Busca avançada



Criar

História

Uma engenheira química pioneira na Petrobras

História de: Entrevista de Glória Conceição Oddone
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 09/07/2021

Sinopse

Interesse por Química ainda criança. Carreira como engenheira química pioneira na Petrobras. Envolvimento na área de treinamento e pesquisa da empresa. Casamento. Filhos. Novos interesses depois da aposentadoria. Cursou História da Arte.

Tags

História completa

 

Projeto Memória Petrobras

Realização Instituto Museu da Pessoa 

Entrevista de Glória Conceição Oddone

Entrevistado por Inês Gouvêa e Márcia de Paiva

Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2008

Código MPET_HV002

Transcrito por Flávia Penn

Revisado por Raquel de Lima

 

P/1 – Boa tarde, Dona Glória! Eu queria começar a entrevista pedindo que a senhora nos fale o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Está certo. Meu nome é Glória Conceição Oddone. Eu nasci em Belém do Pará. Vim para o Rio quando tinha 9 anos e sou carioca de coração.

 

P/1 – A senhora nasceu... Qual é a sua data de nascimento?

 

R – É 24 de maio de 1928. Eu fiz 80 anos este ano.

 

P/1 – Que beleza!

 

R - Fiz uma festa, mas depois eu fiquei com esta artrose e piorou muito.

 

P/1 – É, mas tem que comemorar. A senhora se lembra de Belém ou veio para cá muito pequena?

 

R – Não... Eu voltei lá depois de adulta, mas só dei uma olhada. Foi circunstancial o meu nascimento lá.

 

P/1 – Os seus pais eram daqui?

 

R – Não, de Manaus. Eu conheço um pouco Manaus, mas como eu vim para cá quando eu tinha 9 anos, aquilo lá ficou sendo só o meu berço. Não tenho maior afinidade, eu sou carioca, carioca da gema.

 

P/1 – Qual era o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai era Lasar Leon ______, era francês. Minha mãe era descendente de italiano, Maria Antonieta __________.

 

P/1 – Seu pai trabalhava em quê?

 

R – Ele era comerciante, tinha uma joalheria. No tempo áureo da borracha, ele tinha uma joalheria e fazia muitos bons negócios. Tinha muito dinheiro. Depois que acabou o tempo da borracha, o pessoal foi ficando sem disponibilidade monetária.

 

P/1 – Aí vocês vieram aqui para o Rio?

 

R – Viemos para o Rio.

 

P/1 – A senhora cresceu onde aqui no Rio?

 

R – Bom, eu morava no [bairro do] Catete e depois fui para a Glória. Eu morei muitos anos na Glória e no Catete também, logo que eu cheguei.

 

P/1 –  A senhora realizou os seus estudos onde?

 

R – O primário, eu estudei lá em Manaus, num colégio de freiras. O resto, eu estudei no Colégio Anglo-Americano. Depois, eu entrei para a Escola Nacional de Química, onde eu fiz a minha carreira. O meu curso superior de Química Industrial.

 

P/1 – Como é que a senhora escolheu Química?

 

R  – Olha, é uma pergunta interessante! Na época que eu era criança, todo mundo queria ser professora. Então: “O que você vai ser?” “Ah, eu vou ser professora.” E entrava para a Escola Normal, lá na Tijuca. Eu sempre disse: “Eu nunca vou querer ser professora porque eu acho horrível!” Não gostava de ser professora. Eu nem sabia o que era aquilo: “Eu vou ser química!” Eu tinha dez anos quando eu disse isso. Eu não sabia o que era ser química, mas a minha vida inteira eu afirmei que ia ser química. E fui [risos].

 

P/1 – Fez vestibular? Como é que era?

 

R –  O vestibular da época era dificílimo porque aqui era a principal escola do Brasil. Naquela época, era Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil. A UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] era chamada Universidade do Brasil porque naquela época, nós éramos a capital do Brasil. Então, era Universidade do Brasil. Só tinha essa escola e tinha 40 vagas para o Brasil inteiro. Tinha uma outra escola no Paraná, mas era muito fraquinha, todo mundo queria vir para cá. O vestibular era uma prova escrita de cinco matérias e uma prova oral das cinco matérias. Era muito difícil entrar. Na minha turma tinha nove mulheres. Era uma coisa assim: ”Puxa, nove mulheres num curso de Química!” Eram 40, né? Realmente, eu tive muito boas companheiras para estudar! Foi a primeira turma que tinha mais mulheres. Geralmente, era assim, uma, duas mulheres. Não era como agora, às vezes são mais de 50 %.

 

P/1 – E seus pais, o que falavam quando a senhora dizia que queria fazer Química?

 

R - A minha mãe dizia assim: “Eu preferia que você fosse professora” [risos]. E meu pai não se metia muito porque ele tinha uma vida conosco, era a vida dele e nós. A minha mãe sempre me incentivou muito: “Você quer ser química, minha filha, então vamos lá.” Com muito esforço, nós fizemos o curso. Naquela época, eram quatro anos e saía como química industrial. Depois, você fazia mais duas cadeiras e virava engenheira química, como aconteceu comigo.

 

P/1 – Quando a senhora entrou no curso, sem saber direito o que era Química… Como foi esse primeiro contato com a Química? A senhora gostou?

 

R – Eu gostei. O primeiro ano, eu achei horrível, porque o primeiro ano é horrível em todas as carreiras, só se estuda o básico, Matemática, Física, não tinha nada a ver com Química. Tinha só uma cadeira de Química, eu achava horrível. Como eu já estava lá, então: “Vamos em frente!” No segundo ano, começaram as cadeiras específicas da carreira e aí eu gostei, achei ótimo. Gostava muito de trabalhar no laboratório, embora eu tenha tido a oportunidade na vida de trabalhar num laboratório. Eu fui gerente, praticamente a minha vida toda. Eu sabia que gostava de laboratório, mas tinha outras coisas para fazer.

 

P/1 – Nessa época, a senhora namorou?

 

R – No segundo ano da escola, eu o conheci, quer dizer, eu já conhecia porque ele era meu colega. Eu olhava para ele: "Poxa, ele é formidável! Tirou o segundo lugar para entrar na faculdade!” Isso era uma coisa difícil naquela época, não era como é agora. Eu já tinha outro namorado e continuei namorando o outro, mas fiquei de olho grande nesse aí. Quando chegou o segundo ano, nós fomos fazer um trabalho no laboratório, eu tinha que montar um negócio. A gente trabalhava em dupla: eu trabalhava com uma colega e ele trabalhava com outro ali do meu lado. A gente tinha que montar uma parafernália, um negócio complicado. Ele montou a parafernália dele logo, ao lado da minha, e foi jogar vôlei. O campo era pertinho, as instalações nessa época eram na Praia Vermelha. Eu fiquei fazendo a minha oxidação. Dali a pouco, o negócio dele explode em cima de mim [risos]. Era uma oxidação com (ácido sulfúrico?). A minha roupa – eu tinha um avental – caíram pedaços… Eu fiquei danada da minha vida porque eu perdi o meu avental [risos]. O meu avental desmanchou. Graças a Deus, porque podia dar uma queimadura. Essa mistura (sulfocrômica?) é uma coisa terrível, mas graças a Deus eu estava com o braço para cima e pegou mais aqui [no avental]. Eu fiquei mexendo com ele: “Você tem que me dar um avental novo, porque o meu avental era novinho!” Isso era conversa fiada, só para puxar conversa. Aí, nós começamos a olhar um para o outro... Ele sabia que eu tinha um namorado antigo e ficava com o olho comprido. Tinha uma festa no sábado, não sei se ainda tem na faculdade, era uma chopada. Faziam uma chopada no sábado. Eu convidei o meu namorado porque eu não tinha nada a ver com o outro. Quando ele viu, tomou uma bebedeira de chope e o pessoal foi me contar.

 

P/1 – O seu paquera?

 

R – É, o que eu estava paquerando. Ele ficou ruinzinho mesmo. Os colegas vieram me falar: “Sabe, o Ailson tomou chope de tristeza!” Eu disse: “Deixa ele comigo” [risos]. O outro, eu estava namorando por namorar, porque eu gostava mais dele. Depois, eu convidei ele para ir ao cinema e dentro do cinema nós começamos a namorar [risos].

 

P/1 – Diga o nome dele.

 

R – É Ailson Oddone. Ele foi superintendente de pesquisa aqui no Cenpes [Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello].

 

P/1 – Aí vocês casaram logo?

 

R – Não, não casamos não. Estávamos no segundo ano. Nós fizemos o curso.

 

P/1 – Ele era da sua turma, não é?

 

R – Da minha turma. Nós fizemos o curso e depois entramos para o Conselho Nacional de Petróleo, não era Petrobras [Petróleo Brasileiro S.A.] naquela época. Eles tinham organizado esse curso de refinação que foi um grande sucesso da Petrobras. Nós fizemos esse curso que durou um ano e meio. Depois de formados é que nós nos casamos.

 

P/1 – Vocês se formaram e ele entrou primeiro?

 

R – Não, entramos juntos.

 

P/1 – Ele que teve a ideia, ele que pensou?

 

R – Quando eu saí, era difícil arranjar emprego bom. Ruim arranjava bem… Eu fui fazer um trabalho… Eu estava trabalhando num laboratório e fiquei lá, na minha. Ele disse: “Saiu um anúncio no jornal que vai ter um curso de petróleo e eu vou fazer esse negócio.” Precisava só de um exame de inglês porque os professores iam ser americanos. Ele começou a fazer o curso e gostou. Ele disse: “Glória, larga esse emprego que você tem que não vai te levar a lugar nenhum. Vem fazer esse curso comigo.” Aí, eu entrei. Como as matrículas já tinham fechado, eu entrei como ouvinte. Fiz o curso. Quando terminou, fiz uma prova, passei muito bem e fui admitida no bendito curso de refinação de petróleo que foi organizado pelo Conselho Nacional de Petróleo para formar técnicos para a parte de refinação de petróleo. Esse curso durou um ano e meio e era puxadíssimo. Eu nunca estudei tanto na minha vida. Era uma coisa, a gente estudava umas 15, 16 horas por dia, tudo em inglês.

 

P/1 – Esse curso era do SSAT [Setor de Supervisão de Aperfeiçoamento Técnico]?

 

R – Era do SSAT.

 

P/1 – Diga o que quer dizer para ficar gravado o que é o SSAT.

 

R – Bom, o Conselho Nacional de Petróleo foi criado para gerenciar os assuntos de petróleo. Então, tinha pessoas lá – uma delas era o Antônio Seabra Moggi – que acreditavam que uma empresa é aquilo que seus técnicos são. Então, ele resolveu criar um curso. Ele foi aos Estados Unidos, fez entrevistas com professores da área de refinação de petróleo e convidou alguns para vir dar esse curso de refinação aqui. Ele organizou esse curso. Quando nós começamos, nós éramos 12. Fizemos esse curso de quatro períodos, um deles era um estágio na [Refinaria de] Mataripe.

 

P/1 – Tinha outras mulheres?

 

R – Tinha três mulheres, mas uma não passou. Tinha uns homens também… Eu já nem me lembro mais. Eu sei que a nossa turma ficou com 11 pessoas: tinha duas mulheres, eu e a Eliana, e o resto de homens, inclusive o meu marido. Nós estudávamos que nem uns leões. O curso começou em abril, mais ou menos. Ah, eu não falei do SSAT!

 

P/1 – É.

 

R – No Conselho Nacional de Petróleo havia várias divisões e uma delas era o Setor de Supervisão de Aperfeiçoamento Técnico, o SSAT. Ele se encarregava de treinamento do pessoal de nível superior de um modo geral. Naquele tempo, tinha poucos anos de organização, só tinha o curso de refinação e a primeira turma era a nossa. Quer dizer, nós íamos servir de cobaia para ver se alguém sobreviveria a aquele curso.

 

P/1 – Onde funcionava esse curso?

 

R – Ali na [Avenida] Treze de Maio. Eles alugaram um andar de um edifício e nós estudávamos ali porque era só aula teórica. Tinha uma aula prática que a gente conseguia, num determinado lugar, fazer umas coisinhas, só para dizer que tinha aula prática.

 

P/1 – Num laboratório?

 

R – Num laboratório que era emprestado para nós naquele dia. Dentro do currículo do curso, estava previsto um estágio na refinaria e só tinha uma refinaria naquela época, a refinaria de Mataripe. Uma refinariazinha que a gente agora chama de piloto, de tão pequenininha que era comparada com as outras que nós temos. É uma unidade piloto. Isso foi em 1953. O Doutor Moggi vivia indo lá para Mataripe, mas eles não queriam que nós fossemos de jeito nenhum, porque “Não pode entrar mulher na unidade. Lá tem um monte de operários e eles vão desrespeitar as técnicas.” Olha, menina, acho que levou uns dois meses para eles aceitarem que nós fossemos fazer esse estágio lá em Mataripe.

 

P/1 – O que a senhora sentiu ao ser essa mulher pioneira a quem foi negada a entrada?

 

R – Naquela época, nós não tínhamos a visão do que estávamos vivendo naquele momento. Agora, eu vejo assim: “Eu sou pioneira!” Mas, naquela época, a gente não sentia nada. Aquilo era um curso que a gente estava fazendo e o nosso chefe estava com dificuldade de deixar a gente entrar lá. Depois de dois meses eles aceitaram e nós fomos para Mataripe em igualdade de condições com os outros colegas que eram homens.

 

P/1 – A senhora já estava casada?

 

R – Não, eu namorava. Eu só casei depois de estar formada e empregada. A gente estudava em conjunto. Estudava muito com a Eliana. Era o nosso grupo: eu, a Eliana e o Ailson. Os operadores eram muito atrasados, não tinham preparo nenhum. O pessoal dizia que eles tinham sido pegos à unha!

 

P/1 – Lá em Mataripe?

 

R – Lá em Mataripe. Tinha uns engenheiros que não tinham curso de refinação, porque o nosso era o primeiro. A gente ia para a Unidade para ver como é que eles faziam a operação da unidade, ajudar no laboratório para ver as propriedades dos produtos. Eu sei que, no fim do curso, eles fizeram uma avaliação e, por sorte, eu fui a primeira colocada. Então, eles falavam: “Viu, é mulher, viu? Tirou primeiro lugar!” Mas deu tanto trabalho, tanto trabalho, que o Doutor Moggi não aceitou mais nenhuma mulher durante 25 anos!

 

P/1 – Mesmo com o seu primeiro lugar?

 

R – O pessoal lá dizia que dava muito trabalho. A gente dizia: “Puxa vida!” Aí, eles mudaram o nome para engenheiro de processamento. Eu, na Petrobras, sou engenheiro de processamento.

 

P/1 – A primeira engenheira?

 

R – A primeira. Olha, eles fizeram tudo para colocar as mulheres... Enquanto o Doutor Moggi tinha força, ele conseguiu brecar que entrassem mulheres, mas nós, como mulheres, víamos isso como uma coisa negativa: “Por que não mais mulheres?” Eu só sei que 25 anos depois, o Doutor Moggi permitiu que entrasse mulher. No ano seguinte, a minha nora entrou. O meu filho fez Engenharia de Processamento um ano antes e depois ela fez e entrou também. Eu disse: “Oh, Regina, nós esperamos 25 anos para você ser igual a mim” [risos]! Ela ainda está trabalhando.

 

P/1 – Nós entrevistamos a Regina!

 

R – Você entrevistou? Ela é ótima, não é? Ela é fora de série!

 

P/ 1 – É! Deixa eu perguntar um pouco mais sobre o curso. O quadro docente era na maioria de estrangeiros? Como era?

 

R – No nosso curso, era. As aulas eram todas em inglês, as provas em inglês, tudo em inglês porque eles não sabiam falar português!

 

P/1 – E todos os professores eram estrangeiros?

 

R – Todos eles.

 

P/1 – De onde eles vinham?

 

R – Eles vinham dos Estados Unidos. Tinha um professor, o Professor Willians, que era canadense, mas trabalhava na Califórnia. Então, era tudo em inglês, mas eles eram todos muito bons professores. Alguns eram melhores, como em toda amostragem, você tem alguns melhores e outros piores. Um deles era uma pessoa que tinha uma vivência, dizia umas coisas que a gente não acreditava. Depois de vários anos, nós fomos ver que ele tinha razão. Era, realmente, uma pessoa com uma visão, prático... Quando a gente não sabia um negócio, ele: “Você não sabe, ____________!” Quer dizer, se você não sabe, você inventa. É assim mesmo, numa indústria que não é tão precisa, se você não sabe uma coisa, você tem que inventar e depois corrigir se estiver errado. Mas o nível era excelente! Eles exigiam demais da gente.

 

P/1 – O sistema de ensino era feito para cá ou tinha o molde americano?

 

R – Não, era do jeito deles, porque eles não tinham vivência da nossa vida. Uma coisa que eles faziam: você entrava numa sala de manhã, estava muito alegrinho e aí: “Five minutes (quiz?)!” A gente não estava esperando e tinha um teste de cinco minutos!

 

P/1 – Teste oral?

 

R – Não, teste escrito. Ele botava um problema lá no quadro e a gente tinha que resolver aquilo, sem estar preparada nem nada! Uma coisa que era interessante: as provas todas eram com o livro aberto. Você podia usar qualquer dado, qualquer rascunho, tudo com o livro aberto, porque quando você vai trabalhar você tem tudo, tem todos os livros!

 

P/1 – O importante era saber pensar.

 

R – O importante era saber usar o livro. Todos os professores eram assim. Então, quando entrei eu era uma pessoa e quando saí, era outra completamente diferente. Foi uma coisa extraordinária! Aí, o pessoal ficou sabendo dos cursos da Petrobras, quer dizer, não era Petrobras ainda, era CNP [Conselho Nacional de Petróleo], a Petrobras foi a partir de 1953.

 

P/1 – Já tinha a campanha “O Petróleo é Nosso”? Me conta um pouquinho.

 

R – Essa campanha foi uma coisa extraordinária, mas eu não sabia ainda, não tinha vivência para saber o valor que aquilo significava para o país. Foi em 1948.

 

P/1 – Como era, vocês ouviram sobre isso lá no curso?

 

R – Não, saía no jornal. Tinha o pessoal que era a favor da nacionalização do petróleo e tinha os que eram contra, que a gente chamava de entreguista. Por que era entreguista? Porque ele estava pensando em entregar as nossas riquezas. Eles queriam petróleo, até hoje é assim, eles guardam o petróleo deles e esperam que a gente gaste o nosso. Eles estão com o deles lá, e ficam sempre olhando onde é que tem petróleo para eles gastarem enquanto eles têm a reserva deles. Isso, ninguém desconhece, todo mundo sabe que é assim mesmo. Teve uma época, depois de criada a Petrobras, que o pessoal dizia que no Brasil não tinha petróleo. Chegou um americano aqui, era formidável, formidável, pesquisou, pesquisou, depois fez um relatório e disse que não tinha petróleo aqui.

 

P/1 – O Link, não é?

 

R – É, o Link. A gente ficou muito triste, mas paciência, a gente não tinha petróleo...  “Petróleo vocês tem, mas em pouca quantidade!” A gente tinha descoberto Candeias, Lobato, aqueles pocinhos, né? Até que chegou uma certa hora que a Petrobras fez a virada: “Já que não conseguimos por terra, vamos para o mar.” Essa foi uma virada grande, depois de sofrer muito.

 

P/1 – A senhora se lembra quando o Getúlio assinou a lei que criava a Petrobras? Vocês já estavam no curso?

 

R – Estávamos.

 

P/1 – O que vocês comentavam?

 

R – Ficamos muito satisfeitos, mas a gente não sabia o que aquilo significaria para o nosso futuro. A gente não tinha experiência. O que ia ser a Petrobras? Vai tirar um oleozinho... A gente não tinha ideia, isso só veio com o tempo, foi crescendo, a gente lutando para a Petrobras ir para frente. Cada coisinha que a gente conseguia, era uma vitória! Quando nós conseguimos entrar na área de distribuição, puxa! Eles tinham o filé-mignon, que é vender os destilados, os produtos, e nós ficávamos só na dureza, né, de descobrir o petróleo e refinar. Quando nós entramos na área de distribuição também foi uma festa, a gente já tinha mais consciência. Foi muitos anos depois.

 

P/1 – Deixa eu voltar para o curso. O curso durou quanto tempo?

 

R – Começou em abril e terminou em agosto do outro ano.

 

P/1 – Quando o curso terminou, o que foi dito para vocês e o que vocês fizeram?

 

R – Bom, naquela época, só tinha a refinaria de Mataripe funcionando, conforme eu disse para vocês, era de 2,5 mil barris. Unidade piloto nossa tem até mais. E tinha uma unidade que nós estávamos construindo em Cubatão, era uma unidade ótima, 45 mil barris. Quando acabou o curso, o Doutor Moggi olhou e disse que tinha que preparar alunos para substituir aqueles professores americanos. Tinha os professores e tinha os assistentes, mas os assistentes não tinham o curso. Ele estava querendo preparar um grupo para substituir, no futuro, os professores americanos. Ele fez o seguinte: foram dez alunos que se formaram.

 

P/1 – Dos 12 que entraram?

 

R – É, dos 12 que entraram. Ele disse: “Os três primeiros ficam aqui comigo.” Nessa época ainda era o CNP. Então: “Ficam aqui no Conselho e no futuro vocês vão ser professores do curso.” Quem eram os três primeiros? O meu marido, que era o primeiro aluno da turma, a Eliane e eu. Então, nós três fomos escolhidos para ficar na SSAT.

 

P/1 – E as mulheres, hein?

 

R – As mulheres dando show! Os outros que sobraram  – que também eram muito bons, quase todos foram superintendentes depois – foram para Cubatão. Aí, eu também fui parar em Cubatão, sabe por quê? Porque o curso já tinha os assistentes que tinham sido contratados. Então, o Doutor Moggi disse: “Acho bom vocês pegarem um pouco mais de experiência.” Experiência em construção de refinaria, porque a refinaria estava no meio da obra. Aí, nós fomos. Eu casei e nós fomos para Cubatão. A gente morava em Santos, pertinho de Cubatão, porque ninguém podia morar em Cubatão. Era uma coisa horrorosa e acho que até hoje ainda é. Nós ficamos lá, trabalhando em Cubatão, acompanhando o projeto, essas coisas ligadas ao futuro funcionamento da refinaria. Os outros foram admitidos direto para Cubatão, eram engenheiros de processamento de Cubatão.

 

P/1 – O resto do grupo?

 

R – Depois, no ano seguinte, nós fizemos outro curso, já com mais gente, porque o pessoal ficou sabendo que o curso era muito bom. Eles também foram para Cubatão.

 

P/1 – Em Cubatão, a senhora passou quanto tempo?

 

R – Onze meses.

 

P/1 – Foi com seu marido?

 

R – Fui.

 

P/1 - Voltaram juntos?

 

R – Voltamos juntos. Porque o Doutor __________ estava muito perto da chefia, então o Doutor Moggi tinha uma convivência diária conosco, ele vivia os nossos problemas, ele sabia como era difícil recém-casada, esperando meu primeiro filho. Aí, ____________, já estava louca para voltar porque lá em Cubatão era horrível, tinha tanto mosquito! Tinha aquele borrachudo, eu ficava toda inchada. Era uma coisa terrível! E realmente, a operação é outra coisa, mas a construção era lama até aqui… Era uma coisa terrível. Em Cubatão chovia tanto que o pessoal chamava de “Chuvatão” de tanta chuva [risos]! Era muito difícil a vida. A gente queria arrumar o nosso apartamento, mas sabia que a gente ia voltar a qualquer hora, então nós alugamos um apartamento daqueles de temporada, porque lá em Cubatão todo mundo é veranista. Ficamos lá durante esses 11 meses, depois nós pedimos ao Doutor Moggi para vir para cá.  Aqui tinha trabalho. E tinha mesmo, o meu trabalho junto com a Eliana foi projetar os laboratórios em que nós fomos trabalhar, lá na Praia Vermelha. A gente nem sonhava em fazer o Cenpes, estava muito longe. Isso foi em 1954.

 

P/1 – Depois da volta de Cubatão?

 

R – Nós saímos de Cubatão em junho de 1954.

 

P/1 – A Praia Vermelha era ali onde era Universidade do Brasil, no mesmo prédio?

 

R – Era a Universidade. Lá no fundo tinha um prédio que o CNP construiu para fazer controle de qualidade de produtos. Então, o laboratório só tinha a casca, dentro não tinha nada ainda. O Doutor Moggi nos deu como primeiro trabalho no petróleo: projetar o laboratório para fazer a análise de produtos.

 

P/1 – Já tinha convênio com a Universidade do Brasil?

 

R – Tinha. O curso de refinação era um convênio, a Universidade dava apoio e quem dava o dinheiro era a Petrobras – sempre foi assim, o apoio é com os outros.

 

P/1 – A senhora deu aula?

 

R – Nesse momento não, porque o curso já estava formado quando nós viemos. Só no outro ano é que começamos a dar aula, mas como assistentes.

 

P/1 – O seu marido também?

 

R – Ele ficou pouco tempo porque o chamaram para uma Assistência de Refinação, que era ligada à diretoria da Petrobras, e que começou a planejar a futura refinaria. Ele trabalhava nessa área e na época em que ele trabalhou lá, foram projetadas sete refinarias.

 

P/1 – Mas a senhora chegou a dar aula também?

 

R – Ah, dei, mas depois. Eu dei aula por 12 anos.

 

P/1 – Aí, já era Cenap [Centro de Aperfeiçoamento e Pesquisas do Petróleo]?

 

R – Já era Cenap.

 

P/1 – O Cenap foi quando o SSAT passou para a Petrobras?

 

R – É. Quando a Petrobras foi criada, nós trabalhávamos no Conselho Nacional de Petróleo e o pessoal, os dirigentes, ficavam na dúvida: “Esse curso é da Petrobras ou do CNP?” Bom, isso levou um ano e meio, eles pensando se o curso ia para a Petrobras ou se ficava no CNP. Afinal de contas, o curso não pode ficar em qualquer lugar. Depois de muito pensar, eles chegaram à conclusão que devia vir para a Petrobras. Isso em 1955, quando eles criaram o Cenap, e nós, que éramos ligados ao CNP, fomos para a Petrobras.

 

P/1 – Mudou alguma coisa?

 

R – Não mudou porque nós continuamos trabalhando no mesmo lugar, só que foi assim: “Hoje nós somos do Conselho Nacional de Petróleo.” E no dia seguinte: “Vocês são da Petrobras” [risos]. A carteira foi a mesma, a secretaria foi a mesma, tudo foi a mesma [coisa]. Aí eles fizeram uma lista das pessoas que eram do CNP e que passaram para a Petrobras e eu era o número zero, zero, dois.

 

P/1 – A senhora ainda tem a carteirinha?

 

R – Olha, eu devia ter... Meu marido foi o zero, zero, um e a Eliana, zero, zero, três. Por isso que eu digo que, pioneira do Cenpes, não tem mais pioneira do que nós, porque realmente... Meu marido perdeu porque depois ele foi trabalhar em outra área. Então, começava a lista com o zero, zero, dois. Aquela lista de pagamento! Eu ainda sou de um tempo em que o pessoal levava o dinheiro e ia pagar a gente [risos]. É tão engraçado que a gente nem quer acreditar. Em 1955!

 

P/1 – Muita gente do CNP veio para a Petrobras também...

 

R – Praticamente todo mundo. Alguns que eram da área gerencial… Como o doutor Moggi, ele não quis passar para a Petrobras. Ele disse: “Eu vou continuar no CNP.” O CNP tinha uma porção de regalias, como todo serviço público e a Petrobras não era nada de serviço público, era dureza mesmo, com horário e essas coisas. Sempre foi assim. O Doutor Moggi, como servidor público, chegava às 11 horas da manhã. A gente já estava cansado de trabalhar, ele chegava às 11 horas e: “Glória e Eliana, para a minha sala!” Aí começava a falar sobre trabalho e a gente já estava com tanta fome... E o Doutor Moggi lá... Ele chegava... mas ele tinha direito de chegar, entende? Ele era funcionário do CNP.

 

P/1 – Com o Cenap vocês davam aula e faziam pesquisas? Como era?

 

R - O negócio era o seguinte: pesquisa é um nome muito amplo, conforme você queira enquadrar. Na verdade, a gente fazia serviço técnico, porque não tínhamos instalações nem volume de pessoas para fazer pesquisas em grupo, pesquisa (refinada?). Mas nós fazíamos muito serviço técnico. Havia até um choque, porque no Cenap, tinha o Cenap um, dois, três e quatro, conforme o tipo de curso: era curso administrativo, curso médio, e o nosso, que era de refinação, era o Cenap quatro. Nós dávamos aula, corrigíamos trabalho, planejávamos provas e não tínhamos tempo de fazer pesquisa. O trabalho de ensino não permite que você deixe para amanhã uma coisa que você tem que corrigir agora: você tem que corrigir a prova! Então, a gente estava tão absorta na parte de curso que não fazia pesquisa. A gente fazia aquelas coisinhas ligeiras: uma pessoa descobriu uma água que tem um óleo. Aí a gente fazia análise para saber se aquele óleo era óleo mesmo, se era vazamento de um posto de gasolina. Coisas assim, desse tipo, bem levezinha. Outra coisa que a gente fazia melhor era a avaliação do petróleo. Quer dizer, quando o pessoal descobria petróleo, eles mandavam para lá para a gente fazer uma avaliação, ver quais os produtos que você poderia obter, quais eram os contaminantes, essa coisa assim bem geral, mas que dava uma idéia do que era o produto. Era esse o trabalho que nós fizemos durante esses anos todos que existiu o Cenap. Enquanto o Cenap teve estudo, aperfeiçoamento e pesquisa, o aperfeiçoamento ganhava, né? Até que um iluminado disse assim: “Se quisermos fazer pesquisa, nós temos que separar a parte de treinamento da parte de pesquisa de laboratório.” Aí é que houve a separação e foi criado o Cenpes. Houve a oportunidade de a pessoa escolher se ela ia ficar no ensino ou se ela ia ficar na pesquisa. Foi ótimo que eles deram essa oportunidade para a gente porque, na verdade, o pessoal era pouco ligado ao ensino. Todo mundo tinha aula, tinha provas e aquele negócio todo... Alguns escolheram, mas muito poucos, e o resto todo queria ser da pesquisa. Aí, nós fomos nos preparar para fazer pesquisa.

 

P/1 – A senhora se lembra quem é que teve essa ideia de fazer essa separação?

 

R – Eu acho que a ideia nasceu de todos porque a gente sentia com a nossa vivência. Eu fiz vários estágios, eu visitei muitos centros de pesquisas. A gente sabia que a Petrobras não podia ser grande sem fazer pesquisa porque estava sempre na dependência do que os outros tinham, e que era para eles e não era para nós. Todos nós comentávamos se tinha trabalho… Ou cada vez que você ia a um centro de pesquisa, você ficava mais convencido que era importante a Petrobras ter um centro de pesquisas. Ela nunca seria uma grande empresa se não tivesse isso. Esse negócio era uma vivência diária, a gente só falava disso. Até que fizeram um documento e apresentaram à Diretoria. A Diretoria leu aquilo e ficou muito emocionada, gostou daquele negócio, mas naquela época mudava de presidente da Petrobras quase que de mês em mês. Então, quando a gente conseguia que eles aprovassem o centro de pesquisa, mudava o presidente da Petrobras e a gente tinha que começar tudo de novo: “Mudou o Presidente, lá vamos nós” [risos]! Levou dez anos, dez anos desde o primeiro trabalho que foi feito propondo a criação do centro de pesquisas até que uma Diretoria chegou lá e disse: “Vamos fazer o centro de pesquisas.” Primeiro a gente disse: “Não acredito. Não vão conseguir.” Teve uma hora que foi engraçado: tinha um presidente da Petrobras que era baiano. Estava o nosso papel lá e o presidente disse: “Oba, vamos fazer esse centro de pesquisa lá na Bahia!” A gente disse: “Tira o papel de lá” [risos]! Imagina se a gente queria ir para a Bahia! Naquela época, a Bahia era atrasadíssima!

 

P/1 – Quem era esse?

 

R – Como era o nome dele, meu Deus... Era um baiano que foi presidente da Petrobras durante uns anos... Aí, nós ficamos caladinhas e não se falou mais em centro de pesquisa. De vez em quando falavam de São Paulo, que também foi cogitado, mas a maior parte que trabalhava era do Rio e a gente queria continuar aqui. E aqui é um centro de estudos, né, perto da UFRJ, da PUC [Pontifícia Universidade Católica], dessas faculdades todas, a gente não via porque tinha que mudar esse negócio todinho para outro lugar. A gente esperou a hora certa e foi com o Leopoldo Miguez de Mello e o muito batalhador, o Doutor Moggi também, que nós conseguimos botar isso para frente. Foi na época do Geisel. O Geisel também foi uma pessoa extraordinária, deu o máximo apoio para a construção do Cenpes. Ele ia lá ver o andamento da obra. Foi um negócio formidável, muito bom mesmo.

 

P/1 – Dona Glória, então a gente pode dizer que o Cenap foi um embrião do Cenpes? Porque tem essa continuidade também.

 

R – Pode, pode sim, porque tinha o Cenap quatro, que era o setor de pesquisas. Eram vários Cenaps, de acordo com o nível superior, nível médio, então tinha Cenap um, Cenap dois... E o Cenap quatro, lá no cantinho, fazendo ____________ de pesquisa, que era o que a gente podia fazer. A gente tinha dois laboratoriozinhos, um laboratório grudado no outro. Dentro do que a gente podia fazer, nós fazíamos.

 

P/1 – A senhora falou que visitou outros institutos de pesquisas. Teve algum que foi uma inspiração para o Cenpes?

 

R – Na verdade... Primeiro, não fui eu sozinha que visitei. Eu fui uma das primeiras que visitaram, claro, eu era uma das mais antigas! Eu fiquei quatro meses nos Estados Unidos e nós visitamos alguns centros de pesquisa. Uns eram muito antigos. Laboratório é uma coisa terrível, sabe? Você começa a trabalhar e fica tudo desarrumado. Então, você chega lá: ‘Hummm, esse aqui eu não gostei” [risos]! Mas, por exemplo, o da Esso era tão grande, era enorme, tinha 4,5 mil pessoas trabalhando. O pessoal falava para a gente: “Se você projetar um centro de pesquisa, não deixa ser maior do que para 2 mil pessoas porque fica muito difícil controlar o trabalho. Não deixa passar de 2,5 mil.” Quando nós fizemos o planejamento do Cenpes, o plano diretor – que foi uma das coisas que eu fiz – a gente fez o Cenpes para 2,5 mil pessoas. Então, se você sente que alguma coisa não está certa, você pode ter certeza: passou dos 2,5 mil. Agora, a gente está cansado de saber que, sei lá, 4 mil… Mas não foi projetado para isso.

 

P/1 – Mas a senhora participou desse grupo da implantação?

 

R – Eu participei em parte, não integralmente. Quem participou mais foi a Eliana.A Eliana foi uma das pessoas fundamentais nesse projeto. Ela tem a capacidade de juntar as informações. Esse grupo, que se chamava Grupo de Implantação do Cenpes, tinha mais sete pessoas, em tempo integral. Eu só participei do plano diretor.

 

P/1 – Então, me conta, como era o plano diretor?

 

R – O plano diretor foi o seguinte: quando ele foi aprovado, nós sabíamos que tinha que ter alguma coisa em que basear o projeto. Então, não sei quem – não sei se foi um diretor – achou que tinha que ter a orientação de uma firma especializada em projeto de centro de pesquisa. Então, chamou Arthur D. Little para fazer esse plano diretor e, de saída, escolheram como projetista o Bernardes.

 

P/1 – O Sérgio Bernardes?

 

R – O Sérgio Bernardes foi o escolhido. O Leopoldo também, de vez em quando, botava lá as suas… Mas sempre coisas positivas, nada que fosse ruim. Aí, dissemos: “Ele não pode trabalhar sozinho. Nós queremos dar opinião sobre o que vai ser feito.” Então, fizemos um grupo que tinha gente do Arthur D. Little e tinha gente do Cenpes, mas não só do Cenpes. Tinha gente da Exploração e Produção e tinha representantes de todas as grandes áreas que a Petrobras trabalhava, embora nessa época nós não fizéssemos nada na Exploração e Produção. A gente só trabalhava na área de refinação, que era onde a gente estava mais forte. Então, nós fomos para os Estados Unidos com um grupo e fizemos uma proposta de um plano diretor. Na verdade, esse plano diretor era muito geral. A gente podia fazer qualquer negócio com aquele plano. Então, foi feito o que a gente queria, quer dizer, o que a gente achava que era certo fazer, errando, acertando… Porque você sair de 200 pessoas e ir para  mil e tantas é um pulo muito grande!

 

P/1 – Então vocês foram moldando esse plano ao longo do trabalho?

 

R – Não. Esse plano diretor, vamos dizer, era uma proposta em que foram consultadas as áreas de trabalho da Petrobras. Quer dizer: na área de Exploração, o que eles pretendiam fazer no centro de pesquisa? A área de refinação nós sabíamos muito bem o que a gente queria porque nós já tínhamos experiência. O pessoal da Exploração e Produção só conhecia os laboratórios do exterior e nunca tinha feito nada aqui, eles não sabiam nem quantos laboratórios queriam, nem para o quê e nem o porquê. O pessoal da Arthur D. Little também não sabia, porque eles nunca tiveram laboratório de Produção. Eles eram uma firma de planejamento. Então, a gente conseguiu ir arrumando de acordo [com as necessidades]. Nós fomos conversar de novo com a área de Exploração e Produção: “Vocês acham que oito laboratórios dão para os seus trabalhos?” Eles não sabiam. Eles não sabiam nem como iam ser as bancadas.

 

P/1 – E como vocês afinaram isso? Quais foram as principais especificações?

 

R – As especificações eram mais ou menos como a distribuição de espaço.

 

P/1 – Das áreas?

 

R – Das áreas: tanto por cento vai ser na área disso, tanto por cento vai ser na área daquilo, quer dizer, foi uma coisa bastante generalizada que foi feita. E você sabe uma coisa interessante: esse relatório foi feito em inglês e eu, que trabalhei nele, nunca tive uma cópia desse plano. Não sei qual foi a confusão que houve. De vez em quando eu digo: “Se você conseguir uma cópia desse plano diretor, você me arranja, porque sumiu!” Tem coisa na área de documentação que acontece assim, não acontece? Você não sabe explicar porque some um negócio desse vulto, um plano diretor!

 

P/1 – Dona Glória, esses trabalhos demoraram quanto tempo, entre o plano diretor até a inauguração?

 

R – Foram seis anos. Eu tenho aqui, se você quiser, eu olho aqui.

 

P/1 – Pode olhar.

 

R – Eu acho que foram seis anos. Em 1968 a diretoria aprovou a construção do Cenpes. Em 1973 nós mudamos.

 

P/1 – Teve uma festa de inauguração? Como foi?

 

R - Olha, como toda obra – e eu tenho certeza que vocês já passaram por isso – a gente muda sem estar pronto [risos]. Foi o que aconteceu conosco: quando nós mudamos, ainda faltava um bocado. A gente não tem uma data porque o negócio foi devagar. Quando nós mudamos para cá, não tinha restaurante. Quando chegava a hora do almoço, a gente ia almoçar na Medicina, ia almoçar num barraco ali que dava comida, e foi assim que nós fizemos. Nós mudamos, você sabe como é, a diretoria pressionava e nós mudamos, mas realmente eu não me lembro se teve festa ou comemoração.

 

P/1 – Dona Glória, como era o desenvolvimento tecnológico na década de 60? O que a gente pode falar de pesquisa e de tecnologia da década de 60 aqui no Brasil?

 

R – Você diz em relação...

 

P/1 – Aqui da parte do Cenpes e do país, de maneira geral.

 

R - Quem pode te dar muito bem esse aspecto é o Dorodame. Ele fez inclusive um livro. Muito interessante o livro do Dorodame.

 

P/1 – Mas e a senhora, o que a senhora acompanhava? A gente até vai entrevistar o Dorodame, mas eu quero saber a sua opinião, que estava ali na pesquisa.

 

R – Bom, em 60, eu era da Divisão de Química, então, o que fazia? Eu dava apoio às outras unidades. Eles tinham um produto e esse produto tinha que ser analisado. Se fosse uma coisa eventual, essa análise era feita lá na minha divisão - ou se fossem poucas análises. Se fossem muitas análises, a própria divisão é que fazia, porque o volume era tanto que cabia a você ter os equipamentos lá __________. Então, a gente fazia… Por exemplo, essa avaliação de petróleo era uma coisa que nós fazíamos o tempo todo. Nós fizemos alguns trabalhos na área de poluição, foi na época em que nós começamos a usar álcool como combustível. Um problema muito sério que aparecia era o problema de corrosão nas partes do motor que tinham contato com o álcool. No início, o pessoal tinha verdadeiro pavor do álcool por causa da corrosão. Nós fizemos muitos estudos junto com a indústria automobilística e acabamos identificando os materiais que eram resistentes. Esse era um tipo de estudo. Outro estudo que nós fizemos foi da contaminação. Quando você faz álcool, você termina com um resíduo que é uma coisa terrível, contaminava os cursos d’água, contaminava tudo. Era um problema seríssimo. Nós começamos a estudar para ver o que a gente ia fazer com o célebre vinhoto. Fizemos uma planta piloto para tratar o vinhoto. Quem resolveu o problema foi a parte da agricultura, porque eles usam o vinhoto para molhar a cana de açúcar, ele serve quase como se fosse um fertilizante. Tinha muitos problemas assim. Por exemplo, o problema de corrosão do GLP [gás liquefeito de petróleo]. De vez em quando, aparecia um problema: “Deu um problema de corrosão na torre tal.” A gente mandava gente para lá para estudar e verificar porque tinha havido aquele problema.

 

P/1 – Vocês faziam parcerias com outras universidades, tinham contato com universidades estrangeiras? Como era?

 

R – Estrangeiras, nem tanto. Tinha só quando o pessoal ia fazer mestrado e doutorado. Essa era uma das diretrizes do Cenpes: manter o pessoal num nível elevado de ciência. Porque você sai da faculdade com um determinado nível. Se você não continua estudando, melhorando, você acaba num patamar que não sai dali. Então, nós tínhamos uma proporção de mestre e doutores – acho que ainda tem no Cenpes – muito elevada, para poder resolver os problemas que exigem muito conhecimento. Com relação às faculdades, nós tínhamos ligações assim, por exemplo, assunto de catálise… Nós fizemos muitos cursos em colaboração para estudar catálise. Às vezes, a gente fazia um projeto junto mesmo. Eles faziam uma parte e nós fazíamos outra. Variava muito de acordo com a divisão que entrava no projeto. Dentro do Cenpes também, a gente fazia um projeto em que entravam várias divisões. Isso era muito comum, tinha a ______, a Depro [Departamento de Produção], entrava todo mundo.

 

P/1 – O Cenpes, já criado, funcionou em outro lugar antes de vir para cá, não foi?

 

R – Funcionou lá na Praia Vermelha. O negócio era o seguinte: nós tínhamos um tantinho de gente assim e a gente vinha para um centro em que ia ter mais de mil pessoas. Não podia pensar, porque se você tem um pouquinho e vai passar para um poucão, você (explode?). É uma coisa terrível, um dos nossos trabalhos foi: nós tínhamos que nos preparar urgentemente para, quando viéssemos para cá, ter gente funcionando, que pudesse render trabalho. Porque senão você chegaria aqui e: “Agora nós estamos aqui no Cenpes, e agora?” Então, uma parte do tempo nós trabalhávamos admitindo gente, selecionando com muito critério as pessoas que vinham trabalhar no Cenpes. Nós conseguimos mudar até os procedimentos de admissão para admitir o pessoal escolhido que nós queríamos. Pra vir trabalhar aqui, por exemplo, o pessoal que tinha mestrado, fazia uma apresentação da tese deles. Doutorado também. Todo o pessoal que nós admitimos era com pós-graduação, para ter um nível elevado.

 

P/1 – Desde o início, então.

 

R – Desde o início.

 

P/1 – O que mudou para a senhora com a mudança: lá no Cenap tinha as atividades de laboratório, as avaliações que eram feitas, mas tinha mais aula, até ficar só com o Cenpes. O que mudou na sua vida?

 

R – Mudou… Primeiro, eu não gostava de dar aula, então, fiquei felicíssima [risos]. Eu dava aula porque era necessário, eu fui admitida para isso: era assistente e depois virei professora. A vida de professor é muito difícil. Eu admiro quem gosta de dar aula. Para mim foi muito bom! E só a gente sentar e começar a discutir como ia ser o laboratório – eu tinha dezoito laboratórios – como é que vai ser esse laboratório, como vai ser esse, porque era tudo muito específico. Depois que nós crescemos… A gente antes tinha um laboratório desse tamanho e trabalhava todo mundo apertadinho e, de repente, surge um laboratório enorme, com o melhor material. Não houve economia para comprar, tudo o que havia de mais recente nós compramos. É uma realização na sua vida conseguir isso. Você não tem nada e depois você tem tudo aquilo que você planejou. É um sentimento formidável.

 

P/1 – A senhora já entrou como chefe do Setor de Avaliação? Como foi?

 

R – Quando eu comecei, eu era técnica, não era chefe de nada. Eu era técnico químico, mas de nível superior, porque na Petrobras tem muita diferença. A gente dava aula. Tinha o coordenador de professor, que era o marido da Eliana, ele é que era o coordenador dos cursos.

 

P/1 – O Professor Wiliam?

 

R – Professor Wiliam. Quer dizer, eu era professora daquele assunto, o outro era assistente, não tinha o organograma da parte de ensino. E da parte técnica, pra fazer o serviço técnico, também não tinha, porque era tão pouca gente, não tinha um que mandava no outro! Todo mundo trabalhava junto. Agora, quando a gente começou a aumentar de tamanho, já tinha no Cenap o Setor de Pesquisa, já começou o embriãozinho de chefe de alguma coisa, que seria o chefe de seção. Quando começou o Cenpes, aí já tinha os setores. A primeira escala de divisão era o setor. E tinha o Setor de Análise e Avaliação onde eu fui chefe. Mas isso lá em [risos]... Depois passou para chefe da Divisão de Química. Ao todo, eu fui chefe por 26 anos.

 

P/1 – Mudou alguma coisa ter uma mulher chefe naquela época?

 

R – De jeito nenhum. Só quem achava estranho era o Doutor Moggi, porque o doutor Moggi era muito ligado a nós, fomos os primeiros, aquela semente. Ele brigava às vezes com a gente, a gente brigava com ele também, e ficava tudo bem... Ele lutava muito pelos seus subordinados. Então, quando começava aqui na Petrobras: “Agora nós vamos ter uma escala. Vai ser assim: engenheiro um, engenheiro dois, engenheiro três, como _____ _______ com a Petrobras." E ele ficava sempre torcendo para a gente ter uma melhor classificação. Aí o pessoal do Centro dizia: “Lá vem ele com as mulheres dele.” As mulheres dele éramos eu e a Eliana [risos]. Nós fomos os primeiros engenheiros de processamento quatro. Eu não sei nem se ainda existe, acho que eles acabaram, agora é outra coisa.

 

P/1 – Mas tem diferença o engenheiro de processamento quatro?

 

R – O técnico, quando começa, é engenheiro de processamento um.

 

P/1 – Ah, topo de carreira.

 

R – É. Então, para chegar ao número quatro, acho que eu levei 16 anos.

 

P/1 – A senhora também foi a primeira engenheira de processamento um?

 

R – Fui. Sempre fomos os primeiros. Agora, no nível quatro, é muito difícil. Na primeira rodada que eles fizeram, acho que foram 30 pessoas. Dessa vez eu não fui, mas na outra seguinte, eu fui. Eu e a Eliana, logo depois. Era difícil, mas nunca houve uma discriminação, nunca houve. Eu tinha muita ascendência sobre o chefe de laboratório da refinaria. A gente orientava quando eles tinham algum problema, eles vinham conversar com a gente. A gente tinha ascendência na refinaria através do laboratório.

 

P/1 – E quando a senhora passou a chefiar a Divisão de Química, foi uma mudança ou não?

 

R – Não, foi tão devagarinho que você nem sente… Vai continuando… Naquela época, era fim de carreira o engenheiro de processamento quatro, na minha carreira era o topo. Agora, eles fizeram carreira em Y. A minha nora inclusive é assessor sênior, que é o máximo da carreira. O meu filho também é assessor sênior.

 

P/1 – Qual é o nome do seu filho?

 

R – É Rogério Oddone. Ele trabalha na Engenharia Básica. Agora ele é responsável por um projeto de fazer enxofre a partir dos efluentes da refinaria. Ele está toda hora no exterior tratando desse projeto. É caixeiro viajante, passa o tempo inteiro viajando. A Regina viaja mais ou menos, trabalha com _____ ________.

 

P/1 – Como era ser mãe e ter esse trabalho de pesquisa intenso? Como a senhora lidou com isso?

 

R – Olha, o negócio é o seguinte: eu sempre trabalhei no Cenpes, desde que eu entrei. Só mudava o nome, mas eu não mudava, era sempre a mesma coisa. Numa determinada época, o meu marido veio trabalhar aqui para ser meu chefe. Ele trabalhava em outra área e eu sempre fui do Cenpes. Na hora em que foi criado o Cenpes, o Doutor Moggi fez o superintendente de Pesquisa e o superintendente de Engenharia Básica. Então, ele chamou o meu marido para ser o superintendente de Pesquisa, a quem eu estava subordinada. Eu trabalhava no Cenpes há 20 anos, ele estava entrando naquela hora e era meu chefe. Olha, vou te dizer: saía cada briga [risos].

 

P/1 – Aí a senhora trabalhou com ele também.

 

R – Eu trabalhava, eu era subordinada, eu era Chefe da ___________, diretamente subordinada a ele.

 

P/1 – Ele ficava como superintendente?

 

R – Ele era superintendente de Pesquisa. Toda pesquisa no Cenpes era subordinada a ele. E tinha a parte de engenharia que era do (Ivo) Ribeiro, que era colega nosso também. Depois, o pessoal que brincava muito, dizia assim para o meu filho: “Você, heim, seus pais são engenheiros de processamento 44 [risos] porque eram dois engenheiros de processamento quatro. Cada um era quatro, então nós éramos 44. Depois, o meu filho fez o curso de refinação, passou em primeiro lugar e escolheu trabalhar no Cenpes. Isso aí também foi duro, porque o pessoal caía na pele dele. Depois a minha nora também fez o curso de refinação e veio trabalhar no Cenpes.

 

P/1 – Depois dele, não é? Ele já conhecia ela.

 

R – Depois dele. Agora não, _____________________ trabalhando para a Petros [Fundação Petrobras de Seguridade Social] [risos].

 

P/1 – Quando o seu marido veio a ser superintendente, foi aí que teve essa reorganização?

 

R – Foi.

 

P/1 – O que a senhora lembra desse processo de reorganização?

 

R – Isso aí foi logo depois. Tinha o Cenpes e tinha os setores. Porque ________ menos pessoas, então não justificava que tivesse uma divisão para quatro pessoas, não precisava. Depois que o pessoal sentiu que o Cenpes estava criando impulso, força, eles elevaram o nível de organização para o nível de Diquim [Divisão de Química].

 

P/1 – Diquim é divisão do quê?

 

R – É Divisão de Química. Quer dizer, outros tinham Divisão de Refinação, Divisão de Petroquímica, todas as grandes áreas agrupadas em divisões. Nós sempre lutamos muito. O Dorodame pode explicar melhor sobre a criação da Engenharia Básica. Você não consegue criar um processo inovador sem ter a parte de engenharia, porque quando você projeta, trabalha com escala pequenininha. Depois, você tem que trabalhar em escala maior e depois em escala ___________. Para isso tudo você precisa de Engenharia Básica, projeto. Qual é o objetivo da pesquisa? Você tem um produto e quer chegar a outro produto, você tem um equipamento e chega a outro equipamento. Não se faz pesquisa poderosa se você não tiver a parte de engenharia. Nós lá no Cenpes, lutamos muito para que fosse colocada essa Engenharia Básica, mas sempre houve muita dificuldade porque não interessava para algumas pessoas que isso se concretizasse. Deixar a gente fazer pesquisa já era um (lucro?), né, e ainda completar o negócio, projetar um processo desde o zero até o 100, é muito complicado. Depois de muita luta, nós conseguimos colocar dentro do Cenpes a Engenharia Básica, porque assim é que tem que ser. Você tem que ter o pessoal trabalhando no ________ e o pessoal trabalhando no ________________. Quando houve esse sentimento, a diretoria sentiu que isso era oportuno e houve essa divisão em Engenharia Básica e Pesquisa.  Foi aí que houve essa mudança grande. Depois de uns anos, houve uma mudança e quase que eles mataram a Engenharia Básica, mas ainda sobreviveu um pedacinho e agora tem lá um grupinho que anda fazendo alguns trabalhos. Mas a luta é constante.

 

P/1 – A sua Divisão de Química abrangia quantos setores?

 

R – Quatro. Nós dividíamos por tipo de trabalho, porque os equipamentos são completamente diferentes. O que faz análise orgânica é muito diferente do que faz inorgânica. Tinha o setor de Química Orgânica, de Inorgânica, tinha o setor de Avaliação de Petróleo e pendurado tinha um Setor de Corrosão, que era uma coisa importante e nós demos muito impulso nessa área. Todo dia tinha problema de corrosão, tanto que o pessoal da área de Exploração tinha muito ciúme desse negócio e, quando eu saí, eles conseguiram puxar a Corrosão para a divisão deles [risos]. Isso tem muito no trabalho da vida diária, né? Nós conseguimos ter porque eu tinha gente muito boa trabalhando na área. Então, aquilo cresceu pelo pessoal que tinha. Em 1983, houve uma mudança muito grande no Cenpes, mudança de enfoque. Nós sempre trabalhamos dando ênfase à parte de refinação porque era o que nós tínhamos. Nós éramos formados em Engenharia. Na parte de processamento, essa parte era muito forte. Uma hora, o pessoal sentiu que tinha que dar ênfase à parte de Exploração e Produção.

 

P/1 – Isso por conta das descobertas de Garoupa e desenvolvimento da Bacia?

 

R – É, por causa daquele choque de petróleo que houve em 1973: “Nós precisamos garantir a produção de petróleo para a gente ser autossuficiente." Era uma coisa assim. Tinha que mudar a ênfase, então eles mudaram: tiraram o superintendente de Pesquisa e colocaram uma pessoa ligada à Exploração e Produção, me tiraram e botaram uma pessoa ligada a área de Exploração e Produção. Eu comecei a trabalhar um pouquinho, depois a (Petros?) é uma coisa formidável: “Por que eu vou me aborrecer aqui vendo o pessoal mudar tudo o que eu fiz?” Se mudassem para bem, se eu estivesse vendo que era ótimo, tudo bem, mas não era. Tinha algumas coisas tremendamente erradas. Depois eles mudaram de novo. Aí, eu saí da Petrobras, quer dizer, pedi a aposentadoria e pronto. Para mim, encerrou a época...

 

P/1 – Foi aí que a sua divisão foi para a Exploração?

 

R – Não, ela não chegou a ir toda não. Ela continuou sendo a Diquim, mas Corrosão foi para a Exploração, porque eles eram mais fortes nessa época. Sempre tem um jogo de forças no trabalho, né? Nós continuamos fazendo tudo, menos corrosão.

 

P/1 – A senhora ainda ficou um tempo?

 

R – Não, eu não. Não, na hora em que eles dividiram, foi uma hecatombe [risos]!

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Tsunami… Passou assim… Fizeram do jeito que eles achavam.

 

P/1 - Dividiram a sua divisão?

 

R – Na minha divisão eles deixaram um número de pessoas, mas saiu muita gente. Tinha muita gente que era a favor disso e daquilo, então, cada um foi se encaixando no lugar que ele achava melhor e a Diquim virou outra coisa, completamente diferente. Cada um dá a sua contribuição. Eu dei a minha, era daquele jeito. Outra pessoa veio: “Não é desse jeito, é do outro.” Tudo certo. Eles mudaram mesmo. E graças a Deus, vocês viram o sucesso que eles estão tendo nessa área de águas profundas? Isso é pesquisa de fronteira, uma coisa que só os países altamente industrializados conseguem, fazer um breakthrough, não é? Então, eles estavam certos, e nós também, na nossa época.

 

P/1 – Momentos diferentes, não é?

 

R – É.

 

P/1 – Dona Glória, eu queria saber o que a senhora destacaria dos primeiros anos do Cenpes. Um momento: foi o plano diretor, foram os primeiros anos de pesquisa? O que a senhora destaca?

 

R – No início, eu posso destacar os cursos.

 

P/1 – Os cursos?

 

R – É, porque certamente eram de um nível extraordinário. Até hoje eu acredito que seja, não tenho contato com o pessoal de agora. Era de um nível muito elevado. Eu acho que isso é que possibilitou a Petrobras chegar aos (níveis?) em que ela chegou. Ela tinha o seu pessoal preparado e isso é fundamental. Você não consegue fazer nada se você não tiver as pessoas prontas para contribuir. Eu acho que essa década em que a gente tinha pesquisa pequenininha e curso grande estava certa, estava na hora de preparar o pessoal. E nesse grande período que nós paramos de dar o curso, a gente sentiu, porque as pessoas que chegavam não tinham o nível dos antigos. Então, eu destaco essa parte. Depois é que nós começamos a crescer na parte de pesquisa, mas isso levou mais tempo.

 

P/1 – E quando a senhora se aposentou, a senhora foi curtir a vida ou foi trabalhar ainda?

 

R – Todo mundo sai com um cacoete, né? Eu tinha trabalhado muito em projetos de laboratório. Todas as refinarias construídas, o anteprojeto foi feito por mim e pela Eliane. Todos os laboratórios, laboratórios enormes! Então, eu tinha muita experiência em projeto de laboratório. Quando eu estava na chefia, sempre arranjava um tempo para fazer um projeto, e era de um laboratório enorme. Quando eu saí, eu tive convite para trabalhar nessa área. Aí, eu comecei a trabalhar, fiz um laboratório, outro laboratório, mas eu senti muita dificuldade porque eu não tinha o amparo que eu tinha no Cenpes. Isso é importante, a parte de biblioteca, a documentação, eu não tinha nada disso. Essas pobres dessas companhias que fazem projetos, eles batalham muito. Acho que por uns cinco anos eu fiz projetos, mas depois eu disse: “Sabe de uma coisa? Deixa eu fazer o meu outro lado!” Eu gostava muito de arte, então resolvi fazer curso de História da Arte, viajar… Depois, meu marido morreu. Eu senti muito, então comecei a viajar. Tinha um grupo de pessoas que estudavam História da Arte e a gente fazia viagens com esse grupo. Viagem para ver museu. Por exemplo, fazia uma viagem de 18 dias e via 20 museus, no mínimo um por dia, apreciando com quem sabe e discutindo. Então, a minha parte de ciências exatas foi para segundo… Até hoje, eu sou muito ligada à parte de artes e faço viagens. Agora eu estou paradinha porque deu um probleminha, mas vamos consertar...

 

P/1 – Que bom! O Senhor Oddone se aposentou junto com a senhora ou ele continuou?

 

R – Não, ele se aposentou um pouco depois de mim. Quando ele saiu do Cenpes, foi ser assistente do Presidente da Petroquímica – todos eram nossos colegas – mas ele não suportou. O homem suporta menos a aposentadoria, Ele disse que não aguentava esse negócio de passar um papel para o outro, de um lado para o outro. Ele foi diminuindo. Ele era um cara nacionalista, lá em casa todo mundo é muito nacionalista. Ele foi trabalhar para uma firma estrangeira, porque foi o que ele arranjou: uma firma que vendia catalisador. Isso foi o fim para ele porque brigou com essas firmas a vida inteira e agora estava trabalhando para elas. Eu acho que aquilo matou ele. Ele durou dois anos.

 

P/1 – É verdade, foi para o outro lado...

 

R – Foi, mas não dá, quando a pessoa é muito... É muito difícil de aceitar.

 

P/1 – Eu queria perguntar para a senhora como é que foi trabalhar e ser mãe, numa época em que não era tão fácil assim.

 

R – Eu tenho três filhos homens. Não foi fácil. Eu até tive sorte porque eu sempre tive boas empregadas. Eu tinha três empregadas. Era nessa base, mas não foi fácil. Quando nasceu o meu primeiro filho, eu quis desistir: “Eu não vou conseguir, Ailson, não vou conseguir deixar o meu filho aqui.” Ele disse: “Vai conseguir sim.” Ele é que fez com que eu continuasse a trabalhar porque senão eu tinha saído. Ele disse: “Você vai. Só esse pedaço que é pior.” E não tinha tantas boas creches como tem agora. Lá perto da minha casa tem uma creche que eu fico admirada vendo: “Olha que gracinha!” Não tinha isso, era em casa mesmo.

 

P/1 – Me diga o nome dos três, é o Rogério...

 

R – Rogério, Cláudio e (Célio?).

 

P/1 – O Rogério é o mais velho?

 

R – É.

 

P/1 – Os outros dois são engenheiros também?

 

R – São engenheiros mecânicos. Um trabalha como analista de sistemas.

 

P/1 – E a senhora já tem uma neta que a gente conheceu, como é o nome?

 

R – Eu tenho quatro.

 

P/1 – Diga o nome das netinhas.

 

R – A mais velha chama-se Mônica. Ela está batalhando para entrar na Medicina. Tem um rapaz que está batalhando para ser aviador. Tem um que tem oito anos, é pequenininho, não sabe ainda o que vai ser. E tem outra menina. São quatro, dois homens e duas mulheres. A outra quer ser médica também. É uma luta!

 

P/1 – É mesmo!

 

R – A gente está vivendo tudo de novo!

 

P/1 – É, mas chegam lá, né, se puxar esses avós...

 

R – Bom, eu acho que chegam. A Mônica já está no quarto ano e a outra vai fazer vestibular agora.

 

P/1 – Ela já está no quarto ano?

 

R – Está.

 

P/1 – Que beleza! Dona Glória, eu queria perguntar como a senhora avalia o papel do Cenpes para o Brasil.

 

R – Eu fico até envergonhada [risos]! Eu acho que foi uma pedra fundamental no desenvolvimento da pesquisa no Brasil, porque nós projetamos o Cenpes numa amplitude de conhecimento e de vontade de acertar. A gente tinha visitas todo santo dia aqui no Cenpes. Não era só copiar os laboratórios. Realmente não tinha nada igual. Nós visitamos um monte de centros de pesquisas e tiramos só as coisas boas que eles tinham. O que não deu certo lá, a gente não ia repetir aqui. Então, o nosso Centro era uma coisa para a gente se orgulhar de ter. Também o pessoal selecionado, as melhores cabeças pensantes. Isso causava uma excelente impressão e os outros tentavam fazer a mesma coisa nas mesmas dimensões. Você querer copiar uma coisa boa, é bom. É dali para cima. Pode ser até que algumas coisas ficaram muito melhores do que nós, mas elas já saíram de um nível muito bom. No Brasil, na época em que nós fizemos o Cenpes, não tinha nada igual. Tinha laboratórios bons, mas não tinham a dimensão do Cenpes nem os objetivos grandiosos do Cenpes. Então, eu acho que o Cenpes foi isso, antes e depois.

 

P/1 – A gente já está terminando a nossa entrevista. Queria perguntar se a senhora queria deixar alguma outra coisa que não foi conversado aqui para registrar.

 

R – Não, eu acho que vocês fizeram uma excelente cobertura, me guiaram. Isso é muito importante porque a gente começa a falar, fica tão entusiasmada e daqui a pouco está lá no brejo e nem está sabendo. E você conseguiu: “Vamos, sai do brejo e vem para cá” [risos]. Foi muito bom. Foi uma entrevista que eu gostei de fazer. Foi muito bom mesmo.

 

P/1 – Dona Glória, a gente quer agradecer imensamente a sua colaboração em ter vindo até aqui dar essa entrevista para a gente!

 

R – Eu estava meio receosa porque, conforme eu disse a você, eu começo a falar, vou pegando um gancho no outro gancho e saio do objetivo.

 

P/1 – Não, foi ótimo.

 

R – Isso foi muito bom.

 

P/1 – Foi muito boa a entrevista! Obrigada!

 

R – Tá ótimo, eu fiquei satisfeita! Fico satisfeita de vocês estarem conseguindo fazer uma coisa... Você sabe,  nós perdemos tanta coisa! Você pergunta à Eliana quando ela vier aqui. Ela quis fazer um trabalho do Cenpes porque ele fez 50 anos. O Cenpes foi o primeiro lugar em que nós trabalhamos, né? Ela quis levantar alguns dados e não conseguiu.

 

P/1 – Muita coisa se perdeu, né?

 

R – Pois é, mas pelo menos vocês chegaram a tempo, ainda conseguiram sobreviventes [risos]!

 

P/1 – Muito obrigada.

 

 

 

---FIM DA ENTREVISTA---

 

 

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+