Busca avançada



Criar

História

Uma Costura de Origens e Raízes

História de: Kelly Kim
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/08/2021

Sinopse

A infância com diversas influências culturais. Episódio com a máquina de costura. O curso de Costura e a determinação para representar a escola nas Olimpíadas do Conhecimento. Sentimento de pertencimento e as amizades do Senai. A primeira vez em uma fábrica de moda. Os trabalhos no Bom Retiro e as memórias afetivas no bairro. Primeira viagem sozinha pela America do Sul. As viagens a trabalho e passagem pela China. Falecimento do pai e a época em Venice. O encontro com Adrien e a transformadora viagem pela Ásia. Voluntariado nas cooperativas de mulheres e a inspiração para o surgimento da Calma. Importância da moda e da costura pra ela.

Tags

História completa

P/1 – Kelly, para começar queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento?

 

R – Meu nome é Kelly Elisa Kim, eu nasci em São Paulo, no dia 28 de abril de 1984.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – Minha mãe chama Clotilde e o meu pai Yong.

 

P/1 – E você sabe um pouco da história deles, onde eles nasceram?

 

R – A minha mãe nasceu no Paraguai, em Assunção. E assim, né, tem algumas histórias... (risos) A minha mãe é a primeira filha da Mercedes, que é a minha avó. E um tempo da vida dela ela teve que ir para o interior do Paraguai, ela foi criada por uma tia, a tia Virgília, então não teve tanta proximidade, na adolescência e infância, com a minha avó e meu avô, ela vivia no interior e mais velha, voltou para Assunção. E aí, quando ela voltou, acho que ela cursou contabilidade e depois entrou no ramo da costura, aprendeu a costurar lá no Paraguai. E aí ela conheceu meu pai, que estava lá no Paraguai, que ele tinha chegado, meu pai é coreano, nasceu na Coreia e acho que por conta da guerra, eles foram para o… ele foi para o Paraguai. Naquela época, o que eu escutei, é que o Paraguai prometia uma vida mais tranquila, né, para as pessoas que fugiram da guerra e aí meus pais se conheceram dentro de uma oficina de costura. E aí eles se casaram, começaram a namorar, a minha mãe ficou bem receosa de se casar com ele, porque ele era estrangeiro, então ela tinha muito medo, mas acho que foi um grande amor que eles tiveram. Então, ela foi corajosa, assim. Para ela fazer um passo desse, por ela ser uma mulher religiosa, católica, para ela era muito distante conhecer o estrangeiro, era uma coisa muito absurda e ela enfrentou esses medos, para se casar com ele.

 

P/1 – E como você os descreveria?

 

R – Nossa, é difícil. (risos) A minha mãe é uma pessoa muito correta, muito centrada, muito calma, muito tranquila e muito séria, assim, o que é o certo é o certo, ela é muito... como eu poderia dizer? Muito honesta. E o meu pai já é uma pessoa mais boêmia, mais do papo.(risos) Era, meu pai morreu, mas ele era uma pessoa mais leve, nesse sentido. Então, algumas coisas que ele fez na vida dele talvez não tenham sido tão do jeito da minha mãe.

 

P/1 – E como é a relação com a sua mãe?

 

R – É muito boa, assim. Claro que teve momentos da adolescência mais complicados, mas é muito boa, acho que ela conseguiu me passar muitos valores que, antes de casar, por exemplo, eu não percebia tanto, porque eu acho que eu puxei mais o jeito do meu pai e hoje em dia eu acho que, para mim, depois do casamento eu mudei muito a percepção que eu tenho de mim mesma. E eu acho que os valores da minha mãe são muito presentes no meu cotidiano, hoje em dia.

 

P/1 – E como era a sua relação com o seu pai?

 

R – Era muito boa, muito boa, mas meu pai acabou indo embora quando eu tinha sete anos, eles se separaram, então eu não tive mais contato. Mas eu tenho boas lembranças do tempo que a gente passou juntos e a minha mãe sempre, assim, separou e tudo, mas nunca colocou a gente um contra o outro, enfim, ela sempre teve muito respeito e muita tranquilidade de falar dele, então não tive um trauma, de ódio, de nenhuma maneira.

 

P/1 – E você tem irmãos, irmãs?

 

R – Tenho sim, duas irmãs. A minha irmã mais velha, três anos mais velha do que eu, se chama Diana. E a minha irmãzinha, que eu sempre a chamo de irmãzinha, mas ela já está com trinta anos, ela é sete anos mais nova do que eu.

 

P/1 – E como é a relação de vocês?

 

R – Ai, muito boa! A gente, realmente, é muito, muito unida. Tanto eu, a minha mãe, a Diana e a Gina e tem a filha da minha irmã mais velha, que é a Rafaela, que tem dez anos, então ela é como se você fosse a nossa irmãzinha, também. Então, são cinco mulheres, que a gente é super, muito, muito unida.

 

P/1 – E, Kelly, você conhece a histórias dos seus avós? Você os conheceu?

 

R – Eu conheço a história da minha avó, eu conheci muito a minha vó Mercedes, que é a minha avó paraguaia. Ela vinha bastante para o Brasil, ela passava uma temporada todo ano, de dois a três meses, na nossa casa. Ela fala guarani, minha mãe também fala guarani, porque é a segunda língua lá no Paraguai, então eu lembro, ela era bem bravona, assim. A vó Mercedes, ela sempre falava uma coisa engraçada, tipo: _______, meio que colocando ordem: "Para de fazer bagunça, menina feia".  Aí eu tenho essa lembrança, mas no fundo ela era um coração, assim, enorme. Ah, ela era muito linda, muito bonita e ela tinha um cabelo meio cacheado, era brancona, de olho meio esverdeado. E eu adorava que ela fazia cachinhos, assim, com um jornal e amarrava com tecido, então, toda vez que ela chegava eu falava: "Ai, vó, vem fazer meus cachinhos" e ela sempre fazia. Eu tenho essa lembrança de uma mulher muito feminina, muito vaidosa e a minha mãe não é tanto assim, sabe, do perfume, da maquiagem. Claro que ela se cuida, mas não é tão preocupada e eu acho que eu peguei muito disso da minha vó, da beleza feminina, do perfume, das coisas… tanto que sempre, depois que comecei a trabalhar e tudo, eu sempre comprava um talco, um perfume, um batom, para mandar para minha vó do Paraguai. Quando ela vinha, eu sempre fazia questão de, antes dela ir embora, eu comprar um batom, uma coisinha assim, para ela.

 

P/1 – E sua irmã mais velha nasceu no Paraguai ou seus pais vieram para o Brasil, antes?

 

R – Então, ela nasceu no Paraguai, mas não oficial, porque ela foi registrada no Brasil. Então, eu acho que tem alguma coisa que, assim, acho que ela veio muito pequenininha, acabou sendo registrada aqui, mas eu acredito que ela nasceu no Paraguai, não tenho certeza.

 

P/1 – E você sabe a história, o motivo deles terem vindo para o Brasil?

 

R – Então, a migração coreana mesmo começou nesta região. Primeiro no Paraguai, muitos coreanos foram para o Paraguai, para conseguir chegar ao Brasil e depois foram para a Argentina, que tem uma comunidade lá e uma comunidade enorme nos Estados Unidos. Então, acho que a porta de entrada, para os coreanos, sempre foi o Paraguai; depois o Brasil; alguns foram para a Argentina, mas todos eles tinham o grande objetivo de chegar nos Estados Unidos, então aqui era tipo uma passagem, pelo que eu estudei.

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento? Como foi a escolha do seu nome?

 

R – Eu não sei muito bem, mas eu acho que era planejado ter uma segunda filha. E a escolha do meu nome ficou com vários nomes diferentes, mas eu acho que foi meio no dia do cartório, pelo que ouvi falar. Era para ser Laura, Vânia e aí a minha mãe conta que meu pai foi registrar no cartório e acabou escolhendo Kelly, do nada, aí ficou Kelly. Não foi assim super de acordo com todo mundo, mas eu gosto muito. Kelly Kim, eu acho que combina muito.

 

P/1 – E quais eram os principais costumes da sua família? Teve alguma comida, algum hábito que tenha te marcado, na sua infância?

 

R – Então, tudo isso, toda a minha cultura de infância é um grande mix de culturas, né?! Por exemplo, eu tenho a lembrança, minha maior lembrança de criancinha, é quando eu sinto cheiro de cocido. Tem um tipo de chimarrão paraguaio, que é a erva do chimarrão, só que tem duas maneiras de preparar, gelado e frio, que é uma coisa que é muito tradicional no Paraguai, mas, na nossa casa, a minha mãe fazia um cocido, que era para crianças, meio para criança, que ela tostava laranja, casca de laranja, a erva, colocava a água e depois misturava com leite, então era cocido, meio de criança e eles vendem tipo uns biscoitinhos redondinhos, que você quebra e come junto, tipo um café com leite e você come. E toda vez, para mim, quando esse cheiro ficava lá em casa, significava que ia ter coquito e chipa e significava, para mim, que chegou alguém da minha família do Paraguai. Então, essa memória afetiva é muito forte e também, eu acordava, sentia esse cheiro e aquele burburinho, aquela vozinha e era todo mundo falando guarani, porque aí chegou minha tia, sempre vinha alguém, ou a minha avó ou a minha tia. Para mim, marcou muito isso do cheiro, da voz e do espanhol. E, futuramente, quando eu fui crescendo, eu morei um tempinho na Argentina e eu não sabia que eu sabia falar espanhol, só que eu acho que, quando comecei a falar, eu falava tudo bem, tudo certinho, porque já estava gravado, dessas lembranças.

 

P/1 – E você falou desse mix cultural. Como foi crescer no meio de tanta mistura, mesmo, né, de tantos hábitos e costumes diferentes? Isso era um assunto, para vocês, de alguma forma?

 

R – Não, porque, a gente era assim, sabe, nunca foi uma questão conversada. Mas eu percebo isso, já mais velha. Por exemplo: a minha mãe, até hoje – e ela sempre fez comida coreana também – ela tem o hábito de fazer o kimchi, que é aquela salada fermentada. Desde criança, minha mãe sempre fez várias outras comidas, mas ela nunca falou: "Oi, gente, hoje eu vou fazer uma comida coreana". Ela só fazia, a gente só comia, não sabia a origem, o que era do Paraguai, vori vori, sopa paraguaia. A gente só participava, mas nunca ninguém explicou: "Isso é do Paraguai, isso é da Coreia" e mais velha que eu consigo entender as diferenças, né?!

 

P/1 – Você lembra da sua casa de infância? 

 

R – Ah, lembro. Era uma casa muito bonita. (risos) Tinha uma árvore no quintal, era uma casa grande, tinha uma varanda grande, tinham dois quintais, um atrás e outro na frente, na frente tinha uma árvore que tinha uma flor que soltava um perfume muito gostoso. Era uma casa muito bonita.

 

P/1 – E que bairro você cresceu?

 

R – Foram vários, assim. Quando meus pais estavam juntos, a gente viveu em muitas casas diferentes, mas o que eu mais tenho lembrança é dessa casa, que era na Barra Funda.

 

P/1 – E como foi, assim, quais eram suas brincadeiras preferidas? Você brincava na rua, na época, ou no quintal? O que você lembra?

 

R – Ah, a gente brincava bastante no quintal e também na rua. Como era uma rua meio pequena, não passava muito carro, tinha bastante amigos do lado e era uma rua que tinha bastante criança. Tinha duas irmãs que moravam do lado da nossa casa, dois meninos que moravam, irmãos também, na frente, e um outro menino, o Fábio, que morava do lado desses meninos. Então, a gente passou a infância inteira brincando na rua, juntos.

 

P/1 – E, Kelly, me explica uma coisa: você falou que você lembrava da sua família paraguaia vindo para sua casa. Como é um pouquinho, você sabe um pouquinho da história da família da sua mãe? E como era, eles passavam um tempo na sua casa, como era isso?

 

R – Olha, a história da minha mãe, da família da minha mãe, eu não sei exatamente, assim, historicamente, mas a gente escuta muita coisa, para lá e pra cá. Eu entendo que a minha avó trabalhava no consulado lá no Paraguai, no consulado americano, isso eu escutei. Outra coisa que eu escutei é que o pai da minha mãe pode ser que seja indígena, porque a minha mãe é diferente das outras irmãs, a minha mãe é mais morena, as minhas outras tias são mais de olho claro. E é isso. A mãe da minha avó, eu não sei nada, praticamente, talvez ela já tivesse morrido quando a minha mãe nasceu, mas o sobrenome da minha família do Paraguai é Galeano, então dizem que é muito da Espanha. Essa família é uma migração da Espanha.

 

P/1 – E quando você era pequena, você pensava no que você queria fazer, quando crescesse?

 

R – Aí, eu acho que a admiração que eu tenho pela minha mãe, me fez ter a mesma profissão dela e como a minha mãe é uma pessoa mais séria, mais firme, ela não é muito de conversa e, para eu me aproximar da minha mãe e eu sou muito faladeira, pergunto as coisas, então eu sempre passei muito tempo, mesmo quando ela não falava nada, eu começava a contar histórias, inventar histórias, enquanto ela costurava e foi assim até eu sair da casa dela. Tipo, ela costurando e eu chegava e contava tudo, coisas boas, coisas ruins, tudo que aconteceu na minha vida e a minha mãe sempre foi uma boa ouvinte. Eu acho que muitas vezes ela não se interessava tanto no assunto, mas ela sempre escutou. E eu acho que isso me aproximava dela, ficar na máquina, mas a minha mãe nunca induziu, nem nada, nunca falou o que eu tinha que fazer, mas eu acho que a admiração que eu tenho por ela me fez escolher trabalhar na profissão que eu trabalho hoje.

 

P/1 – E você lembra um pouco como foi sua aproximação com a máquina? Você lembra o que você costurou pela primeira vez? Alguns momentos. 

 

R – Olha, a primeira vez foi escondido, né?! Minha mãe foi na casa de uma amiga dela de tarde, aí eu falei: "Não, é hoje. Eu vou ligar essa máquina e eu vou costurar, mas ela não pode saber". Engraçado, porque a minha mãe poderia me incentivar, ela me incentivava a fazer trabalho manual, mas acho que ela achava muito pesado. Ela trabalhava com máquina industrial, então acho que ela ficava com medo também E aí ela saiu, eu fui, liguei a máquina, peguei um jeans para costurar e aí a agulha entrou no meu dedo, eu puxei no susto e a agulha ficou no meu dedo. E aí, a minha irmã mais velha e a minha irmãzinha ficaram desesperadas, não sabiam o que fazer, porque, eu pensei que eu ia morrer, sabe?! Acho que a gente não tem uma ideia: "Não, é só uma agulha, dá para tirar". Corremos para o postinho lá do bairro, o postinho Barra Funda. Cheguei lá, eu acho que eu fui sozinha, ou minha irmã foi junto, não sei, aí eles me enganaram, né?! Eu falei: "Aí, está com a agulha" e eles: "Acho que a sua mãe está chegando". Aí eu olhei e eles puxaram. Não sangrou, não fez marca, não tenho cicatriz nenhuma, nada, foi superleve. A minha mãe brigou muito comigo, porque eu quebrei mesmo a máquina dela, acho que, na hora que puxou, quebrou tudo por dentro, maior prejuízo. Foi a primeira vez, mas eu não fiquei traumatizada, não. Depois eu fui, insisti. A minha mãe falou: "Ah, agora que eu entendi que você quer mesmo costurar, eu vou procurar o curso do Senai". E a sorte que tinha o curso perto de casa, aí eu comecei a estudar costura.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha doze para treze quando aconteceu o episódio da agulha e eu comecei a estudar lá no Senai com treze.

 

P/1 – E antes do curso do Senai, qual é a sua primeira lembrança da escola?

 

R – Olha, a primeira lembrança, que eu nem sei é induzida, porque tem foto, foi do primeiro dia de aula. Eu fui com a minha irmã, a minha irmã mais velha já estudava na escola e eu lembro que a gente era muito amiga, e ela sempre: "Não, vai dar tudo certo, você vai gostar". Porque eu estudava no pré antes e, no pré, pode ser uma lembrança também, mas no pré era todo mundo que eu meio que já conhecia e eu acho que a que me marcou mais foi o primeiro dia de aula, na primeira série, com sete anos.

 

P/1 – E você ficou nessa escola um tempinho ou você logo saiu?

 

R – Não, eu já saí logo, porque aí foi a época que meu pai foi embora. Era uma escola particular, aí eu fui para uma escola estadual e isso eu também morria de medo, porque todo mundo da escola particular falava: "Nossa, o colégio estadual é muito perigoso". Muito doido, né? Eu era muito criança para entender, fiquei com medo, mas foi de boa, porque era perto da minha casa e eu acho que ia com a minha irmã, era de boa assim, bem pertinho.

 

P/1 – E você tem recordação desse momento da separação dos seus pais?

 

R – Olha, o momento em si... porque, assim, aconteceram várias coisas. A gente sofreu um sequestro, antes do meu pai ir embora e isso foi um pouco assustador, porque foi nessa casa bonita, é dúbio esse sentimento e logo em seguida, ele foi embora. Então, é uma coisa delicada. E ele foi embora, a princípio, para passar um tempo nos Estados Unidos, que é aquela história, de querer ir para os Estados Unidos e, a princípio, a gente ia também, só que esse dia nunca chegou e a gente tinha pouco contato, ligava e, enfim, acabou nunca acontecendo. Foi assim, um pouco delicado nessa época.

 

P/1 – E nessa época começou um novo colégio, mais mudanças…

 

R – Isso.

 

P/1 – E teve algum professor ou professora marcante, nesse momento?

 

R – Ah, não exatamente. A minha professora da primeira série foi muito marcante, mas foi antes desse período de mudança. Mas nesse período da outra escola, não, não teve nenhum professor.

 

P/1 – E como foi começar a estudar costura?

 

R – Ah, foi muito gostoso, porque, assim, eu ainda não podia fazer o curso de costura com treze anos, então eu tive que esperar fazer quatorze. E, na escola que eu estava, no Senai, tinha que pagar o curso de costura. Aí eu conheci alguém, lá daquela escola, que me avisou que tinha o mesmo curso gratuito em outra escola, só que era na Vila Leopoldina, tinha que pegar trem pra ir. E eu comecei, só que a minha mãe falou: "Ai, não vai dar pra eu pagar tudo, não vai dar para pagar a condução para você ir" (entrevistada se emociona). Mas eu queria muito fazer o curso, então eu fui uma semana, depois eu tinha que sair, eu falei: "Ai, eu preciso muito estudar, eu quero muito estudar". Eu fui falar com o diretor da escola, para perguntar se ele podia me ajudar a ir para a escola e ele falou: "Ah, eu vou te ajudar, vou te passar para a assistente social, mas você vai ter que ser a melhor aluna da escola". E nisso estava começando um concurso de costura, para representar a minha escola nas olimpíadas do conhecimento. Tinham várias pessoas também que já estavam lá estudando há vários anos, para conseguir uma vaga nesse concurso. Então, eu tinha que ganhar esse concurso, para conseguir continuar estudando. Eu tive um tempo para me preparar, mas eu acho que foi a primeira vez que eu tenho orgulho de ter coragem de ter ido atrás do meu sonho (choro) e também, foi o meu primeiro trabalho, né, porque para estudar eu tinha que ser a melhor da turma e aos poucos foi tendo eliminatória, eliminatória e no treinamento, ficou eu e uma amiga, a Gisele e, depois de dois anos de treinamento, eu consegui representar a escola, um ano de treinamento em dupla e depois acho que seis meses sozinha. E aí eu fui representante da minha escola, na área de costura.

 

P/1 – E como eram esses treinamentos?

 

R – Ah, isso, eu estava no primeiro colegial, era bem tipo, se chama olimpíadas do conhecimento, então, era um treinamento de atleta em costura. Então, eu transferi a minha vaga para a noite, para estudar na escola à noite e eu estudava das oito da manhã até às seis da tarde. Acho que até às cinco, porque acho que o Senai tem um horário de cinco e meia ou quatro e meia, uma coisa assim. Eu tinha que saber toda a parte teórica, que era muito importante, todas as nomenclaturas, de todas as peças, de todas as máquinas. Então, tinha muitas apostilas, tinha que decorar todas as apostilas. E a segunda parte, é que tinha que mexer, você tinha que ter polivalência em todas as máquinas de costura. Tinha que saber mexer em todas e tem máquinas que são super pesadas, tipo a caseadeira, que faz a casa do botão, é uma máquina enorme, que tem um monte de engrenagem. Então, eu estudei mecânica de máquinas, todas as máquinas que tinham lá, tipo ponto invisível, máquinas muito específicas: botoneira, galoneira, overloque... e eu também tinha que saber toda a nomenclatura de cada peça, então, tinha que também saber fazer a mecânica delas. É uma escola bem técnica, o Senai, foi um treinamento bem específico, todos os dias.

 

P/1 – E, nesse momento, você trocava com a sua mãe algumas experiências, alguns ensinamentos? Isso aproximou vocês, de alguma forma?

 

R – Eu acho que não, acho que não. Eu acho que ela estava dando um ralo, assim, para conseguir sustentar nós três. E eu ficava o dia inteiro na escola, então eu voltava, me trocava e ia para escola estudar à noite, a gente não tinha muito tempo de troca. E, não sei, de alguma maneira, a minha mãe não participou, não. E até quando eu ganhei as olimpíadas, a minha mãe não foi, então, eu acho que ela não estava muito interessada, nesse momento ou estava com outras coisas para resolver.

 

P/1 – Mas, para você, como foi esse momento de ter ganhado?

 

R – Ah, foi tudo, porque foi uma semana que foi todo mundo do torneio. Pra mim essa época foi muito importante, porque eu me senti muito parte de uma família, às vezes, ia sem comer, não tinha como me alimentar, então meus professores se esforçavam para comprar alguma coisa pra mim e depois, a minha turma reivindicou e o diretor acabou dando vale refeição dos professores para a gente como equipe (risos) e foram os meus melhores amigos, porque a escola tinha, mais ou menos, vinte, de doze a vinte áreas diferentes. Então, tinha mecatrônica, mecânica, eletrônica, manufatura, toda essa parte. Era uma escola bem grande, acho que uma que tinha as maiores áreas e eu fui ficando muito apegada aos meninos do torneio, também das olimpíadas. A gente tinha reuniões em equipe e foi mesmo preparado para ir todos juntos, então os meus amigos me esperavam, tinha três amigos que vinham de outras escolas, eles me esperavam no trem, para gente ir juntos e eram uns meninos grandões e eu era super pequenininha, eles me protegiam muito das outras coisas, ou das coisas do dia a dia, éramos irmãos mesmo, sempre tiveram muito respeito e carinho, sempre estavam ao meu lado. Então, nessa época eu fiz muita amizade lá no Senai, também. Essa época, tanto as meninas, eram poucas meninas, acho que de quinhentos alunos, só tinham quatro ou cinco mulheres, a gente tinha um banheiro especial, não podia tomar café juntos, tinha umas coisas assim bem da escola. Mas eu chegava antes, conversava, eu fiz muita amizade lá, eu conversava com todo mundo. Ah, eu acho que foi um dos melhores momentos da minha vida, mesmo. Claro que tem outros, mas, assim, o que eu lembro da minha infância adolescente é que esse era, foi um dos que eu me senti fazendo parte de alguma coisa.

 

P/1 – E quantos anos você ficou no Senai? Qual foi a idade que você permaneceu lá?

 

R – Eu cheguei lá com quatorze e fiquei até os dezessete. Quatorze, quinze, dezesseis, dezessete. Isso, até os dezessete. Aí eu lembro que, depois que eu saí de lá, comecei a trabalhar e é isso.

 

P/1 – E como você se divertia, nessa época? Vocês saíam, vocês e seus amigos, como era?

 

R – Ah, e também assim: a gente cresceu numa casa evangélica, a minha mãe... evangélica não, cristã. Então, no final de semana a gente ia para a igreja, normalmente era sábado à noite e eu me divertia com os meus colegas lá da igreja, porque eu tinha vários colegas também, era uma outra família. Hoje em dia, entendo melhor o quanto ter esse suporte, tanto do Senai e ter esse suporte da religião, me protegeu de algumas coisas que aconteceram na escola pública.

 

P/1 – E quando você começou a trabalhar, qual que foi o seu primeiro trabalho?

 

R – Então, o meu primeiro trabalho mesmo, mesmo, que eu ia lá cedinho, foi um estágio, não durou muito tempo e era associado com o Senai. Foi na Drastosa, é uma empresa da Nike, que faz roupa esportiva. E foi muito diferente, muito legal, porque tinha todo maquinário de ponta, tecnológico, tinha várias máquinas que tinham um controle pneumático, eu acho que era um tipo de controle a vapor, que sugava a peça e tinha corte automático, então era uma tecnologia, para quem é adolescente e gosta de maquinário,  foi um sonho trabalhar lá. Foi muito, muito diferente porque, ao mesmo tempo, eu tinha que me relacionar com pessoas muito mais velhas, profissionais, costureiras e dentro de uma confecção, de uma firma, existem hierarquias. É fábrica e é rígido também. Então, às vezes, você pode ir ao banheiro, é tudo controlado. Então, eu comparo um pouco a uma prisão, não no sentido, de crime, mas existe uma hierarquia, existem grupos, existe o agrado, existem trocas, então, uma leva uma coisa e oferece para outra pessoa. Foi a primeira vez que eu me deparei com esse tipo de relação de hierarquia e também de troca de favores. E também de controle, no Senai também já é bem rígido o sistema, tem o horário das coisas. Eu acho que é importante, mas a vida real é um pouco diferente de quando você era criança adolescente, eu falava: "Nossa, isso é a vida de verdade, isso que é trabalhar", sabe? Foi meu primeiro contato.

 

P/1 – E como seguiu? Quais foram os próximos passos?

 

R – Eu acho que eu queria contar um anterior a isso. Quando eu era adolescente... quando eu era criança, tinha dez anos, tinha uma menina da igreja da minha mãe que era modelo de prova de uma marca de biquíni, maiô, essas coisas e eu acho que ela foi crescendo e ela falou: "Ai, Kelly, vai lá, é aqui perto da sua casa e você pode me substituir". Eu tinha dez, eu provava para oito, porque eu era muito pequenininha. Era prova mesmo, de modelagem. E aí, pra mim, a primeira vez eu tinha uns oito, que eu entrei numa fábrica, eu achei muito maravilhoso: você entrava, na porta,  à direita era o estoque e, quando entrava lá, parece que abria um caminho do encantado, então tinha o cheiro do estoque, aí você subia as escadas, aí no último andar... no segundo andar eram dos donos, que aprovavam a parte mais burocrática e no terceiro andar era corte, modelagem, costura, tudo. Quando entrei lá, eu vi aquela bagunça, aqueles tecidos, aquelas revistas de moda penduradas, eu falei: "Mano, é isso que eu quero pra minha vida". Para mim, era uma coisa muito... um desenho encantado. Lá em cima, mesmo, estavam as modelistas. Eu fiquei muito tempo em contato com uma modelista e, ver o lápis dela, as réguas, tudo, as cores, os desenhos, o desenho da estilista, sabe?! Mas o que eu fiquei apaixonada mesmo foi pela modelista. Ela era muito legal, era uma pessoa simples, mas, para mim, fazer uma roupa era uma coisa muito incrível e eu acho que é isso que até hoje, é o que me motiva estar nesse universo, eu sempre sonhei em estar num ambiente desses. E depois, o meu primeiro emprego mesmo de costureira foi esse, que já foi um outro lado, que era assim uma coisa mais usina, que eu digo de fábrica, então não era tanto aquele sonho colorido, era uma coisa a fazer, era máquina pesada, você tinha que ter equipamento de proteção o tempo inteiro. Então, foi o outro lado que eu também gostava, gosto muito e tenho muito orgulho de saber mexer nesses equipamentos, porque é delicado e é técnico, tem a parte técnica muito importante para a minha profissão, para o meu dia a dia, para quem eu sou, mas essa parte lúdica também me encantou, aí a gente vê que a vida, na confecção, não é 100% lúdica, ela pode ser, aí depende do que você for desenvolver, do que você vai tendo oportunidade. E logo depois disso eu fiz uns trabalhos: trabalhei de repositora de roupa em uma Fast Fashion e eu tinha que pegar as roupas do provador. Depois eu consegui um trabalhinho que eu tinha que fazer modelagem, mas era um tipo de ajudante geral, depois eu fui vendedora. E aí, quando eu consegui mesmo meu primeiro trabalho foi de vendedora, registrado e tudo, de roupa, lá na José Paulino e  tinha que vender, tinha que limpar o banheiro, varrer. Aí foi meu primeiro trabalho registrado, como vendedora. E eu tive a sorte que tinha uma modelista lá que ela fez muita amizade comigo, a Márcia e ela falou: "Ai". Ela sabia que eu tinha feito Senai, ela tinha feito Senai, ela pediu para a dona se, de vez em quando, podia me explicar umas coisas e eu tinha acho que uns dezessete, dezoito, porque eu já tinha saído do Senai, acho que dezoito para dezenove e aí eu consegui ter uma estabilidade de dinheiro, eu ganhava salário-mínimo, acho que era duzentos reais e aí eu consegui me inscrever no curso do Senai técnico, então eu pagava cem reais no curso e cem reais eu ajudava lá em casa. E aí eu trabalhava o dia inteiro e ia para o curso técnico, que aí já é um outro rolê, que já veio com várias referências à arte, porque até então minha formação foi muito específica a técnico, então eu nunca entendi a moda, o glamour, essa parte que eu vi de criança, eu nunca tinha chegado perto, eu cheguei perto da fábrica e aí, nesse curso técnico, eu comecei a ter um pouquinho mais de contato e saber o que é o tecido, como ele é feito, também muito técnico, porque eu estava no Senai e tinha uma ou outra aula mais de criatividade, aí eu tive oportunidade de fazer essa formação.

 

P/1 – E como foi esse momento, como foi abrir mesmo, virar essa chavinha, entrar em contato com a arte, com processo criativo? Como foi isso?

 

R – Nossa, foi um choque. Foi meio estranho, assim, porque a formação criativa do Senai também é um pouco técnica, (risos) então eu não tive tanto contato e eu era uma pessoa de um bairro simples, eu não tive muito contato com arte, zero, assim, não tinha muito acesso a livro, às vezes, eu ia no cinema com o pessoal da igreja, foi acho que o máximo que eu tive acesso a uma revista de moda, recortava as revistas. Então, eu nunca tive acesso à cultura, à literatura, foi um começo lá no Senai, a ter uma pincelada, mas não era ainda um grande acesso, mas eu comecei a compreender melhor como tudo se linkava.

P/1 – E você teve algum professor ou alguma matéria muito marcante?

 

R – Nessa época técnica, eu tive uma professora, não lembro o nome dela, mas que ela falava muito bem, ela usava palavras que eu nunca tinha ouvido para falar sobre o têxtil, então era a minha professora preferida da época. Tinham professores de criatividade, mas eu acho que eu não me associei tanto. Mas dessa época, as minhas maiores lembranças sempre foram mais fortes na costura. A oficina do Senai que eu estudei, que é no Bom Retiro, é uma das maiores oficinas, com mais máquinas, assim. Era, né, porque depois foi destruído e depois, acho que vai voltar, tinha o lugar, a oficina maior, de todas as máquinas, de tudo. Era um lugar muito bonito, todo de vidro, bem anos 1980 a construção e bem industrial. Então, dessa época, foi mais isso.

 

P/1 – E, Kelly, durante o curso, você pensava no que você queria fazer ou era uma coisa mais de estar seguindo, assim? Você tinha planos?

 

R – Não, eu nunca tive planos. Até hoje, assim, planos para o futuro. Eu queria sobreviver, eu queria ter dinheiro, eu queria ajudar mais em casa e eu queria conseguir estudar mais, então eu foquei, tipo assim: quanto mais eu estudar, mais dinheiro eu vou ter, melhor vai ser a vida da minha família e eu vou poder investir na educação. E foi isso que eu fiz, assim, sempre. E, naquela época, depois, né, que eu trabalhava, aí eu comecei a aprender. Eu aprendi muito a parte técnica de graduação de uma peça de modelagem e existia, acredito que já existia, um programa de computador chamado CAD, que tem várias marcas que trouxeram para o Brasil, só que ainda não era acessível, essa parte de digitalização da modelagem e foi aí que eu consegui ganhar um dinheiro, porque eu fazia, eu passava nas lojas e falava assim: "Você precisa fazer graduação das peças?" Aí eu comecei a pegar esse ‘freela’ (freelancer), daí já era junto com o técnico e junto com meu trabalho lá na loja. Então, eu trabalhava na loja o dia inteiro e ia para o curso técnico e de madrugada fazia os freelas de ampliação, que hoje em dia é tudo digital e até, hoje em dia, minha técnica lá no meu atelier, eu faço tudo à mão, porque eu acho a curva diferente, eu não sei, não posso falar também, eu já fiz digital, mas eu não consigo ter, dentro da minha limitação, não sei outros profissionais, eu não consigo fazer no digital, o que eu faço no manual. E aí foi uma boa porque, com esse dinheiro, eu consegui terminar o curso técnico e comecei estudar Modelagem lá no Senac, que é um curso muito mais caro e muito mais sofisticado em termos de técnicas, de como aprender a modelagem e aí eu fui me especializando em alfaiataria, modelagem de alfaiataria.

 

P/1 – E você continuou nesse trabalho como vendedora por muito tempo?

 

R – Eu acho que eu fiz uns dois anos, um ano e meio, dois anos, depois eu fui para outra empresa, que já era modelagem digital, eu acredito, mas não durei muito lá e aí foi indo. Eu queria ganhar dinheiro também, eu queria aprender coisas novas. Então, quando eu via uma oportunidade, eu via uma plaquinha, no Bom Retiro é meio que isso: você vai lá, vê a placa, já manda seu currículo, você entregava lá na loja, aí me chamaram para uma empresa de jeans. Aí eu falei: "Jeans é uma coisa muito legal, diferente, nunca trabalhei com jeans". E eu fui lá, fiz um tempo, daí saí rápido também, porque eu queria aprender e vazar, aprender e ganhar dinheiro e aí eu sempre falava que eu queria ganhar mais um pouquinho e tal, porque eu precisava mesmo, sabe?! Então, eu precisava de duas coisas: o dinheiro para pagar o curso e conhecimento. Então, onde tinha oportunidade, eu ia, para conseguir meus objetivos.

 

P/1 – E o Bom Retiro, era uma época que você vivia muito lá, você chegou... esse bairro tem alguma memória, assim, de alguma forma, para você?

 

R – Ah, o Bom Retiro é tudo pra mim, é tudo. Porque a gente morava na Barra Funda, mas a gente mudou muito também, teve uma época que morou no Bom Retiro. E eu falo para as minhas amigas, não é que eu morava no Bom Retiro, eu morava no interior do Bom Retiro, que é lá uma zona já, a Favela do Gato, muito cortiço, muita pensão. Aí eu sempre brinco, assim: da Rua Tibagi, da Sólon para cima é outro Bom Retiro, é o Bom Retiro do dinheiro, é o Bom Retiro perto do metrô, o que tem acesso. Eu morava para baixo, é outro rolê, são outras pessoas. É um lugar muito de cortiço mesmo, de pessoas muito trabalhadoras, de mercadinho pequeno, bem bairro. Aí passa um pouco ali, da Tibagi para cima, já é mais elite, tudo é mais caro, tem mais confecção e tudo. E o Bom Retiro é tudo, tem tudo, imagina, ter a oportunidade, a minha mãe ter sido resistente de não ter ido para outros bairros, porque sempre foi caro Barra Funda e Bom Retiro. A minha mãe teve muita inteligência de ter conseguido segurar o aluguel e tudo, sendo estrangeira, quem que vai dar crédito, sem holerite? Três crianças e só na informalidade da costura. Então, acho que foi muito inteligente da parte dela e, assim, desde oito, nove anos: "Kelly, vai comprar linha pra mim" Então, eu já ia com a cartelinha de cor e já ia lá comprar linha e aí, quando ia comprar linha, eu passava por onde? Todas as lojas de aviamentos. Já fazia amizade com o pessoal, pegava um botãozinho aqui, pegava outro botãozinho lá, então você já cresce nesse ambiente, você vê os tecidos, aí em uma loja de linha é um monte de prateleira com todas as cores do mundo, é tipo um pantone vivo. Então, é engraçado, porque as minhas irmãs falam: “E a minha mãe ainda ia conferir o troco, aí se faltasse um centavo!”, falava: "Não, tipo: tantas linhas...". E, se eu era enganada, ela brigava comigo, ia lá na loja, porque o dinheiro era contado nessa época. Mas era muito legal e óbvio também que a minha mãe se esforçava muito. A lembrança também que é um rolezinho, era ir para o Centro da cidade, ir no Mappin e tal. Então, ela juntava, sempre levava, uma vez por mês, a gente para passear, para comer no fast food, para comprar sapato no Centrão. Então, essa região, pra mim, até hoje, eu adoro ir no Bom Retiro, tem muito mix. Minha mãe é paraguaia, casada com um coreano, quem que pode representar melhor o Bom Retiro?! E ainda casei com judeu. (risos) Então, assim... e hoje em dia tem outras etnias, tem os bolivianos e é um lugar pacífico, assim, que vive desse mix de pessoas com muito respeito, tem lojas grandes, mas mantém as lojas pequenas. Enfim, o Bom Retiro é tudo.

 

P/1 – E, Kelly, as suas irmãs também tiveram esse contato próximo com moda, costura, linhas ou era mais você, assim?

 

R – Tiveram também, só que a minha irmã mais velha não teve tanta oportunidade de estudar, enquanto eu consegui, porque ela já estava trabalhando, entendeu? Então, ela já começou a trabalhar no shopping com quatorze anos, para segurar a onda com a minha mãe e eu agradeço muito ao esforço dela, de ter deixado de estudar, para eu estudar e aí ela também trabalhou muito com confecção, com vendas em loja, trabalhava em marcas meio de luxo da época e sempre tentava trazer um presentinho, alguma coisa, referência de moda, me emprestava… sempre foi muito generosa, de me emprestar as roupas, porque eu queria também me vestir legal e tudo, então eu tive muita essa oportunidade, porque ela trabalhava numa loja muito transada da época e foi tudo! E a minha irmãzinha também, ela cursou Design de Interiores, depois Design, na faculdade. E a Diana começou a trabalhar no Bom Retiro também, numa empresa que eu trabalhava e aí ela começou com vendas lá, o que a possibilitou ter o final de semana também, então melhorou muito a vida dela. E a minha irmãzinha também começou a trabalhar de assistente de estilo, com uma colega minha da faculdade, a minha mãe também conseguiu um trabalho de costureira numa fábrica lá no Bom Retiro, porque até então ela nunca teve carteira assinada. Então, quando a gente já estava mais velha, ela também conseguiu ter a carteira assinada,  trabalhar em uma empresa. Então, todo mundo teve muito contato, por isso foi fundamental minha mãe ter continuado ali no bairro, acho que a gente teve mais oportunidades, por conta de morar ali também.

 

P/1 – E como foi desenrolando sua vida de adolescente, essa transição de adolescência e juventude para essa vida mais adulta, no sentido profissional, mas também, o que estava acontecendo na sua vida pessoal? Assim, em relação, você tinha relacionamentos, como você se divertia, o que estava acontecendo?

 

R – É, como eu nasci ali na Barra funda e o Bom Retiro, é lugar de escola de samba. Então, desde muito cedo eu ia para a Camisa Verde Branco, eu falava: "Ai mãe, vou andar de bicicleta". Mentira, eu ia lá para o Camisa, porque eu morava na rua do Camisa, uma época. E aí outro rolê porque, também, Barra Funda, outro bairro de primeira. No samba, quem que está lá? Os empresários, a atendente da padaria, o pessoal do Correio, os cobradores, as cobradoras de ônibus, então todo mundo do meu relacionamento... professora, às vezes, estava lá, pai dos colegas, pai e mãe, as crianças da escola, às vezes, estavam lá. Então, para mim, isso me deu muito esse senso de comunidade, também, de me sentir parte da comunidade da Barra Funda, eu fui crescendo, assim, ali. Aí tem um samba lá no Zonga, ali na Anhanguera, tinha na época, quando eu tinha dezoito, dezenove anos. Então, toda sexta–feira era ‘colar’ lá no Zonga, aí estava todo mundo: os moleques da escola, da escola particular também tinha os playboyzinhos metidos a sambistas, o maloca,  o pessoal que era da umbanda, muita gente da umbanda. E sexta-feira era aquela alegria, todo mundo lá, assim: não tinha um trocado para ir, não tem problema, só pegar um copinho de vidro, que aí chegava cervejinha e tal e aí esse… ah, foi muito legal, eu acho que eu fiquei indo lá pro Zonga dos dezenove até os vinte e dois. E nessas, assim, começava: "Vamos ali pra Vila Madalena, tem os barzinhos e tal, domingão tem um sambinha lá". E aí ia eu e a minha melhor amiga, Amanda, da escola, aí um dia eu conheci um rapaz lá nesse samba, que era mestiço que nem eu, que eu me identifiquei logo de cara e eu acho que esse relacionamento foi fundamental para mim, para eu continuar a minha carreira. Era uma pessoa de outra classe social, que teve acesso a faculdade, essas coisas, estudo e, para mim, ele foi uma pessoa que me abriu todo o mundo que eu, digo assim, porque eu era do interior dali, das comunidadezinhas ali: Barra Funda, Bom Retiro e ele estudava na USP, estudava no Mackenzie também, fazia duas faculdades, trabalhava, era de uma família que tinha acesso a muitas coisas diferentes e eles, a família deles, sempre me incentivaram a estudar. Então, quem me inscreveu na escola, na faculdade, falou: "Meu, tem que fazer faculdade". Eu já estava com uns vinte, vinte um, já não era, assim, eu já era um pouco mais velha na turma da faculdade, eu fui um pouquinho mais velha, mas tinha também mais coisas de costura e tal, eu já fui com uma bagagenzinha. Então, nesse sentido, o Fábio foi uma pessoa que me incentivou e que me abriu o universo, tipo assim: nas rodinhas, todo mundo era da turminha da USP e eu observava muito o que eles conversavam, às vezes, eles falavam inglês e eu falava: "Gente, que legal!" Tinha um artista plástico, filho de um artista brasileiro muito famoso, o filho dele estudava também Arquitetura na USP e aí teve vernissage, eu com vinte anos lá, só sabia de pagode, a vernissage numa residência artística, eu falei: "Nossa, é muito chique, o que é isso?!" Aí tinha, tipo umas intervenções, eu não entendia, para mim tudo isso era muito… eu não entendia, mas eu queria muito aprender e também, não no começo, depois eu comecei a entender, que eu ficava muito me sentindo inferior, porque eu não tive os mesmos acessos, e depois eu comecei a perceber que eu não precisava me sentir inferior, eu precisava perguntar, eu falei: "Não, eu não sei o que é isso". Mas no começo eu tinha muita vergonha de perguntar porque, pra mim, parecia muito óbvio algumas coisas, que para eles poderiam parecer e eu acho que aí que eu tive contato com pessoas acadêmicas, que liam livros, que falavam em outras línguas, que tinham referências artísticas, que assistam filmes diferentes. Então, aí que eu entrei para o mundo alternativo de cinema, de aprender e isso que eu queria muito, aprender, aprender e quando abriu esse mundo para mim, eu falei: "É isso que eu quero pra minha vida, eu preciso aprender com eles".

 

P/1 – E você fez faculdade?

 

R – Fiz, fiz faculdade e também já outro universo se abriu. Foi tudo meio junto. Então, eu comecei entender de cinema, aí tinha história da arte, tinham várias coisas que me desenvolveram, mas a faculdade, para mim, além de ser uma descoberta mais acadêmica e cultural, também foi uma descoberta de adolescente e de ter também o meu grupo de amigos. Então, foram duas coisas que eu, desse momento, que eu formei todo meu... como que fala quando você tem um grupo de trabalho para o futuro? Eu formei toda a base que até hoje é meu grupo de trabalho, que me incentiva, me apoia.

 

P/1 – E que curso você fez?

 

R – Moda. Eu fiz curso de Moda na FMU.

 

P/1 – E nessa época, assim, indo para o final da faculdade, você estava trabalhando?

 

R – Eu já estava por tudo, lá no Bom Retiro. (risos) Aí vou já pular umas partes, assim, aí eu já fui para... eu fiquei muito tempo como assistente de modelista, então fazia ampliação de alfaiataria à mão, só que eu comecei a achar esse trabalho um pouco solitário demais e aí eu tinha representante de tecido, amigo de amigo, marido de amiga, de colega de trabalho e eu falei para um senhor: "Ai, eu queria muito trabalhar com estilo. Você pode me ajudar e ver algum cliente seu, que está precisando? Eu quero trabalhar na equipe de estilo de alguma marca". Apesar de eu gostar muito da modelagem, eu me sentia muito solitária. Eu achava que era um trabalho muito isolado, sem contato com outras pessoas, é muita concentração técnica, matemática. E aí ele conseguiu um trabalho para mim, numa das maiores empresas de lá, como assistente de estilo e aí foi muito legal, aí eu fiquei trabalhando como assistente, aí eu fui contratada por outra empresa, como estilista júnior, que já era no Itaim Bibi, eu já estava na faculdade e depois eu fui contratada como estilista mesmo, lá no Bom Retiro e, quando eu terminei a faculdade, eu já trabalhava há dois anos, três anos como estilista mesmo. Então, era muito corrido, tinha que fazer as coleções, era muita coleção, tinha que ir para faculdade, mas foi tudo muito legal. 

 

P/1 – Mas ali você se sentia realizada?

 

R – Por muito tempo eu achei que era uma coisa mais robótica. E aí eu aproveitei o final da faculdade pra eu sair dessa empresa, também eu tinha juntado um dinheiro e aí eu fiz uma viagem pela América do Sul, porque eu me sentia muito... eu achei que foi um bom momento também terminar a faculdade e conhecer outras coisas. Mas eu achava mais robótico e depois eu fui viajar, depois eu voltei, com outra cabeça, continuei trabalhando nessa área, como estilista. 

 

P/1 – Como foi essa viagem? 

 

R – Ah, foi muito legal, porque eu acho que foi a primeira vez que eu consegui... não sei se é um fato, mas eu sentia assim: que eu entendi que a gente atrai um pouco as coisas. E que eu, de verdade... antes dessa viagem eu estava tendo uma vida bem agitada. Muito agitada, muito Augusta, muito rolê, muita bebida e eu acho que foi um bom corte, pra eu tentar olhar pra minha vida de outra maneira e ser mais responsável. Então, nessa viagem eu pensei muito: “Não é tão legal beber e dirigir”, essas coisas, sabe? Então, eu comecei a me enxergar que eu poderia melhorar, em algumas coisas, na minha vida. E foi muito legal, porque eu fui meio sem grana e eu atrai algumas pessoas, conheci muita gente diferente, tive que me cuidar. Hoje em dia eu consigo entender mais o risco do que é uma mulher viajando sozinha, do que na época. Para mim, foi super, assim. Eu fui pro Paraguai, acho que foi a última vez que eu fui pro Paraguai. Fiquei com a minha família, encontrei todo mundo, então foi um momento de resgate. Acho que eu cheguei a fazer seis meses nessa viagem e aí eu voltei pro Ano Novo, eu acho. Acho que foi isso, mais ou menos. Quatro meses, não lembro muito, mas eu fiz Paraguai, Argentina e subi todo o Chile. Então, foi também um momento de amadurecimento. Eu lembro como um ponto de amadurecimento, de falar: “Opa, espera aí, pra onde que eu vou?” Eu também não sabia muito se eu ia continuar nessa área, eu achava o trabalho anterior um pouco robotizado e aí, quando eu voltei, eu tive outra oportunidade, que foi também muito boa pra minha vida profissional e eu acho que essa experiência da viagem, de liberdade também, de fazer as suas escolhas. O dinheiro era pouco. Então, ou você comia... como você se administra porque, assim: eu morava na casa da minha mãe, então é muito fácil. Querendo ou não, tem o básico, a comida está lá e tal. Então, foi a minha primeira viagem de experiência independente. 

P/1 – E como desenrolou isso? Depois dessa sua volta, os seus trabalhos. Aí você já começou a pensar o que você queria? Também não? Como que foi?       

R – Aí eu comecei a trabalhar numa empresa um pouco maior, eu tinha um cargo muito bom dentro dela, que me possibilitava – a outra empresa já, mas essa mais – trabalhar pra viajar pra aprender, pesquisar tendência de moda e isso foi muito importante, porque aí eu comecei a viajar mesmo a trabalho. A primeira vez que eu fui pra França foi em 2008, foi uma pesquisa de trabalho, mas era nessa empresa, então não era uma coisa que fazia parte do meu trabalho e aí, nessa outra empresa, fazia parte do meu trabalho. Então, a cada seis meses, pelo menos, eu tinha que ir pra Londres, Paris e Nova Iorque. Então, eu acho que isso me abriu um outro universo, porque aí também já é outro rolê. Tipo assim: você está dentro. É que nem um artista plástico, que está estudando, entrar no Louvre, ver outros artistas. Então, esse trabalho me possibilitou essa experiência. Então, eu ia nos maiores shoppings. Para moda, eu acho que, pra mim, é o Printemps, em Paris, que é moda lá. Tem o Lafayette do lado, que é uma coisa mais turística. Mas poder entrar no Printemps... em Londres, tipo entrar no Selfridges é entrar numa galeria de arte. E aí, pra mim, mudou completamente a minha visão da moda. Você ver uma peça de desfile na sua mão, você tocar, você ver o acabamento. Então, acho que isso transformou também meu modo de pensar em moda. E foi isso. Estou tentando lembrar mais coisas. (risos) 

P/1 – E você já pensava na Calma ou em outra coisa? 

R – Nem um pouco. Eu vou continuar, então, pode ir falando. Depois eu... deixa eu lembrar direito. Aí eu trabalhei em outras empresas, depois dessa. Uma delas era uma importadora e aí eu comecei a trabalhar lá na China, então eu fui morar em Guangzhou um tempo. E lá que o trabalho começou a... eu comecei a... não sei se é isso, sabe, o que eu quero? Essa quantidade. Foi muito bom o conhecimento lá. A China é um lugar muito inspirador, é muito poético, cultural. É muito bonito, é o novo e o antigo. Então, é meio uma bagunça, meio uma Índia de referência, principalmente nos bairros que não são tão internacionais. Eu morei um tempo num bairro muito internacional, que é tipo muito limpo, no sentido estético, mas eu passei pro bairro do meu escritório, que era assim, de um tudo, tinha tudo: criança, velho, aquela bagunça linda, sabe? Tudo que se conecta e tudo parece que foi feito pra estar ali, umas cores, umas coisas, umas tipografias. Foi inspirador, nesse sentido. O sentido negativo, que não é nem negativo, esse meu dia a dia lá me enriquecia muito, mas era muito trabalho, assim: tinha que ter coleções, entregas, pilotos muito rápido, então eu passava muitas horas trabalhando, era exaustivo. E aí, quando eu voltei de lá, em 2013, uma viagem no meio, em agosto de 2013, voltando pro Brasil, eu recebi a notícia dentro do avião, que eu consegui internet no Rio de Janeiro, numa ponte, que meu pai morreu. E algum tempo antes eu já tinha descoberto onde que meu pai estava, que meu pai estava morando nos Estados Unidos, eu sabia que era um tratamento e tal e eu estava juntando dinheiro pra ir pra lá, porque eu queria muito encontrar com meu pai, porque eu queria fechar essa história, sabe? Mas foi um golpe muito grande, assim, eu não esperava que meu pai ia morrer, de jeito nenhum, fiquei muito abalada, porque eu queria mesmo, a minha missão de vida era encontrar meu pai e aí continuei trabalhando, até o final do ano, mas aí, quando meu pai morreu, acabou um pouco, em mim, uma coisa, sabe? Aí eu decidi: não vou mais trabalhar com a moda, vou pros Estados Unidos. Porque a minha mãe também é religiosa e eu acho que eu gostaria que minha mãe se casasse de novo. Então, eu queria trazer o documento do óbito, para ela ter essa liberdade, dentro do sistema da igreja, enfim. E aí eu fiz isso: fui pros Estados Unidos, entrei em contato com a minha prima, fui lá, deixei meu trabalho e comecei a vender brinco na praia, em Venice, fiz contato lá, com uns mexicanos, consegui uma barraquinha. Primeiro que eu queria mudar de ar, eu queria não estar presa. Então, eu fiquei meio hippie, assim. E, por outro lado, eu queria, precisava de dinheiro também, pra conseguir me manter lá e pra conseguir os documentos, pra trazer pro Brasil e um pouco antes disso, um mês antes de eu ir pros Estados Unidos, eu conheci o meu marido, no Carnaval. E aí que começa a história da Calma. (risos) 

P/1 – Como foi tudo isso? Como estava a sua cabeça, no meio de tudo isso e como foi conhecer o seu marido? 

R – Ah, eu estava nos sonhos, eu falei... meu, consegui juntar, esse trabalho na China me possibilitou – porque lá era tudo pago pela empresa e eu recebia no Brasil – ter uma reserva de dinheiro, deixar uma reserva – porque até hoje ajudo em casa, normal – em casa e, eu ia fazer trinta anos, eu estava assim: por tudo, por todas. Eu falei: “Meu, não quero compromisso com ninguém, eu não estou nem aí, vou fazer minha vida, não volto nunca mais, vou fazer meu pé de meia lá nos Estados Unidos”. Pensei assim: “Vou morar pra lá, conseguir uma oportunidade de trabalho, vou começar com os meus brincos, sei lá”. Estava bem aberta para o mundo. Estava num momento que... 29 anos, ia fazer trinta lá, mas aí eu conheci o Adrien, só que foi bom, porque não tinha nenhum interesse em ter nenhum compromisso e o Adrien também estava fazendo uma viagem, um ano sabático, aqui na América do Sul, tinha começado pelo Rio, a gente se encontrou e falou: “Que da hora, nossa, pessoal legal, iluminado”. Quando eu o vi, assim, parecia uma entidade, um espírito, aí eu falei assim: “Mas beleza, estou indo pros Estados Unidos, ele vai viajar o mundo todo, quem sabe daqui um ano eu não vou lá pra Paris, passear, encontro com ele de novo”, mas a gente ficou na internet, conversando e contava: “Cheguei nos Estados Unidos” “Cheguei na Colômbia, conheci tal”, ele era músico, na época, rapper. E aí ele mandava, fazia cartão postal de música no You Tube, eu ia acompanhando, tal. Aí, um momento, eu falei assim, lá nos Estados Unidos: “Muito estranho, tipo a gente está convivendo como um casal”, só que eu não tenho expectativa de encontrar com ele, falei: “Vou dispensar, assim, deixá–lo curtir a vida dele”, porque era uma vida meio de casal, só que não era casal, não ia se ver, mas era de muita amizade também, a gente queria notícias, mas eu falei: “Eu acho que isso está me prejudicando o meu dia a dia, os meus objetivos”, escrevi: “Ai, Adrien, sinceramente acho melhor a gente terminar por aqui, pra você estar mais livre na sua viagem também, não precisa me escrever e tudo e eu também vou cumprir meus objetivos aqui: eu queria morar em San Francisco, estava juntando grana pra ir”. Aí o Adrien falou: “Não, não, não. Vou parar a minha viagem”. Isso é uma coisa que eu não esperava, mas o Adrien sempre foi muito atento aos... está ainda, às coisas e ele falou: “Não, não. Vou falar com a minha família, estou indo aí pros Estados Unidos!” Aí, quando o Adrien chegou lá, eu falei assim: “Você fez isso, veio até aqui atrás de mim, então agora você senta aí e eu vou contar tudo: quem eu sou, de onde que eu vim, meus traumas e o que eu estou fazendo aqui. Eu tenho uma família complicada, tive uma infância complicada em relação a homens, abandono”. Então, ele chegou lá, eu expliquei tudo. Eu acho que ele não entendeu muito, porque a gente não falava... eu não falo inglês, ele não fala português. Então, por isso que acho (risos) que a gente conseguiu continuar e aí eu consegui o documento, voltei pro Brasil, aí nessa viagem que o Adrien estava lá, a gente foi pro México, foi viajar pra um monte de lugar e o Adrien falou: “Não, agora, quando eu voltar pra França, você vai na França comigo, vai morar na minha casa. Você aceita?” Eu falei: “Aceito”. Aí eu voltei pro Brasil na hora, comecei a vender tudo que eu tinha, pra conseguir comprar uma passagem pra ir pra França. Aí, lá na França, fui. Foi difícil, dividi em várias vezes, tentei fazer alguns trabalhos de lá, pra algumas empresas daqui, fiz, que eu consegui sobreviver assim e depois, terminou minha estadia de três meses, não pode ficar mais tempo e eu também não queria inventar papelada de me amarrar com uma coisa, pra ficar lá ilegal. Não queria nada disso. Falei: “Meu, acabou”, voltei pro Brasil. Aí uma colega de trabalho me convidou para abrir uma empresa juntas, eu mais na parte criativa e aí nasceu uma empresa nova, com uma ideologia bem diferente do que o Bom Retiro tinha na época e foram todas essas referências de Los Angeles, que trouxe pra dentro, tudo que eu tinha vivido em Los Angeles foi o ponto chave pra abrir essa empresa, eu fiquei na parte criativa. Não participei em dinheiro e também não recebi lucro, nem nada, mas eu fiz a parte criativa e tal e aí foi o resumo de tudo, toda essa viagem, o Adrien começou a trabalhar em outras coisas lá na França e a gente falou: “Meu, vamos juntar dinheiro, vamos trabalhar pra caramba e, daqui uns dois anos, a gente vai viajar juntos, num lugar diferente, na Ásia” “Beleza”. Aí trabalhamos dois anos direto. Aí eu ia viajar mais vezes, nessa empresa, pra pesquisar e aí, uma das pesquisas, eu passei em Paris, aí o Adrien me pediu em casamento, de surpresa, daí uns dois meses depois, ele tinha um documentário pra gravar aqui no Brasil, então a gente já agilizou, já casou no cartório, fez a documentação e do dia que casou, o Adrien voltou pra França, então a gente casou meio que... mas foi super legal e aí eu fui pra França em dezembro e aí a gente começou essa viagem da nossa vida, porque como a gente é de dois lugares diferentes, a gente não queria começar no Brasil ou na França, a gente queria começar num território neutro. Essa viagem foram dez meses, num total quase um ano, aí começou o meu estudo, porque eu tinha feito faculdade há muitos anos, não entendia muito de sustentabilidade, essas coisas novas que estavam aparecendo, aí foi a minha oportunidade de me atualizar. Então, ganhei o Kindle de casamento dos amigos do Adrien e comecei a baixar livros de moda e aí a gente tinha muito tempo. Como você é turista, mochileiro, você não está lá... não pode gastar muito, mas tem tempo livre na estrada, comecei a ler muito sobre isso e quase no final da viagem, a gente ficou bastante tempo no Vietnã, conheceu uma cooperativa de mulheres lá no Vietnã, muito legal a história delas e isso tocou a gente, profundamente. A gente teve a sorte de poder ser voluntário lá e a gente aprendeu de verdade como elas fazem com tão pouco, com a maconha, o cânhamo, a fibra do cânhamo tecer, tingimento natural, como eles tecem a fibra, como que o caule vira fibra, como a fibra vira linha, como a linha vira tecido. Então, a gente ficou um tempo, o máximo que a gente pôde, nessa cooperativa. De outra maneira eu tinha que ajudar, então eu comecei a fazer modelagens diferenciadas, trabalhando sem cortar nada, desperdício zero porque, assim, imagina que pras meninas fazerem o trabalho que é, tudo na mão, eu não queria, meu, desperdiçar nada do tecido e foi aí que, na estrada, lá, a gente pegou uma moto, ficou viajando lá naqueles arrozais, sabe, aquelas montanhas e o Adrien falou: “Nossa, se um dia a gente for fazer alguma coisa da nossa vida, eu queria que tivesse a ver com esse momento, assim, porque foi muito verdadeiro”. Eu passei dias chorando, não queria ir embora de lá, porque alguma coisa transformou, tanto em mim e no Adrien, lá e aí ele falou: “Se a gente for fazer alguma coisa de vida, se a gente for trabalhar...”... a gente queria muito trabalhar juntos, porque a gente passou muito tempo namorando à distância, a gente queria passar o máximo de tempo juntos, por isso que a gente fez essa viagem e aí ele falou: “Se a gente for fazer alguma coisa, vai se chamar Calma” e aí foi assim que nasceu, assim, o nome Calma, mas aí a gente sonhou com muitas coisas, a gente queria ficar no Vietnã de qualquer jeito, a gente tentou ter um... a gente sempre sonha, né? A gente sempre inventa maneiras de sonhar. Nem tudo dá certo. E não precisa, na verdade, mas a gente sempre tem... os meus planos, você falou: “Tem planos pro futuro?” Não pro futuro, mas eu gostaria de achar algumas soluções. E aí a gente tentou morar em Hanói; pensou em morar no Paraguai, em Assunção; pensou em morar em Paraty, que é onde a gente se casou, mas no final acabamos ficando em São Paulo e aí, a necessidade... Aí começa a história da Calma.           

P/1 – Kelly, teve alguma história, de alguma mulher, algum contato, alguma troca, que tenha sido muito significativa com essas mulheres do Vietnã, que você queira contar? 

R – Tem. Ah, até arrepio, assim. Com todas. Porque, assim, uma comunidade no Vietnã, na divisa com a China, no norte, depois eu descobri, eu estava muito emocionada lá, eu chorei muito, eu não queria ir embora e, assim, eu entendi que tinha a líder dessas mulheres, a líder total, ela ganhou vários prêmios, é uma pessoa conhecida e muito simples também. Às vezes, ela nem ficava tanto lá, quando a gente estava, ela viajava muito, pra defender a tribo dela, pra mostrar pro mundo. Primeiro, essa mulher que dedicou a vida pra ensinar o povoado dela e pra não deixar morrer a cultura deles. Então, de bordado, tingimento. Então, ela treinou essa equipe e eram mulheres, mais ou menos, da minha idade, um pouco mais velhas, tinha muitas crianças que ficavam lá aprendendo também e, quando eu voltei pra Hanói, a gente teve um problema de visto, tinha atualizado várias vezes, porque a gente não queria mais ir embora, mas não podia e, como era muito perto da China, era muito mais rígida a polícia. E, chegando em Hanói, eu comecei – o Adrien foi cortar o cabelo – a procurar – consegui uma internet – mais sobre a tribo Hmong, que chama. E eu descobri que, justo naquela tribo que a gente estava, naquela comunidade, elas tinham sofrido um grande sequestro, desde crianças. Houve histórias de sequestros de crianças, mulheres pequenas, crianças. E tem até essa matéria na Time. Essas crianças sequestradas foram levadas pro lado da China e tiveram, assim, inúmeros abusos e o governo do Vietnã tentou de tudo para trazê-las de volta e conseguiram, só que, quando elas voltaram, elas estavam grávidas, com vários problemas de saúde. Esses abusos foram muito graves. Só que, quando elas chegaram na tribo, a família não queria aceitar. Então, elas começaram a passar fome, como se elas fossem culpadas e sofrer ostracismo de toda a tribo. Então, tiveram mulheres que morreram de fome, como um castigo de terem sido sequestradas e abusadas. Eu não sabia disso. E essa comunidade, que essa líder fez, foi pra empoderar as mulheres porque, o que aconteceu? Ela começou a falar com as pessoas da tribo, fazer reunião da comunidade e explicar: “Gente, ela voltou grávida não porque ela queria, é porque ela foi abusada”. Só que na cabeça... são pessoas campesinas, assim, que nem sei qual a religião, mas é falta de conhecimento. Então, essa líder explicou primeiro e segundo, ela arrumou um jeito para essas mulheres serem donas do dinheiro, da economia daquela região. Essas mulheres que sustentam aquela região. Então, elas são empoderadas, com conhecimento e dinheiro. Essa história me tocou muito. 

P/1 – E vocês pararam nessa cooperativa sem querer? Ou vocês já sabiam dela e foi uma escolha? 

R – A gente... é muito difícil achar qualquer coisa relacionado a moda, tanto na Índia, a gente foi pro Sri Lanka. Eu, sempre, obviamente, estava muito interessada a descobrir comunidades, fazer trabalhos voluntários, porque parece assim: “Não, você entra na internet, se inscreve pra fazer um trabalho voluntário”. Mas é muito... porque, assim: não tem site, sabe, (risos) nesses lugares. Internet tem, mas é muito escondido. No Sri Lanka a gente conheceu um casal que era franco–vietnamita, eu acho: uma mulher que é francesa, mas com origem vietnamita e um homem francês e eles moravam em Hanói, então eles falaram pra gente: “Quando for pra Vietnã, fica na minha casa, tá bom?” Aí a gente mudou toda a viagem e falou: “Ah, vocês falaram pra gente vir...”, tocamos lá e chegamos. Aí eles falaram: “Ai, que ótimo!” Então, eles que ensinaram a gente, eles são mais velhos. Ela trabalha com cinema, é produtora e ele é artista plástico. Eles falaram: “Ah, não, estão bem–vindos”. A gente foi super bem recebido, que a gente estava com medo, assim. O Lolô e a Mimi. E aí eles falaram: “Tem que fazer esse rolê”. Foi lá, alugou a moto com a gente e falou: “Tem que fazer esse rolê. Nesse rolê vai ter isso, isso, isso e isso, essa feira”. As feiras, lá, impressionante. As tribos, impressionante. Eu chorei quando eu cheguei, assim, porque são tribos que andam, assim, com toda roupa neon, com umas costuras. Tipo: cada tribo, você ia pra feira, pra comprar uma batata, vinham as guerreiras. Aí vinham as neons. Parecia tipo um combate, assim. As gatas andando, assim. A outra, com outro estilo. Então, é muito, muito rico. E aí ele falou: “Tem um lugar de uma cooperativa”. O Adrien falou: “Não sei se vai dar tempo de passar lá, pra conhecer”. A gente teve muita sorte. Aí tinha uma alemã e uma vietnamita, que era do sul e falava inglês e vietnamita. E a alemã falava inglês e alemão. E, por meio delas, elas conseguiram traduzir a nossa vontade de ser voluntária lá, porque elas estavam lá por acaso e elas iam ficar uma semana. Não, eu acho que elas iam ficar um mês, talvez. E aí a gente teve a sorte de poder traduzir, porque não tem como, lá. Ninguém fala inglês. E aí a gente teve a sorte de estar junto com essas meninas e participar do programa e a sorte da líder estar lá e autorizar a nossa participação no programa de voluntariado também e aí a gente falou: “Vamos ficar aqui”. E a gente dormia lá, colhia lá as comidas, então tinha que fazer comida, costurar, todo mundo ajudava no que sabia. 

P/1 – E, Kelly, você acha que, de alguma forma, essa viagem e até essa estética, essas roupas que você conheceu, que você viu, teve alguma inspiração, foi alguma referência pro surgimento da Calma? 

R – Eu acho que teve alguns pontos. O primeiro, foi esse estudo de entender o material de outra maneira; o segundo, que não é muito planejado, assim: eu e o Adrien tinha só uma mochila, não dava pra levar muita coisa. Então, a gente tinha meio que vestir a mesma roupa. Então, já era natural: a gente tinha a mesma escova de dentes, basicamente não tinha toalha, basicamente nunca tinha shampoo. Essa viagem é... e você, quando é longo, assim, se habitua – e normal, sem sofrimento, inclusive – a esse estilo de vida que, assim: se der pra tomar banho, deu; se a gente achar um shampoo, tá, sabe? Então, esse outro ponto, o sem gênero da Calma nasceu, mas não foi planejado porque, como eu ia fazer uma roupa pra mim, que o Adrien não podia usar? Pra mim era uma coisa lógica. Como eu vou fazer uma roupa pra mim, só que o Adrien não vai poder usar, por que, se a gente usa tudo junto? Que a gente voltou, tendo esses pequenos hábitos. A influência na Calma acho que foi isso: aproveitar o máximo do que a gente pode, fazer com o que a gente tem e foi isso. Quando a gente voltou pro Brasil, eu tentei me recolocar no mercado, estava muito difícil arrumar um trabalho, mesmo sem experiência, achei que fosse mais fácil. Como a gente estava num território que é meu, em São Paulo, aí eu comecei a procurar muito. Tentei, dei consultoria, trabalhei em quatro, cinco empresas na mesma semana, fazia freela em cada uma, mas acho que a minha primeira decepção, de não ter conseguido me introduzir no mercado, foi que aí eu peguei e falei assim: “Beleza. Então, eu vou lá no Bom Retiro...” – estava lá numa entrevista, a resposta era negativa: “Vou comprar retalhos por quilo, um saco de retalhos”. Fui pra casa da minha mãe, a gente não tinha onde morar, eu e o Adrien, a gente morou no cativeiro, no quartinho da Gina, por seis meses, com a minha mãe e tudo e aí a minha irmãzinha trabalhava na casa dela, todo mundo trabalhava no apartamento, então pegava a mesa de jantar e comecei a fazer modelagem, aí tive a ideia dos lenços, peguei todos os lenços que eu tinha, falei: “Vou transformar isso em jaqueta”. E aí minha mãe também estava desempregada, então ela começou a costurar. Foi, também, uma motivação. Primeiro porque eu precisava de um sustento; segundo, arrumar um serviço para minha mãe. Então, a Calma nasceu aí, assim. E reaproveitando os lenços que eu fui colecionando ao longo da viagem, sempre comprava um lencinho, alguma coisa assim e aí eu reaproveitei, então a Calma nasceu assim: eu pegava os retalhos e aí, como não dava pra cortar tudo de uma coisa só, então cada pedaço da jaqueta era uma cor e aí isso foi ficando legal, porque era único. Então, eu acho que tudo isso, com certeza e acho que até a vida que eu tenho hoje, os valores que a gente tem, como casal, que é outra vida, vem muito da cooperativa, do Vietnã e de toda essa viagem pela Ásia. 

P/1 – E você lembra das suas primeiras vendas de clientes?

R – Ah, lembro. Aí eu comecei, abri o Instagram e, na época, o Instagram tinha uma coisa de girar, assim, que dava pra você tirar várias fotos, fazer um vídeo e eu comecei assim. Aí eu falava no meu Instagram: “Ai, gente, segue lá. Eu abri, tem umas jaquetas, se alguém quiser, é só mandar mensagem e tal” e a minha amiga Mel falou assim: “Ah, e se tiver um bazar na minha casa?” Ela morava num prédio super descolado aqui no Centro, assim e ela chamou – ela sempre foi muito de juntar pessoas – a nossa turma e aí eu comecei a vender, aí eu já sabia que eu ia fazer isso, então eu fiz, sei lá, umas dez, quinze jaquetas, ou vinte, uma coisa assim e aí quase todas venderam. Eu falei: “Então, eu acho que é bom, né?” Acho que as pessoas também queriam ajudar, sabe? (risos) Queriam ajudar e acho que algumas também gostaram do estilo e aí começou, aí eu fui deixando, um pouco, os freelas, mas eu continuei muito tempo trabalhando nos freelas, aí o Adrien começou a aprender a cortar também, a modelagem, cortar todas as partes, então a gente começou e não tinha nem mesa de jantar, nem nada, a gente fazia tudo no chão, mesmo e é isso. Antes eu falava assim: “Um dia, se eu tiver um ateliê, vai ser o lugar mais lindo, mais...” e eu acho que a viagem ensinou: “É o que tem. Não adianta você chorar”. A gente, às vezes, estava de moto, na chuva e ia ficar dois dias molhado, com o pé gelado. Tipo: no meu aniversário eu chorei, porque eu queria comer um doce, sabe? E tipo: engole o choro, sabe? Tudo que a gente tem de privilégio, não adianta. E, se você tem o dinheiro, mas se você andar quilômetros à sua volta, você não vai achar o que você quer. E eu acho que isso que eu trouxe da viagem: “Gata, não tem mesa, faz no chão. Só não arruma desculpa”. É isso que eu aprendi. Não tem tesoura, corta com a faca, sabe assim? Umas coisas assim. Eu não tinha o material básico pra fazer, mas eu fazia com o que tinha. E eu acho que é isso, também, que eu trouxe da viagem e é assim que começou a Calma. 

P/1 – E como funciona o seu processo de criação? Como surgem as inspirações, a estética e as estampas e as cores e as formas sempre foram muito presentes, pra você? Como que é isso? 

R – Então, é que eu passei a vida inteira trabalhando, o meu ofício mesmo é de estilista, então eu desenhava um desenho, pra mim, o meu diferencial no mercado é que eu sou muito técnica, então eu especificava muito os acabamentos, enfim e, como eu mesma faço modelagem hoje em dia, eu não tenho mais uma ficha técnica. Então, quando eu tenho uma ideia... só que não é que eu tenho um monte de ideia, também, (risos) assim e também eu calculo qual é a ideia, o tempo que eu vou gastar e se aquilo faz sentido. Pra eu entrar num projeto de verdade, aquilo já está, muito, na minha cabeça, há muitos anos, na verdade. O último projeto que eu fiz foi isso: era uma jaqueta agora, que eu queria que fosse muito com acabamento de alta costura, mas tinha que ter, eu queria que não tivesse nenhuma costura aparente, que fosse todo duplo, então tem um lance de fazê-lo todo duplo. É um casaco, então, desse lado ele é do mesmo jeito. E demora, é uma coisa demorada. Mas como que era a pergunta? Esqueci. (risos) Ah, como que é o processo criativo! E também tem uma coisa que acho que depois da pandemia eu aprendi: eu não sabia das associações... acho que depois da Calma, na verdade. Pra mim, tudo que eu vejo, os lugares que me inspiram vêm muito, assim, da feira, do mercadinho, dessas coisas. Porque, pra mim, tem algumas composições estéticas da rua ou de onde eu estou passando, por isso que eu gosto desses países, ir pro interior: tem umas composições estéticas que são... ou na feira, por exemplo: por que o cara colocou três frutas assim? E aquilo lá é um símbolo de um monte de referência de história da arte e de uma cartela de cores perfeita. Eu sempre pensei assim. Isso não é uma coisa que eu tinha consciência. Hoje em dia, conversando com outras pessoas, eu me abri muito pela internet, eu entendi, eu trabalhei a minha especialização, também, na época de estilista, era fazer estampa exclusiva, assim, fazer coloração. E aí eu acho que a Calma me deu a oportunidade de conseguir colocar essa essência de ver as coisas do cotidiano, de observar o corpo, o movimento mesmo. Às vezes, eu estou, sei lá, na rua, eu vejo uma pessoa andando de um jeito, então aquilo tudo já, pra mim, faz parte de um movimento, o corpo em ação. Então, todas essas teorias que eram muito normais, pra mim eu já acatava, só que eu não explicava, porque era meu, era meu segredo, digamos. É uma coisa que eu sempre ficava vendo cores, coisas assim e eu consegui ter a liberdade, porque acho que eu já – inclusive em duas outras empresas que eu trabalhei, grandes – tinha um projeto de estampas, só que aquilo não foi desenvolvido, foi cancelado ou tipo roupa sem gênero. Eu já tinha começado esse projeto. Tenho uma foto com o Adrien em Portugal, com a mesma estampa. Eu tinha feito uma camisa, porque eu já vinha. Então, não é nada tipo do nada ou eu fiz um plano de negócios pra vender, atingir o público sem gênero, masculino, trans. Não é. Pra mim, eu acho que a Calma é muito solta, também. Ela reflete também o meu cotidiano em casa, com o Adrien. Apesar de ter duas culturas tão diferentes, a gente tem os mesmos valores íntimos de família, que os nossos pais, de alguma maneira, são muito parecidos, mesmo estando em lugares tão diferentes. E eu acho que a gente teve, tem o privilégio de materializar todos esses sentimentos e essas referências que a gente tem e tipo: sem gênero apoia ou faz alguma coisa, é o que a gente vive. Então, não é que foi um plano. Por isso, você perguntou, no começo: “Você planejava?” Eu nunca quis ter marca. Eu tive a necessidade de me sustentar a vida inteira. E eu acabei tendo, (risos) aprendendo que dá pra dar um jeito, por causa da história desse começo, eu precisava dar um jeito. E a Calma é um jeito que eu estou dando, também. E eu gosto de levar com essa ideia, sabe assim? Não vou falar: “Nossa, eu quero um faturamento, eu vou virar uma coisa”. Não sei. Isso pode virar outras coisas, como tudo na minha vida. No começo também eu falei dos sete anos, foram muitas mudanças que eu passei. Então, eu também tenho isso: tudo pode mudar. Então, eu gosto e eu penso nisso de uma maneira positiva. Não é negativa. Não que eu: “Quero abandonar tudo”. Não sei se dá pra entender a essência. É que as coisas se movimentam, a vida é movimento, nosso corpo é movimento. Tudo que a gente faz é movimento. Então, ter um plano, ser muito fixo, pra mim, é se enganar um pouco. Então, eu gosto de levar assim. 

P/1 – Bem orgânico. 

R – (risos) É. 

P/1 – E, Kelly, quais foram – durante esses anos de Calma – os momentos mais marcantes, assim, pensando em desafios e aprendizados? Teve algum que você queira – que lembre – contar? 

R – Eu queria falar uma coisa super positiva, mas eu acho que o que me marcou, na verdade, foi uma coisa meio negativa: no meio da pandemia, a gente sofreu um golpe de um Banco virtual, que fazia toda a transação do site e a gente acabou não conseguindo pagar. Foi a primeira vez que a gente conseguiu ter espaço numa empresa de estampa, que acreditou no nosso trabalho e abriu pra fazer exclusivo com a gente, né, que a gente não pôde honrar essa primeira coisa. Então, me marcou muito, eu fiquei muito mal porque, assim, eu trabalhei tanto. Enfim, foi um fato que me marcou, porque eu achei muito injusto esse fato. Mas (risos) agora vamos pra uma coisa positiva, acho que me marcou muito, porque você ter o dinheiro, estar tudo certinho e não poder, porque você foi roubado por uma empresa grande, é muito... acontece porque, às vezes, o mundo da internet, do Instagram, é tudo muito perfeito. Mas, assim, existe uma realidade que nem sempre é falada e eu acho que aqui é uma boa oportunidade, a gente... é responsabilidade, também. Então, é isso. Mas que me marcou muito também, eu nunca imaginei, foi abrir uma loja também. A gente abriu uma loja e, pra mim, isso, tipo assim: nunca planejei, nunca sonhei, mas conseguir fazer um ambiente que, de verdade, personifica, uma oportunidade de personificar nossas ideias, num modo de ser uma experiência pra alguém, ser um pouco da minha casa, pra mim é muito legal, muita coisa da minha casa está na loja. Então, eu levei coisas da minha casa. É isso, é um privilégio ter um espaço de acolhimento, também. Aberto, pra todas as pessoas. Acho que é uma coisa que me marcou muito. 

P/1 – Queria saber como, com esse acontecimento, foi esse processo de ressignificar, ouvir, entendendo, enfim, tudo isso que está acontecendo e como a pandemia afetou, também, a sua rotina, os seus negócios? Como foi isso? 

R – Sobre o que aconteceu, o primeiro assunto? Foi muito, tipo assim, uma hora eu pensei: o que me afetou foi isso. Ou tipo: eu paro... eu acho que me marcou, porque eu e o Adrien falamos: “Trabalhar do jeito que a gente trabalha, pra acontecer isso? Será que a gente não pode fazer uma coisa mais simples? Arrumar um emprego?” Porque foi um golpe e ainda a gente está nesse golpe, está vivendo disso. Aí eu pensei em desistir, primeiro e a segunda coisa que eu pensei: isso já foi. Ou eu me esforço pra começar do zero de novo ou eu fecho aqui, fico mal e não consigo mais fazer nada. Então, acho que é momento de escolha. Eu escolhi começar do zero de novo e trabalhar tudo de novo, pra conseguir honrar as minhas contas, o meu trabalho. E aí foi bom porque, de alguma maneira, a gente conseguiu amenizar as coisas, então já está tudo corrigido, está tudo certo. E a outra pergunta? 

P/1 – Sobre o covid, a pandemia. Ela afetou, enfim, o negócio, os trabalhos, mas também sua vida pessoal, de alguma forma? 

R –  A pandemia, pra gente, o meu ateliê sempre foi em casa, então foi muito boa. Eu acho que a gente também começou a ter um ritmo diferente de vida, começou a acordar muito mais cedo, dormir muito mais cedo e eu e o Adrien tivemos a possibilidade e o privilégio de poder trabalhar. Então, acho que foi um tempo rico, de colocar muitas ideias que estavam girando, em prática. Então, a gente, estando conectados, mais, ter mais tempo pra conversar, a gente conseguiu fazer o projeto da loja, algumas modelagens novas, reutilizar todo tecido que tinha lá parado, porque não tinha matéria-prima pra trabalhar e a gente queria muito desenvolver coisas novas, então a gente costurou muito, conseguiu ter mais interatividade com as pessoas pela internet, conseguiu mostrar mais nosso dia a dia. Então, pra gente, foi muito positivo, porque a gente teve a oportunidade de conhecer mais pessoas, por meio da internet. 

P/1 – E o que a moda, o vestir, a estética, o estilo, representam pra você? 

R – Nossa, muito, porque eu acredito que a roupa, mesmo, é uma mídia que a gente se comunica. É que nem um quadro. Quando a gente vai no museu também, a gente vê um quadro e aí fala: “Não gostei” “Gostei”. Mas por quê? Porque aquela arte te tocou, porque aquela arte não te tocou. A gente, às vezes, não sabe explicar. São coisas muito subconscientes. E, pra mim, quando eu faço as roupas, o conjunto colorido, é tudo que eu tenho dentro de mim. Eu quero usar essa mídia pras pessoas terem uma vida mais leve, engraçada, divertida, sorridente. A gente fez uma intervenção, né? A gente foi pra casa da minha sogra: eu, o Adrien e a minha sogra. Eu e o Adrien andamos muito de conjunto, sempre. A gente gosta, é a nossa vida, a gente sempre usa igual. Nosso pijama é igual, nossa calcinha, cueca, é tudo igual. A gente gosta e acho que isso é um jeito de me comunicar e falar assim: a gente é alma gêmea. Eu acho que é uma maneira, também, de dizer, de se afirmar, porque somos diferentes, mas temos alguma coisa em comum. Por isso que a gente está vivendo esse plano, essa terra, esse jeito. E eu gosto disso. E, quando a gente anda igual, mesmo que seja só uma estampa, não precisa ser mix de estampas, nem nada, a gente acaba tirando o sorriso de alguém, sabe? As pessoas, quando veem, falam: “O que é isso?” Parece uma intervenção, mesmo. “Nossa, eles estão com a mesma roupa, eu não acredito. Mas mesma roupa?” Porque isso, eu acho que, quando eu era criança, era muito feio você ter a mesma roupa que alguém, ‘par de vasos’, maior vergonha. E hoje em dia eu acho que, de alguma maneira, causar esse ‘estranhismo’, leva as pessoas a uma certa reflexão de valores, padrões, enfim. E, no geral, é sempre positivo, sorridente essa expressão e eu acho que é isso que eu quero transmitir pro mundo: esse sorriso, essa leveza. Está tudo bem. Está igual, está igual. E é isso. E pra todos, também, eu acho que é importante. Para menino, pra menina, pra alta, pra magra, pra gorda, pra baixinha. É isso que eu gostaria de sempre ter essa possibilidade, para todos, todes.  

P/1 – E como você se sente, costurando? Não sei se hoje em dia você costura, mas percebi que a costura vem desde muito cedo na sua vida, né? Ela entra na sua história desde muito nova. O que esse momento de costura e de entrega representa pra você, como você se sente fazendo isso e tem sons, cheiros de fábrica? Quando você se depara com a costura, pra onde vai a cabeça? E pra que lugares você caminha, internamente? 

R – Ah, pra mim a costura, com certeza, é sonhar, é lembrar, é resgatar muitos... assim: na pandemia, enfim, você não pode ver seus amigos ou você... viajar pra lugares que você está com saudade. Então, é muito mágico. Quando você costura, sua cabeça resgata muita coisa que está no seu inconsciente. E eu me emociono, mesmo, porque eu acho que, quantas vezes, a minha mãe não costurou e pensou em alguém que estava longe, porque ela não é daqui de São Paulo, ela é do Paraguai. Então, quantas vezes ela visitou o sítio em que ela morava, visitou meu pai, visitou a mãe. Pra mim, é isso a costura, é o resgate do que a gente tem de mais precioso, dentro do nosso subconsciente. (choro) E a costura significa isso pra mim. Foi a minha maneira de construir, de conseguir sonhar. (choro) Em ter uma vida melhor e poder também dar voz às outras pessoas, enfim. (choro) 

P/1 – E o que a Calma representa, nessa sua história? 

R – Eu acho que a Calma é o porta-voz, é o que conseguiu juntar todos esses pedaços, esses recortes, porque tudo isso, de alguma maneira, já estava sendo construído. E é uma união também, porque a Calma também existe, porque também tem muito da comunicação, o Adrien é jornalista. Então, eu era mais fechada, não sabia como comunicar, né? E, pra mim, a Calma é a junção da minha cabeça com a do Adrien e com todas as pessoas que estão à nossa volta. 

P/1 – Kelly, pra você, o que é ser uma mulher empreendedora? 

R – É ter coragem. (risos) Pra mim, ser uma mulher empreendedora é ter coragem. 

P/1 – E quais são seus maiores sonhos, mas não precisa ser pensando, muito, no futuro e pode ser muitas coisas. Essas ideias que vocês têm juntos, pensando que você falou que você não pensa muito no futuro, mas ideias que podem vir a ser ou podem só ser um caminho, para atingir outras coisas. O que vocês têm pensado, nesse momento? 

R – Nossa, tantas coisas! Tantos sonhos! Mas eu acho que o que eu gostaria agora é conseguir ter uma equipe que seja legal, que consiga fazer a Calma chegar em outros lugares. Eu acho que é isso que eu gostaria. E também eu quero estudar, eu estou me dedicando muito pra tentar conseguir me comunicar melhor com as pessoas e, de alguma maneira, ter esse tipo de liderança porque, eu não sou muito boa como líder. Eu gosto de fazer as minhas coisas e aí eu acho que eu estou tentando me comunicar bem, pras pessoas entenderem bem e pra vida ser um pouco mais calma. (risos) 

P/1 – A gente está encaminhando pro fim, mas queria saber se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar algum episódio que eu não tenha instigado ou deixar alguma mensagem, enfim. 

R - Aí, eu contei até demais! (risos) Eu fui, que fui, né? Então, eu acho que eu já falei tudo, acho que os pontos principais foram e a mensagem que eu deixo pras pessoas é: “Acredita, sim, em você, nas suas coisas, nos seus sonhos e, mesmo se você não tiver todas as oportunidades de ter tudo como você gostaria, tenta fazer as coisas com o que dá agora, porque eu acho que logo, logo você vai poder conseguir o que você quer, do jeito que você quer, mas enquanto isso não chega, faz tudo o que você pode, com o que você tem”. 

P/1 – E como foi, pra você, essa manhã, ter relembrado um pouco?

R – Ai, foi muito emocionante. Foi muito legal. Eu me emocionei bastante. Ai, é bom lembrar de onde a gente veio porque, às vezes, a gente fica tão pensando no que tem que fazer agora, tem tanta coisa pra fazer, todo dia e é bom lembrar de onde a gente veio. É muito importante. 

P/1 – Ia falar justamente isso: quero muito te agradecer, por ter topado estar aqui com a gente e por ter dividido essa história de costura, costura de histórias, de raízes, de origens, do estrangeiro, dois pais de lugares diferentes, um marido de um lugar diferente. Foi muito bonito ouvir essa sua costura, que você vem traçando e fazendo. Espero que, de verdade, muito sucesso, que essa costura continue muito linda e caminhe por caminhos muito especiais. Foi muito gostoso estar aqui. Obrigada! 

R – Ai, obrigada! Eu que agradeço, por vocês terem escolhido essa história pra contar e espero que fique bem, que dê tudo certo.                                                                                                                               

 

[Fim da Entrevista]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+