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História

Uma espécie de Chico Bento

História de: Diego Christiano Pila
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2014

Sinopse

Diego Christiano Pila é um corintiano fanático que adora contar histórias de sua vida na zona rural de São Carlos. Relembra em seu depoimento a escola rural que frequentava e as brincadeiras com os amigos no sítio onde morava. Ao recordar sua adolescência, fala sobre o período em que morou com os avós para fazer o ensino médio e como entrou na Unesp para cursar Relações Públicas.  Ao ingressar na Petrobras em 2003 um mundo novo se descortina, apresentando-lhes a cidade de São Paulo e o Rio de Janeiro. Finalizando seu depoimento ele cita o momento do depoimento quando sua esposa estava grávida do seu primeiro filho.

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História completa

Meu nome é Diego Christiano Pila. Nasci em São Carlos, dia 28 de outubro de 1978. Meu pai é de Mogi Mirim e minha mãe é de São Carlos. Meus avós paternos são de Mogi Mirim e meus avós maternos são de uma cidade chamada Novo Horizonte, que também é interior do Estado de São Paulo. Meu avô paterno é Lupércio Pila, ele sempre foi ligado à atividade rural. Nasceu na fazenda, foi criado na fazenda, sempre foi ligado a isso. Meu bisavô era dono de fazenda. Teve vários filhos e os filhos continuaram com essa história, com propriedades menores. Meu pai foi criado também em sítio, mas teve uma condição de estudar, se formou em Contabilidade. Com mais ou menos uns 35 anos de idade, o meu avó adoeceu e não tinha quem cuidasse do sítio, o meu pai também não estava muito feliz com a profissão e retornou pro sítio. Dos cinco aos 15 anos eu morei em fazenda, estudei em escola rural. A família toda tem um pé na roça bem forte. A família da minha mãe não tem muito essa questão, são mais urbanos. Meu avô já foi criado em São Carlos, na cidade mesmo. O meu bisavô por parte de pai, que é o Luiz Antonio Pila, ele já veio pra essa região do interior de São Paulo, em Mogi Mirim. Depois o meu avô acabou indo pra São Carlos, mas a concentração maior da família Pila é ali na região de Mogi Mirim. Meus pais se conheceram no trabalho. O meu pai trabalhou praticamente a vida toda, antes de retornar pro sítio, numa empresa grande de metalurgia lá em São Carlos, na área de contabilidade. Meu pai teve essa questão de morar na cidade, fazer faculdade de Contabilidade e ele foi trabalhar nessa empresa em São Carlos. Meu pai trabalhava na Contabilidade, minha mãe na área de RH, acabaram se conhecendo na empresa e se casaram.

Minha casa de infância era uma casa simples, mas era bem bacana. Era muito criança, mas eu tenho flashes de acordar de manhã, ver meu pai saindo pra trabalhar e no final do dia ele costumava sempre chegar em casa chacoalhando a chave do carro. Mas logo que meu pai e minha mãe se casaram, minha mãe deixou de trabalhar e meu pai continuou trabalhando na empresa durante algum tempo ainda. A minha irmã nasceu quando a gente já morava no sítio. Nós temos nove anos de diferença. Quando ela nasceu eu já tinha nove anos de idade e já fazia quatro anos que eu morava na zona rural. Quando meu avô ficou com o estado de saúde um pouco mais debilitado, eles passaram a morar na cidade pra ter uma proximidade mais de hospital, serviço médico, esse tipo de coisa. Então meus avós passaram a morar na cidade e a gente foi pro sítio e assumiu a operação das coisas. Era uma pequena propriedade mesmo, era praticamente uma subsistência. Tinha uma quantidade de gado de leite, ele tirava leite todo dia e tem um esquema de cooperativa de laticínios que vem, compra o leite dos pequenos proprietários, faz o transporte, leva pra cidade. E plantação de cana, alguma coisa pra venda pra usina e uma boa parte pra utilizar na questão do gado que tem no sítio, e milho, basicamente, plantação de milho que uma parte era consumo interno e a outra era vendida. A casa do sítio era bacana porque era uma casa muito antiga, bem grande, aquelas casas que tem vários quartos, tem porão. Aquele chão de madeira que faz um barulhão quando você pisa, aquela sala centralizada com os quartos em volta. A gente jogava bola, andava a cavalo, nadava no rio, era bem vida de Chico Bento mesmo. Com sete anos eu já comecei a ir pra escola rural num distrito ali próximo. Às vezes, tinha muita atividade às vezes na escola, mas brincadeira de infância era muito futebol, bolinha de gude, andar a cavalo, andar pelo sítio, com o pessoal dos sítios vizinhos, filho de caseiro.

A escola rural era interessante. A gente morava num sítio e a escola rural mais próxima que tinha era num distrito de São Carlos que chama Água Vermelha. Era uma escola estadual e ela atendia todo o pessoal de fazenda do entorno, além do distrito. E a prefeitura colocava ônibus pra circular na rodovia, inclusive entrava em algumas fazendas maiores. Esse ônibus fazia uma jornada todo dia. Eu acordava cedinho, muito cedo, madrugada, tipo cinco, cinco e meia da manhã. Aí meu pai me levava até a porteira, que é a entrada da fazenda, que ficava na beira da rodovia, e dali o ônibus passava de madrugada, a gente pegava o ônibus, fazia a linha toda pegando a molecada toda das fazendas, isso demorava uma hora, uma hora e pouco pra fazer esse catado do pessoal todo e aí levava pra escola. A aula começava cedinho, sete horas, sete e meia, aí tinha aula no período da manhã todo e depois na hora do almoço a mesma coisa, todo mundo entrava nos ônibus da prefeitura e distribuía todo mundo de volta, era uma jornada. Duas vezes por semana quem estudava de manhã ficava no período da tarde na escola, que era pra aula de Educação Física. Então, nesse dia você não voltava pra casa na hora do almoço, não pegava o ônibus da hora do almoço. Você ia pegar o ônibus pra voltar pra casa só no final da tarde com o pessoal que estudava na parte da tarde. Então eram dois dias por semana que os amigos ficavam soltos no distrito lá. Era o dia que a gente ia passear na cidade, ia nas lanchonetes que tinha, ficava circulando pela cidade, fazendo arte a tarde toda. Era brincadeira de polícia e ladrão, quando a gente conseguia juntar uma grana pra tomar um lanche na lanchonete. E jogava muita bola.

Eu sempre torci para o Corinthians. É uma tradição de família. O meu bisavô, o Antonio Pila, quando ele veio pro Brasil acho que o time que ele simpatizou na época foi o Corinthians, virou corintiano. Passou isso pro meu avô Lupércio, que sempre foi corintiano bem apaixonado também. E passou pro meu pai que também é corintiano fanático, que passou pra mim. E é uma coisa muito forte na nossa família. Pra você ter uma ideia, quando eu nasci o meu pai pegou uma camisetinha do Corinthians, colocou na porta do quarto onde a minha mãe tava, e todo mundo que foi me visitar assinou a camisetinha do Corinthians e essa camisetinha tem lá, é uma relíquia dele. Meus pais moram em São Carlos ainda, eu moro em São Paulo e eu costumo falar com meus pais duas vezes por semana por telefone. Então primeiro eu falo com a minha mãe, eu pergunto como estão as coisas, se a minha irmã está bem, pergunto se está tudo bem com meu avô, conversamos amenidades da família. E depois quando eu pego o telefone com o meu pai a gente só fala de futebol e só fala do Corinthians, xinga o técnico, fala o que não está bom. A minha mulher fala: “Cara, você não tem outro assunto com seu pai?” “Não tenho” (risos), é uma coisa muito forte na família essa questão do futebol e do Corinthians. E a minha mãe é palmeirense. E ela é da palmeirense chata, na verdade ela nem liga muito pro Palmeiras, ela fica feliz se o Corinthians se ferra de alguma forma pra poder tirar sarro do meu pai, de mim e da minha irmã também, que acabou herdando essa questão de ser corintiana também. E meu pai quando era jovem jogou futebol, diz ele que foi muito bom, treinou na Ponte Preta. Naquela época o futebol não tem o glamour que tem hoje, antes era coisa mais de vagabundo, de quem não queria muita coisa com o trabalho, era outra perspectiva. Meu pai parece que tinha mesmo um certo talento, mas meu avô falou: “Nada disso, a gente está mudando pra São Carlos, tem uma outra coisa lá, você vai comigo, vai trabalhar, não vai ficar atrás desse negócio de futebol porque isso não dá futuro pra ninguém”.

Eu sempre fui muito ligado a minha avó. Minha avó sempre foi muito protetora, eu fui o primeiro neto das duas famílias, então sempre fui meio mimado. Então, morar com a minha avó foi sensacional pra mim. Na verdade, foi uma mudança de vida muito grande porque tinha morado desde os cinco anos de idade até os 15 no sítio com outra perspectiva de vida, um universo muito diferente do que eu fui passar a conviver quando eu fui fazer colegial. Fui morar com meus avós em São Carlos e fui estudar numa escola pública. Então eu fui ter um tipo de vida completamente diferente, conviver com pessoas completamente diferentes, que tinham uma vivência de cidade a vida toda, eu era o cara que estava vindo do sítio, então, foi um crescimento muito grande pra mim. Quando eu terminei o colegial eu passei no vestibular e fui morar em Bauru. Morei em Bauru sete anos. Por coincidência alguns amigos meus que foram fazer Engenharia em Bauru, a gente acabou se organizando pra morar junto e acabou que a coisa deu certo. A época de faculdade eu considero a melhor época da vida. Pra mim foi uma gradação, sair do sítio, ir morar em São Carlos, já pra uma vida bem diferente, depois com 18 anos saí de São Carlos e fui morar numa república com mais cinco pessoas em Bauru. Foi a fase de maior aprendizado da minha vida, sem dúvida. Logo no segundo ano eu já fui procurar estágio pra ajudar a me sustentar, mas foi um período fantástico e morar sozinho, longe de casa, com total responsabilidade por mim mesmo. Você morar numa república, seis homens morando numa república era um caos. Foi muito legal essa questão de você aprender a impor seus limites e a respeitar os limites dos outros. Eu fiquei lá um ano e meio no primeiro estágio e já emendei um outro, numa empresa de transporte de passageiros e de cargas, uma empresa muito forte lá na região de Bauru, chama Expresso de Prata, o jornal da cidade é deles, a rádio da cidade é deles, transporte de passageiros, tal. De lá eu fiz um estágio, mais um ano e meio, até eu concluir o curso, eu fui efetivado lá e trabalhei como assessor de marketing, toda essa parte de relacionamento com cliente, comunicação, assessoria de imprensa, publicidade, cuidava de tudo que tinha a ver com comunicação mesmo porque era uma estrutura bem enxuta. Trabalhei lá durante três anos até passar no concurso da Petrobras. Foi uma época que eu tentei algumas vezes participar de programas de trainee de Volkswagen, Natura, Shell. E não tive sucesso nos três ou quatro programas de trainee que eu tentei entrar, fui efetivado no Expresso de Prata e fui trabalhando, fazendo ali a minha carreira, mas sempre com uma vontade de ir pra uma coisa maior, de ir pra uma cidade maior, uma empresa maior, pra poder realmente crescer um pouco mais profissionalmente.

Eu prestei o concurso em 2001, mas fui entrar na Petrobras em 2003. Quando saiu o resultado do concurso, fiquei em quatro lugar e tinham quatro vagas. Aí comemorei. Mas tinha uma questão no concurso que o quarto lugar perdia a vaga pro deficiente físico melhor colocado. Mas tinha um período que eles poderiam chamar pra lista de reserva. Mas como essa época eu ainda tava morando em república e a gente mudou de uma casa pra outra, eu esqueci de atualizar os meus dados na Petrobras. Quando eles foram me chamar mandaram um telegrama que nunca chegou até mim. Por sorte, numa sexta-feira, era mais ou menos umas seis horas da tarde, tocou meu celular, eu tava já fechando as coisas no trabalho pra ir pro bar pra tomar uma cerveja com os amigos e era uma pessoa do RH da Petrobras falando: “Você está sendo chamado pra assumir o seu cargo aqui na Petrobras, só que houve várias tentativas de tentar entrar em contato contigo que não foram bem sucedidas e você tem que estar aqui na segunda-feira, que é o seu último dia”. Uma ligação pra celular na sexta-feira, quase seis horas da tarde! Hoje conhecendo a Petrobras eu fico imaginando qual a chance de alguém do RH da Petrobras ligar seis horas da tarde pra um telefone celular. Daí foi aquela correria, falei com a minha chefe, levantei a documentação e na segunda-feira peguei aquele ônibus e vim a São Paulo pela primeira vez, para fazer os exames admissionais.

Nessa chamada de profissionais do meu concurso, entre jornalistas, publicitários e relações públicas, chamaram 40 pessoas. Então chegou todo mundo no hotel no Rio de Janeiro. Foi um período de uma semana dessas palestras e logo depois começou o que a Petrobras chamava de “Curso de Formação”, que foi durante seis meses. O pessoal de cada área passou a ter o que eles chamam de nivelamento de conhecimento. Eles deram praticamente um MBA de Comunicação. Seis meses morando em hotel e praticamente só estudando na Universidade Petrobras. Aí depois eu voltei pra trabalhar no escritório de Comunicação da Petrobras aqui em São Paulo. Fiquei três anos trabalhando aqui e depois eu voltei pro Rio de Janeiro, fui promovido pra uma função de coordenador, me ofereceram ir pro Rio e nessa época eu entendi que era importante ter uma passagem pela sede da empresa pra entender como as coisas funcionam. Voltei pro Rio de Janeiro, morei seis anos lá trabalhando na área de Publicidade. Voltei pra São Paulo depois de seis anos, já estou há dois anos em São Paulo, mas o Rio de Janeiro foi uma cidade que me conquistou muito, pretendo um dia voltar pra lá pra morar lá.  Eu vim pra assumir uma Gerência Regional. E daí é uma oportunidade de crescimento profissional que era importante pra mim na época, eu aceitei e estou há dois anos de volta aqui nessa loucura. Eu conheci minha esposa na minha primeira passagem por São Paulo, na Petrobras. Ela era estagiária, mas não da área que eu trabalhava, era uma outra gerência. A gente conviveu no ambiente de trabalho. Na verdade, numa determinada oportunidade que a gente foi num evento junto a gente acabou ficando junto. Hoje ela trabalha com assessoria de imprensa, ela também é Relações Públicas. Mas ela seguiu a carreira dela na iniciativa privada. A gente se conhece há sete, mas somos casados há quatro anos. Ela é de Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Ela está grávida do nosso primeiro filho, vai ser o primeiro. Está de quatro meses.

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