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História

Uma estrada de ferro

História de: Hélvio Augusto Pichamone Cândido
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Hélvio conta sobre a infância, o interesse nos programas de rádio, as brincadeiras e as diversas mudanças que fez por causa do trabalho de seu pai. Fala sobre o curso de Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a entrada na Vale através de um concurso. Dá destaque para os trabalhos feitos pela Vale, como, a participação no departamento de estrada de diversas cidades e a ampliação do Porto de Tubarão, além das viagens para o exterior pela empresa.

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História completa

P/1 - Paula Ribeiro

P/2 - Eliane Barroso

R - Hélvio Augusto Pichamone Cândido

 

P/1 - Boa tarde, Sr. Hélvio.

 

R - Boa tarde.

 

P/1 - Eu gostaria de começar o nosso depoimento pedindo que o senhor nos dê o seu nome completo, o local e a data de nascimento, por favor.

 

R - Tá. Nome completo: Hélvio Augusto Pichamone Cândido. Eu nasci em Manhuaçu, Minas Gerais, em 11 de outubro de 1940.

 

P/1 - E dos seus pais, por favor.

 

R - Meu pai, Augusto Cândido Júnior, e minha mãe Neusa Pichamone Cândido.

 

P/1 - E os avós, o senhor conheceu os avós, lembra um pouco deles? O nome deles e a origem, por favor.

 

R  - É, eu conheci o pai do meu pai já velhinho, né, eu o conheci, Augusto Candido o nome dele, e a mãe de meu pai eu não conheci, conheci a madrasta dele, mas a mãe dele era Deolinda, vovó Deolinda, eu não conheci. Do lado da minha mãe, meu avô como um bom libanês, né, ele viveu até quase 100 anos, então eu tive a oportunidade de conviver bastante com ele e ser influenciado por ele também, era o mais próximo de mim. A mãe de minha mãe também, ela faleceu cedo e eu não a conheci, D. Maria.

 

P/1 - E essa origem libanesa, o senhor conhece um pouco a história de quando esse avô veio, por que veio, e a origem do seu nome?

 

R - Bem, eu conheço. Diria no final do século passado, no início, no passado não... Lá pro XIX, final do XIX, início do XX, havia como sempre no Líbano... Naquela região sempre foi de muito conflito, né, e dentro dessa problemática toda, inclusive, dizem que ele fazia parte da família imperial, família real ou qualquer coisa assim. Esses dados eu não tenho muito, mas era alguém de alguma importância. Eles vieram, vamos dizer, fugidos, tanto é que houve o problema do nome, nessa ocasião, né, ele chegou junto com irmãos e tudo mais, ele pronunciou o nome dele pra alguém, deve ter vindo de navio provavelmente, acho que sim, então ele disse o nome dele Islamão Gabriel ______, a pessoa lá entendeu, Salomão Gabriel Pichamone, então esse Pichamone é mais ligado a toda essa família ____ que tem por aí, espalhada no Brasil. Então essa é a origem de um dos lados. O outro, pelos nomes e por algumas pesquisas que a gente fez, esse Cândido, as primeiras informações são ali da Península Ibérica, pega a Espanha, fala-se toureiro, e Portugal também. Então esse é o entendimento que a gente tem, assim, da origem.

 

P/2 - E você sabe como os seus pais se conheceram, conhece a história?

 

R - É, meu pai nasceu em São João Del Rei, ele teve  uma temporada em... Quando chegou numa certa idade - o pai dele era marceneiro [e] não tinha muitos recursos em São João Del Rei, naquela época, [então] os filhos normalmente saíam -, e ele saiu cedo. Ele veio pro Rio, ficou morando com o meu tio, o meu tio era o Basílio de Magalhães, ele era escritor, historiador; Me impressionava muito porque ele falava sete línguas, inclusive, o tupi guarani. O meu pai teve uma passagem com ele aqui no Rio de janeiro, trabalhou. Depois foi pra Belo Horizonte, trabalhou qualquer coisa ligada a imprensa já naquela época e, de repente, ele se viu como bancário. Ele foi pro banco Hipotecário de Minas Gerais, naquela época, ele foi pra Carangola. Foi, Carangola. Então foi aí que ele conheceu minha mãe. Eu me lembro que a gente comemorou, fizemos [a festa de] 50 anos de casados [para eles], fizemos festa, 60... Foi [há] um bom tempinho. Até 60 eu me lembro, mas passou disso. E depois, ele teve uma passagem por Ponte Nova também como bancário....

 

P/1 - Casado, não? Casado?

 

R - Já casado. Nasceu meu irmão mais velho, que está hoje com 70 anos.

 

P/1 - Vocês são quantos irmãos?

 

R - Nós somos quatro. Uma já se foi. Esse mais velho mora aqui no Rio, inclusive, então... Nasceu em Ponte Nova, depois ele volta a Carangola como bancário. Aí já no Banco do Estado - antigamente era Banco Mineiro do Café, era muito voltado pro café, depois mudou pra banco mineiro da produção, finalmente Bege e hoje pertence ao Banco Itaú. Passou essa temporada em Carangola, de Carangola foi pra Manhuaçu, foi onde eu nasci. Acho que morou por volta de 12 anos mais ou menos em Manhuaçu.

 

P/1 - Manhuaçu é região de café, né?

 

R - É, região de café, região rica em café. Naquela ocasião, vários bancos tinham agências, apesar de ser uma cidade pequena, mas ela [a cidade] era muito importante no contexto de café de Minas Gerais. Hoje voltou a ter uma produção muito grande também e de excelente qualidade. Eu li há pouco numa revista, uma revista especializada nessa área, de um prêmio mundial que uma família de lá que tem uma fazenda de café ganhou, foi um primeiro lugar em determinado assunto na qualidade do café. Manhuaçu voltou a ser importante.

 

P/1 - O senhor tem um irmão mais velho...?

 

R - Ah, sim, ele tá aqui. A outra, ela se foi há uns seis anos mais ou menos - eu perdi minha irmã - e tem uma outra que vive hoje em Belo Horizonte, essa foi na passagem de Caratinga. Então foi, ele marcava, eles marcavam...

 

P/1 - Os territórios...

 

R - ...os territórios. Ponte Nova, Carangola, Manhuaçu e Caratinga. Daí pra frente, eu acho que eles cansaram porque os períodos não foram muito longos não, então eu fiquei em Manhuaçu e fomos logo pra Caratinga onde ela nasceu. Sai de Manhuaçu com sete anos, me parece.

 

P/1 - Como é que foi um pouco a sua infância em Manhuaçu, _______?

 

R - Foi muito gostosa, só vem coisa boa, porque a gente tá falando aí de 1940 até 47 mais ou menos, as casas com quintais grandes, pomar, horta e bichinhos. Todo mundo tinha tempo pra tudo, não tinha “stress”. A rua, brincava na rua todo dia. Tinha as obrigações de colégio naquela época, mas o resto era uma festa.

 

P/1 - E que brincadeiras vocês faziam?

 

R - Todas as brincadeiras de rua: de pegar, de jogar bola, de patinete, de carrinho de rolimã, de madeira, enfim. E a gente tinha que ter uma criatividade muito grande, porque não tinha televisão pra dizer o que é que eu devo fazer. Tinha o rádio naquela época, o rádio já despertava uma certa curiosidade na gente por causa dos pais, eles ouviam lá sua novela, o seu programa cômico - Chico Anísio já existia - e tinham aqueles programas mais juvenis, vamos dizer assim: - não era nem infantil - “Jaguar”, “Capitão Atlas”, “Jerônimo, o herói do sertão” e por aí, preliminar do “Direito de Nascer”.

 

P/1 - E a família se reunia pra ouvir esses programas de rádio?

 

R - Cada um na sua. Eles ouviam lá a sua novela e um grupo de meninos... Ou a gente tava na rua conversando, brincando, qualquer coisa naquele momento. A gente ia pra dentro de casa ouvir, era uma meia hora ou mais, mas era interessante até chegar a hora de dormir.

 

P/1 - Qual é o programa que mais marcou, que você...?

 

R - De rádio? Eram esses seriados. É claro que tinha o “Balança Mas Não Cai”, que meu pai ouvia. Era gozado, a gente ia também, mas os principais eram esses programas “Jaguar”, “Capitão Atlas” e por aí, os nomes que eu me lembro. Era interesse a gente imaginar, fazia aquela fantasia toda, porque não tinha o que ver, mas era legal. E nessa fase, eu me lembro assim, principalmente, do período em que morei em Caratinga, aí já vai pra fase de 7, 8, 9 até quase 10 anos, né, então a coisa já vai mudando um pouquinho também, o tipo de brincadeira muda. Caratinga era uma cidade de bicicletas e de patins, então botava os patins no pé de manhã e tirava de noite, andava de bicicleta, de patins... Ah sim! Aprendi a correr de bicicleta lá, foi meu primeiro esporte de competição em Caratinga foi bicicleta. Me parece que até hoje...

 

P/1 - Como eram as bicicletas de corrida, eram diferentes, eram...?

 

R - Não eram bicicletas comuns, não tinha muita bicicleta de corrida. Não havia muita facilidade naquela época, era tudo importado. Eu me lembro que a minha era uma japonesa, KKK, provavelmente “Kawasaki”, não sei, eu não me lembro, mas eu era pequenininho e a gente já mexia com aquilo. E tinham os treinos, às vezes na estrada, antiga Rio-Bahia, e na cidade havia competições, vinha gente de fora competir no aniversário da cidade. Eu me lembro de um cara chamado Peixoto que era do Flamengo... E Caratinga tinha uma ligação muito forte com a família do Ziraldo, porque o pai dele era gerente de banco também, e o Zélio é um grande amigo meu, até hoje a gente se lembra um do outro. Então eu cheguei [até] aí pra lembrar das brincadeiras, porque eu esqueci de falar de outra diversão que eram as matinês aos domingos, tinham os cinemas, tinha a, lá, matinê nos domingos e tinham os seriados. A gente acompanhava as séries “Flash Gordon”, “Minhoca”, enfim, tinham grandes faroestes, “Zorro”. Então, chegando no “Zorro”, que o Zélio um dia resolveu repetir na casa dele a caverna do Zorro e tudo mais: tinha um barraco lá na casa dele que era a caverna, tinha lá o bandidão “Dom Del Oro” que aparecia lá, então essa foi uma brincadeira bem marcante. Caratinga, então, me chama atenção por esses fatos... Já começando a jogar bola também, que era meu esporte favorito.

 

P/1 - E deixa o ciclismo ou não?

 

R - Deixei o ciclismo no momento que eu saí de Caratinga e meu pai foi transferido pro Rio. 

 

P/1 - Aí vocês vieram morar, então, no Rio?

 

R - Aí viemos morar no Rio, 1950. A cidade tava meio triste ainda pela perda da Copa do Mundo, mas...

 

P/1 - Você chegou no momento depois da Copa?

 

R - Foi logo após. Chegamos, acho que foi em setembro. Meu pai veio com meu irmão assistir à choradeira final, mas eu vim logo depois.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - Acompanhava, né, ela era a eterna dona de casa, cuidava de tudo e de todos. Meu pai vivia exclusivamente pro banco, porque ele era gerente de banco. Então, naquela época, a postura do gerente era diferente de hoje: era um único gerente que tomava conta daquilo tudo, que tinha que prestar contas a todos.

 

P/1 - E onde você veio morar aqui no Rio?

 

R - Ah, nós fomos morar em São Cristóvão. Foi um impacto muito forte porque, um flamenguista morar do lado do Vasco era duro. (risos)

 

P/1 - Já nessa época. (risos)

 

R - Apesar de que o meu colégio, (Sileno?), ali na rua São Januário... Não, mas tinham muitos. A minha turma era mais ou menos empatada. Mas a gente era obrigado a ter ligação forte com o estádio do Vasco, porque lá que a gente fazia as festas do colégio. Aquilo tudo, frequentava muito aquela região. Eu estava até comentando com um motorista que me perguntou uma coisa hoje: “O que é que era o Rio de Janeiro naquela época?” Era um negócio fantástico. Porque eu com 10 anos, saía de casa [e] a gente brincava de pegador ali, ia parar lá na barreira do Vasco, de noite, ia pra Quinta da Boa Vista - eu tinha ali perto da minha casa os estádios, três estádios, praticamente, e não tinha o menor problema. Ah, o malandro! O malandro tomava conta de criança. Malandro... A de quem encostasse o dedo em uma criança, e tivesse um chamado malandro ali perto, quer dizer, não tinha violência, não tinha perigo, não tinha nada, tinha pouco carro, bastante, mas pouco, dava pra jogar bola na rua, a gente tinha bola, todo dia jogava bola na rua.

 

P/1 - E por que é que você escolheu ser Flamengo, morando bem em São Cristóvão?

 

R - Isso aí, meu pai era botafoguense doente, mas eu tive um tio que... Irmão de minha mãe, mais doente do que ele pelo Flamengo, então ele levou meu irmão no embalo. E, nesse período de entendimento de menino, o Flamengo era muito bom naquela época, teve um tricampeonato no início da década de 40. Ele levou meu irmão na conversa, e eu nasci 10 anos depois dele, ele não deixou por menos, [então] o velho perdeu a briga. Ficava naquela dúvida inicialmente, mas depois eu pude escolher. Não me arrependo de ter escolhido não. (risos) 

 

P/1 - Ainda mais hoje _______, né?

 

P/2 - Vocês iam aos jogos, iam ao Maracanã?

 

R - Eu não saía do Maracanã.

 

P/2 - Algum jogo que te tenha marcado muito?

 

R - Nessa época? Puxa vida, nessa época? 

 

P/1 - Teve outro tri depois de 50.

 

R - Teve mais um e mais outro. São uns quatro, já perdi a conta. Olha, nessa época, eu me lembro um fato marcante, foi um time do Uruguai que veio aqui e jogou contra o Vasco - eu não me lembro se foi seleção ou se foi alguma coisa, né -, e a gente foi lá assistir. Nas primeiras vezes que eu fui no Maracanã, tinha qualquer coisa que falaram: “O Uruguai veio aqui pra buscar a taça”, mas não era nada disso, foi um jogo qualquer. Lembrando de Carangola, o _____ era daquela região, ele era jogador do Vasco, foi jogador da seleção brasileira, então a gente fazia questão de vê-lo, né, mas eu não me lembro de algum que tenha marcado profundamente.

 

P/2 - Mas você ia ao Maracanã com seu pai ou ia ______?

 

R - Nessa época, eu ia com meu pai, ia com pessoas, assim, não só o grupinho, porque a gente estava na faixa de 10, 11 anos, não dava muito pra ir sozinho. Podia até ir, cheguei a ir com [os] meninos, mas normalmente com meu pai e meu irmão.

 

P/2 - E a praia, vocês iam à praia?

 

R - Pois é, a praia ficava longe de São Cristóvão, meu pai não tinha carro, e a gente ia de ônibus, então era uma viagenzinha bem interessante. Às vezes pegava dois ônibus, ia pro Leme, até que tinha um [ônibus] Méier-Lêmen que passava ali na cancela, que dava pra ir direto, mas, às vezes, a gente parava ali na cidade [e] pegava um gostosão daqueles, aquele ônibus grandes, importados, um Lins Vasconcelos da vida. Mas praia nunca foi assim um negócio que mexia muito com a gente. Não sei se essas raízes mineiras... Talvez se morasse em Copacabana, mas também acho que não porque voltei pro Rio depois [e] morei em Laranjeira pela Vale do Rio Doce, não havia um interesse muito grande em ir a praia não, mesmo em Vitória...

 

P/1 - Quanto tempo você passou em São Cristóvão?

 

R - Em São Cristóvão? Foram dois anos, meu pai veio, ele assumiu a gerência de uma... O banco comprou naquela época uma companhia de armazéns de café e ele veio gerenciar, aí, depois, ficou durante um período - não sei porque motivo ele quis retornar ao banco, acho que ele se sentia melhor lá -, aí foi pra uma cidadezinha no interior de Minas chamada Guarani, quer dizer, aí eu já mudei, Manhuaçu, Caratinga, Rio e Guarani, aí já foi a quarta. Começou, aí já começou a embolar o meio de campo, não começou a me agradar muito, a saída do Rio foi meio traumática pra mim. Eu adorava o Rio de Janeiro, gosto muito, do jeito que ele é mesmo. Tem algumas restrições hoje, mas... Eu saí daqui empurrado, eu não queria sair, mas eles acharam que eu era muito novo pra ficar, com 11 anos, ia começar o ginásio naquela época, Pedro II, ali pertinho de São Cristóvão. A tendência era ter ido pra lá, mas a coisa mudou toda, aí fomos pra essa cidade no interior lá em Minas, na Zona da Mata.

 

P/1 - Como que era a vida de vocês lá?

 

R - Lá em Guarani? É uma cidadezinha muito pequena, quer dizer, era aquele negócio: você tinha que ter criatividade pra fazer as coisas, muito futebol - não tinha outro tipo de esporte no lugar pra se fazer -, alguns passeios assim numa fazenda, outra de um amigo, já começa a pintar as primeiras namoradinhas nessa época, mas é uma cidade bem pequena, sem recursos, viajava nas férias. Eu fiquei dois anos estudando lá, quando meu pai resolveu me colocar no colégio interno. Como todo pai faz questão de uma boa educação, de um bom colégio, e perto ali alguns rapazes dessa cidade estudavam em Viçosa, no colégio de Viçosa, onde tinha uma universidade fantástica. Tem ainda, não é, de agronomia e veterinária.

 

P/1 - Era um colégio religioso?

 

R - Não, não, era particular, internato. Minha primeira experiência, minha primeira saída de casa, eu tinha o quê? 12, 13 anos.

 

P/1 - Então, como funcionava a escola, você...

 

R - Era internato mesmo.

 

P/1 - Internato mesmo?

 

R - É, eu morava lá, e sempre que possível ia em casa. Naquela época, o transporte era de trem, os trens funcionavam, por incrível que pareça, então tinha um trem que saía do Rio, ele subia a Serra de Petrópolis, chegava em Três Rios [e] ele desmembrava, uma parte ia pra Manhuaçu e outra pra Ponte Nova. E quando eu vim pro Rio, (que é que foi gente?) nós fomos à Carangola. De Carangola, esse trem passava, e viemos de trem pro Rio. Mas era interessante, andava o dia inteiro, chegava aqui de noite. Entre Viçosa e Guarani tinha esse trem, então sempre que possível a gente fazia essa viagenzinha gostosa, inclusive, e a vida de internato era aquilo, você começava desde cedo [a] ter as suas responsabilidades, né? Regime de internato, não vou dizer que era um regime forte, mas a disciplina era um item que deveria ser levado a sério. Esse colégio era só masculino, tinha o das meninas lá, normalmente colégio de irmã, né. Mas, então, foi essa experiência de fazer as coisas, de arrumar as coisas, de controlar, de arrumar a cama, enfim, bem interessante. Eu gostei.

 

P/2 - E quanto tempo você passou em Viçosa?

 

R - Em Viçosa foi um ano, porque... Aí vem outra mudança de cidade... Abriram uma agência do banco numa cidade chamada Mantena, em Minas também, era a zona contestada ali com o Espírito Santo, era zona inclusive perigosa, eles contam alguns casos, porque eu não fiquei lá, eu fui chegando lá, ele logo procurou também nas proximidades um bom colégio, e eu continuei num internato, dessa vez em Governador Valadares. Aí de -10º pra 40º mais ou menos, lá era uma cidade quente, à margem do Rio Doce, [e] Viçosa era muito frio. Então continuou aquela experiência, só que entre Mantena e Valadares a coisa já era um pouquinho mais complicada, estrada de terra, de ônibus, mas dava pra ir de vez em quando. Também em Mantena, procurava me entrosar com o pessoal de futebol pra jogar bola no time de lá.

 

P/2 - Você tinha quantos anos?

 

R - Hum... 14 anos.

 

P/2 - E, nessa época, já tinha alguma expectativa, o desejo de seguir alguma profissão? O fato de ter ficado perto de pessoas da mais parte rural, te ______ ou não?

 

R - Não, não tinha batido nada em termos de fazer alguma coisa, de profissão, ainda não, era... A gente tinha uma liberdade muito grande de fazer as coisas, de pensamento e tudo mais. Eu tava preocupado em viver aquele momento, estudar e aprender. “Agora pra quê? O tempo ia dizer”, como disse depois. Mas não, talvez em Valadares. Eu vi qualquer coisa de Marinha, foi o primeiro estalo de fazer alguma coisa, me deu vontade de seguir a carreira militar, não sei porque também. Eu ouvi falar, achei bonito, acho que a farda branca, não sei, deve ter sido. (risos)

 

P/1 - E você passou pouco tempo em Valadares?

 

R - Um ano em Valadares. Teve outra transferência, aí meu pai foi pra Belo Horizonte onde ficou o resto da vida. O banco mexia muito com o pessoal naquela época. No início não, tanto é que ele ficou 12 anos em Manhuaçu, mas a partir de determinado momento, eles mexiam muito principalmente com o gerente, né?

 

P/1 - E a família toda vai pra Belo Horizonte?

 

R - Correndo atrás. É, esse meu irmão mais velho... Só um detalhe: quando a gente estava ainda em Manhuaçu, ele foi pro colégio interno, no Santo Antonio, em São João Del Rei; Tinha o irmão do meu pai lá, os filhos dele; Ele ficou interno, e no último ano ele foi morar nessa casa do meu tio; E de São João ele veio direto pro Rio, e coincidiu que um ano depois papai veio com a família, aí nos juntamos a ele; Esse saiu e não voltou mais. Eu não, eu saí depois do segundo ano de internato. Como a gente foi pra Belo Horizonte, não fazia sentido mais um colégio interno, porque em Belo Horizonte você tinha à sua disposição excelentes colégios.

 

P/1 - Que bairro vocês foram morar?

 

R - Em Belo Horizonte, nós fomos morar no Prado, não sei, era uma região... Alguns familiares do meu pai, irmã, moravam por ali e ele gostava daquela região, fomos pra lá. Aí é o período mais longo de Belo Horizonte. Cheguei lá o que? Com meus 15 anos, mais ou menos, e só saí depois de formado.

 

P/1 - ____ cidade?

 

R - Veja bem, essa coisa da adaptação começou a ficar meio confusa pra mim, porque esse negócio de mudar muito acaba influenciando a gente. Eu diria que, no meu caso, foi de uma forma negativa, não foi muito bom pra mim não, sabe? Você começava a formar um certa amizade [e] “tum”, ia embora. Começava, ia embora. De repente, eu... Não sei, não conseguia me apegar a nada. Eu não diria que a experiência de mudar muito foi uma experiência muito boa não, eu gostaria de ter ficado mais tempo em um lugar, mas não parou, né? Depois de Belo Horizonte, eu ainda... (risos)

 

P/1 - E como surgiu a ideia de fazer engenharia, fazer ____ engenharia?

 

R - Aquela brincadeira de Marinha: quando eu cheguei em Belo Horizonte, estudava no colégio estadual, até parei em determinado momento, que eu vi algumas pessoas lá [e] comecei a tomar mais informações, aí fui fazer um cursinho lá, mas não fui feliz no exame não; Eu cheguei a fazer concurso pro Colégio Naval, mas eu acho que não era a minha praia. Chega de mar comigo! Gosto muito de ficar na varanda lá de casa olhando, mas eu prefiro muito mais o ar, não me daria bem não. Mas uma passagem interessante, no científico: eu comecei a ter que fazer opções, não obrigatoriamente, mas na medida que passava. Se passaram os três anos, eu me empolguei. No primeiro ano, eu já pensei em engenharia, [porque] sempre gostei de matemática e [depois] veio física. E começou aquela coisa: eu vi que o meu caminho estava mais pra ciências exatas. No segundo ano, a gente estudou biologia, já havia uma influência de Ouro Preto, da Universidade, da Escola de Minas de Ouro Preto. Eu achei que eu ia pra Ouro Preto, e comecei a pensar naquilo, mas quando chegou no terceiro do científico, eu comecei a estudar eletricidade, magnetismo e outras coisas mais, a já entender melhor a coisa, ler um pouco mais sobre o que era aquilo, eu acho que aí eu fiz a minha opção definitiva de fazer engenharia e engenharia elétrica. Eu sabia que em Minas não tinha ainda, mas tinha mecânico eletricista, eu poderia ir por ali, e comecei a ler muito também. Tinha algumas revistas, tinha uma chamada “Mundo Elétrico”, que mostrava toda uma projeção em termos de desenvolvimento e tudo mais do país, o potencial hidroelétrico que o Brasil tinha, essa coisa toda de energia elétrica, não é? De vez em quando, alertava para possíveis apagões no futuro. Em 1960, a gente já tinha ideia de que se não houvesse o cuidado muito forte nessa área, poderiam haver alguns problemas. Mas havia muito investimento de usinas hidroelétricas, a gente ficava de certa forma tranquilo e acompanhava. Então, o campo era vastíssimo, a gente tinha certeza que ia sair da escola com o emprego.

 

P/1 - Você já tinha tido outra experiência de trabalho quando jovem, antes de entrar na universidade?

 

R - É ____________________, experiência bastante interessante. Já cursando o científico, eu comecei a estudar à noite, eu comecei a ter necessidade de fazer alguma coisa e tive a experiência de... Nessa época, era uma empresa de seguros do grupo Atlântico, eu trabalhei lá durante um tempo também, mas aí meu pai achou que eu deveria me dedicar mais aos estudos. Assim, veio o CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva].

 

P/1 - E você serviu onde?

 

R - Eu servi na Horizonte, eu fiz cavalaria, foram dois anos. Eu tive uma experiência fantástica. Se eu juntar a experiência do colégio interno, naquela minha primeira saída de casa, e mais a parte de exército, eu achei que foi um negócio muito interessante. Eu gostava muito de montar também. A gente tinha a chance de praticar hipismo, unir o útil ao agradável, [e] ainda ganhava um trocadinho no final do mês. Contou pra aposentadoria, conta, porque lá você era descontado INPS [passou a ser INSS a partir de 1990], naquela época, enfim, o soldo não é... Mas então, foi uma passagem assim bem interessante. E no CPOR, eu fiz vestibular e passei. E aí foram aqueles cinco anos de escola.

 

P/1 - Qual Universidade?

 

R - Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Eu fui da primeira turma de eletricidade.

 

P/1 - Não havia o curso de engenheiro elétrico?

 

R - Havia o curso de engenheiro mecânico eletricista, então, nesse ano, 62? É. Houve a separação e nós fomos cobaias, mas foi interessante. Era uma outra colocação de ensino, de tecnologia, de tudo, né? Meus equipamentos do laboratório era com válvula, e alguém falou: "É tem um tal de transistor, que vem por aí." Era gozado, mas a gente encarou aquilo, e me formei em 66.

 

P/1 - E tinha oferta de trabalho?

 

R - E como! Quer dizer, eu passei um período no 4º e 5º ano, eu consegui um estágio no departamento de Águas de Energia Elétrica de Minas Gerais, em Belo Horizonte, então na parte da tarde eu tinha lá um período compatível com o meu período escolar. Normalmente as aulas eram pela manhã, eventualmente, uma aula à tarde, uns laboratórios, alguma coisa, mas havia permissão de sair do estágio e ir pra escola.

 

P/1 - E era uma escola, uma universidade, politizada, tinha discussão pelo período? Como era vista essa questão de energia nessa época?

 

R - Dentro... Vamos ver primeiro a parte politizada técnica, nessa parte a gente já tínhamos uma preocupação, tanto é que fundamos um grêmio, o grêmio eletricista, voltado evidentemente pra esporte e lazer e pra essa parte técnica também. A gente tinha muita visita técnica, procurava conhecer muita coisa, e conversava sobre essa parte elétrica. Havia uma certa tranquilidade nas projeções que a gente fazia naquela época, projeção de 40 anos era meio complicado, por volta de 1960, estamos falando de a 40 anos atrás quase, 35, mas projeções de 10, 20 anos nos davam uma tranquilidade muito grande. O Brasil estava entrando no desenvolvimento industrial muito forte, pós Juscelino, a coisa ia bem, então em termos de eletricidade, houve uma implantação de bastante usinas. Havia uma certa preocupação no lugar que não tinha disponibilidade hídrica, de se colocar usina  térmica, utilizando carvão do sul do Brasil - existe usina térmica lá no sul, ainda -, depois com o advento, com a preocupação ecológica, a coisa começa a mudar um pouco, os cuidados, não diria com relação à barragem, porque a barragem você acaba resolvendo o problema, mas de poluição através do carvão. Nosso carvão de queima é um carvão muito impuro, muito sujo, de altíssimo teor de cinza, sujeira em geral, de enxofre, tanto é que hoje o carvão do Brasil não se fala mais nele, quer dizer, o carvão já veio assim... Entrou muito forte na minha vida posteriormente, mas havia... Então, voltando a essa política energética, de conversar entre nós, entre aqueles que entravam, de participar de reuniões, de visitar, já havia sim uma preocupação, havia uma certa tranquilidade porque as coisas estavam acontecendo, as linhas de transmissão estavam sendo construídas, as empresas estavam se modernizando, as Cemigs estavam surgindo como as grandes empresas de eletricidade, absorvendo as outras menores. Como, o Departamento de Águas de Energia ele foi absorvido um dia pela Cemig, e a outra parte da politização política, não é? Não sei se pode falar desse jeito. Na escola de engenharia, a gente sabia quem era quem, essa coisa em Minas ficava muito por conta da Escola de Ciências Econômicas, e um pouco na turma de direito. A turma de engenharia, de arquitetura e de medicina estavam muito preocupados em estudar, sabe, preocupados com a nossa formação profissional. Essa coisa da politização veio gradativa, nesse período já começou, a  ____ já começa a se mostrar mais, a fazer algumas reuniões, uns teatrinhos, cartilhas. Essa época, a coisa já começa a aparecer, daí pra frente deve ter mudado bastante até que veio lá 64. Outra coisa também coincide esse meu período inicial com o exército, então era um nacionalismo diferente, um pouco diferente, tenho a preocupação em cuidar daquilo que tava ali. Tava bom, a gente achava que não precisava de [se] mexer e formar o mais rápido possível pra produzir.

 

P/2 - Tinha mulheres na sua turma?

 

R - Pra ver mulher na Escola de Engenharia a gente tinha que sair pra avenida. Não, não tinha, na minha turma não. Eu me lembro que a Escola de Engenharia de Minas Gerais era muito grande, eu tenho a impressão que seu total aí de 300 a 400 nos diversos cursos de engenharia, eu me lembro que tinha umas cinco nesse total todo, na química, civil me parece que tinha umas duas ou três, metalurgia, mas não mais do que isso, as meninas iam pra filosofia, pra medicina já tinha algumas, não era... Ainda não... O processo da entrada da mulher nesse contexto todo ele vem um pouquinho pra frente.

 

P/2 - Você se forma quando?

 

R - Eu me formei em 66. 1966 eu me formei.

 

P/2 - Tinha muita oferta pra algum trabalho ___?

 

R - Pois é. Então, com relação à oferta tinha sim. Eu cheguei a começar fazer um concurso pra alguma empresa pra outra, mas eu parava porque dentro desse meu conceito de nacionalismo, de fazer alguma coisa pelo país, já tinha essa visão de trabalhar numa empresa brasileira, de origem brasileira, bom, origem não tanto, mais arraigada já, com, bastante enraizada no Brasil, e a Vale do Rio Doce me impressionou muito naquela época. Eu queria trabalhar em uma empresa que pudesse jogar alguma coisa lá fora e trazer benefício pra cá, vender alguma coisa de vulto lá fora, importante, e trazer divisas pro Brasil. Eu optei pela Vale do Rio Doce dentro da escola ainda [e] eu abandonei as outras ofertas. Tinha oferta de Mato Grosso, tinha oferta de Paraná, em Minas mesmo eu tinha oferta de emprego, mas eu optei pela Vale.

 

P/2 - Mas o que é que o senhor ouvia falar da Vale do Rio Doce? A Vale era uma empresa que muitos alunos gostariam de entrar pra trabalhar, tinha concurso?

 

R - Não sei, porque... Tinha concurso era forte, forte... O concurso era aqui no Rio, na PUC, com psicólogos, com testes, entrevistas. Não era de conhecimentos gerais, mas eu me lembro que da minha turma de eletricista eu fui o único a optar pela Vale do Rio Doce. Eu não sei se o pessoal não queria sair muito de Belo Horizonte, porque tinha muita facilidade de emprego naquela época por ali, mas eu conversei, não notei assim muito entusiasmo do pessoal, não sei, eu é que que absorvi muito, tinha uma ideia de trabalhar numa empresa desse jeito. Eu não queria trabalhar numa empresa geradora de energia elétrica, talvez numa construção de uma barragem sim, de uma usina, mas não sei, a Vale de repente me marcou, eu não vou saber dizer porquê.

 

P/1 - Você veio pro Rio pra fazer o teste?

 

R - Eu vim, vim aqui na PUC, fiz o teste, esperei, meus amigos todos já trabalhando. A Vale me chamou depois do carnaval, final de fevereiro, março, eu vim e fiz. Voltei e fiquei ansioso, já querendo trabalhar, e foram me chamar em abril, me chamaram em abril. Viemos dois só, um rapaz cearense, que está hoje lá, o Afonso, só nós dois fizemos o concurso nessa época, e não tinha muita vaga não. Esse era o outro problema da Vale, ela tinha pouca vaga, e eu não sei se isso desanimava um pouco o pessoal. Eu queria e cismei que eu ia passar, aí eu fiz e fui contratado 11 de abril de 67, aniversário da minha mãe.

 

P/2 - E você foi trabalhar, qual era o seu trabalho, seu primeiro trabalho?

 

R - Ah, muito bem. É, daqui então eu voltei pra preparar as minhas coisas em Belo Horizonte, mandaram me apresentar em Vitória, na Estrada de Ferro Vitória-Minas. Jamais eu imaginei que fosse ser ferroviário, mas tá lá na carteira, não tem jeito.

 

P/1 - Era a sina.

 

R - Mas então me colocaram na... Naquela época era o departamento da estrada, fazia parte de um contexto da operação da Vale, daquele conjunto, mina-estrada-porto, então eu fui trabalhar na manutenção elétrica das estradas, dava manutenção nas oficinas, nas instalações ao longo da linha entre Itabira e Vitória. Volta e meia uma viagenzinha de auto de linha, de trem, de locomotiva... Vocês já devem ter ouvido falar no famoso “caboose”, andava lá atrás do trem depois de cento e tantos vagões, né?

 

P/2 - O que é que era?

 

R - O “caboose”, vamos dizer, era um pequeno vagão, ele tinha uma torrezinha onde deveria ficar o guarda freios, aí qualquer emergência ele falava pelo rádio, pro maquinista alguma coisa, porque o maquinista não tinha noção do que estava se passando lá atrás. Depois de 160 vagões, aproximadamente, qualquer descarrilamento, qualquer coisa ele acionava, e normalmente lá tinha cabenizinha com beliche, uma salinhazinha, e jogavam os engenheiros ali pra trabalhar. Cada frenagem, você já imagina, cada engate daquele tem uma folga de 10 a 20 cm, soma isso com 150 quando o trem está esticado, e ele faz isso. A gente só ouvia o barulho, vinha crescendo pra cima da gente, a gente se segurava, mas à noite, quando estava dormindo, não tinha jeito não, era uma pancada só. Mas era interessante. No início, a Vale... Era uma viagem longa, não tinha muito recurso, ela colocava alguém lá para, não diria jantar, mas alguma coisa pra comer, pra beber, durante a viagem, fazer um cafezinho, tinha lá o cabineiro, era muito interessante porque no período de 10, 12 horas ou mais de viagem tinha muita história pra contar, tinha muita coisa pra ver, ideia pra trocar. Às vezes a gente até trabalhava, mas era um negócio interessante esse meu primeiro período de dois anos. (risos)

 

P/2 - Mas você era responsável porque, quer dizer, nessas viagens você tinha que ir acompanhando...

 

R - É, eu ia ver, por exemplo, tinha uma instalação em Governador Valadares, tinha a subestação, tinha lá as coisas elétricas, tinha oficinas...

 

P/1 - Mexia com a manutenção...

 

R - E a gente cuidava [da] manutenção disso tudo, pra que tudo funcionasse bem, [do] setor de baterias, porque as baterias que alimentavam as locomotivas, a gente dava manutenção nessas baterias, todos os transformadores do terminal lá de Vitória... Enfim, tinha bastante coisa de manutenção, era aquela rotina de manutenção.

 

P/2 - Mas você fiscalizava, e tinha um responsável ______...

 

R - É, a gente tinha um programa de manutenção e fazia cumprir aquele programa. Quando tinha um problema qualquer, ia, conversava, via se estava tudo bem, alguma sugestão de melhoria, de instalações etc., novas instalações, por exemplo. Nessa época, os trilhos usados eram de 12 metros, então já existia no mundo o trilho soldado, [de] 116 metros, aproximadamente, então a Vale do Rio Doce montou o chamado Estaleiro de Soldagem de Trilhos em Valadares, e eu fui responsável pelo acompanhamento da montagem elétrica. Então ficava em Valadares um período, ia, voltava. Foi a primeira obra de vulto que eu participei, foi a montagem desse estaleiro, que trouxe um benefício muito grande pra ferrovia porque aquela folguinha, aquele barulhinho do trem "tata tata tata", aquilo acabou, aquilo acontecia a cada 100 metros, mais ou menos, e os trilhos eram todos soldados. Fato curioso era como transportar esses trilhos: então foi feito, assim, um trem especial, o trilho era colocado neles e saia rodando normalmente no trilho, fazia as devidas curvas. Esse era um fato que me chamou a atenção na época.

 

P/1 - E, tecnicamente, assim, pra transporte de minério, tinha alguma especificação, alguma preocupação diferente ou isso não importava, carga...?

 

R - Não. Veja bem, o objetivo nosso na época era o transporte de minério. O transporte de carga na Vale do Rio Doce, nessa época, era uma coisa que vinha... Já que ali está, aí então você transporta um outro de tipo de carga também, transporta gente, transporta gado, mas, fundamentalmente, o minério de ferro. era e ainda é o carro chefe da empresa. Sem o minério de ferro, não existiria a Vale do Rio Doce, né?

 

P/1 - Sim, mas tinha alguma especificação, esse _____ de ferrovia?

 

R - Mas como assim?

 

P/1 - É...

 

R - Sim, a ferrovia foi feita pro transporte de carga pesada, é a maior ferrovia do mundo de ___. E em termos de carga, a Vale, a Vitória-Minas, é tida como exemplo, assim, no mundo inteiro, pela carga que ela transporta, pelo peso que ela transporta, a tecnologia desenvolvida, principalmente, pela turma de colegas nosso, voltado diretamente pra ferrovia, pra infraestrutura, pro dormente, pro trilho, pro vagão, pra roda, pro eixo...

 

P/1 - Tudo era pensado especificamente pra isso.

 

R - Especificamente para o minério, o que viesse depois era lucro, porque você fazendo uma ferrovia tecnicamente pronta pra esse tipo de transporte pesado, com trens de 160 vagões, sei lá, dá 1 quilômetro, ou mais, sei lá, hoje eu não me lembro desses detalhes. Inclusive, já fizeram trens maiores, mas permanentemente é desenvolvido. Eu me lembro que nessa época ou pouco depois a Vale do Rio Doce queria implantar um centro tecnológico, chegamos a fazer algumas viagens, alguns estudos sobre esse segmento, um modelo evidentemente japonês ou europeu, mas ela não chegou a implantar. O pessoal vivia viajando e estudando, creio que até hoje.

 

P/2 - O senhor tinha naquele começo de vida profissional dentro da Vale, já tinha noção a dimensão da grande empresa que o senhor trabalhava?

 

R - Eu acho que eu tinha, naquele início: “Puxa, ele é a maior do mundo, né.” Mas dentro daquilo que ela se colocava a fazer, dentro dos propósitos dela, uma das maiores, se não a maior do mundo, eu sempre tive essa noção e sempre trabalhei com essa visão que eu tinha que fazer alguma coisa para [que] ela continuasse no mínimo daquele jeito. Se pudesse melhorar tudo bem, mas chegou num período... Só um detalhezinho: nessa época, eu cheguei a dar aula numa escola técnica em Vitória, nós implantamos lá o curso de escola técnica - eu ajudei nesse trabalho -, mas não havia uma satisfação plena em mim naquilo que eu estava fazendo, porque a manutenção ela cai numa rotina... Evidentemente, hoje a coisa evoluiu. Existia uma rotina, que a rotina tava me incomodado um pouco, sabe, e eu pensava: ou eu saía dali se eu não tivesse outra oportunidade, ou então ter essa oportunidade que [é] de ir pro lugar que eu queria realmente, que era talvez o Porto de Tubarão. Chegaram a me oferecer nessa época uma coisa de Itabira, mas não, acabou não dando certo. Eu comecei a enxergar muito dentro das oportunidades que existia dentro da empresa, essa área de obras, de implantação de obras. Tubarão tinha acabado de ser implantado, eu tinha passado pela experiência do estaleiro de solda, aquilo me dava uma nova dinâmica na coisa, tinha alguns trabalhos rotineiros, mas cada dia eu via uma coisa diferente, uma obra crescer, resolver um problema aqui e outro ali, e eu comecei a batalhar pra ir pro Tubarão, porque lá estava localizada a grande obra da Vale naquela época, ____ Tubarão já estava em ampliação, já tinha começado uma usina de pelotização, e eu comecei a batalhar pra ir pra lá. Evidentemente, meu chefe não gostou muito, não queria que eu fosse, meu ex companheiro Siqueira, não deve ter agradado muito a ele. Mas tinha uma pessoa dentro da vale, Dr. José Emério, não sei porquê ele gostou de mim, acho que ele gostava de mineiro. Mas o Dr. Emério, apesar daquele jeitão dele de muita gente ter até medo, era uma figura assim que eu achava fantástica, gostava dele. Houve um primeiro episódio de dar aula em escola técnica: no princípio, ele deixou, mas enquanto eu saí da sala dele e fui pra minha, ele mandou me chamar e falou que podia. Então ele entendeu essa minha vontade de trabalhar em Tubarão e concedeu, me deixou ir...

 

P/1 - Isso baseado em Vitória, o senhor...

 

R - Baseado em Vitória...

 

P/1 - O senhor casou...?

 

R - Continuei em Vitória. Ah sim! Aí vem a fase do casamento. Desde a época de escola - o namoro começou por ali, antes da escola. O noivado, então, quando eu me formei a gente já tinha o objetivo de tão logo fosse possível eu me casar. Eu vi que ia ficar ali mesmo, mas me casei em 67.

 

P/2 - O nome da sua esposa?

 

R - Zenilda.

 

P/1 - É mineira também?

 

R - Ela era mineira também, nós fomos casados até 90 e... Bom, eu saí da Vale e, na época, eu me separei também. Mas veio de Minas também. E tive os quatro filhos lá em Vitória, mas, então, o casamento foi em 67, e por lá eu fiquei.

 

P/2 - E quando o senhor vai pro Porto de Tubarão?

 

R - Foi 69, foi depois do nascimento do meu primeiro filho [que] eu fui pra lá. Fiquei dois anos, praticamente, lá na ferrovia, departamento da estrada. E a partir daí eu entrei nessa de projetos e obras, que foi até o fim, praticamente até o fim. Eu nunca mais pensei em outra coisa, eu me senti realizado ali. É aquele negócio de você ver crescer alguma coisa, começar a construir uma casa e tal, aqueles problemas todos durante o tempo todo, de repente, você vê aquela casa pronta e alguém vai morar nela, isso pra mim era o mais gratificante.

 

P/1 - E quais obras o senhor participou?

 

R - Inicialmente eu acho que já foi na primeira etapa de ampliação do Porto de Tubarão, quer dizer, Tubarão não parou mais desde essa época, desde que foi inaugurada aquela primeira linha de recebimento de trens, de descarga de estocagem, carregamento de navios, né? Logo em seguida veio uma duplicação, eu já participei dessa duplicação, mais um carregador de navios, mais uma linha transportadores, várias linhas de transportadores pra diversas finalidades, e a primeira usina de pelotização já saiu nessa época também. E tudo que girava em torno disso, o abastecimento de água, de energia elétrica, tudo isso, a gente participava, era um negócio bastante intenso, um trabalho que a gente ficava à disposição da empresa 24 horas por dia, principalmente, na época de testes, de “startup” de equipamentos, né?

 

P/2 - Como eram essas épocas de _____?

 

R - Eu não pensava quase em nada, em outra coisa na vida. Eu me dediquei muito à Vale, era muito prazeroso aquilo. Eu não sei, o trabalho pra mim tem um significado muito forte, não é que não gosto das outras coisas, eu adoro, mas eu não sei, eu tinha uma paixão por essa empresa, não sei se pode dizer assim. Eu me colocava totalmente a disposição dela, e gostava de fazer o que eu fazia, não reclamava de nada, não tinha hora. Aquelas viagens... Depois de um certo tempo, aquelas viagens constantes, né, mas tudo bem, era bom.

 

P/1 - O que é que estimulava? Era...

 

[Pausa]

 

P/1 - Retornando então a nossa entrevista: eu estava no porto de Tubarão, você podia contar um pouquinho desse, dos bastidores de como era a sua função, o contato com os outros engenheiros?

 

R - Bom, logo que eu fui pra Porto de Tubarão eu fui trabalhar no setor de obras, antigo GENP - Grupo Executivo do Novo Porto, novo porto era o Porto de Tubarão, e esse nome ficou, da mesma forma que Itabira tinha lá o GEIT- Grupo Executivo de Itabira - os nomes eram formados por aí. Bom, o que era a fiscalização elétrica do Porto de Tubarão, e já iniciando as obras das usinas de pelotização, então a gente tinha que coordenar todo o trabalho das empreiteiras, coordenar no sentido de fiscalizar, ver se aquela coisa estava sendo cumprida, se os cronogramas estavam sendo cumpridos, se o serviço estava sendo feito, tecnicamente bem feito, dentro de normas de segurança. Então essa era nossa função, o que é que um engenheiro fiscal fazia. Eu tinha comigo trabalhando alguns supervisores que eram técnicos em eletricidade, já com um certo gabarito, com uma certa experiência, alguns deles passados por escolas técnicas. Abaixo dos supervisores, os encarregados, e depois os fiscais em geral. Esse grupo, dependendo do tamanho da obra, podia ter meia dúzia de pessoas [ou], como, 20 pessoas, mais de um supervisor, como no caso da usina [de] pelotização. A gente tinha que ter mais... Era uma coisa, vamos dizer, complexa e você tinha que, às vezes, durante o período lá de "startup", de testes, tinha que acompanhar aquilo tudo, fazer os relatórios, ver se estava sendo cumprido. Naquela época, se fazia muita obra por administração, então tinha que ver se a quantidade de pessoas que estavam ali era compatível com aquilo, pra não deixar que houvesse abuso, ou então mesmo, falta. Você precisava de duas pessoas [e] tinha uma só, era obrigação nossa alertar também, enfim, fazer com que a carruagem andasse normalmente, a contar os desvios, verificar se estava havendo alguma tendência a atrasos [e] nas reuniões, aqueles debates com os empreiteiros, né, aquelas brigas sadias, evidentemente. Isso aí não partia para a inimizade, muito pelo contrário. Às vezes tinha gente que tinha medo de ser amigo do pessoal da empreiteira, mas eu nunca tive porque aí é um problema de consciência, você fica tranquilo. Da mesma maneira que tá brigando com ele lá na obra, você pode sair e conversar com ele, ter uma relação com a família. Nunca tive qualquer problema dessa natureza e o pessoal que trabalhava comigo também, se dava muito bem nesse aspecto. Bom, essa nossa turma havia uma integração muito grande, a gente tinha que integrar. Eu nunca gostei de gabinete, ficar trancado numa sala pra mim é um... Não digo aqui, que é hora de fazer _____, mas naquele meu trabalho eu procurava sair da minha sala, né? No início, aquelas construções de obras de madeira, né, não havia ar condicionado na sala, era outra coisa que se fazia, sair. Tubarão, naquela época, não havia ainda a consciência da proteção ambiental. Nós tínhamos tudo quanto é tipo de poeira lá dentro que você possa imaginar, a começar a poeira do chão, as estradas não eram - uma ou outra eram asfaltadas -, a poeira do minério. Quando entrou a pelotização, entrou a poeira da cal, depois, a poeira do carvão. Enfim, a gente respirava aquilo ali tranquilamente, todo o tempo. Então, isso, com relação a essa, toda essa proteção e integração que a gente tá querendo falar do pessoal, tenho assim grata recordação de vários deles, dessas pessoas, alguns deles já partiram, outros estão por aí, mas sempre num ambiente muito agradável. Ambiente de obra sempre foi um negócio muito gostoso, porque, principalmente, o cara... Não digo no nosso caso, mas mesmo na Vale, vários colegas nossos mudaram muito. Tem gente que trabalhou em Itabira, trabalhou numa construção de uma estrada, trabalhou em Tubarão, depois foi pra Carajás. Não foi o meu caso, eu fiquei muito plantado ali em Tubarão, até que eu não sai muito, mais por saber do tipo de trabalho e da necessidade da integração de um a outro. Havia uma integração muito forte, muito boa, né? Isso eu estou dizendo com relação ao nosso grupo de fiscalização elétrica, mais, evidentemente, a fiscalização civil, a fiscalização mecânica. Tinha também entrosamento, e sempre um de nós coordenava. Existe uma outra etapa que eu já passei a fazer coordenação de obras, foi quando eu comecei a deixar de ser eletricista, comecei a esquecer um pouquinho de toda aquela formação acadêmica, técnica e acadêmica, pra de repente virar um engenheiro de portos. Mas os detalhes daquela disponibilidade que eu falei que a gente tinha, naquela época, em determinado momento a gente tinha, a Vale do Rio Doce nos dava um carro pra trabalhar, eu me lembro que eu tinha uma [Ford] Rural na época da... Qualquer coisa com relação à segunda usina de pelotização já, e entrada de uma nova fase do porto, né? E você tinha programação com horário determinado. Nós tínhamos 48 horas, por exemplo, pra fazer a ligação de um novo transformador da subestação, aquilo exigia da gente [ficar] virado direto de noite, dormindo ali. Ia pra casa com o rádio ligado no carro, quer dizer, a qualquer momento todo mundo disponível pra aquilo, e as coisas davam certo, as coisas funcionavam, né? Então, essa integração da fiscalização, muita reunião com os empreiteiros pra que a coisa fluísse. E tem um fato marcante nessa época, eu tenho a impressão que em 73, acho que sim, a data agora já não me vem bem ao certo, mas eu me lembro que... Acho que em 73 sim, porque nós fomos ao Japão - a minha primeira viagem foi em 72, pra ver as máquinas que estavam sendo construídas. Naquela época, era tudo importado, máquinas, transportadoras, etc. Então, nessa época, foi a entrada em operação do novo ___ da Vale, é esse que tem lá hoje com essas duas máquinas, cada uma com capacidade de 16 mil toneladas, um formato diferente de carregador de navios, desenvolvido pela Sorus. Alguns anos atrás, a Vale do Rio Doce através do Dr. Elias ___, tinha assumido assim, aceito um desafio, né? Um país feito o Japão porque os japoneses diziam que iam fazer um super ___, um navio de, vamos dizer, 300 mil toneladas. Eu não consigo me lembrar assim exatamente o número, mas era o super ___ da época, quando a gente tinha navio de até 120 mil. E a Vale do Rio Doce aceitou o desafio de ampliar o Porto de Tubarão de maneira tal que isso fosse possível. Daí, essas viagens ao Japão, essa coisa toda, [era] um trabalho muito intenso, e tinha uma data, tinha uma data marcada, porque naquela época 31 de março era um negócio assim muito importante. Então houve um comprometimento de alguns anos atrás, que naquele ano, 1972, 73, a Vale do Rio Doce teria esse equipamento pronto, que os japoneses podiam fazer os navios deles e colocar esse navio nesse dia.

 

P/2 - Mas a _____________________?

 

R - É, havia sempre, era uma marca. Tinha havido uma revolução no Brasil em 64 e, nessa data, evidentemente, nessa época, o regime ainda era militar. Enfim, essa data surgiu, não nos importava muito qual era não, importava que naquela data a gente tinha que colocar minério de ferro dentro de um navio que vinha de _____. Bom, aquilo foi uma luta assim muito forte. Nós tínhamos acabado de fazer a usina de pelotização, me parece que a nº 2, eu tinha coordenado a parte elétrica e o Jacques que era o chefe lá dos engenheiros dessa época, me pediu pra coordenar os trabalhos de “startup” desse equipamento. A gente, na época, já sabia que o navio não vinha, mas havia um empenho muito grande de todos nós, evidentemente, da diretoria da empresa, em saber desses detalhes, então, as informações eram passadas do Jacques para o José Carvalho que era o superintendente do Porto nessa época, o José Carvalho pra diretoria da Vale, né? Muito bem, e todo dia a gente naquelas reuniões. Então, já começava aquele negócio de virar a noite. Tinha japonês no Brasil ajudando na supervisão, as empreiteiras trabalhando, e a gente com aquele objetivo: "Dia 31 nós vamos botar minério, não sei aonde, mas vamos botar." E a coisa foi caminhando. Eu me lembro que na véspera a cosa já estava bem adiantada, mas faltava muita coisa ainda. A gente já conseguiria, naquela época, levar o minério até determinado ponto, desde o virador de vagões até um determinado transportador, e dali pra frente ainda faltavam dois que ainda tinham que ser mexidos. E a própria máquina que dependia de alguma coisa ainda, essa máquina em uma daquelas noites, daquela virada, aquela que a gente estava preparando primeiro pra entrar em operação, deu [um] problemazinho de incêndio no painel, tivemos que tomar providências meio complicadas, que pouca gente sabe até hoje, de chegar no almoxarifado, arrebentar a porta do almoxarifado, abrir um painel que tava lá dentro, tirar o equipamento e levar pra máquina. Mas isso foi devidamente comunicado posteriormente e o japonês pediu que viesse outro, veio um outro de avião e tudo mais, mas, enfim, um incêndio que não estava no programa, na parte principal da máquina, que era um painel lá de comando e controle. Mas, enfim, a coisa funcionou.

 

P/2 - Quer dizer, a empresa tava preparada pra cumprir o tempo?

 

R - A empresa estava preparada pra cobrir o, a empresa estava preparada pra a qualquer momento... A gente tinha alternativas: "Bom, e se acontecer isso? ", "Eu vou ali, arrebento o portão, tiro o que tá lá dentro e depois você dá um jeito de mandar outro." Mas, enfim, todas essas providências, toda essa equipe, todo esse grupo trabalhando fortemente, né, em torno de um objetivo. Bom, na véspera então o Carvalho perguntou, e falou: "Olha, o pessoal da diretoria tá de plantão lá no Rio, esperando, que vem embora pra cá, que quer estar aqui presente na hora." Aumentou muito a responsabilidade, aí eu falei: "Não pode vir." Aí a gente foi mantendo contato com ele, acho que foi por volta de meio dia do dia 31, apareceu lá Deuclécio, eu não sei se o Dr. Mascarenhas foi, mas, enfim, foram pra casa de hóspedes - tinha aquela casa de hóspedes bonita em Tubarão -, e eles ficavam acompanhando pelo rádio. Eu estava coordenando, ficava mandando informação, eles com o rádio lá e eu vendo o que se passava, e o pessoal o tempo todo falando, o tempo todo falando: “Corre pra cá, corre pra lá. Chama mais gente pra ajudar aqui.” E por volta de 6 horas da tarde aí a gente tomou a decisão: “Vamos soltar o minério lá no virador”. Ou era de uma recuperada... Não me lembro o detalhe, mas, enfim, ele veio até aquele transportador: "Olha, vamos deixar cheio, porque nós vamos botar essa...", “E vamos botar aonde?" Pegamos um flutuante de uma das empreiteiras, forramos com correia transportadora e deixamos embaixo da lança da máquina. “Deixa lança quieta, não mexa nessa lança e vamos trabalhar.” Alguns problemas ainda surgindo, aí mais tarde ainda conseguimos colocar minério, mas em um transportador, vamos dizer, 8, 9 da noite, não é, faltava só um que era o maior de todos pra cair na lança. Por volta de 11 horas, conseguimos levar o minério até lá em cima, pertinho já da lança da máquina, né, eu sei que lá faltando uns três minutos mais ou menos. "Ah, mais tem que fazer uma verificação...", "Não dá tempo de verificar mais nada, solta o minério." Eu sei que quando faltava um minuto pra meia noite, mais ou menos, a nossa empresa honrou o compromisso dela. (emoção)

 

P/1 - Vocês comemoravam isso?

 

[Pausa]


P/1 - Imagino como, né?

 

R - É, foi um alvoroço. A turma que estava na rádio, a sirene da máquina... Me lembro do Grego, o Grego era um supervisor meu, ele tinha mania, mais na brincadeira, né, "Graças a Deus...", como se estivesse fazendo uma oração de agradecimento, né, e eu fiquei sabendo que o pessoal vibrou muito lá na casa de hóspedes. Mas, enfim, todo mundo se cumprimentado depois. E eu não sei, acho que das marcas todas, foi uma das mais fortes. Chamaram a gente depois pra casa de hóspedes pra participar lá do uísque amigo.

 

P/1 - Quem estava lá, se lembra?

 

R - Eu me lembro. José Carvalho, me lembro do Deuclécio, eu acho que o Dr. Raimundo estava lá, tá faltando um pouquinho, mas superintendentes da diretoria, as partes principais. Parece-me que logo depois da meia noite, bom, mandamos desligar imediatamente depois que o minério caiu, porque: "Ah, tá saindo fumaça aqui...", "E o tambor aqui atrás...", "Desliga, para, porque já cumprimos a nossa obrigação." E saiu um fax, telex, um comunicado na Vale naquele dia, da empresa para o Japão, dizendo que a Vale do Rio Doce tinha cumprido o compromisso dela. Essa é uma história assim que quem estava lá no dia lembra dos detalhes. Mas foi bastante forte. Bom, uma delas, né, que eu me lembre assim de imediato, que marcou muito nessa fase do minério de ferro, né? Depois disso, eu coordenei, eu comecei, né, porque eu depois eu fui transferido pro Rio, a coordenação do novo prédio do centro de processamento de dados, eu fiz a coordenação da implantação da...

 

P/1 - Você então deixou Vitória e veio morar no Rio?

 

R - Das usinas, das oficinas de locomotiva, né? Então, nessa hora, eu recebi um convite pra assumir a antiga assistência de projetos daqui do Rio - depois foi transformado em gerencia de projetos, gerência regional. Quer dizer, nesse período lá de Tubarão eu cuidava de obra, de fiscalizar obra, de coordenar obra, implantação de equipamentos, etc., e vim aqui pro Rio pra coordenar os projetos da região, dessa região mais do Espírito Santo, porque tinha um outro grupo dentro do departamento de projetos e obras que cuidava da parte de Minas, lá de Itabira. Então foram quase dois anos aqui no Rio.

 

P/1 - Com muitas idas a Vitória, ou não?

 

R - Ah, quase que permanente, porque as obras eram lá. Quer dizer, além de Vitória, tinha muitas viagens com os fornecedores de equipamentos que tinha a parte de projetos que a gente tinha que olhar também pra ver se estava tudo certo. As próprias empresas projetistas, algumas fora daqui. Então, nesse período, eu acabei quase não saindo de Vitória, né, a família veio pra cá e tudo.

 

P/1 - Isso era que ano, lembra?

 

R - 76? É, porque em 78 foi criada a superintendência de engenharia, e aí nós voltamos pra, ela ficou baseada em Vitória, e todo esse conjunto voltou, foi pra lá, quer dizer, foi a minha segunda saída do Rio, novamente. Triste.

 

P/1 - Mas e em termos profissionais, você estava em risco, ___ Vitória?

 

R - É, pois é, apesar de que eu estava saindo da corte, é sempre melhor, mas não porque eu queria. O trabalho num local desse é muito de gabinete, é muito de sala, e eu sempre preferi mais trabalhar no campo, eu me sinto melhor, apesar das viagens, a gente ia lá e tudo mais, mas eu acho que foi uma boa opção dentre aquilo que a empresa tinha no momento. Foi uma boa opção, porque daí [foi] surgindo outras oportunidades. 

 

P/1 - E quais foram essas outras oportunidades em seguida?

 

R - Pois é, a primeira foi Praia Mole. Na época de Praia mole, algumas pessoas da Vale estavam indo pra CST (Companhia Siderúrgica de Tubarão), pra começar pelo próprio Guilherme _____, que era nosso superintendente. Ele foi, e a CST começou a convidar alguns empregados da Vale que tinham passado pela área de projetos e de obras. Nessa altura, eu já tinha passado pelos dois pra fazer coordenação da implantação da Siderúrgica de Tubarão, eu, praticamente, já estava cedido, passei por entrevistas e tudo mais. Na hora que chegou a carta definitiva, o meu amigo Elias Botelho, ele leu pra mim e falou que: "Olha, você não quer tocar pra Praia Mole, tem um porto pra gente fazer." Aí eu não pensei duas vezes, porque entre aquele trabalho... Porto, eu já estava mais ambientado em porto, aquilo me cativava mais, eu tinha estudado muito sobre portos, já tinha visto muitos portos por aí, e fiquei. Aí fui pra Praia Mole, quer dizer, a grande oportunidade foi Praia Mole porque começamos Praia Mole com um pedaço de papel na mão, agora vamos jogar um porto em cima disso: “Puxa, mas quem, quem vai fazer?”Aí saímos atrás dos melhores profissionais que tinham nas empresas, quer dizer, nessa época, eu fiquei conhecendo um grande cara, Dr. Figueiredo - ele era da (Adolf?). Hoje, você entrando na Barra, aquela ponte que tem? Tem o nome dele, tem o nome dele lá: Engenheiro Artur Figueiredo. Ele faleceu alguns anos depois, de uma maneira trágica, mas esse homem, ele... Praia Mole deve muito a ele, sabe, a inteligência brilhante dele desenvolveu aquilo tudo com a gente, evidentemente, outras pessoas, todos que trabalharam, aquilo de colocar, aquela ideia que a gente tinha no papel, como fazer, como desenvolver e a todo momento estar mexendo naquilo de uma forma muito dinâmica. Então, eu comecei como gerente de projetos de Praia Mole [e] tinha uma estrutura de diretoria, que eram dois diretores pela Vale, dois pela Siderbrás - a Portobrás estava no contexto, mas não quis participar do consórcio, tocou a parte dela sozinha. Então, a gente pegou essa outra, que era uma implantação de um terminal de carvão e de um terminal de produtos siderúrgicos. Então, uma estrutura de projeto e obra normal tinha projeto, tinha obra, tinha a parte de suprimento, a parte de administração, era como, o consórcio era uma pequena empresa, mas com milhares de pessoas trabalhando, os empreiteiros e a gente responsável por aquilo. Então eu fui responsável pelo desenvolvimento de todo projeto. No meio do caminho, mais uma vez, o Dr. Elias me deixou na mão, foi embora lá pro norte e eu assumi o lugar dele na superintendência geral, e pouco depois...

 

P/1 - Quanto tempo durou a construção?

 

R - Começamos ali... Eu cheguei ali em 81, entreguei a chave pra operação em 87, quer dizer, fui um dos primeiros a chegar e fui o último a sair, apaguei a luz. Nessa época, eu já acumulava a superintendência, eu era um dos representantes da Vale na diretoria do consórcio também - o superintendente era indicado pela Vale e o presidente do consórcio pela Siderbrás. Dr. Aclimárcio Silva Reis foi o presidente e, nessa época, eu acumulava a diretoria com a superintendência geral. Mas foi um trabalho muito bonito, porque a gente viveu todas as fases do porto, desde essa fase do papel [que] de repente a coisa começa a nascer, né, você joga a primeira pedra dentro d'água pra fazer o caminho, e vem o estaqueamento, vem a parte de terraplenagem, aí começa a compra de equipamentos, começam aquelas viagens infindáveis, aqui, fora do Brasil também. Mas uma experiência, assim, altamente válida porque nessa época eu tive a oportunidade de passar por... Você, como superintendente de um órgão desse, tem todas as nuances ali, de pessoal, de tudo mais. No final, aquele pessoal que estava lá, o que que ia fazer com aquela gente toda, né?

 

P/1 - Eles eram de onde?

 

R - Uns eram da Vale e outros da Siderbrás. Através de uma  empresa da Siderbrás, que era Cobrap, ajudava a gente na parte de engenharia - esses tinham emprego fixo, mas o consórcio contratou muita gente também -, então houve uma luta muito grande pra colocar essa gente toda. A Siderúrgica Tubarão absorveu uma boa parte do pessoal.

 

P/2 - Você tem assim o número de pessoas que estavam envolvidos nesse projeto _____________ ?

 

R - Nós chegamos... Chegar no pique de obra, contando todo nosso pessoal do consórcio, mais as empreiteiras e tudo mais. A gente chegava a 3 mil, 3500 mais ou menos. Eu acho que o número, se não me falhe a memória, girou por aí. Em determinado momento, tinha muita gente trabalhando lá dentro.

 

P/1 - E em termos de tecnologia, tinha alguma adaptação no caso brasileiro, ou o porto aqui é igual a um porto feito no Japão, na Europa?

 

R - Bem, veja bem, a gente tinha os modelos de portos, tinha diversas alternativas e tinha gente nos ajudando, por exemplo, Sorus Associates. Sorus participou da vida da Vale a partir de um determinado momento, não só aqui, mas em Carajás, São Luís, depois em uma fase minha em Moçambique, houve uma ajuda também da própria Sorus, até hoje existe uma relação assim, apesar dela ter mudado de dono, mas continua fazendo alguma coisa. Mas havia sim, a gente tinha reuniões, eles vinham aqui, a gente ia lá, havia uma troca de ideia muito grande, não é, havia uma troca de ideias muito grande. A visita ao Porto, na realidade, é uma visita altamente técnica pra discutir, ou na Europa, ou não sei, no Japão , pra ver como que funcionava, o que que é que funcionava, como é que era a máquina dele, né? "Olha, a minha máquina eu quero com esses detalhes." O pessoal da operação já pedia muita, vamos dizer, eles tinham uma preocupação muito grande com a manutenção e não ter muito item armazenado em almoxarifado, então isso fazia com que a gente procurasse o fornecedor de maneira tal que eles fizessem determinados itens de um equipamentos adaptáveis a outro, podia haver uma... Tirar a roda de uma máquina e colocar na outra do mesmo jeito, sem problemas, isso trazia um benefício muito grande pra manutenção, não só do material, que era aquele que estava ali, não precisava de ter um pra cada maquina, mas como também a maneira de que eles já tinham de trabalhar com aquilo. Então já havia um desenvolvimento tecnológico muito grande, essa troca de ideias com o projetista, com o fabricante, ir no local, ver e conversar com que está operando. Isso fez com que, influenciou muito na escolha da gente quando escolhia uma máquina daquele tipo de descarregar carvão. Isso foram reuniões e mais reuniões com projetistas, com fabricante, de ver, pegar, conversar. Havia sim, sempre houve uma preocupação muito grande na Vale de desenvolver tecnologicamente a partir da necessidade de operação da experiência que o camarada da operação tinha. "Olha, isso aqui não funcionou bem, dá uma melhoradinha.", "Faz assim." Então a gente conversava e chegava a um bom termo.

 

P/1 - Isso era um exemplo fora do Brasil, Porto... Essa estrutura de...

 

R - É, eu tenho a impressão que tanto na nossa operação quanto no nosso desenvolvimento, quer dizer, já havia uma globalização nesse sentido na época, a gente procurava não se fechar, ser bastante aberto, de olhar, perguntar: "Você tem isso aí?", "Tem.", "Como é que é, como é que funciona?", "Ah, isso aqui é melhor, vamos botar isso?", "Vamos.", "Vamos (assumir?) isso daqui agora.", "Vamos." Às vezes, havia uma certa oposição a colocação de determinado equipamento, mas no final o pessoal aceitava. Havia muita conversa, muita troca de ideia sim, e um interesse muito grande de se desenvolver tecnologicamente pra que você tivesse um rendimento maior, um custo menor do equipamento, uma durabilidade maior. Tudo isso era...

 

P/2 - Qual o país assim que foi mais parceiro desse projeto?

 

R - Praia Mole? Um grande parceiro foi o Japão, desde o início da implantação de Praia Mole teve muito a ver, principalmente, com a Siderúrgica de Tubarão. Havia um programa de carvão pro Brasil, que, inclusive, eu andei usando carvão do sul do Brasil, parte para a fabricação do aço, parte para as térmicas, 1980, quer dizer, o carvão energético ajudou a viabilizar o Porto de Tubarão. Lamentavelmente, não fizeram nenhuma usina térmica cá pra cima, tão aí os apagões da vida. Mas, então, também sobre esse aspecto, né, existia uma força muito grande atuando, uma energia muito grande atuando, pra que a gente olhasse tudo isso aí, então, Porto feito muito em função daquela usina. Então, nosso cronograma, ______...

 

[Pausa]

 

P/1 - O nome Praia Mole, era o nome da localidade?

 

R - Ah, sim. Esse Porto, inicialmente, seria construído na frente da usina siderúrgica, e ali tinha uma praia, que o pessoal chamava de Praia Mole. Aliás, um monte, no Brasil é cheio de Praia Mole. Toda vez que tem uma areia mais macia um pouquinho, ali é a Praia Mole daquele local. Em função da entrada da Vale do Rio Doce no projeto de carvão, a gente deslocou pra mais próximo de Tubarão, por vários motivos, ali em frente à Praia Mole existia uma dragagem uma retirada daquele material do fundo do mar muito forte, e ali tinha aquela canga, é um minério mal formado e muito difícil de você ____ ,e ia ficar muito caro, então a gente preferiu chegar um pouco mais pro lado, em frente ao Porto de Tubarão. Evidentemente que ali necessitaria um pouco mais de proteção de mar, a quantidade de pedra foi maior que tivemos que jogar, mas conseguimos logo água profunda e o custo de dragagem foi muito pequeno, então houve uma compensação. Então, voltando ao Japão, o órgão financiador foi o OECF - “Overseas Economic Cooperation Fund”, é um fundo de ajuda japonês com juros fantásticos em benefícios, aos países, quer dizer, país de primeiro mundo ficava fora, os países eleitos pelo fundo eram países de terceiro mundo, em desenvolvimento, onde eles sabiam que podiam aplicar, mas havia assim uma, eu não diria protecionismo, mas uma vontade de que alguma indústria japonesa participasse e tudo mais, não obrigatoriamente, mas aqueles países que estavam listados poderiam ser convidados a participar das concorrências. Evidentemente, o Japão era um dos países, então eu podia convidar a firma japonesa pra conhecer lá. Era uma concorrência internacional, eles poderiam apresentar propostas, estava dentro da regra do jogo, naquela época, sem problema, e os outros países também, inclusive o Brasil. Então, o que o japonês procurava fazer, ele se associava a empresa brasileira, né, então no caso de Praia Mole, não teve o caso de máquina 100% japonesa, por exemplo, não, máquinas com parceira japonesa, com componentes japoneses, mas a gente, nessa ocasião, tinha reuniões principalmente da FIESP, em São Paulo, porque as grandes indústrias estão lá, então a gente fazia um acordo de percentual: "Olha, isso daqui tem no Brasil, então você dá um jeito de olhar o nosso lado..." Mas era sempre através de acordos, e os países todos entendiam isso, principalmente os fortes, no caso, o Japão era muito forte, mas ele entendia perfeitamente que não fazia sentido mais, como daquela primeira parte que eu falei de Tubarão, em 72, que a gente foi lá e comprou tudo de lá. Nessa época, já tinha muita coisa no Brasil, na época de Praia Mole, então houve uma harmonização tranquila, sem problemas. O Japão foi o grande parceiro.

 

P/1 - E você, depois de 87, sai da Praia Mole...

 

R - Ah, sim. 87, depois que a gente entrega aquilo lá, eu voltei pra Vale porque eu estava cedido ao consórcio, né, eu me apresentei no Rio, e o Dr. Francisco ____ ficou arranjando um lugar pra mim. Duas curiosidades só nesse período: eu tive duas indicações, uma pra diretoria da Petrobrás, e outra pra uma diretoria da própria siderúrgica de Tubarão, mas eram cargos políticos, enfim, a coisa era mais complicada, né, quando você fazia parte de um conjunto de indicações. Mas, então, voltei pra Vale, me apresentei aqui no Rio...

 

P/1 - Isso não te interessou, essa opção?

 

R - Me interessou e muito, só tem que eram cargos políticos, você tinha que ter padrinho muito forte, e eu na realidade não tinha, mas não influenciou negativamente de forma alguma, eu entendia perfeitamente que naquele momento era isso. E a Vale do Rio Doce nessa época não tinha nenhum projeto assim que eu pudesse tocar, mas eu me apresentei, Dr. Schettino: "Você vai ficar comigo." Aí foi nessa época... Aí vem um nome muito importante, eu falei muito no Elias, outro nome muito importante nesse contexto de Vale do Rio Doce foi do Morris Brown, esse _____ me colocou pra trabalhar com ele, o órgão dele fazia muitos estudos, estudos e projetos, análises e tudo mais, era muito nessa área, e dava indicações para a parte operacional. E ele me pediu nessa época, ele me disse que tinha um estudo muito importante pra Vale, porque como eu disse anteriormente, a gente transportava minério e o resto vinha a _____, mas a coisa começou a mudar, nessa época já começava a mudar, já tinha carga, já tinha contêiner, já tinha uma nova face do transporte de carga, então eu pedi que fizesse um estudo, coordenasse pra ele, pra Vale, um estudo da zona de influência da estrada de ferro Vitória-Minas. Eu voltei às origens, nessa época, comecei a ter muito contato com pessoas ligadas à ferrovia, ligadas ao transporte, à importação e exportação. Trouxemos gente de fora pra nos ajudar, pra nos aconselhar. Eu lembro do pessoal do Porto de Roterdã veio aqui nessa época, nos ajudou muito, fizemos muitas viagens, mas postes, postes, instalações; o que tinha que sair do Brasil, o que é que tinha que chegar, de maneira tal que a Vitória-Minas pudesse entrar numa logística de transporte bem mais ampla, porque até aquele momento as coisas vinham de carona. E foi um estudo muito interessante. Quando a gente estava, concluiu uma parte, eu não diria que foi, que a gente terminou tudo não, porque era uma coisa que não podia parar nunca, mas a parte que foi nos delegado, eu diria que 80% foi entregue. Foi um estudo que nós fizemos com a participação da Fundação Dom Cabral de Minas Gerais, aquele pessoal nos ajudou muito, e apresentamos um relatório, que a Vale, a ferrovia deveria começar a cumprir a partir de determinado instante, mas tornar aquilo uma coisa mais dinâmica, não ficar só naquilo não, continuar ir atrás, botar gente pra trabalhar numa área comercial mais atuante, que eu vi que essa coisa vingou depois, logo a seguir, né? Nós tínhamos programado um grande teste, que era com a Fiat, foi um ponto marcante também - antes de eu sair dessa área, deixamos tudo preparado -, a Fiat não acreditava muito que a gente pudesse colocar o contêiner dela, com as pessoas de automóveis que vinham, importadas. A saída não tinha muito problema não, mas a chegada tinha problema, e ela fazia tudo aquilo de carreta, aliás, parece que fazem uma parte até hoje, mas o grande transporte eu acho que já é feito todo pela Vitória-Minas. A Fiat foi o carro chefe, ela que puxaria se essa experiência desse certo, então fizemos uma experiência. - Me parece que naquela época nós fizemos um transbordo em Itabira. - Enfim, chegamos na frente do caminhão, esse aí foi um outro desafio, né, a gente conseguiu mostrar pra Fiat que nós tínhamos condições de fazer um transporte com a velocidade maior do que ela fazia, e a partir daí a coisa evoluiu pra melhor. E hoje eu acho que essa área de logística da Vale ela tá aí hoje, me parece que tem uma diretoria de logística...

 

P/1 - Tem, tem.

 

R - Essa coisa começou em [um] estudozinho lá com o Dr. Morris Brown e alguns colegas nossos do Porto e da estrada, né, e eu tive a honra de coordenar esse primeiro grupo, então essa foi a fase do início da logística do transporte, né?

 

P/2 - O senhor falou em Moçambique?

 

R - É, falei, vou entrar nele agora. Então, como eu disse, nessa época que eu vim, a Vale não tinha projetos pra me alocar em termos de projeto e obra, alguma obra, o pessoal já estava todo aí, arrumadinho e direitinho, né, e na primeira oportunidade que surgiu o pessoal da diretoria, me lembro, Schettino, Marcos, Breno, me chamaram e, de repente, me pegaram de surpresa - eu estava aqui no Rio. Um deles: "Como é? Você já foi lá, já foi pra Moçambique?", "Que Moçambique, o que que é isso?", "Não, tem um projeto aí, você não ta sabendo. Ah, deixa pra você vai ficar sabendo depois." Mas logo em seguida eu fui chamado e me colocaram, que a Vale do Rio Doce precisava de fazer um estudo de viabilidade técnica e econômica pra implantar em Moçambique algo parecido, algo modelo Carajás, mina-estrada-porto e comercialização, ou transporte também, utilizando o retorno de navios - o navio ia com minério, voltava, passava ali por perto, tinha toda essa história -, eu achei um negócio muito interessante, apesar de Moçambique, nessa época, ainda estar naquela fase de guerrilha, né?

 

P/2 - Que ano era esse, 88?

 

R - 1989. Evidentemente, não era como Angola, porque Angola tinha uma guerra e tem até hoje, a coisa lá é muito violenta. Moçambique teve a fase crítica dela, mas foi mais "soft", vamos dizer assim, mas existia, existia, até a gente... Depois, nas experiências lá de ir pra Moçambique, a gente não podia trafegar no chão, o deslocamento a gente tinha que fazer de avião, apesar de que alguns colegas que fizeram uma viagem à noite lá em certa ocasião de helicóptero, viram um monte de balinha subindo lá no helicóptero, um outro colega viu uma mina explodindo em determinado local, mas, enfim, dava pra viver lá bem. Não ficava mais na capital, apesar de ter ido à mina, no local onde seria feito o porto também. A estrada de ferro estava arrasada pela guerra, que, às vezes, você via trechos lá que tinha linha, tinha vagão lá estragando, tinha locomotiva, muito material danificado ao longo do  tempo, pontes derrubadas, o trem não andava, mas já havia uma fase de conversações, de mudanças em Moçambique, que estava bem adiantada, evidentemente, que uma participação da África do Sul, né, alguma empresa brasileira já atuava lá, na área de agricultura, fazendo barragem, etc. e tal. Houve um fato muito desagradável, uma vez que eu cheguei lá na véspera tinham matado um engenheiro agrônomo, paranaense, me parece. Pra ver como é que era as situação. Ele tinha naquele trecho, eles podiam transitar durante o dia até 5 horas da tarde, me parece, de 8 horas [da manhã] às 5 horas [da tarde], vamos dizer assim, mas como ele vinha pro Brasil, ele quis despedir e tal, passou da hora, ele falou; "Ah, não tem problema não, está claro ainda." Metralharam o jipe que ele estava e ele morreu.

 

P/2 - A serviço da Vale?

 

R - Não, de uma empresa, Embrapa. Mas era uma empresa particular a serviço do Brasil lá, feito a gente, era também. Mas, enfim, existia esses fatos isolados que a gente tinha que ter cuidado. Na área das minas você via patrulhas, era um negócio meio assustador. Você imagina Moçambique sem recurso nenhum, aquela miséria, chegamos um dia nas minas, e o pessoal formou lá o pelotão, o pessoal reclamando que já não recebia a não ser quanto tempo [com a] família passando necessidade, aqueles casebres, aquele negócio todo... Enfim, não era nada assim muito assustador não, mas dava um certo receio, você tinha que ter cuidado. Os comboios que atravessavam determinadas regiões dos país, lá no norte, de um país pro outro, do Zimbábue pra Zâmbia - algum país daquele lá -, passavam com patrulhas. Enfim, esses cuidados a gente tinha que ter, e era um trabalho muito difícil. Nós chegamos em Moçambique [e], naquela época, ainda existia o Muro de Berlim, e Moçambique era um país comunista, logo depois da revolução, e tinha aqueles assistentes russos, não é, dinheiro não, esses consultores de diversas áreas, etc. e tal. E já tinha muito brasileiro também, eu me lembro, gente do Banco Central, nessa época, já ficava lá no hotel com a gente e trabalhando também, tentando recuperar aquela coisa toda, porque houve um desgaste com o tempo. A antiga Lourenço Marques, que hoje se chama  Maputo [capital de Moçambique], ela foi desgastada pelo tempo, não tinha dinheiro pra fazer manutenção de prédio, então, a lâmpada queimava, queimou, o elevador acabava, acabou, ia desgastando. De longe a cidade, assim, muito bonita, ampla, mas com esses problemas, alguém tinha que colocar dinheiro lá. Quem colocava dinheiro lá [eram] alguns países europeus, órgãos da ONU, e esses países colocavam a custo perdido, não tinha como recuperar aquilo, alguns projetos pequenos. O grande projeto seria o projeto de carvão, mas que também logo de início que a gente começou a estudar essa coisa, viu que era complicado. Era uma situação bastante complicada, porque era mais um carvão entrando no mercado. Havia indícios de necessidade de que caberia, África, desde a África do sul até lá em cima - tem muito carvão naquela região. Notou-se que a África do Sul não permitiria não, mas iria participar também de qualquer coisa nessa área de mineração, porque eles são “experts” em mineração também, né, tanto é que no fim entrou uma empresa, a Transnatal, ficou parceira da Vale do Rio Doce nesse estudo. Então ficamos assim, com idas e vindas a Moçambique, todos os técnicos de cada área, de ferrovia, de mina e tudo mais, e fizemos um estudo, [que] no final, ele não pode ser chamado de viabilizável, porque era muito difícil coletar esse material todo, não se sabia se tinha, se tinha ou não, tinha alguma coisa, outras não. O nível desse projeto, como é que poderia ser, enfim, ficou muita coisa ainda faltando, então chamamos de projeto de estudo de pré-viabilidade. Nesse meio tempo, eu terminei minhas atividades na Vale, foi quando saiu aquele incentivo pra aposentar em 91. Mas eu sei, eu tenho o estudo hoje, eu ganhei um exemplar, me parece que uma viagem do presidente Collor naquela época, ele levou, entregou lá esse documento final mas a coisa não evoluiu, o estudo não foi à frente. Tem lá o carvão, tem muita coisa pra recuperar naquele país, depois da que do muro mudou [queda do muro de Berlim], alguma coisa deve ter mudado. Dizem que hoje já não tem indício nenhum de guerrilha mais, mas é uma situação crítica de Moçambique, na África em geral, da África negra, né? Mas tá aí, a gente fez o estudo que a Vale do Rio Doce fez, tá tudo bonitinho, tudo explicado, pode-se fazer aquilo ou outra coisa num nível bem menor, tem a chance toda lá.

 

P/1 - Você se desligou da Vale em 91, aí?

 

R - Foi no início de 91, né...

 

P/1 - E o que que você faz depois, como é que é a sua rotina?

 

R - Pois é, no dia seguinte que eu saí, eu já estava trabalhando. Aquela área que eu tinha trabalhado antes, de logística, de transporte, me empolgou muito. Moçambique, no final, me frustrou, porque eu senti logo que não iria sair nada, né, mas existia um compromisso e esse compromisso tinha que ser levado à frente de qualquer maneira, eu falei: "Não, é questão de honra agora concluir esse estudo." E a gente chegou, praticamente estava concluído quando eu saí, faltava pouca coisa pra emitir o documento, fazer ele todo bonitinho - eu cheguei a discutir a capa, as coisas la de dentro. Enfim, mas quer dizer, hoje eu sei que não foi o caminho certo da encruzilhada ou eu continuaria atuando nessa área de projetos, e olha que eu tinha muito conhecimento com empresas de engenharia, construtoras, fabricante de equipamentos. Eu tinha assim uma, quer dizer, era uma praia melhor pra mim, nao é, eu andava melhor, caminhava melhor nesse meio, mas o outro era um desafio da logística, eu achava que era uma coisa que estava explodindo, trabalhei algum tempo com uma empresa, tentei algumas cartadas maiores, mas chegou num ponto que eu vi que não tava no caminho certo. Eu tinha que pegar um atalho e voltar pra esse outro, e voltei a... Fui procurado por algumas empresas, voltei a me aproximar delas, aí comecei ajudá-los, assim, dentro do conhecimento que eu tinha, do que que ela tinha, e da necessidade, não é? O próprio conhecimento pessoal facilita a gente. Pois é, se você conhece uma pessoa, trabalha anos e anos, sabe da seriedade dela, ela sabe da sua, fica fácil de conversar, há uma confiabilidade maior. Evidentemente existe algumas surpresas no meio do caminho, você é pego às vezes de surpresa, mas em princípio, é uma estrada, assim, mais ampla, mais clara, então eu voltei hoje a atuar.

 

P/2 - E como é que é o seu... Você poderia descrever um dia seu hoje?

 

R - Hoje?

 

P/2 - É, que você voltou a morar em Vitória.

 

R - É, porque eu não saí mais de Vitória. Com Moçambique, eu não fui morar em Moçambique, eu ia a Moçambique e voltava, e nessas viagens à Moçambique eu aproveitava pra ver muita coisa de carvão, como é que estava evoluindo, a África do Sul, principalmente, que era uma passagem obrigatória. Mas tinha muita coisa na Europa também, eu falei agora mesmo do Muro de Berlim, porque eu cheguei a ir na Europa Oriental, e fui lá uma semana depois sem muro, a coisa mudou muito. Hoje eu tenho notícias bem interessantes de lá, nessa área de tecnologia, porque a Alemanha Oriental era muito forte também em carvão, cidades lá hoje construídas em cima de lugar onde foi tirado carvão, foi recuperado, a cidade em cima, nas duas [partes da] Alemanha fazia-se isso há muito tempo. Então, hoje é um negócio interessante, Vitória, [a] cidade assim [é] muito gostosa, eu tenho na frente do apartamento que eu moro uma praça muito grande, o nosso Aterro do Flamengo, mas muito gostoso. Logo à frente tem a areia, tem a praia, tem o calçadão, então, a primeira atividade do dia é uma caminhada, essa não abro mão, e se eu abrir mão tem alguns médicos aí. Ah sim, ex-colegas da Vale também que hoje já estão aposentados, mas  continuam clinicando, né, tomam conta da gente até hoje. Tenho grandes amigos lá, tem o casal, Luís Cláudio e a Fátima, principalmente esses dois, ela é minha cardiologista, então me cobra sério. Então começa de uma forma bastante tranquila. Aquelas coisas que aconteciam antigamente, eu não tenho mais o carro da vale, o motorista da vale, a secretaria da Vale, o contínuo da Vale, então hoje eu vou ao banco, faço todos os meus pagamentos, eu resolvo todos os meus problemas. Tive que aprender a fazer tudo isso, não é? Não é que eu achasse ruim não, mas tem um determinado momento que você tem que encarar tudo isso, não é, consegui comprar uma salazinha, montei um escritório, vou lá pra esse escritório, faço meus contatos, eventualmente uma viagem ou outra, alguma empresa dessas pede que eu vá ver alguma coisa, alguma nova oportunidade de trabalho. É uma rotina tranquila. (risos)

 

P/1 - Você tem netos?

 

R - Ah, sim. Já chegou um, o Gabriel. É, tem o mais velho, o Elvio Jr., casado, ele não tem filho ainda, deve estar encomendando aí pra breve. Essa minha filha, inclusive, se casa no mês que vem, ela já tem um neném, mora, o noivo mora, eles moram comigo, né? Quando eu me separei os filhos ficaram morando comigo. Então já tenho um netinho sim, o Gabriel, ele vai ser o pajem do casamento no mês que vem. Bom, eles esperaram um pouquinho, tranquilizar a vida deles. Ela trabalha, é formada em pedagogia...

 

P/1 - São quantos filhos?

 

R - ...tenho vivência nos Estados unidos, ____, dá aula de inglês. São quatro filhos...

 

P/1 - ____ trabalha na Vale?

 

R - Não, esse mais velho, ele ficou no Japão durante 6 meses, através desses conhecidos, esse pessoal, quer dizer, eu tenho amigos hoje no Japão, quer dizer, eles iam lá em casa, eu ia [no] Japão, na casa deles, era sempre muito bem recebido. Os filhos, conhecendo, quando ele, ele recebeu o convite, porque ele sempre foi muito voltado pra essa área, e o pessoal gostava muito dele, ia lá pra casa, ficava conversando sobre computador, etc. Recebeu um convite e fez um estágio durante 6 meses lá no Japão, e ele se voltou pra essa área de informática, principalmente de rede, de projeto de rede, implantação, manutenção, tem essa experiência, ele tem uma face assim muito interessante, que, desde [a] época esses movimentos de igreja e tudo mais, e a partir daí pra área desse ____ clube, do __ etc. e tal. Então, ele e a esposa são bastante integrados nessa área de, viajam muito e tudo mais, então tão bem encaminhados e sem problemas. A Raquel fez pedagogia, vai casar agora, o marido dela... Os dois ficaram conhecendo mais naquele negócio de Disney, todos [os] dois professores de inglês também, enfim, o apartamento está pronto agora e eles resolveram casar, já levam um filho de presente. Bom, a outra, a Patrícia é a segunda, a Pat sempre foi... Ela chegou a fazer vestibular, passou em economia, mas não era o negócio dela, o negócio dela sempre foi modelo, sempre foi meio artístico. Ela ficou no Rio durante algum tempo, em ____, em Laranjeiras, fez todos os cursos que ela tinha direito, fez oficina da Globo, participou de algumas novelazinhas, mas não sei, ela nunca estava satisfeita com aquilo, o negócio dela é teatro, né? Voltou pra Vitória, ficou um tempinho lá, e hoje ela mora em São Paulo, tá lá já preparando peças e trabalhando - e tome cursos e mais cursos -, mas vamos ver, do jeito que ela é batalhadora, ela vai chegar lá qualquer hora.  Bom, na época de Praia Mole, chegou um temporão lá em casa, é o mais novo, é o Dudu. Ele mesmo com a separação, ele tinha o quê? 7 ou 8 anos. Ele ficou morando comigo também. Houve uma afinidade maior, muito forte assim entre a gente, tá lá, e a profissão dele é uma profissão bem ingrata, é complicado o que escolheu pra fazer na vida, o Dudu hoje é piloto de "Kart", e ele não abre mão do automobilismo de forma alguma. Viemos da Bahia semana passada, ele disputou o campeonato brasileiro, machucou as costelas todas, mas, enfim, esse aí que eu estou gerenciando hoje, é complicado, é um esporte caro, ingrato, né, muito solitário - ele não tem nada de solidário -, é você, o carro, e teu pai, no máximo, tua família. Aconteça o que acontecer você está ali, se vira sozinho, mas promove o crescimento da pessoa queira ou não porque ele tá ali, tem que batalhar pelo que ele quer e vai contar com ajuda de quem? Da equipe. Tem um bom carro, tem um bom equipamento, treinar muito. Mas é o que eu tenho que fazer de agora pra frente. Aliás, eu já venho fazendo... Ele começou a correr com 8 anos, está com 16.

 

P/1 - Elvio, a gente está chegando ao final da nossa entrevista, a gente costuma perguntar ao entrevistado o que eles acham do Projeto Vale Memória e, especialmente, se gostou de deixar esse depoimento, e qual a importância?

 

R - É, tinha muito tempo que eu não encontrava com o João Lara, ele esteve lá em Vitória no aniversário do Maneco, e saímos, conversamos, fomos almoçar junto no dia seguinte, ele me falou sobre esse projeto, e eu falei: "Puxa vida, João. Vocês..." Eu to falando [do] João aqui, o João tem um detalhezinho. O irmão dele, o Xuxa, morava em Moçambique, então era o cara que me dava apoio lá, ele a esposa dele, sempre me deu apoio muito grande, lá, independente de qualquer coisa, do jeito dele, da amizade que eu tenho com ele. Mas ele foi em Vitória e me falou desse projeto, eu achei um negócio fantástico, ele me contou, deu umas pinceladas, não é? Eu falei: "Puxa, mas que coisa bonita que a Vale está fazendo." Às vezes a gente tem a necessidade de deixar alguma coisa escrita, não é, eu tenho um monte de documento, fotografia, não é, mas eu nunca escrevi nada da minha passagem pela Vale do Rio Doce, entrei porque eu quis, saí na hora que eu achei o momento exato. Eu acho que ela também. Eu falo pra todo mundo que eu saí zerado com a Vale, tudo que ela precisou de mim, eu dei à ela, tudo que eu quis dela, ela me deu, todo o meu crescimento profissional. Então, eu achei um negócio fantástico, e estou tendo aqui hoje a certeza com vocês de que eu acho que vale a pena, um projeto muito importante. Alguém algum dia vai querer saber a história dessa empresa, o que ela foi, o jeito que ela começou, os diversos estágios pelo qual ela passou, o momento de transição - ela foi privatizada. A gente tem visto, tem lido muito sobre essa... A Vale está numa constante mutação, ela está procurando uma nova forma de ser, voltando toda a visão dela pro minério de ferro, voltando às origens. Eu acho tudo isso muito importante. Eu não sei hoje... Eu gostaria de fazer essa colocação: nessa época da gente, tinha um negócio chamado camisa da Vale, a gente botava aquilo, aquela camisa fazia parte da pele da gente, né, eram 24 horas por dia com aquela... Até hoje eu tenho orgulho da minha empresa que eu trabalhei, e a preocupação é conversar de vez em quando com algumas pessoas que estão lá dentro [e] não sentir mais isso. Eu fico lamentando profundamente, apesar do crescimento tecnológico, de tudo que ela está fazendo, eu não vejo hoje mais [em] um empregado da Vale um pouquinho da camisa, não precisa de ser... A gente precisa ser profissional sim, sem dúvida tem que ser, bom, o uniforme da Vale, a camisa da Vale em um determinado momento foi transformado em uniforme mesmo, a gente vestia com orgulho, viajava pra Moçambique, a gente trabalhando em Moçambique usava o uniforme da Vale do Rio Doce, não tinha preconceito algum, achava muito, era com orgulho que a gente fazia aquilo tudo. Então a gente vê hoje o pessoal uniformizado, mas a impressão que a gente tem é que a camisa de dentro não está sendo vestida. Eu acho que valeria a pena, vale a pena, você adotar a empresa, você se integrar à empresa, e não tá ali [só]: "Me paga tanto amanhã.” Igual jogador de futebol: vende, chega lá na outra empresa, beija a camisa da empresa e fala "Ai!" E não é bem por aí, a minha Vale do Rio Doce não é bem por aí, é outra, né? Então eu parabenizo a todos vocês que tiveram a ideia de marcar essa empresa dessa forma que está sendo. Tenho lá em Vitória, tem o Museu Ferroviário que a gente olha com orgulho e vê lá a maquinazinha na frente, o vagão - tem até um restaurante muito gostoso. Mas são coisas que têm que ser preservadas pro futuro, quer dizer, a história da humanidade, né, é feita por aí a qualquer momento, você ter essa formação. Parabéns.

 

P/1 - Muito obrigada.

 

P/2 - Obrigado pela sua participação.    

     

[Fim do depoimento] 

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