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História

Uma educadora de respeito

História de: Luciene Silva Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/09/2014

Sinopse

Luciene é uma educadora que aprendeu a ler aos 10 anos. Até os cinco anos de idade morou em São Paulo com a mãe e em Pernambuco, com o pai. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, Luciene se emociona ao falar da desintegração de sua família e as dificuldades que teve na primeira infância para superar esse problema.  Fala sobre a sua alfabetização tardia e como desde cedo se interessou pela área de educação. Recorda a sala de aula no Nordeste, onde estudavam crianças de várias séries ao mesmo tempo e o conflito que a fez ir morar sozinha em São Paulo. Lembra os estudos de Geografia na PUC de São Paulo e a experiência com educadora na Escola Cooperativa. Finaliza o depoimento falando sobre sua experiência no Instituto Educadores sem Fronteiras, onde exerce a função de educadora. Por fim, fala sobre como a doação do Criança Esperança foi fundamental para o desenvolvido do projeto Alquimia dos Saberes.

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História completa

Meu nome é Luciene Silva Souza. Eu nasci na cidade de São Paulo, no dia 13 de março de 1973. Meu pai chama Vicente Emídio de Souza e a minha mãe, Maria José da Silva. A minha história familiar é muito complicada, eu não tenho muito contato com eles. O meu pai hoje mora no interior do Pernambuco, trabalha na terra, não tem uma profissão, ele é dono de um pedaço de terra e vive disso.  A família que eu fiquei mais tempo eram os meus padrinhos, o meu padrinho era irmão do meu pai, então ele era meu padrinho e meu tio. Na casa dele eu vivi dez anos, mas esse foi o período de maior estabilidade na minha vida, durante a minha infância e adolescência, o restante foi tudo meio turbulento. São quatro irmãos por parte de pai, com a primeira filha da minha mãe são cinco, mais dois dessa união, sete, mais esse adotivo agora, oito. O meu pai estava morando no Pernambuco e eu estava morando lá com ele nesse período. Eu tenho um problema respiratório desde criança. Então eu ficava indo e vindo, o meu pai ia pro Nordeste eu ia com ele, depois alguém vinha pra São Paulo e eu vinha com ele; depois eu voltava pro Nordeste, ficava o tempo todo assim. Nessa época eu ia mais pra Paraíba, onde estava o meu avô paterno, aliás os dois, são da Paraíba.

 

Chegou um certo momento, eu já estava crescidinha, devia estar com cinco, seis anos, mais ou menos, a minha tia estava aqui e foi visitar o pai e eu pedi pra ela pra me trazer, porque eu não queria mais ficar lá. E ela ficou super mexida com o meu pedido e me trouxe. Só que assim, imagina uma criança que sai do meio do sertão nordestino, chega em São Paulo, acha que é o paraíso. E chegando aqui nessa última vez, vamos dizer assim, eu queria brincar. Então queria brincar, eu fiquei nesse processo de alienação do entorno, só queria brincar, e a minha tia ficou meio impaciente comigo. E quando meu pai veio pro casamento de uma outra irmã que estava aqui, a minha tia me disse que eu ia voltar. Na hora que ela disse isso meu mundo caiu. Eu fiquei chorando, desesperada, porque eu não queria voltar e quando ela definiu o meu pai já estava na casa dela, em São Paulo, os preparativos pra festa. E foi uma situação muito delicada porque eu era uma criança muito tímida, muito carente e, ao mesmo tempo, eu sabia que eu não ia ter muitas chances junto à família. Eu lembro que no momento dessa tia se casar ela selecionou as crianças que iam ser as damas de honra dela e ela não me escolheu, e eu fiquei muito triste. E assim, quando a família se reuniu pro anúncio do casamento, eu pedi pro meu padrinho pra ele ficar comigo. Na casa do meu padrinho já eram sete filhos, ele e a esposa. O meu padrinho era uma pessoa de coração imenso, ele falou assim: “Meu, uma boca a mais não vai fazer diferença”, e eu fui morar com eles. Morei com eles durante uns dez anos, eram quatro crianças na época, eu era a quarta criança, apesar de ser um ano mais velha da turminha, mas ele tinha quatro filhos adolescente e mais quatro crianças comigo.

 

E aí eu fiquei morando com eles durante esses dez anos, foi quando começamos o processo de tentar me colocar na escola, enquanto eu morei com meu pai eu frequentei Mobral porque não tinha escola pra gente. Quando eu estava morando com meu avô, que foi antes de eu vir pra cá, eu morei na verdade no sítio, ficava entre duas cidades, uma cidade chamada Congo e outra chamada Sumé. E o meu avô morava no meio dessas duas cidades. O meu pai mora até hoje numa cidade chamada Sertânia, essa que fica no Pernambuco, na divisa, mas no Pernambuco. Na casa do meu avô eu tenho lembranças, eu diria que lembranças legais. A gente acordava muito cedo, era cinco e meia da manhã a gente já estava no roçado, ou era, sei lá, catando algodão, ou plantando alguma coisa. A gente plantava feijão, legumes pra vender. Então tinha a feira se não me engano segunda-feira tinha feira em Sumé e no sábado a gente tinha feira no Congo. Então, aquilo que a gente plantava, que a gente colhia, a gente levava pra cidade pra vender na feira livre.

 

Eu frequentei uma escola, eu não sei te dizer se é da prefeitura, se é do Estado, era uma dessas escolas rurais que a minha tia trabalhava lá como a preparadora da merenda. E tinha época que não tinha o que fazer. Então, por exemplo, o leite em pó a gente comia o leite em pó mesmo, não tinha como dissolver o leite em pó. E era uma classe multisseriada, isso eu me lembro muito bem, até contei num evento do Educadores essa história. Eram quatro filas de alunos, a primeira fila era do primeiro ano, segundo, terceiro e quarto ano, e um professor só. Eu me lembro que eu devia ser a quarta criança, mais ou menos, da minha fila no primeiro ano e a professora vinha com aquela cartilha pra gente ler o texto.

 

Eu morei dez anos com eles, fui morar em torno dos cinco, seis anos. Fui estudar na Escola Municipal Carolina Rennó. Ela existe até hoje, no projeto a gente recebe muitos meninos de lá. Na época que eu entrei foi numa situação muito complicada porque eu entrei fora da idade, não tinha vaga na época e do nada a Secretaria mandou avisar pelos meus primos, pelos filhos da minha madrinha, que era para ela ir lá no outro dia muito cedo para ela conseguir essa vaga pra mim. Eu me lembro que a minha madrinha saiu correndo, muito cedo, pra garantir essa vaga. E deu tudo certo. Frequentei lá até o oitavo ano.

 

Um certo dia eu estava lá limpando a casa enquanto a minha madrinha tinha saído pra ir à feira e meu primo fez essa gracinha de eu limpar e ele ir lá sujar. Eu falei: “Eu não vou limpar”, joguei o rodo no chão, “Vai ficar sujo. Quando a mãe chegar ela vai saber o que aconteceu”. Ele foi encontrar e contou que eu não tinha limpado e falou a versão dele, não sei nem exatamente qual foi. Sei que ela chegou em casa muito nervosa dizendo que naquele mesmo momento ia na casa da minha mãe dizendo que ela não ficaria mais comigo porque ela estava com medo de um dia ela sair e chegar e ter um morto prum canto e outro pro outro. Eu falei: “Bom, e agora eu vou ter que cuidar da minha vida”. Quando eu cheguei em casa eu perguntei pra ela: “A senhora me dá quanto tempo para eu sair?” Eu tenho certeza que ela não esperava ouvir aquilo (emocionada). Bom, resultado, dentro de um mês eu saí de casa. E eu tive que começar a faltar na escola, pra no período da escola procurar uma casa pra ir morar, porque eu não podia faltar no horário do trabalho. Nessa época eu já estava trabalhando numa creche da igreja. Eu estava com 16 anos. Eu trabalhava meio período, então eu estudava de manhã e trabalhava à tarde. Nessa época eu já estava estudando numa escola padrão, antiga escola padrão do Estado, que era o Alberto Conte, ali em Santo Amaro, uma escola muito boa. Então comecei a faltar na escola, cada dia eu ia prum bairro caçar, estudar, ver o preço, negociar. Bom, deu certo, eu fui morar sozinha no que a gente chama lá no bairro de Morrão.  

 

Nos trabalhos que eu fazia na comunidade, eu fui catequista, dei aula de crisma, e um belo dia o padre me viu brincando, jogando vôlei com os meninos lá embaixo no quintal da igreja e ele me chamou: “Olha, a gente está precisando de uma menina lá pra trabalhar na creche, você quer?”. Eu falei: “Ó, preciso perguntar pra minha madrinha, mas tudo bem”. Eu não sei se ele já tinha conversado com a minha madrinha, não sei, eu só sei que na segunda-feira eu já estava sendo esperada lá. Era um trabalho remunerado. Eu só saí quando eu entrei na faculdade. Quando eu entrei na faculdade eu falei: “Bom, não dá pra ficar aqui, está muito longe”. Eu fiz PUC, então, estar no Jardim Ângela e ir pra PUC estava muito difícil e eu falei: “Não, e outra coisa, eu preciso de experiência em outra área”. Fui trabalhar numa locadora de automóveis ligada a uma grande empresa, trabalhei lá com eles, fiz alguns trabalhos paralelos nesse período que eu estava na universidade, eu voluntariei ligado à Educação, dentro da própria instituição. Na PUC a gente fundou um cursinho pré-vestibular dos alunos da PUC, fiz a coordenação pedagógica desse trabalho. Só me afastei por questões políticas, a gente tinha algumas pessoas que estavam levantando algumas bandeiras que eu não tinha a menor afinidade, eu falei: “Não, se é pra ir por esse caminho eu prefiro me afastar”. Eu pedi uma bolsa pra PUC, eles me cederam e no momento seguinte viram que a situação era muito séria, que eu não ia conseguir pagar a bolsa, eles me mandaram pro Creduc na época e o Creduc me financiou 80% do meu curso todo. Já no final do meu curso eu voltei pro Jardim Ângela, fui morar do lado da minha mãe. Uma amiga minha da faculdade me indicou a escola que a irmã dela estava trabalhando e eu vim lecionar. Essa escola foi fundamental na minha vida. Ela não existe mais hoje, mas chamava-se Escola Cooperativa. Ela foi fundada por alunos da USP há muito tempo, só que infelizmente as pessoas que acabaram assumindo a direção da escola perderam a essência do que era a Escola Cooperativa. Foi uma construção fantástica, eu aprendi muita coisa lá. Lá eu lecionava História. Tive contato com projetos de todo tipo, desde Empreendedorismo, Cooperativismo, diversas pedagogias, apesar da pedagogia da escola ser a Construtivista. A gente tinha um grupo muito bom de professores, era uma equipe fantástica, mas que por razões alheias a nossa vontade a escola foi mudando de rumo e os professores foram saindo. E olha, eu fiquei muito tempo sem receber e mesmo assim eu trabalhava, e trabalhava muito feliz. Pra minha felicidade aconteceram duas coisas. Na época não entendi como felicidade, fiquei muito frustrada, eu fui mandada embora pela nova direção e por que foi um favor? Porque eu não ia conseguir me desvincular emocionalmente daquela situação, daquela turma. Eu entrei na Escola Cooperativa e quando eu percebi que a situação da escola estava muito difícil, eu comecei a procurar algumas alternativas. Por acaso, bem por acaso mesmo, eu entrei no site do terceiro setor e tinha um anúncio do Educadores sem Fronteiras. E quando eu vi o anúncio eu falei: “Meu, no Jardim Ângela, no bairro que eu vivi, quero muito. Não sei se eu vou ser selecionada, mas...” E mandei meu currículo, fui chamada pro processo de entrevista, que não era simples; o processo era bem longo, eram todos os que enviavam, dali saía uma primeira seleção que ia de novo, montava-se um projeto, depois do projeto mais uma, então, foi um negócio demorado. E eu fui vendo que eu fui ficando, fui ficando. E fiquei muito feliz porque, bom, por vários motivos, eu tinha identificação com o projeto, eu tinha uma identidade com a comunidade e eu fui ajudada pra crescer, eu fui ajudada e eu vivi ali, eu falei, por que não ajudar essa comunidade que eu sei do tamanho da carência? Eu não vou dizer que é a mesma carência porque os tempos são outros, eu saí de lá tem 30 anos quase. Então, fiquei muito tempo afastada da comunidade, mas visitava uma vez ou outra a família que mora por ali ainda. E, passado todo esse tempo fico cada vez mais feliz com os resultados que a gente tem alcançado, muuuitas história de sucesso. Eu entrei em 2009, como educadora.  

 

O projeto do Criança Esperança financiou um laboratório pra gente. Então, por exemplo, a gente tem lá a cadeia do DNA, o esqueleto, tem cérebros, microscópio. Esse projeto financiou as nossas aulas com esse aporte que a gente não tinha. Como são nossas aulas? A gente usa projetor, então, a gente projeta as imagens, projeto trechinhos de filmes pra fazer alguma discussão, então por isso que eu te falei que é muito diferente da escola. E assim, o que a gente escuta dos nossos educandos é: “Nossa, isso era tão simples assim? Por que na escola não conta?” Porque o método é totalmente diferente. Lá os meninos deitam no pufe pra assistir aula, eles não ficam atrás de uma carteira; eles ficam se eles quiserem. Tem carteira? Tem. Carteira colorida, o ambiente é deles, então, é totalmente diferente.

 

Nós tínhamos uma coordenadora institucional que fazia captação pros nossos projetos. Abriu um edital do Criança Esperança, nós mandamos um projeto pra eles com o minicurrículo de todos os profissionais. E a gente acabou recebendo retorno positivo de que eles nos ajudariam, foi um projeto que a gente mandou pra eles. Se não me engano o nome do projeto era Alquimia dos Saberes. Por quê? Porque é essa coisa do Laboratório de Ciências, de Biologia, tudo estava nesse projeto, foi o desenho desse projeto. Nós não temos um prazo pra pessoa ficar lá, eu acho que o Educadores Sem Fronteiras está não só no conhecimento, mas na necessidade da pessoa: “Eu quero passar no vestibular” “Ok, se você passar você pode fazer sua faculdade e deixar a gente, ou...”. A gente tem muito caso de gente que passou, está fazendo a graduação e continua conosco. Hoje nós atendemos 80 educandos, 40 no ensino fundamental e 40 no ensino médio.  240 pessoas, no mínimo, já usaram esse material. Quando os meninos têm esses conteúdos na escola, é aquela figurinha do livro, que ele só pode olhar. Com o laboratório ele vai lá, ele desmonta, ele monta, ele descobre pra que serve tal pecinha: “Não consigo encaixar, como chama isso, onde põe?”. Esse manuseio traz pra eles, além do prazer imenso de estar descobrindo uma coisa nova, desperta uma curiosidade para além daquilo. Eles ficam ansiosíssimos: “Quando a gente vai usar de novo?”, então isso traz exatamente o que a gente busca, aquele brilho de: “Olha, como é isso? Quero saber mais”.

 

Depois que eu me afastei da igreja, e juntando com todos aqueles escândalos que a Igreja Católica passou e com todo o conhecimento que eu desenvolvi com as minhas pesquisas – eu fiz pesquisa na área de Religião – eu diria que, eu não posso dizer que eu sou ecumênica, porque o Ecumenismo pressupõe que você tenha uma e dialogue com as outras, mas eu estou próxima a essa. Eu transito em qualquer uma e sempre fui muito bem recebida. Vai fazer quase 20 que sou casada. A gente tem o Dudu, fofinho, está com dois anos e cinco meses.

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