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História

Uma enciclopédia do folclore do São Francisco

História de: Maria Izabel Muniz Figueiredo (Bebela)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2010

Sinopse

O depoimento de Maria Izabel Pontes Muniz, a Bebela, é uma aula sobre o folclore do Rio São Francisco. Sua história, como neta do Barão Enéas e filha de um comandante de navios de gaiola, é por si só reveladora das lendas e dos fatos que povoam a memória de Juazeiro, na Bahia, a cidade natal de que ela tanto se orgulha e que tanto defende. Bebela conta histórias que ouviu e vivenciou desde menina, como a incrível aparição do Nego D’Água, os ciclos das embarcações no rio e a tradição das carrancas de madeira. Estudiosa da cultura popular da região, a professora ainda se lembra com saudade da época em que o apito dos vapores fazia parte de sua vida. E sonha com o dia em que isso possa, quem sabe, voltar a acontecer. 

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História completa

Meu nome é Maria Izabel Muniz Figueiredo, mais conhecida por Bebela. Eu nasci aqui em Juazeiro, no dia 12 de setembro de 1938. Meu pai é Francisco Evaristo Caboclo Figueiredo, nascido na cidade da Barra, ex-comandante dos navios de gaiola, grande amante da navegação do Rio São Francisco e funcionário, até morrer, da Viação Baiana do São Francisco, lamentavelmente, hoje extinta. E minha mãe, Edelvita Muniz Figueiredo, filha do lendário Barão Enéas, era o meu avô, era um homem cheio de histórias e que tinha a sua patente, ficava feliz em ser chamado “o Barão”, as filhas do Barão, as meninas do Barão Enéas. E nós estamos fazendo essa gravação justamente nas terras do Barão. Aqui eram todas umas roças de Ioiô, como nós chamávamos o avô, em vez de vovô, era Ioiô. Fica às margens do Rio São Francisco, é um lugar lindo. Sem modéstia, é um lugar belíssimo.

O Nego D’Água é um mito do rio, o senhor do rio, e ele vive no fundo do rio. Disse que ele tem um reinado, é dono de todas as águas e ele tem um rival que é o Caboclo D’Água, que é um índio bonito, que mora no rio e tem penachos. Eles vivem em guerra, discutindo a cheia, discutindo as vazantes, discutindo os temporais, querem ser os donos das águas. E o Nego D’Água aparece. É também chamado Compadre D’Água, gosta muito de fazer batuque na proa ou na popa das canoas. Antigamente, que tinha muitos paquetes, que é um barco maior com uma vela, o Nego D’Água virava esses paquetes e também os vapores. Ele chegava a virar os vapores e pedia a algumas pessoas, alguns privilegiados que podem ver o Nego D’Água, pede carne, pede farinha, pede charuto, e, se a pessoa chegar a oferecer para ele, ele então diz que aquela pessoa vai ser feliz para sempre, vai realizar todos os desejos. E, se por acaso negar, ele luta e puxa aquela pessoa e leva pra ser o seu escravo ou escrava. Diz que ele é apaixonado por moça de coxas grossas, e tem uma coisa, ele não pisa nas margens do rio, ele não aparece se tem cacos de vidro, pedaço de vidro, ele tem pavor. Tem fazendas, tem roças na beira do rio que colocam vidros, garrafas quebradas para afugentar o Nego D’Água. É uma história, é um conto, é uma coisa que está viva e está bem viva o Nego D’Água, bem presente no imaginário das pessoas, haja vista Juazeiro, né? Lá no Angari, que é um bairro de pescadores, tem a estátua do Nego D’Água, ela foi feita por um amigo meu, chama Ledo Ivo, é um juazeirense escultor.

Eram umas seis horas, eu era menina. Chegando aqui perto, minhas primas maiores do que eu, mais espertas, correram logo e se jogaram no rio: “Bebela! Você está em cima, ó, o Nego D’Água!” Menina, conto a vocês, quando eu olhei pra canoa, chamava Canoa do Barão, meu avô tinha canoas, tinha canoa pequena, canoa grande, barco grande e paquete... Ah, quando eu olhei pra canoa, digo que eu vi o Nego D’Água, mas, olha, a coisa estava tão viva no meu imaginário que eu senti que ele estava presente (batendo palmas). E fazendo batuque na canoa, de acordo com a história que me contaram. Aí, eu queria correr e queria chorar, não podia nem respirar, e alegre, porque estava vendo o Nego D’Água. Depois gritei, gritei, parece-me que o Nego D’Água saiu, deu um pulo e formou aquele grande círculo no rio, quando a gente joga uma pedra no rio, né? Bem, eu devia ter uns nove a dez anos. Na história, diz assim, quando o Nego D’Água não levar a gente para o fundo, para casa, para o reino dele, é sinal que a gente vai ser muito feliz e que a gente ganha um amigo. Aí, desse dia em diante, eu sei que eu vou ser feliz para sempre, e sempre o Nego D’Água está presente em minha vida. Gosto muito da história do Nego D’Água.

Ah, as águas, as águas. E as águas barrentas do Rio São Francisco. O retrato do sangue que corre nas nossas veias, porque agora o rio ficou verde, depois da barragem. Mas as águas do Rio São Francisco eram barrentas e, então, quando chegava a enchente, eram vermelhas. Meu pai tinha verdadeiro sonho que um dia a navegação ia florescer, que os navios iam ficar mais bonitos ainda. Como ele tinha paixão pelo Navio Juracy Magalhães, o Muniz, era enorme. O Barão de Cotegipe é da Barra, da cidade em que ele nasceu, e ele tinha paixão por esse vapor. Aliás, todo juazeirense, porque o apito do Barão, todo poeta antigo ou que viveu aquela época, nas suas poesias falando do rio, fala: “E o apito do Barão.” Quando o Barão apitava por aqui, lá ouvia no cais de Juazeiro. Aí, todo mundo corria para o cais para ouvir o Barão e ver a chegada do vapor, prestigiar a chegada do vapor com sua tripulação e os seus comandantes.

Ah, o vapor... Olhe, não me fale em vapor que eu sou apaixonada, eu acho que o Brasil, Brasil sei não, os nossos dirigentes, os nossos governantes não tiveram respeito com o Rio São Francisco nem com a navegação. Primeiro, foi o ciclo do ajojo, que era a embarcação do índio, ele pegava uma carnaúba, uma madeira, emendava, é como uma jangada, mas não era aquela propriamente jangada do Ceará, era diferente, era reta. Aqui assim, um quadrado, aliás, um retângulo de madeira amarrada. E eles viajavam os índios. Aí, partiram pra canoa, que era o tronco da árvore, cavava e formava a canoa. Da canoa, vieram os paquetes, que tinha aqueles paquetes, é um barco mais bonitinho, como imitando aqueles saveiros lá de Salvador, com a vela muito bonita, aquela vela branca. E nós tivemos o ciclo das barcas, as barcas do Rio São Francisco. É uma história linda que nunca devia ter terminado. Porque na Europa, Portugal, na Rússia, até hoje se fala nos barqueiros do Volga, não é? Que têm aquela história toda. E eu acho que ainda existe, está por lá. E aqui acabou, misteriosamente.

As barcas, então, eram as embarcações maiores, tinham um toldo de palha, de carnaúba, onde ficava o barqueiro, o dono da barca, tinha uma espécie de um camarotezinho com a cama etc. e tinha a parte, outra da barca, onde ficavam os remeiros. Esses remeiros, todos eles têm uma ferida no peito de enfiar o remo pra desencalhar a barca, que elas eram enormes, eram enormes as barcas e faziam a viagem de Juazeiro para Ibotirama, outras de Ibotirama para até o Rio Grande. Os afluentes do Rio São Francisco. E as barcas ficaram famosas. Ser dono de barca era um status, pessoa rica. A barca carregava sal, açúcar, peles de animais, a cera da carnaúba.

As barcas, em certa feita, os barqueiros, inclusive o meu avô, eles foram a Salvador, foram de burro na viagem. Chegando lá na Baía de Todos os Santos viram aquelas embarcações bonitas do imperador. Da corte e de outras pessoas, e elas tinham figuras de proa, como aquelas barcas dos Fenícios, lembra? Que eram significativas, que davam mensagens. Então, os negociantes barqueiros viram aquilo e, então, disseram: “Não, nós vamos também botar nas barcas umas figuras de proa.” A primeira foi de louça. Depois, os outros, que não puderam fazer de louça, mandaram fazer as carrancas. Aí nasceram as carrancas em Juazeiro, a primeira expressão de arte do juazeirense, do ribeirinho, foi a carranca. Os artistas, os primeiros artistas plásticos foram os carranqueiros. Aí começaram a fazer as carrancas, e as barcas ficaram bonitas. E as primeiras carrancas foram feitas como um adorno, repare bem, um adorno, mas, aqui em Juazeiro, tinha muitos carranqueiros. Mas apareceu uma madeira melhor, e um carranqueiro que parece que tinha as mãos abençoadas por Deus era Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany. Morreu com quase 100 anos. Ele fabricou as mais lindas carrancas, que a carranca quanto mais feia é mais bonita.

Diz então que um dos remeiros disse assim: “Meu senhor” – para o barqueiro – “olhe, eu estava ali, e a carranca deu um gemido”. “Ah, está maluco que a carranca deu um gemido! Vá trabalhar, vá remar!” Outra vez: “Meu senhor?” “O que é?” “A carranca deu o segundo gemido.” “Que segundo gemido! Está sonhando! Você bebeu, é?” Ele: “Não, meu patrão, vamos embora. Meu patrão, vamos parar, vamos parar essa viagem, vamos pernoitar aqui.” E ia anoitecendo: “Ai, meu senhor! A carranca deu o terceiro gemido e tudo vai acabar.” Quando disse que tudo vai acabar, a carranca, a barca começou a girar, começou a girar! E foi girar e foi para o fundo. Somente aquele remeiro que ouviu os gemidos da carranca nadou, nadou, nadou e chegou, então, num lugar muito pequenininho. Aí encontrou a família: “O que foi?” “Eu estou morrendo, estou morrendo.” Trataram dele, cuidaram, aí contou a história: “Eu disse ao meu patrão, dono da barca, vamos parar, ele não quis. O segundo gemido, ele não quis. O terceiro, a barca virou, só estou eu para contar a história.” Bom, a partir desse dia, a carranca deixou de ser um elemento decorativo na barca e virou proteção. Quem quiser ser feliz aqui no Rio São Francisco tem que ter uma carranca. Ela livra das doenças, dos maus espíritos, das invejas, de tudo quanto é ruim. Eu acredito nas carrancas, eu acredito na força da carranca. Carranca de barro, não, carranca de barro não tem expressão. Tem expressão artística, mas a verdadeira, a que tem a tradição, a história, é carranca de madeira.

O São Francisco é um mundo, gente. Ele está morrendo, mas ainda tem muito a oferecer de cultura, de curiosidade, de beleza, tanto do seu povo como seus mitos, suas lendas, a beleza das águas, tudo isso. Eu espero a revitalização, uma coisa que não vai acontecer, não sei nem se eu vou estar viva, porque é uma coisa muito lenta. E que haja revitalização, que a transposição não aconteça, porque vai ser a morte do rio. Eu acredito e tenho fé em São Francisco de Assis, que há de aparecer uma companhia, uma empresa que possa comprar todo o acervo da Franave, antiga Viação Baiana do São Francisco, e que a navegação volte. 

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