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História

Uma cozinheira de mão cheia

História de: Cristiane Marcondes dos Santos Dualibi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/12/2014

Sinopse

A chef de cozinha e micro-empresária Cristiane é mãe de duas crianças que frequentam a ONG Quintal Mágico, em Osasco. Em seu depoimento, Cristiane nos conta a origem da família e a infância passada parte no Paraná e parte na cidade de Osasco. Fala sobre as dificuldades que passaram após a separação dos pais quando tinha nove anos de idade. Lembra as escolas onde estudou, as brincadeiras de infância com a irmã e como conheceu seu marido quando tinha 13 anos. Descreve o primeiro trabalho, numa clínica de hemodiálise aos 14 anos e os vários trabalhos que teve ao longo de sua trajetória profissional. Como gostava de cozinhar, interessou-se por fazer ovos de chocolate, ingressando no mundo da culinária. Do chocolate passou para os salgados, acabando por fazer curso superior de Gastronomia. Lembra os empregos que teve na área de gastronomia e fala sobre o trabalho atual junto com o marido na produção de doces e salgados para festas. Descreve a cirurgia que fez para reduzir o estômago e a dificuldade que teve para engravidar por causa da obesidade mórbida. Finaliza falando sobre a ONG Quintal Mágico, onde seus filhos estudam e a importância do trabalho desenvolvido na conscientização ecológica das crianças que lá estudam.

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História completa

Meu nome é Cristiane Marcondes dos Santos Duailibi. Nasci em Osasco, no dia 2 de março de 1977. O meu pai é Osmar Marcondes dos Santos, ele nasceu no Paraná, e a minha mãe Sandra Maria de Oliveira, nasceu em Aparecida, interior de São Paulo. O meu pai ultimamente já está meio parado, mas a profissão dele é sapateiro. E a minha mãe é contadora. Eles estão separados, eu vivi até os nove anos com o meu pai. Então a minha mãe é a pessoa que está ali pro que der e vier, está sempre comigo me apoiando. Ajuda quando eu preciso com os meus meninos, trabalhadora, sempre trabalhou a vida inteira dia e noite pra cuidar de mim e dos meus irmãos sozinha.  Somos três do primeiro casamento e tem um caçulinha de 14 anos que é do segundo casamento dela. Tem a Andréia, depois tem o meu irmão Marcelo e tem o Rodolfo que é o mais novinho.

Eu passei por muitas casas. O que eu mais me recordo nem era aqui em São Paulo, com quatro anos nos mudamos pro Paraná e eu tenho muita lembrança de lá. Lembro muito da escola. Eu não sei se pelo meu filho estar com essa idade e eu lembrar muito da escola do tempo que eu ia. Lembro-me da cidade, lembro-me das casas que nós moramos lá, nós moramos numas três ou quatro casas até meus pais comprarem uma. A escola não era tão próxima da minha casa, era próxima do trabalho da minha mãe. Era uma escola grande, não lembro muito como era por dentro. Lembro-me de uma sala e me lembro do parque. Teve uma cena que acho que me marcou que o meu irmão escorregou no escorregador e machucou o queixo, levou ponto e tudo então acho que isso marca. Eu acho que por isso que eu lembro tanto do parque, o escorregador de ferro. É isso que eu lembro mais. Lembro-me da praça que tinha em frente à escola, lembro das casas que a gente morou ali também.

Nós passamos uns dois anos lá e depois voltamos pra São Paulo, pra Osasco, porque eu nasci aqui. Eu acho que nós fomos morar com a minha avó materna aqui em Osasco mesmo. Lembro que fui pro primeiro ano e eu ia pra escola, ficava na casa da minha avó, ia pra escola que era próxima. Brincava com a minha irmã, com as outras crianças da rua. Lembro-me dessa fase já com oito, nove anos que nós já mudamos pra nossa casa, já não era mais com a minha avó, mas era próximo e lembro bastante, foi a casa que marcou bastante aqui que foi onde nós passamos mais tempo. Eu brincava de queimada, de vôlei, de esconde-esconde, essas coisas mais de antigamente mesmo. Não tinha vídeo game, nada disso, não tinha celular, não tinha nada disso. O primeiro e segundo ano eu estudei numa escola, mas eu não tenho muita recordação. Eu me lembro da escola, sei onde fica, tudo, lembro certinho como era, mas não me lembro de professores de lá. E logo em seguida eu mudei pra outra escola.

Meus pais se separaram quando eu tinha 9 anos. Eu acho que eu não entendia muito ainda. Não lembro tanto, mas lembro que não era bom pra minha mãe estar casada com o meu pai por vários motivos, então nós entendemos. Eu e minha irmã acho que entendemos mais, meu irmão mais novo talvez nem tanto.  Meu pai até se aproximou no começo, sempre pegava a gente, levava pra algum lugar, sempre. No começo ele ficou sempre presente até a gente entrar na adolescência porque adolescente não quer saber de mais nada, mas ele estava sempre ali, levava a gente pra sair, pra viajar. Estava sempre ali.

Eu nunca fui de ter muitos amigos. Eu sempre tive poucos e sempre junto. Então eu tinha algumas amigas, tenho até hoje essas que eu conheci com 13 anos, eu tenho contato até hoje que foi na hora que eu estava entrando nessa fase.  Eu não gostava muito de sair, sempre fui muito caseira. Mas a primeira vez que a minha irmã me levou pra sair não era nem o local pra mim, eu tinha 12 anos, ela me levou pra uma balada que ela ia sempre, ela já tinha 15 e quando eu entrei eu olhei aquilo, falei: “O que é isso? O que eu estou fazendo aqui? Isso aqui não é pra mim”. Eu já não gostava de sair, cheguei, aquele lugar todo escuro com algumas luzes pequenas, baixas, tranquei-me no banheiro. Falei pra ela: “Eu não quero. Eu quero ir embora.” “Ah, agora você vai ter que ficar até a hora que eu for embora”. E eu a deixei lá e fui embora sozinha. Isso me marcou porque ela não quis nem saber. Só que depois de um ano uma amiga minha me levou lá e eu gostei. Era aqui em Osasco mesmo. Hoje é uma academia, mas era uma danceteria, era bem grande, era a mais famosa de Osasco, e conheci o meu marido lá.  Eu era supernova, tinha 13 anos, mas já começou aquela olhadinha daqui, olhadinha dali. Ele tinha 16 anos. Era domingo que a gente ia, era das sete às 11 da noite. Comecei a ir alguns, mas como eu não gostava, não era uma coisa que me satisfazia, eu acho que eu fui só pra conhecê-lo mesmo porque parei de ir e nós continuamos namorando, ele também parou de ir e namoramos até hoje. Passaram 24 anos. Começou um namorinho, uns beijinhos e ele começou a me levar na minha casa porque era tarde. E a gente começou a se ver não só aos domingos, eu estudava, ele ia me buscar na escola e a gente começou a se ver todo dia praticamente. A gente começou a namorar nessa fase mesmo. O nome dele é Marco Aurélio. E a gente namorou bastante tempo. Namoramos seis anos e ficamos noivos quatro anos e com dez anos foi o casamento finalmente.

Eu comecei a trabalhar com 16 anos, então quando eu fui pro colegial eu já trabalhava. Era levantar cedo, ir trabalhar, ir pra escola, chegar em casa meia noite, aquela vida de trabalhador estudante.  Eu comecei a trabalhar mesmo com 14, só que eu fiquei pouquinho tempo, trabalhei numa clínica que o meu cunhado conseguiu pra mim, mas trabalhei pouquinho tempo lá. Eu era recepcionista numa clínica de hemodiálise. E era bem sofrido, então eu não gostei por ver cenas que são tristes demais eu acho. Então eu não fiquei muito tempo lá, não. Sempre eu estava mudando de emprego, eu ficava um ano, um ano e meio e já mudava, mais um ano, um ano e meio, já mudava. Sempre recepcionista, telefonista, até eu me achar.

Como eu sempre desde pequena gostei muito de cozinha, com nove, dez anos eu já fui pra cozinha fazer bolo, ficava aqueles bolos horríveis, mas eu estava lá. Minha mãe não estava em casa eu ia pra cozinha, eu e a minha irmã, mas eu gostava mais que ela. Eu comecei a fazer bolo, bolo, bolo, comecei a fazer arroz, feijão, com 12 anos eu já cozinhava tudo. Com uns 18 anos eu lembro que eu saí de um serviço e o dinheiro que eu recebi lá eu comprei tudo de chocolate e comecei a fazer chocolate. Fiz bombom, fiz ovo de Páscoa e ali que eu comecei. Isso foi em 96, então eu já tinha 18, 19 anos. E dali eu não parei mais. Comecei no chocolate, passei pra bolo, passei pra salgado, até que um dia minha irmã chegou e falou: “Cris, tem uma faculdade pra isso”. Eu nem sabia que existia. Ela: “Tem uma faculdade, gastronomia.” “Mas como é que é isso? Conta”.  Desde que eu comecei com chocolate nunca parei. Quando eu ficava desempregava o que me salvava era issoi, meus bolos, meus salgados, mas eu vendia mais pra conhecido. Acho que em 2000 pra cá que eu peguei mesmo pra fazer tudo. Em 2004 eu entrei na faculdade e eu comecei a trabalhar com festa. Eu não queria me tornar uma chef de cozinha, eu queria ir lá, aprender as técnicas, minha área sempre foi mais a confeitaria, que é a parte que eu gosto mais até hoje, falei: “Não quero trabalhar em hotel, não quero trabalhar em restaurante chique, não quero nada disso. Eu quero aprender as técnicas e quero ser confeiteira”. Trabalhei em alguns restaurantes, peguei uma experiência legal e agora eu trabalho por conta. A faculdade foi maravilhosa. Eu faria tudo de novo. É demais, a faculdade ensina muito e eu estava ali me realizando mesmo. Na época que eu fiz foi a época que deu o boom da gastronomia, então tinha muita gente ali porque era moda. Eu não, eu estava ali porque era o que eu queria mesmo, encontrei-me mesmo.

O meu primeiro trabalho mesmo foi como confeiteira em um restaurante terceirizado, ele tem dentro de várias empresas. E eu comecei ali. Eu lavava banheiro, eu lavava chão, eu fazia de tudo e o chef de cozinha chegou, falou: “Você tem faculdade, você é formada”. Eu falei: “Mas e aí? Eu tenho que começar de algum jeito. Eu não me importo de estar aqui fazendo isso. Fazer o que? Eu tenho que passar por isso? Eu tenho que passar, a gente tem que começar de baixo”. Então eu não me importava, não. Lavava, fazia tudo e fazia os meus doces também e todo mundo gostava. Trabalhei legal ali acho que uns dois anos e meio mais ou menos. Eu morava em Barueri nessa época, que eu me mudei pra lá com a minha mãe, nós saímos de Osasco e fomos pra lá. Em Barueri foi em 2000. Minha mãe conseguiu comprar a casa lá e nós fomos.  Nós moramos um tempo casados com a minha mãe e nós compramos aqui em Osasco e viemos pra cá.

Os meus filhos demoraram bastante. Eu tinha obesidade mórbida, então eu fiz redução do estômago, eu não conseguia engravidar, por isso que eu fiz a redução. Então eu não conseguia de jeito nenhum. Depois de dez anos de casada que eu tive o meu primeiro filho, que foi depois que eu fiz a redução. E passaram dois anos o médico falou: “Você pode optar, abdominoplastia ou o bebê?”. Eu falei: “O que vier primeiro está bom”. Veio o bebê. E logo em seguida já veio o outro. Eles têm dois anos de diferença. Demorou tanto e já veio um atrás do outro e os dois estudam aqui. O Mateus, que tem quatro anos e o Felipe tem dois anos.

Eu vi saber do Quintal Mágico depois de muito tempo. Eu morava aqui já há cinco anos e nem sabia da existência porque eu não tinha criança, então eu não procurei nunca saber. Quando eu tive o meu primeiro filho, fiz amizades no ponto de ônibus ou dentro do ônibus mesmo e muitas falavam daqui pra mim e tinha acabado de mudar pra cá, que era em outro local, eles tinham acabado de ganhar o terreno, fazer o prédio, tudo. Era muito recente. Eu lutei um ano pra conseguir colocá-lo aqui. Eu ia na secretaria da educação e não conseguia vaga, até que eu consegui, foi bem na semana do aniversário dele, foi o presente dele quando ele fez dois anos. E eu amei a escola. Vim aqui conhecer, falei: “Não quero outra. Se arrumarem outra eu não quero. Eu quero aqui”. Eu acho que o trabalho deles aqui é muito importante. Essa parte do quintal me deixa maravilhada. Eu amo essa escola! É uma pena que ele está saindo já esse ano, eu estou muito triste por isso. Mas eles ensinam muito essa parte de plantar, de cultivar, de colher e ele leva isso pra casa. O pequeno ainda não participa porque está no berçário ainda, mas o Mateus que já tem quatro anos, não por ser meu filho, mas ele é muito inteligente, ele é ativo. Então o que ele aprende aqui ele leva pra casa e como o meu marido tem costume ter a plantaçãozinha dele lá nos vasinhos, tem florzinha, tem tempero, tem tudo, então ele vai: “Pai, eu aprendi assim. Eu trouxe sementinha”. Então tudo que ele aprende ele quer levar e ensinar a gente em casa. Planta: “Papai, vamos molhar as suas bebezinhas”. Então aprende bastante. E ele fala pra mim: “Mãe, eu plantei, eu colhi, eu comi”. Então é muito legal isso, eu acho que não sei quantas escolas tem isso, pouquíssimas eu acho. Ele sempre fala alguma coisa, mas que me veio na memória foi esse da garrafinha que eu achei incrível da parte dele, de estar reciclando que pra gente era lixo e pra ele era importante aquilo.

Conheço o Criança Esperança pela TV, mais pela TV mesmo do apoio que dá pras crianças, tudo. Sei que apoia o Brasil inteiro. Quando eu fiquei sabendo que começou a apoiar aqui, nossa, foi super legal, importantíssimo eu acho o apoio que teve porque juntou a ideia que já se tinha aqui do Quintal com esse projeto que o Criança Esperança apoiou. O nome do projeto eu sei que é Uma Floresta em Nosso Quintal. Então deu um salto enorme porque a escola mudou, está muito mais bonita, tem um jardim aqui na entrada da secretaria que não tinha antes, o Mateus fala muito do professor Pedro que planta. Foi tudo depois do Criança Esperança. Já tinha, mas depois que entrou o apoio do Criança Esperança com certeza melhorou muito.

Porque hoje o mundo está muito de internet, de celular, então desliga disso, de TV. Ele gosta de TV, se deixar ele fica o dia inteiro na TV. Então desliga desse mundo de informática e coloca num mundo que eu acho que é deles mesmo. Eu acho que é isso que vale, que é importante. É claro que tudo tem sua importância, mas eu acho que o acesso está muito e eu acho que voltando pra esse lado eles vivem como criança mesmo, como tem que ser. O contato com a natureza. Eu acho que é isso que é o mais importante, de ser criança, de estar ali, de se sujar mesmo. Chega em casa com os pés cheios de barro. Vamos tomar banho. Ele fala: “Mãe, desculpa.” “Não tem que pedir desculpa. Não tem problema nenhum. Você tem que deitar e rolar na terra mesmo, você só não pode se negar a tomar banho”. E então é importantíssimo esse contato com a terra, com a natureza.

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