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História

Uma comunidade unida é capaz de conseguir o que quer

História de: Adriano Souza de Jesus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2021

Sinopse

Adriano nos conta sobre viver a infância na natureza e histórias de sua infância. Nos conta também sobre seus primeiros empregos e como administrava o dinheiro aos 14 anos de idade. Fala sobre seus gostos por esportes, mergulho e festas. Conta suas histórias em alto mar e compartilha seus pensamentos sobre o mercado da pesca. Fala sobre ser monitor do Telecentro, sobre o desenvolvimento da associação e sobre a colônia de pesca de Cabrália. Fala ainda sobre a implantação e funcionamento do projeto Pescando por Redes 3G e as mudanças de atitudes e pensamentos que ele trouxe. Colônia de pescadores, cultivos de ostras, dificuldade da pesca por descuidos ambientais e necessidade de escolas técnicas na comunidade também são assuntos abordados nessa entrevista.

História completa

Projeto Santa Cruz Cabrália e Belterra Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Adriano Souza de Jesus Entrevistado por Márcia Tereza e Sara Faleiros Santa Cruz Cabrália, 31 de Agosto de 2012 Código: SCCB_HV012 Transcrito por Maria Lucia de Souza Silva Revisado por Ana Luiza Ferreira P/1 - Então Adriano, pra gente começar, eu queria que você me falasse seu nome completo. R - Adriano Souza de Jesus. P/1 - Onde você nasceu? R - Nasci no Guaiú, Santa Cruz Cabrália, Bahia. P/1 - E quando? R- 29 de maio de 1987. P/1 - E qual o nome de seus pais? R- Maria Francisca Borges de Souza e Esmeraldo Cena de Jesus. P/1 - O que eles fazem? R - Minha mãe, é... faz olho de coco e meu pai vive na área da pesca também, eu sou do artesanato… P/1 - Se você pudesse me descrever eles, como é que você descreveria? R - ...[risos]. P/1 - O jeito deles, uma característica marcante. R - A minha mãe é baixa, morena, alegre, gosta de curtir, animada; meu pai é um homem mais sossegado, mais calmo, vive mais assim na calma, não se estressa com muita coisa [risos]... mais sossegado, o meu pai mesmo não... descrever muito meu pai eu não consigo assim, porque tive uma infância mais afastado, fiquei mais junto assim com minha mãe, minha infância foi mais com minha parte materna, paterna foi mais separado. P/1 - É, e você tem irmãos? R - Tenho. P/1 - Quantos? R - Seis irmãos parte de mãe e mais três irmãos parte de pai. P/1 - E como era a rotina da sua família quando você era criança? R - A rotina [risos]... a infância sempre foi muito feliz, eu gostei da minha infância. Meus primos, agora quando vinham pra aqui para o Guaiú então, era muito bom! Meus irmão, minhas primas quando vinham era aquela alegria! A gente ia para o sítio que nós temos, (cutiamos?), esperávamos as férias chegarem pra começar aquela alegria, andava mesmo na praia, curtia muito, a infância para mim foi muito bom. P/1 - Vocês brincavam do que? R - A gente brincava de se esconder, de bola, a gente gostava muito de brincar de futebol, futebol era o forte nosso, a gente não tinha bola na época a gente criava bola de plástico, e aí... P/1 - Como é que era isso? R - ...Bola de plástico, porque [risos]... bola pra gente era novidade, né, a gente não tinha bola, a gente criava bola de sacola, íamos juntando muitas sacolas, às vezes até pedaços de colchão, ia embolando e fazíamos uma bola para poder brincar, empinar pipa, pião, gude, eram nossas brincadeiras, nós gostávamos muito. P/1 - Como é que era a primeira casa que você morou? Você lembra? R - A primeira casa que eu morei é justamente nesse sítio mesmo que eu te falo, que nós temos aqui no Guaiú a um quilômetro, é uma casinha feita no tempo natividade, uma a casa feita de taipa, aqueles...fizemos estacas de madeira e aí tampávamos com barro, era uma casa assim normal, uma casa grande mas bem simples. P/1 - E a rotina nessa casa, como é que era? Vocês acordavam...? R - Ah, era muita gente, muito neto que… P/1 - Quantas pessoas moravam lá? R - ...oito pessoas, mais ou menos, tinha meu avô, minha avó, mais dois irmãos, aí tinha os primos quando vinham, porque minha avó sempre acolhedora, ela acolhia todos os netos que vinham ela acolhia, e aí por isso que eu falo que a nossa infância foi muito legal porque era muita gente envolvida, era muito neto da minha avó era uma infância boa. P/2 - Durante o ano todo tinha bastante primos? R - Não, às vezes três meses nas férias era direto, intensivo, a não ser era eu e mais meu irmão e mais uma prima. P/1 - E aí vocês acordavam, passavam um dia comum... como é que era? R - É, a gente acordava cedinho, minha...[risos] tem um rio mesmo lá que a água é super gelada, ai minha tia acordava: “Ah, meninas é hora de ir para a escola”, bem cedinho, cinco horas da manhã tinha que acordar todo dia tomar banho um frio. P/1- No rio? R - No riozinho que tinha lá, acordava, ia para o rio, tomava banho, aí depois íamos para a escola, aí era… mas a gente se costumava, se adaptava aquele clima… P/1 - Onde que ficava a escola? R - Aqui mesmo no Guaiú, nessa nova escola que tem, que era uma antiga escola. P/1 - Era perto da sua casa? R - Não, a gente andava um quilômetro para poder chegar até a escola, mas se tornava perto. P/1 - E aí, a escola, como é que era? R - A escola era legal, eu gostava de estudar na época não bagunçava muito, ficava mais na minha, mas também esperava acabar a aula pra começar a jogar o ______ [risos] brincar um futebol [risos]. P/1 - Tinha muitos amigos na escola? R - Tinha, eu sempre fui muito “amigueiro”, sempre, com todos os amigos, não gostava de briga com ninguém, era sempre amizade, fazia minhas atividades, passava para meus amigos, meus colegas que não faziam, era bem participativo sempre, acho que eu fui bem participativo em termo da escola, dos colegas. P/1- Nessa época tinha alguma professora que te marcou ou professor que te marcou de alguma forma? R - Tinha sim, a professora Clarice, foi na terceira série, foi até hoje uma das melhores professoras que eu já estudei de Belmonte ela...infelizmente ela não dá mais aula aqui para as crianças mas era uma excelente professora. P/1 - E em que ela te marcou? R - É, eu acho que a matéria que ela dava, ela dava Geografia e História, tudo o que eu…eu acho que eu me dava bem em Geografia e História, tirava sempre notas boas, participava na frente, brincava, me soltava com ela na sala, não tinha...com as outras era mais fechado, era um clima mais fechado assim, aí eu acho que me adaptei melhor com ela, acho que foi por isso. P/1 - E aí você voltava da escola, o que você fazia geralmente? R - Ah, quando eu voltava da escola a gente ia... às vezes a gente enrolava que… falava [risos] com minha avó que a gente ia, que estávamos estudando na casa de um colega, mas a gente ficava no campo brincando de bola aqui, porque aqui no campo tinha bola, a gente não tinha, aí a gente aproveitava, brincava para depois ir para casa aí corria, brincava na lama que...quando chovia então, corria na chuva, gostava muito de correr na chuva, ia no rio tomar banho, mas tudo escondido, né, porque minha avó morava lá no sítio e aí era muito bem escondido, pescar a gente gostava muito de pescar desde pequeno. P/1 - Vocês pescavam aonde? R - A gente pescava nos arrecifes aqui, pescando peixe no rio, até no próprio rio aqui a gente pescava muito de primeira também. P/2 - Pescava como? R - Pescava polvo, desde pequeno a gente já acostumou na prática. P/2 - E pescava como que vocês pescavam? R - Ah, o polvo? P/2 - Ou os peixes também? R - Os peixes só com anzol, a gente só pescava com anzol, capturava os aratus que é a isca, camarão, e aí a gente pescava no... só aqui no rio também. P/1 - E pescava pra comer ou pescava ou pra vender? R - A gente pescava para comer também, né, porque a gente gostava de pescar também... tinha uma competição para ver quem pegava mais, era aquela coisa, ver quem pescava mais, quem pescava o maior peixe, a gente se divertia muito nesse sentido. P/1 - E o polvo, como é que era? R - Ah, o polvo já era….no começo a gente ia... falava que ia pescar polvo mas não pegava nada porque a gente não sabia, só ficava rodando a pedra, não conseguia nada e a gente encontrava um monte de gente com tanto polvo e a gente com nenhum, aí eu mesmo falava: “Poxa, eu acho que um dia eu vou aprender a pegar esse polvo porque [risos]... Tá difícil! ”, porque eu via e não conseguia pegar. P/1 - E aprendeu? R - Aprendi, hoje eu acho que aprendi a pegar um pouco [risos]. P/1 - É [risos]. Com quem você aprendeu? R - Eu aprendi sozinho assim, porque eu acho que ninguém me ensinou, às vezes com o Jorge aqui indo para a pesca, eu comecei indo, me entrosando mais, conheci o Jorge, nosso amigo Jorge, eu aprendi mais né com...na arte da pesca do polvo, da lagosta, aí melhorou assim… P/2 - Já pegou alguns? R - Já peguei alguns [risos]. P/2 - E o primeiro, como foi? R - Ah, o primeiro polvo que eu peguei acho que foi uma maior alegria [risos], eu saí correndo: “Peguei um polvo” [risos]. E sempre foi assim, eu pegava um, dois e foi aumentando, três, depois quatro e assim até que eu aprendi a prática e hoje eu já me considero um professor de [risos] pegar um polvo. P/1 - E isso você era pequenininho ainda? R - É, dez anos de idade, mais ou menos, eu já comecei a entrar na pesca, aí depois, após esses dez anos, mais ou menos, eu fui embora morar com minha outra avó a minha infância foi um pouco assim meio que uma parte aqui outra parte ali, não ficou fixa assim em um só lugar. P/1 - Você foi embora pra onde? [tosses] R - Eu fui pra Cabrália para a casa da minha avó, porque eu morava aqui no Guaiú depois eu fui para Cabrália morar com meus outros avós. P/1 - Você foi fazer, porque? P/2 - Ai é... eu ia falar aí daqui quando você era criança. R - Ah, sim... P/2 - Aquelas vezes que vocês ficaram brincando depois da escola e falaram para avó que estavam ainda estudando, aconteceu alguma coisa assim, teve algum dia assim que aconteceu alguma coisa marcante? R - Às vezes… sempre aconteciam, porque a gente brincava muito e às vezes se machucava com ostras no rio porque o rio é sempre perigoso… se cortava... às vezes mesmo... uma vez meu primo tomou um corte no rosto de arame, outro tomou corte de ostra no rosto pulando no rio do coqueiro, eu mesmo... então eu subi uma vez em um pé de coco pra dar salto mortal de cima do coqueiro, porque às vezes a gente subia no coqueiro e lá de cima dava salto mortal; e no chão a gente sempre fazia isso, na praia, a gente brincava, a gente tinha vontade de aprender a arte da capoeira e aí a gente ficava praticando, até aprendemos a dar alguns mortais e aí uma vez eu caí do pé de coco, eu caí lá de cima, na hora de dar o salto eu escorreguei, eu caí dentro da água, com o rosto na água, estourou meu nariz, sangrou um monte e aí me machucou um bocado, fiquei com isso aqui tudo estourado, parecia está estourado porque o pé de coco era um pouco alto, era mais ou menos uns quatro, cinco metros de altura, do jeito que eu caí me machuquei muito, aí… P/1 - Mas você caiu no mar? R - Não, dentro da água, porque a água, quando a gente cai com o corpo batendo é que nem você cair no chão, ela é firme, fica uma superfície firme e aí eu falei com minha avó que eu tinha caído normal em outra coisa e ficou nisso [risos]. Subia também em árvore, a gente gostava de escalar árvores, tanto que a gente...lá aonde a gente tem o nosso sítio lá, a gente escalava de uma árvore a outra, tinha uns conjunto de árvores que a gente escalava de uma para a outra você ia brincando de pegar em cima das árvores, era mesmo, um dia mesmo eu caí e fiquei enganchado. Essa história meus primos até hoje eles zoam comigo, sempre ficam zuando, o meu primo Ricardo mesmo: “E aí [risos], ainda está escalando árvore?” [risos] R - Nós falamos: “Não, que... paramos, a gente parou de escalar árvore”. [risos] P/1 - Mas você ficou? R - Eu fiquei enganchado porque eu subi na árvore, lá em cima tinha um monte de cipó, era até um cajueiro, tinha lá um cajueiro e outra árvore, aí tinha um caju, eu falei: “Vou pegar aquele caju!”, os caras falaram: “Ah, vou pegar primeiro!”, meus outros primos, eu falei: “Não, quem vai pegar sou eu!” [risos]. Os mais rápidos sempre vão na frente, aí o meu outro irmão chegou perto para pegar já que ele era mais velho que do que eu, subiu, aí fui, pisei na galha também junto com ele, a galha que eu estava quebrou, eu desci com a galha, segurado na galha, aí a galha enganchou, eu fiquei enganchado pelos pés de cabeça para baixo que nem um morcego [risos]. [risos]. R - Depois que meus irmãos chegaram, que me tiraram de lá porque eu fiquei enganchado, não tinha como tirar, mas se eu caio eu me machucaria feio nesse dia, outra…a gente escalava também morros, montanhas, estes morrinhos, aí a gente escalava tudo, aqui indo para cima aí para nosso sítio, aí tinha uns morros, a gente escalava, ia para a escola, quando chegava em cima dos morros a gente escalava eles: “Bora escalar, vim aqui escalar!” pequeno, maior do que ele, com uns dez anos, mais ou menos, de idade, ele é novinho, a gente escalava morros, escalava árvores, subia em pé de coco... P/2 - Nossa! R - Tudo criança, a gente subia pé de coco, a qualquer altura a gente tirava coco, a gente... P/1 - E subia? R - É, porque… P/1 - Na mão mesmo? R - ...Na mão mesmo, no braço, a gente subia porque a gente tem um sítio aí lá tem muito pé de coco, aí, às vezes, a gente saia e falávamos assim: “Vamos tomar água de coco!” [risos]. A gente escalava os coqueiros, arrancava coco depois, bebíamos água de coco, falávamos assim: “Ah, meu avô, acho que tem alguém pegando coco aí de você, não sei...”, mas [risos], às vezes, a gente… mas o pessoal pegava os cocos também, a gente também bebia os cocos... P/2 - Porque não podia subir? R - … É porque a gente não podia, a gente era proibido de subir nos coqueiros lá, aí, quer dizer, não deixavam… P/1 - Mas de onde eram esses coqueiros? R - ...Eram nossos mesmo, nossos coqueiros mesmo, do sítio, aí eles não deixavam a gente subir, a gente chegava assim: “Oh vamos subir!” [risos]. [risos]. P/1 - E aí foi para a cidade mesmo? R - É, depois eu fui pra Cabrália com 10 anos. P/1 - Por que você foi para lá? R - Eu acho que minha avó morava muito sozinha, minha outra avó, ela...me chamou, ela queria que eu fosse para lá, aí minha avó acabou deixando eu ir, eu fui nesse certo tempo não dei… P/1 - Você gostou de ir para lá? R - ...Logo no começo eu não gostei porque aqui era muito bom a infância, aqui era muito bom, era legal demais, todo dia era diversão, aí logo no começo… mas depois eu peguei novas amizades lá em Cabrália também aí... mas não era que nem aqui, lá não achei legal aquele… aqui era bem melhor do que Cabrália. P/2 - Você foi sozinho, seus irmãos ficaram? R - Foi, meus irmãos ficaram e depois… P/1 - Como é que era aqui nessa época é…Guaiú? P/2 - Guaiú? R - Nessa época? P/1 - Antes de você ir para lá? R - Como… P/1 - Como é que era a comunidade? É, se era grande, se era pequena? Tinha energia já, por exemplo? R - Tinha energia em algumas ruas, por exemplo, hoje, onde eu moro, na minha casa, naquelas ruas, não tinham energia, a maioria das ruas é… em 2004, mais ou menos, 2000, não tinha quase energia nenhuma, tinha poucas ruas que tinham energia, aquelas ruas da praia alí que vai, aqueles meios não tinha energia é… aqueles… o bairrozinho do fundo que criou agora não tinha, era mais neste centro no começo aqui e o pessoal era… P/1 - Na sua casa tinha? R - Na minha casa, nessa época? P/1 - Quando você era bem criança? R - Não. P/2 - Não tinha. R - Não tinha energia, até hoje não chegou energia lá no nosso sítio e… P/1 - Ah, não? R - … e é tão pertinho e ainda não chegou energia. P/1 - E como é a noite? O que vocês faziam à noite? R - A noite [risos] será sempre...toda noite a gente tinha que inventar alguma coisa porque menino já viu como é que é, a gente fazia uma coisa, juntava as palhas dos coqueiros, a gente fazia uma atividade até um pouco perigosa, aí juntava no dia, durante o dia fazia aquela coivara, uma fogueira, queimava e ficava ao redor da fogueira contando histórias, queimando folhas de abricó, vocês conhecem abricó? Abricó é uma fruta que dá uma folha que ele estoura que nem fogos, você joga dentro do fogo ele começa a estourar que nem fogos, a gente fazia isso, quase todos os dias a gente fazia isso, fazia fogueira durante o dia e à noite ia queimar folha de abricó contando histórias todo mundo tinha roda de histórias, cada um tinha que contar sua história. [risos] P/1 - Ah, é? P/2 - Mas era só as crianças que ficavam contando? R - Não, às vezes os adultos também vinham, às vezes, geralmente a gente chamava: “Ah, minha avó, vamos lá contar uma história!”. Meu avô sempre ele não vinha, mas minha avó sempre vinha quando a gente contava, chamava meus tios... P/1 - Que histórias eles contavam? Você lembra de algumas? R - Ah [risos]... era tantas histórias, eram histórias de bicho, de… às vezes nós até ficávamos com medo com as histórias de bicho que eles contavam, histórias de onças, de bicho homem, porque essa região aqui nossa, tem uns contos que eles falam que tinha bico homem na antiguidade [risos]. Lobisomem, aí eles saíam com estas histórias. P/2 - Sua avó que contava? R - É minha avó, meu avô, meu avô mesmo sabe muitas histórias, muitas mesmo [risos]. P/1 - Vocês ficavam com medo? R - A gente ficava com medo porque [risos]... histórias de fantasmas, disse que tinha fantasma em alguns trechos da estrada e saia vários tipos de histórias. P/2 - E depois na hora de dormir? R - A gente continuava contando histórias [risos]... de cima da cama, até todo mundo dormir, cada um tinha a sua vez, aí quem não contava assim: “Oh, tem que contar porque se não o bicho vai pegar!”. P/1 e P/2: [risos] R - A gente era assim mesmo, porque tem que contar, quem não contar histórias aí ficava metendo medo, como a casa era um pouco grande e os...a gente dormia mais junto em um quarto e tinha mais dois que dormiam separados, a gente, os de cá, ficava falando para os outros: “Ah, o bicho, vai pegar vocês aí hó o lobisomem!” [risos]. P/1 e P/2: [risos] R - E outra coisa também, quando a gente subia, às vezes, a gente vinha ficava aqui um pouco até mais tarde, saia um pouco escuro, para subir era bem escuro, subia a ladeira lá, né, subia correndo [risos]... e deixava alguns pra trás, o que corria menos ficava pra trás [risos]. E aí quando chegava em casa eles falavam pro meu avô que a gente tinha deixado para trás, tinha feito isso, aí meu avô, às vezes, meu avô reclamava com a gente, às vezes não, mas a gente fazia muita coisa no tempo da infância tem muita história para contar, viu? [ruídos] P/2 - [risos] P/1 - Tinha asfalto nessa época já? R - Não, nessa época eu mesmo nunca vi falar assim... sempre...tinha algumas coisas assim, alguns assassinatos assim aconteciam mas asfalto, assalto mesmo, roubo… P/1 - Não, asfalto eu digo é... R - Ah, asfalto? P/1 - Se a estrada já estava pronta? P/2 - Estrada. R - Não, foi nesse período de… foi nesse período da nossa infância que começou o asfalto, nesse período que começou a fazer as barretas, já começaram a vir e a fazer essa pista aí. P/1 - Antes, pra ir pra Cabrália, como é que era? [ruídos] R - Ah, para ir para Cabrália tinha uma estrada de barro, porque na minha infância eu me lembro que tinha uma estrada de barro, tinha ônibus já, na minha infância já tinha transporte, a gente ia de transporte, a não ser quando o ônibus fazia poucas viagens, nós íamos de carona, pegava carona com alguém, ficava no ponto... mas antes mesmo da minha infância não tinha transporte, não tinha estrada, a estrada era a praia, o único acesso era a praia e os rios… P/1 - Tinha que ir pela praia ou tinha que ir de canoa? R - Tinha que ir pela praia andando, caminhando pela praia, quando chegava… porque tem dois rios que cruzam, porque tem uma barra nesses rios, tinham que atravessar a nado ou se não passava com a maré baixa para atravessar e quando chegar em Cabrália de cá ficar esperando ou se não chamar alguém para vir atravessar aquele rio, porque não tinha balsa nesses tempos atrás, isso já é no tempo mais do meu avô. P/1 - Mas você nunca atravessou a nado aquilo lá não, né? R - Não, quando eu morava em Cabrália já atravessei a nado várias vezes porque quando eu chegava lá eu caia na água, todo dia ficava tomando banho no rio atravessando, atravessava para cá para pescar porque eu sempre gostei de pescar desde minha infância… aqui eu pescava muito, quando eu cheguei lá, eu caí de frente ao rio, eu falei: “Vou pescar todo dia!”, aí com… mas quando eu cheguei em Cabrália eu acho que foi até bom eu ir voltando um pouco a Cabrália, foi muito importante minha ida a Cabrália também porque eu aprendi a trabalhar muito cedo, às vezes tem gente que fala: “Ah trabalhar muito cedo não é bom!”, mas para mim eu achei muito importante trabalhar muito cedo, eu… P/1 - Com quantos anos você começou a trabalhar? R - Eu comecei a trabalhar com 12 anos, 13 anos. P/1 - O que você fazia nessa época? R - Eu vendia refrigerante na praia, vendia colar, vendia sorvete, logo comecei vendendo sorvete, meu primeiro emprego foi vendendo sorvete e fazendo jardinagem [risos]. Em frente a casa da minha avó, na casa de uma… dona Ana, acho que era dona Ana o nome dela. P/1 - Com quem é que você aprendeu a fazer jardinagem? R - Eu… porque quando a gente morava no sítio, a gente já aprendeu a cultivar, a gente aprendia, todo dia a gente ia, fazia… tinha as nossas plantinhas, tinha nossas hortas, desde pequeno a gente já aprendeu a plantar, colher, essas coisas, a cultivar... P/2 - Quem te ensinava? R - Sempre minha avó, minha avó ia: “Ah, vamos plantar!”, a gente ia, plantava e cultivava as plantas e aí a gente já cresceu já naquele hábito de aprender a cultivar as plantas, quando eu cheguei lá, eu falei: “Ah, sei plantar, sei fazer um monte de coisa...”, aí saí fazendo jardinagem, aprendi podando plantas, pequeno, 12 anos de idade, aprendi trabalhando, eu me lembro que meu primeiro salário foi 120 reais, para mim aquilo foi um dinheirão, a mulher falou assim: “Esse é o seu salário, 120 reais.”, eu falei assim: “Tudo isso? Meu Deus do céu, eu era acostumado com cinco reais!” [risos]. Aqui, o máximo que meu avô me dava era cinco reais, eu falei: “120 reais, vou gastar tudo na escola!” [risos]. E gastei muito dinheiro… P/1 - O que é que você fez, é? [risos]. R - E gastei muito dinheiro [risos]. Gastava tudo com os colegas, era o tipo assim: os caras me chamavam de “o chefe da turma”, porque as colegas mesmo chegavam nove horas, na hora do intervalo, eu ia e pagava lanche para todo mundo, meus colegas, para todo mundo, eu pagava lanche, eu falei: “Eu tô rico!” [risos]. Era mesmo, eu falava mesmo: “Tô rico, hoje eu tô rico!” [risos]. Chegava na escola, pagava lanche para muita gente mesmo, gastava muito dinheiro mesmo, aí minha avó: “Cadê o dinheiro?”, eu falava: “Oh, minha avó, ainda tem um monte de dinheiro aí, gasta… guarda esse aí porque esse aqui é meu, da minha escola.” [risos]. Ela ficava assim: “Você tem que comprar sua roupa, você tem que comprar suas coisas porque eu cresci assim, minha infância foi essa, eu cresci trabalhando, então vocês tem que crescer trabalhando também, aprender a comprar suas coisas”. P/2 - Quem falava? R - Minha avó, essa era minha outra avó e minha avó também de cá era a mesma coisa, tinha que... P/1 - Morava só você e ela? R - Morava eu, minha avó e um outro primo meu, depois o outro primo veio morar com ela também e depois meu pai, às vezes, morava em uma casa do lado também passou a morar junto. P/2 - E você ganhou 120 reais fazendo que trabalho? R - Jardinagem. P/2 - Com a mesma pessoa? R - Foi com essa mesma mulher _____, 120 reais foi o meu primeiro salário, aí eu fazia… P/2 - Só na casa dela? R - Só na casa dela, só a jardinagem na casa dela. Fiz o jardim todo, eu cultivava e ela gostava porque eu deixa… eu mantinha bem limpo mesmo, porque ficava limpinho, podava, limpava, ciscava tudo bonitinho. P/1 - Você ia sempre lá? R - Eu ia, todos os dias depois da escola eu ia para o jardim, o mês todo. Eu estudava pela manhã quando dava uma hora eu começava no jardim, todo dia. P/2 - E ela deu… no final do mês dava 120 reais? R - É, ela me deu 120 reais no primeiro mês, aí depois, no segundo mês ela me deu menos, porque ela falou assim: “Ah, esse aqui tinha muita coisa para ser feito, aí vou te dar 120 reais”, aí eu falei: “Oh, 120 reais”, eu até fiquei assim [risos]. Nem acreditei, para falar a verdade, não acreditei que era tudo aquilo que ela ia me dar. Depois essa mulher morreu e os parentes dela foram embora para São Paulo, aí eu falei: “Perdi meu emprego!”, ainda cheguei a trabalhar ainda, uns cinco meses ainda, depois eu fui pra… vender sorvete. P/1 - Como é que foi esse empŕego de vender sorvete? R - Ah, não gostei muito não, de vender sorvete, não gostei porque eu ganhava pouco [risos]. Eu estava acostumado a ganhar 100, 120 reais por mês, quando eu fui vender sorvete eu estava ganhando dez reais, às vezes 15 reais por semana, aí eu falei: “Não, tá pouco!”. E eu vendia muito, eu acho que o cara do sorvete não sei se me enrolava, não sei na época, mas eu vendia muito sorvete aqui. P/1 - Você vendia na praia? R - Eu vendia na praia, vendia na orla, vendia tudo, rodava Cabrália todinho vendendo sorvete, vendendo geladinho, depois… P/2- E quando não era temporada, como é que fazia para vender sorvete? R - Não, lá eu vendia de ano… direto, quando… na baixa vendia pouco, mas quando era na temporada vendia muito, depois eu comecei a trabalhar com meus tios, praticamente eu falei assim: “É, acho que agora eu já garanto me sustentar.” [risos]. Eu já estava… eu já mexia com dinheiro, era pequeno mexia já com muito dinheiro, e saia já na minha mão assim, entrava assim dois mil reais, três mil, porque ele tinha um bar e eu vendia na praia, vendia muito. Cabrália… o fluxo de turismo de Cabrália era muito alto naquela época, hoje o turismo acabou, o turismo de Cabrália hoje está acabando um pouco, mas na minha época, da minha infância, o fluxo era muito alto. Aquelas escunas ali saíam todas, eu ficava olhando assim e falei: “Oh meu deus, oh...muita gente hoje, eu vou faturar muito!”. P/2 - Você fazia o quê? Nessa _____ com o seu tio? R - Eu vendia água mineral e refrigerantes. P/2 - Andando pela praia? R - É, eu vendia com isoporzinho, botava um isoporzinho, ficava na beira do rio alí de Cabrália, da balsa, não tem? Ali pra cá tem uns pés de amendoeiras, eu ficava ali, meu tio tinha um ponto aí eu ficava ali, o que eu fazia? Eu fazia minha propaganda com os clientes e ali eu falava assim: “Oh, eu tenho um isopor aqui, se você leva sua cerveja aqui, na escuna é caro”, e era caro mesmo! “Você leva sua cerveja, seu refrigerante, sua água mineral, a gente paga o isopor”, a gente disse… tava... tinha como a gente pagar o isopor que depois eles devolvem… a gente já tinha o isopor, a gente já comprava os isopor, já para fazer os pacotes, aí já fazia a propaganda. Às vezes um grupo chegava: “Ah, eu quero 50 cervejas, outros 20 refrigerantes, 30 águas!”, saia um isopor cheio porque na escuna era muito caro mesmo, lá eles pagariam caro, a gente levava, fazia os pacotes, eu fazia mais assim, aí eu vi… saia com uma água mineral na mão, refrigerante, às vezes eu não saia com bebida porque tinha fiscal na rua alí, que eu pequeno, de menor, não podia sair vendendo, mas refrigerante, água mineral saia, mas chegava lá na frente eu fazia minha propaganda da cerveja, que eu tinha cerveja bem gelada, era o melhor da região… era o melhor da praça [risos], fazia aquela propaganda que acabava comprando os turistas. P/1 - Você que inventava as propagandas? R - É, eu que inventava na hora, conversava assim, eu fui sempre alegre, extrovertido, aí eu fazia propaganda. P/1 - O que você falava? R - Compra… eu falava que minha água era a água mais gelada, minha cerveja era a melhor, meu preço era o melhor… P/2 - Tinha alguma coisa, rima que você fazia, alguma coisa? R - Não. P/2 - Você só ia falando? R - Eu só ia falando assim mesmo e conversando e falando a história mais do lugar, falando aqui sobre Cabrália, de onde eles moravam, e eles acabavam entrando na minha conversa e comprando, aí eu falei [risos]: “Oh, já conquistei mais um!”, já levava para os meus isopores, enchia, meu tio já estava lá, aí tinha mais outro primo meu, o Alex e ele refazia os pacotes, já corria para outro, já vinha outro grupo eu já corria para outro, já cercava outro grupo alí e já conquistava e já vinha de novo. P/1 - E dava para ganhar bastante dinheiro? R - Meu tio ganhava muito dinheiro na época, mas eu não ganhava muito que nem eu ganhava aqui no jardim não, mas… P/1 - O jardim nunca foi tão bom? [risos] R - [risos]. É, o jardim nunca foi tão bom, mas é... na cerveja, meu tio me pagava e na escola, quando eu chegava na escola, eu ia para a escola alegre, satisfeito, porque eu ia com dinheiro [risos]. Para gastar na escola e todo mundo queria me tomar assim, com a gente, com o nosso grupo, porque ele era meu primo, aí todo mundo queria ser amigo, porque a gente também gastava muito na escola. P/2 - Mas só na escola você gastava o dinheiro todo? R - Não, a gente tinha o dinheiro da escola, quando a gente chegava em casa, a gente pegava o dinheiro e falava assim: ”Oh, minha avó, a gente ganhou isso aqui, essa parte aqui a senhora compra as nossas coisas, nossas roupas...”, porque era sempre ela que comprava, aí depois eu pensei assim: “Não!”, minha avó só comprava roupa feia para mim, eu não gostava, todas as roupas que minha avó comprava eu não gostava, eu falei: “Não, minha avó, de hoje em diante eu quero ir para comprar minhas roupas!”, ela falou: “Ah menino, você tem que ter isso...”, eu falei: “Não, eu quero a roupa que eu gosto porque ai não, ai eu passava…”, aí quando eu chegava na loja eu só ia nas roupas mais caras, eu ia comprar uma bermuda: “Aí não, menino, essa camisa aqui vai ser o dinheiro todo que você tem para comprar, assim você vai comparar uma!” [risos], eu falei: “Não, minha avó, essa aqui é bonita, essa aqui foi a que eu gostei!” [risos], ela: “Não, essa não, você não pode levar essa!” [risos]. Aquilo eu fi… como assim... eu não gostava, era aquilo, eu falei com ela porque ela ficava mais controlando assim o meu dinheiro, de um lado ela fazia o bem, né, eu chegava a juntar dinheiro na mão dela, ficava, juntava dinheiro, às vezes, quando eu vinha aqui para o Guaiú, chegava aqui no Guaiú cheio de dinheiro, falava assim: “Cheguei rico agora viu gente!?” [risos] [risos] R - Aí chamava: “Bora todo mundo tomar sorvete!” [risos]. Tinha uma sorveteria da Beth aqui, a gente vinha, tomava sorvete, pagava para todo mundo, era uma festa quando eu vinha. Às vezes mesmo… P/1 - Você vinha sempre? R - Eu vinha sempre, às vezes eu vinha até fugido, uma vez eu vim fugido, eu vim duas vezes fugido, minha avó jurou de mandar eu vir embora, aí meu tio falou: “Não, ele vai ficar comigo!”, aí eu fiquei na casa do meu tio. P/2 - Esse que você trabalhava para ele? R - É, Cosme. Eu fiquei na casa do meu tio, eu fiquei morando em um quiosque com ele um período, um bom tempo no quiosque… P/1 - O quiosque que você diz...? R - É, um quiosque ali na praia, na praia… vocês já foram ali nos quiosques ali de Cabrália? Um quiosque daquele era dele, aí eu ficava lá no quiosque com ele, falava: “Agora isso aqui que é vida boa, de frente para o mar!”, porque eu acho que até hoje eu admiro muito a natureza, a paisagem, o mar, se eu for embora para algum lugar, eu penso muito em deixar o mar, que nem hoje mesmo pratico a arte do mergulho para mim poder sair, deixar… e não que eu tô aqui, mas eu estou passando as imagens do fundo do mar, tudo na minha cabeça aqui, eu não consigo consigo ficar longe do mar e aí eu ficava com aquela imagem falava assim: “Oh, que praia bonita, isso aqui, essas pedras!”, eu ficava ali nas pedras andando, às vezes começava… depois eu passei a praticar [risos] karatê na academia lá, aí eu falei: “Agora eu não vou mais embora de Cabrália!”, eu comecei a lutar, aí depois, com um bom tempo, minha avó começou a ficar doente, aí eu falei: “Agora não tem jeito!”, minha avó começou a adoecer e tive que vir embora novamente pra aqui, mas eu estava querendo vir pra aqui também. P/1 - Mas você gostava de morar lá? R - Logo não gostava de morar lá, mas eu fui me acostumando e me adaptando, eu acabei... na hora eu ficava na dúvida eu queria estar lá e queria estar aqui, fiquei assim naquela... P/2 - Até que idade você ficou lá? R - Eu fiquei lá até uns 14 anos, mais ou menos, quando eu cheguei aqui eu estudei… já cheguei aqui, vim estudar a quinta série, acho que estudei… P/2 - Mas lá você já tinha namorada? Como é que era? R - Ah, já, desde lá de pequeno a gente já tinha já as namoradinhas [risos]. P/1 - Como é que foi o seu primeiro namoro? R - Ah, meu primeiro namoro foi muito engraçado [risos]. P/2 - Conta. R - O primeiro namoro foi… porque o primeiro namoro a gente sempre fica mais tímido, né, eu mesmo… eu gostava da menina mas eu tinha aquele… eu não ficava meio seguro de falar com ela, ia pra escola, era a minha colega, era uma das meninas mais inteligentes da sala, da classe, é… ela morava do lado da minha casa e ficava direto na minha casa, todo dia lá e eu… quando eu não estava na casa dela, ela estava na minha casa, direto, a gente ficava ouvindo música, a gente gostava muito de ouvir música e meu tio tinha um som muito alto e eu só gostava de ouvir música bem alta, aí ela vinha para cá, ela também gostava de ouvir música alta, a gente colocava aquele som alto para a gente conversar e ninguém ouvir [risos]. [risos] R - A gente ficava bem escondido, era mesmo [risos]... porque se minha avó visse e aquilo para ela era… não queria não, minha avó era muito conservadora. P/2 - Lá em Cabrália? R - Lá em Cabrália. Minha avó era muito conservadora, ela falou assim: “Não, esse meninos estão fazendo alguma arte aí, oh”, ela ficava assim: “Adriano, cadê você? Adriano, vem cá! Manu, cadê você Manoela?”, era Manuela o nome da menina. Aí eu… tô falando [risos]. P/1 - Não, pode falar! R - A gente descia era… tinha um sótãozinho, mezanino, na casa de cima e eu só ficava lá, dormia lá, lá mesmo a gente ficava escrevendo, às vezes escrevendo algum texto, fazia uns exercícios, ela me ensinava… ela era boa de português, ela ficava me ensinando português, eu era bom de matemática, ensinava matemática a ela, aí nesse meio tempo eu roubei um beijo dela [risos]. Eu não… eu ficava assim, na hora que eu chegava nela eu travava: ”Meu Deus e agora? O que eu vou fazer?”, a mão gelava e falei assim: “Vou roubar um beijo desse dela [risos]. Não tem jeito.”, e cheguei e roubei um beijo dela, ela falou assim: “Oh, ainda bem que você fez isso”, ela falou bem assim comigo, aí foi uma das coisas mais de difíceis de eu vir de Cabrália para cá, foi… P/1 - Você ainda namorava ela? R - Hã? P/1 - Você ainda namorava ela? R - A gente namorava, a gente começou a querer… um namoro de antes não é o namoro mas que nem hoje, o namoro de hoje tá, sei lá, de primeiro os meninos na minha época, mesmo a gente era mais, quer dizer, conservador, né, eu acho que isso seria… tinha mais uma atitude de conversar, hoje não, hoje eu vejo aí, mudou muita coisa [risos]. A minha infância para hoje já mudou muito, a minha avó, meus irmãos, meus tios contam que na deles já era muito menos, eu falei: “Imagino como é que não era!“ [risos]. Aí eu… P/1 - E aí você teve que voltar para cá? R - Quando eu voltei para cá esse foi… acho que esse foi o meu maior problema de voltar para cá. P/2 - Quanto tempo você ficou com ela namorando? R - Ah, eu acho que foi um ano, mais ou menos, ainda a gente ficava, saia junto, era muito bom porque a gente saia junto, ficava na praia, a gente ia para a praia de mão dada, abraçava, andava abraçado na praça ficava conversando até mais tarde, a gente estudava, tinha uma pracinha do lado da casa e a gente ficava estudando na pracinha ali, às vezes ficava estudando, era muito bom porque a gente forrava uma toalha, fazia o lanche, trazia o lanche colocava ali, aí chegavam os amigos, às vezes tinha uns meninos que eram encrenqueiro... depois disso para cá eu comecei a pegar uma intriga lá porque com outros meninos... P/1 - Por que? R - Porque... ah, não sei, acho que era por causa da menina, porque eu comecei acho que a ficar muito com a menina lá e os outros colegas, alguns acho que gostavam da menina… dela e fiquei com intriga. Aí ficou um pouco mais complicado, às vezes queriam brigar, às vezes queriam me bater, mas eu tinha muito amigo também que não deixavam, né? P/2 - E depois que você veio para cá, você encontrou ela outras vezes? R - Não, depois que eu vim para cá ela foi embora. P/1 - Ela foi? R - Foi. P/1 - Pra onde? P/2 - Pra onde? R - Ela.. .depois eu fiquei sabendo que ela foi para Belo Horizonte, aí agora não sei mais. P/1 -_________? R - Tinha… que era mineiro o pai dela, moravam na esquina, os pais dela ainda moram, acho que em Cabrália ela é mineira parece, parece que era mineira ou era paulista, um negócio assim. P/1 - E quando você voltou para cá, como foi essa volta? O que você sentiu? R - Ah, quando eu voltei, logo quando eu voltei no primeiro dia que eu fiquei o primeiro dia eu já achei ruim. P/2 - Ruim? R - É, já achei ruim. P/2 - Você voltou para morar com sua avó no sítio? R - Foi. Não, já voltamos para morar aqui já, minha avó já morava aqui, deixa eu vê? Minha avó já morava aqui? Não. Minha avó ainda morava no sítio, foi. P/2 - E sua mãe? R - Minha mãe morava aqui, aí...mas eu sempre morei com minha avó, nasci, aí minha avó que me criou, minha mãe dava assistência mas… porque ela trabalhava e minha avó que criava, eu e mais um irmão e uma prima: Evandro e ngela. Evandro mora em Santa Catarina e ngela mora em Porto Seguro, e... P/1 - Aí você falou que no primeiro dia logo quando você chegou...? R - Ah, no primeiro dia quando eu cheguei foi terrível aquilo, logo que cheguei, eu falei: “Meu Deus eu estava com tanta vontade de chegar!”; o dia beleza, o dia estava bom, mas quando deu a noite, eu acostumado lá e já estava começando a… todo dia eu jogava em um time lá, ia para a escola lutar, ai já estava pegando... P/1 - Karatê? R - Karatê. [ruídos] R - É, capoeira... já estava mesmo seis meses de Karatê, capoeira já estava um ano e meio já de capoeira, já praticava, tinha um time de futsal, tinha… já era campeão várias vezes, (Intersala?), tinha um time bom lá, a gente ganhava… aí o que me deixou mais foi isso, às vezes também ia meninazinha lá, Manoela também [risos]. Quando eu cheguei no primeiro dia para me acostumar, no segundo dia foi pior, aí depois que eu passei a acostumar melhor. P/2 - Você voltou para a escola aqui? R - Voltei, aí eu fui estudar em Santo Antônio quando cheguei. P/1 - Por que lá? R - Porque aqui não tinha 5ª série. P/2 - Você ia para lá como? Era longe? R - Em Santo Antônio? Não, a gente ia de ônibus, quando eu vim para cá já tinha escolar, ônibus escolar, a gente ia no escolar de ônibus, todos os dias de coletivo, estudava a tarde e aí... P/1 - E de manhã você fazia o que aqui? R - Pela manhã, quando eu cheguei, trabalho aqui não tinha, não tinha como eu vender nada aqui, falei: “Aqui não tem nada...não tem como!”, lá eu trabalhava: “Oh, já estou achando ruim, aqui não estou ganhando dinheiro, não estou trabalhando!”, aí eu comecei a participar, entrar na área da pesca e para as pedras, eu falei: “Agora vou para as pedras aprender a pegar polvo, lagosta, estas coisas!”, comecei, comprei uma máscara, já tinha uma máscara, aí minha máscara já estava ruim, eu comprei uma outra máscara, comecei e falei: “Oh, como uma máscara está bom!”, depois comprei um pé de pato, comecei mergulhando, aí começou a ficar bom, porque… P/1 - Mas você mergulhava para pescar? R - É, eu passei já a começar mergulhar dos 14 anos, já comecei a mergulhar. P/1 - Como é que é? R - Eu mergulhava… aqui tem uns corais, aqui na praia é cheio de corais, vocês perceberam, né? P/2 - Sim. R - Aí eu ia para as pedras começando a mergulhar com o Jorge, fui indo, pegando lagosta, pegando polvo, o preço da lagosta era muito alto, o preço da lagosta chegava a 50 reais o quilo, 30 reais, 40 reais, às vezes eu pegava dois quilos, três quilos, já vendia, aí… P/1 - Você vendia onde? R - Vendia aqui mesmo, aqui mesmo, sempre o comércio foi bom, porque a área aqui, os gringos vinham muito para essa região, por causa do sossego também, e aí o comércio a procura aqui é alta, tem muita demanda, tudo o que você pega, que você captura, você vende, por isso é bom. P/2 - E cada lagosta que você pegava o dinheiro ficava para você? R - É, aí eu já com 14, quando eu cheguei aqui com 14 anos, mais ou menos, eu já passei a administrar meu dinheiro, eu já passei a gastar mais [risos]. Que… quando cheguei pra aqui, quando eu comecei a mergulhar, eu já ganhava mais que lá em Cabrália, já passei a ganhar mais porque às vezes eu pegava cinco quilos, oito quilos. P/2 - Sozinho? R - Sozinho. P/2 - Uma lagosta já pesa? R - É, uma lagosta já pesa, já pegava oito quilos [pausa]. De lagosta, polvo, muito, dava muito polvo… P/2 - Uma lagosta pode pesar quanto? R - Ah, uma lagosta aqui, no máximo… como aqui é, a… beirada aqui a lagosta não é muito grande, é lagosta de médio porte, ela chega até um quilo e 200 gramas, um quilo e 300 gramas. P/2 - Tem que mergulhar muito para conseguir pegar uma lagosta? Muitas vezes? R - Uma não, logo quando eu comecei tinha uma dificuldade porque ela é um pouco difícil de pegar, de ser capturada, que nem o polvo no começo… mas depois que aprendi a prática? Ficou fácil, se eu… quantos eu via embaixo, eu pegava. P/1 - E você mergulha na apneia? R - É na apneia, só mergulho na apnéia. P/1 - Como é que você aprendeu a fazer isso? R - É, eu… que nem eu… eu comecei praticamente em cima das pedras, né? Só andando em cima das pedras, que nem eu… eu comprei as máscaras, comecei nos costões mais rasos, era eu e meu tio, meu tio Zé, Zé de Danas [risos]. Começamos a ir, ele já estava indo assim com a água no pescoço, do pescoço para baixo, ele não tinha pé de pato, eu tinha, aí já passei a comprar um pé de pato, falei assim: “Vou comprar um pé de pato porque água no pescoço já não estou conseguindo ir mais!”, comprei um pé de pato, aí já comecei ir nos costões fundos, porque a beira dos costões aqui chega de seis à oito metros, já comecei ir nos costões fundos já capturando lá embaixo, lá embaixo ninguém mergulhava nessa época, aí tinha muito, tinha muito mesmo, estava tudo lá embaixo, eu falei: “Meu Deus, oh como está isso aqui!”, já passei a pescar mais. P/2 - Quantos minutos pra você chegar lá no fundo desse costão? R - É… P/2 - Que você ficava sem respirar? R - ______ [risos]. Você sabe que eu nem parei para marcar? Mas querendo… eu desço, hoje mesmo eu desço, eu pego quatro lagostas, cinco. P/2 - Antes de subir? R - Eu desço, pego quatro, três, quatro, cinco e subo. Às vezes eu pego as quatro rápido, em dez, 15 segundos, às vezes eu consigo pegar as quatro quando está bom, às vezes quando escapole uma aí não dá... P/2 - Ainda você tem que ir muito fundo? R - Não. É que nem _____ falo quatro metros, cinco metros, seis, oito. Agora como eu já estou, já comprei mais equipamentos, já estou mais passando para peixe, já estou indo mais fundo, já estou indo 12 metros. P/1 - Mas ainda na apneia? R - Na apneia, só na apnéia, com compressor ou não, aí é pesca predatória, não pode [risos]. [risos] P/1 - E aí você só faz mais esse tipo de pesca ou e agora você falou que está fazendo de peixe também? R - Peixe também. P/1 - Mas você vai para o mar ou não? R - Vou, pesca de peixe e no mergulho. P/2 - O Jorge que te ensinou então a pescar no começo? R - É, no começo só Jorge ia, Jorge ia e aí eu falei assim: “Pô, Jorge está indo de caiaque!”, eu passei a comprar caiaque, aí ele falou assim: “Oh, então compra um caiaque porque vamos juntos!”, ai comecei a comprar um caiaque, nós já passamos a ir de caiaque, indo juntos porque às vezes a pesca um sozinho não é bom. P/2 - Você ia com ele no caiaque? R - É, não, ele ia com o caiaque dele e eu ia com o meu. P/1 - Por que não é bom ir um sozinho? R - Porque esse mar aqui é… são meio perigosos também, o cara pode sofrer um acidente que nem já aconteceu comigo de eu… às vezes já passei mal no mar. P/1 - O que aconteceu? R - Oh, uma vez, câimbra mesmo, já me deu várias vezes de descer vários mergulhos intensos e estar subindo e descendo... porque o mergulho de apnéia é um mergulho cansativo que você sobe, você captura e desce, tem que descer, às vezes tem que descer rápido e aí você cansa, já me deu câimbra, às vezes eu já fiquei com a vista escura, não sei porquê, escureceu, eu fiquei zonzo no mar, escurecer tudo, eu não ver nada, caiaque meu já virou no mar, ______ três vezes... P/2 - Mas aí você sempre tinha alguém junto? R - Não, sozinho, todas as vezes que me aconteceram isso foi sozinho. [ruídos] P/2 - Sério? E como é que você se virou? R - É, eu saí bem devagar dessa vez, mesmo que eu fiquei tonto, eu saí bem devagar mas boiando, fiquei em cima do caiaque deitado com medo dele virar e até de eu escorregar, botei os braços para baixo, fiquei mais dentro da água, deixei o caiaque mais cair porque eu não estava conseguindo nem remar, eu não sei o que me aconteceu nesse dia, esse dia eu falei: “Oh, acho que eu não chego, acho que eu não consigo chegar em terra!”, porque eu estava mais ou menos uns dois, três quilômetros, dois quilômetros da praia, aí de caiaque, você deixa um caiaque cair, você em cima de um caiaque, dois quilômetros da praia era complicado… P/2 - ______ virou? R - Não, ele não chegou a virar, mas eu cheguei a um ponto que não consegui mais remar. P/1 - E nessa época você já conseguia se sustentar assim? R - Não, de 14 anos para cá eu já era auto sustentável, já me sustentava tranquilo foi… P/1 - Pescando mais lagostas e? R - É, pescando polvo, lagosta foi de 14 anos para cá foi a fase, uma das melhores fazes da minha vida, 14 à … começou 18, por aí, era muito bom. P/2 - O que é que era muito bom nessa época? R - [risos] O preço do produto que a gente capturava e vendia, tinha alta procura, hoje a procura não está muito boa porque nosso produto caiu de preço, caiu de valor. P/1 - Por que é que caiu de valor? R - Ah, os próprios pescadores que passaram a colocar produtos na lagosta brasileira e aí perdeu a qualidade, perdeu pra outros países. P/2 - Que produtos eles põem, Adriano? Como é que é isso de por produtos na lagosta? R - Eles colocam… na verdade eu nem sei qual produto, mas... P/2 - Como é que é isso é? R - Foi dito que eles tinham colocado produtos que perdeu a qualidade, eu acho que era para pesar, não sei, e aí... mas agora não está mais acontecendo isso porque o preço melhorou. P/1 - E aí você ia pescar de manhã e de tarde você ia para a escola? É isso? R - Era, ia pescar de manhã e à tarde ia para a escola. P/1 - E à noite o que você fazia? R - [risos] À noite eu ia pra rua, pra festa, já passei a curtir festas e ai minha avó já não deixava muito, era um pouco meio rebelde, minha vó falava: “Não vai!” e eu já tinha ido. [risos] P/1 - Tinha muita festa aqui? Como é que era essas festas? R - Não, às vezes tinha mais festas em Belmonte, tem uma cidade a 40 quilômetros daqui do Guaiú, a gente passava a ir mais em festa em Belmonte... Carnaval então, a gente não perdia, Carnaval então, a gente juntava dinheiro para o Carnaval aí guardava e falava assim: “Oh, tá chegando o Carnaval, falta um mês, vamos economizar aí porque... [risos]. Carnaval chegou!”. P/2 - E vocês iam pra onde? R - Belmonte, Porto, a gente não perdia festa, a gente tem parente em Belmonte, Porto, então a gente ficava lá na casa deles, minha avó não gostava muito porque: “Ah, meninos, vocês vão para a festa vão gastar!”, “Não, minha avó, a gente…”, se a gente quer juntar o dinheiro para fazer alguma coisa a gente não ligava muito para isso. P/2 - E outras festas que vocês iam, assim, além de Carnaval, né, que é uma vez por ano, que tipo de festa que você...? R - Tinha também, tinha uns clubes aí, mas esse aí eu quase não participava muito dessas festas de clubes fechado, aí de… logo nessa idade não, mas quando eu passei a 16 anos passei a participar destas festas de clubes, de Porto, essas festas de clube de Porto eu ia em todas ai. P/2 - Aqui tem? Em Guaiú? R - Aqui sempre tinha muita festa, quase todos os sábados tinha festa aqui, agora está um pouco parado, mas tinha muita festa aqui antes, quase todos os sábados tinha festa. P/1 - E os namoros nessa época? R - Ah... [risos] os namoros! [risos] P/2 - O novo namoro depois da primeira. R - [risos] P/1 - Teve outra marcante? R - Ah, marcante assim depois… marcante não, porque sempre tinha, né, porque às vezes a gente não ligava muito, às vezes ela não dava muita chance, a gente namorava e já saia namoro mais de festa, não pegava muito que nem na infância. Acho que depois que a gente cresce, chega uma certa idade, a gente não se apegava muito, namorava mais curtição, saia e aí terminava [risos], começava outro… [risos] [risos] P/1 - Hoje você é casado, né? R - É, hoje eu sou casado, tenho três anos já que eu sou casado e foi o “ponto no ‘i’” para poder… me parar das festas, porque eu estava muito festeiro! [risos] [risos] P/1 - Como você conheceu a sua mulher? R - Ah, foi em um Luau na praia. P/1 - Onde? R - Aqui na praia mesmo, do Guaiú, em um sítio, aí estava lá, eu tinha convidado ela para esse luau, ela foi levou um... porque todo mundo que ia levava alguma coisa para poder fazer churrasco, ela foi e nós já estávamos conversando antes também sobre, sobre outras coisas também. P/1 - Você já conhecia ela? R - Já a conhecia. P/1 - Da onde? R - Daqui mesmo, ela morava aqui mesmo, os pais dela moravam aqui, até hoje, aí marcamos esse luau mas, na verdade, esse luau foi marcado mais pro meu cunhado [risos]. Estava atrás da minha irmã, ele falando: “Oh, quero pegar sua irmã, quero namorar com sua irmã, se não você dá um jeito!”, eu falei: “Oh, vamos inventar uma coisa aí, porque eu quero eu também quero ficar com Larissa! [risos] Eu estou querendo pegar e vai ser hoje! Vamos arrumar alguma coisa!”, aí marcamos esse luau, nós fomos para esse luau, chegou lá, nesse mesmo dia, ele casou também com minha irmã. P/2 - Foi? R - Namorou esse dia e casou, foi no mesmo dia, e até meu primo (Cacaliz?) dá o aniversário nosso como o luau, o namoro da lua cheia é... [risos] Quando dá lua cheia vai fazer aniversário. [risos] Ele falou: “Chegou lua cheia é aniversário é mês, completa mês.”, aí eu não esqueço, vai ficar marcado assim pelo luau, assim também pela lua e também pelas coisas que eles falaram que o luau foi o namoro da lua cheia, geralmente deve dar certo, né, porque noite alegre, deve dar certo. P/1 - E aí nesse luau vocês se ficaram pela primeira vez? R - Foi. P/1 - E aí? R - E aí que estamos juntos até hoje. P/1 - Vocês casaram mesmo? R - Não, acho que nós estamos querendo casar agora, estamos querendo casar porque… P/1 - Mas vocês moram juntos? R - Moramos juntos, a gente mora junto desde que começamos a namorar que a gente mora junto. P/1 - Ah, é? P/2 - Vocês foram morar...? R - Na primeira semana P/2 - Ou, fala... R - Na primeira semana a gente começou a namorar, depois de umas duas semanas? Não, foi, a gente começou a namorar em um sábado, dia 7 de fevereiro, em um sábado, faltava uma semana para o Carnaval, o Carnaval ia ser no dia 12 e aí já comecei a convidar, né, para o Carnaval: “Vamos para a festa?”, ela: “Não sei se eu vou, não sei se vai dar...”, eu falei: “Ah vamos, vamos pra a festa!”, aí acabou indo, querendo ou não nós fomos para o Carnaval, depois do Carnaval já foi direto. P/1 - Para onde vocês foram? R - Para Belmonte, foi para Belmonte? Foi. Nós fomos para o Carnaval de Belmonte. Depois a gente foi para o Carnaval de Porto, a gente foi para...? Não, Carnaval de Porto não, Carnaval de Cabrália, aí depois a gente… depois desse, do Carnaval, a gente passou a ficar junto, a morar na mesma casa. P/2 - Na casa de quem? R - É… onde… na mesma casa que eu moro. P/1 - É de vocês ou vocês moram de favor? R - É da minha família mesmo, porque era da minha avó, minha avó morreu já, a gente ficou morando lá, eu fui criado... P/1 - Com mais outras pessoas? R - Não, só eu mesmo, eu morava com minha avó sozinho, só eu e minha avó e meu avô. Meu avô mora em outra casa do lado e eu moro na antiga casa, na mesma casa até hoje. P/2 - Sua avó já tinha morrido fazia um tempo? R - É, não, minha avó morreu quando a gente estava namorando, quando minha avó morreu a gente estava no primeiro mês de namoro, aí minha avó morreu. [pausa] Mas eu já estava junto já, assim bem namorando, bem sério mesmo, aí depois minha avó chegou a falecer e eu fiquei sozinho lá na casa e ela foi para lá também. P/1 - E aí foi bom? R - Foi bom de um lado, foi bom para mim porque eu curtia muita festa, tudo o que eu pegava eu gastava que nem eu estava falando, nos clubes mesmo todos, aonde tinha festa eu ia, meus primos mesmo, meu irmão mesmo conta: “Pai, se você juntasse pelo menos um terço do que você ganhava até hoje, [risos] você tinha muita coisa!”, eu falei: “Não, mas não me arrependo de nada do que eu fiz não também!”. [risos] Mas foi bom porque, às vezes, a gente pega responsabilidade na vida, porque é muito importante, responsabilidade é tudo. P/2 - E você não sente falta das festas? R - Não, logo no começo a gente sente, né, mas a gente vai em uma ou outra e alivia, acaba voltando. P/2 - E o trabalho, você continua fazendo a mesma coisa, né? Mergulhando? R - É, mergulhando, hoje eu estou aqui no Telecentro também hoje, estudando também, não paro de estudar, isso… P/1 - Você terminou o 2° grau? R - Terminei, depois eu… nunca fiz uma faculdade ainda porque sai muito caro, ele sai muito caro, às vezes o transporte para nós fazermos uma faculdade aqui sai mais caro do que o próprio valor de fazer uma faculdade, aí porque só em Porto ou em Eunápolis, aí sai muito caro. A passagem para Eunápolis hoje está em quase 40 reais. [ruídos] R - Você todo dia pagar quase 40 reais de passagem não dá, aí eu apelei mais pelos cursos técnicos, que é bom também. P/1 - Como é que você se envolveu aqui na associação? R - Na associação, eu me envolvi através do curso da Cnpq, foi assim, em 2011 foi enviado um ofício para o Cnpq pra mim ser bolsista e ser monitor desse Telecentro, aí ficou aquele: “Vou vendo.”, aí até que saiu, saiu a bolsa e foi aprovado, inclusive até quase eu perdi esse curso da Cnpq por causa de Correio, porque eles enviaram para o correio e não chegou até a mim, depois eu olhando no email, este email eu não usava, este email passei a usar porque tem muita coisa importante já nele e eu não usava, eu usava por usar, eu abri de propósito assim, cheguei a abrir, quando eu olho estava lá é: “Você foi aprovado na seleção da Cnpq.”, eu falei: “O que é Cnpq?”, aí eu pesquisei, Centro Nacional de Pesquisa, eu olhei assim e falei: “Ah, deve ser do negócio do Telecentro.”, aí abri, enviei, fiz o relatório e enviei, ai foi aprovado, eu comecei a entrar aqui no Telecentro, participar de algumas reuniões que está tendo aqui sobre a Gadap. P/1 - Antes você não...? R - Não. P/1 - Não participava? R - Eu não participava, antes eu não participava. P/2 - Você vinha aqui por que? Você vinha aqui no Telecentro? R - Não. No Telecentro… eu nem vinha aqui no Telecentro. P/1 - Já tinha o Telecentro? R - Quando foi enviado não, isso foi a... o telecentro foi... para funcionar foi enviado esse ofício pra ter um monitor, aí como demorou, demorou um tempo, a prefeitura pagou um gestor para poder ficar aqui, ele ficou um tempo, está até hoje, ele ainda está aqui, a prefeitura paga uma pessoa para poder ficar aqui e eu, como eu fiz também alguns cursos, eu falei assim: “Não, eu fiz alguns cursos, eu quero passar, quero passar para a comunidade pelo menos o que eu aprendi!”, o que eu aprendi eu me esforço em passar para a comunidade porque hoje a gente tem que passar o que sabe porque se não o Brasil não vai pra frente! [risos]. Aí eu fiz algumas atividades com o pessoal aqui. P/1 - O que vocês fazem aqui como monitor? R - Cursos básicos. P/1 - De como mexer em um computador? R - É, planilhas, word, excel... P/1 - E você aprendeu tudo isso como? R - Powerpoint, eu fiz… que nem eu falei, oh, eu comecei a fazer… depois que eu terminei o ensino médio, eu falei assim: “Eu vou pagar um curso, eu vou fazer um curso!”, eu cheguei na Microlins fiz um curso de word, excel, powerpoint e corel draw. P/1 - Aqui ou lá em Porto? R - Em Porto. P/2 - Você pagou? R - Paguei quase três mil reais. P/1 - Ah? R - Depois que eu terminei esse fiz um outro curso, radius e redes, paguei quase três mil reais logo em seguida, tudo pago, depois que eu terminei esse curso eu fiz outros cursos, fui fazendo cursos, aí eu aprendi e falei assim: “Oh, já que eu aprendi, eu vou por em prática!”, porque, às vezes, se a gente não pôr em prática o que a gente faz… a gente tem que pôr em prática. Comecei dando aula, agora mesmo eles estão com três turmas aqui, das crianças, dos pequenos, nós já estamos no editor de texto já, no word e agora tem uma turma que vai abrir só para excel, que eles falaram que só quer aprender excel, o resto eles disseram que sabem, só word, excel e uma outra turma só para editor de texto, pra editor de imagem, só powerpoint, porque eles só querem aprender, eu falei: “Aprende… eu ensino!”, e agora estou querendo [risos] uma ajuda aí da prefeitura de órgãos, de empresários, para montar uma oficina, uma oficina técnica de montagem e manutenção. P/1 - De computador? R - De computador, eu fiz o curso, estou disposto a ensinar sem custo benefício algum, sou voluntário e agora... quando eu participei, eu já participei de várias reuniões já, fui para Brasília fazer movimento no território pesqueiro, foi um movimento muito importante que nós estamos lutando pela lei... P/2 - Agora, só antes de você entrar nesse Movimento Pesqueiro? R - Uhum... P/2 - Você disse que se inscreveu no projeto aí do Cnpq. R - Foi. P/2 - Como você ficou sabendo dessa… desse projeto aí para você se inscrever? R - Esse… o projeto do Cnpq veio para as colônias como veio o Telecentro Maré, ele já é uma escola técnica que forma os monitores para os Telecentros, acho que já é um acordo entre o Tele Maré junto com o Cnpq, que ela forma pelo é… pela Cnpq, né, ela forma os técnicos para poder dar aula para ser um monitor qualificado. P/2 - E como você ficou sabendo disso? R - Isso aí foi através da colônia de pesca, a Colônia Z51 de Cabrália. P/1 - Eles estavam procurando alguém? Como é que foi? R - É, eles estavam procurando… que eles… a intenção deles era formar filho de pescador, formar um pescador filho de pescador, aí como eu sou filho de pescador eles me indicaram, eu e mais algumas pessoas enviaram os documentos, enviaram um currículo para poder ver se batia, se competia com a seleção. P/2 - E quem é que enviou o seu currículo? R - A presidente da associação, Eliz. P/2 - Lá de Cabrália? R - Isso, Lora. P/1 - Hum... R - Enviou os certificados… o ofício, e aí foi aprovado, aí agora, para concluir, eles enviaram que eu tenho que fazer umas aulas, abrir o Telecentro com algumas aulas de internet livre pra poder me adaptar melhor aos Telecentros, para depois eu ser encaminhado à Cnpq para fazer o curso lá, ainda tenho que ir para lá, não sei se em Salvador... P/1 - Em Brasília? R - Acho que é em Brasília para fazer o curso, a formação lá em Brasília. P/1 - E como é que você se envolveu nesse movimento aí que você começou a contar dos pescadores? R - [risos] Ah, foi mais… geralmente, quando eu comecei a tirar carteira de pesca, aí chegando lá na carteira de pesca Eunício falou: “Ah, Adriano vai ter um curso, vai ter vários cursos, tem o curso de mecânica e tem o curso na área de informática, a informática é sua área, né?”, eu falei: “É, informática é minha área, informática eu quero, mecânica não, mecânica eu não quero porque em mecânica não adianta fazer uma coisa que eu não gosto, mas informatica você pode me colocar!”, eu não sabia nem o que é que era, me colocou, quando chegou aí eu falei assim: "Ai, meu Deus, esse negócio chegou e agora? Eu vou fazer?”, eu falei assim: “Ah, já assinei já… é um negócio muito sério, olhei lá, tem até código penal que fala muita coisa que depois de ter assinado acho que tem que participar”, eu falei assim: “Vou participar!”, aí participei. Gostei muito porque eu mudei muito fazendo… eu acho que eu mesmo, na escola, eu participava das apresentações na escola, eu era meio… eu não interagia muito bem não, chegava em teatro, nessa parte de teatro, de me apresentar, eu não me adaptava, a partir que eu entrei no setor da pesca, o setor da pesca está crescendo muito e está precisando de pessoas que briguem, que lutem, eu passei a me informar melhor, participar de reuniões, participar de eventos, de audiências públicas, aí eu falei: “Oh, caminho é esse!”. P/1 - E você falou que você foi até pra Brasília? Como é que foi isso? R - Brasília foi o movimento da Lei da Pesca que nós estamos criando, estamos brigando aí para criar uma lei que proteja o pescador artesanal, porque hoje tudo tem lei, quase tudo tem lei e menos uma lei que protege a gente, o pescador artesanal, não tem essa lei, se eles chegarem assim acabou assim: “A pesca artesanal vai acabar!”, nós não temos uma lei que nos defenda, aí nós estamos brigando por essa lei, que nem agora aqui… agricultura, agricultura está crescendo muito no país porque porque a pesca está, não está muito boa, a pesca está escassa, está ficando difícil, o Governo Federal está investindo muito na agricultura e eu acho que eles devem ter uma intenção de parar de pagar esses seguros a pesca artesanal, porque na verdade isso não é pagar um seguro, que na verdade a pesca artesanal, ele pagar esse benefício é a gente vigiar o pesqueiro para poder manter os estoques, porque a pesca é proibida, enquanto a pesca é proibida a gente tem que vigiar para poder não deixar outros pescadores pescar, é por isso que a gente recebe o seguro, um Seguro Defeso. Aí a gente... estamos brigando por essa lei para nos defender, uma lei que defenda o pescador artesanal porque nós não temos uma lei que defenda o pescador artesanal, foi isso que a gente foi fazer em Brasília. P/1 - Vocês foram lá, como vocês foram parar lá? P/2 - Como é que você foi para lá? P/1 - É. P/2 - Porque não foram todos os jovens pescadores. R - Não. P/2 - Como você foi? P/1 - Como você foi, assim? R - Foi… de cada cidade, lá em Brasília, apareceu 16 Estados do Brasil reunidos, mais de duas mil pessoas, daqui de Cabrália foi… saiu um ônibus. P/1 - Ah, vocês foram de ônibus? R - Fomos de ônibus, enfrentamos tudo de ônibus, chegamos lá, a gente enfrentou tudo, a gente deitou no chão, a gente só queria participar do evento e lutar mesmo, porque a gente não estava lá para brincar, a gente deitou no chão, fizemos passeata, chegamos até o congresso lá nos ministérios, chegamos em frente nas esplanadas dos ministérios, fizemos nossa reivindicação, fomos também de frente a ministra, a gente queria ver a ministra mas nós não conseguimos, a gente queria falar diretamente com a ministra da… a gente não conseguiu com a ministra de pesca, mas nós conseguimos também falar com alguns deputados, mas a reunião foi bem produtiva e eu espero que conseguimos a aprovação desta lei porque a gente depende desta lei. P/2 - Onde você fica, assim, conhecendo tudo isso, o que você acabou de falar pra gente assim, para ir para o movimento, sobre essa necessidade da lei? R- Tudo… P/2 - Onde você sabe tudo isso? R - Tudo através da colônia Z51, a Colônia de Pesca de Cabrália. P/2 - Mas chega até aqui ou você vai até lá? Como é que é? R - Porque a gente sempre passa por lá e nós temos as pessoas que informam, que têm o diretor de pesca que era… nós tínhamos um antigo diretor de pesca que era Xepa e agora temos Nelson, eles que trazem informações até nós porque sem eles também eu acho que nós estaríamos praticamente fracassado porque eles... P/1 - Essas... R - … são as pessoas que vem ajudando o setor pesqueiro a muito tempo… P/1 - Essas... R - … que vem botando para cima. P/1 - Fala, desculpa. R - Vai? P/1 - Pode falar. R - Então, eles são as pessoas que vem nos ajudando no setor pesqueiro e brigando porque a gente tem que ter pessoas firmes, de fibra, eu acho que eu entrei em um grupo forte, então é por isso que eu falo assim: “Oh, eu quero participar e quero entrar forte porque o grupo é forte!”, e agradeço muito a eles. [ruídos] P/1 - Vocês fazem as reuniões aqui ou lá em Cabrália? R - A gente faz reuniões aqui, lá, a gente marca, às vezes a gente faz reuniões em Prado, em Alcobaça, onde tiver que marcar uma reunião a gente marca e reúne um grupo forte e vamos. P/1 - Sempre foi assim com o pessoal unido e...? R - Não. É por isso que ontem mesmo falei que o nosso setor aqui, principalmente Cabrália, tá unido, tá um grupo forte, nós estamos ficando uma base sólida então quer dizer que eu acho que nós vamos ter grande benefício, porque nós estamos fortes, unidos, que uma comunidade unida é capaz de conseguir o que quer, então se nós estamos unidos hoje a gente vai receber lá na frente, se nos desunir, se nos desequilibrar um pouquinho é fácil do adversário nos derrubar. Hoje nós estamos com um grande desafio e eu acho que com a luta do povo nós vamos conseguir nossa batalha. P/1 - Legal, agora um pouquinho sobre o projeto, você conhece o Projeto Pescado por Redes 3G ? R - Uhum... P/1 - E como é que você conheceu ele? R - Através também da Colônia de Pescadores, ele chegou através da colônia, eles fazendo reuniões com a gente, logo no começo o projeto… a gente foi assim: “Pô, chegou uma torre de celular aqui no Guaiú!”, a gente não tinha sinal de celular para poder a gente andar com sinal de celular, pra a gente encontrar um sinal de celular no Guaiú a gente tinha que sair andando, subir em casa, subir no lugar mais alto para poder encontrar um sinal e às vezes não encontra e aí tinha que pagar, se quisesse telefone, tinha que pagar um telefone fixo que eles cobram aquelas taxas absurdas. [ruído] R - Tinha que pagar mensal e hoje através do projeto 3G temos torres, cultivo de ostras que melhorou muito, além do mais de ter melhorado, a gente aprendeu a valorizar o nosso bem que é o nosso rio, agora nós aprendemos a valorizar, nós não vamos poluir o nosso rio, nós estamos fazendo o benefício futuro, nós aprendemos a lidar com a natureza. P/1 - O que é esse projeto para você? Conta para mim, o que ele é para você? R - Ah, o que ele é? P/1 - Conta da proposta dele, o que você acha que é o objetivo, o que eles fazem. R - Ah, eu acho que o projeto em si, ele é um projeto muito bom que eu acho que é um projeto que tem muito a dar no futuro, que é um projeto a longo prazo, ele não é um projeto a curto prazo, que ele vai chegar aqui vai dar… ele é um projeto que quando ele passar a dar, a colher os frutos, vai ser um projeto muito bom, muito interessante, muito participativo, acho que as pessoas tem que entender melhor e participar bem porque ele é um projeto interessante, que ele não passa só a gente a ganhar financeiramente, a gente passa a melhorar a pessoa em si, porque a gente aprende várias coisas com o projeto, a gente tem reuniões... P/1 - O que você aprendeu com o projeto? R - … a gente tem reuniões através do projeto, a gente aprendeu a agrupar, a participar, a interagir entre pessoas, que é uma coisa muito importante. P/1 - É, como é que você participa desse projeto? Você participou de alguma coisa? Uma ação específica dele? R - É.. P/1 - Você. R - Eu? P/1 - É. R - Eu participo do cultivo. P/1 - Ah, você participa. R - Participo do cultivo de ostra que é diretamente pescando com o 3G pelo cultivo também de potes e de polvo. P/1 - Você fez algum curso? R - Fizemos todos os cursos de qualificação pra poder… cursos de qualificação com aplicativos, curso de aperfeiçoamento com GPS, tudo isso foram cursos dados através do projeto. P/1 - O que você achou quando eles vieram mostrar os aplicativos? R - Oh.. P/1 - O que você pensou, assim. na sua cabeça? R - … ah, foi excelente, porque temos aparelhos de qualidade, aparelho de alta velocidade na internet de qualidade, sinal, pensa aí, a gente saindo no mar com tecnologia 3G, estar pescando no mar aqui e falar assim: “Ah, vou entrar aqui no meu email!”, isso aí é tecnologia avançada, porque aonde a gente iria ter uma tecnologia 3G no Guaiú? Eu pensava disso de ter? Pensava de ter sinal de celular normal, não uma tecnologia que a gente tem no mar, os aparelhos de pescador estão evoluindo, quer dizer, hoje o pescador igual a nós, nós falamos, nós tivemos a campanha em Brasília, falei assim: “Nós pescadores estamos sendo respeitados, nós estamos com moral, essa é a nossa vez!”, então quer dizer, vamos abraçar essas causas porque está vindo pra gente, vamos aproveitar porque essa chance nós não podemos ter duas vezes. P/1 - Como é que você usa esses aplicativos que você falou? O que você faz com eles? R - A gente… no peixe a gente captura o peixe e marca, por exemplo, a gente pode marcar o estoque, a produção que a gente tem mensal, saber quanto pescou, saber a produção do nosso barco, saber quanto a gente gastou, saber quanto a gente vai faturar de lá no mar mesmo, a gente é capaz de saber se a pescaria foi produtiva ou não, porque temos a planilha que tudo o que a gente pescou a gente tem a noção, porque o pescador ele tem a noção de peso, a gente pegou capturou um pescado: “A gente pegou quanta quantidade?”, a gente bota alí tá no aplicativo, na próxima pescaria a gente vai lá está lá no registro, tudo anotado. P/1 - Você acha isso útil? R - Muito útil, isso é muito interessante. P/1 - Por que? R - Porque a gente, que nem eu estou falando, a gente pode saber no mar a hora de... por exemplo, você está no mar, você fala assim: “Oh, já capturamos a quantidade suficiente, não perdemos!”, a gente já sabe quanto pescou ano passado, a gente sabe quanto pescou essa semana, sabe quanto vai pescar assim, por exemplo, chegou o final do mês, fala assim: “Agora eu vou ver quantos peixes eu peguei, que tipo de peixe eu peguei!”, porque o projeto dá, tem a noção, tem lá todos os tipos de peixe, todos os tipos de espécie e quanto de peixe foi pescado. No caso da ostra, a gente sabe quantas ostras morreram, porque está anotado por exemplo: no mês a gente sabe quantas ostras morreram, quantas ostras foram recebidas no projeto, quantas ostras foram vendidas, então a gente tem uma noção, não precisa contar. Pensa aí! Se a gente anotar em papel quantas planilhas não ia ser? Em papel? Quantos pedaços de [risos] na pranchetinha? Está ali, tudo digital! “Quantas ostras chegaram?”, “Cinco mil ostras!”, digitou cinco mil já vai para o estoque, já está lá, aí no outro dia cinco mil, daqui a pouco está lá! Produção atual? Produção mensal? Quantas tem? Então eu acho que foi muito importante o projeto 3G estar conosco e tem que continuar porque tem muitos frutos a nos dar. P/1 - E os outros pescadores, eles também conseguem usar esses aplicativos? R - Conseguem, todos conseguem usar o aplicativo. P/2 - Quantos que você conhecem assim que estão usando? R - Ah, eu conheço muitos. P/2 - É? P/1 - Mais ou menos? R - É, eu conheço muitos, tem mais… eu acho que em Cabrália mesmo quase todos estão usando, aqui no Guaiú tem dois, Santo Antônio parece que tem uns três, três ou quatro em Santo Antônio, se não em engano, Cabrália tem uns 12 ou 15, acho que Coroa Vermelha tem mais, mas deve ter muita gente usando. P/2 - E você lá no seu trabalho de pesca, você está usando o aplicativo? R - Não, no meu trabalho de pesca eu não estou usando, mas eu estou usando no cultivo de ostras. P/1 - Ah, no cultivo. R - Mas tem meu tio que usa. P/2 - Qual é seu tio? R - Meu tio, Zé de Gana. Ele usa todo dia que ele chega com peixe ele chega lá e posta, tantos quilos. P/1 - Por que você não usa no seu, no seu trabalho de pesca? R - Não, porque, às vezes, na minha pesca eu não estou com o aplicativo indo com o programa na hora ali, para você poder usar, mas eu só uso no projeto só da ostra. P/1 - Hum. P/2 - Certo. R - Mas o meu tio usa. P/2 - Você está pescando com o caiaque ainda ou tem mais um projeto? R - Não, eu pesco com o barco também com eles. P/2 - Com quem você pesca? R - Com o meu tio, mas, às vezes eu pesco de caiaque também, mas pesco com barco, no caiaque é quando só é perto, no mar, em alto mar é de barco, quando a gente vai mais para o alto mar é de barco. P/1 - Teve alguma dificuldade na implantação desse projeto aqui? R - Teve sim. P/1 - Como é que foi? R - Acho que a maior dificuldade da implantação do projeto foi o sinal principalmente… porque não… você fala o projeto do...? P/1 - Isso, do Pescando com Redes 3G. R - Então, foi justamente o sinal, porque a maior dificuldade foi quando eles chegaram aqui, chegaram a um ponto de falar assim: “Oh, o projeto não pode ser realizado porque nós não temos sinal, depende do sinal!”, aí por isso que teve que escalar uma torre, só isso, aí você vê a qualidade, aonde chegamos, a gente não tinha sinal, através do projeto veio o quê? A torre! Através da torre veio o quê? Telecentro! E é um conjunto, um que vai acoplado ao outro. P/1 - Telecentro só veio depois da torre? R - Só veio depois da torre, foi uma coisa após a outra, passou a vir um projeto, daqui a pouco já está vindo outro e está vindo mais projetos pela frente porque nós estamos unidos eu acho que a gente merece [risos] também mais projetos, porque nós estamos agarrando mesmo. P/2 - Agora, os outros jovens, como é que eles estão participando da pesca, Adriano? R - Nesse caso eu falo sempre nas reuniões. [ruídos] R- A pesca, principalmente a pesca artesanal está acabando, eu mesmo que vejo aí, tem muitas coisas, muitos resíduos no mar, a destruição do mar está [pausa] está fatal, está acabando, temos... eu posso citar algum nome de empresa? Posso? Temos a Veracel que está praticamente destruindo, destruindo nosso, meu mar, e eu falo “meu mar” porque ele é meu, eu uso, eu desfruto. [risos] Quando eu chego lá, às vezes eu fico triste porque eu vejo os corais cobrindo de areia, corais que davam três metros de altura, hoje está dando um metro, dois metros, porque está tudo soterrando de área, está matando. Temos a barcaça, que a pior destruição para a nossa pesca artesanal é essas barcaças da Veracel, que ela está vindo destruindo tudo, pecando os apetrechos de rede, carregando, assombrando os pescadores, os pescadores não podem ficar mais sossegados no mar porque pode correr o risco de estar ali dormindo e chegar uma barcaça e atropelar, ser atropelado e morrer, porque um barco lá em alto mar ser afundado geralmente o pescador vai morrer e principalmente… o que eu acho mais que está destruindo mesmo é essa dragagem, essa dragagem da Veracel, porque está aterrando os corais, está aterrando a lama, porque a lama aqui... nós temos três setores pesqueiros fortes, três locais, que é no cascalho, onde pegamos a pescadinha, o cação, a lagosta, esses peixes os mais vendidos e temos a lama, o banco de lama que ele pega todo o litoral, a parte mais costeira, que é o banco de lama que é também onde mais dá a pescadinha na época do… essa época agora, começa a dar pescadinha, é tanto que aqui não dá mais pescadinha. Por quê? A lama soterrou, acabou a lama, foi coberta de areia, no que a lama foi coberta de areia a pescadinha só dá na lama, ela vem para a lama neste período e hoje ela está dando em Porto seguro para lá, lado de Prado, Alcobaça não dava, ela está dando para lá porque aqui soterrou tudo e aí os pescadores estão ficando na mão, não estão tendo onde pescar, porque nesse período é mar brabo, muito vento, e aí não pode sair para alto mar que nem as auto embarcações e principalmente um pequeno, um barco de camarão que vive da pesca do camarão que só pesca nessa lama no lamarão, o famoso lamarão, nós chamamos assim, “lamarão”, é onde dá o camarão, só dá no lamarão. O lamarão sumiu, hoje os pescadores aí... eu não pesco camarão, mas meu tio pesca, eu vejo eles batem camarão, bate arrastão de madrugada, começam a pescar duas horas da manhã até dez, 11 horas do dia, aí, às vezes, pega 20 quilos de camarão, 30 quilos de camarão, às vezes nem pega nada, que antes nessa lama pescava, arriava arrastão sete horas da manhã, nove horas subia o arrastão, não aguentava levantar às vezes 100 quilos de camarão, 70, 80 quilos de camarão, de uma puxada e hoje acabou. Por quê? A lama, a nossa lama foi destruída pela empresa que só pensa em si próprio, que é a Veracel. [ruídos] R - Só pensa em destruir, aí eu fico muito triste e eu acho que principalmente o jovem que visa, eu mesmo viso essas coisas, penso em sair da pesca porque às vezes eu penso: “Pô, não está dando!”. Meu mergulho mesmo, eu vivo na pesca mais por causa do meu mergulho, eu vejo o fundo do mar, as paisagens do fundo do mar, não consigo aquilo para trás, não consigo largar a pesca, mas hoje a água não limpa mais. Por quê? Eles largam a dragagem, é o famoso bota-fora que eles dão também como bota-fora, mas aquilo não tem bota-bora nenhum, aquilo eles não estão botando fora, eles estão botando em cima dos corais no que eles deixam lá, aquela lama vem com aquele lodo, aí fica aquela água iodada, aí você vai embaixo não tem… os cardumes de peixe desaparecem, lagosta desaparece, polvo desaparece, tudo desaparece e os peixes… você vê daqui a pouco o mar está lá, morto, que nem o mar do Egito lá. P/1 - Mas está mais difícil de pegar o peixe? Você sente isso? P/2 - _______? R- Ah, acabou, a dificuldade está em 70%. P/1 - Agora você não consegue fazer o mesmo dinheiro que você fazia antes? R- Não faz, a pescaria hoje reduziu em 70%, podemos dizer. P/1 - Mas você ainda consegue ganhar dinheiro com isso, hoje a sua renda...? R - É, a pesca hoje ainda dá pra ganhar dinheiro, né, mas com muita dificuldade, não é mais aquela facilidade que tínhamos, hoje, falar a verdade, melhor a gente mudar até de profissão porque, é que nem eu estou fazendo, eu estou estudando, estou fazendo uns cursos, porque não… eu estou vendo um momento de chegar assim: “Acabou!”, e eu acho que não vai demorar muito tempo acabar. [pausa] P/1 - O que você aprendeu de mais importante participando desse projeto? R - O que eu aprendi de mais importante, para mim, foi participar das reuniões, interagir com minha comunidade, brigar pelos direitos, porque através do projeto eu aprendi a brigar pelos direitos da comunidade, hoje a comunidade me considera como uma das lideranças daqui, aí eu, a gente aprendeu a ganhar mais respeito, então é um projeto que trás... que abre portas, é um projeto que ele não veio só pra abrir rendas é um projeto que abre novas portas para a gente, tem que sempre abrir novas portas para a vida, a vida é sempre fechada um pouco para gente e foi uma coisa que eu admirei muito no projeto, foi a facilidade de me lidar com o público. P/1 - Você passou a usar bastante esse conhecimento? R - Passei. P/1 - Como? Em que situação? R - Principalmente nas reuniões, passei a usar principalmente nas reuniões, a participar, a interagir, a discutir os nossos interesses, porque às vezes eu ia para a reunião e não participava, ficava mais oculto ali, calado, hoje não, hoje eu brigo, falo o que eu sinto, brigo mesmo, falo o que minha comunidade quer, aquilo que minha comunidade precisa e falo muito mesmo, não falo pouco, às vezes eu me desabafo, eu chego a um ponto de me desabafar, às vezes eu sinto alí, o que eu estou sentindo eu falo. P/2 - Adriano, e quando você fala do projeto, você está falando que você aprendeu tudo isso, a participar das reuniões, que projeto é assim, qual o nome do projeto? Quando você fala assim que aprendeu tudo isso _______ participar das reuniões? R - Então, isso veio tudo através do Projeto Pescando com Redes 3G, porque passamos a dar também com engenheiros, com engenheiros do (Abs?) que chegou, estruturou a gente, porque a gente… na verdade, a gente foi estruturado, né, aprendemos a lidar com pessoas mesmo, com o público através do projeto e o projeto também nos reuniu, acho que a gente trabalha… nós aprendemos a trabalhar em grupos porque é uma coisa muito importante hoje em dia, porque você vê que todo mundo… o país tem que ser, tem que trabalhar em grupo porque ninguém hoje consegue caminhar sozinho, então através do projeto a comunidade se agrupou, aprendeu a trabalhar mais juntos. P/1 - Antes era diferente? R - Antes era diferente porque a gente, às vezes, ninguém juntava para fazer nada, às vezes a gente teve até um um movimento, às vezes, uma vez a gente teve um grande movimento aqui, no fechamento de um acesso à praia, a gente se uniu e conseguimos embarcar porque eles queriam fechar a praia, nós não deixamos, juntamos tudo lá e tiramos. E eu acho que foi muito importante isso porque hoje nós estamos, eu sinto que hoje nós estamos reforçados, nós estamos estruturados para enfrentar um movimento, por exemplo, um movimento, se depender de um movimento, hoje a comunidade está pronta para encarar de frente, peitar de frente porque eu acho que isso é muito importante coragem... P/1 - E você acha que o seu projeto contribuiu, você acha? R - O projeto contribuiu muito também nessa parte: trabalhar em sociedade, trabalhar em grupo. [ruídos] P/2 - E se você, é… o que você gostaria que tivesse de diferente ou de novo, né, uma mudança aqui na comunidade? Que esse movimento pudesse até buscar assim, o que seria? R - Se tivesse...? P/2 - Assim, o que você gostaria que mudasse aqui na comunidade? P/1 - Que melhorasse, alguma coisa que acontecesse? R - Alguma coisa que acontecesse? P/2 - Na comunidade. R - A vinda do projeto? P/2 - Aqui, com o projeto ou não, o que você acha que tinha que mudar agora na comunidade para melhor? R - Ah, mudar para melhor? P/1 - Isso. P/2 - É. R - Ah, eu acho que pra mudar para melhor a comunidade a gente precisa de uma escola, eu acho que uma escola técnica a nível Federal, não que seja na comunidade, que fosse perto da nossa localidade, porque eu acho que nós precisamos, principalmente o jovem hoje precisa é de uma escola, uma escola que nos forme, que nos dê qualificação, é quase praticamente sem custo, sem custo algum, porque a comunidade nós não temos condição de pagar uma faculdade. Hoje, porque se a gente não estudar... a educação hoje é tudo o que eu acho que precisamos é de uma escola que nos qualifique, porque educação eu acho que é o topo do mundo, é quem faz o mundo, acho que é a educação. P/1 - Você já tem filhos, Adriano? R - Não. P/1 - Não? Ainda não? P/1 - Você tem algum sonho ainda? R - Sonho? [risos] Sonho eu tenho muitos! [risos] P/1 - Quais? R - Ah, eu tenho vários sonhos, eu tenho um sonho de conhecer vários países, fazer uma faculdade, eu acho que eu quero fazer uma faculdade, eu quero ter, sei lá, ter um curso superior, sei lá, eu acho bonito a pessoa que tem um curso superior, eu acho que eu tenho que fazer. P/1 - O que você gostaria de fazer? Passar? R - Ah, engenharia de pesca hoje eu acho que está no meu foco, engenharia de pesca. [ruídos] R - Eu estou na área, entrei na área da pesca, eu acho que tem que ser engenharia de pesca ou se não engenheira ambiental ou uma das duas. [ruídos] P/1 - O que mais? Você falou que tinha várias? P/1 - É... [risos] Conhecer o mundo, rodar, trabalhar em outro sonho, rodar aí outros países, conhecer outros países, porque acho que é muito importante conhecer outros países porque a gente aprende novas culturas. [pausa] P/1 - _______? P/2 - Está ótimo, muito bom! P/1- _______? P/2 - Está ótimo, obrigada! R - [risos] P/1 - Obrigada, viu Adriano?! P/2 - Obrigada Adriano! [risos] R - Nada! [risos] --- FIM DA ENTREVISTA ---

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