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História

Uma engenheira agrônoma no Banco do Brasil

História de: Eliane Matioli Alves de Sousa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2009

Sinopse

Muitas histórias, viagens, aprendizados e progressos - tanto na vida pessoal, quanto profissional - permeiam a trajetória de Eliane Matioli. Nessa entrevista ela mostra como a sua história tem grande relação com o desenvolvimento econômico e sustentável do Brasil.

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História completa

P/1 – Eliane, boa tarde. Nós agradecemos a sua presença aqui na participação do Projeto BB 200 anos. E antes, pra gente continuar nossa conversa, que a gente começou nos bastidores, qual o seu nome completo?

 

R – Eliane Matioli Alves de Sousa.

 

P/1 – Local e data de nascimento?

 

R – Nasci em Lavras, Minas Gerais, em 18 de junho de 1957.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – O meu pai, José Pedro Alves de Sousa, e minha mãe, Olga Matioli de Sousa.

 

P/1 – Qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R – O meu pai é Engenheiro Agrônomo e a minha mãe trabalhou num período como secretária, depois se casou, virou dona-de-casa, embora ela que nos ajudasse muito no colégio com os trabalhos. E durante muito tempo ela acabou sendo a secretária do meu pai.

 

P/1 – E a origem da sua família, foi sempre de Minas Gerais, Lavras, ou não?

 

R – Não. Na realidade, os meus avós maternos são italianos. Tanto é, que nós temos a cidadania italiana. A família do meu pai é de origem portuguesa. Então, eles são Alves Cabral, na realidade o Sousa veio do meu avô, mas a minha avó era (Álvares?) Cabral.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Eu tenho um irmão e uma irmã.

 

P/1 – Qual o nome deles?

 

R – Cléber Matioli de Sousa, meu irmão mais velho, e Eliete Matioli Alves de Sousa, minha irmã mais nova, uma grande guerreira, a gente é louco por ela.

 

P/1 – Eliane, como era a infância em Minas?

 

R – Olha, na realidade a minha vida sempre foi um desafio, né? Quando os meus pais moravam na roça, moravam numa fazenda em Três Pontas. Na realidade, em Santana da Vargem, que naquela época ainda não era um município. Ele se transformou em cidade em 1964, já depois que eu nasci. Mas, pra que eu nascesse, minha mãe foi pra Lavras, que era onde moravam os pais dela e tinha havido a inauguração da maternidade em fevereiro. Só que de fevereiro a junho só nasceu homem. Imagina o que foi, em junho, 18 de junho, quatro meses depois, quando chegou a primeira mulher [risos]. Então, todo mundo ainda brincou, o berçário acabou se chamando Eliane. E durante muito tempo ficou uma foto minha lá: “A primeira mulher que tinha nascido naquele berçário”. E eu acho que isso aí foi um incentivo, sabe? Fiquei eu, no meio daquela “homaiada”, gritando, brigando, por espaço e essa foi a minha vida sempre. Eu fiquei, morei nessa fazenda, Fazenda Cruzeiro da Penha em Santana da Vargem. Nós morávamos na fazenda. Papai era administrador dessa fazenda, uma fazenda grande que exportava café. Mas a cidade mais próxima ficava a 6 quilômetros. Então, pra estudar, eu ia a cavalo, a pé, de bicicleta, no caminhão leiteiro, de charrete, durante muito tempo. Durante os três primeiros anos de colégio, eu não fiz Jardim da Infância, minha mãe é quem me ensinou a ler. Na realidade, porque a gente morava na fazenda. E aí, eu ia e voltava a pé todo dia, ou no caminhão leiteiro, qualquer que fosse o meio de transporte disponível naquele momento. Eu era muito danada, teve um período que eu fui a cavalo, aí no dia que meu pai descobriu que eu tava fazendo o cavalo pular mata-burro, eu apanhei um pouco [risos]. Ele mudou e eu passei a ir no caminhão leiteiro. Mas é uma infância muito feliz. Naquela época a minha casa não tinha televisão ainda, só foi ter televisão depois. Então, a gente brincava, subia em árvore, tirava leite de vaca, e ajudava a apanhar café. Então, eu acho que por isso eu sou Engenheira Agrônoma, né? Talvez tenha vindo daí o meu entusiasmo, não só o meu. A minha irmã, o meu irmão e o meu pai também são Engenheiros Agrônomos, e a mamãe era a nossa grande consultora.

 

P/1 – E você sempre estudou ali na região?

 

R – Não. Na realidade, nós moramos em Santana da Vargem, depois nós nos mudamos pra Três Pontas, meu pai entrou pro Ministério da Agricultura. Depois nós moramos em Guaxupé, uma cidade que fica no sudoeste de Minas, e eu fui mudando. Isso foi muito importante, que eu fui aprendendo o valor da amizade. Porque você fazia amigos, ficava três, quatro anos, meu pai era transferido e a gente tinha que recomeçar tudo, em outra cidade, né? Depois, eu morei em Belo Horizonte. Eu dizia que eu ia fazer Psicologia. Imagina, com esse tanto que eu falo, se eu ia deixar [risos]. Ainda bem que eu não fiz, o paciente não ia ter muito espaço pra falar, né? E eu passei no vestibular de Psicologia, cheguei a fazer a matrícula mas, ao mesmo tempo, eu passei no vestibular da Universidade Federal de Lavras, e eu optei pela Agronomia. Aí eu voltei pra Lavras, o papai nesse período tinha se mudado pra Lavras. Porque eu só nasci em Lavras porque minha mãe tinha ido pra lá pra ter o nenê próximo a mãe dela, e também porque o hospital era numa cidade maior. E eu voltei quando eu passei no vestibular de Agronomia. Mais uma vez lutando, porque a Agronomia é uma profissão tipicamente masculina, né? E naquela época era 150 pessoas que passavam, 75 em cada um dos vestibulares. Aquele ano era o segundo que tinha em julho e eu passei naquele vestibular. Fui bem classificada, um dos primeiros lugares, e fiz Agronomia.

 

P/1 – Você sempre estudou em colégio público?

 

R – Eu sempre estudei em colégio público. Isso é uma coisa que fez uma diferença muito grande na minha vida. Eu me sentia muito responsável, eu pensava que eu tinha que devolver pra sociedade um pouco disso que ela me deu. Eu estudei em colégio público e depois eu estudei em uma universidade federal. 

 

P/1 – Agora, a opção pelo curso de agronomia, foi por causa da família, então?

 

R – Olha, eu acho que foi tudo. Foi muito interessante porque eu tive opção de fazer outra coisa. Eu fui estudar em Belo Horizonte e, na minha cabeça falava que eu ia fazer Psicologia. Mas eu acho que isso tava muito forte na gente. A infância, a influência... Eu vivia dentro de uma família que falava em Agronomia o tempo todo, né? Então essa foi uma coisa muito importante na minha vida, eu acho, essa influência. Meus pais são grandes líderes na minha vida. Meu pai, minha mãe, que estão vivos, graças a Deus. Meu pai tem 86 anos, tá indo pra roça até hoje, andando a cavalo, e a minha mãe, que sempre nos deu um apoio muito grande.

 

P/1 – E essas mudanças todas de cidades? Depois você foi pra Belo Horizonte estudar, como...

 

R – Em Lavras. Eu fiz Agronomia em Lavras.

 

P/1 – Isso. Mas você chegou a morar em Belo Horizonte. Qual foi esse impacto de uma cidade grande na sua vida? Cidades pequenas, depois...

 

R – Morar na fazenda... Olha, é um desafio, sabe? Porque, tem uma coisa que eu vou contar [risos]. Eu era uma pessoa extremamente tímida. Meu pai diz que eu era um “bichinho do mato”. Quando eu morava na fazenda, e logo depois. O primeiro impacto, na realidade, não foi nem em Belo Horizonte. Foi quando eu fui pra Três Pontas. Eu era, literalmente, o “bichinho do mato” que atravessava a rua pra não ter que falar com as pessoas. E todo mundo sabia que eu era assim. Quando nós chegávamos a uma festa de aniversário, normalmente eu queria entrar pela porta do fundo. Eu ia, em geral, para o quarto da aniversariante, ou do aniversariante, porque eles sempre ganhavam muitos livros de presente. A minha paixão era livro de história, sempre gostei muito de ler. Então, eu só queria ficar no quarto lendo. Mas também era pra não ter que falar muito com as pessoas. E quando eu me mudei pra Guaxupé, eu tomei uma decisão, talvez tenha sido uma das decisões mais difíceis da minha vida, que foi: “Aqui ninguém vai saber que eu sou tão envergonhada”. Porque em Três Pontas todo mundo sabia, e eu resolvi que eu não ia mais ter vergonha de ter de falar com as pessoas, que eu ia enfrentar isso. E eles nos convidaram pra desfilar numa escola de samba. Eu, na realidade, eu tinha desfilado numa escola de samba muito mais pela influência da minha irmã, que é quatro anos mais nova que eu. E, quando nós chegamos em Guaxupé, no dia do primeiro ensaio da escola de samba, que eu cheguei e que a (Urgs?), o lugar onde se reunia, tava cheio, eu pensei: “Eu não vou entrar”. Aí eu lembrava e falava: “Se eu não entrar hoje, eu não entro nunca mais”. Talvez isso tenha feito a diferença em toda a minha vida, pra tudo isso. Belo Horizonte foi outro grande desafio, com certeza. Eu tinha 16, 17 anos, quando fui pra Belo Horizonte, então, é uma fase que você tá descobrindo o mundo, se reafirmando, e a gente tinha que começar tudo de novo, formar novos amigos, descobrir. É uma selva de pedras, o trânsito... Você aprender a andar naquela cidade grande... Mas foi um desafio muito interessante.

 

P/1 – E a universidade, como foi o momento? Você pôde construir amigos, estabelecer mais laços?

 

P/2 – Porque Lavras é uma cidade universitária, né?

 

R – Exato.

 

P/2 – E aí você foi morar sozinha?

 

R – Não. Porque, na realidade, nesse período meus pais se mudaram pra Lavras. Porque a Universidade eu fiz em Lavras, a Universidade Federal de Lavras, que completou cem anos agora, esse mês. Então, coincidentemente, meus pais tinham voltado pra Lavras nesse período. Durante o período da universidade eu estava morando com eles. Que, aliás, é o único período que eu morei em Lavras, foi esse período. Porque também eu me formei e saí. Eu acho que universidade é uma das melhores fases da vida da gente. Você faz amigos que são pra vida toda. A minha turma se encontrou agora nos 25 anos, já vamos programar o encontro dos 30 anos que vai ser o próximo ano, em setembro de 2009. E foi tudo uma descoberta. Era uma luta porque nós estávamos em 1975 e, mulher, agrônoma... Dizem que quando a gente nasce Deus pergunta: “Quer ser bonita ou quer fazer Agronomia?” [risos]. Optei por fazer Agronomia, não tinha jeito, tinha que lutar por espaço na vida [risos]. Mas foi muito bom, eu gostava muito, aprendia muito. Em casa era tudo muito fácil, porque eu tinha um irmão mais velho fazendo, eu tinha um pai Agrônomo. E depois a minha irmã passou no vestibular também, pra Agronomia. Então, era sempre pensando: “Vou me formar e vou pra onde?”. O que eu sabia é que eu queria trabalhar com Agronomia.

 

P/1 – E você terminou a faculdade e logo conseguiu emprego, ou trabalhou enquanto você tava estudando?

 

R – Olha, isso foi uma coisa muito interessante que eu tava lembrando... É muito bom tá falando sobre a minha vida porque eu comecei a mexer nas fotos, estou me lembrando disso. Eu fui muito bem classificada, fiquei em segundo lugar geral na turma de Agronomia quando eu me formei. E essa foi uma coisa muito emocionante porque eles convidaram meu pai pra entregar a minha medalha. Porque o meu pai estava completando 30 anos de formado. Ele tinha se formado naquela mesma escola, 30 anos antes. E a minha colação de grau foi no dia do aniversário do meu pai. Então, assim, foi uma série de coisas. Aquilo foi muito emocionante. Eu pensava naquela responsabilidade que eu tinha, como é que eu ia fazer aquilo se transformar na minha vida profissional? Eu esqueci a pergunta, desculpa.

 

P/1 – Assim, o que você fez depois da faculdade...Se você trabalhou quando você estava estudando...

 

R – Assim, o que aconteceu? Eu tinha sido muito bem classificada e havia uma tradição lá na Universidade. Em geral, os primeiros lugares eram convidados pra ficar como professores, ou pra fazer Mestrado. Pela primeira vez na história os primeiros lugares tinham sido mulher: Primeiro, segundo e terceiro lugar. Foi uma coincidência, eu acho, mas foi. Naquele ano eles não nos convidaram diretamente pra ficar como professores. Eles nos ofereceram a oportunidade de fazer Mestrado. E eu, então, passei a me preparar pra ir fazer o Mestrado. Mas ao mesmo tempo, eu fui fazendo os concursos. Aí eu passei num concurso do Ministério da Agricultura, passei num concurso da Emater, e tava me preparando para o Mestrado. Mas aí é aquela história: recém-formada, doida pra trabalhar, eu fiquei naquele que viesse primeiro. E o que veio primeiro, o primeiro chamado, embora tivesse sido aprovada no concurso do Ministério da Agricultura, foi a Emater. E aí foi outro desafio: a Emater, até então, somente contratava homens como Engenheiros Agrônomos. Mulher, na Emater, somente se fosse Assistente Social. E também não podia casar. Aí, de repente, a Emater fez o concurso e nós fomos aprovadas. Então, foi uma grande surpresa quando a Emater, primeiro, permitiu que nós fizéssemos o concurso e, segundo, quando ela nos chamou. Pra mim foi uma grande alegria. Tomei posse na Emater, e nós fomos fazer o pré-serviço. Nós éramos duas mulheres, na realidade duas outras tinham tomado posse antes de mim, poucos meses antes, duas outras, e a Nilde e eu éramos a terceira e a quarta que estávamos tomando posse com mais cento e tantos homens. E lá fomos nós.

 

P/1 – Sempre em Lavras?

 

R – Não. A Emater é Minas Gerais. O pré-serviço foi em Viçosa, em Minas Gerais. Aí já fui sozinha.

 

P/2 – Como é que foi sair de casa?

 

R – Olha, foi uma alegria [risos] Na realidade eu já tava preparada. O papai e a mamãe nos prepararam pra vida. Tanto é... Quando eu morei em Belo Horizonte eu já morei sozinha. Quando eu fui pra Belo Horizonte, eles moravam no interior. Eu fui pra Belo Horizonte para estudar, na época que eu fui fazer cursinho e eu já fui sozinha. Então, eu tinha plena consciência que eu teria de enfrentar a vida sozinha. E eu fui chamada pra Emater e fui fazer o pré-serviço em Viçosa. Uma alegria. Imagina o que é você pegar a sua malinha e ir embora pro seu primeiro emprego, que foi o pré-serviço. E durante o pré-serviço é uma coisa inesquecível, porque você não sabe em que cidade você vai morar. E durante o pré-serviço todo eles diziam assim: “Olha, esse tipo de relatório, esse tipo de treinamento, não se preocupe, as secretárias todas sabem. Normalmente as secretárias fazem. A não ser quem for abrir escritório e ter de fazer concurso de secretária”. Eu pensava: “Eles não vão dar mole pra uma mulher, não vão fazer isso com uma Engenheira Agrônoma recém-contratada”. Aí dali a pouco vem: “Olha, isso aqui precisa ser assim-assim, mas isso é só pra quem for ser chefe de escritório”. Normalmente no escritório, e isso já é tradicional da Emater. Agora, se por acaso, alguém for abrir escritório, fazer concurso de secretária, e ter equipe nova, aí vai ter que saber isso tudo. Eu ia anotando tudo, mas pensava: “Isso não vai acontecer comigo, afinal, tem tanta gente aqui”. Eram 180 técnicos sendo contratados e tal. No último dia do pré-serviço vem a grande surpresa. Começaram por aqueles técnicos que foram alocados em escritórios maiores que estavam cheios, já com técnicos experientes, aqueles que já tinham técnicas de bem-estar social. Porque também tem todo um trabalho social que é feito. Eles diziam assim: “Olha, aqui só tem que prestar atenção quem for ter o Engenheiro Agrônomo e a técnica de bem-estar social novos. Só pra quem for ser o Chefe de Escritório”. Gente, imagina o que aconteceu. Eliane Matioli acho que foi a única daquele equipe, pelo menos das mulheres. Eu fui abrir escritório, fazer concurso de secretária, a técnica de bem-estar social era nova e os outros integrantes da equipe também eram todos novos. Quando nós chegamos em Igaratinga, eu fui designada. E aí nós fomos descobrir para onde eu estava me mudando: Para uma cidade que fica relativamente próxima a Belo Horizonte, cento e poucos quilômetros, mas com uma grande parte de estrada de terra. Que nunca tinha tido escritório da Emater e que a área toda a ser trabalhada também nunca tinha recebido assistência técnica. Então, esse foi um grande desafio, me sentia muito responsável, muito... A cada dia, eu pensava: “Meu Deus do céu, passei por mais essa etapa”. E aí vem uma coisa interessante, porque eu acabei... Meu primeiro trabalho lá foi convencer a Câmara dos Vereadores, porque ela tava votando contra a instalação do escritório da Emater em Minas Gerais.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque eles não sabiam bem o que era Emater, acharam que era uma coisa política [risos] e que podia ser por causa do prefeito e não sei o quê. O meu primeiro grande desafio foi, com meus 22 anos, Agrônoma, supervisora local do escritório local de Igaratinga, convencer a Câmara dos Vereadores. Convencemos. E eu fui começar a fazer o trabalho. E aí que eu descobri uma coisa: eu era a grande frustração de uma grande parte das pessoas que estavam ali. Porque, em geral, quando a Emater se instala num local e vêm os técnicos, vêm os Engenheiros Agrônomos, solteiros, e que se casam com as moças do lugar. Imagine eu [risos], chegando numa cidade totalmente desconhecida, pra ir pro meio rural com os produtores rurais. Então, eu tive que fazer um trabalho enorme de, primeiro, conhecer todas as famílias e mostrar praquelas senhoras, daquela região, que na realidade, além de não ser um Engenheiro Agrônomo que muitas pessoas iriam se casar com eles, né? Em geral, vinha uma equipe grande. Que também não corria o risco de eu ir com os maridos delas pro meio rural fazer assistência técnica [risos]. Então, nos meus primeiros trabalhos como Engenheira Agrônoma naquela região, eu descobri isso e eu me tornei amiga delas. E sempre eu convidava e ia a família toda. Então, isso foi um trabalho muito interessante, foi um desafio, uma estratégia que a gente utilizou. É um lugar que eu adoro, tenho um carinho especialíssimo, tenho grandes amigos lá. Só que nesse meio tempo eu me inscrevi para o concurso do Banco do Brasil. Na realidade, quando eu fiz, eu estava fazendo o pré-serviço, eu tava também estudando, porque teve, então, o primeiro e único concurso externo de Engenheiro Agrônomo do Banco do Brasil, que ocorreu em dezembro de 1980. Eu tinha seis meses de Emater e eu fui aprovada no concurso. Esta foi outra grande surpresa. Eu fiquei bem quietinha, não contei nada, porque eu me sentia muito responsável, eu falava: “Meu Deus do céu, somente eu, das novatas, que era chefe de escritório, que tava abrindo escritório”. Então, eu tinha aquela preocupação de, se eu saísse, de repente eles pensarem que eu tava saindo porque eu não tinha conseguido vencer aquele desafio. E eu fui deixando, eu fui enrolando... eu só sei que eu só fui tomar posse do Banco em outubro, porque aí eu já tinha me comprometido com as famílias, com os produtores rurais e tava na época do custeio, elaborando os projetos e fazendo todo o trabalho. Quer dizer, eu tinha levado quase um ano pra conseguir criar essa empatia e esse trabalho com os produtores. Então, eu assumi o compromisso e não saí, não abandonei, enquanto eu não entreguei o último projeto, no Banco do Brasil. Aí sim, eu saí e fui tomar posse. Tenho uma lembrança enorme, porque eu não tinha contado pro meu Superintendente Regional [risos] que eu tinha passado. E aí, um dia que ele foi lá, eu resolvi contar. E passar no concurso do Banco do Brasil, pra mim, foi como ganhar na loteria. Era o sonho da maioria das pessoas. Imagine passar no Banco do Brasil como Engenheira Agrônoma. Um concurso que teve 18 mil inscritos, que era pra ser mil vagas, na realidade, cerca de 13, 14 mil pessoas fizeram e o Banco do Brasil chamou 220. Então, assim, eu me sentia ganhando na loteria esportiva quando eu fui chamada pro banco. E aí, iria pra onde? Pra Bahia. Pra Seabra. Seabra. E aí foi muito interessante, porque quando eu fui colocando as opções... O Banco me ofereceu o número de vagas, onde tinha as vagas pra Engenheiros Agrônomos. A primeira coisa que eu pensei é: “Vou ficar próximo de Minas Gerais, vou ficar perto da minha casa”. Mas, naquela época, eu fui olhando pelo mapa, e é muito importante isso, depois eu tenho até uma foto que mostra. Porque o Guia Quatro Rodas que eu peguei tinha uma... A gente ia somando os quilômetros no guia Quatro Rodas, e tinha uma bolinha que ficou na dobra e apagou 240 quilômetros. Então eu achava que Seabra era perto de Salvador, e que ficaria relativamente fácil para eu pegar o avião. Só que Seabra ficava a quatrocentos e tantos quilômetros [risos] porque tinha apagado uma daquelas bolinhas que mostrava duzentos e tantos quilômetros no Guia Quatro Rodas que eu vi. E assim, eu fui tomar posse no Banco em Seabra.

 

P/1 – E você tomou posse e você foi trabalhar no quê? No escritório lá em Seabra, na Bahia?

 

R – No Banco do Brasil?

 

P/1 – Isso, qual foi o primeiro setor que você foi trabalhar?

 

R – Na Carteira de Crédito Rural do Banco do Brasil, em Seabra. Em 1 de outubro de 1981.

 

P/1 – E era uma agência?

 

R – Uma agência. O Banco do Brasil trabalhava como? Ele tinha, quer dizer, na realidade essa carreira estava sendo criada... Então, nós estávamos... O Banco tinha feito, buscado no seu próprio cargo quem tinha formação ou estava fazendo uma reciclagem, e tinha buscado no mercado e nós éramos 220 pessoas tomando posse. Só que, diferentemente da Emater, eu não passei por um treinamento antes de entrar pro Banco. Eu cheguei direto numa agência [risos] e foi muito interessante a minha chegada em Seabra. Na saída pra Seabra, Seabra ficava a mil e tantos quilômetros. E eu me lembro muito o dia que eu fui chamada pra Seabra e que eu falei com meu pai e a minha mãe. Eu olhava no mapa e pensava: “Meu Deus do céu, são uns três dias de viagem”. Aí comecei: ligava em Salvador, ligava pra pegar mais informações sobre Seabra, e um colega lá da Agência de Lavras, que era o relacionamento, eu tinha feito a inscrição em Lavras. Aí ele me deu o telefone de uma agência em Jequié, e eu fui conversar com o colega da agência. Ele disse: “Olha, não, venha, vai ser muito bom. Mas já aproveita... Olha, eu vou dar o telefone da minha casa, telefone aqui da agência, porque em Seabra só tem um posto telefônico com uma extensão no Banco do Brasil, e nos três últimos anos, por causa da chuva, a ponte caiu, então, a cidade ficou incomunicável [risos]. Então, você deixa os nossos telefones, porque se você tiver qualquer problema ou a sua família, vocês podem se comunicar com a gente, que a gente passa um rádio lá pra Seabra”. E lá fui eu pra Seabra. Quando eu cheguei na Agência de Seabra... O pessoal queria saber quem era aquele “bicho raro” que tinha chegado porque tinha muita pouca gente da Bahia, na realidade, acho que duas pessoas só, da Bahia, tinham passado nesse concurso de Agrônomo. Então, o pessoal, às vezes, ia à agência: “Quero saber quem é essa Engenheira Agrônoma que veio tomar posse na Bahia”. O colega da Emater depois me falou. “Nós viemos só te conhecer. A gente quer saber o que vocês têm porque da Bahia toda só passaram duas pessoas. O que vocês têm”. E, na realidade, não tinha nada, sei lá, foi...

 

P/1 – E o primeiro dia de trabalho?

 

R – Olha, na realidade, o primeiro dia de trabalho foi surpresa, uma em cima da outra. Eu tava vindo do sul de Minas. Antes de eu começar a contar sobre o trabalho, eu queria contar a minha chegada em Seabra. A chegada, a viagem. Porque nós fomos e gente... Porque Minas, o sul de Minas, as estradas são todas... Você tem cidades muito próximas umas das outras. E entre Jequié e Itaberaba, são mais de 200 quilômetros. E nós passamos por Jequié quase na hora do almoço, não almoçamos. Deixamos resolver parar num restaurante mais à frente. Às quatro horas da tarde nós já estávamos mortos de fome. Quatro, cinco horas da tarde. E não tínhamos encontrado nenhum restaurante. Aí chegamos em Itaberaba, era aniversário da cidade, e tava tudo fechado, tava tendo desfile, aquela coisa [risos]. Gente, achamos uma padaria. Imagina você comer pão com leite e café pra chegar [risos]... Sei que em vez da gente parar e dormir em Itaberaba, não, resolvemos chegar em Seabra. E aí, quando você olha lá de cima, você vê aquelas luzinhas na cidade. Só tinha um prédio branco. Eu dizia: “É o Banco do Brasil! É o Banco do Brasil!” [risos]. E aí chegamos. Eu tinha telefonado no hotel e feito uma reserva, mas não tinha me lembrado de perguntar...

 

P/1 – Mas você viajou com uma turma de amigos?

 

R – Não, meus pais foram comigo. Na realidade eles resolveram fazer... Não conheciam a Bahia e a gente só tinha um carro. Meu pai tinha um carro, eu não tinha ainda carro. E eles resolveram fazer uma viagem de férias e ir comigo. Na realidade foi uma forma de me dar apoio nessa saída e enfrentar. E a viagem durou dois dias. A gente saiu de Lavras, foi até Teófilo Otoni, dormiu em Teófilo Otoni, e fomos chegar à noite do dia seguinte em Seabra. Fomos numa Brasília, aqueles bagageiros enormes, numa Brasília que meu pai tem até hoje, e a gente chegou em Seabra. Aí eu entrei. O hotel, pessoal todo sentado na sala, assistindo televisão, né? Porque as televisões, nos hotéis, sempre ficavam na sala. Aí cheguei e disse: “Ah, reservei um apartamento, dois apartamentos”. O cara olhou e disse assim: ‘Você reservou o quêêêê?”. “Eu reservei dois apartamentos”. Ele disse: “Moça, tem não.”. Eu disse: “Como???”. [risos]. Oito horas da noite, mortos de fome, né? Que a gente tinha feito a bobagem de não parar pra comer. Aí o cara disse: “Olha, aqui não tem isso, não”. E aí o hotel tava lotado. Não sei o que houve, nessa falha da comunicação, eu tinha ligado. Aí eu fui descobrir. Gente, nós acabamos conseguindo um quarto pra ficar todo mundo, mas a luz, a lâmpada, era dividida entre os quartos que tinham uma parede que vai só até uma determinada altura. E a lâmpada era pra dois quartos. Só que a pessoa que tava do outro lado, você não conhecia [risos]. Então, você tinha que dormir a noite inteira com a luz acesa, porque não tinha como apagar [risos]. Para não dar confusão, eles deixavam a lâmpada sempre acesa. E os banheiros eram do lado de fora, daqueles banheiros que a porta vem até na metade da tua canela e até aqui. E você fica tomando banho, se ensaboando, e quem tá passando em frente [risos] fica olhando, porque a porta só tampa o teu corpo, né? Mas, a alegria de entrar pro Banco era algo assim, sabe? Inesquecível. Em frente ao hotel, a hora que abri a janela do meu quarto, era o estacionamento de jegues. E no dia seguinte começou a feira. Aquelas feiras tradicionais lá do Nordeste, que ocorriam na Praça em frente. Então, assim, pra mim era tudo uma novidade, e foi uma coisa maravilhosa. Eu acabei ficando pouco tempo em Seabra. No dia seguinte, eu cheguei no banco, dia 30 de setembro. Aí, quando eu cheguei, eu não sabia, ninguém me disse que... Eu cheguei, fui no Banco de manhã. Aí o colega que me recebeu era um colega carioca e disse: “O quêêê? Mas vocêê...”. Aí fui lá, falei com o Gerente, conversei, me apresentei, Gerente de Administração. Todo mundo querendo conhecer o “bichinho raro” que tava chegando que era a tal da Agrônoma, lá do Banco do Brasil. E aí ele me encaminhou pro Setor de Funcionalismo. Quando eu cheguei no Setor de Funcionalismo, era um colega, carioca: “Mas o quê? Você vai tomar posse no banco dia 30 de setembro, último dia do mês?. Pelo amor de Deus, faz isso não, vai dar um trabalho danado. Tem que calcular folha de pagamento, tem isso, tem aquilo. Por que você não descansa hoje e volta amanhã porque aí a gente já co...”. E eu, que já tava... Tinha feira, meus pais tava lá, fui embora. Achei a maior alegria e falei: “Ai gente, é mesmo, por que não?”. Não tinha noção do que podia significar, na minha vida, de repente, aquele um dia, que depois eu vou contar pra vocês o quê que aconteceu. Eu só sei que eram umas duas horas da tarde, to eu, lá na agência, chega [risos] uma notícia: “O Gerente tá procurando você”. Eu disse: “Mas o moço que me atendeu disse que era para eu ir embora”. Aí corri, mas já não deu mais pra tomar posse, e eu tomei posse, oficialmente, no dia seguinte. Foi, era tudo uma descoberta. Primeiro, que ainda... Quer dizer, havia a normatização mas, o quê exatamente vai fazer um agrônomo no Banco do Brasil? Foi um processo de descoberta e a gente só foi ser treinado e fazer a intro, a Introdução ao Banco do Brasil, eu só fui fazer no início do ano seguinte. Mas, o Banco do Brasil é uma grande família, né? E eu fui muitíssimo bem recebida, eu adoro, morro de saudades do pessoal de Seabra. Eu fui morar numa casa de família e aí tem casos engraçadíssimos. Porque eu fui morar na casa da viúva de um ex-prefeito. E Seabra fica na Chapada Diamantina, muito próxima a Lençóis. Lá tinha uma ADB (Associação dos Diplomatas Brasileiros), que era uma casa. Pra vocês terem uma noção, Seabra, naquela época, não tinha nenhuma piscina. A temperatura era média de 32, 33 graus. Então, assim, a gente... Nosso final de semana era ir pra Chapada e nadar lá nas grutas porque não tinha ADB, não tinha piscina... A cidade não tinha nenhuma piscina. E quando começava a chover, eu adorava. A senhora, que eu morava na casa dela, veio nos mostrar o tesouro dela. Gente, pense nos diamantes. E aquela região era uma região muito rica em diamantes. E ela queria que eu comprasse diamante. Eu dizia: “O que é que eu vou fazer com tudo isso?”. E aí tem casos engraçadíssimos, que depois eu aprendi. Naquela época, ainda, não se vendia a galinha viva. Se você vendesse a galinha viva, a pessoa que comprou era obrigada a devolver o papo. Sabe o papo da galinha? Por quê? Porque ela ciscava muito. Tanto na região de Seabra, quanto na de Lençóis, que a nossa agência dava apoio. Nós tínhamos uma área de jurisdição, eu, como Agrônoma, atuava na região. Então, não se vendia galinha viva porque corria o risco das galinhas vivas, ao ciscar e comer as pedrinhas, de ter diamante. Em geral, tinha diamante no papo. Eu fui aprendendo coisas que eram muito diferentes da minha realidade, e começando um trabalho totalmente novo. Eu, na realidade, tinha passado pro lado de lá do balcão, eu tinha passado. Formada em Agronomia, trabalhado como extensionista rural, trabalhava na Emater, aprendida. Eu dizia que o Banco do Brasil devia muito à Emater por todo o treinamento, porque a Emater investiu um ano e tanto. Eu fui trabalhar com associativismo, com a agricultura familiar.

 

P/1 – Já nesse período?

 

R – Na Emater. Mas assim, ele passou me treinando. Aí eu cheguei, fui pro banco e fui pra uma região que também tinha muito agricultor familiar e tinha trabalhos. Aquilo tudo que eu tinha aprendido do lado de fora do balcão foi uma experiência muito importante que eu trouxe pra dentro do balcão. 

 

P/2 – Quanto tempo você ficou lá em Seabra?

 

R – Em Seabra eu bati todos os recordes [risos]. Eu fiquei pouquíssimo tempo, dois meses, quase três.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque na realidade... Lembra que eu comentei que eu tinha sido muito bem classificada? E quando eu fiz a inscrição, eu não tinha entendido, ou a agência tinha me dito: “Olha, se você não quiser ir para longe, você coloque apenas aquelas cidades que você realmente quer”. E eu fui e fiz isso, somente naquelas com a minha primeira opção. E havia uma norma, que eu não prestei atenção. Foi uma falha minha e da agência que me orientou, porque eu tinha que ter preenchido todas. Então, o banco não me localizou naquelas outras cidades porque eu não obedeci àquela norma. Quando eu fui pra Seabra, na realidade eu tive que preencher uma segunda opção. Mas eu tinha sido muito bem classificada, e eu tinha pedido muito ao banco que olhasse essa possibilidade. Que verificasse pela minha classificação. E aí surgiu uma vaga em Curvelo, no centro norte de Minas. Eles me ofereceram, e eu não pensei duas vezes. Mas eu saí de Seabra chorando, sabe? Sabe, eu tinha aprendido a gostar da cidade, tinha começado a fazer um trabalho muito legal. Foi muito intenso, foi muito pequeno o período, mas foi muito intenso. Peguei o ônibus de Seabra pra Salvador e o motorista de ônibus morria de rir porque o pessoal foi de batucada, levou a batucada pra porta do ônibus pra se despedir de mim. E eu chorando, não querendo ir. Aí ele chegava na esquina seguinte, tinha outra batucada e o ônibus não tinha como sair de Seabra, e o pessoal fazendo festa. Então, foi uma experiência muito legal e dali eu fui pra Curvelo, centro-norte de Minas.

 

P/1 – E em Curvelo você trabalhou também com a Carteira Agrícola?

 

R – Carteira.

 

P/2 – E quanto tempo você ficou em Curvelo?

 

R – Cinco anos.

 

P/2 – Como é que foi voltar pra Minas?

 

R – Olha, foi maravilhoso. Foi uma experiência muito boa. Curvelo... Agora, é uma região totalmente diferente. Você já entra numa agricultura em desenvolvimento, de médios e grandes produtores. Uma região de tradicional família mineira, literalmente. Eu tinha 23, 24 anos, era muito interessante porque tinha sido implantada, em Curvelo, a primeira usina de álcool de mandioca do mundo, da Petrobrás, e eu trabalhava com grandes volumes, liberava os recursos, analisava os projetos. Então, era muito interessante porque eu era muito respeitada no meio rural, na cooperativa, participava de todos os concursos como julgadora, fazia parte das comissões e era amiga das filhas e dos filhos dos produtores, porque era o pessoal que era da minha faixa de idade, né? Eu tinha roupas pra trabalhar, pra participar dos eventos e as roupas que eu vivia no final de semana. Porque eram quase que duas Elianes, mas eu tinha exatamente o senso da responsabilidade daquele cargo e daquele trabalho que eu fazia. E nesse período houve uma coisa que mudou muito a minha vida, que foi a criação do Fundec. O Banco do Brasil criou o Fundo de Desenvolvimento Comunitário e uma das primeiras comunidades a serem trabalhadas pelo Fundec, estava na jurisdição da agência de Curvelo. Nós atendíamos cinco municípios. Então, eu fui treinada pra fazer o trabalho do Fundec. E isso foi uma coisa maravilhosa, o Fundec de Presidente Juscelino, que era o que eu coordenava, foi o quinto a ser aprovado no país e foi o que o banco utilizou como propaganda na televisão. Então, assim, foi muuuito trabalho, foi muuuita noite sem dormir, foi muita loucura de carro, sair dez horas, onze horas da noite. Às vezes eu viajava sozinha... Então têm histórias engraçadíssimas. E uma época que tinha tido um assalto na região e que, quando eu estava vindo de Presidente Juscelino pra Curvelo, a Polícia me parou e disse: “Olha, eu queria pedir...”. Eles me conheciam, eu nem sabia que eles me conheciam e, eles disseram: “Ah, graças a Deus que a senhora veio, nós estávamos preocupados porque teve um assalto e os ladrões estão aqui na região. Então, a gente queria pedir que a senhora esperasse, vai haver a troca do turno daqui a pouco e a gente vai escoltar a senhora até Curvelo” [risos]. E lá fomos nós [risos]. E quando foi aprovado o Posto de Resfriamento de Leite de Presidente Juscelino, isso mudou a realidade daquele município. Presidente Juscelino não era um município, ele se tornou um município, e isso teve tudo a  ver com o Fundec de lá e eu sou Cidadã Honorária de Presidente Juscelino. Isso é uma coisa que marcou muito a minha vida. E eles queriam que eu me candidatasse a prefeita. [risos]. Aí eu não quis. Era uma mudança muito grande na minha vida, não era por aí. Mas, eu conciliava as duas coisas. Porque o cargo de Engenheira Agrônoma não previa trabalhar com o Fundec, mas aquilo era uma paixão da minha vida. Tanto é que a gente trabalhou vários Fundecs na região. Nesse período, teve o trabalho grande com a usina de álcool de mandioca, que foi fechada. Aí foi outra luta porque houveram protestos muito grandes. Quando a Petrobrás decidiu fechar essa usina de álcool, a gente tinha cerca de sete mil hectares financiados. Nós estávamos fazendo trabalhos com a agricultura familiar, que tinha começado com grandes produtores e seria o primeiro ano que a gente teria superávit. E fechou a fábrica, e o povo lá. E eu não esqueço, o Gerente do banco um dia chegou e disse: “Eliane, esse negócio de mandioca é com ocê, vai lá”. E o povo chegando com os caminhões de mandioca dizendo que ia depositar tudo na porta do Banco do Brasil. E lá fomos nós negociar. A gente conseguiu, e isso foi uma coisa que me enche de orgulho, que a gente negociou com fábricas de farinha do sul de São Paulo, da região de São Paulo, e nenhum agricultor familiar teve prejuízo. Nós conseguimos, por intermédio do Banco do Brasil, colocar no mercado toda aquela mandioca que tava no solo e conseguimos organizar isso. E aí, um dia, tava eu em São Gonçalo do Rio Preto, uma cidadezinha linda... que mudou de nome, a população nunca admitiu o nome: Felisberto Caldeira. Imagine que a gente participou desse processo de mudar o nome da cidade e voltar a se chamar São Gonçalo do Rio Preto, que era como eles queriam. Porque quando São Gonçalo do Rio Preto foi elevada à categoria de cidade, eles mudaram o nome para homenagear um bandeirante importante, Felisberto Caldeira. Mas a população dizia: “Não, eu sou de Rio Preto”. E eles fizeram plebiscito e voltaram o nome pra Rio Preto. E eu coordenava, ajudava, dava consultoria no Fundec de lá e eu estava lá quando eles me convidaram pra ir pra Superintendência. 

 

P/2 – Aqui em Brasília?

 

R – Em Belo Horizonte. Lá fui para a Superintendência Estadual pra trabalhar na coordenação do Fundec, lá em Minas Gerais... São Gonçalo do Rio Preto é um lugar interessante porque a estrada passava dentro da cidade. Então, o povo dizia que a estrada passava e levava o progresso. Pense o que é passar dez ônibus numa estrada de terra dentro de uma cidade. Então, o Fundec fez um trabalho maravilhoso lá em Rio Preto. E tem a história do bode, que foi parar até no “O Estado de Minas”. Que o Fundec financiou um bode. E a gente participou. Era um sonho, nós tínhamos um trabalho de ovinocaprinocultura. E foi comprado um bode, reprodutor, (peóporo?) de origem, que era ultra esperado pela população e principalmente, pelas cabras. Imagina o que aconteceu. E nisso eu vou embora pra Belo Horizonte, assumo meu cargo na Superintendência. Na época que chegou o trator, chegou também o bode. Foi o primeiro trator da região, financiado pelo Fundec e o bode reprodutor, que a gente tinha um trabalho com a ovinocaprinocultura. Gente, dali a pouco começa os problemas. O bode não queria saber das cabras. E olha que isso foi parar no “O Estado de Minas” e o Superintendente: “Eliane, você tem que dar um jeito naquele bode!” [risos]. “Eu???”. Olha gente, foi uma confusão, porque era “O bode do Fundec” “O bode do Banco do Brasil” [risos]. 

 

P/2 – E o bode do Banco do Brasil nada...

 

R – E o bode do Banco do Brasil nada. [risos]. Mas depois aí a gente contactou os vendedores do bode, fomos ver. Mas aí descobrimos, era só um problema de adaptação e o bode voltou às suas funções normais. Assumi a Superintendência do Banco do Brasil.

 

P/2 – Você lembra em que ano foi?

 

R – Em junho de 1985.

 

FINAL DE CD

 

P/1 – Eliane, como se construiu as demandas do Fundec? Era a agência que conversava com as pessoas, com a comunidade da zona rural? De onde surgia essas demandas?

 

R – Na realidade, você vai ver, nós vamos falar de DRS depois e você vai ver que o que a gente trouxe do Fundec pro DRS foi exatamente o princípio mais importante que tinha no Fundec, que é o princípio participativo. Então, as demandas surgiam, o Banco criou um critério para escolher. Havia critérios para escolher os municípios que seriam trabalhados, ou as comunidades. Era aqueles que tivessem um alto número de agricultores familiares, que tivessem condição de se desenvolver e que fosse composto basicamente de mini e pequenos agricultores. Mini e pequenos produtores rurais. E, a partir daí, caberia ao funcionário do Banco do Brasil, fazer contatos com todos aqueles órgãos que atuassem na área rural. E essas demandas tinham que vir da população. A gente incentivava o associativismo e o cooperativismo. E essas pessoas então escolhiam. Era elaborado um diagnóstico e se analisava quais eram os problemas, as soluções, alternativas, e se priorizavam. Mas na realidade era uma demanda que vinha da população e com apoio dos órgãos técnicos, da prefeitura...

 

P/1 – E você ficou na Superintendência em Belo Horizonte quanto tempo, coordenando o Fundec?

 

R – Fiquei sete anos. Neste período eu vim muito pra Brasília. Antes disso, eu fui pro Maranhão, que também foi uma experiência maravilhosa porque... Aí nós chegamos e o Fundec de Minas explodiu. Tanto o de Presidente Juscelino, que tinha tido uma repercussão nacional, quanto a gente cresceu muito. O Fundec em Minas Gerais, ele teve um crescimento, uma projeção. Nós fizemos um treinamento em setembro daquele ano. Eu cheguei lá em junho e organizamos. A gente saiu de vinte e poucas comunidades para cento e tantas trabalhadas. E a gente fez treinamentos e começou um trabalho muito grande e o Presidente Sarney, era o Presidente do Brasil, não se conformava porque o Maranhão tinha tão pouco e Minas Gerais tinha tanto [risos]. Disseram: “Tem uma doida lá” [risos] “Manda a doida lá pro Maranhão” [risos]. E lá fomos nós implementar o Fundec no Estado do Maranhão. Eu passei seis meses no Maranhão. Aí também tem histórias sensacionais porque é uma realidade totalmente diferente, com outros desafios. Você chegar e fazer um trabalho numa realidade diferente, como foi aquela... Então, eu fiquei esse período no Maranhão, voltei pra Minas Gerais e aí fiquei coordenando nesse período o Fundec em Minas, mas também...

 

P/2 – Dando suporte ao Maranhão…

 

R – Ao Maranhão e aí nesse período foi criada a Fundação Banco do Brasil. E eu vim para Brasília convidada para fazer o treinamento pra ajudar na capacitação das pessoas que iam trabalhar na Fundação Banco do Brasil. Eu tenho até hoje guardados os documentos desse período. Eu vim muito pra Brasília, desde... Isso começou em 1985, a Fundação embora tenha começado oficialmente a funcionar em 1988-1989, em 1985 é que foi a criação dela. Então, 1986-1987 foi um período que a gente já começou a vir preparando, organizando o trabalho das pessoas que iam começar a Fundação Banco do Brasil. Porque, vocês conhecem a Fundação, ela se originou do Fundec e do Fipec, né? Foram os dois programas que deram origem à Fundação. Em 1989 eu passei seis meses no Ministério da Agricultura. O Fundec de Minas tinha tido uma projeção grande, a gente tinha feito um trabalho muito grande de relacionamento, e o Ministério da Agricultura estudava a possibilidade de criar um programa semelhante em nível nacional. E nos convidou pra vir pra ajudar nesse processo. Eu vim, e nesse período eu conheci aquele que hoje é meu companheiro, o Sérgio, foi numa vinda dessas. Falo que até nisso o Banco é importante na minha vida, né? [risos]. Porque foi numa dessas vindas à Brasília que eu conheci do Sérgio...

 

P/1 – Bancário?

 

R – Da Caixa Econômica Federal. Economiário. E a gente começou a namorar. E aí surgiu depois. Mas nós passamos dois anos, eu voltei pra Belo Horizonte. Eu ia, ficava três meses, voltava, ficava três meses aqui... Naquele vai e vem por causa da implantação da Fundação Banco do Brasil e depois do trabalho do Ministério. Aí, em, 1992 eu tive um convite pra então vir pra Fundação Banco do Brasil, que antes eu tinha tido, mas não tinha ainda o atrativo. Nessa época já tinha outros atrativos [risos]. E, em 1992, eu vim pra Fundação Banco do Brasil.

 

P/2 – E aí você conheceu o Chicão...

 

R – Aí eu conheci o Chicão, o Cisne. Na realidade eu já os conhecia muito, porque eu tinha trabalhado na época da implantação, né? Então eu vinha muito já, desde o comecinho.

 

P/1 – Mas por que então você decidiu ir pra Fundação, assim? Já que outro momento você também teve outra oportunidade. Por que em 1992? Por que não naquele momento?

 

R – Olha, eu acho que o Fundec, eu tinha uma paixão pelo Fundec. Eu dizia sempre que, se um dia eu tivesse a caneta na mão, eu recriaria o Fundec, quando ele foi extinto. E eu via naquela época, o Fundec estava sendo reestruturado. Eu tinha tido toda uma experiência de campo, de implantar o Fundec em nível local, em trabalhar quatro anos, cinco anos, com ele em um estado rico e diversificado. Rico, que eu digo, de experiências, como foi Minas Gerais. A experiência do Maranhão... Então, assim, eu pensava que eu tinha uma responsabilidade de poder ajudar naquele processo. E também porque tinha o Sérgio. Eu tinha esses dois lados. E foi da Fundação que naquele momento veio o convite. Porque a minha outra possibilidade, não esqueçam que eu sou Agrônoma, eu era Agrônoma do Banco. Eu só podia vir para cargo técnico. Eu tive um convite, o fato de ser Agrônoma do Banco é interessante... Eu tive um convite pra ir na época que eu saí do Maranhão, pra Diretoria de Estratégia e Organização, antiga Cotec, que na época não era uma Diretoria. Cotec, Consultoria Técnica da Presidência. E isso eu tenho uma grande tristeza por não ter ido. E eu não fui porque o Banco não deixou, porque não eram admitidas nas normas. O que uma Agrônoma ia fazer na Cotec? Lugar de Agrônoma era no DETER, Departamento Técnico da Área Rural. Eu só poderia ir, no Banco do Brasil, ou para uma Superintendência ou para o Deter, e o Deter não tinha vaga naquele momento. E assim, quem ia pra Cotec, ia comissionado, tinha apartamento funcional. Eu vim, fui convidada, cheguei a olhar o apartamento que eu ficaria, mas a hora que chegou: “Não, ela é Agrônoma, Agrônoma não pode ir ao Cotec, não”. E pra Fundação eu podia porque era Quadro Suplementar. Então, isso também pesou muito.

 

P/2 – Como é que foi vir morar em Brasília? Assim, porque você já tinha vindo aqui, visitado, mas como é que é vir morar na Capital, como é que você sentiu essa diferença? 

 

R – Eu sou apaixonada por Brasília. Eu “adooooooro” Brasília, eu acho que eu virei uma Candanga. Já tinha uma outra coisa muito boa, que eu tinha irmã aqui. A minha irmã, minha única irmã, já morava em Brasília desde 1982, que é Agrônoma e trabalhava no Ibama. Então, eu tinha na realidade um relacionamento grande, já, em Brasília. E já conhecia muito o pessoal do Banco, porque eu vinha cada ano, passava dois meses, três meses, às vezes, prestando serviços, ou na Consultoria Técnica da Presidência do Banco, ou no DETER, Departamento Técnico da Área Rural, ou na própria Fundação Banco do Brasil. A chegada, sempre não é fácil, porque eu tinha uma liberdade de atuação. Você trabalhar como funcionária da Superintendência em Minas Gerais, no Fundec, era uma coisa. Quando você vem pra Fundação, aqui a coisa é muito mais hierarquizada. Eu me assustava um pouco, sabe? Embora Belo Horizonte fosse uma selva de pedra, também, mas tem casas nas esquinas, né? Então, Brasília é essa imensidão. E o Banco, as pessoas são muito mais formais, muito mais frias, porque aquilo que a gente teve por onde foi passando... O Banco é uma grande família, né? Os colegas do Banco em Seabra, em Curvelo, da Superintendência, e depois de todas as agências. Eu visitei todas as agências do banco em Minas Gerais, e eram 400. Então, eu conhecia “muuuito” o pessoal todo, e me sentia em casa em cada lugar daquele que eu chegava. Porque é aquela história, é a Família Banco do Brasil. Quando você chega em Brasília, a coisa não é bem assim. E eu cheguei na Fundação, a Fundação era um lugar, as pessoas são muito amigas e isso aí a gente tem até hoje. A gente se reúne, nós fizemos um churrasco antes mesmo de completar seis meses, com o pessoal que trabalhou lá na Fundação Banco do Brasil. Então, assim, a Fundação lá parecia que era uma ilha, um pouco separado. Mas a hora que você vem para o Banco mesmo... Eu fiquei dois anos na Fundação e fui para o Banco, eu voltei, fui convidada na época para ir. E aí surgiu uma vaga no Departamento Técnico da Área Rural e eu acabei indo pro DETER. E aí você se relaciona com o banco como um todo. Então, assim, às vezes, você tem que ponderar mais um pouco, você tem que se segurar. E eu com esse meu jeito mineiro de ser, embora dizem que o mineiro é muito mais calado, mineiro-italiano, né? E não se esqueça, aquela menina que foi tímida, mas que teve que ir abrindo o mundo, quebrando pedras. Então, assim, eu tive que me adaptar, mas eu fui aprendendo muito, e devo muito ao Cisne, muito. Meu grande conselheiro quando eu cheguei em Brasília, sabe? Ele foi meu primeiro chefe que desde a época da organização da Fundação. Então, aprendi muito com ele, com o Chicão, com Josias, as pessoas da Fundação Banco do Brasil. E com as pessoas que vinham e iam, como foi o caso do Chico Fundec, que todo mundo já deve ter falado. O Paulo Renato, da Vânia, do João Batista... Eram pessoas que estavam fazendo seus trabalhos nos Estados, como eu fazia lá em Minas Gerais, e que a gente conhecia, respeitava pra caramba o trabalho e que, de vez em quando, a gente tava se encontrando aqui. O Reinaldo, lá da Fundação, e a gente foi aprendendo.

 

P/1 – E por que você saiu da Fundação, Eliane? Você ficou dois anos lá e depois você voltou pro Banco do Brasil. 1992 é um contexto bem complicado, né? Assim, tem a intervenção na Fundação, tem o contexto político no Brasil também. Como foi essa época? Isso influenciou a sua saída ou não?

 

R – Influenciou. Eu tenho uma história. A gente chegou na Fundação num momento muito complicado, no período da intervenção eu estava na Fundação Banco do Brasil e olha a situação: Eu sou de Minas Gerais, eu tinha acabado de chegar, vindo de Minas Gerais. E tinha um relacionamento muito bom em Minas, com certeza, porque eu coordenava o Fundec junto ao Governo do Estado. Era a interlocutora do Banco do Brasil em Minas Gerais. Então, eu tinha um relacionamento muito bom com o Governo de Minas, com toda Minas Gerais. E tinha vindo pra cá. Tinha um componente importante que era o Sérgio, que era então, meu namorado. Até hoje, meu companheiro. E naquela época da intervenção na Fundação do Banco do Brasil, havia por parte do Governo Federal, Governo Collor, que depois veio a sofrer o impeachment, uma preocupação de “há uma forma de se derrubar”, “estão pactuando para derrubar o Governo Federal”. Veja se na Fundação Banco do Brasil existe alguém com essas características? [risos]. Gente, o meu sogro, Doutor Silvio Pedrosa, foi Governador do Rio Grande do Norte. Saiu da Política, já era da Confederação Nacional do Comércio há anos... Quando disseram: “Tem uma pessoa que o companheiro é filho de um ex-governador e ela veio de Minas Gerais. Olha, de olho nessa mulher”. Depois eu fiquei sabendo que os telefones da minha casa tinham sido grampeados, que eles estavam de olho na gente na Fundação. Mas eu era, e sempre fui, uma Técnica. Então, assim, eu passei por isso com muita tranqüilidade. Não tive o menor problema. A minha saída de lá não teve nada a ver com essa história. Tanto é que isso aconteceu e eu ainda fiquei dois anos na Fundação. Mas eu passei um susto, sabe? Logo depois da intervenção, e que teve as Auditorias, porque os processos foram parar na “Folha de São Paulo”. Pessoal da Fundação deve ter falado sobre isso, né? O dia da intervenção eu lembro como se fosse hoje. Meu Deus, eu nunca imaginava que eu fosse passar por uma situação daquela, sabe? O pessoal vindo... Eles chegaram correndo, um colega chegou e disse: “Olha, o interventor tá vindo, vai fechar, vai lacrar tudo”. Eles lacraram os nossos armários, nós só pudemos sair de lá com a bolsa na mão que foi praticamente revistada para ver se a gente não tava tirando processo dali de dentro. Então, assim, foi um momento conturbado, difícil... A Auditoria do Banco... Depois eu levava muito susto. Porque depois, quando nós fomos responder às questões da Auditoria, eles não perguntavam nada do meu trabalho. Eles queriam saber qual era a minha ligação com o Itamar Franco, como é que era não sei o quê, o meu sogro, o meu não sei o quê. Porque eu tinha o meu apartamento e o Sérgio tinha o apartamento dele. Eles queriam saber por que eu tinha dois telefones... E eu não entendi o porquê. Naquela época eu não sabia que estaria passando pela cabeça deles que isso pudesse estar acontecendo. Mas depois se viu que não tinha nada... Mas, foram momentos bastante tensos. E aí, nesse período, o Fundec foi perdendo um pouco a importância e estava pra haver uma reformulação na Fundação que não ocorria nunca. Eu estava já há dois anos, dois anos e meio, três anos quase, no mesmo cargo e a Fundação...

 

P/2 – Muito travada...?

 

R – Muito travada, muito regulamentada. E com essa reestruturação que estava pra sair, que não saía. E houve um convite que eu pensei muito. Estava vindo uma eleição. E eu pensava: “O que vai acontecer com a Fundação Banco do Brasil?”. Já tinha passado todo o estresse da intervenção. E aí surge, era a quarta vez que o DETER me convidava e eu dizia que não. Quando o Roberto Torres me convidou, ele disse: “É a quarta e última vez. Pense bem!” [risos]. Porque em outras vezes... Teve uma vez, não sei se o Cisne contou isso, que eu cheguei a dizer pro DETER que ia, e aí a Fundação ia sofrer uma reestruturação e o Cisne dizia: “Você não vai”. Eu falei: “Eu vou”. E eu fiz o meu pedido de transferência e ficou pro Cisne despachar. O Cisne botou meu pedido de transferência dentro da gaveta e saiu de férias [risos]. E eu não fui. Essa foi na terceira vez. E o Roberto ficou uma fera, o pessoal do DETER. E eu tenho ainda guardado, o Cisne: “Indefiro”. E eu acabei voltando atrás e não indo pro DETER. E depois eu pensei muito na minha carreira. Afinal, eu entrei pro Banco pra ser Agrônoma, eu estava perdendo oportunidade de, de repente, levar pro Banco, pra Diretoria, pro DETER, na época, toda aquela experiência que eu tinha. Que embora eu tivesse trabalhado muito com o Fundec, durante sete anos meus de Superintendência em Minas Gerais, eu era Agrônoma do Banco. Nós trabalhávamos, nós coordenamos, nós criamos em Minas Gerais a regionalização do Sistema ATNC, que é uma coisa importantíssima, que naquela época não existia. Nós implantamos lá e depois o Banco trouxe isso para o Brasil como um todo. Então, quando o Roberto fez o convite para eu ir pra lá, eu ponderei muito e achei que, profissionalmente, era uma oportunidade... Em Minas a gente tem um ditado que diz que era o cavalo passar encilhado. Foi dia 24 de junho. O Brasil tava tendo jogo do Brasil, 1994, quando eu liguei e disse pro Roberto Torres que eu ia. E chorei três horas depois, aí o Sérgio me perguntava: “Mas você tá chorando por quê?”. (imitando choro) “Porque eu vou deixar o Fundec” “Mas alguém tá te mandando sair? ” “Não”. Sabe aquela decisão doída? Mas eu sabia que eu precisava fazer aquilo. Eu não tava vendo... A forma como tava se encaminhando, eu achava que as coisas não iam seguir, eu tomei uma decisão racional. Me doeu muito, eu chorei uma tarde inteira, mas eu fui. E foi uma decisão muito acertada, foi muito bom. Cheguei no DETER, na Área Rural do Banco, fui trabalhar então com Assessoramento Técnico, em nível de carteira ou ATNC, que era para o que eu tinha entrado, que eu tinha também trabalhado em nível de agência, na Superintendência e tava na Coordenação. Trabalhei com a parte de Assistência Técnica, de Fiscalização... Reestruturamos todo o trabalho do ATNC. E nesse período foi feita a reestruturação do ATNC e nós deixamos de ser Carreira Técnica-Científica, que foi o que impediu que eu fosse aquela vez pra Cotec. E isso foi uma coisa, eu acho, muito importante. A gente lutou muito por isso no Banco e ninguém acreditava que a gente fosse conseguir, mas nós nos equiparamos à Carreira Administrativa. Nós deixamos de ser Carreira Técnico-Científica, passamos a ser Carreira Administrativa e criamos um cargo comissionado, em que você é Agrônomo e é remunerado, e tem uma comissão pra exercer aquele cargo. E foi nessa que eu também deixei de ser Agrônoma pura e comecei a fazer uma carreira administrativa dentro da área rural. Aí eu assumi depois do ATNC, eu assumi a criação de novos produtos e serviços. Dizem que uma das minhas grandes características é exatamente a pró-atividade, a criatividade, né? E eu gosto muito. A inovação. E a gente criou algumas coisas novas, foram trabalhos sensacionais que eu tenho um orgulho muito grande, do tipo, “Rural Rápido”, que o Banco do Brasil dava o mesmo tratamento a um projeto, a um trabalho da área rural pro agricultor familiar e para o grande agricultor, para um operação de cinco mil e uma operação de 500 mil. E na época aquilo foi uma loucura. Pessoal, quando a gente chegou na (Dirurna?), discutindo com os advogados do Banco, a gente foi fazer essa proposta ao Ministério da Fazenda, o Banco Central. O povo dizia: “Esse povo tá doido, meu Deus do céu, isso aí...”. Que era quase dar um Cheque Ouro para o produtor. Era um Cheque Ouro, é um crédito rotativo, porque tinha o projeto. O produtor, o agricultor familiar, se ele plantava arroz, milho, feijão, era um contrato pra cada um, você tinha que vir três vezes ao banco, três propostas, três contratos... E a gente juntou tudo. Nós tivemos que alterar as normas do Crédito Rural e abrir um crédito que ele ficava com ele durante um ano. Ele funcionava realmente como um Cheque Ouro: se ele colhia o arroz, ele quitava. Se ele vendia o leite, tal... A gente fez os cálculos, e foi uma grande surpresa. Dia sete de agosto de 1997, a gente lançou o Rural Rápido no Palácio do Planalto. Gente, não esqueço: O Luís Antônio, a Sandra, eu, Saulo, as pessoas que trabalharam na criação do Rural Rápido, o pessoal da Tecnologia... Porque, era tudo novo. O Rural Rápido, que depois a gente fez a informatização dele toda, deu origem ao atual Cartão do Produtor Rural, do PRONAC, a Declaração de Aptidão Eletrônica que existe hoje. Mas quando a gente chegou... Porque nós estávamos pensando em fazer Projeto Piloto: “Vamos fazer um Projeto Piloto nessa safra, alguma coisa com mil, dois mil produtores”, e o Banco decidiu botar em todo o Brasil. Gente, imagina quando eu cheguei, que eu passei o meu cartão no primeiro dia e na hora que abriu o TA do Banco, Terminal de Auto Atendimento, tava lá: “PRONAF – Rural Rápido”. Era um frio na barriga, literalmente. Eu falava: “Meu Deus do céu, será que isso vai dar certo?”. Quando eu pensava que aquilo tava no Brasil inteiro e que nós pusemos uma meta de vinte e poucos mil até dezembro, que eu achava que era uma enormidade, e no dia sete de novembro daquele ano, nós estávamos com 122 mil contratos [risos]. E que bateu 250 mil antes do final do ano... Então, assim...

 

P/1 – Qual é a avaliação do Rural Rápido?

 

R – Olha, eu acho que ele foi o grande precursor de um monte de coisa que tá aqui: do Giro Rápido que existe na área comercial, no Cartão do Produtor Rural. Ele teve falhas, né? Do Processo Tecnológico, porque muitas vezes a gente desenvolve, desenvolve, e aí, a partir do momento que você coloca na rua, eu acho que houve uma falha não ter feito o acompanhamento devido quando começaram a vencer as operações. Uma parte do sistema ainda precisava terminar de ser desenvolvido, mas eu acho que a vida é cheia de erros e acertos. A gente tem que aprender com os erros, eu falo muito isso, dentro do DRF: “Vamos cometer erros novos, os velhos a gente aprende com eles”. Então, o Rural Rápido, eu acho que foi uma experiência sensacional que abriu a possibilidade do banco ter hoje um milhão de contratos, de produtores, de famílias atendidas pelo PRONAF. 

 

P/2 – Você ficou quanto tempo aí nessa área de criação de novos produtos?

 

R – Eu fiquei dois, três anos, mais ou menos. A gente criou o BB Agricultura Orgânica, fez a proposta pro (Condeo?), fez a proposta pro FCO Pró-Natureza. Porque, como dizia o Roberto Torres, meu chefe, eu sou eco-terrorista há muito tempo [risos]. Então, assim, a gente, da mesma forma, quando o colega lá disse um dia: “Vocês querem rasgar o dinheiro e jogar fora, façam isso, mas não meta a gente nessa história” [risos]. Quando foi pra criar o Rural Rápido. Mas você vê, a inadimplência é muito baixa, né? Então, não existe essa preocupação. Se você fazendo um trabalho com monitoramento, com acompanhamento, o agricultor familiar, ele paga. A inadimplência é baixa. A gente criou, logo depois, o Agregar. Esse é outro filho querido. Porque o Banco do Brasil, a Área de Crédito Rural, o Manual de Crédito Rural, não só o Banco do Brasil. O Banco Central, somente admitia financiamento de crédito rural para produtos primários: o arroz, o milho, o feijão. Não admitia agregação de valor. Então, esse foi outro desafio enorme, foi quando a gente propôs e saiu com esse enorme, eu tenho um orgulho enorme em ter proposto o nome Agregar. Ia ser Gerar. Em cima da hora, a gente conversando à noite, eu mudei pra Agregar pra levar a proposta pro diretor. Eu só sei que precisava discutir e discutiu-se naquela noite e ninguém nem lembrou de discutir o nome. E o troço, no dia seguinte foi, o Miramar, nosso diretor, uma pessoa com quem eu aprendi muuuito no Banco e o Bira, Doutor Ricardo Conceição, dois grande líderes que eu tive, eles levaram aquela proposta. Gente, com a minha letra, do jeito que nós tínhamos escrito pro Conselho Monetário Nacional, pra levar como proposta. Transformaram num voto, me chamaram, no dia 17 de junho daquele ano, meu aniversário é dia 18, eu digo que o meu maior presente de aniversário que eu tive, foi criado o PRONAF Agregar, que admitiu o financiamento... Transformou o Crédito Rural, passou, a gente colocou isso dentro de uma medida provisória lá que não tinha nada a ver com isso, pra permitir que o Crédito Rural financiasse a propriedade como um todo, e não somente a produção primária. 

 

P/2 – O produtor então poderia gerar renda a partir de outros produtos...

 

R – A partir de outros produtos, inclusive o Turismo e Artesanato, não somente daquela produção primária, como era o Crédito Rural até aí. Então, essa foi uma coisa, também, que fez uma diferença muito grande e que, mais uma olha, presta atenção, gente: Rural Rápido, Fundec, Agregar, Agricultura Orgânica... O Banco do Brasil foi o primeiro agente financeiro a trabalhar com agricultura orgânica. Isso na época o povo dizia: “Isso é coisa de doido, gente”. Mas nós fizemos tudo.

 

P/1 – E quando foi?

 

R – Em 1998, 1999. Nós fizemos todo o trabalho em 1998, mas o Ministério da Agricultura não tinha ainda liberado a audiência pública que normatizava. Então, não tinha como o Banco do Brasil lançar um produto de crédito rural sem que o Ministério tivesse regulamentado. Aí, nós usamos o poder que a gente tinha, doutor Ricardo Conceição, a gente deve muito isso ao Ricardo Conceição, que tinha sido Secretário no Ministério da Fazenda, pra finalmente, em Maio de 1999, a gente conseguiu, que saísse a Instrução Normativa número sete, que começou a regulamentar a agricultura orgânica. Aí, nós lançamos o BB Agricultura Orgânica, patrocinamos e fizemos a Primeira Conferência Internacional de Mercado Justo, o Fair Trade, no Brasil e aí começamos um trabalho enorme e que culminou de nós irmos para Nuremberg, na Alemanha, na Biofar. Em 2000 a gente mandou alguns produtos nossos, devemos muito a um agricultor familiar, patrocinado pelo Banco, levou. O povo vira e fala: “Eliane, pelo amor de Deus, como é que você teve coragem?”. Pedi a eles. Patrocinado, não, desculpa, financiado. Eles estavam participando, pessoal do Rio Grande do Sul, eles montaram um stand pequenininho. Você acredita que eu pedi para eles levarem folder, banner do Banco e não sei o quê, falando da agricultura orgânica. E no ano seguinte a gente resolveu participar, e foi uma experiência também, assim, inusitada. Porque lá fomos nós: Roberto Torres, Liliane e eu, pra Nuremberg. Foi a primeira vez que o Brasil teve um stand de agricultura orgânica. O Banco do Brasil, a gente fez um acordo com o pessoal do IBD, da AO, os produtores orgânicos. Mas era um stand desse tamanhozinho, que nós chegamos lá. Tem uma foto ali que eu faço questão de mostrar, e que nós chegamos, gente, montamos o stand. Pense no que é isso, que a gente achou que o lugar do stand, não sei, inexperiência... E a gente montou, pregando... Tem a gente subindo escada, pregando, e que foi um sucesso. E aí a gente participou do Brasil Empreendedor Rural, criou a CPR de Produtos Orgânicos e foi um crescente. Eu assumi depois a Gerência de Divisão do Pronac. Nesse período eu participei de um processo interno, fui nomeada Analista Sênior e depois Analista Master e Gerente de Divisão. Outro frio na barriga. Eu levei tanto susto, porque eu tinha participado de um processo pra Analista Master, mas era Agricultura Orgânica, Desenvolvimento Sustentável e tal. De repente, o Virgílio se aposenta e eu fui convidada pra um desafio. Pensem no desafio: Em 2001, você assumir a Gerência de Divisão de Agricultura Familiar, Reforma Agrária, o Proger Rural todo. Era uma Carteira de mais de três bilhões de reais, num momento em que a Agricultura Familiar e a Reforma Agrária, muito menos, tinham a importância... A importância eles sempre tiveram, mas o Banco tinha um outro olhar sobre eles, a gente era considerado meio o patinho feio ali, sabe? Uma dificuldade pra conseguir que os processos andassem, porque o Banco tinha outras prioridades. E eu tinha uma equipe de 17 funcionários, 17 lutadores e que a gente tinha que não deixar a peteca cair. A gente pensava naqueles milhares de agricultores familiares, nos assentados da Reforma Agrária, que dependiam da nossa luta aqui. Então, foi um período de aprendizado e, realmente, de muita luta. Aí que se reforçava... Eu levei a Agricultura Orgânica pra dentro da Divisão. Foi um acordo que eu fiz na época com o Biramar, com o Roberto. E na minha Divisão eu coloquei: Agricultura Familiar, Reforma Agrária e Desenvolvimento Sustentável. E isso foi em 2001 porque eu via aquele processo, eu tinha certeza, eu estava muito triste com o rumo que o Banco tava tomando porque eu entrei num outro Banco. Eu entrei num Banco que trabalhava com Agricultura Familiar, que tinha Fundec, que tinha apoio à Agricultura Familiar e, de repente, o Banco estava dando uma guinada para a área só comercial, com lucro, né? O Banco comercial que essa parte, o social e a agricultura familiar, reforma agrária, agricultura orgânica, eles não eram tão importantes. A gente lutava muito, a gente... Não tinha, não conseguia que as coisas andassem com a velocidade que a gente achava que deveria. A importância que o assunto requeria. E aí, nessa luta, todo mundo sabia, que eu era, como dizia o Roberto, eco-terrorista. Tem uma participação enorme nesse período da outra eco-terrorista, que era a Liliane, que tinha Mestrado nessa área, que veio trabalhar com a gente, o Faccioli, a (Daniete?). E a gente lutava muito... O Celsinho, com aquela calma, aquela tranqüilidade dele. Era eu, a mil, ligada no 330, e o Celsinho dizia: “Calma gente, pelo amor de Deus, assim vocês me matam”. E a Agricultura Orgânica foi assim: um dia ele disse: “Calma, daqui a pouco isso vai tá na mão do Doutor Ricardo!”. Já tava [risos]. E aí, um belo dia, em 2003. Nisso o governo Lula assumiu, a Dinagro toda reestruturada, e eles me disseram: “Temos um novo desafio. Quer?”. Aliás, meu nome devia ser Desafio. Nessa época eu assumi uma outra área que tinha: O FCO, o Funcafé, o (ProAgro?), Recuperação da Lavoura Cacaueira Baiana e toda a negociação do Banco com os produtos e serviços do Governo Federal [risos]. Eu achei que eu ia enlouquecer. E no dia 13 de agosto de 2003, tava eu no Banco, nove horas, dez horas da noite. O Zé Carlos era meu Gerente Executivo, ou tava substituindo, não lembro. Só sei que ele me convidou para uma reunião. Gente, eu não acreditava naquilo que eu tava vendo. Na reunião, com os vice-presidentes, LuÍs Osvaldo, Doutor Ricardo, Adésio, o Mexerica, né? Quando começaram a falar eu falei: “Meu Deus do céu, me belisca”. E o Zé Carlos dizia: “Não é você, não se entusiasme, porque isso aí é a tua cara, mas não é você. Aliás não é nem pra ser na nossa Gerência.”. Porque lembra, eu tinha mudado de área, tinha saído da Agricultura Familiar, da Reforma Agrária, da Agricultura Orgânica e tava com os negócios com o Governo Federal, com o Funcafé, com (ProAgro?), com a Recuperação da Lavoura Cacaueira Baiana. Grandes desafios, bons também, mas que não tinham a ver com aquilo que estava discutindo naquela reunião. Só que eles queriam, precisavam que fosse um gerente de visão, efetivo, alguém que conhecesse bastante do Banco, da arquitetura organizacional, que conhecesse todos os níveis do banco, tivesse trabalhado, e que, segundo eles, tivesse lá um perfil de inovação, de criatividade, conhecesse o Crédito Rural, criação, principalmente a parte de criação. E aí gente, o quê que era o assunto? Porque o Banco precisa repensar, temos uma situação, temos várias situações. Nós tÍnhamos aí uns cenários, em que se trabalhava com o meio. Se via que a situação ambiental, os agentes financeiros, principalmente, iam ser cada vez mais cobrados como co-responsáveis pelas questões ambientais. O Governo Lula tinha recém-assumido e cobrava das Empresas Estatais e, principalmente, dos agentes financeiros, uma participação muito maior, principalmente junto à Agricultura Familiar, à Reforma Agrária. O Banco do Brasil vinha atuando... Como o risco das operações no Pronaf era do Banco do Brasil. No Pronaf C, Pronaf D, onde que o Banco podia emprestar? Onde houvesse uma melhor organização e onde ele tivesse certeza do retorno. Então, 78% dos recursos do Pronaf eram aplicados no Sul e Sudeste do país. A gente tinha estudos, aliás, não precisava ninguém... Era só entrar no Ciaf que se via que o Banco do Brasil estava captando mais do que aplicando no Norte e no Nordeste do país. Ou seja, um Agente Financeiro Público Federal, ele estava tirando recursos das regiões menos favorecidas, a Norte, Nordeste, menos desenvolvidas, e aplicando em outras regiões. Havia uma tendência, já se sabia que haveria uma junção do sistema financeiro nacional, fusões estratégicas de banco e que havia um risco do Banco perder market-share, principalmente pessoas físicas. Como é que o Banco, ao mesmo tempo que ele precisava levar recursos pro Norte e Nordeste, ele não podia... Um banco comercial que não podia aumentar a sua inadimplência. Então, nessa noite, essas e outras, foram cenários que foram discutidos e a primeira idéia foi: “Vamos criar um Grupo de Trabalho pra pensar nessas questões. Tem que ser Gerentes de Divisão com esse perfil e começa amanhã oito horas da manhã”. Foi a decisão. Gente, eu quase não dormi aquela noite. E o Zé Carlos me dizia: “Não se entusiasme”. Né Zé, eu não esqueço isso [risos]. “Não é você que vai ficar aí. Isso não deve ser nem a nossa Gerência, foi só por acaso, é porque a gente precisa por alguém e depois a gente vai decidir quem fica”. Tudo bem, mas lá fui eu. Gente, no dia seguinte, nós começamos. O Donatelo, ex-Diretor da Área de Crédito, que era uma das áreas que tinha representação. Marco Aurélio, que era representante disse assim: “Aquelas seis almas vão se degladiar”. Porque nós fomos com nossos microcomputadores e o telefone, pra uma sala. Só que as pessoas que tavam ali vinham de áreas muito diferentes. O Marco Aurélio, por exemplo, tava vindo do (ProAgFine?), da reestruturação de Agentes Financeiro, de Engenharia Financeira [risos]. O Edson, que veio depois de um mês mais ou menos, tava acabando de fazer, ele era da área de OIM do Banco, tinha feito a reorganização das agências do Banco no exterior. O Romano, tudo bem, era do Fundec, a gente tinha já trabalhado junto. A Liliane veio da Dires, também nós já tínhamos trabalhado. Então, assim, nós tínhamos três “Fundequeiros” ali. E a Varejo que também tinha representação, que ficou mudando. Mudou várias pessoas e depois veio o Magela que era da área do APL. Gente, o começo foi tragicômico, porque a gente brigava tanto, a gente dava chute uns nos outros [risos], tiro no pé, na lua, uns nos outros. Tinha dia que as discussões ficavam tão exaltadas, acaloradas, que a gente encerrava. Expediente, nove, dez, onze horas da noite... E amanhã, quando os ânimos estavam mais calmos a gente voltava.

 

P/1 – E esse grupo de trabalho ficou quanto tempo elaborando, tentando...

 

R – Olha, isso é uma coisa interessante. Porque, começou dia três de agosto, dia 26, aniversário do Luis Osvaldo, foi aprovada a nota de criação, já com o nome de DRS e com a estrutura macro. Por isso que a gente brigou muito, porque foi muito pouco tempo pra... Sabe, mas a gente brigou muito porque aí, depois, veio essa reestruturação, como é que preenche, o “como fazer isso aí”? Em Dezembro, nós pusemos o treinamento na rua. Dia 17 de Dezembro de 2003. E 20 dias antes teve uma reunião inesquecível. Nós nos reunimos com os Diretores, os Vice-presidentes a cada 15 dias, depois passou a ser semanal, toda quarta-feira, porque eles iam nos dar o direcionamento. A gente dizia onde a gente tava caminhando, e eles iam dando o ok, ou não. “Vai assim, vai por isso”. Ou: “Não vai por isso” “Não, vocês tão doido demais”. Mas a gente era surpreendido a cada dia. Porque a gente dizia: “Vamos”. Nós éramos seis. Então, a nossa proposta foi: “Vamos começar um piloto com 18. Cada dois cuidam de três e aí a gente vai ter condição de implementar um piloto pro ano que vem a gente, pelo menos, aprender.

 

P/1 – E o que significava esse piloto, esse DRS?

 

R –  DRS foi a possibilidade... Lembra dos cenários que nós tínhamos visto? A primeira idéia daquele grupo, daquelas seis almas que se reuniram no décimo sexto andar. Aliás, o DRS hoje voltou pro décimo sexto andar do Edifício Sede Um. Foi: “Vamos criar um monte de grupo”. Porque trabalhar... E eu esqueci de falar. As ações do banco tinham caído porque a nossa despesa administrativa tava muito alta. Então tínhamos que pensar. Nós não tínhamos pontuação Down Jones, Sustentability Index. Então, assim, as coisas eram tão díspares que a idéia foi: “Vamos criar vários grupos de trabalho e depois a gente pensa”. Cada um, as coisas sendo trabalhadas separadamente nós nunca íamos a lugar nenhum. O que o Banco precisava era ter sustentabilidade e atuar com foco na sustentabilidade. Aí foi fácil, foi como descobrir o ovo de Colombo, sabe? O Banco do Brasil é um agente financeiro. Ele vai continuar a ser um agente financeiro. Ele tem o lado comercial, mas ele tem um aspecto de desenvolvimento, ele é um banco público. Então, ele tem que trabalhar para que este banco público ajude a dinamizar a economia das regiões onde ele está, pra que ele possa ter o resultado, o retorno financeiro que o agente financeiro tem que ter para viver mais duzentos anos. E aí, a gente juntou tudo aquilo que a gente precisava, da questão ambiental, do social, do cultural, do respeito às culturas da região onde nós estamos. Pegamos a experiência do Fundec, pegamos experiências dos trabalhos que já tinham sido feitos com meio ambiente. As experiências que o Banco já tinha feito em outras épocas, como por exemplo com o MIP, trabalho de pequenas e médias empresas que o Banco apoiava. Fizemos uma semana de discussão, em Setembro, fomos ver com outros parceiros, como é que o mundo tava atuando, como é que outras agentes financeiros e outras pessoas trabalhavam com desenvolvimento regional, ou com desenvolvimento sustentável. E aí, a gente criou o tal do DRS, que se chamou, por umas seis horas, Desenvolvimento Territorial Sustentável. Mas nesse Banco, tudo é sigla. A hora que eu botei DRS, Desenvolvimento Territorial Sustentável. DT, Desenvolvimento Territorial Sustentável. DTS. Eu falei: “Detestei. Isso não vai passar, isso vai parecer Doença Sexualmente Transmissível!” [risos]. E olha, a lógica era Desenvolvimento Territorial, mas a gente fez uma discussão enorme lá naquele dia e o nome voltou pro Regional Sustentável que tava lá. E aí a nota, porque eu participei tanto, ajudei nas coisas que estavam ocorrendo no (Quarto Fórum ?) fora. Eu era, isso aí é outra coisa que eu tenho um orgulho muito grande é que eu representava a vice-presidência de Agronegócios e Governo no grupo que eles chamam de Grupo RSA, que foi o grupo que criou a Carta de Princípios de Responsabilidade Socioambiental do Banco do Brasil. De dia ia ser assinada a Carta de Princípios, mas eu tava lá no DRS, terminando a nota que criou o DRS no dia seguinte. E eu não fui lá na festa do Quarto Fórum, na assinatura.

 

P/1 – Agora, vocês criaram o DRS em 2003. Vocês montaram o Projeto Piloto e qual foi o resultado desse Projeto Piloto?

 

R – Minha filha, o Projeto Piloto virou um Boeing. Piloto era se fosse um avião pequeno, ele virou um comandante. O que aconteceu: em dezembro, no dia que a gente foi pra reunião do Conselho Diretor, com a proposta. Aí nós já estávamos com o treinamento esquematizado, pensando no que a gente precisa fazer o treinamento, a gente usou na metodologia o Processo Construtivista do Paulo Freire. A gente estruturou o Macro e fez uma proposta de, “Vamos pra sala de aula e vamos chamar quem sabe para nos ajudar a construir, efetivamente, o como deve ser, tanto a metodologia, quanto a operacionalização desse negócio chamado DRS”, que é um negócio para o Banco. E quando nós fomos e fizemos a proposta ousadíssima, que a gente achava que era, de começar com 18 experiências pra ser um projeto piloto, eles vieram com uma contraproposta, que Conselho Diretor não faz contraproposta, ele define, que nós deveríamos trabalhar todo Norte e Nordeste. Quer dizer, desculpe, trabalhar todo o Estado da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Piauí, e mais aqueles dezoito, que era uma experiência em cada Estado do Nordeste. E foi assim que nós saímos, uma semana depois, com as apostilas embaixo do braço, e fizemos os primeiros treinamentos: 17, 18, 19 de Dezembro de 2003. Um no Piauí, um no Rio Grande do Norte e um na Paraíba, em João Pessoa. E, em janeiro, a gente expandiu. Aí, a gente tocou nesses três Estados e começou a atuar. Aqueles colegas que vinham pra sala de aula, eles vinham pra conhecer a visão geral do Banco, o que a gente tava pensando, e pra nos ajudar a construir esse DRS, que foi construído com tantas mãos.

 

P/2 – Como que é a atuação do DRS hoje?

 

R – Olha, na realidade, a atuação do DRS é. Ninguém reinventou a roda, a gente procurou, simplesmente, fazer aquilo que... A gente juntou o foco de desenvolvimento regional e desenvolvimento sustentável. Ou seja, uma região precisa se desenvolver, e isso é importante pras pessoas que lá habitam, pros órgãos técnicos, pros governos, nos três níveis, federal, estadual e municipal, pros agentes financeiros, também. Para que ele se desenvolva, ele tem que pensar na base de crescimento econômico ou de desenvolvimento. E a gente trouxe os conceitos pra sustentabilidade. Ou seja, não adianta o negócio ser viável economicamente, mas ele tem que ter, também, ser também... Qualquer negócio, qualquer trabalho, e qualquer processo de desenvolvimento de uma região, ele só vai ser duradouro, se ele for, além de economicamente viável, e isso é básico, ele tem que ser, ele tem que ser também socialmente justo, ambientalmente correto, e tem que respeitar a cultura daquela região. Então, o DRS nada mais é do que isso. O Banco atuando, aí mudou um pouquinho o papel do Banco. Nós deixamos de ser um agente financeiro que emprestava pra quem tivesse condição de pagar naquela situação que tivesse garantias a oferecer. O Banco passou a fazer um papel de articulador. Ele articula as parcerias, nós criamos essa metodologia do DRS. Na realidade a gente sistematizou, a gente pegou várias experiências com Fundec, do (Delis?), a forma de atuar de várias outras, e fomos vendo, “Em cada um, qual é o fator crítico de sucesso?” “Ôpa, alguém já errou aqui”. Trouxemos o Banco do Nordeste, o Sebrae e dissemos: “Olha, o que vocês vêm de ponto positivo nesse trabalho que vocês fazem, o que vocês fariam diferente?”. E os chamamos para nos ajudar a construir com os DRS, como fizemos com os movimentos sociais, com Cooperativismo... E com aquelas pessoas. Já tinha muita gente no Banco que fazia trabalhos semelhantes a esse. E aí, o DRS, então, o quê que é? É você incentivar que os funcionários do banco, e hoje isso é uma meta, o Gerente do Banco do Brasil hoje, tem no acordo de trabalho dele, que ele deve implementar uma experiência de DRS, pelo menos. Hoje, já estamos partindo pra segunda, pra terceira. O que é isso? É você incentivar o processo. O Banco do Brasil contribuir para o desenvolvimento da região a partir do desenvolvimento das potencialidades daquela região. E a nossa lógica é econômica, nós somos um agente financeiro. Então, como é que eu posso promover, contribuir para o desenvolvimento de uma região? Apoiando o desenvolvimento das atividades produtivas que sejam importantes e que tenham um potencial de desenvolvimento naquela região, sejam urbanas, sejam rurais. Seja de comércio, de serviço, de indústria, ou seja rural. E aí, essa é a lógica do DRS. Então, o Gerente, ele é capacitado, essa foi outra luta grande no Banco... Quer dizer, lógico, que primeiro veio toda luta de convencer todo o Banco, uma mudança, foi uma quebra de paradigma muito grande, esse processo, de você convencer e mostrar que, com isso, valia a pena investimento. O Banco fez um grande investimento e você precisava disseminar esses conceitos, mostrar que com isso era possível, inclusive, reduzir a inadimplência. Que você pode levar o crédito pras regiões onde nós não tradicionalmente aplicávamos recursos, desde que você tenha estudo daquele mercado. Que você atue não com a visão do cliente e do produto, e sim com a visão da cadeia de valor, que é mais ainda que a cadeia produtiva.

 

P/2 – Qual a importância disso para o desenvolvimento do Brasil?

 

R – Olha, eu acho que... Eu falei isso quando a gente começou o DRS. Eu acho que o DRS é um marco na história do desenvolvimento do Brasil. O Banco do Brasil vem, tradicionalmente, trabalhando nos momentos importantes do desenvolvimento do Brasil. E o DRS, pra mim, é uma página muito importante nessa história do desenvolvimento do Brasil. Porque a gente tem a condição, o Banco do Brasil, ele tem uma capilaridade e uma importância nesse mercado que é muito grande. Então, o quê que nós conseguimos, e a gente ouve isso todo dia. Eu fiz agora um trabalho, nesses últimos dois, três anos, em que eu visitei todos os Estados, mais de 400 experiências de DRS e a coisa mais importante que a gente ouve: “O crédito não é o mais importante”. O mais importante do Banco do Brasil nesse processo é o trabalho de concertação que ele faz. Concertação com “C”, articulação. Por que? Porque ele tem um nome muito forte, ele tem todo esse trabalho, tem o respeito dos parceiros, da população... Então, ele faz muito bem esse trabalho de articulador dessas parcerias. E de estudo, a seriedade, lógico, técnico. A parte mais importante, que eu acho, no DRS, é esse embasamento, embora ele tenha o lado econômico, ele tem todo o embasamento técnico, acadêmico, de desenvolvimento regional, de desenvolvimento sustentável. A gente fez trabalhos técnicos e vendo como é que deveria ser isso. E acho que a gente pode e está mudando a cara do Brasil com o DRS. Hoje, o DRS tá no Brasil todo, em todas as agências do Banco. E você chega, me surpreendi, estive no Chile agora, na FAO, e, quando eu pensei que eu ia falar da estratégia de desenvolvimento regional sustentável, eu fui como aluna, do MBA que eu to falando, eu fui fazer um trabalho de faculdade, de pós-graduação que eu tava fazendo, e quando eu fui falar da estratégia de desenvolvimento regional sustentável do Banco do Brasil, o responsável, o Diretor para a América Latina e Caribe: “Ah, o DRS, a gente conhece muito”. E ouvi dele, Doutor (Graziano?), dizer: “É uma resposta do Brasil que deu certo”. Então, isso, eu acho que é uma... o DRS tá mostrando que é possível mudar a realidade desse país. E que, eu não tenho dúvida, o então Presidente Rossano, falou isso, lá atrás, que o DRS era uma das formas do Banco do Brasil estar no mercado por mais 200 anos”.

 

P/1 – Eliane, como você avalia sua trajetória no Banco do Brasil, por que você se aposentou recentemente...

 

R – Aposentei tem um ano.

 

P/1 – Você teve essa trajetória interessante, ligada à parte da Agricultura Familiar, depois tem essa virada que você fala do próprio Banco do Brasil, com o DRS, como você avalia sua trajetória?

 

R – Olha, eu falo que tudo o que eu tenho hoje, e o que eu sou, eu devo, primeiro a Deus, aos meus pais, a minha família, meus irmãos, a minha irmã que é a grande guerreira, que tá fazendo um tratamento de saúde enorme, que é um grande exemplo de vida que a gente tem. E o meu companheiro Sérgio, que é a pessoa mais ética, mais certa que eu já vi, todo... E ao Banco do Brasil. Sabe, eu acho que eu aprendi “muuuito” no Banco. Se hoje eu tenho casa, se eu tenho carro, aquela menina que ia pra roça, que morava na roça, que andava a pé, que ia no caminhão leiteiro, que ia de charrete, pra estudar num grupo que, só se formou... Meu pai jamais teria condição de pagar faculdade, não sei se eu teria condição de trabalhar e pagar faculdade, porque estudou em escolas públicas. Eu, realmente, acho que ganhei na loteria, quando passei no concurso do Banco do Brasil. E, tenho um orgulho enorme de dizer que eu trabalhei nesse Brasil todo, e que eu fui subindo, ganhando experiência, e que eu acho que com o DRS, eu pude estar devolvendo pra sociedade uma parte de tudo isso que ela investiu em mim, e do próprio Banco. O Banco investiu muito em mim, em capacitação, treinamentos, me deu oportunidades de fazer tudo isso. Então, eu considero essa uma trajetória vitoriosa, sabe?

 

P/2 – Quais foram os maiores aprendizados que você teve durante a sua carreira?

 

R – A lealdade, a amizade, a necessidade de botar um objetivo lá na frente e ir vencendo os desafios. Aprender que de vez em quando você tem que dar três passos pra frente e dois pra trás. A paciência. Principalmente em Brasília, a paciência, né? Porque todo mundo tem prioridades, todo mundo tem coisa. Muitas vezes a prioridade, às vezes eu sabia da importância do DRS, mas, de repente, pessoas que deveriam, áreas que a gente pensava que estava nos apoiando, de repente, a gente não conseguia esse apoio. Então, assim... O relacionamento. Eu acho que a coisa mais importante que tem foram as parcerias internas que a gente fez. Eu aprendi muito com vários dos líderes. Eu acho que chefe não é chefe, é líder. E eu tive alguns deles. Um deles eu cito, é o Hércules, que foi Gerente do DRS. E o Hércules, pra mim, é um exemplo de liderança, sabe? De positivismo. Quando o mundo estava desabando na nossa cabeça, de liderança de equipe, ele buscava os caquinhos lá embaixo, trazia e isso eu fui trazendo muito. Romano. Eu aprendi “muuito”. O Romano foi o meu chefe lá na Fundação, Coordenador de Equipe. Quando eu assumi a minha primeira Coordenação de Equipe, depois a Gerência de Divisão, eu me lembrava muito disso, sabe? Não importa o cargo que você esteja ocupando no momento, isso tudo é muito transitório. Você está, você não é aquilo. Então, eu acho que, o ser eu mesma é a coisa que eu. Na realidade eu aprendi isso muito cedo na minha vida. Aprendi isso muito com meus pais. E que, independente de eu estar, a gente participava de reunião com o Conselho Diretor, que aquelas pessoas são pessoas como a gente, elas estão naqueles cargos, que a gente tem que aprender a dizer não pra eles de vez em quando. Isso aí foi uma coisa interessante que eu aprendi no Banco também, sabe? Muita gente tem medo de dizer não. Porque é um Vice-Presidente, porque é um Presidente. Quer dizer, acho que esse é o nosso papel, como assessor, como Coordenador de Áreas, que você tem uma pessoa, que você tem que de vez em quando chegar e dizer: “Meu amigo...”. Uma vez eu fiz isso. Nós tínhamos um processo pra sair, de uma determinada forma, e o meu chefe usou todos os argumentos pra que a gente colocasse de uma forma que ele achava que era, e que nós não concordávamos. E no fim ele disse: “Mas é pra ser assim. Eu acho que é assim.”. Eu falei: “Olha, eu acho que você tá dando um tiro no pé, por isso, isso e isso. Mas a assinatura que vai é a sua”. Era assim que funcionava no Banco. A gente fazia, rubricava, botava as iniciais, “pa-ram-ram”, e ia. Mas a assinatura que saía efetiva era a dele. Aí ele pensou, pensou e disse: “Faça assim”. Eu falei: “Tudo bem, faça mas eu não vou assinar”. E fiz. Fui lá, fizemos todos, sentamos a equipe toda, discutimos novamente, voltamos e entreguei pra ele. Aí ele olhou e disse: “Você não assinou” “Eu te disse que nós não concordamos com o que tá aqui. Você é o nosso Gerente, você mandou, a gente fez. É a sua, mas eu lhe avisei...” “Deixa aí, deixa aí que eu vou pensar”. Depois voltou e disse: “Refaça!” [risos]. Então assim, eu acho que esse é o papel nosso, eu tenho a consciência muito tranqüila. E isso foi uma coisa que eu falei. A decisão mais difícil que eu tomei na minha vida foi me aposentar, foi deixar o Banco do Brasil. Mas dessa vez, diferentemente de quando eu saí do Fundec, eu não chorei. Foi rápida, eu não imaginava. O Banco soltou o Programa de Aposentadoria Antecipada e eu me enquadrei. E, de repente, eu vi assim, a sensação que eu tive foi de dever cumprido. Eu, lembra que eu falei, eu estava dez anos antes, muito triste com os rumos que o Banco tava tomando. De repente, eu vi o Banco retomando aquele rumo que eu acredito que é que ele tinha a tomar. Ou seja, o Banco viu que é possível ser um Banco, um agente financeiro lucrativo, que nós vamos continuar a ser, o Banco Comercial ser tão importante quanto o Banco de Desenvolvimento. Que a sustentabilidade tem que estar presente nos negócios. E ajudei muito, briguei muito pra ter essa frase lá nos princípios, de que a responsabilidade e de que os desenvolvimentos sustentáveis, conceitos, estejam nas práticas administrativas e negociais da empresa. Que não seja discurso, que ela esteja na prática. E isso, eu acho que já tá acontecendo. Então, eu pensei que há um mundo aí fora me esperando, que eu tinha cumprido a minha tarefa, a minha etapa. E saí com a sensação de dever cumprido, de consciência tranqüila. Agora, a gente sai do Banco, mas o Banco não sai da gente. Então, eu continuo tão apaixonada pelo Banco quanto era. A primeira coisa que eu fiz quando saí do Banco. Ia ter um concurso do Banco dois meses depois, foi incentivar as minhas sobrinhas, eu tenho três sobrinhas, e uma delas passou e já está no Banco do Brasil, a Bruna Mancini Matioli de (Sousa?), e que eu converso com ela todo dia querendo saber todo dia querendo saber como está o banco. E foi uma surpresa enorme porque ela faz Moda, uma faculdade que não tem nada a ver com o Banco, mas ela está gostando muito do Banco. O dia que meu irmão me ligou, meu irmão... A gente é muito unido, o tanto que eu falo da família, eu acho que eu procurei trazer muito isso pro Banco. Então, o dia que meu irmão me ligou e disse: “A Bruna foi chamada. Eu não sei se eu estou mais satisfeito ou preocupado”. Porque a preocupação com a Faculdade, porque os horários não batiam, aquela coisa. E hoje a gente tá vendo que, de repente, é mais... O Banco continua na nossa família, tão presente quanto antes, né? Eu falei isso. A minha família, nós somos muito unidos. A família do meu pai tem 13 irmãos, eles eram 13 filhos e o meu pai criou, fundou uma festa anual da família. Porque é tão grande, todos casados, com filhos, netos, bisnetos, tataranetos, e essa festa, em geral, tem cem, 150 membros, a cada vez que ela acontece. E eu falei há pouco tempo na festa da família. Que todo mundo levou um susto muito grande com a minha saída. O dia que eu falei que ia sair, teve um Superintendente que me ligou: “Aconteceu alguma coisa?”, preocupado. Eu falei:  “Não. Foi uma decisão pessoal, tranqüila”. E eu falei a mesma coisa na minha família, sabe?. Eu acho que o mundo. Eu brinco e falo: “Tem vida inteligente lá fora também”. Então, eu passei por momentos muito difíceis na minha vida, no meu último ano de banco, pessoal. Eu perdi a minha sogra, eu estava dentro da sala de aula, dando um curso. Eu sou Educadora do Banco, dos Cursos DRS. O meu marido sabia da loucura que era aquele curso pra mim, que a Superintendente lá dentro, a gente tava conseguindo trazer os executivos pra dentro da sala de aula, pra discutir DRS, o que era uma mudança enorme. E ele não me contou que a minha sogra tinha morrido. Eu só fui saber depois, e logo depois eu perdi a minha nora. Também foi a mesma coisa. Num processo de DRS louco, quer dizer, aí assim... Eu fico sempre pensando o quanto a nossa família sofre com as nossas ausências, com tudo isso. Porque eu passava oito horas, dez horas, doze horas no banco. Final de semana... Eu cheguei a ficar 22 dias sem vir em Brasília, mudando de um Estado pra outro. Teve um caso muito interessante, que eu estava no interior do Amazonas, em Maués, que fica a 18 horas de barco, de Manaus, e eu tinha saído pra essa viagem e eu estava em Manaus quando o Lauro, era o Superintendente, ele me ligou e disse assim: “Eu tenho uma notícia pra você, não sei nem como é que eu falo. Pessoal tá pedindo pra você ir direto pra Belém do Pará”. E eu disse: “E quem é que vai me emprestar as roupas?”. Porque as roupas que eu tinha levado pra ir pro interior da selva amazônica, com certeza não eram as roupas que eu precisaria em Belém do Pará pra ministrar um curso do DRS que teria representantes do Governo do Estado e não sei o quê. E aí o que aconteceu? Quando terminou esse, quando estava no último dia, eles me ligaram e disseram: “Preciso de você em Minas Gerais, dá para você ir direto?”. E deu. Então, assim, essas coisas foram acontecendo, e foram muitas ausências. Foram muitos momentos doloridos em que eu abri mão da minha vida pessoal, do meu sono, dos meus descansos, das minhas férias. Eu passei os três últimos anos do DRS praticamente sem férias. Eu tirava no papel e não saía, e viajava e cumpria e depois... E aí, de repente, eu pensei e falei: “Tá na hora. Fui”. E tô muito feliz, realizada.

 

P/1 – Eliane, o que você acha dessa iniciativa do Banco do Brasil em registrar a sua memória?

 

R – Ah, isso eu tenho que agradecer. Primeiro cumprimentar o Banco pela oportunidade do DRS. Eu acho que cumprimentar todas essas pessoas, eu queria deixar isso, que fizeram o DRS, ou que fizeram coisas semelhantes, porque o DRS também mexe com as pessoas. Aí cumprimentar vocês, pelo trabalho que vocês fazem. O Banco foi muito feliz por estar fazendo isso, porque quem faz o Banco do Brasil são os seus funcionários, são as pessoas. O Banco não existe enquanto Marca. A Marca pode ser valiosíssima, é uma das marcas mais valiosas que existe, mas quem faz isso são os funcionários do Banco do Brasil e as suas famílias. Então, eu acho que o Banco, mais uma vez, ele acertou na mosca quando ele está ouvindo o depoimento, e, principalmente, quem são de verdade esses funcionários. Não pegou... É, assim, a Eliane que já tá fora do Banco, quer dizer, não são aquelas pessoas tão importantes que, de repente, só aqueles que ocupam cargos estratégicos na organização. Mas pegou pessoas e a coisa mais importante, sabe, que eu ouvi aqui é: “Eliane, é a pessoa, é a Eliane Matioli. É a sua família, a sua trajetória de vida”. Então eu quero agradecer, enormemente, a oportunidade. Eu tô me sentindo em Pequim, medalha de ouro em Pequim, sabe? E isso é pra mim a melhor promoção que eu podia ter tido, eu acho. Sabe, o dia que eu falei com o Sérgio, com os meus irmãos e disse: “Eu vou ser uma das pessoas que vão ser entrevistadas para os 200 anos do Banco. Eu disse: valeu cada noite sem dormir, valeu cada viagem de 18 horas de barco, de ônibus, de coisa...”. Eu rodei “muuuito” por esse Brasil afora. As Jardineiras lá do Maranhão, as noites que nós passamos atolados. Ei, Cururupu, meu Deus do céu, não posso lembrar a chegada em Cururupu. O barco pra ir pra Afuá, Ilha de Marajó. Então, assim... E as coisas maravilhosas, tudo isso. Mas esse é um momento muito especial pra mim, que eu tô me sentindo realizada e homenageada, sabe? A sensação que eu to tendo é de que o Banco está reconhecendo tudo isso que a gente fez, sabe? Que eu não fiz sozinha, isso que é a coisa mais importante. Nada disso aconteceu se a gente não tivesse tido uma equipe. A equipe DRS, a equipe das milhares de pessoas que existem nesse Brasil que tão... No DRS tem algumas pessoas que foram chave: O Ricardinho, a Isabel, é lógico. O Luís Osvaldo. Todos aqueles, os seis lá do começo, o Edson, as pessoas que estão hoje conduzindo o DRS, o Frasão, a equipe... Mas, aquelas pessoas que souberam botar brilho nos olhos e chamar. O Banco, se mudar isso, o DRS acaba. Porque eu não esqueço, eu lutei muito pra colocar. A coisa que todo mundo mais se lembra de mim é, eu brigando porque ninguém no DRS podia dizer que é um Programa ou um Projeto. E eu ficava corrigindo tudo quanto era material que saía, e já tive... O Presidente Rossano, às vezes perguntava: “O que você quer que eu fale?” “Presidente, a primeira coisa, eu quero aquilo que o senhor não fale”. Às vezes quando ia dar alguma entrevista, que eles pediam o briefing e eu ficava do lado deles o tempo todo: “Pelo amor de Deus, não diga que é Programa nem Projeto. É uma Estratégia, é uma Estratégia Negocial”. E é. Hoje, isso está consolidado, então me sinto realizada também por isso. Mas ele não é só isso. Ele tem que ser uma coisa que as pessoas queiram fazer. Ninguém faz DRS porque o DRS é meta. Se ele se transformar só em meta, só em numéricos... Adeus. É uma pá de cal em cima do DRS. Porque, como eu falei, quem faz o Banco do Brasil são seus funcionários. Então, assim, eles precisam estar motivados. E isso, quando a gente fez o primeiro curso. Devo muito, devemos nós todos, ao Ricardinho, à Isabel, ao João Júnior, ao Alair... Aquelas pessoas que ajudaram a trazer... O Paulo Freire, né? Essa forma de trazer essa mensagem de uma forma tranqüila, respeitando a Cultura Popular, e as pessoas saem dos cursos DRS querendo fazer DRS. Então, isso é uma coisa muito boa.

 

P/1 – Bom Eliane, a gente agradece, o Museu de Pessoa e o Banco do Brasil, pela sua entrevista.

 

R – Eu quero fazer um agradecimento especial também ao Edgarzinho. 



P/1 – Pode agradecer.

 

R – Olha, o Banco tinha que canonizar umas pessoas, sabe? Então, no começo eu fiquei assim: “Eu não vou falar nomes”. Mas é difícil você não falar nomes. Então, assim, têm pessoas que estão fazendo um trabalho muito legal nesse Banco, e um deles é o Edgarzinho, sabe? Eu queria que ficasse registrado, porque eu sei que ele é quem tá coordenando esse processo. Vocês, esses dias, descobri o Museu da Pessoa, o Ricardo, a Nádia, a Marta, agora vocês. Foi uma coisa muito boa, a gente falando muito com o Edgarzinho, com o Ricardinho, com esse pessoal. Obrigada. Beijo no coração, cafuné na alma. E assim, muita coisa boa, que vocês sejam muito felizes também. Nós aqui queremos. Eu que só tenho a agradecer pela oportunidade, pela alegria, e dizer que o Banco do Brasil continuará contando comigo, continua. Eu como Consultora, eu tenho prestado alguns serviços ao Banco e a outras empresas também, mas eu saí do Banco, mas realmente o Banco não saiu de mim, nem vai sair nunca.

 

P/1 – Obrigada, a gente que agradece.

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