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História

Uma figura chamada Mengálvio

Sinopse

Depoimento de Mengálvio Figueiró ao Museu do Santos F. C. em 1999. Mengálvio fala sobre os primeiros toques de bola com os irmãos em Laguna, Santa Catarina, como os quatro se tornaram jogadores profissionais e o começo da carreira no Barriga Verde. A mudança para Porto Alegre jogando pelo Aimoré, com o qual conquistou o vice-campeonato gaúcho, a convocação para participar do Pan-americano pela Seleção Gaúcha e em 1960 a contratação pelo Santos. Conta sobre a conquista do bicampeonato mundial pelo Santos em cima do Milan numa final de três partidas. De como não era muito de fazer gols, pela posição em que jogava, como volante, mas guarda na memória um gol no Morumbi da entrada da área contra o Corinthians. A convocação para a Seleção Brasileira e a Copa do Mundo de 1962 no Chile, a preparação da Seleção antes da copa, com jogadores que não eram do estado no qual os amistosos eram realizados jogando para sentir pressão da torcida.

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História completa

P/1 – Boa tarde, seu Mengálvio. Queria começar a entrevista pedindo que o senhor falasse o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Mengálvio Figueiró, nasci em Laguna, Santa Catarina, no dia dezessete de dezembro de 1938.

 

P/1 – E o senhor podia falar o nome de seus pais?

 

R – Meu pai se chamava Antonio Libano Figueiró e Maria Florisbela Figueiró.

 

P/1 – E o que eles faziam?

 

R – Meu pai era funcionário público municipal e, ao mesmo tempo, ele era regente, maestro. E minha mãe era doméstica.

 

P/1 – E o senhor tinha quantos irmãos?

 

R – No total eram onze irmãos: sete mulheres e quatro homens. Eu, como homem, era o mais novo.

 

P/1 – O senhor era o caçula?

 

R – Eu era o caçula da parte de homens. E o interessante é que todos os quatro, ao invés de partir para o lado da música, por causa do meu pai, foram partir para o futebol, porque todos eles foram jogadores profissionais.

 

P/1 – E em que time que os outros seus irmãos jogavam?

 

R – Eu tinha o irmão mais velho, Beneval Figueiró, que jogou na... Naquela época tinha um time de Curitiba que se chamava Bretanha. E ele ali já começou a fazer o primeiro contrato profissional. Depois ele participou da Seleção Catarinense e, logo em seguida, foi jogador do Avaí, de Florianópolis. Depois tinha o Luís Figueiró. Ele foi jogador do Grêmio Porto-alegrense na época de ouro do Grêmio, onde tinha Sérgio, tinha Aírton, Ênio Rodrigues, Milton, Joares. E o Grêmio conseguiu vários títulos no Rio Grande do Sul nessa época. Bom, esse meu irmão se chamava Luís Figueiró. E o outro era Antonio Figueiró, que também foi jogador profissional. Não teve muita sorte porque logo no início da carreira dele ele teve problema de joelho. E depois: Mengálvio, que vocês todos já sabem quem é a figura, não é?

 

P/1 – E o senhor começou a jogar bola desde moleque?

 

R – Desde moleque, aonde tinha um campinho a gente já pegava a bola e ia fazer um racha legal. Tanto é que o motivo que a gente apanhava quase todo o dia é que a gente ficava de manhã até a noite jogando bola. E quando a chegava em casa a gente era cumprimentado pela minha mãe. Tinha uma mão pesada.

 

P/1 - E eram os quatro irmãos sempre jogando?

 

R – Os quatro sempre jogando. E parece mentira, com essa trajetória minha, que eu tive mais projeção no futebol, eu ingressei na Seleção Brasileira, no Santos Futebol Clube e tudo, mas para mim o melhor da família mesmo, como jogador, era o mais velho: Beneval, Beneval Figueiró, na minha opinião.

 

P/1 – E ele jogava de quê?

 

R – Beque central. Depois tinha o Luís Figueiró, do Grêmio, o Antônio e eu. Eu era o último. E justamente eu é que tive mais sorte na carreira.

 

P/2 – A diferença de idade entre vocês era muito grande?

 

R – Era questão de dois, um ano.

 

P/2 – E vocês chegaram a jogar no mesmo time?

 

R – Chegamos a jogar no mesmo time no começo. Os quatro.

 

P/3 – Seu Mengálvio, como é que foi a infância do senhor lá em Laguna, como é que era a Laguna na época da sua infância?

 

R – Laguna era uma cidade pacata, uma cidade pequena. E no começo até que não era mal, porque Laguna é uma zona litorânea. Tem um porto lá. E o porto é sempre o coração da cidade, devido aos navios que atracavam. A cidade até que era um pouco movimentada. Mas infelizmente foi tendo uns problemas na entrada da barra, que estava dificultando os navios de entrarem na cidade, no porto. E com isso a cidade piorou muito. E foi por causa disso que muita gente, muitos lagunenses que tiveram que sair da cidade para procurar sobreviver mais ou menos. Porque a cidade em si não oferecia campo de trabalho. Então por isso que a gente teve que sair.

 

P/3 – Quando o senhor estava lá o senhor jogou no time da cidade?

 

R – Da cidade. A gente estava iniciando no futebol e tinha um clube, que era o Barriga Verde. Era dirigido por uma pessoa muito inteligente, muito capacitada, que era o nosso treinador, se chamava Nilton Baião. E ele que deu início assim, orientou o time e ensinou a gente o que era o futebol. Então foi através do futebol que a gente procurou melhorar o padrão de vida da família. E foi o que aconteceu. Meu irmão teve que sair da cidade logo em seguida para servir o exército. E nessa época a gente perdeu o nosso pai muito cedo. Eu tinha mais ou menos a idade de oito anos quando eu perdi meu pai. E o meu irmão mais velho tinha mais ou menos uns quinze anos. Então ele teve que assumir a casa. Tanto é que ele ficou no lugar do meu pai, trabalhando. Ele teve que largar o estudo para manter a família. E graças a Deus, apesar das dificuldades que a gente teve na infância, correu tudo bem. E isso ajudou a gente a valorizar realmente o que é a vida, o que é o dinheiro que você ganha, para não ficar jogando fora, devido às dificuldades que a gente já teve na infância. Então nesse ínterim, quando o meu pai faleceu, a gente passou certo aperto. Mas a gente partiu... Eu engraxava sapato, fazia carreto. A gente se virava. E graças a Deus cresceu todo mundo e está todo mundo aí.

 

P/3 – Então o senhor continuava jogando bola, fazendo pequenos trabalhos e jogando no time do Barriga Verde?

 

R - Isso aí é na idade jovem, que eu tinha oito anos, nove, dez. Quando eu passei a ter uns treze, quatorze anos eu comecei a praticar futebol, porque eu comecei muito cedo no Barriga Verde. Então comecei a praticar futebol junto dos meus irmãos e logo em seguida a gente seguiu carreira. Eu não queria ficar ali, porque o campo era muito pequeno, era restrito. Então veio aquela idéia minha de que eu tinha que partir para um centro maior. E era Rio de Janeiro, São Paulo era difícil ou então Porto Alegre. E foi o que aconteceu. O meu raciocínio, o meu cálculo deu certo. Cheguei em Porto Alegre e deu tudo certo.

 

P/3 – E foi embora assim: “Olha, eu vou embora para Porto Alegre”?

 

R – Não, é que eu tinha que servir o exército, eu estava com a idade de completar dezoito anos. Então eu tinha que sair dali. O normal era ir para Florianópolis, servir em Florianópolis, mas, eu achava que não era o ideal para mim. O ideal era ir para o centro maior: ou Rio de Janeiro ou Porto Alegre, e eu fui para Porto Alegre. E foi o que aconteceu. Em Porto Alegre já tinha o meu irmão, que já era profissional do Grêmio, todo mundo conhecia, já sabia quem era. Chegava e perguntava quem era Figueiró e todo mundo já sabia, devido ao nome que ele fez lá e eu aproveitei e fui. No primeiro ano, propriamente seis meses eu fiquei no exército, mas eu jogava na equipe do quartel. Inclusive, eu consegui certas regalias devido ao futebol, participando de campeonatos internos no exército. Foi quando um tenente me viu jogar e me indicou para jogar no treinar no Aimoré de São Leolpoldo. Esse tenente me levou no coletivo e eu treinei duas vezes e foi quando o treinador mandou me contratar.

 

P/3 – E já sempre jogando no meio de campo?

 

R – Meio de campo, era a função que realmente era o ideal para mim, porque eu era um jogador mais ou menos alto e não tinha mobilidade e rapidez que requer um beque central, na defesa, apesar de que no futebol gaúcho quanto mais o cara era alto, melhor porque os treinadores optavam por jogadores altos. Mas se você pegar um atacante rápido, até você se virar, tchau e benção. Então, o ideal para mim era jogar no meio de campo, porque se o cara passar por mim, ainda tem gente lá atrás. Então a minha característica tinha que ser aquela ali: meio de campo e sempre foi isso aí.

 

P/3 – E teve um bom Campeonato Gaúcho lá pelo Aimoré?

 

R – Ah, tive, pô, o Aimoré era um time pequeno, de poucos recursos financeiros, e às vezes a gente nem recebia o ordenado integral, a gente recebia na base de vale, devido à dificuldade que o Aimoré tinha. Então, quem me dava mais cobertura era o meu irmão mais velho, que estava bem. Então quando eu precisava, ele... E com toda essa dificuldade a gente conseguiu um campeonato extraordinário. Foi quando a gente foi vice-campeão gaúcho. O nosso treinador era Carlos Froner. Era um sargento do exército, muito rígido e ele não queria nem saber se a gente estava recebendo ou não. Ele queria era o resultado satisfatório dentro do campo. Então eu fiz uma promessa que era o seguinte, eram seis meses de sacrifício, porque não receber e ainda pegar um treinador que ficava na tua cola exigindo isso e aquilo, não é brincadeira. Então eu falei assim comigo: “eu vou disputar esse campeonato, se a gente não obtiver resultado satisfatório eu ia parar de jogar”. Pô, a gente não recebia direito, um treinador rígido, em cima de você, não dava para aguentar. Então eu cheguei à conclusão seguinte: vou jogar até o final do campeonato, se o negócio não render, eu vou parar de jogar. E, graças a Deus, deu tudo certo, a gente foi vice-campeão gaúcho, fui convocado para a Seleção gaúcha e logo em seguida o Santos apareceu na minha vida e me trouxe para cá.

 

P/3 – Antes de você contar propriamente da sua chegada ao Santos, você poderia contar para a gente um pouco como é que foi essa convocação para a Seleção Gaúcha? Vocês disputaram um Pan-americano?

 

R – Foi que nem eu estou falando: eu fui contratado pelo Aimoré, a gente fez uma campanha extraordinária, time pequeno e tudo e chegar numa final para disputar com o Grêmio Porto-alegrense, porque eram duas equipes naquela época no Rio Grande do Sul: era Grêmio e Internacional. Quando o Grêmio era campeão, o Internacional era vice. Então era essa lenga-lenga. E o Aimoré chegar a disputar o título com o Grêmio Porto-alegrense foi um negócio que chamou a atenção e foi quando a gente teve esse destaque de participar do time do Aimoré. Foi quando fizeram lá a Seleção do Campeonato e a maioria da Seleção foi uns quatro ou cinco jogadores do Aimoré e eu estava nessa aí, devido a esse resultado extraordinário que a gente conseguiu. E era para ser campeão. Mas, sabe como é... Jogar contra o Grêmio, na capital, a gente ganhando de um a zero, faltando um minuto para acabar o jogo, um escanteio contra o Aimoré, tinha um beque central do Grêmio que pesava dois metros de altura, no escanteio ele me joga bola, goleiro, tudo para dentro do gol. O juiz, ao invés de anular, deu gol. Quer dizer: empatou e com o empate o Grêmio era campeão. Se não fosse isso aí o Aimoré era campeão gaúcho. Aí já viu.

 

P/3 – Por um minuto?

 

R – Por um minuto. Mas, graças a Deus, foi uma partida extraordinária, que até hoje eu me lembro e o time teve uma participação muito boa e eu até agradeço a dura, a rigidez que o Carlos Froner, o treinador, aplicava em nós, que mesmo a gente sem receber ele batia firme na gente para não esmorecer. E com isso a gente chegou a ser vice-campeão gaúcho. Você vê como que é a vida?

 

P/3 – E aí então vai para a Seleção Gaúcha?

 

R – Convocada a Seleção Gaúcha, e eu fui convocado entre os 22 e fomos jogar o Campeonato Pan-americano na Costa Rica. E chegamos à final lá e fomos disputar com a Seleção Argentina. A gente precisava de uma vitória, mas empatamos. Então o título ficou com a Seleção Argentina e a gente ficou com o vice-campeonato Pan-americano na Costa Rica. O meu irmão, o Figueiró, ele também disputou esse Campeonato Pan-americano um ou dois anos atrás, mas foi no México. E o meu irmão conseguiu o título lá no México, mas eu não consegui, eu consegui só o vice-campeonato Pan-americano.

 

P/3 – Quem fazia parte dessa Seleção de jogadores mais conhecidos?

 

R – Conhecidos, só foram dois ou três que vieram aqui para São Paulo. É o Suli, que jogou de goleiro no São Paulo Futebol Clube e no Santos veio o Calvet, quarto zagueiro e tinha um goleiro (Hirno?). Então foi o (Hirno?), o Calvet e eu que viemos para o futebol paulista.

 

P/3 – E como é que o Santos descobre o senhor?

 

R – O Santos tinha uma política que eles procuravam saber nos estados quais os melhores jogadores. Então eles consultavam, através de opinião de cronistas esportivos, jornalistas. E naquela época, vocês já devem ter escutado falar de um nosso grande cronista esportivo: Pedro Luís. O Pedro Luís foi fazer essa cobertura do futebol Pan-americano lá na Costa Rica e ele me viu jogar. Então o interesse que houve do Palmeiras, do Corinthians sobre a minha pessoa foi por causa do Pedro Luís, porque foi ele que indicou para o futebol paulista a minha vinda para cá, porque ele me viu jogar. E eu não estava sabendo nada disso. Eu só sei que eu estava em casa, acabou o meu contrato no Aimoré – que nem eu falei para vocês: para o Aimoré eu não volto mais. E eu tinha certeza, pelo campeonato que a gente fez que eu ia conseguir um contrato bom agora. Então, eu recebi telegrama do Corinthians e do Palmeiras, que o emissário chegaria a qualquer momento para entrar em entendimento comigo. Mas o Santos mandou primeiro, o Santos chegou primeiro. O empresário era o Arnaldo Figueiredo. Ele que chegou primeiro e resolveu logo a situação. Me pegou e imediatamente foi no Aimoré, entrou em contato com os diretores e acertou minha vida no Santos Futebol Clube. Houve certos probleminhas, mas ele resolveu da melhor forma possível.

 

P/3 – Então o senhor chega aqui com o Santos aqui em 1960?

 

R – Março de 1960.

 

P/3 – Como é que era?

 

R – Eu quando cheguei aqui no Santos eu tive uma sorte tremenda, porque eu acho que, além do jogador ter suas qualidades técnicas, a estrela dele também tem que ser boa e essa estrela eu tive quando eu cheguei no Santos. O Santos estava com um problema do meio de campo, porque o Jair da Rosa Pinto, um dos maiores meia do futebol brasileiro, estava parando, estava com a idade já avançada. Então ele pertencia ao Santos e ele não jogava quase todos os jogos. Do jeito que era a campanha que o Santos fazia, de jogos e mais jogos, ele não acompanhava tudo, porque ele já estava quase parando. Então o Santos nesse momento já estava tendo dificuldade de meio de campo para compor a meia cancha com o Zito. Foi onde eu tive essa sorte e cheguei na hora exata que o Jair da Rosa Pinto ia parar e o lugar ficou vago para mim. Por isso que eu digo: a minha estrela foi boa. Cheguei na hora certa.

 

P/ 3 – E qual era o time do Santos em 60?

 

R – Tiveram vários... Mudou muito, mas na minha época...

 

P/3 – Não, em 1960.

 

R – Nesse ano é fácil de..., foi justamente anos de 60, 61, 62, 63, 64, essa equipe mudou pouco. Então era Gilmar, primeiro foi o Laércio, depois veio o Gilmar, na lateral direita tinha dois jogadores que eles usavam, era o Fiotti e o Getúlio. De beque central, eles trouxeram o Mauro do São Paulo, não sei se vocês já ouviram falar no Mauro Ramos de Oliveira, e contrataram o Calvet, que era o meu companheiro do Rio Grande do Sul, quarto zagueiro; e tinha um beque esquerdo que se chamava Dalmo, não sei se vocês já ouviram falar. E no meio de campo era Zito de volante e eu como meia; na frente: Dorval. Coutinho, Pelé e Pepe. Esse era o ataque que foi formado e que pegou mais e que marcou muito. Depois, veio o Lima, veio o Ismael, veio o Zé Carlos e aí começou a ter mais integrantes. Abel, Carlos Alberto Torres, Rildo e assim por diante, até chegar no Clodoaldo, no Negreiros e assim por diante. E isso aí foi o que aconteceu. E de acordo com que os jogadores iam chegando, aqueles veteranos iam parando. Então, na lateral direita entrou o Lima, depois o Lima era uma espécie de coringa, onde tinha problema, ele jogava no meio de campo, jogava na defesa. Aí veio o Carlos Alberto, lateral direito. Na lateral esquerda era o Dalmo, depois veio o Geraldino, depois do Geraldino veio o Rildo, e assim por diante. Foi mudando aos poucos assim.

 

P/3 – E como é que foi? Você foi bem recebido pelo grupo? Como é que era o time enquanto grupo de profissionais?

 

R – Eu realmente dei sorte, porque quando eu cheguei o time do Santos já era uma máquina. Então, quando eu cheguei o time estava calmo, tranquilo, eu via um ambiente favorável, só que tinha que jogar, porque olhava num lado, um número dez, já era campeão do mundo, com 15 anos de idade, 14... Olhava do outro o Zito, olhava do outro, Mauro Ramos de Oliveira. Pô, você tinha que ter mesmo nervos de aço para poder... Chegar de onde eu cheguei, de Laguna, Santa Catarina. Então a gente... Fiquei um pouco preocupado, mas no fim deu tudo certo e quando, o primeiro jogo que eu fiz no Santos, primeiro jogo. Aonde fui jogar? Dentro do Maracanã. É brincadeira, rapaz? (risos) Entrei lá e vi aquele estádio e já fiquei pensando: “Nossa mãe do céu!” Jogamos contra o Vasco da Gama e empatamos esse jogo, de dois a dois. Nós estávamos ganhando de dois a zero, e no fim a gente empatou de dois a dois. Foi o primeiro jogo que eu fiz no Santos Futebol Clube. Depois, tudo tranqüilo. Eu tive também, assim, o privilégio de encontrar colegas mesmo. Colegas já com certa bagagem e com uma mentalidade boa, de transmitir coisas boas. Então, eu vi um Gilmar dos Santos Neves, um cara de uma formação boa, vi um Mauro Ramos de Oliveira, Dalmo Gaspar, Zito, José, Lino e Miranda, uns caras tudo, entendeu? Então só tinha que ter sucesso num time desses. E foi isso que aconteceu comigo.

 

P/2 – O senhor falou do primeiro jogo que o senhor participou com o Santos e qual foi o primeiro título que o senhor ganhou no Santos?

 

R – Foi no ano de 60, logo que eu cheguei no Santos.

 

P/2 – E qual foi?

 

R – O Campeonato Paulista.

 

P/2 – O senhor se lembra de alguns jogos?

 

R – Ah, foram muitos jogos, filho. Foram muitos jogos que a gente teve. Não resta dúvida que teve um ou dois que marcaram, que a gente não esquece. A gente foi campeão aqui na vila Belmiro, com a decisão contra a Portuguesa de Desportos. Nós estávamos ganhando de dois a zero e a Portuguesa, de uma hora para a outra, empatou o jogo: dois a dois. Pô, nós estávamos com o jogo na mão. Mas, graças a Deus, nessa época nós tínhamos um ponta-esquerda que era um jogador que fazia muito gol, através de seu chute: o Pepe. O Pepe fez o terceiro gol e a gente ganhou esse campeonato dentro da Vila Belmiro contra a Portuguesa de Desportos, que estava muito boa no campeonato. Foi a equipe que mais apertou. E era surpresa, porque geralmente quando não era o Palmeiras era o São Paulo, o Corinthians. Mas a Portuguesa naquele ano teve uma atuação extraordinária e a gente foi disputar com eles o campeonato paulista. Então foram títulos que a gente conseguiu que a gente até esquece, entendeu? Mas tem aqueles que a gente não esquece nunca. Também o bi-campeonato mundial no Maracanã contra o Milan. Esse aí marcou muito porque foi um jogo muito difícil. Nós já tínhamos perdido de três a um lá na Itália e nós precisavamos ganhar de dois a zero de diferença no Maracanã. E o time do Milan era um senhor time, ele estava bem montado, tinha uma defesa com esse que é treinador agora, o Maldini, Trapattoni, tinha aquele meia habilidoso, o Rivera no meio de campo. Na frente tinha um ponta-direita que se chamava Mora e de centroavante Mazzolla Altafini e Amarildo na ponta esquerda. Então era um senhor time. Para ganhar desse time com uma diferença de dois gols não ia ser brincadeira. E tinha mais: nesse jogo o Pelé estava com uma distensão e chegou na hora não passou no teste para jogar. O Calvet também, o Zito também. Então estava tudo para ser um desastre. E, graças a Deus, a gente entrou nesse jogo e cinco minutos de jogo eles estavam ganhando de dois a zero, porque era dois, três toques e eles já estavam dentro da área. Eles tinham um esquema extraordinário. Dois, três toques na bola e eles estavam dentro da área oferecendo perigo. E justamente nesses lances eles estavam ganhando de dois a zero de nós. E agora? Foi quando acabou o primeiro tempo, e eu não sei se foi sorte nossa de ter caído um temporal ou não, eu só sei que ao invés de favorecer eles, porque europeu está acostumado a jogar com tempo frio, chuva. Mas a gente foi beneficiado com isso daí, porque nós partimos para o segundo tempo, e esse jogador que até hoje eu não esqueço, que eu acho até hoje que ele foi um dos responsáveis por essa vitória, foi esse rapaz que já partiu para o mundo espiritual e que se chama Almir Moraes de Albuquerque. Esse rapaz, o que ele fez nesse jogo, foi uma coisa extraordinária e no fim a gente ganhou o jogo de quatro a dois. Coisa que a gente nem esperava porque era difícil mesmo. Mas a torcida carioca deu uma tremenda força para a gente, que mesmo a gente perdendo de dois a zero, ele estavam incentivando a gente. Não estavam vaiando, estavam incentivando: “Vamos aí!” E aquilo ali, rapaz, deu um ânimo na gente, que a gente partiu para cima deles com garra, com vontade, que conseguimos ganhar o jogo de quatro a dois. Foi uma vitória que marcou muito. Eu não esqueço nunca, e a atuação desse rapaz, Almir, que substituiu o Pelé, o número dez. Então esse título aí marcou muito para mim.

 

P/2 – E o terceiro jogo?

 

R – Não, esse daí já foi o segundo porque o primeiro foi lá.

 

P/2 – E aí forçou um terceiro jogo?

 

R – Não, o primeiro foi lá. Nós perdemos. Aí tinha o outro jogo, o segundo, aí no terceiro o time do Milan já veio diferente do que jogou no segundo jogo. Sabe por quê? Porque o treinador deles viu que ia ser um jogo pesado. E, de fato, o outro jogo foi um jogo pesado. Então ele colocou um time de chegar junto e substitui este Rivera, que era um jogador habilidoso e que jogava muito técnico, mas não era jogador de choque. Então ele colocou um volante peruano, que se chamava Benitez. Então a gente já estava sabendo que o jogo ia ser mesmo de pegada. E no terceiro jogo foi que aconteceu isso daí. Agora, o nosso Almir, ele criou uma falta dentro da área, que na hora eu realmente considerei pênalti. Mas foi uma falta que o Almir provocou. Provocou de que maneira? O Maldini... Lançaram o Almir dentro da área - mas a bola já ia assim mais ou menos para a lateral - mas o Maldini, para evitar qualquer coisa, ele ia dar uma virada para tirar a bola para o lado. Mas o Almir estava do lado dele, correndo do lado dele. Quando ele pressentiu que o Maldini ia... O Almir enfia a cabeça e o rosto e tudo na chuteira do Maldini, dentro da área. E grita. (risos) E grita. Pô tinha juiz ali perto. Não deu outra: pênalti. (risos) Foi um lance assim... Acontece isso, pode ver, o cara provoca, tem jogador que sabe provocar pênalti e o Pepe é um. O Pepe é um artista para provocar falta. O cara encosta nele e ele já se joga, grita, fazia isso, fazia aquilo, entendeu? E nessa aí o juiz apitou pênalti. Foi quando o Dalmo Gaspar cobrou e nós ganhamos de um a zero. Os italianos queriam... Saíram bufando dali, não queriam ficar nenhum dia a mais no Rio de Janeiro. Na mesma noite eles pegaram o avião e se mandaram. Esse terceiro jogo foi uma vitória que também marcou muito. E assim por diante.

 

P/4 – E o senhor disse que foram muitas vitórias e muitos campeonatos que o senhor e o Santos ganharam foram inesquecíveis. Teve alguma derrota, que quase chegou lá, perdeu e também marcou muito?

 

R – Marcou uma que o time já estava quase parando, eu, o Zito, a gente já estava naquela fase... Mas mesmo assim, eu vinha de uma contusão e não vinha treinando. Mas nesse jogo eu resolvi jogar. E justamente nesse jogo é que nós precisávamos ganhar de qualquer maneira, porque nós já tínhamos perdido lá em Minas. E o Cruzeiro estava com um senhor time: Tostão, Dirceu Lopes, estava com um senhor time. E nesse jogo, era no Pacaembu, nós precisávamos ganhar de qualquer maneira. E no primeiro tempo, graças a Deus, eu estava correndo bem, então fizemos dois a zero. Aí no segundo tempo, malandro, o gás acabou, os homens vieram para cima. E no fim do jogo o que é que deu? O Cruzeiro ganhou de três a dois da gente. E era um jogo que a gente não podia perder, porque era um jogo que ali nós perdemos a Libertadores. Foi um jogo que marcou muito também. Perdemos, mas o que se vai fazer?

 

P/1 – Senhor Mengálvio, o senhor tem, aqui pelas estatísticas, 33 títulos conquistados pelo Santos.

 

R – Olha, honestamente, eu nunca cheguei e marquei direitinho. Mas as pessoas que pesquisam direitinho... Porque foi muito título.

 

P/1 – Muito título. Tem gente que se vangloria de ter ganhado três... 33.

 

R – Então foi tanto título que eu nem cheguei a ponto de procurar assim, contar direitinho. Mas pela pesquisa de jornalistas e mesmo de colegas meus que são mais caprichosos nesses casos, sabem muito bem quantos títulos o Santos teve.

 

P/1 – O senhor teve 33 títulos e jogou 371 jogos, fez 28 gols.

 

R – Eu era um jogador, realmente, que não era de fazer gol, porque a minha característica, como eu te falei, eu era um meia tipo volante, ajudando um pouco mais a defesa. E, justamente, principalmente quando você pega um colega que também corre muito, um jogador muito corriqueiro, que era o caso do Zito. O Zito corria muito, ele não era de ficar muito parado. Então, um meio de campo para dar ritmo a um time, ele não pode ter dois corredores. Um tem que correr e o outro tem que sentar, e isso é ponto pacífico. O time que não tiver isso, acho que não... Isso aí aconteceu em 58 com a Seleção Brasileira, em 62, em 70 a mesma coisa, e aí por diante. Você não pode ter dois elementos de mesma característica no meio de campo. O que aconteceu foi isso daí: eu era um jogador, não é que eu fui um extraordinário jogador, eu fui um jogador muito importante para a equipe do Santos Futebol Clube, no sistema, em questão de conjunto. Eu tinha um senhor zagueiro central que me orientava muito também. Ele chegava para mim e: “Mengálvio...” Porque o Santos, e verdade seja dita, o Santos fazia muito gol, mas também ele tomava muito gol. Ele fazia seis, tomava quatro, cinco. Era um tipo, uma maneira de jogar que a equipe tinha. Mas quando chegou esse beque central, e eu jogando no meio de campo, ele chegou para mim e falou assim: “Mengálvio, esse time aí tem o ponta direita que faz gol, tem o centroavante que faz gol, tem o meia esquerda que faz gol, e tem ponta esquerda, que são artilheiros, fazem gol. Eles fazem gol mesmo, Mengálvio. Então, não se preocupa muito de atacar. Dá cobertura para a gente aqui atrás e deixa eles...” Então, o que é que eu fazia? Eu ficava ali atrás ajudando eles, eu fazia uma espécie de cabeça de área que eles falam hoje. E com isso daí eu evitava ir muito para frente. Então era uma vez ou outra que eu ia, mas mesmo assim ainda consegui fazer uns gols, mas muito pouco.

 

P/1- Vinte e oito?

 

R – Vinte e oito gols.

 

P/1 – Você se lembra de algum gol?

 

R – Ah, me lembro. Esse aí, eu vou te contar. Infelizmente naquela época o Corinthians dava muito azar com a gente. O Corinthians era um time que contratava jogador, contratava treinador, mas era uma época que nada dava certo para o Corinthians, principalmente quando jogava contra o Santos. Então, Santos e Corinthians, já era... Parece mentira; os corinthianos iam, faziam festa, batucavam, faziam de tudo. Mas não adiantava e no fim do jogo era Santos na parada. E num jogo no Morumbi, eu me lembro até hoje, eu de volante, como sempre, pegando a bola ali e tal, desarmando, entregando. Só que naquele jogo, eu peguei a bola no meio de campo e saí para jogar. Só que quando eu saí eu olhei o número dez: marcado, olhei o número nove: marcado, olhei o ponta: tudo marcado. E eu andando com a bola, e eu louco para me desfazer (risos) da bola. E nada, mas não tinha ninguém, eu olhava e não via ninguém. E eu indo. Ah, quando chegou uma hora ali, na entrada da área, eu olhei e, não vou ficar com essa bola não. Eu chutei no gol. E você acredita que ela pegou num morrinho e encobriu o Marciel, que era o goleiro do Corinthians. Fiz um gol. Os torcedores não aguentaram, rapaz: “Negro miserável, não faz gol em ninguém, vem fazer no Corinthians.”(risos)

 

P/5 – E qual foi a sensação que o senhor teve, o que o senhor sentiu dentro do gol?

 

R – Ah, de fazer o gol, eu fiquei até espantado comigo, porque eu não tinha chute forte. É que eu chutei e pegou efeito e pegou lá no morrinho e o Marciel pegou e aceitou. E agora, o que é que eu fazer? Eu tinha que fazer esse jogo. Eu ia ficar com a bola para mim? Não. Tinha que chutar e chutei e fiz o gol. E agora? Os corinthianos não aguentaram: “Negro safado, nunca faz gol em ninguém.” Mas você vê o azar que os corinthianos tinham contra nós. E assim...

 

P/4 – Senhor Mengálvio, tendo uma carreira tão vitoriosa, sendo uma peça importante nesse time vencedor do Santos, nada mais natural que chegar à Seleção Brasileira. Como é que foi a passagem do senhor pela Seleção?

 

R – Eu vou tomar um pouquinho de água, não tem problema?

 

P/4 – Então, senhor Mengálvio, a gente estava falando da sua carreira no Santos e eu disse que nada mais natural que chegar à Seleção Brasileira. Como é que foi a carreira do senhor na Seleção?

 

R – A Seleção Brasileira, eu comecei, como já falei, participei da Seleção Gaúcha, representando a CBD, Confederação Brasileira de Esportes, hoje é a CBF. Mas é a mesma coisa. Então, representei a CBD pela Seleção Gaúcha em 58, 57, mais ou menos e depois vim para o Santos. E no Santos tive aquela, nos anos 60, 61 a equipe deslanchou, começou a tirar título. Então, veio o ano de 62. E antes da Seleção ir para a Copa de 62 no Chile, eu já era um jogador... Parece mentira, e depois é que eu fui analisando friamente, mas eu já era um jogador bem cotado para ir para a Seleção Brasileira, devido às informações que davam para os dirigentes da CBD. E parece mentira, eram os homens da CBD que mais gostavam do meu futebol. Então, quando chegou o ano de 62, Seleção Brasileira, convocação. Tinha uns cinco jogadores de uma capacidade extraordinária de técnica na minha posição. Tinha o Benê, que jogava no São Paulo, era do Guarani e estava jogando no São Paulo. Tinha o Chinesinho, que jogava no Palmeiras e tinha o Didi, que jogava no Botafogo, o famoso Folha Seca. Então, a parada ali era... Pô, e tinha um jogador que estava começando e que já estava despontando como um dos maiores meias que o futebol brasileiro ia ter e que se chamava Gérson. O Gérson estava começando no Flamengo. Então, a chance ali ia ser pouca para mim. Pô, Gérson começando, Didi já campeão mundial, Benê numa forma extraordinária e Chinezinho. Não ia ser fácil. E antes da convocação tinha uma disputa da Taça Brasil contra o Botafogo no Maracanã. Mas antes da Taça Brasil ia ter um jogo de aniversário que também ia ser contra o Botafogo no Maracanã. Então nós íamos jogar na quarta-feira e no sábado de novo contra o Botafogo. Ia ter dois jogos no Maracanã, perto da convocação da Seleção Brasileira. Então, o que aconteceu? Eu já estava de olho para ser convocado, mas eu via uma possibilidade difícil. Chega na quarta-feira contra o Botafogo, esse jogo amistoso, Hotel Novo Mundo, eu estava no elevador, eu estava descendo com o treinador, o Luís Alonso, na hora da gente ir para o campo ele olha para mim e fala assim: “Mengálvio.”; “Que é professor?”; “Você hoje não vai jogar.”; (risos) “O que é?”; “Hoje vai descansar.” Aí eu falei assim: “Ah, professor, descansar, quando eu morrer eu descanso de vez.”; “Não, não, tu não vai jogar hoje, você vai ficar de fora.” E eu queria jogar no Maracanã, pô. O pessoal da CBD tudo ali. Aí eu fiquei uma vara. Mas que filho da mãe! Mas tudo bem, fomos para o jogo. Naquele dia, malandro, acho que foi um guia mesmo que falou para o treinador me tirar. Naquele dia o senhor Garrincha aprontou uma. Ele e Zagallo. O Santos perdeu de três a zero ali e o Botafogo deu um olé danado, rapaz. E eu fiquei assim: será que é castigo? Então, você vê que é como eu falei desde o começo. A gente tem que ter também um pouco de estrela. O time perdeu. Do jeito que eu sou, eu não sequei o time, nem nada. O time foi lá, perdeu e pronto. Aí no sábado tinha o outro jogo. Aí eu quero ver. Aí o homem chegou lá e jogou a oito para mim: “Pega, negro safado.” E pá! (risos) Olha, nesse jogo, rapaz, o que o Santos jogou, o que o Santos atuou... E o maior jogador desse jogo se chamava Dorval Rodrigues, porque o Dorval teve duas funções naquele jogo: além dele jogar como ponta, fez dois gols,  ele marcou o Zagallo, porque o Zagallo era um inferninho para atrapalhar a nossa vida ali no meio de campo, porque ele fazia o quatro-três-três, vinha por detrás e atrapalhava a gente. O Dorval teve uma função de vigiar ele, ficar atrás dele também, perturbar ele, já que ele estava perturbando a gente, então o Dorval ficou na cola dele. E o Dorval nesse jogo fez dois gols ainda. Ganhamos de cinco a um. Cinco a um a gente ganhou do Botafogo dentro do Maracanã. Aí não deu outra: quando saiu a convocação já estava o meu nome. (risos) Então é isso que eu falo. Ali foi o início da convocação de 62 para a Copa do Chile.

 

P/2 – E como é que foi essa preparação para a Copa, a disputa da Copa do Mundo?

 

R – A preparação é que sempre eles convocavam muitos jogadores e aos poucos eles iam vendo: o que estava em condição, no momento técnica e física. E eles iam vendo e eliminando, tirando um, tirando outro, até formar um time base. E ficava chato porque a gente ficava numa tensão muito forte: “Será que eu vou? Será que eu não vou?” E eu? O Gérson não foi convocado porque ele se machucou uma semana antes ou dez dias antes ele teve um problema, machucou e ficou de fora. Então tinha: Benê, Chinesinho e Didi, na minha posição. E no fim, graças a Deus, os homens da CBD me escolheram como meio de campo, eu e o Zequinha. E no time titular foi Zito e Didi. Esse foi o meio de campo que foi na Copa do Mundo no Chile em 62.

 

P/4 – E durante a Copa, o senhor chegou a jogar uma partida?

 

R – Não joguei, porque naquela época o time que entrava ficava até o fim. Não havia substituição que nem tem hoje. O time que entra, vai até o fim, se machucar ou não. Então o Didi jogou todas as partidas e não deu chance nenhuma. Ainda bem, porque o time foi e ganhou a Copa.

 

P/4 – E qual a sensação de ser duas vezes campeão do mundo no mesmo ano: uma pelo Santos e outra pela Seleção?

 

R – A sensação é... Campeão pelo Santos em 60 e 61, logo em seguida, Copa do Mundo, campeão em 62, depois veio o ano de 63, que a gente foi campeão Interclubes, mundial e tudo. Isso aí, eu vou te contar, a gente no fim fica mascarado (risos) e achando aquilo ali até normal. Mas se a gente for analisar, é uma coisa realmente fabulosa.

 

P/4 – E outros jogos pela Seleção Brasileira?

 

R – Você vê, antes de ir para o Chile, a Seleção Brasileira tinha uma maneira de trabalhar. Então, para testar os jogadores eles faziam o seguinte: eles arrumavam um jogo, uma hipótese, em Minas Gerais ou no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro. Então, tinha jogador, que, por exemplo, era de São Paulo: eu, Coutinho, Pepe; o jogo era no Rio, ao invés deles botarem jogador do Rio para agradar a galera, eles faziam diferente, eles colocavam jogador paulista para jogar lá dentro. Para quê? Para ver a reação que a gente ia ter. Porque existia ainda esse negócio de torcida vaiar jogador que não é do estado deles. Então quando a gente entrou no Maracanã, nós fomos vaiados porque só tinha o time inteirinho do Santos, o ataque inteirinho, só o Garrincha na ponta direita. Era Garrincha, eu, Coutinho, Pelé e Pepe.

 

P/1 – Que ataque, hein!

 

R – Zito no meio de campo, Mauro na defesa. Então, eles... Tinha cartazes: “Cadê o Amarildo? Cadê o Didi?” Para ver a reação que a gente ia ter. Ele testava a gente psicologicamente, para ver como a gente iria se portar. Mas, graças a Deus, a gente entrou, ganhamos do País de Gales de dois a zero, o time teve um atuação boa e tudo tranquilo

 

P/4 – O senhor chegou a fazer gol?

 

R – Na Seleção, que eu me lembre, só na Seleção Pan-americana, que eu fiz.

 

P/4 – E como é que foi?

 

R – De falta. Até hoje eu estou para saber como é que eu mandei aquela bola lá na forquilha. (risos) Uma bola fora da área, que nem faz que a gente vem de lado assim e... Mas ela pegou de uma maneira, rapaz, que ela foi direitinho no ângulo esquerdo e eu fiz um golaço. E até hoje eu estou para saber, será que fui eu mesmo que fiz aquele gol? (risos)

 

P/1 – Vamos passar a deixar um pouquinho a Seleção Brasileira e falar um pouquinho de tática e de esquema de jogo. Como é que o Santos do Lula jogava?

 

R – Na época minha, que a gente jogava, o pessoal fala: “Mudou.” Mudou muito na parte física. Hoje o futebol é mais preparo físico. Os jogadores não se preocupam muito de dominar a bola, dar um toque, dribla daqui, dribla dali. Eles... Começou o jogo e já começa aquele pau e pau. E não há mais aquele futebol cadenciado, técnico. Isso mudou um pouco, a parte física. Então é aquela correria. Mas eu acho também que na nossa época tinha times que corriam demais. É o caso do Corinthians, era um time corredor, um time que começava o jogo e pau. Mas eu acho que o time do Santos naquela época, era um time tão estruturado, tão entrosado, que nós tínhamos nosso estilo de jogo. Se o adversário corria, corria, a gente não acompanhava eles. A gente os segurava até eles brecarem, e eles entravam no nosso ritmo. A gente tinha esse poder, essa força de segurar o time adversário quando ele começava com muita correria. A gente bloqueava. Não é que nem hoje: se um time corre, o outro também corre mais ainda. É correria daqui, correria dali. Eu acho que nessa parte aí todo mundo copia o outro, nessa parte tática, técnica. Na minha época se utilizava muito o quatro-dois-quatro: quatro atrás, dois no meio de campo e quatro na frente. O ponta de lança descia um pouco, os pontas bem abertos, e ali no meio de campo é que se ganhava o jogo. A gente procurava não dar espaço para ninguém, não deixava a bola passar de jeito nenhum, por cima, por baixo. A gente tinha que fazer tudo para não... O setor da gente era... Mas era uma espécie de quatro-dois-quatro. Hoje não. Hoje você vê que eles põem quatro, cinco, seis no meio de campo, fazem aquele... Todo mundo desce. Aí eles ficam com dois, três lá na frente. E a gente não usava passe de lado. Hoje tem passe de lado por quê? Por causa do bloqueio que tem. Eles têm que jogar de lado. Como é que vão entrar? Está bloqueado no meio de campo. Então, a maneira de jogar mudou muito. Fica aquela aglomeração no meio do campo e fica um time igual, igual. E quem correr mais, se adaptar ao estilo que se está jogando hoje em dia. Agora, para mim, a parte técnica abaixou um pouco, abaixou a parte técnica, do jogador técnico. Porque naquela época, você via um monte deles. É o que eu estava te falando: na minha posição na Seleção tinha quatro super craques.

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