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História

Uma fortuna em selos

História de: Leão Werner Marek
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2013

Sinopse

Dono de cerca de 1 milhão e meio de selos, 71 anos de idade e 52 de profissão, o filatelista Leão Marek nasceu em uma base naval americana em Belém do Pará, e foi viver na cidade de São Paulo ainda criança. Filhos de pais alemães, Leão sonhava em seguir os passos do pai especialista na fabricação de borracha. Estudou Química Industrial durante a noite e de dia trabalhava com irmão que comprava selos usados, os lavava para depois revendê-los. Após anos trabalhando na indústria química, resolveu se dedicar integralmente à sua paixão, pois para Leão Marek “cada selo tem sua história para ser contada”.

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História completa

Meu nome é Leão Werner Marek, sou nascido em Belém, Estado do Pará, no dia 13 de novembro de 1942, dentro da base naval americana de Belém. Sou cidadão alemão, tenho dupla nacionalidade e provavelmente os antecedentes da minha família eram daqueles soldados dos exércitos dos principados alemães. O meu pai se chamava Andreas Marek, é nascido em Hannover, na Alemanha, em 1889, teve três diplomas na Alemanha: engenheiro químico, mecânico e eletricista. Durante a Segunda Guerra Mundial ele trabalhou na parte de química com o Van Braun, porque o meu pai sempre foi uma pessoa ligada a Bayer alemã e quando ele veio para o Brasil, em 1941, começou a trabalhar para a Bayer brasileira. E em 1954, quando começou a Volkswagen do Brasil a montar os carros aqui no Ipiranga, através da Bayer alemã, ele foi recomendado para que ele fizesse as primeiras borrachas pra nacionalizar a Volkswagen brasileira. A minha mãe se chamava Edir Marek. É da Alemanha também, em Hannover, conhecia quatro idiomas, uma senhora muito prendada, com grande rigidez na educação de nós três, que nós somos três filhos. Eles se conheceram dentro das escolas que eles frequentavam na Alemanha, porque o meu pai fazia parte da juventude alemã, não hitlerista, a juventude alemã. As faculdades e os colégios na época das férias saíam em excursões pra conhecer a Alemanha, pra conhecer museus, conhecer teatros, conhecer, pouco divulgado em nosso país. Provavelmente se conheceram no meio disso aqui, sendo que a minha mãe era de elite alemã e o meu pai era um estudante, quer dizer, houve a princípio sim uma pequena incompatibilidade, mas o sucesso trouxe eles para o Brasil. O Adolf Hitler não permitiu que minha mãe viesse para o Brasil, então o meu pai teve liberdade de vir, o salvo conduto e ficou a minha mãe, meu irmão, minha irmã como garantia do governo nazista alemão. Para que meus pais, meu irmão e minha irmã pudessem sair da Alemanha eles tiveram que doar os seus bens ao Partido Nazista. Então as propriedades foram transferidas para os respectivos irmãos e irmãs do meu pai e da minha mãe, da qual nós não temos direito a nada. Meu pai veio pra Carazinho, interior do Rio Grande do Sul, porque ele tem um irmão que tinha uma indústria Marek em Carazinho, indústria de implementos agrícolas. Como havia uma base naval americana em Belém. Então o meu pai se deslocou pra trabalhar. Uma família alemã naquela época tinha que sair às vezes correndo, o meu próprio nascimento foi uma epopeia porque a minha mãe teve que pular um muro de dois metros. Sabendo que nós éramos alemães e havia muita perseguição contra italianos, alemães e japoneses.
Passado um tempo, meus pais se deslocaram pra Vitória, Espírito Santo, na cidade chamada Cachoeira, Barra do Itapemirim. Quando eu já tinha mais ou menos um cinco, seis anos de idade, nós viemos pra São Paulo, antigamente chamava-se Alto da Vila Maria, é uma região mais isolada, onde que ali era uma região que não tinha muito preconceito contra estrangeiros. E dali começamos a estudar, o meu pai começou a trabalhar nas indústrias de borracha em São Paulo. Onde nós morávamos, a princípio se chamava Estrada da Conceição, no Alto da Vila Maria. Aquele tempo você tinha duas casas, o resto era mata, ao ponto que os terrenos eram grandes, como se fossem pequenos sitiozinhos, de três a quatro mil metros quadrados e aquelas casas grandes. No fundo da casa nós tínhamos a nossa horta, a gente plantava tomate, alface, beterraba, cenoura e criávamos cabritos, que nós tínhamos um gramado, Nós éramos uma família muito pobre na época, pra poder não sentir frio a gente punha jornal na cama, esquentava o tijolo, embrulhava em papel, punha nos seus pés pra poder esquentar. Morávamos o meu pai, minha mãe, meus dois irmãos e eu. Nós tínhamos pé de caqui, abacate, manga, então às vezes, como não tinha nada que fazer, eu era um moleque muito travesso, eu pegava manga, jogava na cabeça do meu irmão, da minha irmã, então gerava-se, quer dizer, era uma briga entre os irmãos, mas uma briga sadia, não briga rancorosa. Fui pra um colégio de freiras em Santana, até que fiquei um certo tempo, até uma certa idade, acho que dez ou 11 anos. Como meu pai trabalhava como engenheiro químico na área de borracha, então surgiu uma oportunidade de comprar uma casa no bairro do Belém. Eu passei a habitar uma região que tinha muita gente, da qual fiz grandes amizades. Na rua só morava gente de classe média alta, porque só eram casas grandes. Nós que nunca tínhamos visto carro, as pessoas tinham carro, aqueles Ford 40, 50, 60, a nossa rua era privilegiada, era de paralelepípedo, então você imagina em 1960, 66 isso. E você formava uma equipe de futebol. Eu comecei a estudar, me dediquei muito à parte de Física e Química, que eu estudei no Colégio do Carmo, aqui na Praça Clóvis Bevilacqua, depois fui fazer Química Industrial no Osvaldo Cruz. E nos sábados à tarde e de domingo eu ia com o meu pai visitar as fábricas, então eu passei a ter conhecimento de parte industrial. Só me lembro de coisas ruins do colégio de freiras porque o seu uniforme, deixo bem claro que na época você era obrigado a usar uniforme, tanto menino como as meninas, e o uniforme, o suspensório era de pano, e o meu pai, como trabalhava em borrachas, fez de elástico, e um dia chegando com o suspensório de elástico a freira me mandou tirar o suspensório, eu tive que ficar com o chapéu de bobo na frente e segurando as calças pra não cair.
A filatelia surgiu pelo seguinte, o meu irmão comprava selo e ia vendendo selo, então ele pagou os estudos com selo, largou a parte de estudo, começou a ser um maleiro, no tempo se chamava mascate. Então ele frequentava agências dos Correios, viajava pra vender selo pelo interior a fora e ele trazia selos pra lavar. Num envelope, então você lavava aquilo, ou seja, soltava o selo do papel do envelope e eu comecei a brincar com isso. Tinha uns dezoito anos. Passei a estudar à noite no Osvaldo Cruz e durante o dia eu comecei a trabalhar com meu irmão na Rua Direita, em 1961, portanto a nossa empresa é de 1961. Comecei a gostar de tudo isso. Passou-se um tempo, como eu estava estudando Química, eu fui pra Goodyear do Brasil. Naquele tempo depois de dez anos você passa a ser funcionário fixo da empresa, você não podia ser mandado embora, ao ponto que a gente brincava, você recebia uma fichinha na testa, como dizendo assim: “Pertence a Goodyear do Brasil”. Como eu sabia inglês e alemão, eu trabalhei na Goodyear, departamento de física e química, no laboratório, aqui na Rua dos Prazeres, bairro do Belém e nas horas do almoço, em vez de eu ir pra minha casa, eu almoçava junto com os peões de fábrica. Eu comecei a ter conhecimento das coisas. Até que um belo dia um diretor me convidou pra sair do departamento de laboratório pra entrar na parte de física, que era pra fazer a resistência dos pneus, então já naquela época, em 1970, já fazíamos resistência dos pneus para aquelas ruas nossas excelentes, esburacadas, com um monte de coisas, então eu passei a fazer nisso. Eu parei com os selos, mas quando teve um entrevero com o meu chefe na Goodyear eu voltei a trabalhar com o meu irmão. Passei a ser sócio do meu irmão em 1961. Quando nós fundamos a loja não tínhamos muito dinheiro pra pagar aluguel, nós alugamos aonde que morava o zelador, o prédio de residencial virou comercial. Ele começou a viajar e eu fiquei tomando conta da loja, até então, como já tinha conhecimento um pouco de selo, comecei a adquirir mais ainda. Como eu leio inglês, francês e alemão, então você vai começando a aprender muito com isso, nós ficamos sócios, trabalhamos juntos, viajávamos juntos. Só tinha duas coisas de comunicação no nosso tempo, primeiro se chamava telegrama, segundo, telefone e o terceiro, mais importante de tudo, que era correspondência dos Correios do Brasil, cuja a sede era aqui embaixo no Anhangabaú. Então ali existia uma agência filatélica dos Correios, você tinha um grande privilégio lá dentro, tinha um guichê só pra filatelistas pra te atender com tudo aquilo que tinha. Naquela época era fichão. A tesouraria marcava, por exemplo, o selo do Pelé tem tantos, selo da Ester Bueno tem tanto, entende, então havia um controle porque a casa da moeda mandava, era no Rio de Janeiro, deixo claro, mandava pras grandes capitais e sabia quantos selos estavam chegando aqui e quanto se vendia. E com isso nós tínhamos um acesso lá dentro, éramos muito bem tratados, e com isso a gente usava muita correspondência dos Correios. Na época os Correios começou a impor certas condições, que não podia pegar peso x, demorava muito, veja bem, quase que 70 por cento de sua correspondência era por caminhões. Então se usava para carga pesada, dentro do território nacional a gente usava a Varig, que foi a primeira empresa aérea que se expandiu aqui, o restante dos 70 por cento era Correios do Brasil. Você tinha muita correspondência pro exterior porque antigamente você tinha publicidade de filatelia nos grandes jornais desse território nacional, não vou citar nome que eu não sei se pode ou não. Então todos os jornais tinham essa divulgação, veja bem, o que os Correios lançava os jornais estavam anunciando, as grandes revistas da época, se a senhora pesquisar, vou dizer a Cruzeiro, ela divulgava tudo isso, então eram as grandes revistas e grandes, e na Hora do Brasil, aquilo que é obrigatório por lei, eles também anunciavam o que ia ser lançado de selo, palavras pequenas, mas tinha, e o próprio Correios avisava quem era cadastrado que ia ser lançado um selo, havia o convite. Tudo por carta. Naquele tempo não existia o que se tem hoje, o computador, você tinha o mimeógrafo, então ficava nas horas vagas na loja pra fazer tudo isso pra poder mandar no dia seguinte, você selava tudo isso, você não tinha contrato com os Correios como você tem hoje. Eram duas pessoas a gente levava um dia inteiro pra fazer tudo isso, varava a noite até umas oito horas da noite pra imprimir, deixar secar, porque era feito com álcool, mimeógrafo a álcool, então você tinha que deixar secar, no dia seguinte envelopar tudo. Os comunicados eram dos produtos que tinha para vender, então os álbuns, vamos dizer, os classificadores, que é pra guardar selo, os próprios selos, a pinça, o papelzinho de colar, que se chama charneira, as novidades que você recebia do exterior. Então tudo isso nós divulgávamos, você fazia uma relação do que você tinha de selos do Brasil, desde o império até aquela época, década de 70, então você mandava isso pra todo mundo, inclusive pra clubes, pra o Departamento de Correios e Telégrafos, que era no Rio de Janeiro. Faziam tudo encomenda por carta, não havia depósito bancário, você recebia cheque, a compensação demorava às vezes uma semana pra você, então você recebia cheques de todos os lugares desse país. Só existia carteiro e naquela época eles tinham que carregar um malote nas costas, eram poucas viaturas que os Correios tinha, então ele vinha com cargas pesadas. A gente recebia um volume muito grande de carta e despachava muito volume, então o nosso nome passou a ser conhecido dentro dos Correios do Estado de São Paulo, como algumas cidades fora de São Paulo, por exemplo, Bahia, passamos a ser conhecido, Rio de Janeiro, Minas Gerais, BH, Porto Alegre, Curitiba, porque nós tínhamos um grande volume de correspondências naquele tempo. Hoje você aperta botão, manda mensagem, daqui a meia hora eu já depositei, então você não tem mais desculpa e o calor humano de escrever uma correspondência, entende, ou é fax ou telefone, então hoje você tem os quatro maneiras de vender sem você escrever muita carta. Então hoje o volume de carta diminuiu, mas eu ainda, quando eu faço a minha propaganda, eu mando três mil e 500 correspondências, tudo por carta, apesar de eu ter contrato com os Correios sempre selo com as últimas emissões que tem que sair das minhas cartas. Acredito eu que eu deva ter perto de um milhão, um milhão e meio de selos aqui dentro dessa loja, porque os gaveteiros é repleto de selos, aqueles armários são repletos de selos, os álbuns são repletos de selos, então eu sou uma verdadeira casa comercial. Continuo vivendo disso, é um ambiente sadio, apesar de você ter contratempo em qualquer profissão, qualquer comércio, eu dei, através dos selos, tudo o que eu pude dar pros meus filhos. O que mais motiva a trabalhar com selo, primeiro, é que eu gosto do que eu faço e, independente disso, cada selo tem sua história pra ser contada.

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