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História

Uma família grega

História de: Maria Rifiotis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Maria Rifiotis relembra momentos marcantes de sua vida, começa contando sobre os motivos que a levaram deixar a Grécia para morar no Brasil, ao lado de seu marido, depois conta as diversas dificuldades que passou para se adaptar ao país, relata também a importância que teve na sua vida o nascimento do seu segundo filho, uma criança deficiência cognitiva, que mudou a sua vida.

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História completa

P/1 - Começa assim, a primeira fase é se identificar, dê o nome da senhora, onde a senhora nasceu, o nome dos pais, e onde nasceram.

 

R – Meu nome é Maria Rifiotis, nome dos meus pais é (Basílio?) (Culturelles?) e a minha mãe Angélica (Culturelles?), eles nasceram na cidadezinha de (Capcu?) na Grécia e eu nasci em Égio, Peloponeso, em 21 de novembro 1927.

 

P/1 – Os avós da senhora são de onde?

 

R – Os meus avós nasceram em (Capcu) também, eram todos da mesma aldeia, do mesmo lugarzinho. Nós éramos em sete filhos, meu pai e minha mãe casaram, se conheceram naquela aldeia mesmo, não namoraram porque naquele tempo não namorava, só aceitava os casamentos. Eles casaram e tiveram dez filhos. Somos em 27, dois estão aqui no Brasil, a minha irmã em Porto Alegre e eu aqui. Eu casei com meu marido em 1954, fevereiro, 21 de fevereiro 1954, saímos da Grécia em abril, chegamos aqui no dia 30 de abril do mesmo ano. Moramos um mês como não imigrantes no Brás, depois arrumamos uma casa pra alugar lá Vila Carrão.

 

P/1 – Voltando um pouquinho pra Grécia, como foi a infância da senhora? Como a senhora conheceu o marido da senhora?

 

R – Mais gostoso lembrar disso do que lembrar dos primeiros tempos aqui. A infância foi muito bonita, apesar da Guerra, apesar de que éramos uma família pobre, apesar da Katochi, invasão dos alemães que entraram na Grécia, e todos passavam fome. Apesar de tudo isso, foi uma infância muito bonita porque éramos uma família muito unida e muito grande. Morávamos em uma casa pequena, muito pequenininha

dormíamos na mesma cama, dois, três em cada cama porque não tinha espaço, brincávamos, estudávamos. Meu pai era agricultor, mas queria muito que os filhos estudassem. Quase todo mundo estudou, todo mundo é diplomado, todo mundo tem faculdade, só eu não tirei e a Sia, a minha irmã de Porto Alegre, aconteceu a ela um problema de saúde aquele tempo que estava no primário. E eu não continuei porque a Guerra me pegou e depois passou o tempo e eu naquele tempo não era como hoje, né? Você fala que eu tenho 18 anos e eu posso estudar, mas naquele tempo parecia um pouco vergonhoso porque era só criança e cada classe tem seu limite de idade também. Então fiquei com vergonha, eu fui aprender costura lá em Atenas. E onde eu morava com a minha tia e meu tio, ao lado morava meu marido e como eu não sabia andar em Atenas, era uma menina caipira, uma menina muito de casa, então meu marido me levava no ateliê e me trazia de noite, me levava e me trazia aí começou o namoro. Mas foi um namoro muito comprido porque eu conheci quando ele tinha 19 anos, até confirmar o namoro, ele foi servir o exército, ficou quatro anos servindo exército, quando voltou nós éramos os dois pobres, não tinha dinheiro para fazer a vida, né, aí casamos, e pensamos em sair para ir na Austrália, para ir no Canadá. Mas naquele tempo na Grécia fazia muita propaganda que o Brasil era um país de futuro. Não me olha assim, todo mundo acreditava aquele tempo (risos). Entre Canadá... Tinha uma onda que todo mundo estava vindo para o Brasil e nós fomos na onda e viemos para o Brasil. E comemos o pão que o diabo amassou.

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – Nós moramos um pouquinho mais de um mês...

 

P/1 – Na casa de imigração, que hoje já não existe mais.

 

R – Na casa de imigração. Naquele tempo, eu era muito... Não era mimada, era muito sentimental. E eu sofri uma coisa de amnésia, eu não lembrava as coisas, eu só lembrava que queria minha mãe e o meu pai, que queria minha família, que queria minha terra, pegava uma coisa para fazer e esquecia. Eu não sabia, o que fazia. Aí na casa de migração tinha um grego. Acho que o seu (marido?) o conheceu, Dionice, que ele morava lá também, nós viemos um grupo juntos, ele pegou amizade com um guarda lá e começou falar que tinham casas aí em Itaquera, que ele morava. Aí um dia esse guarda, pegou esse Dionísio, e eu também, meu marido estava trabalhando, já tinha arrumado serviço de eletricista. Ele não sabia de eletricidade, mas pegava como eletricista, não sei o porquê, ele não sabe trocar nem uma lâmpada, até hoje (risos). Mas ele trabalhou como eletricista, o cargo dele. Eu saí com esse Dionísio e nós fomos com esse policial lá em Itaquera procurar casa, do jeito que ia o ônibus o moço falou pra esse Dionísio porque eu não entendia nada, que estavam alugando casas muito baratas na Vila Carrão. Voltamos de noite, aí outro dia eu queria ir sozinha, falei para o meu marido “Cosmar, lá tem casas que estão alugados baratas” que eu não aguentava mais ficar lá dentro, parecia que eu ia ficar bitolada. Ele falou: “Mas Maria você vai se perder” e eu falei “Não vou me perder eu sei onde é”. Aí eu entrei no ônibus, esse policial escreveu assim papelzinho “Quero alugar uma casa” eu peguei o papelzinho, entrei no ônibus que ele me indicou e fui andando, andando e desci lá no lugar. Desci não, ao meu lado tinha um senhor que estava conversando comigo e eu fazia assim, não sei como que eu fazia, né, não entendia nada ainda. Aí dei o papelzinho para ele, ele faz “Ah!”, ele me pegou, descemos juntos, me levou numa loja que tem aí na Vila Carrão, que era uma senhora Grega que tinha uma loja de sapatos. Aí entrou lá dentro, começou a falar com ela, ela virou e falou para mim em grego se eu era grega, aí eu já desmaiei no choro, comecei chorar, aí ela me falou “Não fica preocupada que eu vou arrumar uma casa por aqui para você”. Aí ela me mandou com esse senhor, me mandou em uma casa e ele falou com uma moça lá, era uma italiana, que estava alugando o porão da casa dela. Conversaram, conversaram aí a mulher escreveu um papelzinho para eu voltar com meu marido, mas como meu marido trabalhava até horas extras, que ele fazia no sábado e não dava. Eu fui com a Rosa. Você conhece a Rose que morreu, né? Ela falou: “Maria, vamos juntas que eu sei um pouquinho de espanhol”. Entramos no ônibus juntas lá na Vila Carrão, onde eu tinha visto a casa, estávamos sentadas e falando grego, na frente tinha um senhor que estava lendo jornal. Ele virou era grego, era o irmão do (...) médico do (...) que morava lá na Vila Carrão. Aí ele falou “Vocês são gregas?”, falei “Somos”, ele falou: “Aonde vocês vão?”, “Lá, sei lá o quê”, “Eu vou junto”, ele foi conversou, abaixou o aluguel e falou para nós não pagarmos a luz que nós não tínhamos dinheiro, aí outro dia nós viemos, era sábado e domingo viemos fazer a mudança porque meu marido estava trabalhando. Aí ele foi lá e ajudou a pegar as coisas, trouxe uma caminhonete, caminhoneta, sei lá, o que ele trouxe porque meu marido também não sabia, coitado. Aí colocamos em cima da caminhoneta uma caixa de madeira que tinha lá dentro os cobertores, dois jogos de lençóis, colheres, umas coisas assim da Europa nossas e uma máquina de costura Singer. Nós pegamos esse caixote e fomos lá na casa, né, formamos a nossa casa, era um porão, uma cozinha, um quarto e um banheirinho. Não tinha cama, não tinha nada, aí a mulher deu uma cama lá, eu tinha um colchão e o pé da cama estava quebrado, mas ela colocou uma latinha em baixo e deu uma mesinha. Aí o meu marido foi tirando as coisas lá e pegou aquela casa de madeira e foi fazer um banquinho para sentar na mesinha para comer, mas ele fez o banquinho na altura da mesa, então a gente sentava para comer e sentava assim, não tinha jeito. Acomodamos tudo domingo, segunda-feira, ele foi trabalhar e eu fiquei lá sozinha. O que eu fiz? Peguei as fotografias da minha família, coloquei em cima da cama e comecei aquele choro que pegava meu cabelo e batia a cabeça na parede. Chorei, chorei, não tinha janela porque era porão, tinha, mas era pequeninha dava para ver os pés de quem passava na calçada. Aí ficava olhando, dois pés para lá, dois pés pra cá, contava os pés, não tinha o que fazer aí o meu marido voltou de noite, ele foi no mercado, comprou algumas coisas, que ele se virava um pouco com italiano, eu não. Aí trouxe um fogarelzinho, aí comecei a fazer comidinha, ele ia na feira de sábado, trazia pra mim e eu fazia. Aí um dia acabou a querosene que eu colocava no fogarel, eu queria fazer comida para ele que ia chegar e não sabia comprar, subi lá em cima na casa de cozinha da senhora italiana, olhei, olhava pra ela e ela me olhava com uma carinha, querendo me ajudar, me mostrava sabão, me mostrava panela, me mostrava isso, me mostrava aquilo e eu queria querosene. Aí de repente, eu vi uma coisa oleosa, fiz assim (fungou) é óleo, sei lá o que, ela me mostrou que era óleo, e eu mostrei o fogo, que era pra fazer fogo, aí que ela se tocou. Aí marcou em um papelzinho “querosone”. Querosene e pepino, as primeiras coisas que aprendi. Querosene que deu aquele fogo para nós vivermos e pepino era o que a gente ia segurar, entendeu? (risos) Em seguida o meu marido conheceu lá onde trabalhava, ele trabalhava no Ibirapuera, fazia aquelas... Que tem aqueles trabalhadores, ajudou um pouquinho, trabalhou lá e lá conheceu um grego que eles moravam na Rua Nazaré, que é perto do mercado da 25 de Março, ele falou “Olha, eu tenho um quarto com a minha mulher que tem outro quarto, você não quer alugar porque tá tão longe assim”. Não, antes disso, eu me lembro um dia, meu marido acordou cedo e tinha uma lua que batia naquela janelinha aí ele falou: “Ih, Maria já tá até amanhecendo”. Aí ele saiu pra trabalhar e eram três horas da madrugada porque não tínhamos relógio, ele foi dormir lá na... Ele disse que esperou, esperou, passar o ônibus, pegou o ônibus, veio aqui na cidade foi dormir em uma obra, até ficar claro, até despertar. Aquele tempo ainda, fui falando e esqueci, marcou muito nossa vida, quando era quase no fim de abril, era a nossa páscoa, e a páscoa ia ser na igreja síria, na Rua Vergueiro. E lá na imigração nós conhecemos um casal, que conheciam outro casal que morava na São Caetano, Santo André, aqueles lados, eles deram o encontro lá na igreja síria e ela trouxe para nós ovos, rosquinhas, ovos vermelhos, aí eu comecei a chorar, né? Eu nem queria muito pra chorar, né? Eu pedi o endereço dela que queria mandar uma carta para minha família, porque eu pensei eu saí, vai ver que alguém morreu lá, eu já estava tão carregada, tão com peso, que pensei que para todo mundo tinha acontecido alguma coisa, tinha morrido. Ela me deu o endereço dela, eu peguei escrevi para os meus pais, para os meus sogros e logo mandei as cartas. Passaram alguns dias e eu falei para o Cosmar, passou uma semana, e estava esperando a outra para vir a correspondência, eu falei “Acho que vou lá em São Caetano para ver se tem carta”. Ele sabia que eu me perco, até hoje eu me perco fácil, aí ele: “Você vai se perder espera um pouquinho que vamos domingo”, aí eu disse: “Eu não aguento, quero receber as cartas”, “Vai se perder, Maria”, “Não, eu sei onde é”, porque nós tínhamos ido uma vez na casa deles, peguei o ônibus na Vila Carrão desci no Brás, peguei o trem e fui direitinho já estava tudo escrito, não sabia falar, mas qualquer coisa me lembrava, mais ou menos, cheguei na casa deles, almoçamos, tinha carta do meu pai, fiquei feliz da vida. Mas, sabe? Conversa entre patrícios passou... Falei: “Ai meu Deus, tenho que sair”, já eram umas quatro horas da tarde, peguei o caminho peguei o trem, mas até pegar o trem, até chegar aqui, já era noite e eu em vez de descer no Brás que eu sabia pegar o ônibus, eu desci uma parada antes, não sei onde era, agora não sei para dizer. E desci já era noite, eu fiz assim, eu olhei, olhei e falei “Não é aqui” igual aquele que fala “Não é mamãe” (risos). Aí eu fiquei assim em um banquinho e comecei a chorar, chorava, chorava, porque já estava perdida, não sabia falar, não sabia nem onde estava, se tinha passado, se estava antes. Aí veio um homem da estação, estava falando, falando, eu falei “Brás”, eu falava pra ele que era o que eu sabia, aí ele falou que era a estação que eu não sei qual era, e a outra era Brás. Aí peguei o trem de novo, peguei o ônibus que já era tarde, estava lotado que fiquei pendurada numa porta e fiquei assim... Falei: “Nossa Senhora, eu quero uma coisa se chegar em casa viva, se eu sair outra vez sozinha que pegue as duas pernas que eu não vou sair mais sozinha para lugar nenhum”. Aí eu segui, meu marido estava na estação, ele tinha comprado uma coisa para fazer comida, ele ficou em casa, fez comida, foi até a estação de ônibus, voltou para casa, foi e voltou, quando me viu, aí eu comecei a chorar e falei “Eu não saio mais sozinha porque eu pedi pra Nossa Senhora me cortar as pernas”. Aí depois então aconteceu isso que ele conheceu e nós fomos lá no mercado central lá na 25 de Março. Eu recebi uma carta do meu pai, ele falou assim: “Maria, vocês tem um primo que mora na Vila Pompeia” e deu endereço. Aí foi aquela alegria, né, que vamos encontrar um primo, aí fomos no domingo. Pegamos o ônibus, fomos lá na Vila Pompeia, endereço direitinho. Encontramos o primo, eu não conhecia, que era dessa aldeia onde meus pais tinham nascido, estava ele e a mulher. Aquela alegria, “E vocês estão morando aonde?”, “Nós moramos lá”, “Não, mas aqui tem quarto”.  Era um quarto grande que era só os dois e uma cozinha, falou que dava pra dividir no meio com guarda-roupa ‘e fica metade para vocês, metade para nós’. Aí nós mudamos para lá, para Vila Pompeia, e botamos assim um guarda roupa com a vista para cá, e outro guarda roupa com a vista para lá e foi assim os dois quartos de casal, ficamos um tempinho lá com eles, tínhamos comprado uma máquina e começamos a fazer uns lenços com uma redinha, eu fazia e meu marido tinha parado de trabalhar, passou a trabalhar na feira, aí vendia. Ele levava para vender e não sabia o nome, que era lenço, né? Ele só pegava o lenço, fazia barulho e vendia bem. Meu Deus, como aquela máquina fazia barulho lá em casa. Mas, naquele tempo, já me deu uma fraqueza. Acho que é tudo emocional, me deu um negócio nos nervos e começaram a tremer.  Sabe assim de não poder segurar? Qualquer coisa as minhas mãos tremiam. Eu dormia de noite e se o meu marido não cuidasse, daqui um pouquinho já estava descoberta porque eu mexia toda hora. Uma vez, estava cozinhando batata, estava esperando o Teófilos, estava grávida, e estava cozinhando batata para fazer salada, aí do jeito que eu peguei o garfo para ver se a batata estava pronta, deu uma fraqueza na minha mão e a panela com batata e caiu em cima da minha barriga. Aí falei “Ah, meu Deus, eu queimei meu filho” e comecei a chorar porque tinha queimado meu filho. Mas aí eu fiquei um tempo ruim que estava com zica, aquela febre...

 

P/1 – Febril.

 

R - Aquela febrinha baixa, mas acho que depois com a gravidez fiquei mais forte. Não sei se a minha vida mudou, organismo, alguma coisa, não sei. E antes de nascer o Teófilos, nós alugamos na Vila Pompeia, um quarto e uma cozinha e aquele era o paraíso. Eu ia com essa minha amiga Rosa, que eu falei que falava espanhol, ela me levou em um centro de saúde pra fazer pré-natal, na minha terra não fazia, mas aqui estava muito na moda fazer. Ela me levava, eu ia cada vez que marcava, eu tinha aprendido o caminho, eu ia lá fazia o pré-natal, quando chegou perto de nascer meu primeiro filho, ela escreveu um papelzinho pra chamar o pronto-socorro, tudo isso, me explicou. Eu já entendia um pouquinho, já tinha um ano e meio aqui. Fomos dormir uma terça feira, na quarta-feira de madrugada começaram as dores do parto, aí eu levantei, cada vez que tinha dor, eu fazia assim, assim, quando passava a dor ia lá tomava banho, fui tirar sobrancelha, fui fazer a unha, fui fazer o pé. Aí me deu fome, cada vez que tinha dor eu me encolhia, fui fazer arroz doce, fiz arroz doce, sentei lá, comi, aí eu falava pro meu marido “Cosmar, acho que tá na hora de nascer, não aguento mais”, aí ele “Não, espera um pouquinho é noite ainda”. Porque ele não sabia o que fazer também o coitado, ele ia para onde? “Deixa amanhecer, espera um pouquinho”. Quando amanheceu ele chamou uma vizinha do lado, ela veio, ela pegou o telefone e chamou o pronto-socorro. O médico me examinou, falou assim... Fez assim correndo, né? Aí meu marido foi entrar lá dentro, aí falaram assim “Se você quer entrar, entra, mas se não, não precisa tanto”. Nós entramos juntos e fomos para o Hospital das Clínicas, quando nós fomos lá eu estava com dores, mas eu olhei pro outro lado e era um cemitério, falei: “Cosmar, o que que é isso aí?”, ai ele “Cemitério”, ai eu falei “Eu não quero ficar aqui, nesse hospital daqui eu não fico” tinha um cemitério do lado. Aí não tinha vaga, depois me levaram para o Maternidade de São Paulo,

entrei lá dentro, tinham muitas senhoras que estava esperando neném, umas gemendo, eu não era muito assim de gemer, de fazer escândalo, eu não era. Mas eu via as outras, uma saia, outra saia e o meu nada. Eu falei “Ué, será que o meu não vai nascer?”. Aí veio a moça me pegou com uma maca, me levou lá, já começou aquelas dores, tinha um médico muito bom um rapaz, era um loiro, cada vez que eu estava com muita dor ele falava assim em grego, uma reza, (faz a reza em grego), cada vez que passava a dor, eu rezava, ele rezava comigo, fazia a reza e depois quando nasceu ele fez assim: “Nossa, que menino bonito! De onde veio a senhora já volta pra fazer mais um desse”, eu falei “Eu volto, volto!”. Me levaram em um quarto que tinha mais quatro camas, quatro parturientes. Passou um dia trouxeram a criança de uma, a de outra e o meu que tinha nascido antes nada. Não sabia falar, tinha um pouco de vergonha também, não tinha jeito. Cada vez que olhava os filhos dos outros, eu fazia assim com o cobertor e chorava. Aí perguntei e o meu? Mas ela fez assim, não sabia onde estava o meu. Falei “Ih, meu Deus, vai ver que...”. Enquanto isso, meu marido não tinha entrado, não sabia se... Sabia que tinha nascido neném e que os dois estavam bem de saúde, mas eles não davam explicações pelo telefone e ele não podia visitar. Só falaram para ele: “Daqui a cinco dias você vem pegar a esposa e o seu filho”. E eu fiquei cinco sem ver meu filho. No quinto dia que nós íamos sair, trouxeram ele para mamar e eu não sabia falar o porquê, não entendi. Aí passou, o médico um dia, ele ficou do lado da minha cama, eu queria falar para ele, aí a moça fez: “Ela não fala”, acho que qualquer coisa assim “Ela não sabe falar”. Aí viraram e saíram, eu já comecei a chorar, não comia. Eles não traziam o Teófilos pra mamar, aí no quinto dia trouxeram. Aí me deram um banho. O meu marido sabia que tinha nascido e trouxe umas roupinhas cor de rosa, pensou que era menina, aí tinha uma touquinha cor de rosa, sapatinho cor de rosa, casaquinho cor de rosa. Eu vesti, e saí, estava com um casal que nós viemos juntos da Grécia, Cátia, você conhece o marido dela? Aí eu saí e comecei a chorar, chorei falando pro meu marido “É homem, Cosmar”, e ele “Não faz mal, eu trago da feira roupa pra homem, não tem problema” (risos). Aí depois começamos a desenvolver um pouquinho, acostumar, começar a falar. Morávamos lá na Vila Pompeia, teve um dia que o Teófilos, meu filho, ficou com desidratação, mas ele ficou tão mal, tão ruim, tão ruim que estava, assim, aquela coisa que ia morrer. Aí foi essa senhora que estava ao lado e que me ajudou para ir na maternidade, me levou e foi na farmácia, explicou para o farmacêutico, que era desidratação, que vomitava, mas era pra fazer na cidade [o remédio]. Eu deixei o filho com ela, o Teófilos, e fui na cidade. Aquilo lá demorou, demorou, quando eu voltei meu filho já estava desmaiado, mais morto do que vivo, aí peguei, cuidei, cuidei, ficou bom. Aí passou uns dias já começou a me doer um dente, doía, doía, eu não aguentava, meu marido tinha viajado pra Caxias do Sul pra vender lenços e umas camisas que eu tinha comprado no Bom Retiro. Eu estava sozinha com ele e começou aquela dor de dente que eu não aguentava, fui na vizinha. Falei “Está me doendo o dente”, mostrei pra ela e ela me pegou pra levar no dentista, mas ele não atendia de tarde, só atendia outro dia. Ela me explicou que era perto de casa, fui sozinha no outro dia, sentei lá na sala, tinha umas senhoras, entrava uma, entrava outra, ele fez sinal para eu entrar e eu entrei. Abri a boca e ele olhou meu dente aqui, ele estava conversando comigo e eu não sabia o que era, de repente veio uma senhora me pegou pela mão e me levou no banheiro, me levantou a roupa para ver se eu estava menstruada, para tirar o dente. Eu fiquei... Eu fiquei perdida, de repente você entra no banheiro com uma outra e ela levanta a sua roupa, eu me assustei. Depois ela fez assim, educada, me levou para ele de novo e me tirou o dente.

 

P/1 – Deixa-me te perguntar uma coisa assim...

 

R – Mais importante, né? Porque eu...

 

P/1 – Não acho que todas as coisas são importantíssimas... Nessa trajetória, quais são as coisas que podem ter transformado sua vida?

 

R – Vou falar francamente, eu não sei se eu estivesse na Grécia, eu, meu marido, meus filhos, eu não como seria hoje. Mas uma coisa que transformou nossas vidas aqui no Brasil, por mais coisas ruins que tenham acontecido, uma coisa foi boa. Primeira coisa, você se encontrar fora de tudo que era seu, de repente, você se encontra em um país que você encontra amigos, encontram pessoas que você vê que gostam de você. Não ligam se você não é daqui, se você abriu loja, ou se você vive melhor ou pior, gostam de você. Aí começa a fazer amizade e essa coisa de você viver sozinha aqui é que faz as pessoas amarem muito, sentirem muito a presença das outras pessoas. Eu sinto isso em todo meio dos gregos, eles gostam daqui, tem uma amizade enorme, uma humanidade enorme, uma coisa humana, torna o coração muito mole, o jeito de você gostar das pessoas. Acho que isso faz as pessoas gostarem de você também. Tem outra transformação...

 

P/1 – Acho que isso é um dado, sem dúvida. Mas na sua vida, dentro da sua trajetória, o fato de ter sido imigrante te modificou a forma de ver a vida, de encarar, o que mais aqui no Brasil te faz transformar sua vida? Que te fez ter uma nova visão? Alguma coisa que tenha sido marcante pra você pra você entender sua própria existência?

 

R – Eu não se...

 

P/1 – O exílio voluntário porque imigrante é isso mesmo...

 

R – O exílio voluntário ou a idade mesmo porque com a idade você se transforma, eu não vou dizer que do jeito que eu penso é o que eu pensava anos atrás, eu não pensava. Depois sinto que o que transformou a vida da minha família, do meu marido e da minha foi esse negócio de nós sairmos da nossa terra e vir para uma outra estranha, mas o que transformou a nossa vida, a dos filhos, do meu marido e a minha foi nascimento de um filho meu que nasceu com problema.  Não sei se isso... Porque isso fez uma transformação muito grande para nós. Em sentido de religiosidade, de humanidade, de compreensão, de poder se dar para os outros, mas quem foi mais que cultivou isso foi o nascimento do (Basílio?) e a idade também que vem, né? Fiquei com uma idade também que a gente aprende muita coisa.

 

P/1 - Você poderia contar um pouco dessa coisa de como é que vocês enfrentaram o problema de ter um filho... Como vocês enfrentaram isso?

 

R - Eu falei para você que eu escrevi tudo isso, a parte que motivou foi mais assim para escrever sobre o meu filho, já começo de lá para cá, né? O que eu falo, como ele nasceu? O porquê?

 

P/1 – Não o porquê não, o filho nasceu era uma criança excepcional, como é que vocês enfrentaram isso? Como você como mãe enfrentou isso?

 

R – Eu me revoltei. Justamente, eu me revoltei, não vou falar do meu marido porque ele foi mais passivo assim do meu lado.

 

P/1 – Foi seu segundo filho?

 

R – Meu segundo, tem 33 anos hoje. Eu me revoltei contra Deus. Quando ele nasceu em Porto Alegre, ele nasceu muito grande, tinha 4 quilos e 800 gramas, quando passou a cabeça, eu desmaiei, ele ficou sem oxigênio, até eu voltar, até sei lá o que, já tinha acontecido, quando saímos do hospital, os médicos falaram para o meu marido “Olha, vocês têm que cuidar para procurar um pediatra muito bom, sei lá, o que, porque acho que o seu filho está com problemas”, mas o meu marido não me contou nada porque sabia que seca o leite, que o emocional mexe com a estrutura da parturiente, eu não sei, ele não me contou nada, eu estava levando o (Basílio?) lá para o médico e o médico achou que ele tinha qualquer problema no coração, tinha sopro. Foi um tempão, naquela coisa assim que levava, aí chamava... Ele era professor... Chamava os alunos de medicina, sei lá, e todo mundo achava que tinha sopro, que o coração tinha problema, mas enquanto isso com um ano e meio de vida de vida de (Basílio?), nasceu o (Stomates?), e ele já começou a evoluir muito mais rápido, de sentar, de falar, não sei o que, e o (Basílio?) estava sempre mais... Pra sentar, pra falar, ele não falava, ele era quietinho, dormia, não incomodava, mas também não... Aí esse médico professor, era pediatra, mas tinha um curso de cardiologista, comandava, não sei. E falou que se ele fizesse três anos, tinha que fazer um cardiograma. Então, eu fiz uma promessa na Igreja que tem lá nas fotos da Nossa Senhora da (Vida Eterna?), da minha cidade, eu fiz uma promessa que se não tivesse nada no coração, eu ia mandar o meu anel de noivado. O médico falou que não tinha nada no coração, que tinha fechado o sopro, né? Aí eu fiquei alegre, assim, alegre, alegre vendo que do outro lado ele não evoluia. Aí nós ficamos por lá em Porto Alegre, que nós fomos pra Caxias do Sul, depois fomos para Porto Alegre. Eu não contei que nós fomos pra Porto Alegre depois, eu pulei essa página. Meu marido como trabalhava em Caxias, arrumou uma lojinha lá, então foi eu e o seu Teófilos que era pequenininho, eu não estava grávida do (Basílio?) ainda e a minha irmã que tinha chegado da Grécia a Sia, e fomos lá em Caxias, depois de Caxias do Sul, eu fiquei grávida do (Basílio?) e descemos para Porto Alegre que meu marido começou a trabalhar na feira lá de Porto Alegre, aí que ele nasceu. Pulei esta página. Quando o (Basílio?) nasceu, aconteceu tudo isso que falei e o meu marido viu que ele não estava evoluindo, que ele não estava ativo. E foram dando errado as coisas que fazíamos lá, abrimos uma loja e não deu certo, aí íamos voltar para São Paulo. Eu falei “Sabe de uma coisa? É bom que nós vamos voltar pra São Paulo porque aí vou cuidar melhor do (Basílio?), porque aqui eu não sabia, lá deve ter mais coisas pra cuidar, pra ver qual é o problema dele”. Ainda não tinha conscientizado que talvez ele tivesse um problema, nós viemos aqui... Eu precisei trabalhar, abri uma oficina de costura, tendo que trabalhar com ela e deixamos os três no Parque da Estação da Luz, aí a moça que tomava conta lá, a diretora, me avisou “Olha, a senhora já notou que o (Basílio?) tem alguma coisa que não acompanha”. Eu fiquei assim porque “Os (Tomates?) chama ele, o Teófilos chama ele, mas ele não brinca, só fica parado”. A senhora o leva lá, pra fazer um teste pra ver o que está acontecendo”. Aí levei, não lembro o endereço, fizeram um teste para ele, passou uns dias, fui lá de novo, conversei com eles, eles me falaram que ele tinha um problema que ele tinha, naquele tempo, tinha 6 anos, me parece 6 ou 7 anos uma coisa assim, mas ele estava pensando como qualquer coisa de 3 anos. Voltei pra casa e pensei “Eles não sabem do que estão falando”, sabe aquela coisa que você se dá uma coisa? “Ah, eles não sabem de nada”. Passou um tempinho, aí me indicaram outro que fui levar, acho que era na Vila Pompeia, não lembro, eu levei lá... Não, era lá em Pinheiros, o primeiro era na Vila Pompeia e o outro lá em Pinheiros, que ele tinha um problema que ele já estava com oito anos, mas tinha a mentalidade de cinco. Aí peguei o (Basílio?) pela mão, voltei, peguei o ônibus e ficava me mordendo para não chorar, que não fazia assim. Cheguei em casa, caí na em cima da minha cama e comecei, mas gritava, gritava de dor. Aí chegou meu marido com meu cunhado, que é marido da minha irmã, ele falou “Oi, Maria, o que você tem de comida, que tem visita”, eu falei: “Você só pensa em comer, você não pensa nada na vida que sua vida é só comer, comer”, comecei a gritar, sabe? Ele falou: “Mas o que aconteceu?”. Eu falei: “Nada aconteceu e que pra mim não existe Deus”, eu tanto que era devota pra Nossa Senhora, falei “Não existe mais nada, pra mim, se eu morrer hoje, vai ser a melhor coisa que vai me acontecer”. Aí o Teófilos, que era o mais velho, disse “Não faz assim, mama”. Aí eles falaram: “Olha, uma coisa que tem que fazer, procurar uma escola, nós vamos encaminhar a senhora, mas a senhora como é estrangeira não fala duas línguas dentro da sua casa, para não atrapalhar”. Aí que eu dei uns berros mesmo “Me proibiram de falar minha língua”. Era uma coisa que me dava “Onde é que está esse Deus que eu fico rezando pra ele”, não xinguei, não foi assim de xingar, foi revolta. Aí passou uns dias, eu sentei, pensei, falei com meu marido, aí começamos a procurar, nós botamos ele no Alarico, uma escola que era pra crianças excepcionais, mas parece que ele não se dava bem. Aí depois de muita luta ele entrou na Pestalozzi, que tinha a Pestalozzi aqui na Alameda (...). Foi a Sonia Ribeiro, aquele tempo, que tinha me dado uma carta, nós fomos no canal 7 procurar por ela, ela me deu uma carta para eles arrumarem uma vaga aqui. Só que o (Basílio?) tinha que entrar de manhã e sair à noite. Ele entrou lá dentro, tinha nove anos por aí, ele era tão de dentro de casa, acostumado com carinho, ele foi lá e toda noite ele voltava cheio de pontapé, com as pernas todas machucadas. Eu pegava para dar banho, eu chorava. Aí de manhã, ele não queria ir pra escola porque tinha que fazer marmita, fazia a marmita dele e levava lá. Mas aqui na Pestalozzi eles tinham uma coisa que ele aprendia a ler e a escrever e eu achava muito importante isso, ele chorava de manhã. Arrumei um amiguinho dele, que era um pretinho, que era pobrezinho, aí eu falava “Você vem em casa pra gente ir junto”, ele ia em casa, uma vez eu tinha um dinheirinho, ele roubou porque acho que estava precisando (risos). Aí depois acho que ficou com vergonha e não foi mais em casa. Aí o (Basílio?) ia todos os dias, todos os dias apanhando, todos os dias chorando porque não queria, não queria. Então, eles fizeram um tipo de APM lá dentro e eu entrei lá pra trabalhar. Eu trabalhava, fazia bazar, as coisas assim para vender dentro da escola, pra ajudar a escola e foi assim, pra ficar mais perto, pra conhecer as pessoas. Fazia uniformes, fazia aventais, eu costurava, levava na oficina ficava sábado e domingo costurando para levar para nós vendermos. E ficou lá três anos, aprendeu ler e escrever, um pouquinho, né? Aquele pouquinho que aprendeu foi lá, quando ele saiu de lá, já não tinha mais assim, porque fazia qualquer coisa de profissão, mas era muito pouca coisa. Quando saiu de lá acho que tinha 12, 13 anos, aí começamos “O que vai fazer agora?”. Aí não me lembro quem nos indicou que tinha uma assistência da APAE aqui perto de Santana, aí eu fui lá, conversei, levamos o (Basílio?) lá, fez um teste. Ele entrou lá dentro, ia de manhã, voltava à noite, depois eles trabalhavam lá dentro, eram oficinas protegidas, assim ele trabalhava, nós pagávamos um dinheiro e eles pagavam um dinheirinho pra ele também pra... Quando o (Basílio?) tinha dezessete anos, sofreu um acidente, ele tinha voltado lá da APAE, comeu, desceu lá embaixo pra ver um amigo, que era de uma loja grega, ele ia atravessar, ele não atravessou, mas subiu um carro em cima da calçada e pegou ele. Aí me chamaram, eu corri lá embaixo, a policia já tinha pego ele, eu corri na sinaleira, não sei como não caí, né? Aí peguei, entrei junto com eles, ele levou uns oito pontos na cabeça, tinha uma estopa, aquelas que faz o pacote da loja, toda ensopada e caindo sangue, eu vi só aquilo. Levamos no pronto socorro, aí fui pra pegar, pra dar o pronto socorro pra ele, e ele virou o pé dele, tinha saído o joelho do lado e tinha quebrado o pé aqui. Não tinha lugar lá, botaram em uma ambulância, levaram pra um outro hospital, fizeram um tratamento... Aquele tempo tinha na... Como chama? Onde tem o Matarazzo? Que tem aquele... Onde tem Água Branca? Mais pra lá tinha o Fraturas da Lapa, alguma coisa assim, então levamos lá, ele entrou lá dentro, eu fiquei lá fora, eles entraram com os médicos. Os meus óculos estavam cheio de sangue, eu não tinha reparado, eu pensei que tinha ficado cega, eu não enxergava e chorava, chorava o desespero pelo meu filho e não enxergava. Aí falei “Vai ver que essa emoção me deu uma coisa”, aí vem um médico e falou “Não chora, não faz assim”, aí eu falei: “Não é que eu estou ficando cega”, aí ele “Não, vem aqui comigo”. Ele viu que os óculos estavam cheios de sangue, ele falou pra tirar os óculos, aí falei “Ué, estou enxergando bem”, aí eu vi estava no relógio, nas minhas mãos, eu não tinha reparado que estava com tanto sangue assim. Depois, eu já tinha deixado aviso lá em casa, né? Eles procuraram, era conhecido o policial que tinha nos levado e avisou a minha família, e foi todo mundo pra lá. Aí ficamos a noite toda no quarto esperando que o (Basílio?) saísse, mas acontece que ele estava em observação, eu saia lá e falava: “E o meu filho, cadê meu filho?”, “Não, está em observação”.  Eu falei: “Meu Deus, já morreu”. Quando tinha passado à meia noite eu saí lá gritando: “Cadê, meu filho?”, “Não tem nada, a senhora não fica preocupada, eu já falei com a senhora”, “Mas eu quero ver, eu quero observar ele”. Aí quando eu estava gritando assim, eles foram trazer ele pra cima, aí começou a chorar, ele chorava, queria ia pra casa. Foi a (Catina?”), foram as crianças dela, ele falava “Eu quero sair, quero ir com a minha tia”. Ele ficou uns cinco dias lá, voltou pra casa, ficou uns três meses no gesso. Quando ele ficou em casa, passava o Campeonato do Brasil com os de fora. Ele ficou um tempinho dentro de casa, não queria voltar pra escola. A assistente social veio em casa, eu falei “Não, (Basílio?), você tem que voltar”, ele falou “Não, eu não vou, lá só tem crianças bobas, eu não quero voltar lá”. Aí eu e meu marido tínhamos a loja, eu disse: “Como você vai fazer?”, “Eu vou trabalhar com meu pai”. Aí ele começou na loja, foi indo muito bem, depois nós vende... Depois ele já trabalhava na loja e tinha o aniversário do Johnny, uma vez no sítio, você sabe onde é, né? Aí foram todos os meus filhos, no sítio de aniversário, íamos ficar à noite e íamos no outro dia. Aí um menino que mora lá Atibaia falou “(Basílio?), vamos lá buscar a cerveja que acabou?”, ele falou “Vamos” e foram. Ele tinha bebido um pouquinho de cerveja, pegou uma curva não sei de que jeito e caíram lá pra baixo com o carro. De madrugada, eu vejo o (Tomates?), abriu meu quarto, que estava sempre aberto e disse assim: “Mãe, cadê o (Basílio?)”, aí eu falei “Tá aqui”. Eu ouvi de madrugada, chamar ‘mama’, alguma coisa tinha acontecido, eu fui lá e vi o (Basílio?), aqueles vidros do carro tinham pipocado ele de sinais, eu tinha levado pro Hospital das Clínicas, tiramos chapa, não tinha nada, mas parece que estava todo ensanguentado. Pegaram o Johnny, levaram no banheiro, a roupa dele estava toda manchada de sangue, deram um banho. Ele estava deitado, chegou toda a turminha grega, com doce, com biscoito, com coisas que ele gostaria, todo mundo com carinho. Aí passou, depois começou trabalhar com (Tomates?), que meu marido fechou a loja.

 

P/1 – Ele está até hoje?

 

R – Ele está indo bem, ele tá com a psicóloga que vai uma vez por semana, na psicóloga ele faz terapia e informática, eles tem computador, eles fazem as lições no computador e trabalha com (Tomates?), vai no banco, cobra as coisas, mais, assim, um ajudante.

 

P/1 – Deixa-me te perguntar uma coisa. Você falou que escreve, falou de três artigos que você escreveu, como era o título que você falou?

 

R – Perguntando e respondendo, acabei envelhecendo.

 

P/1 – É, do que se trata?

 

R – Se trata de todas as dúvidas que cada um tem, não são nossas, são minhas, assim, tanto que por fora está escrito assim “coisas minhas”, eu escrevi em grego e traduzi em português. Essa é uma dúvida que sempre todo mundo tem, que Deus fez Adão e Eva e eles tiveram Caim e Abel e um matou o outro porque sei lá o quê... Então como que vem esse mundo de hoje se só ficou Adão e Eva e o... Caim porque o Abel já morreu, foi o Caim que matou, né? Ou filho foi com a mãe ou... Aí já dou a explicação do jeito que eu acho. E pense como o alfabeto, é um tema no A, no B, depois tem muito da religião por dentro, sobre religião, sobre política, sobre porque que Deus deu as dores para mulher e não para os dois. É uma pergunta assim...

 

R – O que você respondeu?

 

P/1 – Eu respondi, eu começo assim brincando, né, que acho que Deus gostava mais do Adão do que a Eva, tanto que só sobrou uma costela e foi fazer a Eva, coitada, com a costela do Adão. Acho que foi proteção, mas depois eu já vi que não é proteção porque eu acho que homem não aguenta. Se o homem tivesse um filho só, se tivesse as dores do parto, acho que ia ter um filho só. Ou então os outros homens não iam ter nenhum, se viesse o segundo ia ser só por acaso, ou azar. Não ia ter mais.

 

P/1 – Verdade.

 

R – Eu escrevi que, uma vez, umas mulheres se juntaram todas para ir reclamar para Deus: porque as dores do parto para elas e não para o marido. Aí o marido falou assim “Vocês tem razão”, então quando nasceu a criança as dores se dividem entre o pai e a mãe. Aí a mulher já estava com as contrações, né? E o marido esperando, esperando e nada de vir as dores. Ai o vizinho já começa a ter contração (risos). Aí as mulheres quando viram isso, falaram “Ô, meu Deus, deixa do jeito que tá, que é melhor” (risos). Eu escrevo esse tipo... Brincando, né?

 

P/1 – Deixa-me perguntar, alguma brincadeira da sua infância?

 

R – Brincadeira da minha infância que fazia muito na minha casa, eu tenho um irmão que ele é oficial do exército, nós estávamos dormindo, ele pegava uma agulha grossa com uma linha e costurava a parte de cima com a parte de baixo e a nossa roupa junto, quando acordava saia o cobertor, saia o colchoado.

 

P/1 – Uma receita grega.

 

R – Doce, comida?

 

P/1 – A que a senhora mais gosta de fazer.

 

R – Tiropita.

 

P/1 – O que é a tiropita?

 

R – É uma massa folhada, pega o queijo fresco, amassa o queijo, bate o ovo junto, faz um pouquinho de creme, mingau, bota um pouquinho de sal, um pouquinho de pimentinha, um pouquinho de manteiga... Margarina e faz uma massa, coloca a massa folhada por baixo com manteiga na forma, coloca queijo dentro, fecha ele bonitinho, bota outro por cima, coloca no fogo e come. Fica muito gostoso, do mesmo jeito pode colocar espinafre também, junto com essas coisas todas, espinafre, um pouquinho de hortelã pra pegar o cheirinho, cebolinha, salsinha, aí mistura com aquela massa do queijo e fica muito gostoso também. Já dei duas (risos).

 

P/1 – Eu queria perguntar qual seu sonho hoje?

 

R – Meu sonho seria a respeito do (Basílio?), mas a vida já me mostrou que não posso sonhar muito alto também, né? Assim seria meu sonho, de outro jeito, se meus outros filhos casassem que as esposas e o esposo da minha filha tivesse um amor com cuidado. Meu sonho maior seria se eu morrer, meu marido também, (Basílio?) não encontrasse dificuldade na vida. Graças a Deus, o resto meus quatro filhos, o (Basílio?) está bem encaminhado, os outros muito melhores, eu não posso me queixar, são bons filhos, tenho um marido que é ótimo, bom marido, bom pai. Sonhar com dinheiro não quero porque não é meu caso, nunca sonhei assim, tanto que uma vez, quando eu era moça, que todo mundo sonha... Aí tinha uma amiga minha que trabalhou, trabalhou, ganhou muito dinheiro, muito mais rápido que nós que trabalhávamos e não ganhávamos nada, não estou recriminando, né, mas os filhos dela já saíram da linha para certas coisas, aí eu rezei “Ai meu, Deus. Se for para um dia me lamentar dos meus filhos, é melhor nunca me dê dinheiro, me dá o que é preciso pra sobreviver, mas nunca me dê demais se for pra estragar meus filhos”. Aí não tenho sonhos, meu sonho é aquele pouco.

 

P/1 – O que você, que já tem uma vivência razoável, teria para dizer aos mais jovens.

 

R – Para vocês?

 

P/1 – Não (risos). Bem mais jovens.

 

R – Olha, eu acho que pra dar um conselho para os moços de hoje, tem que pensar muito, porque eles sabem muito mais coisas do que eu sabia no dobro da idade de vocês, se a vida me ensinou alguma coisa, a facilidade que vocês tem de aprender, de estudar, de fazer tanta coisa junto, acho que ensinam muito mais. O meu seria assim: a vida sem crença em Deus e sem amor à família, acho que não é válida. Pra mim, Deus e família são duas coisas que devem ser preservadas.

 

P/2 – Mais alguma pergunta?

 

P/1 – É isso. Muito obrigada.

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