Busca avançada



Criar

História

Uma coisa que a gente viu nascer

História de: Eurides de Lira Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Eurides de Lira Andrade nasceu em maio de 1944 em Pernambuco. Filha de pais separados, mudou-se com a mãe e os quatro irmãos para Ceres/GO, depois Minaçu/GO. Casou aos 16 anos e viveu um tempo com o marido no povoado da Sama Mineração de Amianto até que ele foi trabalhar na Tocantins, ocasião em que se mudaram para Fercal. Participou do movimento de reivindicação que fechou a rodovia em 1984, quando conseguiram as maiores conquistas para Fercal. Foi presidenta da Associação e sempre lutou por melhorias para a comunidade.

Tags

História completa

Eu nasci no dia 16 de maio de 1944 em Bom Jardim, Pernambuco. Meu pai separou de minha mãe, eu era pequena ainda. Comigo, somos quatro irmãos. Lembrança de minha mãe eu tenho porque nós mudamos de Pernambuco com ela, moramos em Ceres [Goiás], depois mudamos pra Minaçu [Goiás], daí ela morreu em Minaçu. Ela tinha o maior carinho com a gente, falava: “Minha filha, vocês têm de ter o exemplo que eu tive”. Naquela época não tinha esse negócio de estar nas ruas, não, sabe? Pra gente ir na casa de um vizinho, minha mãe falava assim: “Você vai lá, eu vou cuspir aqui, se você chegar e esse cuspe não tiver, você vai levar uma surra”. A vida nossa era desse jeito.

  [Minha mãe] era dona de casa, quando ela separou do meu pai, aí ela trabalhava, dava aula na casa dela mesmo. Nós tínhamos sítio de café, eu pegava café e minha mãe pagava a gente. A gente tinha uma casa de farinha e rapava mandioca. Nós viemos para Formosa do Rio Preto, Bahia. Meu irmão mais velho falou: “Vamos sair daqui. Vamos embora, vamos pra Brasília”. Esse tempo ele trabalhou aqui em Brasília, nós ficamos em Formosa do Rio Preto. Lá era roça, você tinha de capinar. Eu bordava, fazia tricô, fazia tudo, aí eu não fui muito pra roça. Nós viemos de vapor dentro da água, a viagem foi muito longa.

  Conheci meu marido porque nós morávamos na fazenda deles, era parente de uns conhecidos nossos, namorava o irmão dele. O pessoal: “Você não vai casar com fulano, não, que ele bebe muito”. Aí vou pro outro. Separei do irmão dele, casei com o Ubirajara. Eu casei com 16 anos, porque o que é que eu ia fazer?... A gente não saía em lugar nenhum, então casava.

  Meu marido trabalhava na Sama; mandaram ele embora. Aí meu marido veio aqui pra Tocantins trabalhar. Nós ficamos lá no Minaçu, comprei uma casa pertinho da Sama. Lá eu tive meus meninos, e tive aqui também. De três filhos foi minha vó que fez os partos, tudo normal. Eu tenho cinco. Eu ganhei Eleocir, depois Eleonice, depois Ubiraci. Depois do Ubiraci eu operei, fiz a cirurgia, vim da Sama e operei em Ceres, dizendo eles que tinham me operado. Só que depois de cinco anos lá vem Maurinice, depois mais seis anos vem o Ubirajara, que é o Júnior. Aí nós viemos pra Fercal, meu marido veio na frente. Ele era mecânico, trabalhou na Tocantins e nos buscou.

  Vim pra Fercal no dia 21 de setembro de 1972. Chegamos, descemos aqui direto. Ah, meu Deus, achei horrível isso aqui. Era uma poeira. Não tinha esse asfalto ainda, estavam mexendo nele. Mato, mato, mato. Estavam construindo, era muito carro pesado, maquinonas pesadas que passavam. Mas primeiro morei na Rua do Mato, passei uns três meses lá, aí vim pra cá e estou aqui até hoje. A Tocantins deu a casa, depois a Tocantins precisou das casas, porque era pertinho ali do estrondo. Nós saímos e viemos pra cá.

  Na Rua do Mato tinha umas novenas que começam no dia 28 de novembro e terminam no dia 8 de dezembro. A gente não perdia uma novena. No São João, São Pedro, Santo Antônio, tinha festa junina, quadrilha, qualquer um dançava mesmo, o povo fazia, até eu mesma: “Vamos ensaiar a quadrilha?”. “Vamos.” Era bonito e bom e saudável, sabe por quê? Porque não tinha briga, não tinha confusão nenhuma. Eles faziam o fogo, a fogueira, porque não tinha luz. E sabe de que a gente se maquiava? Com carvão. Colocava o bigodão de carvão, mas rapaz! A gente ficava era bonita. Tinha vezes que não tinha o tanto de homem, aí mulher também colocava pra dançar com a mulher.

  Quando chegamos aqui, eu com uma barrigona do Júnior, lavávamos louça e roupa nesse córrego aqui, e tomava banho. Tudo era no córrego. Era limpo, o pessoal até brigava por causa de pedra pra lavar a roupa, tudo na mão. Sabe que horas que a gente levantava aqui? Eu, minhas vizinhas? Cinco horas da manhã pra pegar uma pedra melhor. E vinha com aqueles pesões de roupa na cabeça. Tá pensando que é brincadeira? E eu tenho raiva quando chega gente de fora: “Aff, Maria, essa Fercal é isso e aquilo”. Não sabe o tanto que a Fercal melhorou. Ruim era quando nós estávamos aqui, quando a gente era mais nova, chegamos aqui, sofremos. Nós não tínhamos água e conseguimos fazer um “carneiro”. O que é o carneiro? Carneiro você faz uma cacimba, (lá em Pernambuco o pessoal fala “cacimba”), aí coloca o motorzinho. E trazia a água pra cá.

  Não foi fácil, não [conseguir as mudanças na Fercal]. Aí por isso que nós fechamos a rodovia. Foi aonde eles vieram conhecer a Fercal. Nós não tínhamos rádio, não tínhamos nada aqui. Nós fomos na Rádio Capital lá no Plano, levamos tudinho direitinho, escrito tudinho à mão: “Tal dia vamos fechar a rodovia, queremos isso, queremos aquilo”. Primeiro a reportagem veio, nós levamos a reportagem nos lugares mais feios mesmo, nas águas só lama que a gente bebia nos “garrinchos”. Aí que veio, o governo começou... Conseguimos o caminhão do seu Bil pro governador subir, aqueles caminhões de carroceria. Aí chegou o Roriz numa poeira, bem aqui nesse campinho onde agora é a feira, de helicóptero... Tava Caesb, CEB, segurança, telefone (a Telebrasília, nesse tempo). Nós participamos de tudo.

  Olha, eu não saía de cima, eu era a presidente da Associação nesse tempo. Aí teve um problema também: a Caesb não tinha os canos. “Vamos fazer vaquinha pra gente comprar.” Aí fizemos a vaquinha, arrumamos um caminhão pra ir buscar esses canos. Depois [que] conseguimos a água, a luz, veio a feira. Nós temos o centro comunitário, feito com suor nosso. Tinha cursos, costura, tudo tinha ali.

  A gente aqui agradece muito ao Manoel Baiano, um morador antigo. Ele morreu, mas deixou esse fruto pra comunidade: quem não pode comprar água mineral vai na bica do seu Manoel Baiano e pega água à vontade.  Ele foi uma pessoa muito boa. Foi ele que deu o campo. Não só o campo, não só essa água, como aquele poço artesiano que tem ali em cima.

  Eu tenho um sonho pra Fercal: um posto de saúde, pelo menos um posto de saúde, que nós não temos. Melhor, um hospital. Uma delegacia decente, que nós temos um postinho, mas não temos uma delegacia. Um colégio, que nós não temos aqui um colégio bom, sabe? Tem o Engenho Velho, mas é só até a quarta série. É isso. Tem mais coisinhas por aí, mas a saúde em primeiro lugar, educação e segurança. Não é?

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+