneira super legítima, houve um questionamento lá na qualificação dele, ele contestou a banca e ele foi reprovado na primeira vez na qualificação. Segunda vez na qualificação a pessoa da banca contestou ele no mesmo ponto, e ele respondeu a mesma coisa de uma maneira super técnica. Ele perdeu o doutorado ali na USP, ele teve que sair da USP, foi ter que fazer o doutorado na UNICAMP, depois de cinco anos de estudo. Por quê? Porque ele peitou, porque ele foi contestar a sabedoria de uma banca. Eu achei aquilo lá super frustrante, eu falei: “Não quero fazer pós-graduação, não tô a fim de passar por isso”, porque eu sabia que fatalmente... que eu conhecia bem o cara e a gente tinha muita afinidade nesse tipo de lida, sabe? Aquele problema com autoridade de professor, eu falei: “Não vou fazer mestrado agora”. Aí eu estava tomando outro rumo na vida e aí e fui partir para a área comercial, falei: “Vou tentar a área comercial”.

 

Aí eu consegui um trabalho de representante comercial de produtos para terapia, de câncer, material radioativo. Por causa da minha experiência prévia no IPEN, com o efeito da radiação e etc. eu tinha muita habilidade com essa coisa de material radioativo e entender decaimento radioativo etc., os tipos de material radioativo etc., então é uma experiência que eu tinha. Foi interessante, apesar de não ter experiência comercial, foi interessante trabalhar nessa área, fui admitido. Aí eu descobri que eu sou um péssimo comerciante também, não tenho muita afinidade com o comércio. O comércio objetiva lucro, se você não põe isso na frente, o resto não anda; você tem que botar o lucro ali na frente, tem que pensar, todas as suas ações tem ser voltadas para o lucro, aí você consegue fazer um comércio andar legal. Eu era muito técnico, eu era muito filosófico ali na área, mas eu trabalhei com a Jeniffer que era uma médica - ela, na realidade, nasceu no País de Gales, ela era galesa, mas ela cresceu na Inglaterra. E eu e a Jeniffer começamos a trabalhar, ela representante dessa empresa na América Latina e eu era o representante no Brasil, então a gente começou a rodar o Brasil, viajar o Brasil. Então eu comecei a usar terno e gravata, ganhar um salário muito bom pela primeira vez na vida eu comecei a ganhar um salário interessante. Não olhar para o final do mês e tinha dinheiro na conta ainda, foi só isso na minha vida, foi esse momento da vida que aconteceu isso: chegar no final do mês tinha dinheiro na conta ainda, tinha um carro legal e tal, não sei o quê.

 

E comecei a rodar o Brasil, fazer esse comércio etc. Mas era muito estressante, pela própria natureza do material, material radioativo. Tem materiais que você encomenda, a gente encomendava da companhia, e tinha que ser entregue no mesmo dia, no dia seguinte, se não tem o decaimento radioativo e não serve mais para o tratamento de câncer. Então eu vivia sempre na angústia da liberação da alfândega. Então o material chegava em Guarulhos, eu tinha que ficar lá torcendo para liberar naquele dia porque tinha que embalar, mandar pra outra cidade, etc. Então era um estresse tão grande que um dia eu fui parar no hospital com arritmia cardíaca, o coração batendo totalmente errado. E eu tinha um plano de saúde top, e eu fui num hospital top, que era meu cliente inclusive. Aí eu fui lá no hospital que eu ia a semana toda, eu fui lá um fim de semana pra fazer um eletrocardiograma e o médico fala assim: “Você não tem nada no seu coração, é arritmia nervosa, você tá muito tenso, não sei o quê”. Naquela semana eu pedi a conta, saí do trabalho fui fazer outra coisa da vida.

 

Na realidade, eu me juntei com mais outros dois amigos com quem a gente trabalhava naquela empresa, a gente foi fazer a nossa própria empresa de importação, de comércio de produtos para laboratório, mas numa outra instância. A gente era sócio, então não tinha essa pressão toda de trabalho etc. Mas acho que foi um momento muito marcante; eu fui parar no hospital por causa de trabalho, eu falei: “Meu pai já enfartou por causa de trabalho e eu quase enfartei”... Até porque eu não era fumante, mas estava com sobrepeso também. Pesava dez quilos a mais do que eu peso hoje, eu falei: “Não vale a pena, você tem uma abundância de recursos e uma falta de qualidade de vida absurda.” Então isso daí me chacoalhou bastante.

 

P/2 – Quanto tempo você ficou nessa empresa com a Jeniffer?

 

R – Ah, um ano, por aí.

 

P/2 – Foi uma experiência rápida então?

 

R – Foi rápido porque logo que o primeiro sinal que a coisa não era boa eu saí, eu não fiquei esperando um segundo sinal, sabe? Acho que todo o segundo sinal podia ser fatal, uma coisa mais pesada mesmo.

 

P/2 – Seu dia a dia era na rua correndo, aeroporto?

 

R – É, saía de manhã, pegava trânsito, ia até o escritório, depois eu pegava, ia para o aeroporto, ia viajar, ou ficava visitando cliente aqui em São Paulo. Tinha recurso, tinha carro, tinha um carro ótimo, tinha. Mas começou a não fazer muito sentido, você começa a conviver com gente que tá sempre objetivando o lucro, então às vezes você vê que passa por cima da ética, por cima de tudo. Então a gente ficava sabendo casos horrorosos em hospitais top de linha, você vê Einstein, Sírio Libanês você vê absurdos, erros grosseiros, erros médicos por interesse financeiro mesmo, sabe? O cara que usar tal tratamento porque dá mais dinheiro pro departamento, etc. e o paciente estoura todo ali por conta disso. Então você começa a entender o bastidor da história. E na mesma época eu tinha uma namorada que trabalhava na indústria farmacêutica, e ela trazia informações da indústria farmacêutica, ela era farmacêutica da indústria, do chão de fábrica mesmo. Então você começa a perceber que tinha uma exploração toda ali e todo o tratamento que a indústria farmacêutica faz para comercializar, para botar um produto no mercado, como falar assim: “A minha raiva por europeu é pequena.” Porque, por exemplo, as grandes indústrias farmacêuticas são suíças, e eles fazem assim: eles desenvolvem um novo medicamento, uma nova droga, eles fazem os testes pré-clínicos, fazem os testes em cultura de célula, em rato, em camundongo, em coelho, eventualmente em macaco, sei lá, e aí tem que fazer o teste em humano. Como é que faz o teste em humano? Eles pegam, mandam umas caixas do medicamento para a América do Sul, aí tem umas empresas especialistas, essas que ganham uma fortuna, ganham muito dinheiro dessas indústrias, pegam essas caixinhas, vão no interior, por exemplo, um caso que a gente conheceu ia lá pro interior do Peru, chegava numa clínica lá no Peru, dava um dinheiro para o dono da clínica e ele testava o medicamento no pessoal lá, fazia a lista. E tudo que você vê hoje escrito numa bula: “reações adversas: dor de cabeça, náusea, vômito, aborto” foi feito em latino americano, foi o que aconteceu com o pessoal que foi testado aqui, não teve um suíço que tomou esse remédio e passou mal, sabe?

 

P/2 – “O Jardineiro Fiel” mostra isso na África, não sei se você viu aquele filme?

 

R – Na África também.

 

P/2 – “O Jardineiro Fiel”, você viu esse filme?

 

R – Não, não vi.

 

P/2 – Assiste esse filme, chama “O Jardineiro Fiel” ele mostra um pouco esses bastidores da indústria farmacêutica, e desses testes que no caso era feito na África.

 

R – Então, e fazem isso mesmo. Você vê que a Europa explora todos assim: na Ásia, na África, na América do Sul. Então você olha pra um medicamento, você vê. Aí você vê a história do mundo. Na época do ciclo do açúcar como que, tem até aquela frase: “Não tem açúcar que não seja manchado de sangue” que chegava na Europa. Porque é uma exploração econômica absurda, sempre teve e ainda tem. Então, eu comecei a conviver nessa roda da indústria farmacêutica e ver como eles manipulavam os médicos pagando viagem, pagando não sei o que lá pro médico, pra ele prescrever o medicamento X pros pacientes, independente da eficiência do medicamento, porque o médico é patrocinado pela indústria. Então comecei a conviver nessa roda e, não dá pra você viver tranquilo, não dá pra dormir tranquilo, sabe? Fala assim: “Eu estou fazendo parte dessa roda.” Então meio que eu pulei fora também, várias pressões, e isto era uma das pressões.

 

Eu fui fazer comércio com dois amigos da faculdade da USP, que a gente montou uma sociedade e a gente foi fornecer produto para pesquisa, e daí foi um outro momento da vida. Aí eu fiquei no escritório, e organizando o escritório, eles vendedores porque eu nunca fui bom vendedor, então eu ficava na base e eles na rua. E a gente vendia produto para laboratório de pesquisa, então o diálogo é outro. Então é gente com outro tipo de pressão: quer fazer pesquisa, é outro tipo de clientela. E eu fiquei um tempo lá também, mas... E nessa época, a Cecília que era a minha namorada, ela ficou grávida e a gente acabou casando no susto. Eu tinha um recurso. Esse é um momento...

 

P/2 – Desculpa eu te cortar, isso nós estamos falando o que? De 98 mais ou menos assim?

 

R – Não, aí é 2001, porque a Joana nasceu em 2002. No final dos anos 90 eu entrei na sociedade, comecei essa sociedade; lá pelos 2000 eu estava na sociedade trabalhando. E aí comecei a namorar com a Cecília e tal e ela ficou grávida. A gente casou no susto, achamos apartamentinho no susto pra morar. Só quero contar essa parte da, depois eu volto essa parte do casamento, que é interessante também. Mas essa sociedade minha acabou quando eu entrei em casa e não falei boa noite, eu falei: “O dólar foi a quatro Reais!” Ela olhou pra minha cara e disse: “Você tem que sair disso aí, Meu, você não falou nem boa noite, você está com o dólar na cabeça.” Porque pra quem importa produto, fica muito dependente do dólar, da flutuação, e o dólar chegou a quase quatro naquela época, então uma dívida que era de mil dólares podia ser dois mil reais ou quatro mil reais. Ou uma dívida que nem a nossa de cem mil dólares, fica 200 mil reais ou 400 mil reais. Uma empresa pequena não tem essa...

 

P/1 – Esse giro.

 

R - Não tem esse giro, não tem essa ginga toda pra agüentar flutuação. E também tinha uma situação da sociedade ali que também não estava favorável, e aí eu simplesmente saí por nada, saí por nada. Mas eu vou contar um pouco dessa história do casamento que foi muito interessante.

 

Porque eu tinha namorado sete anos, eu tive uma namorada durante uns sete anos, ma época da faculdade ainda, lá da USP. Fiquei sete anos com uma namorada, essa da indústria farmacêutica. E essa história toda dela ir trabalhar na indústria farmacêutico, eu ir para a área comercial desgastou a relação de uma maneira muito ruim, desgastou porque cada um foi viver uma pressão e aí não consegue se acertar. Cada um vivendo uma pressão profissional, e a relação também não foi pra frente. A gente acabou separando. E nominalmente ela que me deu um tchau, falou: “Não quero mais, acabou.” Beleza! E aí logo depois eu conheci a Cecília, que era mais nova do que eu e tal, dez anos mais nova que eu. E aí foi uma outra relação, foi uma outra história, e a gente começou a ter uma relação muito intensa, diferente do que eu tinha vivido. Eu nunca fui muito namorador, essa namorada foi acho que, vamos dizer, oficialmente a primeira namorada que eu tive na minha vida. Eu comecei a namorar com quantos anos? Aí eu tenho que fazer uma conta rápida, uns 26, 27 por aí, nunca tinha tido uma namorada firme. Por que eu comecei a namorar? Porque eu nunca tinha gostado de namorar, achava namorar um saco porque era um compromisso etc, não gostava de nenhum esquema muito fixo.

 

Mas daí eu fui viajar, logo no primeiro ano de trabalho que eu fiz lá no laboratório do Rui lá na USP, no primeiro ano de trabalho eu juntei uma grana, financiei uma passagem e fui pra Europa. Nunca tinha ido viajar, entrei no avião e fui. Não falava inglês também, fui na maior cara de pau, fui, fui visitar um amigo nosso do laboratório que estava morando lá em Roma, foi o primeiro lugar que eu parei, lá em Roma, fiquei lá um tempo. Foi uma viagem de férias de um mês. Quando eu estava voltando dessa viagem, que eu estava na Espanha, que eu estava super maravilhado tirando férias etc. tinha menos ideologia até do que hoje estava mais desfrutando aquela coisa. Mas conhecendo também você vai entendo como é que funciona a coisa. Na volta, quase voltando para casa, voltando para o Brasil, eu vi um casal de namorados que me deu uma carona, uns espanhoizinhos lá em Madri; pedi carona, parou um casalzinho num carrinho igual ao meu, um carrinho velhinho e tal. Eu falei: “Ai que legal! Namoro não é só uma coisa chata!” Primeira vez na vida tinha visto um casal de namorados que eu achei simpático. Achava um saco! Namorada é uma coisa meio arrastada, acho que por causa da idade também; namoro quando você é muito novo é uma coisa meio chata mesmo, muita crise, muita identidade, muita... Muito não sei. Aí eu vi esse casal e falei: “Nossa, que legal namorar é legal!” Aí voltei pro Brasil e comecei a namorar, achei uma namorada, fiquei sete anos namorando. Pois bem, então daí...

 

P/1 – Como foi que você conheceu a Ceci?

 

R – A Ceci? Foi num bar... Não foi num bar, vou contar a história original. Eu tocava numa banda com uns amigos lá na USP. A gente tinha uma banda lá da Biologia, a gente era especializado em Tim Maia e Jorge Ben, só tocava isso, não sabia tocar mais nada. Eu tocava guitarra. A gente tocava nas festas da USP também, o público era aquela meia dúzia de bêbados mesmo, aquela coisa de bandinha da faculdade ali da Biologia. E uma noite apareceu um amigo meu do Mackenzie com duas meninas, apresentou rapidamente “Oi!” “Oi!” “Oi!” Naquela loucura, bebedeira e tal, confusão apresentou, e nunca mais. Um ano depois, eu estou num bar com esse amigo, aí chega a Cecília, vindo da Rádio Cultura - que ela estava estudando Rádio -, vindo da Rádio Cultura, ela fazia estágio a noite, e chegou lá no bar a noite. Ela chegou, sentou do meu lado e a gente esqueceu do resto do mundo e começamos a conversar, e ficamos nós dois conversando. Aí tinha uma festa na semana seguinte, que eu vi ela conversar, uma hora que a gente deu um tempo ali, eu ouvi ela falar de uma festa, eu me convidei pra festa. Eu falei: “Posso ir nessa festa aí?” Ela falou: “Vai, tudo bem!” A gente foi na festa, a gente começou a namorar ali naquela festa , foi muito...

 

P/2 – Que bar era esse, você lembra?

 

R – Foi, claro que eu lembro, foi no Mercearia, Mercearia São Pedro. A gente se conheceu no Mercearia. E foi interessante, que quando a gente foi casar, ela ficou grávida, um ano e pouco depois ela ficou grávida a gente falou: “Beleza, vamos casar, não sei o que lá”. A gente juntou todo mundo ali no Mercearia São Pedro e fizemos aquela, como é que chama?

 

P/1 – Chá de panela?

 

R – Chá de panela, foi ali no Mercearia São Pedro. Então lotou de presentes ali no Mercearia, fizemos uma quizumba total ali. Foi a maior bagunça que a gente fez ali no Mercearia. E aí a gente casou e foi morar aqui na Pompéia, perto até. Mais uma coisa da Mercearia São Pedro: a gente casou quando ela estava com uns três meses de gravidez. Depois de um mês que a Joana estava nascida, a Ceci já estava que não aguentava mais ficar em casa e tal. Muito estranho a cirurgia dela também, a cesariana não foi muito legal, ela sentia muita dor, não sei o que lá. Um mês, a Joana tinha um mês a gente falou: “Vamos sair?” “Vamos, vamos lá na Mercearia então” ligamos para os amigos e fomos lá. A gente foi e ficou uma hora ali, com a Joana empacotada. Ficamos mais ou menos uma hora e pouco ali no bar só tomar uma cerveja, aquela coisa. Casalzinho com filho novo medo de tudo. A gente chega lá, daí levanta um cara da mesa, levanta e olha: “Mas a sua filha é muito bonita!” Eu falei: “Pô, já tomou cantada!” Um mês já tomou cantada no bar! Então a Mercearia foi um ponto em que a gente se reunia com os amigos bastante, tinha telão, tinha jogo, um monte de corintiano juntava lá pra ver o jogo do Corinthians. Ainda às vezes eu, gente passa ali. Agora, menos freqüente, agora tô morando em Mairiporã, menos ainda. E o que perdeu essa coisa de ir no bar toda, eu ia pra bar a semana toda quando era solteiro. Passava mais a noite no bar do que em casa, etc. De repente, não tenho mais vontade disso pelo próprio objeto de estudo que eu estou trabalhando agora, que é som, eu não consigo mais. eu começo a ficar meio perturbado com que esse é um outro momento da história também.

 

P/2 – Mas e aí, virar pai, como é que foi?

 

R – É então, foi muito doido isso porque eu nunca tive muita afinidade com criança, nunca tive muito. Porque a gente conhece criança pequena, mas a gente olha de longe, dá tchauzinho e acabou, esse é o normal que todo homem faz com criança, não tem essa. Nunca tive sobrinho, a minha irmã até hoje não casou, não teve filho. Então eu nunca vi uma criança dentro de casa, eu sempre fui o mais novo, depois de mim não teve ninguém. E a Ceci ficou grávida e foi uma recepção péssima da família dela, na minha família foi legal porque eu com 30 anos, foi uma celebração, foi um momento muito interessante. Eu cheguei em casa, meus pais vendo TV, olhando pro nada. Eu entrei e falei: “Oi pai, oi mãe. Então, a Ceci está grávida, a gente vai casar.” Meu pai olhou assim: “É mesmo? Legal!” Minha mãe falou assim: “Bem que eu desconfiei que ela estava grávida. Essa semana ela veio aqui e eu achei que a cara dela estava meio de grávida.”  Então meus pais foi super legal. Também porque eu sou o homem, 30 anos, era sócio de uma empresa, então tinha estabilidade. Na família dela foi muito terrível, que é uma família protestante, uma família tradicional então foi péssimo. Só o irmão dela e a avó que acharam legal, o resto foi um horror, horror total. A recepção foi muito ruim porque primeiro aquela coisa absurda: “Não é mais virgem! Como não é mais virgem! Como? Casou, não é virgem”. Falei: “Nossa, gente não é tão...”. Eu achava tudo muito estranho. Eu achava tão absurdo que eu tratei com desprezo total, falando: “Isso não é um valor cultural, que hoje em dia não tem mais.” Isso aí deixou o pessoal mais revoltado ainda.

 

Mas teve uma coisa interessante que no namoro inteiro eu levei muito na boa toda essa questão machista hierárquica e tal da família. Que do lado dela eles são família de ciganos, apesar de não ser ciganos tradicionais que ficam rodando o mundo, mas o comportamento, o raciocínio é muito de cigano: então é o pai que manda, então tem essa coisa da figura principal do pai, tem o valor do automóvel. Automóvel é uma coisa mais importante, ter o veículo. Meu sogro era da cavalaria do Exército, a minha esposa Ceci aprendeu a montar cavalo com quatro anos, eles tinham cavalos, tinha uma grana. Então tinha um sítio com cavalo. Então a vida deles era automóvel, meu cunhado adora esporte de velocidade, kart, carro de corrida, tem moto de velocidade. Então essa coisa do veículo, do cavalo que é... Cavalaria não quer só dizer cavalo, bicho cavalaria é qualquer suporte material do Exército. Então eles têm essa coisa, é uma origem, eu me identifico totalmente com as coisas de cigana. Que tem que ter um transporte funcional, bom, bonito, legal, veloz e tal. Mas esse é um valor da família dela.

 

E eu venho de um outro valor, meu pai é mecânico, então pra mim carro é uma coisa que quebra e você conserta. Não interessa o carro, o carro serve para você andar para cima e para baixo. A cor, o modelo, o ano não é muito o interessante. O interesse é o engenho, a máquina o motor ali, o câmbio. Eu sempre olhei mais pra dentro, o próprio habitáculo do motorista. Então, essa coisa da família tradicional, cigana, etc. pegou pesado, e ainda mais que tem essa coisa de ser de uma igreja protestante e tal. Então ficou uma coisa perturbada. E eu lembro muito bem que o meu cunhado foi um cara que recebeu bem a coisa porque ele já tinha filho, ele é casado. A gente foi lá super angustiado porque ela estava grávida e não teve uma boa recepção da família. Então já estava fragilizada pela situação de grávida, e ainda a família horrível, o pessoal não conversou com ela e tal, ficou  um climão. Aí o irmão dela mais compreensível, passando por uma situação ter filho ele tinha um filho pequeno chegou e falou: “Olha, não vejo nada de errado com vocês, vocês estão tocando as suas vidas, vocês estão a fim de ficar juntos etc, não tem nada de errado. Eu só peço que você peça a mão dela pro meu pai, esse é um valor muito importante para ele”. Eu não pedi, falei: “Não estou comprando uma égua do plantel dele. A Ceci vai casar comigo se ela quiser, eu não vou pedir a mão dela pro pai. Pra mim isso é um valor cultural que eu não tenho, não vou fazer só porque é dele.” Não pedi, não casamos na igreja também. Total. Contrariei todas as expectativas familiares de tradição etc. E não é por questão de ser do contra, é porque realmente não tem valor, você não tem que pedir a mão de alguém. Que eu falo: ela é livre, quis ficar comigo porque ela quis, não tem que pedir para alguém se ela quer ficar comigo, se ela pode ficar comigo. Ela tem que fazer o que ela quer. Eu penso, sinto e não vou fazer essa cena só para agradar. Ou vocês me aceitam dentro de um outro contexto cultural, ou sei lá, não aceita, tudo bem, não vou ficar forçando muito.

 

Então rolou essa coisa. Teve um desdobramento muito ruim isso, que quando a gente foi casar, a gente casou, em três meses a gente conseguiu casa e casamos no cartório, em três meses. Foi muito rápido porque como a pressão era negativa eu me senti insuflado para resolver a coisa. Então a gente conseguiu um apartamento em um instante, achamos apartamento. Já entramos pro apartamento assim: um colchão uma geladeira e um forno elétrico era tudo que a gente tinha, nosso enxoval. Fora aqueles badulaques que a gente ganhou na Mercearia São Pedro: concha, prateleira, copo essas coisinhas. Mas a nossa casa era um colchão, uma geladeira e um forninho elétrico, era o que a gente tinha quando a gente casou. O colchão no chão. Mas estava grávida, estava tudo alegria, casamos tal, não sei o que. Foi muito legal esse começo do casamento. E ela fazendo faculdade, ainda então teve uma dinâmica muito interessante. Mas aí eu falei: “Você quer que a gente vá conversar com o pastor que você gosta? Vamos lá falar com o pastor que você gosta. Não vamos casar na igreja, mas não preciso negar a sua fé. Você quer, a gente vai lá falar com o pastor”. Fomos, marcamos um dia na igreja lá dela e eu, ela e o pastor na salinha dele lá uma tarde. Ela colocou: “Olha, o Moacir não é da nossa fé etc., não sei o que, mas a gente está a fim de casar etc.” Ele olhou para a minha cara e falou: “Olha, eu vou falar assim: casamento tem que ter o homem, a mulher e Jesus. Se não tiver o homem, a mulher e Jesus não dá certo”. Falei: “Tudo bem!” E ele virou pra ela e falou assim: “Olha, eu estou vendo que vocês estão decididos e essa situação é irreversível, mas eu não aconselho o casamento de vocês”.

 

P/2 – Falou desse jeito?

 

R – Desse jeito, essa frase: “Eu não aconselharia o casamento de vocês.” Eu como estava super tranquilo, não estava dependendo dele para nada, eu sabia que ele não ia falar nada de interessante falei: “Tudo bem.” E aí é um outro aspecto da vida, porque apesar de ter crescido numa família espírita, a gente aprende, o espírita ali já sofre um preconceito desde sempre. Estava vendo numa revista aí da história de loucura, estava falando de espiritismo etc, e é fato mesmo. Então como você é a pessoa que sofre preconceito, você questiona essa coisa de preconceito de uma maneira radical, falo assim: “Eu não posso ter preconceito” e é mesmo, você aprende desde pequeno, qualquer religião é boa, isso eu sempre ouvi desde pequeno, cada um escolhe a sua e qualquer uma é boa, ou nenhuma também. O que você quiser, você é livre pra ter a sua fé no que você quiser. Então, e eu nunca tive contato com igreja, com protestante com esse pessoal, católico também, nunca ouvi missa. Meu pai sempre teve muito isso, meu pai sempre teve muito amigo padre, amigo pastor para trocar essa conversa, trocar essa conversa de religião.

 

Tinha um padre lá na Freguesia que sempre ia lá conversar com ele pra falar de espiritismo mesmo, pra eles conversarem, debater etc. Então, mas eu nunca gostei dessa vertente aí, vamos dizer. E aí eu comecei a conviver nessa igreja Batista, eu comecei ver: “Gente, é uma escola de preconceito!” No final, a essência mesmo da coisa é: você é melhor que os outros porque você é daqui e o resto não é tão legal. Ou você aceita isso no seu coração e você é legal, ou você não é legal. Então o que eles fazem? Eles juntam grana e vão pregar isso aí no mundo inteiro, tem um mapinha. Você vai à igreja Batista da Liberdade, tem um mapa do mundo, parece que tem que ter uma conquista do mundo, sabe? Pontinhas, esses alfinetinhos aqui: estivemos aqui, ali, fundamos a igreja aqui, igreja ali e ninguém tem, não quer saber qual que é a cultura, qual que é o valor do outro vai lá pra impor a sua palavra, impor a sua fé, sabe? Eu acho, esse foi um lado que eu conheci, da mesma forma que você conhece a indústria farmacêutica, vê os medos, quando você começa a questão intestina do cristianismo, você fala: “Gente, tem que parar isso!” Eu acho, eu sou, eu prego contra mesmo assim: “Você quer exercer a sua fé? Pode acreditar em Jesus, Deus, faz o que você quiser, mas não fica achando que o mundo tem que achar, sabe? Tem que sentir o que você sente.” A explicação toda é que é assim: a fé é uma experiência mística, é intransferível. Não posso falar para você sentir o que eu sinto. Eu que venho de uma área de laboratório, eu falo: “Vocês podem medir que eu meço, se eu quiser medir aqui quanto tem, qual o pH dessa água, você, qualquer um pode medir o pH dessa água. Mas vai falar pra mim que nessa água tem uma energia, eu vou falar para você que essa água tem uma energia e você vai sentir ela que você vai tomar”. Isso não se faz, você pode sugerir ,mas você não pode impor: aqui tem a verdade. Tem uma verdade, concordo, cada igreja tem a sua verdade e é só isso mesmo, cada uma tem a sua verdade a verdade de cada uma, a verdade não é uma coisa única.

 

P/2 – Mas e os desdobramentos desse episódio aí?

 

R – Ah, só um show de horror. Minha cunhada foi casar e convidou a gente para ser padrinhos a Ceci grávida, com o barrigão. Ela foi casar, minha cunhada mais velha, já estava de casamento marcado, a gente meio que atravessou a ordem cronológica. Meu cunhado casou, ia casar a segunda filha, e a Cecília que era a terceira, a gente casou antes, daquela maneira atropelada. Quando a segunda filha foi casar, bonitinha e tal, eles nos convidaram para ser padrinhos. Quem que era o pastor? Esse daí que falou que não aconselharia o casamento. Eu falei: “Não vou ser padrinho, de jeito nenhum eu vou subir nessa igreja aí, ficar bonitinho de terno e gravata pra ser testemunha desse cara, para celebrar o que esse cara está falando, que acredita a verdade dele.” Eu me recusei, outro escândalo na família, sempre rola uns escândalos. Aí rolou um escândalo e verdadeiro! Não pode, não pode, o cara não pode achar que ele fala o que ele quiser nos bastidores e chega aqui na frente nessa cena, nesse teatro aqui. E de fato eu fui na igreja lá, fui até assistir ao casamento do último banco, eu fiquei no lugar mais distante que eu podia, fiquei lá no último banco sentado vendo o cara lá. E no final da coisa o cara celebra, fala as coisas etc. e olha pro meu cunhado e fala: “E agora você é o líder!” Eu falei: “Tá vendo, ainda bem que eu não fui lá.” Como é que o cara chega nos anos 2000 e chega assim: o homem é o líder, isso é um conceito de 2000 anos atrás. Vamos parar com isso.

 

E aí eu acho que eu sou ativo mesmo. Recentemente eu li um texto do Errico Malatesta, que é um escritor da anarquia, ele fala: “Não perca uma oportunidade para combater o poder, não desperdice uma chance de jogar uma pedra, dar um chute.” E eu não desperdiço mesmo, esse tipo de coisa eu acho que você tem que pregar,. Acho que o mundo muda por dois motivos. O primeiro motivo grande, maior, consistente mesmo é que as pessoas morrem. Aí aquela ideinha dela vai junto com ela. A pessoa morre, muda, acaba com aquela ideia ali. Então acho que é o primeiro grande motor de mudança da história, o desaparecimento da pessoa. E o segundo é você falar. Por isso eu até estou aqui achando legal dar o depoimento porque assim: parece um preconceito. Pô, eu cresci falando que era espírita, não podia, agora falo que sou ateu, nossa, pior ainda! Se você fala que é budista, xintoísta, pan, qualquer coisa, adora abraçar árvore, tudo bem, mas falar que é ateu não pode? É terrível! Como é que pode? Não pode, não pode! Pode não acreditar em nada. Não precisa. E respeitar o próximo, você quer acreditar, você pode acreditar no que você quiser, vai lá e acredita no que você quiser, só não me convida, sabe? E não queira que eu sinta o que você sente. É isso que acho que é a coisa.

 

Eu estou fazendo de um grupo lá em Mairiporã, que é o Coletivo Mantiqueira, um coletivo socioambiental. É uma organização que vem de outros municípios, e toda a bacia hidrográfica que alimenta a represa aqui de Mairiporã, que fornece água para seis milhões de pessoas aqui de São Paulo. Então toda essa região da Bacia teve um movimento ambientalista que tá formando o coletivo socioambientais financiado até pelo Ministério do Meio Ambiente etc. E eu fiz parte de uma turma de Mairiporã. E a gente tá conseguindo mobilizar ali em Mairiporã. E eu vou lá igreja, na igreja como é que chama? Fala Senhor, o nome da igreja é Fala Senhor, igreja Católica. Vamos lá bombar na igreja Fala Senhor, vou lá na igreja, o pessoal faz um artesanato, que é produzir um artesanato porque é um lugar muito pobre, muito pobre mesmo, ali tem regiões muito pobres: tem caso de alcoolismo de mulheres, porque não tem dinheiro pra dar, não tem comida para dar pro filho, então vai na cachaça. Então a criança está desnutrida e a mulher é alcoólatra. E é um grotão lá de Mairiporã que não chega ônibus, não chega nada, não passa lixeiro, não passa nada. É um lugar abandonado mesmo. E esse pessoal do Fala Senhor está conseguindo resgatar essas mulheres, fazer um artesanato, uma coisa bonita, interessante, pra poder ver se gera alguma renda ou pelo menos se gera alguma coisa na cabeça desse pessoal. Então a gente está no Fala Senhor, vamos lá no Fala Senhor. aí tem um pessoal da igreja como chama? Messiânica, que tem uma técnica toda de agricultura orgânica maravilhosa, uma pessoal estruturado. Eu estou lá trabalhando com o senhor lá da igreja Messiânica: vamos fazer horta orgânica lá seguindo o negócio da igreja Messiânica. Então a gente está fazendo um coletivo que é super religioso, super apartidário.

 

E eu estou meio à vontade ali. Que ninguém precisa falar da fé, da religião. Fala da comida, fala da planta ali, comer alface não tem fé, sabe? Você quer comer alface, come alface, vamos plantar alface e pronto! A gente quer fazer horta comunitária nessas comunidades mais carentes, sabe? Horta familiar, horta comunitária, o que der pra fazer sem pensar muito em partido. Pessoal do Partido Verde vem ali quer interagir com a gente e tal, já me convidaram para fazer parte do partido. Falei: “Não gente, não vou fazer parte do partido, não precisa, você tem que ir lá e trabalhar não tem que ficar discutindo a postura, fé, a religião etc.”

 

Então amanhã inclusive a gente vai ter uma reunião do coletivo, reunião mensal. E agora essa semana eu fui, eu faço parte do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Mairiporã. A gente conseguiu instituir o Conselho, primeiro ano do Conselho, que é um pessoal que dá apoio pra Secretaria do Meio Ambiente, Secretaria da Agricultura pras ações ali na região. Mairiporã tem uma coisa muito peculiar, apesar de ser aqui do lado, você consegue ter acesso ao poder ali, as secretarias, conversar com os secretários, sabe, falar com as pessoas que tem o poder na mão. E consegue interferir, e consegue fazer as coisas acontecerem. A gente vê aqui, a gente tem contato com o pessoal daqui, das secretarias daqui, você conhece um escalão ali e esse pessoal do escalão não tem tanto poder, eles podem gostar muito de você, mas se ele não tiver o poder... Então eu estou em outra instância em Mairiporã. Eu até fui pra lá, fui morar lá e adorei, por causa disso, de eu poder exercer, sabe, ambientalismo com resultado, você vai lá e interfere. Amanhã a gente vai ter uma passeata na Fernão Dias. A Fernão Dias passa no meio de Mairiporã e estão colocando um pedágio antes de Mairiporã, quer dizer, vão começar a fazer pedágio para quem vai trabalhar em São Paulo. Então a gente vai fazer um protesto para botar o pedágio em outro lugar. Mas esse pedágio que está sendo construído, já tem as vigas, já estão começando a construir, o pessoal ambientalista de lá conseguiu embargar a obra por dez meses, só que agora estão conseguindo voltar. Como que eles voltam? Eles continuam trabalhando contra a lei, depois fala que é fato consumado: já desmatou, já fez, já construiu e agora vai ter que arcar, a gente vai compensar plantando árvore em outro lugar, fazer outras coisas. Então amanhã a gente vai fazer uma passeata lá em Mairiporã pra isso daí.

 

P/2 – Deixa eu só voltar um pouquinho nessa história?

 

R – Fala, claro!

 

P/2 – Você falou que a sua primeira filha foi a Joana. Ela nasceu em 2002?

 

R – Foi, foi em 2002.

 

P/2 – Na hora que a gente estava trocando a fita você contou uma história.

 

R – Ah então, foi muito interessante. Então teve esse lance todo, da Joana. Teve essa tensão familiar na gravidez etc. Na hora que a gente casou e começou a estabilizar um pouco mais e tal, aí fomos viver um pouco. Aí quando nasce é a redenção. Porque tem um produto. A menina é linda, maravilhosa, nasceu tudo certo, bonitinha, simpática, até hoje. Muito amor, muito carinho, então foi legal. Mas o nascimento dela foi muito legal, porque foi bem na época da conclusão do curso de Rádio e TV que a Ceci estava fazendo. Ela apresentou o trabalho de conclusão do curso numa semana e a Joana nasceu na semana seguinte, então ela apresentou o trabalho com a barriga desse tamanho. E eu tinha que subir escada lá da FAAP, era quatro lances de escada até lá no curso de Rádio, eu era o único que não aluno que era autorizado a entrar na faculdade pra acompanhar, pra puxar a Ceci na escada; literalmente eu tinha que puxar ela porque ela não aguentava subir a escadaria toda sozinha no final da gravidez.

 

Então convivi com o pessoal do estúdio lá e tal de Rádio, foi um momento bem interessante. E foi também quando o Brasil ganhou o pentacampeonato, no domingo que o Brasil ganhou o pentacampeonato, a gente estava na casa dos meus pais, e a Ceci tinha uma ferida no colo do útero de antes da gravidez, quando a criança vai nascer o colo vai cedendo e aquela ferida que estava quieta, eu acho que ela rompeu e saiu um pouco de sangue. Só que o parto estava a termo, já podia ser qualquer hora. Foi muito engraçado porque a gente viu o campeonato - a Cecília adora futebol, se você perguntar pra ela qualquer coisa: futebol, campeonato inglês, francês, espanhol, ela sabe a escalação, a tabela, quem vai jogar, quem ganhou, quem é jogador, não sei o que; ela conhece tudo de futebol, ela acompanha futebol e tal, apaixonada por futebol corintiana também -,e ela estava lá, vibrando lá e o Cafu levantou a taça lá “100% Jardim Irene”, todo mundo feliz não sei o que lá. Aquela coisa toda, beleza! Aí ela foi no banheiro, ela deu um grito lá no banheiro: sangue! Falei: “Nossa, sangue! Vamos sair correndo, vamos para o hospital”.

 

Eu estava na Freguesia do Ó e o parto ia ser aqui no Einstein. Perto da casa dos pais dela porque era meu sogro que estava pagando, inclusive. E aí eu falei: “Puta, eu vou ter que atravessar São Paulo agora.” Entramos no carro e saímos buzinando. Primeira avenida que eu comecei a buzinar pra sair gente da frente, ela com a roupa do Brasil, camisa do Brasil. Eu buzinei, o pessoal do lado começou a buzinar assim: “Pentacampeão!” Buzinando, começou a fechar tudo. Eu falei: “Paciência, não vai nascer rápido, vamos chegar!” Atravessamos a cidade inteira até chegar lá. No final, foi um alarme falso. Mas ela nasceu logo depois, dois, três dias ela nasceu. Foi muito engraçado, eu buzinando e o pessoal buzinando. A gente saiu celebrando também, falei: “Vamos devagar, celebrando pentacampeão”.

 

P/2 – Sua filha vai ter essa história pro resto da vida, nasceu dentro desse contexto.

 

R – Nasceu no calor do pentacampeonato.

 

P/2 – No pentacampeonato.

 

R – O Murilo nasceu num outro calor também.

 

P/2 – O Murilo nasceu quando?

 

R – A Joana vai fazer sete anos agora dia 3 de julho. O Murilo fez quatro dia 27 de abril agora. O Murilo foi assim: a Joana nasceu, a gente ficou lá um ano dando de mamar etc, e cuidando junto. Uma coisa muito interessante: quando a Joana nasceu eu estava no meu mestrado na USP. Ela nasceu, eu estava fazendo prova, tal, estava no meio das aulas lá do mestrado. Aí teve um dia que era uma prova, eu tinha que ir lá fazer a prova, aula, sei lá alguma coisa, e aí a enfermeira falou pra mim assim: “Você vem aqui amanhã cedo que vai ser o primeiro banho da Joana”. Tipo assim: ela nasceu numa quarta e na quinta-feira eu tinha aula, eu fui lá ela falou: “Vai ser o primeiro banho da Joana, a gente convida os pais para virem dar o primeiro banho no neném, porque a mãe está lá cheia de ponto.” Tem mãe que está bem quando é parto natural, alguma coisa. Mas a mãe, como ela não tinha condição nenhuma de levantar e segurar um neném, eu falei: “Tá bom, eu estou lindo lá”. aí eu saí da USP, fui lá pro hospital pra dar o primeiro banho na Joana, então a enfermeira falou assim: “Você segura o neném aqui, põe a cabeça aqui, seguro o bracinho, a banheira está morna.” Você vê a criança já tomando banho, mas a gente tem toda a preparação, ensina assim: “Põe a toalha, separa aqui o talquinho, o senhor vai precisar disso, disso e disso já deixa tudo armado”, que pra mim que tem prática de laboratório é óbvio, é um procedimento. Então você separa todas as coisas, põe numa ordem, tem uma sequência e tudo dá certo. Eu pensei, “Você faz isso com bicho ,faz com criança também, dá na mesma. Então vai lá”.

 

E tavaes a família toda da Cecília, dois dias de nascida, eles moram ali do lado, estava a família toda no quarto do hospital. E eu cheguei lá assim: “Oi, oi, oi vou dar um banho na Joana hoje.” “Hã?” “Hã?” “Eu vou dar um banho na Joana, então hoje é o dia e a enfermeira me convidou aqui”. Legal, pegou a Joana, pegou lá onde estava na estufa. “Vamos dar banho?” “Vamos!” Eu catei a Joana, ela foi falando e eu fui fazendo, toma banho aqui, não sei o quê, põe aqui, põe a fralda, fez bonitinho, dá pra mãe mamar, tudo isso. A Joana não parou de chorar um minuto, primeiro banho do bebê ela ficou berrando o tempo todo, mas eu não fiquei ligando pra ela, ela tá berrando, a enfermeira não está falando nada, pode berrar. Dei o banho, fiz o procedimento, a Joana chorando lá e eu nem aí. Dei, e a hora que mamou parou quieta.

 

Voltei e olhei a família, todo mundo olhando com aquela cara, porque a criança não parava de chorar. E fora o inédito. Aí eu perguntei, aí a enfermeira falou assim: “Sabe que 1% só dos pais que fazem isso, de cada cem partos só vem um pai aqui dá banho, o resto nem chega perto, não vem.” Foi interessante, porque quando o Murilo nasceu teve esse mesmo convite e a enfermeira de outro hospital teve a mesma estatística, só 1% dos pais vem aqui.

 

P/2 – Você foi no do Murilo também?

 

R – Claro! A Joana assim: aguinha quente pra trocar fraudinha, todas aquelas coisinhas. O Murilo já nasceu mais robusto, moleque, eu já tinha passado pela Joana. Era outros...

 

P/2 – Você jogou ele lá!

 

R – Não, você tem todo um cuidado, mas é outra coisa, segundo filho você erra muito menos, você faz muito menos movimento, você é mais econômico, você é mais ágil, você fica pensando menos. E já é um menino, mais resistente e foi diferente.

 

P/2 – Ele nasceu em 2005?

 

R – O Murilo nasceu em 2005. É isso, 2005? Tem que fazer a conta... é 2005. E, a Joana ia trocar frauda, tinha um negocinho com água quente, esquentava água morninha com algodãozinho pra limpar. Aí tem aquela coisa: como você vai tratar uma menina, aquela genitália que você não está acostumado. E tem que limpar. Não bem acostumado, vou falar que a Cecília: desde que a gente começou a namorar, eu sempre acompanhei ela no ginecologista, que é outra estatística que também chega nem a 1%. A médica falou assim: “Não vem nenhum pai, nenhum marido aqui, nenhum namorado”. Porque eu ia lá com a médica e ficava conversando da bactéria, do fungo, a Ceci lá esperando na cadeira, “E aí? Como é essa bactéria? Que pH ela gosta? Não sei o que lá”. A gente olha pra outra coisa, como eu fiz Biologia, eu não fiz Medicina, fiz Biologia então como que é essa bactéria? Como é o fungo. Troca a pessoa, mas o fungo é o mesmo, eu estou interessado no fungo.

 

Então eu tive esse convívio com a mulher nessa coisa, com a intimidade feminina do trato do dia a dia com a Cecília. Aí quando vem a Joana, muito mais fácil, não tem doença, limpinha, pequenininha ali, fácil! Vamos limpar e tal, passar pomada. Porque tem um preconceito, os homens tem um preconceito, não pode por a mão ali. Pode, gente! Só ter cuidado, só ter cuidado. Então é uma experiência diferente também, isso aí de tratar. Você vai falar com médico, é óbvio, um pediatra trata a criança, menino, menina. Mas a gente que não é da área médica existe um tabu. Então você vai, começa a descobrir que existe uma coisa que não é ensinado pros homens, não é que ela não existe, ela existe. Pô, toda mãe limpou sua filha, não existe uma mãe que não limpou sua filha, se não a menina tinha doença, não tem como. Então tem um trato ali, e é uma coisa velada. Então foi o primeiro contato, primeiro já com a Cecília na ginecologista, que é uma coisa que também que não era habitual, e aí com a Joana.

 

Então a gente começa a tratar e aí você fala assim: “E qual que é o momento que você deixa a criança se cuidar?” A hora que ela consegue. Fui estimulando a Joana desde pequenininha: “Vai tomar banho, vai tomar banho. Sabe lavar a tchuquinha?” Que a gente chama de tchuquinha “Sabe lavar a tchuquinha?” “Sei lavar” “Então lava aí, deixa eu ver se lavou direito. Ah, lavou direito, então tudo bem.” E muito nova já consegue fazer isso, porque rolou também na família da minha esposa o preconceito: “O Moacir dá banho na sua filha, na Joana?” “Dá banho!” “Ah, mas não pode!” “Mas por que não pode?” “Porque ele é homem!” Sabe? Até uma certa idade não tem problema nenhum você dar um banho em menina, em menino. Depois, a Joana agora ela não quer que ninguém mexa nela e eu acho certo, só a mãe. E eu acho natural, porque ela está crescendo, desenvolvendo a sexualidade dela etc., e eu também não interfiro mais. Então acho que é uma coisa natural, você tem que ver, você nunca pode menosprezar a capacidade da criança, vai estimulando fala: “Vai tentando se lavar aí.” O Murilo já lava o pipi dele sozinho, puxa lá lava e tal, esfrega o dedo sossegado.

 

P/2 – Mas e como é que foi o nascimento dele assim? Vocês moravam em São Paulo ainda?

 

R – Sim, aí a gente morou nesse apartamento. E aí logo quando a Joana desmamou a Ceci meio que deu um: “Vou sair no mundo!” Porque ela tinha acabado, ela tinha feito dois anos de estágio na Rádio Cultura, maravilhosos! Rádio Cultura FM, música erudita tal e não sei o que. Aí a Joana nasceu, ela saiu do estágio porque terminou a faculdade, terminou o estágio também, estágio e graduação. E ela ficou um ano mãe, basicamente amamento, e eu trabalhando e tal. Aí quando ela parou um ano e pouco, que a Joana parou de mamar, aí ela foi trabalhar, ela conseguiu um trabalho na FEBEM, aqui do Belenzinho. Ali na... como é que chama? FEBEM do Belém, ali unidade FEBEM ali do Belém. E eu fiquei com a Joana, aí eu comecei a dar banho, eu já dava banho, sempre dei banho na Joana a noite, chegava do trabalho e dava banho na Joana desde que ela nasceu, sempre fiz isso: chegava e dava banho, dava pra Ceci mamar e ia deitar com a Joana e botava para dormir lá. Até hoje eu faço isso, deito com a Joana, boto pra dormir e tal. Mas aí chegou um momento que ela não precisava mais da mãe, ela começou a tomar leite, comer, não sei o quê. Aí a Cecília começou a trabalhar, sair.

 

E nesse momento teve uma inversão: eu saí do trabalho, da sociedade que eu tinha e comecei a trabalhar em casa. Aí meio que assumi a criança mesmo, comecei a cuidar da Joana mesmo. A Cecília saía de manhã, chegava no fim do dia e tal, não sei o quê. Daí depois, logo depois da FEBEM, ela começou a trabalhar com uma pesquisa de música eletrônica, basicamente ela queria resgatar a cultura do vinil, do disco de vinil. Então ela foi fazer entrevista com DJs, correr a sena da música eletrônica, do rap, do hip-hop, pessoal que, do reggae, que usa vinil.

 

Então ela começou a sair a noite, eu comecei a ficar com a Joana direto. E isso é uma coisa diferente também da relação da gente. Ela saindo a noite, tem filho de dois anos, de um ano e pouco e é mãe, mas tem essa liberdade para sair, para varar a noite ouvindo DJ aí tal, especial, fica lá, volta de madrugada, não tem problema nenhum. Isso foi rolando até o momento, daí ela ficou grávida do Murilo do nada, sem porquê, não sabíamos como ela ficou grávida. A gente estava evitando e tal, mas rolou, ela ficou grávida do Murilo. Nessa época eu já estava trabalhando num projeto que eu fiquei sete anos, que é um projeto da Petrobras pra fazer pesquisa no Amazonas. Então eu trabalhava em casa e esporadicamente saía, ia viajar pro Rio, fui pra Manaus algumas vezes. E ela ficou grávida do Murilo.

 

Quando o Murilo nasceu no dia que ele nasceu, eu estava há dois dias de entregar um projeto, um grande projeto com gente do Brasil inteiro com negócio da Petrobras, negócio grande valor grande, projeto pro Governo Federal. Eu fui pro hospital, desliguei o telefone, estava falando com o cara, desliguei o telefone, fui lá, nasceu o Murilo, levando pro hospital. Nasceu o Murilo. Nasceu. Daí estou falando: segundo filho, você já pega mais leve. Chegou de madrugada, tudo certo? Tudo certo! Vou voltar pra casa pra escrever projeto. Aí voltava de manhã pro hospital, dar banho no Murilo tal e não sei o que, aquela coisa, indo pra casa e voltando, fazendo projeto etc.

 

Ele nasceu num outro calor, a Joana nasceu no calor do pentacampeonato, no final da conclusão do curso da Cecília. E o Murilo nasceu nesse calor do trabalho meu. Mas é mais tranquilo, primeiro, que é menino, eu acho que é menos complicado pela própria natureza dele. Por exemplo, aquela coisa de pegar aguinha morninha pra limpar a Joana e tudo, trocar a fraudinha de cocô, o Murilo era água fria, passava nele. Mas era um bebê parrudão. Então a primeira vez estava dando um tranco aqui, que era água gelada, limpava a bunda dele lá, punha a frauda e falava: “Vai dormir, moleque”. E a Joana ficou dormindo com a gente. Quando nasceu ela dormia no nosso quarto e tal, aquela coisa: a menina está respirando. Todo pai parou de respirar! Tá quieto o neném, está dormindo no maior sossego lá só porque um pulmãozinho faz você não ver respirar, todo pai acha que o filho não está respirando. Fica lá, põe espelho, chega perto, acorda pra ver se está tudo bem. Pior é acordar pra ver se está vivo. O Murilão não, ele já nasceu e foi pro berço no outro quarto, tranquilo, eu já dormia sossegado na paz.

 

Então é mais simples você tem uma experiência prévia que facilita. E a coisa foi tocando e acho que desde então até hoje eu não tenho trabalhado fora, eu tenho trabalhado em casa, tenho feito coisas. E chegou até o momento que paradas no trabalho e a Cecília saindo para trabalhar. Mas aconteceu uma coisa interessante: quando ele tinha uns dez meses, foi em dezembro por aí. Não, tinha oito meses, por aí. A gente resolveu viajar, a gente foi lá pra Floripa acampar. Escolhemos uma mochila grande pra botar comida, outra mochila de roupa, era uma cadeirinha pra ele. Enfiamos ele na cadeirinha, barraca na frente, pegamos um ônibus e fomos viajar, fomos acampar. E eu nunca tinha acampado na vida, minha vida inteira nunca tinha acampado. Apesar de ser biólogo, eu sempre fui biólogo de laboratório, nunca fui biólogo de campo. E nunca tive essa oportunidade de acampar, nunca fui atrás disso.

 

Então foi minha estréia de acampamento com família já, e a gente encontrou um casal de amigos lá, que é uma referência muito grande da gente, que é um casal uma amiga minha bióloga e um outro que é agrônomo, mas é um pessoal do mato mesmo, pessoal muito sacudido. A gente foi acampar numa lagoa que tem lá no sul de Florianópolis que é meio isolada, tem que passar de barco, ou por uma trilha; não tem rua, não tem luz, não tem nada lá. A gente foi lá acampar e foi muito legal isso aí, porque a gente foi, acampou. A gente morava na Pompéia. Montar uma barraca lá, todo sossego, uma lagoinha uma água plana, que é um lugar de desova de peixe, que o mar abre uma época do ano, vem os peixes, botam os ovos, aí a maré desce, fecha e vira uma lagoinha serena ali morninha, uma delícia. Dá até pra botar o neném sentado ali; a gente ficou sentado lá na água. A gente ficou uma semana naquele lugar paradisíaco, quieto, silêncio tudo. A gente voltou de viagem, na primeira noite que a gente deitou na cama, que você toma um banho e deita na sua cama gostoso, disparou um alarme lá pelas três horas da manhã, do vizinho, do escritório do vizinho. Alarme ficou apitando até às oito horas da manhã do dia seguinte. Aquilo pra mim foi um sinal inequívoco que eu tinha que ir embora dali. Eu falei: “Eu não vou ficar aqui mais”. Me deu uma coisa de eu ir embora dali. E como eu e a Cecília já conhecíamos a Serra da Cantareira, tinha amigo que morava em Mairiporã, a gente ia lá às vezes, eu falei: “Vamos mudar pra Serra”. É um desejo nosso de morar na Serra.

 

Mas aquele dia foi uma coisa marcante que eu falei: “Meu, eu quero trabalhar com som”, que meu objeto de pesquisa nesse trabalho da Petrobras era o som, é o ambiente acústico, é a paisagem sonora etc. Naquele dia aquele sinal, aquele alarme, eu falei: “Meu, eu vou embora daqui! Vamos embora daqui!” Enfiei aquilo na cabeça e a gente foi, subiu a Serra, conheceu uma escola, o dono da escola tinha uma casa para alugar, já alugamos a casa, já mudamos, foi uma coisa de um mês que a gente já resolveu tudo, e já estava lá na casa. Que eu tinha uma previsão de ganho no projeto da Petrobras etc. Mudamos para lá, um frio, era abril, nessa época do ano era um frio terrível, a casa era meio aberta -- agora que eu estou vedando mais ela -, não tinha tapete, não tinha nada. Uma friaca. Beleza, vamos morar aí, ótimo! Entrei no mato, mudei meu objeto de trabalho. Saí de uma área laboratorial de pesquisa etc. e fui pra área de ambiente. Por causa dessa experiência toda de laboratório, falei: “Meu, eu fiquei cinco anos fazendo pesquisa lá na USP, mais tantos anos no IPEN para quê? Para dar subsídios pra quê? Pra pesquisa no primeiro mundo?” O conhecimento que a gente gera aqui, “Vou testar o medicamento X”, testa lá no rato. Isso daí serve pra nada aqui, não tem aplicação, não tem sentido prático. Falei: “Meu, eu vou mudar meu objeto de trabalho, vou partir para a área ambiental”.

 

E aí fui trabalhar com essa área de som, etc. Eu falei: “Para trabalhar com a área de som eu tenho que passar por uma limpeza de ouvido.” Você não pode. É a mesma coisa que você pega um cara que trabalha com marreta, com picareta e depois fala pro cara: “Eu quero ser médico, cirurgião”. Tem que parar de mexer com coisa, você tem que ter um refinamento no seu instrumento e eu precisei, conscientemente, eu falei: “Eu preciso me deslocar para um lugar onde eu possa começar a ouvir melhor, diferenciar”. Porque eu ia pra Amazonas, morando na Pompéia, eu ia pra Amazônia, eu começa a ouvir aquele monte de bicho, que aquilo lá é uma coisa horrorosa de tanto bicho, um barulho ensurdecedor, você fala assim: “Meu, não estou conseguindo entender nada aqui” por falta de hábito, de ouvir, de escuta. Daí eu mudei. Arrastei a família, praticamente, eu falei: “Eu quero ir e vou, e vou levar todo mundo pra lá”. Senti uma coisa me levando pra lá. Mais que uma coisa, é quase que inexplicável, eu senti que eu tinha que ir. Depois eu racionalizei porque, aí eu achei uma desculpa boa e fui. Primeiro a vontade de ir assim: vou! E fui e levei a família.

 

E aí nessa convivência, há três anos que a gente está lá. Quando a gente mudou para lá eu tinha todo um plano de ganho lá com o projeto da Petrobras etc., estava tudo pronto para começar. Não começou. E aí eu fiquei numa pindaíba total, uma dívida, até hoje não consegui resolver. Porque foi uma bola de neve. Mas, quando você fala assim: “Agora, que já estamos aqui vamos batalhar para ficar.” E eu estou trabalhando lá até hoje com esse objeto de estudo que é o som. E agora o projeto da Petrobras parece que encerrou de vez, eles não tem mais interesse. Eles conseguiram licenciamento para tudo o gasoduto que eles queriam fazer. E agora não tem mais interesse em pesquisa. Eles queriam legitimar a construção de uma obra, precisando falar assim: “Temos pesquisadores, temos projetos”. Agora que já esta concluída a obra, não precisa ter mais nada. Tem a obra, a Petrobras é do governo, governo não vai encher o saco do próprio governo.

 

Eu mudei, agora estou num outro momento agora. Estou fazendo projetos em outros lugares. Essa ação ambiental também está, vai gerar alguma coisa ali, a gente está tentando trabalhar o meio ambiente de uma maneira diferenciada, também com a cultura orgânica. Até essa questão do som também. Meu grande objetivo mesmo é mostrar que ali na Serra você tem que preservar o patrimônio, e o patrimônio mais delicado que tem é o som. É o ambiente acústico é o que você consegue macular a uma maior distância. Um caminhão passando não tem tanta poluição de CO2 de monóxido, dióxido de carbono quanto o som que ele provoca, o impacto sonoro é muito maior do que o próprio vento ali, a presença do veículo ali distância. Cachorro também, tudo causa impacto. Então começando a trabalhar essa questão ambiental, mas muito lentamente, não é um objeto. Muito difícil você passar para as pessoas isso.

 

P/1 – Moacir, você contou um pouco do seu cotidiano, que agora você, já faz uns anos na verdade que você está cuidando dos seus filhos. Eu queria que você contasse um pouco mais sobre essa sensação de estar com esse papel diferente da maioria dos homens.

 

R – É então, eu vou contar um pouco do meu cotidiano também. Eu acho interessante que as mães meio que blindam os filhos, os filhos homens; essa lida com a casa, é como se fosse um conhecimento adicional que se passa de mãe para filha. Não vou ficar especulando muito porque isso não tem uma razão. E na realidade eu tenho percebido seguinte, essa mudança de papel: a mulher esta indo pra rua pra trabalhar, e pra batalhar e pra conquistar o seu espaço sobra espaço para o homem atuar. E eu colocaria assim: eu acho que o mundo seria mais pacífico se os homens ficassem em casa mesmo, o transito ia ser menos violento, que as mulheres dirigem melhor. O mundo ia ter menos guerra porque mulher não vai pensar em montar um exército de filhos e botar os filhos para morrer em outro país. Dificilmente. Acho que se tivesse generais mulheres, presidente mulheres, todas mulheres no comando, não ia ter tanta guerra é minha impressão. E os homens, por outro lado, são muito mais sacudidos numa casa do que uma mulher, porque o trabalho doméstico cansa menos pra um homem, isso na minha prática eu tenho visto isso, eu consigo ficar trabalhando o dia inteiro fazendo muitas coisas, cansa muito menos para um homem. E tem uma coisa que hoje eu acho que a gente está precisando, é assim: precisa de muita, muita, muita economia doméstica, muita economia em tudo e muita sacação. E coisa que o conhecimento adicional da mãe pra filha num ambiente que está mudando, nessa coisa de aquecimento global, de poluição etc, não está dando mais certo. Uma mãe não ensina, uma vovó não ensina para a filha separar o lixo, não vai ensinar nunca, não faz parte da cultura dela. Está entrando elemento novo, diferente, ele já entra sem esse preconceito, sem esse preconceito.

 

Então pode pensar outras coisas, eu penso outras coisas, por exemplo vou dar um exemplo bem bobo: uma bandeja de carne que você usa, aquela bandeja que chupa o sangue, etc. você vai botar para reciclar? Não pode, que tá podre. Sabe o que eu faço? Eu coloco no tanque, espero a água da máquina de lavar sair, vai lavando, deixa lá no tanque ali, sai água com cândida, água com sabão, enxágüe, vai lavando. Você pega umas duas lavadas de roupa ali, que você olha aquela bandeja, ela está limpa, pronta para ser reciclada. Você substitui o sangue dali, você tira. Uma coisa boba? É. Mas hoje em dia a gente precisa, a gente tem que entrar no detalhe da casa. Por exemplo, eu uso sabão de coco de pedra ao invés de usar detergente líquido, que era um conhecimento da nossa avó, que a mãe já perdeu, e a filha não vai ter nunca. Como passar sabão de coco para lavar louça? Sabão de coco é biodegradável, você pode descartar na água. Não vai um monte de produto químico que vai no detergente líquido, é mais eficiente e deixa a louça mais limpa. Eu pego o sabão de coco, eu dissolvo numa panelinha e ponho na máquina de lavar roupa, a roupa fica macia, mais limpa e é mais econômico. Quer dizer, existe umas práticas que a gente tem que começar a tomar, que a cultura tradicional de mãe pra filha dificilmente vai interferir. E numa sociedade que a mãe, que a filha está fora de casa ainda, e quem fica é uma empregada, alguma diarista, a diarista tem que ser pragmática, não pode ficar com essa elucubração toda que eu tenho. Ela vai fazer o jogo rápido, o convencional. Difícil você pedir para alguém fazer todo esse cuidado.

 

Então eu realmente estou vendo que a presença masculina na casa parece que hoje é mais necessária do que na rua. Porque os homens sabem fazer muitas coisas na rua que não interessa: trânsito, agressão. Pô, qualquer sociedade que você vê que tem uma liderança feminina a coisa é mais hedônica, tira aquela agonia típica do comando masculino. Então acho que assim: está na hora dos homens saírem da rua, vão ficar em casa, por que não? Por que esse papel? Esse papel de cuidar do filho é da mulher até ela parar de amamentar, então esse papel de amamentação é necessário, é biológico, não vamos contestar isso. Mas eu já também fiz leite em casa que dá pra dar pra beber, você pega uma fórmula você põe 40% de leite de vaca, tantos porcentos de água, um pouquinho de açúcar não sei o que lá, isso é uma fórmula que você acha na internet, que a ONU recomenda etc.. Até isso a gente consegue entrar também nessa seara aí. Então realmente a prática do dia a dia, por que o homem tem que ficar em casa com os filhos? Para aprender a ser calma, também porque você lidar com a criança de uma maneira masculina, agressiva, você destrói tudo, você não consegue lidar você tem que repensar também a agressividade. No mundo, que tá pedindo paz, a cultura da paz, a cultura da paz, a primeira coisa é tirar os homens da rua. Eu acredito mesmo nisso.

 

P/1 – E, emocionalmente, você está gostando dessa aventura?

 

R – O resultado é bom, é muito bom. A coisa é muito perturbadora, porque é uma crise, a crise de identidade, a crise de papel. A gente tem que trabalhar isso, entender. E a coisa assim: é que você tem que ter fé no que você está fazendo, você tem que ter fé porque você tem que ter um resultado prático, pragmático. Se a criança está bem, então você está fazendo uma coisa legal. A criança é o produto final ali, é o que se tá dando certo, a criança tá bem, está dando certo. E eu estou feliz porque está dando certo, eu vejo meus filhos. O ano passado eu tive a oportunidade de dar pra eles na escola, de educação ambiental, fiquei um ano dando aula pra eles, para todas as turmas de dois anos até 14. E você vê que realmente a figura masculina está ausente em muitas crianças, muitas crianças são carentes. Como professor, eu nunca tinha dado aula na minha vida, talvez a gente tenha que repensar mesmo onde cada um tem que ficar, sabe? Por que não? Tudo bem, vai ter tarefas que são masculinas etc, mas se você for pensar, vai no limite, o que são as tarefas masculinas que a mulher não pode exercer? As tarefas de construção, de progresso, de concreto, de ponte, de viaduto, de uma coisa que está no ideário masculino também, tira os homens do comando, que não vai ter tanto ponte, não vai ter tanta coisa absurda, essa indústria toda. Para que tem que produzir tanto? Você vê um país como a China totalmente poluído, escravizado para produzir produtos pra um mercado de consumo aí exterior. Será que se tivesse um governante chinês feminino ali ia ter toda essa indústria, essa poluição? Dos dez rios mais poluídos do mundo seis estão na China, estão destruindo um país, escravizando uma população. Por quê? Porque tem um comando masculino, eu não tenho dúvida disso. Acho que não tem essa, mulher não tem essa falta de carinho, de trato com o outro, você vê que passa para o outro lado. E também tirar uma coisa que está acontecendo, eu vejo as mulheres tentando competir no mercado, sendo agressivas ao invés de serem femininas, ao invés da coisa ficar mais calma; não, as mulheres estão mais agressivas. Por quê? Porque tem que competir num banco de macaco agressivo ali, competir por poder com homem tem que ser agressivo, você não compete. Essa coisa de sedução etc. não funciona no mundo do capital. Então, existe mesmo uma ideologia, uma vontade minha de ficar em casa e testar, é uma hipótese como cientista pesquisar eu tenho uma hipótese eu estou testando essa hipótese para ver se ela funciona.

 

P/1 – E a Ceci o que ela acha disso?

 

R – Da natureza própria dela, que ela sempre foi mais, vamos dizer, mais dinâmica, sempre quis mais trabalhar na rua, ficar na rua etc., nunca pensou em casar também. Houve uma adaptação fácil pra ela. Por quê? Porque ela foi pra rua como qualquer mulher faz hoje em dia. A mulher moderna vai pra rua, se preocupa pouco com o filho. Mas uma coisa é você ter uma pessoa em casa que pode até cuidar da criança, uma babá uma coisa, mas nunca que vai ter aquele impulso que um pai tem, que uma mãe tem com a criança, deter aquele a mais, aquela preocupação mais de passar alguma coisa, de ensinar alguma coisa, sabe? Dá amor, dá carinho, eu acho legal - babá que dá muito amor e carinho, e dá mais que o pai, que o próprio pai, a própria mãe, isso aí é legal. Mas tem outras coisas que a gente tem que passar para as crianças que babá realmente não é o trabalho dela, não tá afim, não é pra isso que ela está ali.

 

Então existe uma outra coisa. Ela fica mais confiante na rua porque em casa eu estou lá e qualquer problema eu dou conta. Então acho que ela está bem satisfeita, está bem feliz com isso. Não que a gente não tenha que ter trabalhado, está trabalhando isso o tempo todo. É muito diferente, muito diferente, tem um preconceito todo da família, preconceito da sociedade. Pô, eu já levei a Joana pequena em reunião de trabalho, eu falei: “Ó, tá aqui comigo, só tenho eu e ela e vamos sentar, vamos brincar paro um pouco a reunião vamos conversar, vamos brincar com criança”. Introduzi, uma coisa que me chocou muito sempre: porque não tem ambiente pra você levar o seu filho quando você vai numa reunião? Por que tem um prédio de escritórios que não tem um local onde você pode ir com seu filho para fazer uma reunião de uma hora, sabe? Às vezes você tem que deixar, você tem que criar todo um sistema próprio, que você não pode ter o seu filho com você. Por que você não pode ter um lugar? Você tem estacionamento pro seu carrinho, por que não pode ter um berçário, um lugar assim? Tem um prédio, da FIESP, por que não tem um lugar que você pode ir com a sua criança, deixá-lo lá uma hora com uma babá, com alguém, uma criança de três, quatro, cinco anos ficaria num lugar na boa, sabe? Você vai, faz a sua reunião de trabalho maravilhoso, faz tudo que você tem que fazer, volta, pega o seu filho e vai embora. Shopping tem isso.

 

Então eu acho que tem uma coisa aí que tem que começar a mexer mesmo, as crianças tem que ser reconhecidas como parte da sociedade, e não como uma coisa que não encaixa mais no trabalho, não encaixa na profissão. E acho que é isso que está acontecendo mesmo, você tem um filho e o filho não encaixa na profissão você tem que botar o seu filho em algum lugar que não é o seu ambiente de vida. Não sei, por aí.

 

P/1 – E você gostou de contar um pouco dessas histórias pra gente? Dessa volta aí?

 

R – Gostei, gostei sim porque a gente é uma coisa muito solitária, principalmente eu, que sou solitário mesmo, que fico ali. Na parte dos biólogos, existe uma tendência a, gente conhece, conversa com os amigos, geralmente os biólogos homens tendem a cuidar mais dos filhos. A gente estuda na faculdade o cuidado com os filhotinhos e tal, não sei o que lá, acho que fica um pouco mais sensível para  a questão. Mas é muito solitário essa questão de você cuidar dos filhos e ser um objeto mais de curiosidade antropológica do que outra coisa. Não poder falar, gostei de dar o depoimento sim.

 

P/1 – Então a gente queria agradecer em nome do Museu da Pessoa.

 

R – Obrigado, eu que agradeço.

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