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História

Uma cordelista de primeira

História de: Iracema Mendes Régis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Cordelista, contista e escritora, Iracema Mendes Régis é uma cearense que sempre valorizou a cultura popular. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa falou sobre as brincadeiras de infância na fazenda do seu pai, no distrito de Sapé, em Limoeiro, CE e sobre o período escolar em sua terra natal. Iracema descreve com detalhes o processo da fabricação artesanal da farinha em uma casa de farinha. Ao migrar para Mauá em 1975, se integra a um grupo de poetas da cidade, no Colégio Brasileiro de Poetas. Ela lembra os trabalhos que desenvolveu na Prefeitura de Mauá e de São Paulo e sua trajetória como escritora. Finaliza falando sobre as dificuldades dos escritores em publicar seus trabalhos.

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História completa

Meu nome é Iracema Mendes Régis, eu nasci em Limoeiro do Norte, no Estado do Ceará, num pequeno distrito chamado Sapé, em 3 de julho de 1952. Meus pais são cearenses, ambos, mas eu quero dizer que são descendentes de estrangeiros, porque o meu pai descende de holandeses e a minha mãe de portugueses. O meu pai chama-se João Paulo Nepomuceno Régis. A minha mãe, antes de casar-se com ele, era Suzana Mendes Maia, tirou o Maia, pôs o Régis do meu pai, ficou Suzana Mendes Régis. São todos agricultores. Eu, quando conheci, desde quando eu me lembro bem do meu pai, já aos seis anos de idade, ele já era uma pessoa que só lia, ele é autodidata, tanto é que o meu ofício de ler e escrever veio justamente da figura dele. Porque ele é filho de uma família de 12 irmãos, mas todos trabalhavam na agricultura. Porém ele foi o diferente da família, ele gostava de ler e, como gostava de ler, ele era um tanto, assim, rejeitado, às vezes criticado pela própria mãe, mas ele não se importou com isso.

O meu pai primeiro construiu a casa, era uma casa enorme, primeiro ele fez, como diz hoje, o pé de meia através da compra de terras, então ele já tinha suas terras, suas plantações, suas criações de gado, e quando casou-se já tinha casa própria.  A minha mãe teve 12 filhos, mas nos criamos oito, então são três homens e cinco mulheres. Morreram antes de ficarem grandes, uns porque já nasceram, que às vezes os primeiros filhos, segundo eles contam, na ocasião, às vezes não vingava. Eu sou a mais nova de todas. Lá é uma comunidade, chamada Sapé, e é um distrito, na ocasião chamava-se distrito, pertencente ao município de Limoeiro do Norte, Estado do Ceará, fica a três horas de Fortaleza, o Limoeiro do Norte.  Eu aprendi a nadar com seis anos de idade, porque a água está ali, então aprender a andar de bicicleta, aprender a nadar, essas coisas é tudo natural, então de repente você está tomando banho, você: “Ah, estou sabendo nadar, aprendi a nadar”, é assim. Então a gente brincava até de pescar, brincava de pescar, tomava muito banho, pulando das árvores dentro do rio, época de cheia então, era maravilhoso. A minha mãe, sempre quando alguém fazia aniversário, ela fazia um bolo, e o meu pai queria saber o que a gente gostava de comer, o que preferia, daí ele mandava comprar, a festa era essa, mas não passava em branco, não, tinha um bolo.

Eu entrei na escola com seis anos e foi a minha irmã que me alfabetizou, então fui alfabetizada, porque não tinha aquela história de dizer: “Eu vou fazer o pré”, não, a gente fazia o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto ano, então ali você já aprendia ler, escrever, tabuada, Geografia, História, todos os preliminares. Dali a gente ia à cidade só prestar exame no grupo escolar pra poder tirar o diploma de quinto ano primário. O meu pai que doou o terreno pra prefeitura, a prefeitura fez um grupo escolar, então era na terra do meu pai, na frente da minha casa, e as minhas irmãs eram as professoras.  Eu sempre fui uma pessoa meio diferente, não sei se por causa da educação, eu gostava sempre das coisas sérias, sempre gostava da coisa mais individual, eu nunca gostei muito do coletivo, então as meninas lá iam jogar voleibol, eu tentava ir, mas eu não gostava daquilo. Eu gostava de ler, eu gostava de brincar com uma amiga minha, essa coisa eu puxei ao meu pai, eu gostava muito de casa, eu queria sempre ter alguma companhia, mas não uma companhia no meio de todo mundo.

O meu pai tinha uma casa de farinha. E então chama-se trabalhadores de jornal, que é aquela pessoa que ganha por dia, então quando era época de fazer farinha, é um processo maravilhoso, que envolve muita gente. As pessoas vão arrancar a mandioca lá na roça, tem aquele que transporta mandioca numa carroça, vem, traz para, que chama-se, a casa de farinha também tem o nome de aviamento, traz para o aviamento, quando chega no aviamento, tem as mulheres que são contratadas para raspar mandioca. A minha função era lavar, então o que é mais fácil, então tinha aquelas tinas grandes, aqueles alguidares, uma vasilha feita de barro. Então aqueles alguidares cheio de água, a gente punha um tamborete de madeira, sentava e lavava. A princípio a gente não tinha motor pra ceivar mandioca, ou seja, cortar a mandioca pra fazer a massa. Então eram dois homens fortes, negros, com muita força, e era uma roda, então eles, um de um lado, outro de outro, rodavam, rodavam, aí quando eles soltavam a roda, que era o mais rápido que ela estava, aí a minha irmã precisava saber, colocava a mandioca, aí ela saía em massa, saía a massa embaixo. Aquela massa tem que colocar num local, aí tem o prensador, prensava toda a massa, quando prensa a massa, aí enxuta, vai pra uma gamela de madeira, onde será quebrada e passada na peneira. Aquela água todinha, ela fica ali, depois tem uma pessoa só pra cuidar daquilo, era uma outra irmã que cuidava, porque aquela água, inclusive, ela não pode ser jogada em local que os animais usem, porque ela mata, chama-se manipueira. Então aí assenta a goma embaixo, que é o que se chama hoje polvilho, aqui na cidade, que é o polvilho com que se faz a tapioca, se faz uma série de coisas, biscoito de polvilho e tal, mas nós chamamos de goma, então assenta aquilo branco embaixo, que é a goma. Só que aquela goma, então a gente tira aquela água pra um lado, aquela goma você tem que lavar, peneirar, pra tirar todas as impurezas, depois seca ao sol e quebra, que aí ela fica fininha e aquela massa chega dói de tão alva aos olhos da gente, então era uma irmã que cuidava disso. Aí aquela massa que foi quebrada e passada na peneira vai para o forno, que aí tem uma pessoa pra torrar a massa, aí depois de torrada é que ensacada, costurada, e aí está pronta pra vender.

Eu vim para São Paulo porque tinha uma irmã que morava aqui. Meu pai achava que eu não devia trabalhar, segundo que eu não sabia nem como começar a procurar um emprego. Eu tava assim, fechada, não sabia como viver. Então o meu cunhado tinha vindo primeiro pra cá, pra poder arrumar trabalho, depois chamou a minha irmã, que já tinha um filho pequenininho, ela veio pra morar junto e então eu falei: “É a minha oportunidade”. A minha irmã me convidou pra vir conhecer São Paulo, mas eu já vim com a atitude de trabalhar e conseguir crescer como pessoa. Eu fui morar no Parque São Rafael. Primeiro trabalho foi na Prefeitura de Mauá como auxiliar de escritório. Eu fiquei lá só até o ano de 85, eu entrei em 75. Depois entrei na Prefeitura de São Paulo, entrei como auxiliar administrativo, só que lá eu galguei dois cargos, cargo de confiança, porque eu já estava bem experiente no trabalho de funcionário público e já tinha faculdade. Eu me empenhei em trabalhar muito bem, mostrar meu serviço, de forma que eu passei a ser chefe de seção, em sendo chefe de seção, eu comandava os dois grupos de coros no Teatro Municipal de São Paulo, que foi lá que eu me aposentei. Foi na Secretaria de Cultura, a princípio eu entrei lá. A princípio eu entrei em 89 como auxiliar administrativa, trabalhando em setor pessoal. Era pra auxiliar administrativo e a gente tinha que escolher vaga, como eu morava em Mauá, eu tinha que escolher uma vaga onde fosse pelo menos central e central só tinha ali numa travessa da Consolação, chama-se Rua Pedro Taques, que onde funcionava o departamento pessoal da prefeitura, era ali, então eu escolhi uma vaga ali. Quando eu estava lá trabalhando, surgiu um concurso pro mesmo cargo na Secretaria de Saúde, porém ganhando mais, eu fiz o concurso, passei, e tive oportunidade de escolher uma vaga num local que se chama Vila Carioca, que a gente descia no trem, na estação de trem Tamanduateí.

Quando eu cheguei em São Paulo, em 75, eu já trazia alguma coisa escrita em termos de poema, e eu trazia muitas leituras, e nesse ano de 75 foi o ano que eu fui admitida na Prefeitura de Mauá e, quando eu entrei para trabalhar, ia ter no final do ano um concurso de contos, Primeiro Concurso de Contos de Mauá. Então eu resolvi escrever uma história, ainda bem romântica, da época de adolescente, eu me considerava totalmente adolescente, quase ainda, aos 21 anos, porque eu não tinha tido muita vivência, gostava muito de ficar mais reservada, não convivia muito com as pessoas da minha idade e tal. Então eu participei desse concurso e eu fui classificada entre os dez melhores e já fui publicada numa antologia do grupo, que se chama Antologia de Contos, chama-se Antologia de Contos, isso foi feito pela Secretaria de Cultura de Mauá. Quando foi no ano de 77, estava havendo já concurso de poesia, que eles já tinham feito uns anteriores e estávamos agora acho que, me parece que era no quarto concurso de poesia, que eles chamavam EPOM, Encontro de Poesia de Mauá, e então eu me inscrevi com um poema. Era época da ditadura e eu observava assim, aquilo me chamava atenção, que nas cidades, em qualquer lugar onde você fosse, tinha muito slogan escrito assim: “Este é um país que vai pra frente”. Como eu observava também mais coisas ao redor, eu via que tinha muita miséria, eu falei: “Mas como que é um país que vai pra frente e se eu vejo que não é bem isso, né?”, só que era época da ditadura, era slogan que a ditadura usava pra poder dizer que o país estava muito bem. Mas eu não era muito ligada politicamente, tanto é que essa ditadura passou pra mim, não fosse esse slogan, acho que teria passado pra mim até meio despercebido. Tinha formado um grupo de escritores em Mauá, que se chamou Colégio Brasileiro de Poetas, foi onde nasceu tudo, no momento eram só rapazes e quando foi, eles me convidaram pra participar das reuniões. Em 77, eu entrei para o grupo e esse grupo, ele teve uma vida longa, que foi até a primeira, foi até mais ou menos 85, então, nossa, se eu estava em 77, e foi até 85, então durou bastante esse grupo, e já tinham uma vivência vindo de traz, desde o começo dos anos 70. Então foi através desse grupo que eu publiquei os meus primeiros poemas, esse grupo deixou quatro antologias, a primeira era mimeografada, que ainda não se fazia as coisas, assim, impressa, pelo menos o grupo ainda não tinha essa condição de fazer, então chama-se assim: Antologia Mimeografada do Colégio Brasileiro de Poetas. Quando foi depois, no ano seguinte, então fez-se uma que se chama Dez Poetas em Busca de Um Leitor, veio em seguida Revoada de Pássaros Negros e depois O Útero da América, ou seja, temos quatro antologias nesse grupo. Então foi a partir daí que eu também já fiz o meu primeiro livro individual de poemas, que se chama Poesia, hoje, de poesia eu tenho esse primeiro livro, se chama simplesmente Poesia, depois eu lancei Retalhos Poéticos. Depois veio Argamassa, que é um livro que eu acho interessante, porque ele foi feito assim, a partir de uma oficina, onde nós participávamos, no Teatro Municipal de Mauá, e que eram dados temas sobre a Cidade de Mauá, em cima desse tema a gente fazia o poema. Inclusive desse livro Argamassa eu tenho um poema premiado no Mapa Cultural Paulista, se eu não me engano, de 2001, que foi na primeira fase, na fase municipal, de Mauá, que o poema se chama Guernica Revisitada. Eu já estou com 23 livros publicados, mas é tudo à mão, depois da mão é que eu vou digitar e no digitar é que a gente já vai retrabalhando o texto, procurando as palavras, depois eu tiro uma cópia daquele texto. Desde o início, no ano de 1975, quando eu fui publicada e continuo de lá até aqui, mesmo trabalhando, eu nunca deixei de escrever e também eu tenho participação em várias antologias. Por exemplo, eu tenho concurso, eu tenho conto premiado em concurso da terceira idade, que foi um concurso de São Caetano, que eu tenho a antologia em casa. Também tenho conto, chama-se Contos Afro-brasileiros, que foi de um grupo de São Paulo que se chama Quilombo Hoje, onde eles publicavam os Cadernos Negros, se eu não me engano foi o número 22, temos contos inseridos lá, tudo através de concurso. Ganhei já alguns prêmios em poesia, eu tenho prêmio em poesia, tenho prêmio de melhor intérprete, tenho prêmio também de literatura de cordel, que foi o primeiro concurso de literatura de cordel aberto em São Paulo, foi patrocinado pelo metrô e pela CPTM, em 2002. E eu fiquei entre os 20 melhores cordelistas do país, na ocasião eles fizeram uma tiragem de dez mil exemplares de todos os cordéis premiados, e distribuíram na rede estadual de ensino. Então eu não posso me queixar.  No começo, quando era no grupo, no Colégio Brasileiro de Poetas, nós cunhamos uma marca que chama Edições Mariposa, e que a gente fazia as publicações em termos de cooperativa e, quando a gente continuou fazendo, mesmo individual, a gente usou a marca de Edições Mariposa. Porém, de lá pra cá, eu só não tenho feito por conta própria quando são esses cordéis, que ambos, o do paulistano como esse que eu citei o exemplo, do restaurante vegetariano, eles são patrocinados, e quando tenho esses livros que eu consegui o patrocínio do FAC, do Fundo de Assistência à Cultura de Mauá, porque eu montei o projeto e foram contemplados. Fora disso, eu ainda não fiz através de nenhuma editora, no momento há muitas que você pode procurar, porém é o seguinte, muitas vezes não há, assim, uma vantagem muito grande, dependendo da editora. Talvez seja de início uma vantagem, assim, de umas que arcam a princípio com toda a parte, mas depois o fator da distribuição também acontece sendo meio difícil, porque eles também vão querer que isso seja feito através de lançamentos, e você tem que ter sua plateia, tem que ter família, tem que ter amigo, tem que convidar, tem que ir atrás. O mercado editorial pra gente ainda é um pouco meio difícil.

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