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História

Uma força que toma conta da gente

História de: Maria Edileusa Moreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/02/2021

Sinopse

Em sua entrevista, Edileusa nos fala de sua infância em São Bento-MA, onde foi influenciada desde cedo pelas religiões de matriz africana, presentes na cultura de sua família. Fala sobre seu padrasto, "Cuscuz", e de como sua vida mudou para melhor com ele. Depois, fala da mudança da família para São Luis e para a Vila Madureira. Comenta sobre a morte trágica de sua irmã e de seu padrasto. Edileusa narra a vida cotidiana na Vila Madureira e as primeiras negociações com a MPX para a mudança da comunidade, fato que criará a Vila Nova Canaã. Edileusa ainda fala sobre a origem do Tambor de Crioula em sua família e conta histórias sobre as festas que sua família produzia na Madureira. Ainda, comenta sobre seus diversos empregos até se estabilizar como agricultora orgânica no HortCanaã, profissão da qual muito se orgulha hoje.

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História completa

P/1 - Edileuza, qual o seu nome inteiro, a sua data de nascimento e em que cidade você nasceu?

 

R - Eu me chamo Maria Edileuza Moreira, nasci no dia dois de julho de 73 na cidade de São Bento, Maranhão. 

 

P/1 - São Bento fica em que região do Maranhão?

 

R - São Bento é um município, mas fica aqui na região da baixada, Pinheiro… Quem vai para os interiores. Santa Helena…

 

P/1 - E pra vir de São Bento pra cá, como se faz?

 

R - A gente pega o ferryboat, pega um carro de lá até as Três Marias, como eles chamam, paga o ferry e de lá a gente vem pra Ponta da Espera. 

 

P/1 - No dia que você nasceu… Sua mãe ou seu pai falaram pra você como foi o parto, se foi fácil ou difícil, como foi o dia?

 

R - Não lembro dessa parte. Tem poucas coisas que a minha mãe fala, porque antes era muito raro essa questão de maternidade. 

 

P/1 - Era parteira, né?

 

R - Era parteira. No caso dela, a gente morava lá numa região que não tinha hospitais. O pessoal que adoecia tinha que vir pra Pinheiro; às vezes não conseguia lá, tinha que vir pra cá. Até chegar aqui, já tinha morrido.

As parteiras é que tomavam a frente. Eu não lembro muito.

 

P/1 -  Qual é o nome da sua mãe?

 

R - Maria Isabel Moreira Serrão, por causa do segundo casamento dela.
Ela se casou, então conseguiu o sobrenome dele. Mas eu não sou filha do segundo casamento, sou filha do primeiro casamento dela.    

 

P/1 -  Quais os nomes dos seus avós, por parte de mãe?

 

R - Eu só lembro da minha avó. O meu avô eu não lembro do sobrenome, só lembro do primeiro nome, que era Benedito dos Santos. A minha avó era Josefa Moreira.

 

P/1 - Você os conheceu em vida?

 

R - Só o meu avô. A minha avó não conheci.

 

P/1 - E como era o seu avô? 

 

R - A estrutura dele, o físico, essas coisas? Ele era forte, alto, bem escuro. Ele era muito conhecido na região onde a gente morava, era tipo um ‘curandor’. Aquelas pessoas que adoeciam, [quando] passavam três, quatro dias iam buscar ele pra poder fazer banho, remédio de mato; ele ia na mata buscar remédio pras pessoas. Ele viajava muito com essa questão de fazer remédio pros outros.        

 

P/1 -  Ele tinha alguma religião?

 

R - Eu acho que ele era umbandista, porque ele trabalhava com essas questões. Nunca vi ele dançando, mas eu acredito que ele era dessas coisas. 

 

P/1 - Ele tocava tambor também? 

 

R - Não. Não lembro. 

 

P/1 - E como era o humor dele, o jeito dele? 

 

R -  Ele cuidava da gente, porque minha mãe… Eu me lembro de uma fase com oito, dez anos, que ele é que cuidava da gente. Minha mãe não morava com a gente. Ela deixou eu e o Biné, que é o marido da Kelly, e trouxe a Juliete, que era a mais velha e só vivia doentinha. Veio trabalhar pra cá. Meu pai já tinha falecido. Era ele e minha tia Marciana que cuidavam da gente. 

A gente passou por muita dificuldade quando eu morava no interior. Ele ia e deixava a gente. Às vezes, quando ela ia pescar, a gente comia; quando não, ela ficava… Ela vinha do rio e dizia pra mim, quando não conseguia pegar peixe, que era pra eu ficar vigiando o pé de imbaúba. Aquele mucuri, não sei se você sabe qual é… É tipo uma mucura. Hoje, quando eu olho, me dá até pânico de ver, parece um cachorro, um rato, uma coisa assim. (risos) [Eles] subiam no pé de imbaúba, aí ela matava eles, tirava o couro, botava no leite de coco e a gente comia. (risos) Disso eu me lembro. 

Durante o dia, a gente pegava uma cuia de farinha - não deixavam faltar farinha - e ia pra debaixo da mangueira. Quando não ventava, a gente começava a cantar: “Vento, vento… Tua mãe morreu, teu pai ficou.” (risos) Aí as mangas caíam e a gente comia as mangas com farinha, aí passava o dia. Quando chegava de noite é que eles providenciavam mesmo um jantar pra gente, mas durante o dia a gente se virava com as frutas, eu e esse meu irmão. 

[Foi assim] até que a minha mãe se casou com esse rapaz, que é o segundo marido dela. Ele mandou buscar a gente, aí a gente veio pra cá. Deu uma melhorada na vida da gente. Ele trabalhava na Coca-Cola, era bem empregado lá. Ele deu uma assistência melhor pra gente, fomos melhorando de vida, graças a Deus. Deixamos de comer essas coisas. (risos)  A gente tirava o couro de camaleão, comia no leite de coco, chupava até os ossinhos. (risos) 

 

P/1 - Qual é o nome do seu pai?

 

R - Qual dos pais? Eu tive dois pais: o que me fez e morreu logo, nem me registrou, e esse, que não me registrou, mas que me assumiu como filha dele, José da Trindade Serrão. Ele era conhecido na região onde a gente morava como Cuscuz. Foi um pai que… Ele teve cinco filhos com a minha mãe depois do primeiro casamento [dela]. Somos três do primeiro casamento e quatro do primeiro casamento, mas ele nunca fez essa diferença. Eu, principalmente, era a mais querida dele. Pra onde ele ia, ele me levava. Ele me agradava muito, me dava presentes, tudo que eu pedia pra ele. Outro dia mesmo, eu estava falando pra mamãe: “Se papai estivesse vivo, tudo isso estaria diferente.” Depois que ele morreu, aí pronto. 

 

P/1 - Vamos chegar lá ainda, mas primeiro eu queria saber do seu pai biológico. 

 

R - Não lembro. 

 

P/1 - Quando você nasceu, eram você, a sua mãe e os seus irmãos. E o seu avô.

 

R - Isso. Esse meu pai biológico adoeceu, parece que foi do coração, ficou muito mal. Eles trouxeram ele pra casa de uma irmã dele, aqui no bairro de Fátima. Essa é a história que mamãe me conta. Ele se internou e acabou falecendo. É só o que eu sei dele, não tenho lembrança dele. 

 

P/1 - E você ficou quanto tempo em Pinheiro antes de vir pra São Luís?

 

R - Eu fiquei uns seis anos lá. 

 

P/1 - Você veio pequenininha pra São Luís.

 

R - Foi. 

 

P/1 - O que mais você lembra de Pinheiro?

 

R -  São Bento. 

 

P/1 - São Bento, desculpe. Vocês brincavam?

 

R -  A gente brincava muito debaixo das árvores. Lembro que eu trepava no pé de goiaba; como meu irmão era menor do que eu, eu era mais danada… Como ele não podia trepar, ele dizia: “Ei, Guigui, joga uma pra mim!” Eu comia tanta goiaba… Comia quatro, jogava uma pra ele. Ele ficava lá embaixo. 

A goiaba me entupiu, aí eu passei foi mal, minha barriga inchou foi muito. Foi esse meu avô que fez remédio pra mim; me deu um carrapato pra tomar, me fez uma porção de ‘doidices’ que eu até tenho vergonha de falar, pra desentupir. (risos) Isso eu lembro. 

Nós brincávamos muito, brincávamos mesmo. Passavam os aviões, longe, lá em cima, aí eu dizia: “Ê, avião, manda lembrança pra minha mãe! Manda minha mãe vir me buscar!” A gente ficava gritando pros aviões. 

Hoje eu digo: ”Rapaz, como a gente era besta!” Naquele tempo existia criança besta, mas hoje… 

 

P/1 - O seu avô contava histórias pra você?

 

R - Não, porque geralmente à noite ele não parava em casa. Ele saía e passava muito tempo nessas caminhadas dele. Era raro. Quando ele estava em casa, geralmente tinha gente em casa. Eu lembro que ele benzia muita criança - negócio de mau olhado, essas coisas. Aí a gente ficava mais com a minha tia. Ela mora ainda em São Bento. 

 

P/1 - Qual o nome da sua tia?

 

R - Marciana. 

 

P/1 - Ela cuidou de vocês também. 

 

R - Cuidou. 

 

P/1 - Ela cuidava como? 

 

R - Ela cuidava como se a gente fosse filho dela. Inclusive, ela chorou foi muito quando a gente veio embora. 

Eu queria me livrar dela, porque ela era muito má pra mim. Batia mesmo. Pro meu irmão, ela era mais mansa, mas pra mim… Eu lembro que tinha um casal de idosos lá; eu passei no caminho, era só mato, de um lado e de outro, e uma senhorinha… Até já mataram ela e o marido dela. Foram roubar, mataram os dois e botaram um em cima do outro lá. Só moravam eles dois. 

Ela passou perto de mim e eu disse: “Droga!” Por que eu disse isso? Ela foi dizer pra minha tia. Ela me puxou pelo braço, me levou na beira do mato, pegou uma murta, arrancou as folhas e aí, olha, me lapeou de taca. Era desrespeito. "Não faça isso, que você está desrespeitando uma pessoa idosa!” E me bateu, bateu… Eu fiquei toda lapeada de taca. Aí eu disse que não gostava mais dela. 

Quando mamãe foi buscar a gente, eu disse: “Graças a Deus que eu vou embora de perto da senhora!” (risos) Ela chorou foi muito.

De vez em quando ela vem, ela dança tambor com a gente. Nos festejos, geralmente ela está aí. Ela é danada.    

           

P/1 - Você se lembra da primeira vez que você viu o Cuscuz, seu outro pai?

 

R -  Não tenho muita lembrança. 

 

P/1 - Mas você se lembra de vocês viajando pra São Luís?

 

R - Eu lembro. Na época, o ferryboat era mais difícil. Era um tal de catamarã, era muito prensado dentro. Na época que eu vim também, era lancha. Tinha um monte de rede. A gente veio de lancha de lá. Era porco, galinha… (imita o som dos bichos) Aquela coisa, eu dizia: ”Meu Deus do céu!” 

Minha mãe morava na Salina do Sacavém com ele. Parece que… Ele não estava em casa, quem estava lá eram só a mãe e o irmão dele. Mas quando ele chegou, ele falou com a gente, a gente deu a bênção pra ele, aí mamãe disse: “Se vocês quiserem chamar ele de pai, podem chamar. Se vocês não quiserem, vocês não são obrigados.” A mesma coisa foi a mãe dele, ela me disse que não era obrigada a chamar ela de vó. E ela nem queria que ninguém chamasse ela de vó, era pra chamar de tia, de comadre… Eu chamava ela de comadre. “Ê. comadre…” Ela morreu sendo minha comadre. (risos) 

Ele trabalhava na Coca-Cola. Eu lembro que quando as pessoas convidavam a gente pra ir prum evento, um aniversário, se não pedisse um mês antes ele não deixava ir. Tinha que pedir antecipado, que era pra ele poder comprar as roupas da gente. Ele mandava a gente ir lá na boutique da Coca-Cola, aí ele comprava roupa pra mim, pro meu irmão e pra minha irmã. Tudo igual, nós parecíamos um par de jarro. (risos) Do jeito que ele comprava pra um, ele comprava pra outro. 

Tem muita gente que confunde até hoje, só foi saber que ele não era meu pai agora, porque às vezes eu falo. Mas dizem que eu pareço muito com ele. E a gente era tão apegado que as pessoas acham que eu era filha dele. 

 

P/1 - Não tinha diferença. 

 

R - Não, ele nunca teve diferença com nada, nada. Inclusive quando ele faleceu, eu estava com ele, na cabeceira da cama dele, e eu sofri muito. Tem vezes que eu me lembro do sofrimento dele ali, me dá até vontade de chorar porque… Mamãe disse que é porque eu acompanhei ele ali, eu estava direto lá. Eu dormia com ele, ele entubado… 

Quando chegou o dia que ele faleceu, eu lembro que estava saindo uma espuma da boca, do aparelho, aí eu fui chamar a enfermeira. Eu disse, “Ô moça, ele tá botando um negócio estranho, é melhor a senhora ir ali olhar.” Ela disse: “Minha filha, eu tô com esse horror de pacientes aqui, pra acompanhar todos eles. Não é só seu pai que tá aqui, não.” Aí eu fui pra lá. Quando eu cheguei, a máquina estava baixando o volume. Tum tum tum... Ele estava era morrendo. 

Na hora que eu comecei a gritar que ele estava morrendo, chamaram uma porção de médicos. Eu fiquei doida lá dentro, xinguei eles de tudo quanto foi nome que veio na minha boca. Eles me doparam, me deram uma injeção. Eu passei uns três dias dopada. Do velório dele eu não me lembro, parecia que eu estava… Parecia uma estátua. Tem coisas que eu me lembro e coisas que eu não me lembro. Eu sei que eu passei foi mal.

Já a minha irmã, que sofreu muito mais - eu não sei se mamãe te falou do caso da minha irmã, que foi assassinada… Foi uma morte mais cruel, mas eu não sofri tanto quanto eu sofri com o meu pai. Não sei por quê. Eu senti muito, até hoje eu sinto falta dele. Muita gente acha que, por eu não ser filha dele… Mas a minha consideração, o meu amor por ele, eu acho que é até maior do que dos próprios filhos. 

Eu me lembro de data de aniversário… Foi dia primeiro de outubro, vai completar coisa de morte. Do aniversário dele eu sempre me lembro, às vezes os filhos nem lembram. Eu lembro tudinho. 

 

P/1 - Você tinha uns cinco, seis anos quando ele virou seu pai, é isso? 

 

R - Eu acho que eu tinha uma faixa etária de uns sete, oito anos, por aí, quando eu vim pra cá. 

 

P/1 - E eram só três irmãos, na época.

 

R - Eram. 

 

P/1 - Quem são os outros dois irmãos?

 

R - Os meus irmãos biológicos? Eram a Juliete, o Biné - Benedito, o marido da Kelly - e eu. Somos os primeiros, do [primeiro] casamento da minha mãe.

 

P/1 - E quanto tempo demorou pra você ter mais irmãos?

 

R - Quando eu vim, mamãe já tinha tido o Fábio, que é o primeiro. Ele é do ano de 80. Estava pequeno, na faixa de uns quatro, cinco anos. Depois ela engravidou de outro, aí eu fiquei cuidando dos outros. Eles davam trabalho, eu dava neles… Muita ‘doidiça’ com esses pequenos. Até hoje eles me respeitam. [Quando] meu pai morreu, quem… Na hora que eu gritava com eles, todo mundo… 

Tem o Fábio, o Flávio, tem o José Domingos, e tinha a Antônia, que foi morta. A única que não pegou ‘taca’ da minha mão foi a Antônia, mas eles todos apanharam da minha mão. Até hoje, na hora que eles estão com desrespeito com mamãe, é só me chamar. Todo mundo murcha. Eu digo: “Eu não tenho medo de nada. Eu vou parar na cadeia, mas eu não vou deixar vocês fazerem nada de mal com a minha mãe. Se a gente não puder valorizar ela agora, não vai adiantar estar chorando quando ela estiver no meio da casa.” 

Mamãe adoeceu, esses pequenos ‘atentaram’ muito a vida dela. Ela fez três cirurgias por conta de ‘atentação’ deles. Meu irmão assustou ela; se zangou, quebrou o telefone bem pertinho dela, aí ela se danou pra chorar. Não podia chorar. Eu falei pra ele, aí ele passou uns dias fora daí. Eu disse que ia dar parte dele, é assim. Tem vezes que eles estão doidões de bebida na cabeça, eu vou pra cima deles, eles vêm pra cima de mim; me metem a mão, eu agarro eles… Outro dia, meu genro agarrou ele e eu, ó… [faz o sinal que bateu] (risos) Deu foi mesmo. Eu disse: “Agora vem pra cima de mim que eu vou te entregar ali no posto [policial]”. Ele não vem. Quando eles estão doidões, sou só eu. Mamãe me chama. Eu digo: “Mamãe, a senhora não pode perder sua moral pros filhos. Não quer respeitar, mete o pau.” Bota de casa pra rua… 

 

P/1 - Desde que eles eram crianças é assim.

 

R - É. Agora estão todos adultos e aí é uma ‘doidice’.

 

P/1 - Vocês foram mudando pra onde aqui, em São Luís, pra morar com seu pai, o Cuscuz? 

 

R -  Quando eu vim do interior, eles já moravam na Salina do Sacavém. De lá, teve uma invasão lá no Bom Jesus, no Coroadinho. Mamãe andava muito, ela fazia carvão lá no Sítio dos Padres, plantava macaxeira pro lado de lá. Ela olhou a invasão, aí ela invadiu também o terreno, fez uma casinha lá. 

Papai não queria que ela fosse. Quando papai chegou, ela já tinha feito uma choupaninha de palha e já estava dentro. Aí ele foi obrigado a ir pra lá. 

Quando a madrinha de mamãe, que era a mesma madrinha do meu pai… Morava lá na [Vila] Madureira. Como eles só viviam brigando - ele também bebia, mamãe vivia querendo ‘cacetar ‘ele - minha avó - eu chamo de vó - chamou ela pra morar lá. Lá estava perto. Como mamãe não tinha mãe e ela se considerava mãe dela, ela estava mais próxima. Deu uma área lá pra mamãe morar. 

Eles começaram a se fazer lá, foram se desenvolvendo lá dentro. Foram fazendo roça, vivendo da maneira que eles achavam melhor. Pescavam… Eu fiquei solteira,  arrumei um namorado, aí meu pai queria me dar a casa do Bom Jesus, que a gente invadiu. Estava tudo regularizado, nunca tiraram ninguém de lá. Meu pai queria me dar, mas o menino não quis. Meu pai vendeu a casa, bem baratinho, pra um primo da gente. 

Eu fui morar com o pai do meu filho no Bom Jesus - a gente tinha uma casa lá, eu vendi.  Eu ia pra casa da minha mãe, de vez em quando, aí não deu certo. Meu pai fez um quartinho pra mim lá. 

 

P/1 - Na Vila Madureira. 

 

R - Lá na Madureira. Na época, eu estava grávida do Rafael. Meu pai fez um quarto lá pra mim. Cada um de nós tinha um quarto lá, porque ele fazia festa, aí o pessoal ficava ali pra arrumar… Esse quarto aqui é só pras mulheres, pra trocar de roupa, se aqui é pra colocar bebida… Quando terminava a festa, cada qual ficava com um quarto.    

Fui pra lá. Foi quando surgiu essa questão da vinda pra cá. 

 

P/1 - Vamos voltar um pouco, me conta como foi se adaptar ao lugar novo, ao pai… 

Como era o dia a dia, na sua infância, logo que você chegou a São Luís?

 

R - Pra mim, foi… A mãe dele era cega dos dois olhos; a preocupação dele era com ela, só que ela não deixava ninguém fazer nada pra ela. Ela que comprava comida… Ela só queria que a gente acompanhasse ela. Ela colocava a mão aqui no ombro e a gente ia embora. “Vamos levar ela na feira.” Chegava lá, “Essa aqui é a banca de peixe”, aí ela apalpava o peixe, o camarão. Tudo o que era comida ela apalpava e comprava. Ela sabia quando o peixe estava fresco ou não. Quando a gente chegava em casa, ela fazia a comida.     

Pra gente, foi tudo bom porque nada daquilo ali a gente tinha lá onde a gente morava. Fomos nos adaptando, fazendo amizade. Minha mãe procurou escola pra gente. 

Depois que a gente foi pra essa casa, lá na invasão, a minha mãe conseguiu… Era uma escolinha comunitária. A minha mãe conseguiu um serviço lá como zeladora. Ela trabalhava lá e eu ficava em casa, com os meninos. Antes disso, ela arranjava serviço em casa de família, só vinha de noite e eu ficava com os meninos. Era a hora de eu me vingar deles. (risos)

 

P/1 - Você tinha o que, uns dez, doze anos?

 

R - Eu acho que uns doze anos. 

 

P/1 - Você parou de ir à escola nesse momento, pra cuidar das crianças? 

 

R - Não. Como ela trabalhava, todo mundo ia pra escola. Ela matriculava todo mundo num só horário. Os que não podiam ir ficavam com os que estudavam à tarde, que no caso era a minha irmã. A mãe do meu pai, antes de falecer, ela ficava com os menorzinhos, no caso, esses que tinham nascido por último. Ela ficava olhando até a gente chegar. 

Ficava naquela coisa: deixa com um… Tinha uma prima que morava também com a gente, ficava com eles. Ela morava lá em casa. Depois que a minha avó morreu, a gente já estava mesmo grandinho, com uns quatorze anos… Ela morreu lá na Santa Casa. Aí todo mundo já se virava. 

Mamãe saía [e] já deixava o [de] comer pronto, quem quisesse fazer, que fizesse. Como eu não gostava de comer, eu comia era barro. (risos)

 

P/1 - Ah, é? Como é que é essa história? 

 

R - Eu comia era tabatinga, achava tão gostoso. Fiquei inchadona, peguei até calazar, só de comer barro. Tomei tanta benzetacil que quase eu morro, me escondia. Quando a gente ia subir no elevador [do hospital] pra gente pegar injeção - mamãe, pra não deixar a gente internada, a mulher falou que [eu] ia passar três

meses tomando benzetacil direto, todo dia. Eu não tinha mais lugar pra eles me furarem. Mas eu larguei o nojento do barro, que quase me mata. (sorri)

 

P/1 - Na casa de vocês, o que tinha de novo, que você dizia que não tinha em São Bento? 

 

R - Lá em São Bento a gente praticamente não tinha nada. Quando a gente veio pra cá, foi uma novidade as coisas daqui. Pra mim foi, porque na casa da minha mãe ela tinha uma cama, tinha uma televisão daquelas antigas, bem pequenininha. Depois o meu pai comprou uma geladeira de segunda [mão], aí foi melhorando. E a gente foi se adaptando rápido. “Quem vem pra cidade beber água gelada não quer mais voltar”, era assim que eles diziam. (risos)

 

P/1 - O que vocês viam na TV nessa época, você se lembra?

 

R - Era o Xou da Xuxa, tinha O Balão Mágico, o Bozo, tinha um monte de coisa que criança gostava de assistir. 

 

P/1 - Vocês ouviam rádio também? 

 

R - A novela de rádio a gente escutava muito, também. Quando eu cheguei, não tinha televisão na casa da minha mãe, tinha na casa da mãe do meu pai; era uma casa só, mas eram separados os quartos. Tipo, essa aqui era a casa da minha mãe, mas dentro de um lugarzinho só. Minha avó, como ela não enxergava, escutava novela só no rádio.  Ela sabia quem era, quem não era. Quando ela ia lá pra casa - minha mãe, às vezes, saía e ela ia ficar com a gente - e a gente colocava a televisão pra ela escutar, ela dizia: “Mas eles tão fazendo o quê? O que que não sei quem tá fazendo com não sei quem?” (risos) Tinha que fizer pra ela tudinho _________, mas só assiste mesmo no rádio, porque ninguém está olhando. (risos) 

 

P/1 - E como era o bairro nessa época?

 

R - Era cheio de lama. A água do curtume descia; quando dava enxurrada, a água entrava dentro de casa.  A gente dormia nas redes. Quando chovia, a água batia na rede, aí era chinelo, tudinho nadando.  A gente não descia, não, papai e mamãe às vezes desciam. A gente ficava o tempo todo na rede. Se fosse possível, fazia até xixi na rede, porque não tinha como descer. 

Com o tempo, eles foram entulhando, tanto a rua como as casas, foram levantando as casas, aí foi melhorando. 

Hoje está bem bonito lá, as ruas todas asfaltadas. Está totalmente diferente. 

 

P/1 - Como era o jeito do seu pai naquela época?

  

R - O físico dele? 

 

P/ 1 - O humor dele, como ele tratava vocês…

 

R - Ele tratava bem. Ele só parava em casa [aos] domingos, que ele não trabalhava. Às vezes ele tinha jogo, escapulia e me levava, porque eu sempre fui a mais ‘fuxiqueira’, aí ele me comprava pra mamãe não se zangar com ele. 

Ele me levava pro Mercado Central, na feira do Coroadinho, na época. Lá tinha o jogo de caipira. Ele gostava muito de jogar e mamãe não gostava, aí ele me levava e dizia: “Bora lá pra casa de não sei quem…” E saíamos, nós dois. Chegava lá, ele me entretia. “Ah, papai, eu quero comer ovo.” Ele comprava uma cartela de ovo pra mim, eu me lembro disso. Eu só faltava morrer de tanto comer sardinha porque eu gostava demais, até hoje eu gosto [de] sardinha de lata. Quando eu chegava em casa com as coisas, mamãe dizia: “Onde é que tu tava, Edileuza, mais Zé?” Eu dizia: “Onde é mesmo que a gente tava, papai?” Aí ele dizia. (risos) Ele ganhava o dinheiro e me dava. 

Ele era muito bacana comigo, me comprava tudo. Eu passava o dia todinho andando com ele. Às vezes ele ainda bebia uma pinga, aí eu tomava um refrigerante, um suco… Tudo o que eu queria ele comprava pra me agradar, pra eu não dizer pra mamãe. Como ela sabia que eu era faladeira, ela me mandava [ir] com ele justamente por isso. (risos) Só que ele me comprava. 

Quando a gente morava na Madureira, ele também fazia isso. Já tinha tido meu filho, aí a gente saía, vixe… Na minha gravidez ele me paparicava muito. Esse filho é registrado no nome dele e da minha mãe. Ele pegou o menino pra criar porque ele disse que o primeiro neto ele não ia deixar assim, ainda mais que eu não estava mais junto com o pai. O pai não registrou, aí ele registrou; me perguntou se podia, eu disse: “Registra.” Aí ele registrou o Rafael. 

O Rafael foi criado por ele, foi morar comigo depois que ele faleceu. Foi um pai. 

O enfermeiro no hospital perguntou… Eu disse: “Moço, me diga como é que tá meu pai. Será que ele vai sobreviver?” Ele disse: “Ele é um pai ou paizão pra ti?” Eu disse: “Ele é um paizão.” Ele disse: “Olha, tem pessoas que… Eu não posso dizer com certeza que ele vai sobreviver, porque depende muito do quadro, mas vamos torcer pra que dê tudo certo.” Ele me deu até colchão pra eu dormir perto de papai, eu dormia lá. 

Ave Maria, é uma coisa assim que até hoje eu digo: “Meu Deus, será que era…” Meu pai procurou tratamento muito tarde. Se ele tivesse procurado mais cedo, talvez ele tivesse sobrevivido. No dia da cirurgia dele, ele faleceu.   

 

P/1 - O que seu pai teve?

 

R - Aneurisma cerebral. Ele e uma cunhada minha, mãe do Apolo, da Flávia; a esposa do Flávio, que é o segundo filho de mamãe, do segundo casamento. Ela também morreu de aneurisma, com trinta anos. É uma coisa que… Sei lá…

 

P/1 - Você ainda Tenta se comunicar com ele, pensa muito nele? 

 

R - Não. Eu sinto saudade dele. Saudade das brincadeiras dele, do carinho dele com a gente, com essas meninas que ele ajudou a criar, as minhas sobrinhas… Meu filho, então, sofreu muito, era muito apegado com ele. 

Eu nunca sequer sonhei com ele.

 

P/1 - Por que o apelido dele era Cuscuz?

 

R - Porque ele gostava de fumar muito, era fumo. Aí chamavam de ‘cuscuz de fumo’. (risos) Se ele estivesse vivo, ele já tinha largado de fumar. Eu fiz mamãe largar. Eu dizia: “Mamãe, a senhora tá fedendo. Pelo amor de Deus.” Hoje ela acha horrível o fedor de cigarro. Eu digo: “Tá vendo? Eu falava pra senhora, a senhora se zangava.” 

Eu tenho certeza que ele também largaria.

Eu dizia: “Papai, o senhor tem que parar com essa bebida.” “Ô, minha filha, eu vou parar.” Cigarro ele se escondia pra fumar. Eu brigava muito com ele.                                                       

Acho que ele morreu mesmo por causa desse problema da minha irmã. Depois que a minha irmã foi morta e o delegado mostrou, eles mostraram a forma que ela foi encontrada, as fotos, [isso] abalou muito mais ele. E também pela questão dele se esconder, ele se isolou. A gente procurava ele, ele estava escondido atrás das árvores, chorando sentado. O médico disse que ele entrou em depressão profunda. 

Ele já estava sofrendo mesmo com o aneurisma, mas foi mais devido a essa perda.

 

P/1 - Foram quantos anos entre a morte da sua irmã e a dele? 

 

R - Seis meses. Ela foi em primeiro de maio e ele, em primeiro de outubro. Cinco meses, né? 

 

P/1 - Ele tinha tido um aneurisma antes ou…

 

R - Não. Foi constatado que ele estava com aneurisma depois que ela faleceu. Ele já tinha feito vários exames porque sentia muita dor de cabeça, mas ainda não tinham descoberto.      

Esse médico que descobriu, ele trabalha no Socorrão Dois. Quando ela morreu, ele piorou mesmo, aí que… Ele tinha uma poupançazinha, a gente foi fazer uns exames particulares, aí foi constatado. A gente levou ele pro Hospital Geral… Não… Pro Centro Médico; se internou lá, saiu, depois passou um mês e meio, parece, no Socorrão. Quando saiu do Socorrão, ele foi pra casa. Mamãe tirou ele do Socorrão, ele disse que não aguentava mais. Ela assinou que ia se responsabilizar.

A gente procurou consultar ele por fora, aí levamos ele pra esse médico. Deram ‘coisa’ pra ele se internar lá no… Como é o nome, meu Deus? No Centro Médico. Lá marcaram o dia da cirurgia. Ele estava em casa, chamaram ele pra se internar. De lá ele não voltou mais pra casa. Ele faleceu. 

 

P/1 - Voltando mais um pouquinho, seu pai e sua mãe colocaram todo mundo na escola. Vocês foram estudar onde?

 

R - Eu estudei junto com os que já estavam em idade de escola na Escolinha Comunitária, lá na Rua Jairzinho. Era a escola da dona Rosa e a minha mãe era funcionária de lá. A minha irmã ficou na quarta série e de lá ela parou mesmo. Eu vim para o [bairro] Filipinho, eu estudava à tarde lá. O nome [da escola] de lá é Governador Archer.            

Eu não concluí lá. Arrumei namorado, arrumei filho, aquela coisa toda, aí parei. A representante da MPX, dona Daisy, conversando aqui... Como eu vim trabalhar aqui - eu trabalhava em casa de família… A mudança da gente de lá pra cá ficou muito ruim, por causa do transporte pra eu chegar no trabalho e todo dia a minha patroa me dava o dinheiro pra fazer as compras, comprar comida fresca. 

Um dia, eu cheguei lá [às] nove horas. Quando chegava as doze, ela queria a comida pronta. Eu saía daqui que nem uma doida, aqui só era um ônibus. Ela disse: “Edileuza, uma hora dessas!” Ela me esperou esse dia, porque se eu chegasse atrasada eu tinha a chave. “Olha, eu quero conversar contigo porque tu não tá dando conta nem da tua casa e nem da minha. Tá chegando muito tarde, aí tu faz a comida na pressa, tu não tá dando conta da limpeza da casa. Tu tem condição de arrumar outra casa pra...” 

Isso ela fez agora, eu já estou adiantando a conversa. (risos) Estava na adolescência, já pulei. Pode continuar?            

 

P/1 - Pode. 

 

R - Eu criei a minha filha; me separei do pai da minha filha [quando] ela tinha quatro anos. Hoje ela está com 25 anos. Arrumei essa casa de família pra trabalhar. A moça [era] muito bacana, uma patroa que até hoje é uma mãe pra mim. Ela, o marido dela criaram minha filha, me ajudaram com tudo; até minha casa eles me ajudaram a fazer. 

Eu vendi minha casa, porque não ia ficar com duas. Tinha muita briga de bandido, aquela coisa de tráfico, aí eu não senti mais vontade de ficar lá. Era lá no Bom Jesus. Mas ela me ajudou a fazer a casa, todo final de semana me dava dinheiro pra eu ir pra praia com a minha filha, porque eu tinha folga no sábado à tarde. 

Chegou nesse dia, ela falou pra mim se eu tinha condição de arranjar outro emprego, porque eu não estava dando conta nem do meu [lar] nem da casa dela. Eu disse: “Tudo bem, eu dou. A senhora quer que eu saia?” “Não, minha filha. Eu posso até montar alguma coisa pra ti, eu não quero te deixar desamparada. Eu quero montar alguma coisa que possa te manter, porque eu tô vendo, Edileuza, que tu tá apaixonada pela tua casa” - era aqui, né? - “Tu quer namorar a tua casa e não tem tempo, aí tu fica nessa correria. Tu tá chegando muito tarde aqui.” Eu disse: ”Tudo bem.“

Eu fiquei triste. Ele estava com um projeto aqui de fazer horta de casa em casa. Ia ter uma reunião com um representante da empresa num domingo. Foi naquela igreja ali. Estava cheio de gente lá. Ela [estava] falando que era uma oportunidade e tal, aí eu me achei naquela coisa de me integrar. Eu falei: “Posso falar?” Ela [disse]:”Pode.” "Olha, queria pedir um emprego pra vocês. Eu tô praticamente desempregada, porque ontem a minha patroa me chamou e me disse que eu tô chegando muito tarde por conta do transporte aqui, então se vocês conseguirem um trabalho pra mim, eu serei muito grata, porque tá pegando pra mim. Eu moro aqui; essa distância todinha pra ir pro [bairro] João Paulo, é um percurso muito longo e é demorado demais.”  Ela disse: “Mas tu tem costume de trabalhar em horta?” Eu disse: ”Não, mas tô aqui pra aprender.” Nunca tinha trabalhado com horta na minha vida. “Se vocês me derem uma oportunidade, eu posso mostrar porque ninguém nasce sabendo.”

O Zulu - que até já faleceu, o Sebastião -  ele que era o da frente lá. Ele disse: “Tô precisando de uma pessoa pra fazer o cadastro, pegar, preencher as fichas das pessoas que vão fazer os canteiros. Dá pra ti?” Eu disse: “Dá.” “Tu ganha dezoito reais por dia.” Eu disse: “Na boa! Então amanhã vou despachar minha patroa!” (risos)

Fui lá, ela levou foi um susto. Eu disse: “Bom dia.” Ela disse: “Boa tarde.” Eu disse: “Bom dia. Eu só vim lhe despachar, porque eu já arrumei o emprego que a senhora mandou arrumar." “Edileuza, não acredito. Eu falei, mas não era pra tu sair assim." “Não, hoje eu só não comecei porque vim lhe avisar, mas amanhã eu tô lá no meu servicinho novo. É na minha comunidade mesmo, eu tô perto de casa. ” 

Eu me afastei dela, mas ela veio bater aqui. De vez em quando ela vem. Na semana passada, a gente foi pra Morros, eu e ela. Ficou aquele vínculo de amizade, a minha família toda tem contato com ela.

Comecei a trabalhar aqui. Daqui já fui indicada pra outra empresa, aí dona Deise falou pra mim, assim que eu comecei: “Edileuza, tu te expressa tão bem!” Eu me lembro muito bem disso, isso me incentivou, como se ela tivesse me dado um murro. (risos) ”Por que tu não conclui teus estudos? Hoje, o ensino médio não tá valendo nada, mas se a pessoa tiver pelo menos o básico, que é ele, já dá pra caminhar. Tu me promete que vai terminar teus estudos, Edileuza?” Eu disse: “É, eu vou. Mas pra terminar os estudos e ficar assim…” Ela disse: “Vamos fazer o seguinte: se tu terminar os estudos, eu prometo que arranjo um serviço pra ti.” “Olha o que a senhora tá me dizendo!” “Pois termine seu estudo pra você ver.” Ela fumava, né? “Deixa eu fumar aqui pra ganhar uma força.” (risos)

No comando ali era o escritório da MPX. Era uma casinha igual as outras, mas era um escritório. Ela foi lá pra trás, fumou e disse: “O que eu conversei contigo pode permanecer.” “Tá bom.” Aí eu fui lá embaixo e me cadastrei pra estudar à noite.

Ela saiu e veio a Cleane, aí a Cleane me indicou pra uma empresa [de] serviços gerais. Trabalhei uns sete, oito meses lá. Eu trabalhava aqui na escola, pra prefeitura. Falei pro meu encarregado: “Eles estão dando prioridade pras pessoas que moram na comunidade. Se alguém chegar pra ti e dizer que eu estou aqui e lá, como é que eu fico nessa história?” Ele disse: “Não, dona Edileuza, não se preocupe. Enquanto a empresa não despachar a gente, você trabalha pra gente.” Eu disse: “Tomara que ela não despache vocês nunca!” (risos)

Durou oito meses. A escola foi entregue para a prefeitura e eu já estava encaixada aqui. E ainda fui pedir serviço ali no Valparaíso. Trabalhava final de semana e feriado ali no Val. Comecei lavando louça. Hoje eu sou praticamente a chefe do meu setor, da parte da fritura; me desenrolo em uma porção de áreas lá. Fritura, boqueta, fogão, com tudo eu mexo lá dentro. 

Foram falar pro diretor aqui que eu trabalhava em quatro empregos - ainda tinha o polo, eu não perdi o polo! - que eu não precisava, que a oportunidade era pra outro. Ele, jogando comigo, disse: “Olha, irmã, o encarregado da empresa que você tá trabalhando veio aqui. Perguntou como você estava..” Eu desmenti logo ele: "Professor, me desculpa, mas o senhor tá mentindo.” “Por quê?”  “Porque tá. Quem tem o número do meu encarregado sou só eu e a empresa. Aqui não tem telefone pra ele ficar ligando. Ele não tem seu celular e nem você o dele. E outra: eu não tô escondida de ninguém não. A empresa tá sabendo que eu estou pela prefeitura, eu falei pra ele. Trabalho no Val e tem o polo. Essa pessoa que chegou pra você e falou isso não tem a capacidade, a coragem que eu tenho pra fazer a mesma coisa que eu faço. Os serviços estão aí, basta a pessoa ter coragem. E não importa, minha carteira pode estar assinada em dez lugares, contanto que não coincidam os horários.” 

Ele disse: “Irmã, eu vou falar a verdade. Foram as meninas que estavam falando…” “Eu sei, por isso que eu falei que o senhor estava mentindo.” Aí me largaram de mão. 

O que eu quero dizer é o seguinte: se eu não tivesse pego a iniciativa [de] ela ter conversado comigo, me dado um empurrão… Ela, a Patrícia, a própria diretora aqui também… Talvez eu ainda estivesse na quarta série. Graças a Deus, concluí, já fiz vários cursos, tenho vários certificados… Se eu não tivesse vindo de lá pra cá, talvez nada disso teria acontecido.

Eu já fiz [curso de] pedreiro de alvenaria, almoxarifado, bombeiro, primeiros socorros… Tudo por aqui. E eu queria que a empresa me desse mais oportunidade, porque não me deram. Teve outros cursos e eles disseram que não era só pra mim. Mas a comunidade não se manifesta, eu ia deixar passar? Não. A comunidade aqui é muito parada, ela não se mobiliza pra isso. Tem uns cursos caríssimos e ninguém… [cruza os braços] Tem muita gente sem qualificação, aparece um serviço e não tem ninguém que possa assumir. Pouca gente aproveitou esses cursos, vieram mais de fora.  

 

P/1 - Indo lá de volta pra sua adolescência, você disse que estudou, mas parou. Você se lembra da escola naquela época?

 

R - Um pouco. Eu me lembro que era muito zangada, eu era pânico na escola. E me apelidavam de Xuxa Preta. (risos) Minha mãe fazia uns cocozinhos, umas tranças, quatro chifres. Eram duas tranças aqui [na frente], ficava em pé, e outra atrás. E aí as meninas diziam: “Que é que tu quer, Xuxa preta?” Aí eu já estava brigando na escola, [levava] suspensão. Brigava muito.

 

P/1 - Porque o pessoal zoava você?

 

R - Zoavam e tinha umas lá querendo ser mais doidas que as outras. Uma vez uma menina quis brigar com a minha irmã; eu me meti e ela disse que eu não tinha nada que me meter. Eu montei nela; ela veio me dar ____, eu segurei o dedo dela na boca. Foi preciso eles arrombarem a porta pra tirar o dedo dela da minha boca. Era sangue na minha boca, porque eu mordi mesmo, cortei o dedo dela. (risos) 

Fui suspensa [por] quinze dias. Ainda bem que eu não fui expulsa.         

 

P/1 - Mesmo com essas coisas, você conseguia estudar um pouco?

 

R - Eu vim mesmo prestar atenção nas atividades da quarta série em diante. 

 

P/1 - Você gostava de algum professor? 

 

R - Gostava não. Só nessa escola aqui, da quinta série em diante, é que eu passei a gostar dos professores, mas dessa escolinha que eu estudava, a professora me beliscava muito. Ela torcia meu couro. 

De vez em quando eu encontro ela. “Ê, professora!” “Ê, Edileuza, tu não muda.” “Eu mudei foi muito, professora! Já sou gente.” (risos)        

 

P/1 - A sua participação no tambor já era dessa data?

 

R - Não. A minha participação no tambor foi acompanhando a minha mãe. Eu morava com o pai da minha filha, não saía. Depois que eu fiquei solteira, principalmente depois que a minha irmã faleceu, eu comecei a sair com mamãe pra ela se distrair. 

Próximo da minha irmã falecer, a gente foi num tambor, mamãe me convidou. Fui e passei a gostar. E também  pela festa do meu pai, porque na festa do meu pai eu não dançava. ele fazia encontro de tambor de crioula, mas eu não dançava pelo fato de eu estar ajeitando uma coisa, ajeitando outra; eu que era responsável por buscar o transporte na garagem e sair apanhando as pessoas nos pontos. Cada um lá tinha sua função. 

Depois que a festa terminava, papai separava a nossa bebida, matava um porco pra gente. A festa lá era três, quatro dias; a última que era boa, era só a gente. 

 

P/1 - O seu pai também era do tambor, então. 

 

R - Ele batia o tambor. E esse tambor vem de promessa da família dele. Mamãe que sabe contar essa história direitinho, porque parece que era do tio do meu pai. Parece que eles fizeram essa promessa e foi passando de um para o outro. Da mãe do meu pai passou pro meu pai; do meu pai, mamãe assumiu.

A empresa ajudou a registrar, eles pagaram… Até então, o tambor era de promessa; só fazia durante o ano e acabou. Não tinha esse negócio de sair pela temporada de São João, Carnaval… A gente pediu o apoio da empresa; em todo seminário que tem, a gente apresenta, pra mostrar o que foi trazido pra cá. Eu pedi pros chefões a colaboração deles, porque eles achavam muito bonito - assim eles diziam. Mas pra melhorar, precisa registrar; sem registro, a gente não existe. A gente vai ser reconhecido culturalmente, como hoje a gente é, graças a Deus.      

 

P/1 - Por que essa promessa do tio do seu pai? O que aconteceu? 

 

R - Do tio do meu pai eu não sei. Do meu pai eu sei, ele fez a promessa que se São  Benedito curasse… Ele trabalhava na Coca-Cola, deu um problema na coluna e ele se encostou. O INSS cortou o benefício dele; ele passou sete meses sem receber. Estava afetando muito a coluna dele, ele estava usando muleta. Ele disse que não tinha como fazer a festa, que ele já estava trazendo da mãe dele. Apavorado, porque não tinha como fazer a festa, [ele pediu] que se São Benedito mostrasse uma graça pra ele, ele faria a festa. 

Parece que eles tinham uma [oficina de] reciclagem e ele achou um dinheiro lá que deu pra comprar todas as coisas da festa. Achou um celular que na época era bom… Essa reciclagem vinha de vários lugares, não tinha como identificar de quem era. Papai ficou com esse celular e não sei o que eles acharam lá, que deu pra vender e comprar todas as coisas da festa - arroz, bebida.

Ele fez essa festa. Foi a primeira graça que ele achou que recebeu. Ele estava andando de muleta e ele pediu a São Benedito que se voltasse o benefício dele e ele parasse de usar muleta, ele faria uma capela com o nome A Graça de São Benedito e continuaria fazendo o tambor. 

Não demorou muito, ele reconquistou [o benefício], aí eles começaram a carregar pedra pra fazer a capela. Ele fez a capela apegada à casa e começou a fazer a festa com o nome A Graça de São Benedito. Continuou e a gente veio pra cá, com o tambor chamado A Graça de São Benedito.  

 

P/1 - Conta pra quem não sabe como eram os dias da festa que vocês faziam na Vila Madureira, em qual dia tinha o quê.

 

R - No primeiro dia da festa, a gente fazia uma missa. Chamávamos o padre, [ele] celebrava a missa, fazia vários batizados; convidavam a comunidade em geral. Quem quisesse casar, o padre podia. Faziam a missa com os batizados, aí terminava. O padre ia embora, se quisesse ficava na festa. 

Quando chegava de noite, a gente fazia a ladainha em homenagem a São Benedito, aí o tambor começava a apanhar. Batia tambor até o dia raiar. E o pessoal chegando. Dentro de São Luís, muita gente conhece a gente pelo festejo.  

Meu pai matava boi, porco, galinha; eram vários tipos de comida. A noite toda fazendo comida, botando arroz… Menino, era muito comida mesmo. Ele matava boi pra dar pra esse monte de gente.  

No outro dia, era a radiola. A radiola apanhava durante o dia e a noite. A negada quebrava era certo lá. Era reggae, forró, seresta, tudo. Às vezes, fazia bingo. 

No terceiro dia, era a nossa festa, o lava-prato. Era só animação, muito bom. Muita gente tem saudade dessas festas. 

 

P/1 - Como é o lava-prato? 

 

R - Era o que sobrava da festa, a gente estraçalhava tudo. E meu pai sempre reservava a bebida da gente, porque era assim: “Na festa eu não quero ninguém bebendo. Terminou a nossa obrigação com o santo, então agora é nosso. Você pode beber até cair, tem lugar pra dormir.” 

 

P/1 - Só no último dia. 

 

R - No último dia, depois que terminar a festa do forró. Aí ele ia prestar contas, contar com o dono da radiola, a bebida... Fechava tudo, aí pronto.       

 

P/1 - Você se lembra da primeira que vocês fizeram, como foi?  

 

R - Não me lembro muito. Eu sei que em todas deu muita gente. A área lá era imensa, tinha muita mangueira, muito pé de fruta e eram cheias. Papai mandava pintar os pés de árvores, ficava muito lindo. Lâmpada pra todo lado. Era cheio de gente, não tinha isso de ficar dentro de casa. Era ao relento mesmo. Era muito legal. 

 

P/1 - Vocês conheciam gente nova na festa? 

 

R - Ave Maria, eu amava! Era o tempo de aparecer uns gatinhos diferentes. Tinha muita mulher. Tanto os homens quanto as mulheres se arrumavam; quem não se arrumava no tambor, se arrumava na festa. (risos)     

Eu me preparava, comprava roupa. A negada se arrumava mais nessa temporada, pra arrumar um gatinho. Quem tava casado, tava ferrado porque o marido estava todo o tempo do lado. (risos) Mas era muito legal, a gente tem muita saudade desses tempos, que não voltam mais.     

 

P/1 - E não dava cansaço? 

 

R - Aonde? Dava aquele cansaçozinho, era só não se entregar pra ele. A gente [se] banhava, tinha um poço lá embaixo. Era muito legal, meu Deus do céu. Uma viagem. (risos) 

 

P/1 - Como era o tambor? Quantas pessoas tem que ter, qual a função de cada um, dos homens e das mulheres? 

 

R - O tambor é composto de três instrumentos - quatro com a matraca. A matraca é um pauzinho que eles batem atrás do tambor. Quem inicia são os dois menores, esqueci o nome que eles chamam, e tem o grande. Cada um tem um som diferenciado. A função deles é… Mesmo antes de começar a festa, da voz sair pra cantar, o tambor tem que estar quente, senão fica um som feio. Tem que aquecer antes, todos os três. 

A função das mulheres é dançar, animar, dar uns gritinhos de vez em quando, que é pra animar a turma. Sem as mulheres, o tambor não tem graça. É um conjunto: se um não estiver, o outro não pode estar, porque não vai acontecer. Tem que estar todo mundo junto.    

 

P/1 - E como é a roupa de vocês, o cabelo, os brincos? Como você gosta de fazer, geralmente? 

 

R - A gente usa um turbante ou uma tiarazinha, com o cabelo caído ou pra cima, amarradinho. Teve uma outra roupa que a gente tinha, que eram uns turbantes, mas nem todas as meninas gostavam de ter o cabelo dentro do turbante; gostam de estar com ele solto, balançando.  “Edileuza, isso aqui tá feio, essa touca.” Era uma touca.” 

[Pensei:] “Agora eu vou fazer diferente. Vou fazer uma tiarazinha.” Bota só aqui na frente, amarra, faz um lacinho aqui, aí pronto. 

A saia tem que estar bem longa e rodada; cada saia é quatro metro de pano, fora o forro, porque tem que ter o forro por dentro. quanto mais larga, mais ela abre bonito. 

Os homens têm que estar respeitosamente, de calça, e com as camisas do uniforme, da farda. Tem que estar todo mundo fardadinho. E com o chapéu. Não pode estar de bermuda, tipo aquela. Naquela estava todo mundo de bermuda, assim não vai dar pra mostrar meu portfólio. Pode mostrar assim: “Isso foi uma brincadeira que a gente fez”, mas não pode ir pra [Secretaria de] Cultura de São Luís. Tem que estar todo mundo de calça e chapéu na cabeça.  

As mulheres, tem que estar todo mundo igual; não pode estar uma de uma cor, outra de outra. Tem que estar todo mundo padronizado. 

 

P/1 - O que geralmente vocês cantam? 

 

R - Geralmente, a gente canta em homenagem a São Benedito, tira rima, inventa ali, na hora. É assim. Mas tem que saudar o santo. 

 

P/1 - Você pode cantar pra mim como é essa saudação? 

 

R - Posso, não sei se vai sair legal. (risos) Pode cantar? 

 

P/1 - Pode. 

 

R - E agora, pra eu lembrar dessa música? 



Ô Benedito, eu sou seu escravo

Se eu morrer nos vossos pés

Eu sei que eu me salvo

Ô Benedito, eu sou seu escravo

Se eu morrer nos vossos pés

Eu sei que eu me salvo

Eu sei que eu me salvo

Eu sei que eu me salvo.

 

As pessoas que estão ao meu redor repetem. É o chamado coro. Eles também podem botar os versos.

Tem várias em homenagem a São Benedito.

 

P/1 - Tem mais uma que você possa cantar de São Benedito? Você lembra agora? 

 

R - Ai, não lembro mais. Esqueci. 

 

P/1 - Ou alguma outra, não precisa ser de São Benedito. 

 

R - A nossa abertura. 

 

Tambor do Canaã

Ê alegria do povo...

 

Tem essa e tem outra falando mais, que é assim:

 

Tu quer ver coreiro, tu vem ver de novo 

Tu quer ver coreiro, tu vem ver de novo 

Tambor do Canaã

É alegria do povo

Tambor do Canaã

É alegria do povo

 

Eu me chamo Edileuza, tu vem ver de novo

Vim aqui pra cantar

Na alegria do povo

Tu quer ver tambor bonito

 

Ah, eu errei. Ai, que vergonha! (risos) 

A gente pode inventar, mas que fique a rima baseada… Que dê certo, que não saia do ritmo. 

É uma energia que não dá nem pra explicar, tão ‘alevantadora’ que inspira a gente ali a fazer coisas que depois que olha a filmagem, a gente diz: “Não acredito que era eu que tava fazendo isso!” (risos) É uma energia muito boa, e quanto mais você canta, quanto mais você dança… Eu, pelo menos, quanto mais eu danço, mais vontade me dá. Parece uma inspiração que dá do chão, não dá pra explicar. É uma energia. Por isso que eu gosto de dançar descalça, sentir a terra; a frieza no meu pé. 

 

P/1 - Você acha que essa energia vem de onde?

 

R - Eu acho que é do santo. Eu acredito que seja dele.

 

P/1 - Vocês fizeram músicas novas então, quando vocês vieram pra cá.  

 

R - A gente teve que criar em nome do tambor. Cada grupo tem que ter uma identificação, a música dele. A gente já vai criando com o nome do tambor, a localidade onde ele mora, porque aqui tem o da Vila São José, tem um ali do Tapera, então todos têm um nome. 

Eu vou prum arraial, tem um tambor da Vila São José e tem o do Canaã. Eu tenho que identificar: o tambor do Canaã ou A Graça de São Benedito do Canaã, como eles falam lá. É assim. A gente pode falar isso também através da música. 

 

P/1 - Seu pai batucava, então. Ele não era cantador. 

 

R - Não. Era muito difícil ele tirar uma. Quando ele tirava uma, a gente até se surpreendia. (risos) Ele gostava era de bater.

 

P/1 - Eu achei engraçado quando você falou que quanto mais dança, mais você quer dançar. E quanto mais você canta, mais quer cantar. 

 

R - É. Dá vontade. 

A gente foi convidado pra ir em um no dia 31, lá no Gapara. A gente vai ter que ir, porque como a gente tem um grupo, outras pessoas do grupo chamam a gente pra participar da festa deles. Se eu não for, eu não posso fazer convite, achando que ele vai vir pra cá. Eu tenho que ir na dele pra ele vir na minha. É assim que é. A gente vai lá e convida pra eles virem dia oito. A nossa aqui vai ser dia oito, se Deus quiser. Pena que vocês não vão estar mais aí. Poxa!

 

P/1 - No tambor, que movimentos vocês fazer? Vocês giram?

 

R - A gente gira, vai na boca do tambor, como se a gente fosse… 

As coreiras dançando, depois que dá a punga de uma pra outra, está dando a chance praquela que está entrando dançar. A partir dali, ela vai sensualizar a dança pros que estão batendo. Ela vai dançar ali do jeito dela, mostrar o ‘caqueado’ dela ali, mexer o corpo, sensualizando tanto pra quem está assistindo quanto pra quem está batendo.    

 

P/1 - Por que tem essa barrigada?

 

R - A barrigada é um complemento. Eu estou dançando, aí chega outra; pra entrar, ela tem que passar por detrás de mim, na frente do tambor, e pode ficar ali fazendo os ‘caqueados’ dela, mexendo ali, que é pra me chamar pra eu ‘embigar’ com ela. ‘Embigando’, ela está dando a chance de eu sair pra ela poder ficar. Não pode ficar as duas dançando. 

 

P/1 - E como é que faz a entrada, pra começar?

 

R -  A gente faz a fileira. Quem vai puxar o cordão? Se as meninas não quiserem… A gente faz um ensaio com elas, pra quando chegar em uma apresentação não fazer feio. Elas entram, tem que ficar uma na frente e uma que dança bacaninha também lá atrás. Ela entra na fila e dá uma volta na frente do tambor, no terreiro todo; na segunda volta ela já fica ali, na frente do tambor. Ela para o pessoal ali, aí ela é que puxa, que vai iniciar a dança na frente do tambor. Depois vão entrando as outras pra ela poder sair. 

Quando vai finalizar, tem que ficar uma lá atrás, que é pra ficar dançando com o tambor. Na hora que eles cantam a despedida, todo mundo sai; a gente já sabe. Minha filha diz: “Mamãe, a senhora tem que parar com isso. Mesmo na filmagem, a senhora fica brigando com esse pessoal o tempo todo: ‘Sai!’” “Mas filha, quem tem que consertar sou eu. Não vou deixar eles fazerem feio.”

Eu faço o sinal pra elas saírem e a que fica lá atrás vai dançar com o tambor grande. Aí ele sai de onde ele está tocando e vai levando ela até onde ele puder, acompanhando as outras no salão, pra sair de dentro do arraial. Tem que ser uma que dança bacaninha. 

 

P/1 - Tem várias regras.

 

R - Tem. E tudo isso porque antes eu não tinha conhecimento, eu não participava. Não assistia reunião. Hoje nós temos reunião na Casa do Tambor, em São Luís. Era toda quinta-feira; agora, por conta dessa pandemia, deram uma parada. Eles explicavam um monte de coisas: o que representava isso, o que pode, o que não pode . Eu estava dizendo pra mamãe: “Isso é muito bom que a gente saiba, pra quando a gente for apresentar, não estar pagando mico.” E também sendo cortado, porque isso influi muito nas apresentações, quando a gente vai fazer. E se chegar uma pessoa querendo bater e não estiver com a camisa do grupo? Infelizmente, você vai barrar essa pessoa. “Meu amigo, você não pode.” Ou então, se eu estiver vestida,  eu vou tirar a minha camisa  e dar pra ele vestir, mas ele tem que estar de calça. É desrespeito, ele vai prejudicar todo o grupo. 

Tá vendo como é bom a gente escutar? 

 

P/1 - O tambor de crioula vem dos afrodescendentes, da época da escravidão?

 

R - É. Foi criado pelos negros, era uma diversão pra eles. Como eles eram muito sofridos, eles acabaram inventando essa dança pra se distrair. Foi o tambor de crioula, a capoeira, tudo era uma distração pra eles, pra esquecer as surras que eles levavam. A mulher começava a dançar, os homens também, se divertiam muito. Era um momento de eles se divertirem da forma deles. Nós, como somos descendentes da escravidão, dos negros… Eu amo o tambor de crioula. 

Tem muitas coisas que me prendem, já arrumei vários compromissos pra sair, mas se eu sair, morre. O tambor de crioula da minha casa, se eu sair, eu tenho certeza que para. Minha mãe está na condição que está, eu não tenho nenhum irmão nem ninguém que se manifeste e diga assim: “Eu vou te ajudar. Se você precisar sair, eu vou ficar no seu lugar.” Eu que tenho o contato desse povo todinho, eu que ligo, converso, visito; todo o tempo a gente tem que estar ali, na ativa com eles, conversando, porque se a gente se afasta, eles já se zangam. Aí quando você chama: “Eu não vou não, ela não liga pra gente.” 

Se você tem uma coisa pra fazer com o tambor, você tem que chamar todo mundo. Se não vier, beleza. mas pelo menos foi convidado. Se não convida, um já se ofende. É complicado. Aí eu fico presa, sabe? Se eu parar, acaba. Ele só está ativo porque eu botei o pé na parede. 

Eu já recebi tantas graças, graças a Deus. Eu já consegui muitas coisas que eu pedi, por isso, quando eu me lembro, eu digo: “Não vou parar não. Vou continuar porque com São Benedito não se brinca.”

 

P/1 - Você vê - ou tenta ver - filhos seus, netos seus continuando? 

 

R - Talvez não dançando, mas ela me ajuda muito a administrar, a fazer anotações, correr comigo pra [Secretaria de] Cultura, arrumando portfólio e documentação. É a minha filha, a Carol. Comigo e com mamãe, ela acompanha muito. Quando eu não podia ir às reuniões, ela ia com a mamãe ou ia só. Ela sabe se movimentar lá dentro. Mas agora ela está com uma bebezinha, com duas [filhas], aí fica meio complicado. Pra ela sair, eu tenho que ficar com a menina, quando não leva as duas. 

Minhas netinhas, meu Deus, arrasam. 

Minhas sobrinhas pequenininhas… Elas vão crescendo e vão ficando com vergonha. Dizem que na escola outro dia tinha uns meninos dizendo… A gente veio fazer uma apresentação aí, né? Aí disseram: “Não sei quem dança macumba.” Aí minha sobrinha ficou com vergonha. Eu disse: “Minha filha, diz pra ele que ele é um analfabeto, sabe por que? Macumba é uma cultura e isso não é macumba, é tambor de crioula. É parente da macumba, mas não é macumba. Diga pra ele procurar no…” Esqueci o que eu falei pra ela. 

 

P/1 - No Google.

 

R - É. Procure lá que você vai encontrar a resposta, não sabe nem o que tá falando. 

 

P/1 - E é uma coisa do Maranhão também. 

 

R - Pois é. Antigamente, a origem africana tinha muito mais preconceito. Hoje, ela já está mais moderna. Com relação a terreiros, estão todos registrados, como cultura. E fui a um seminário de votação pra delegado de cultura, tinha um monte de pai de santo lá. Eu disse: “Meu Deus do céu!” (risos) Eu estava meio à esquerda… “Humm, vão me chamar de macumbeira.” (risos) 

Eu não pesquisei direito, mas tudo é cultura. E a gente vive hoje num mudo tão moderno, estamos vivendo o século XXI, acabou esse negócio. 

 

P/1 - Edileuza, vamos voltar de novo lá atrás. Se você puder, me conte como foi encontrar o seu primeiro marido. Como você conheceu a figura? 

 

R - Esse meu primeiro marido foi um pânico muito grande. Foi o primeiro amor da minha vida. 

 

P/1 - Ah, é? E você tinha quantos anos? 

 

R - Eu tinha quatorze anos. 

 

P/1 - E o que é o amor da sua vida?                      

 

R - Foi uma loucura. Eu parei de estudar justamente por causa disso, parei minha vida. Eu me apaixonei, não queria deixar ele nem sequer pegar um vento lá fora. (risos)

 

P/1 - Você nunca tinha sentido isso. 

 

R - Nunca. E acho que nem ele, porque fui a primeira mulher dele também. 

 

P/1 - Ele tinha a sua idade também? 

R - Não, ele era quatro anos mais velho que eu. Quando meu filho nasceu, ele tinha 22 anos. Eu tinha dezoito. 

A gente se conheceu, eu fui apresentar ele pro meu pai. Eu namorava com outro, mas eu não gostava; namorava por namorar. Quando eu olhei pra esse… Primeiro, que eu gostava de reggae e ele dançava que era um sapatinho. Era um pé de valsa. As mulheres ficavam doidas quando viam ele dançando. 

 

P/1 - Você encontrou ele no reggae. 

 

R - Também. A gente se conheceu porque eu fui morar bem pertinho da casa dele. A gente ia pro reggae, nós dois. 

Meu pai, quando olhou ele, quando eu apresentei… Papai sempre dizendo que eu era solteira, porque eu sempre fui doida, enrolada. [Ele disse:] “Tu não é mais moça?” “Eu sou.” Eu já estava com raiva. “No dia que eu ficar [grávida] solteira, eu vou trazer ele aqui pra lhe mostrar. O senhor tá pensando que eu não sou? O senhor vai ver.” “Minha filha, uma moça não se comporta como você tá se comportando.” Falava um monte de coisas. 

Quando eu fiquei [grávida] solteira, eu levei ele lá em casa. “Papai, é esse aqui. Eu disse pro senhor que no dia que eu ficasse solteira, eu trazia o cabra aqui. É esse aqui, ó. Pode cortar ele aí.” Aí mamãe: “Ê, bora logo prender ele!” (risos)

“Vai casar, vai casar.” Eu disse: ‘Não quero casar não.” Ele também não queria. Esse negócio de casar, acho que quem faz é o casal. Papai se decepcionou, porque ele queria que eu casasse.      

Meu pai deu a casa, ele não quis, aí a gente foi morar na casa da mãe dele. A mãe dele morava sozinha com ele. Eu disse: “A gente passa uma temporada na sua casa e outra na casa dos meus pais.” 

Fomos lá pra Madureira. Quando chegou lá, ele brigou com o meu irmão, quebrou a cabeça do meu irmão. Aí meu pai botou ele pra correr de lá, queria matar ele com uma espingarda. (risos)  Eu grávida, buchudona, com sete meses, vim embora fugida; ninguém queria que eu morasse com ele. Mamãe disse: “Assim como ele quebrou a cabeça do teu irmão, ele pode fazer pior em ti.” E eu doidinha… Ele disse: “Edileuza, se tu quiser, a gente vai embora morar no Maracanã, no sítio da minha mãe.” Eu disse: “Então tá bom.” 

Mamãe e papai queriam que eu ficasse. Era o primeiro neto. Eu fugi de lá, com sete meses. Fui morar com ele no Maracanã, saímos de noite, com medo deles agarrarem a gente, porque eles já estavam andando atrás da gente, meus pais e meus irmãos. Iam me agarrar e dar uma sova nele, pra ele ir embora. A mãe dele ficou sabendo e botou a gente no sítio. 

De lá, ele ia pras festas, me deixava sozinha com o meu menino. Com três meses... Eu ganhei o menino, vim pra casa da mãe dele, aí meu pai e minha mãe não queriam mais nem me olhar, principalmente minha mãe; ficou com raiva porque eu fugi. Com três meses, eu fui visitar minha mãe. Dizem que perguntavam: “Isabel, tua filha já ganhou neném?” “Eu não tenho mais filha.”  

Eu fui lá. “Ela é minha mãe, se ela me expulsar, eu vou saber. Agarrei o menino, me arrumei e vim. Estava tendo um tambor na casa da mãe de criação da minha mãe, no bairro de Fátima. Fui direto pra lá. Quando eu cheguei lá, que eles agarraram o menino, não quiseram mais soltar, de jeito nenhum. “Tu vai comigo lá pra casa.” Eu disse: ”Eu vou.” Pronto, fui só buscar as minhas coisas. Acabou o amor. 

Marquei um dia pra buscar minhas roupas e deixei meu filho lá, aí eles criaram o menino. Depois disso, eu me encontrei com ele novamente, aí a gente começou a namorar de novo. Eu engravidei dele, perdi, aí a gente se separou de vez. 

 

P/1 - Qual é o nome dele? 

 

R - Adolfo. 

Nunca mais… Hoje ele é evangélico, já tem oito filhos. Ele diz que tem muita vergonha de mim, falou pro meu filho. Meu filho pegou o contato dele, eles conversaram. Ele tem muita vergonha de mim por não ter ajudado a criar o menino, ter dado atenção. Eu disse: “Não tem nada a ver. São coisas que acontecem.”

Conheci o pai da minha filha, namorei com ele. Tive minha filha, construí minha casa. Não deu certo, me separei. Tô aqui hoje. minha filha tá criada, graças a Deus. 

 

P/1 - Você tem dois filhos. 

 

R - Tenho um casal de filhos. O Rafael Moreira e a Carolina de Jesus. 

 

P/1 - Por que você escolheu esses dois nomes?   

 

R - O Rafael foi a avó dele por parte de pai que escolheu. A Carol, quem escolheu foi a avó por parte de pai também. Ela achou muito lindo esse nome. “Já sei o nome da minha neta. Vai ser Carol.” Carolina. 

 

P/1 - Você se lembra quando a empresa chegou pra fazer a mudança? 

 

R - De lá pra cá? Ela deu um prazo pra gente sair de lá, porque tinha muita gente que não queria sair. Como eles foram beneficiando, eles não podiam trazer todos de uma vez só. Foi feita uma escala, com os nomes dos primeiros moradores daqui. 

A minha família foi a primeira. Veio a Juliete, que é a minha irmã; parece que ela veio no dia cinco de fevereiro. Foi março... Foi no começo do ano. Eu sei que ela veio [no dia] cinco, mamãe veio [no dia] seis e eu vim [no dia] sete.   

Quando a gente chegou aqui, a gente achou tão estranho. “Meu Deus, onde é que eu tô? Isso aqui é muito silencioso.” Eles andavam dizendo que isso aqui era lugar de desova, que eles matavam muita gente… Aqui era só mato, só tinha o conjuntinho no meio do mato. A gente tinha medo até de sair na porta. 

O pessoal das outras comunidades achava que a gente tinha vindo de lá rico. (risos)

Era _____ que se oferecia pra fazer serviço, não sei mais o quê… Achando que a gente estava cheio do dinheiro.

A gente foi se adaptando, mas até hoje eles nunca deixaram de dar assistência pra gente. [Eles] se afastaram, porque tem muita gente que fica escorada, esperando cair do céu. Deram muita oportunidade pra gente, até hoje, pra gente andar com as próprias pernas, todo mundo procurar viver sua vida. 

No polo, quando a gente se mudou, eles fizeram assim: pagaram três meses de bolsa até as pessoas se adaptarem a fazer seus canteiros, providenciar e vender… Fizeram contato com várias parcerias, pra ver se a gente vendia pra outros lugares, [pra não] plantar e não ter pra quem vendesse. Eles abriram muitas portas, mas nem todos souberam aproveitar. É como aqui no Canaã, deram muita oportunidade pra todos os moradores daqui, só que nem todos aproveitam. Depois saem falando: “A empresa fez isso.” 

Eu não estou puxando o saco da empresa, porque se ela não estivesse fazendo pra mim, eu falaria, mas até hoje, toda a minha mudança pra melhor que eu tive na minha vida foi através da empresa. Ela me ajudou muito. Ajudou minha família. Nunca na minha vida eu imaginei, meu sonho era trabalhar numa escola. Já tive tantos sonhos realizados… Meu sonho era trabalhar num restaurante, meu sonho era trabalhar num shopping, tudo isso eu já conquistei. Fazer cursos, já fiz vários cursos que nunca me passaram pela cabeça fazer. 

 

P/1 - Quais? 

 

R - Já fiz curso de almoxarifado, de primeiros socorros, de cozinha do Brasil, de reaproveitamento de alimentos, manipulação de alimentos. Eu me sinto qualificada pro mercado de trabalho. Como eu digo pra mamãe, no momento que eu me desempregar, eu nem me preocupo. Hoje eu estou contratada pela prefeitura, trabalho com a minha horta, trabalho no Valparaíso e ainda faço meus bicos. 

Deus dá cru, quem quiser que cozinhe, mas as pessoas ficam esperando que botem ali prontinho, só pra engolir. Não pode não. 

Uma porção de gente que está fora dessa comunidade diz assim: “Menina, essa empresa dá apoio até hoje pra vocês, né?” Eu digo mesmo, tudo que eu sou hoje eu devo a ela. A Deus em primeiro lugar e a ela, porque se não fosse ela eu não teria essa chance. Eu não me vejo tendo essa oportunidade sem ela, que eu estou tendo até hoje. 

Eu tenho muito conhecimento, eu me desenrolo em qualquer lugar que eu chego. E muitas pessoas que eu conheço foi através dela, da empresa. Não tenho o que dizer. Tem muita gente que fala bobagem dela, mas perto de mim não fala. “Epa! Se você não está bem hoje, é culpa de você mesmo.” Eu falo mesmo. 

Eu melhorei muito. Quem eu era? Nunca me vi trabalhando com horta; hoje minha mão é só calo. (risos) Mas tenho o prazer de trabalhar com uma coisa que eu gosto. Eu aprendi a gostar, não tinha conhecimento.  

 

P/1 - Você teve curso no polo? 

 

R -  Tive.       

 

P/1 - Como foi quando você chegou lá?

 

R - O primeiro impacto que eu tive quando eu fui pro polo… Eu disse: “Meu Deus, isso não vai dar pra mim.” Eu nunca pensei em trabalhar com polo, com corte de árvore, um monte de coisa que a gente faz lá. Você não foi lá, mas o moço foi. Ele olhou lá a minha área. Eu tenho açude… Não tenho casa, porque deixei a minha mãe na minha casa aqui e fui pra lá. Hoje a minha casinha é de barro, de taipa, mas eu sou tão feliz lá que não tenho vontade de sair. Eu me sinto melhor lá do que aqui, na comunidade.

Você acorda ouvindo siricoara dizendo “siricoara, siricoara”... (risos) Tem um monte de pássaro lá, de bichinho que amanhece cantando. É muito bom estar num lugar assim. Eu me sinto muito bem lá. 

Lá está começando a chegar gente. O pessoal abandonou, largou. Assim que a gente foi pra lá, a empresa deu três meses de bolsa. Eu era uma das fiscais. A gente ia lá, assinava o ponto, trabalhava todo mundo junto e o que produzia a gente vendia. Apanhava as hortaliças e mandava pra venda. Mas muita gente ia lá só pra assinar o ponto e vinha embora. Tinha gente que ficava enrolando por lá, a gente nem via sair. 

Teve gente da comunidade que foi lá e disse: "Quando acabar a bolsa, eu não venho mais aqui.” Não foram mais. Agora, como a empresa disse que ia dar o documento, está aparecendo gente que faz mais de dez anos que não aparecia lá, você acredita? Eu fiquei chateada. Eu disse: “Na hora que povoar aqui -  porque eles já estão fazendo meio que uma invasão lá - eu vou vender e vou sair pra outro lugar, mais lá pra dentro.” Eu gosto de lugar como lá, mas está muito cheio. 

Eles estão com interesse de se desfazer do que têm, de receber o documento [de posse]. Eu digo: “Tomara que eles não entreguem esse documento agora, entreguem só pros que estão realmente aqui.” Reconheçam quem está realmente dentro do polo e dê somente pros que estão, porque tinham sido dados 360 metros pra quem não tinha área na Madureira e essas áreas não eram pra fazer casa nem pra vender. Era pra pessoa não ficar sem renda, porque de lá que ele ia tirar pra se manter. Agora a pessoa está vendendo pra outros, fazendo casa. Se for morar lá. tudo bem, fica melhor pra cultivar suas plantas, mas morando aqui e fazendo casa lá pra vender? Eu não concordo com isso. O estatuto não diz isso. 

 

P/1 - E você planta o que no seu terreno? 

 

R - Eu tenho pé de manga, de caju, limãozinho, abacate, tangerina. Eu tenho limão tanja, limão normal, acerola, só que a acerola pegou fogo. Um menino tocou fogo lá, roçaram lá atrás… Eles não têm direito de fazer isso ali. Dizem que ele mandou chamar uma menina daqui, que faz mais de dez anos que não coloca os pés lá; como ela soube que eles iam ‘coisar’ o documento, ela mandou roçar uma área imensa e tocou fogo. Pegou fogo nuns três pés de coqueiro meus, pegou na acerola e caíram as folhas. 

Eu queria era que pegasse na minha casa, explodisse meu bujão, queimasse meu freezer… Eu ia chamar a polícia, pra ela me indenizar. Se você vai fazer uma queimada, você tem a obrigação de chamar a pessoa mais próxima e dizer. E é até proibido, tá dando na televisão; queimada agora pode dar até cadeia. 

Ivaldo disse que ia chamar ela pra conversar. 

Dizem que os pequenos que entraram no mato pra apagar o fogo, porque eu não estava lá. Se minha casa fosse de palha, tinha pegado também. Eu queria que explodisse o bujão, mas ela ia me pagar. Só assim eu ia construir minha casa de tijolo. (risos)

 

P/1 -  Vocês tiveram aqueles cursos com o Altamiro? Era pra passar de [agricultura] convencional pra orgânico?

 

R- A gente teve. A gente é praticamente 100% orgânico, não trabalha com veneno. O seu Altamiro ensinou muita coisa boa pra gente. Uma vez ele levou a gente pro sítio dele. Deram um curso pra gente, tanto no polo como na UFMA, a respeito de como podar, se eu quiser botar uma manga rosa numa manga comum, ele ensinou várias coisas assim.  Isca pra praga… Inclusive, a gente tem o selo de orgânico, a gente não pode trabalhar com veneno. E se eu vir meu vizinho trabalhando com veneno, eu posso denunciar ele, porque ele não só está se prejudicando, como me prejudicando também. Eles não fazem perto de mim, porque eu falo mesmo. 

Todo mês a menina da prefeitura… Eu tenho umas fichas preenchidas por mim,cada mês é um que preenche, do ‘coiso’ da agricultura, que a gente participa dos orgânicos. Pra botar veneno, eles vão prejudicar toda a área. 

 

P/1 - Você sente diferença do produto convencional pras suas frutas orgânicas? Você sente no sabor, no aspecto? 

 

R - Na hora que você pega um produto que não é orgânico, você vê a diferença. Ele estraga com mais facilidade. A alface, a gente vê lá no João Paulo aquelas de talo grossão; já fica estragado no talo delas. A nossa passa até três dias sem você… Lá em casa mesmo, às vezes eu deixo lá. As folhas da frente ficam murchas, porque saiu da terra e perde a substância dela, mas você pode consumir. 

Os pés de tomate estão carregadinhos. O sabor é totalmente diferente. O tomate é azedo, mesmo quando ele está maduro no supermercado; esse não. Eu dei pra minha neta comer; lavei e ela, de três meses, chupando o tomate. A banana é uma delícia, você tira do cacho lá. A diferença é imensa. 

 

P/1 - E é melhor pra quem planta também, você acha? 

 

R - É, porque o veneno prejudica não só a saúde de quem vai comer, prejudica a saúde de quem trabalha com ele. Se eu usar um veneno inadequado [e] não me empacotar todinha, sentindo o cheiro dele, ele já vai me prejudicar. E a pessoa morre mais rápido. Antes de eu botar pro outro comer, eu já morri. (risos)

Eu não trabalho com veneno. Outro dia, deu uma tal de mosca branca na minha vinagreira, ficou branquinha. Eu falei com o Leandro, que trabalha com o Altamiro, e ele mandou botar detergente. A gente pode fazer a isca também, com açúcar, com uma série de coisas que eles ensinam.  Elas vão embora, não tem paquinha lá no meu… De vez em quando, o Leandro me ajuda a fazer. 

 

P/1 - Vocês pediram pra ter uma igreja de São Benedito, um espaço pro tambor de crioula, como é que foi? 

 

R - A gente não chegou a pedir. Do jeito que eles olharam lá, eles trouxeram pra cá. Lá era capela, eles trouxeram a capela, só que a gente transformou ela em sede, porque dentro do Canaã não tem católico. Só conheço duas pessoas: o seu Paraíba, que é católico mesmo, visita a igreja, vai à missa, e seu Nascimento, que eu nunca vi numa missa aqui, mas ele diz que é. Seu Paraíba lutou muito pra desenvolver a igreja; pegava o carro dele, ia lá no Paço do Lumiar pra trazer o padre, trazer gente lá da Pindoba - lá tem uma igreja também, a Santa Luzia - pra fazer o coral quando o padre vinha e pra assistir. Não vinha ninguém da comunidade, a não ser a gente. Às vezes, a gente ficava com vergonha do pessoal. Aí ele cansou.   

Aqui ficou abandonado e o tambor estava parado, porque não tinha espaço pro tambor. Tendo igreja, não pode ser a sede do tambor; ou é a sede do tambor ou é a igreja, aí a gente colocava os instrumentos lá atrás.  

O que aconteceu? Teve uma invasão nesse loteamento aí. Como a igreja estava fechada, invadiram a igreja. Era um monte de casinhas, foi a maior luta pra tirar. A associação, junto com a polícia, que tirou, aí a associação me ajudou a registrar a sede do tambor, até pra ficar movimentando, já que não tem católico na comunidade. 

Sábado agora, a gente vai fazer um ensaio. A minha filha ensina particular durante a semana. Não está ensinando por conta da pandemia, porque ela está com uma bebezinha, mas funciona como uma escola particular. Ela tinha dezoito alunos. Ensinavam aqui mãe de aluno, de funcionário; vinham aqui pra escolinha comunitária, ela ensinava do infantil até o quinto ano. Eles tiravam daqui, a mãe vinha trazer o filho de manhã pra estudar, de tarde estava aqui na escolinha. Já saía com a mãe. Assim é que estava funcionando. 

Ficou como sede do tambor, está registrado como Associação de Tambor de Crioula da Nova Canaã. A igreja praticamente não existe mais, porque o padre de lá da paróquia falou pra mim que estava desativada. Ele veio várias vezes aqui, não tinha comunidade pra participar. A gente foi obrigado a fazer isso pra não perder o prédio, porque estavam invadindo e também pra não ser demolido antes do tempo, porque a tendência é piorar. 

Eu até cadastrei agora nessa lei Aldir Blanc, pra ver se entra uma verba pra fazer um banheiro, aumentar aquele espaço lá de trás, porque quando chega a época da festa a gente ocupa aqui, ou então ali. Banheiro, nós não temos. Eu estava dizendo pra mamãe: “Tomara que chegue essa lei”, porque teve uns municípios que não foram beneficiados. Não chegou o cadastro. Se receber, eu pretendo fazer isso com o dinheiro. 

São três mil reais que o governo paga pro tambor [em] uma apresentação da gente em São Luís. Ajuda bastante, mas eu tenho que dividir. Às vezes, eu calculo pra dar cinquenta reais pra um; quando não dá, eu vou baixando: quarenta, 35, trinta reais, aí dá pra todo mundo. Às vezes, tem 48 componentes; eu tenho que agradar todo mundo, porque eles sabem que eu ganho. Eu não vou ficar com esse dinheiro pra mim, Deus me livre.  Eu não tenho mais nenhum componente se eu fizer isso. 

 

P/1 - Você foi cursar o EJA [Educação de Jovens e Adultos] quando veio pra cá?

 

R - Cursei. 

 

P/1 - Você disse que não queria ficar parada…

 

R - Não. Com esse empurrão aí... Graças a Deus. Eu fiz o EJA aqui mesmo, pra poder levar pro ensino médio, do Estado, lá no Mocajituba. Como é o nome? Deu um branco…

 

P/1 - Não tem problema. Você acha que conseguiria fazer um EJA se não fosse aqui?

 

R -  Eu acho que não, porque estava muito corrido pra mim.  Aqui eu trabalhava à tarde e vinha direto pra cá. Se fosse em outro lugar, meu percurso seria outro. Eu não tinha condição de fazer isso. Vindo pro colégio, eu já estava em casa. 

 

P/1 - A sua mãe fez EJA também?

 

R - Fez. Ela não sabia nem assinar o nome dela. Ela começou a ir, serviam merenda, aquela coisa… Hoje ela já assina o nome dela. Ela não concluiu porque deu uma parada mesmo. Acabou o EJA. O que seu Zacarias falou é que, se ele conseguisse, ele iria trazer também o ensino médio pra cá. Aqui nós não temos. Lá embaixo, onde eu fiz, quem não aproveitou… Agora vai ficar mais difícil, porque só tem mesmo durante o dia e não tem mais ensino à noite. 

 

P/1 - E como é esse negócio da quadra? Vocês a conquistaram há pouco tempo. 

 

R - Eu não tenho muito envolvimento com ela. Eu olho só de longe. (risos)

 

P/1 - Mas seus filhos, seus netos jogam?

 

P/1 - Vixe, estão quase ‘de muda’ nela. Minha filha tem as duas filhinhas dela, se arrumam pra vir assistir jogo, porque o marido dela joga. Meus sobrinhos… Agora mesmo, mamãe comprou dois meiões pros pequenos. Comprou uma soçaite pra um e dois meiões pra outro, porque  só vivem jogando aí.

Essa quadra foi boa, porque pelo menos trouxe o esporte pra comunidade. Os meninos estavam muito ansiosos, pra jogar eles teriam que ir pra outros lugares. tem o campo de São Pedro, a quadra da São José pra ali, era mais arriscado. Aqui não, está perto de casa.   

 

P/1 - Eles formam times? 

 

R - Não sei como, mas eles formam. (risos)

 

P/1 -  Fazem campeonato?

 

R - Fazem. Até esses polícias vêm jogar aí. “Hoje é o jogo da polícia”, aí vem um monte de gente olhar. Dizem que é um mais lindo que o outro. (risos)

 

P/1 - Edileuza, qual é o seu sonho hoje?

 

R - Nem pensei no meu sonho… Meu sonho é conseguir fazer a minha casa. Eu estou com uma vontade imensa de fazer a minha casa lá no polo; ao menos um quartinho de tijolo. Eu saio, mas eu fico cabreira porque eu tenho a minha bomba, minhas coisinhas lá. Fico meio desconfiada. Fico naquela preocupação: fazer minha casinha lá e arrumar a minha casa aqui. 

E também a minha mãe melhorar a saúde dela, voltar ao normal. Minha mãe era muito danada pra se virar. Com esse problema de saúde, ela deu uma parada. 

 

P/1 - O que você espera, o que vê pro futuro do polo e da Vila Canaã? 

 

R - Na realidade, o futuro do polo… Eu digo muito em reunião: se a gente não se unir pra seguir um só caminho, nada vai pra frente. Vamos sentar, vamos organizar, vamos providenciar, andar pra cá. Quem concorda? Se vamos fazer um projeto, todos temos que participar do projeto. Não é um pra ali, outro pra ali… Não caminha. O que eu espero é que melhore cada dia mais, porque já melhorou muita coisa. 

Eu esperava também que parasse com aquele monte de gente ali. Você ainda não foi lá não, né? Você já viu aquela invasão lá na frente? Aquilo está muito feio, está horrível; acabou com a frente do polo. Era mato, mas mil vezes sendo mato, polo que tenha mato, tenha uma macaxeira plantada do que ter um corredor de casebres de taipa. Gente! 

Eu disse, não concordo com isso. “Mas são pessoas que moram aqui, donos de terreno.” Bota esse pessoal ali pra trás, esconde, porque eu duvido que eles quisessem estar aqui. Eles querem estar na frente [do polo]. Passar dez anos afastada de um lugar, pra quando eu chegar eu achar um lugar privilegiado, bem na frente, quem não quer? Até eu. Se eu soubesse que vocês fossem dar um terreno ali na frente, eu tinha me afastado e agora viria atrás do meu terreno, pra vocês me darem bem ali na frente. 

Eu poderia montar um negócio ali na frente. Fazia uma casa, como eles estão fazendo, montava um negócio, uma lanchonete, uma loja, alguma coisa. O ônibus na porta! Rapaz, eu estou aqui há mais de onze anos, estou lá atrás, e vem queimar as minhas plantas aqui na frente? Eu não concordo, achei horrível aquilo.

 

P/1 - E como você vê a relação da Eneva com o polo e com a vila hoje?

 

R - Eu não tenho nada a dizer contra porque tudo que a empresa fez foi pro nosso benefício. Tudo que ela fez até hoje -  pelo meu conhecimento, é uma opinião minha. Acho que ela fez até… Eu nunca tinha visto uma empresa fazer o que essa empresa fez com a gente, até hoje.  

 

P/1 - E como foi contar um pouco da sua vida hoje pra mim? 

 

R - Ah, foi meio enrolado. Eu acho que eu enrolei foi muito. (risos) Tem coisa que a gente não lembra, mas tem coisa que a gente vai  lá… Eu fui ao interior agora. 

Mas é bom lembrar sim, sabe? Foi bom lembrar algumas coisas da minha infância, fazia muito tempo que eu não lembrava. 

 

P/1 - Até das coisas ruins, talvez.   

 

R - Dos momentos ruins, da minha fome. Por isso que hoje em dia eu aprendi a preservar, a dar valor até a um pouquinho de arroz. Eu digo: “Não estraga, pelo amor de Deus. Dá pra fazer um bolinho.” Eu vivo brigando com eles. “Gente, vocês nunca passaram fome na vida de vocês.” Quem nunca passou fome estraga, mas quem passou… Tudo dá pra aproveitar.  Eu digo: “Ah, vocês estão por fora.”

Eu passei por calamidade - eu, minha mãe e meus irmãos. Passamos muito sofrimento por causa de fome. Depois foi melhorando, melhorando, e hoje eu não passo mais não. Eu estou velha, não quero ter riqueza, nada de luxo; eu não quero passar fome. 

 

P/1 - Você é feliz hoje, Edileuza?

 

R - Pro que eu era, eu sou. Mas tem muita coisa ainda que eu não estou satisfeita. Tem muita coisa que tem que melhorar. Eu quero muita coisa ainda, vou pedir pra Deus me ajudar. Deus vai me ajudar e eu vou conseguir, porque de mais longe eu já vim. 

 

P/1 - Obrigado, Edileuza, pela conversa, pelo seu tempo. 

 

R - Eu que agradeço! De nada.   


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