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História

Uma casa de italianada

História de: Vinícius Scarpa Sousa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/11/2014

Sinopse

Vinícius nasceu e cresceu em Itanhandu, uma cidade pequena em Minas Gerais. Foi criado na casa da avó, uma chácara dentro da cidade em que a cozinha era o principal espaço de convivência, sempre cheia de amigos, família e comida. Viveu uma infância livre de interior, cercado de natureza. Vem de uma família de muitas mulheres, e possui duas filhas com a esposa Naiara. Cursou agronomia na Universidade Federal de Lavras, trabalhou no Ministério do Desenvolvimento Agrário em Brasília, e hoje lida com café certificado em Carmo de Minas.

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Vinícius Scarpa Souza. Eu nasci em quatro de março de 1982. E nasci na cidade de Itanhandu, Minas Gerais. Meus pais são todos nativos do Itanhandu, do pé da Serra da Mantiqueira. Meu pai é João Sergio Oliveira Souza e a minha mãe Vera Maria Scarpa Souza. Antes era Bustamante Scarpa, aí quando casava geralmente pegava o nome do marido. Hoje não usa mais isso. Meu pai, agora, aposentou esse ano. Mas meu pai trabalhou muito tempo numa siderúrgica, na Contabilidade de uma siderúrgica e depois era autônomo, contador. E minha mãe foi a vida toda professora, primeiro de alunos especiais, trabalhou muito tempo na Apae, na rede estadual de ensino, mas no final da carreira, na creche, na rede municipal de ensino, sempre manteve dois, três empregos, mas de professora. Minha mãe é um anjo bom. Minha mãe é uma pessoa pacienciosa. Ela trabalhou muito tempo com criança especial, então ela é uma pessoa que ela desenvolveu habilidades de paciência, de sempre prestar atenção nas virtudes que possam vir do outro, eu acho que isso muito vem do trabalho dela com crianças especiais, e um pouco do temperamento dela também. Meu avô por parte de mãe, o pai dela, e minha vó, são pessoas muito batalhadoras, são pessoas que, como várias histórias das pessoas antigas, quando o mundo era mais difícil, parece, né? São pessoas que vem de origem bem sofrida e isso de certa forma refletiu em bondade na minha mãe, minha mãe é uma pessoa muito boa. Meu pai também é uma ótima pessoa, mas é um pouco mais agitado, assim, né? Meu pai é uma cara do trabalho, meu pai trabalhou a vida toda, não queria saber de estudar, trabalha desde os 13 anos de idade. Está inconformado que aposentou esse ano, né? Engraçado. São temperamentos bem diferentes dos dois, mas vivem bem, sei lá, 30 e poucos anos juntos.        

Eu fui criado na casa da minha avó. Agora eu vou te contar uma história então: eu fui criado no meio de uma mulherada danada. E hoje eu tenho até duas meninas... Lá em casa a gente só faz menina, graças a Deus. E é uma casa de italianada, assim, sabe? Tinha uma geração que era muito velha e tinha aquela molecada, a gente não tinha muito um intermediário, assim. Então a gente tinha várias tias, inclusive, que moravam em São Paulo, que chegavam com bacalhoadas e potes de doce, de queijo, de azeitona. Então era aquela farra assim. Italiano quando junta come, bebe, chora, briga, tudo junto. E lá era desse jeito. Até hoje acho, assim, por isso que eu sou um pouco guloso, gosto muito de comida, né? Então a gente sempre primou muito... A cozinha da casa da minha avó, que era a cozinha do quarteirão, que a gente brincava lá, quase que do centro inteiro lá, onde a casa mora. É um fogão de lenha funcionando 24 horas, né? E comida. A cozinha era deslocada da casa, era uma casinha à parte, que era onde era a cozinha, onde é a sala, onde se reuniam os amigos dos netos, os amigos dos filhos, os amigos dos amigos dos netos. E até hoje é assim. Minha mãe, meio que... por ser a única filha viva, ela deu essa continuidade assim. Hoje a gente chega lá e tá neto, quando vê já tem filho do neto, já tem primo que trouxe o namorado da neta, e tá aquela farra. E o café da minha avó, eu me lembro, assim, era fraquinho, sempre muito doce, né? O pessoal quando tem essa origem da roça acho que eles adoçam um pouco demais, acho que tem essa coisa com o açúcar, né? Café no coador. Tradicional. É. No bule, a chaleira, fervendo, a água geralmente em cima do fogão de lenha o dia todo enquanto o fogão estava funcionando, então você tem água quente o tempo todo, pra fazer comida, pra fazer café, pra fazer tudo, você só regula a quantidade de fogo que você vai colocar no fogão ali, você esquenta ela mais, você deixa ela só amornando. E eu me lembro, assim, de uma época que tinha três garrafas de café na mesa, três de um litro, eram uns garrafões assim. Umas coisas absurdas. Essa garrafa deve estar guardada até hoje. Tinha uma garrafa de dois litros e meio assim, era uma coisa desse tamanho, e tinha mais duas de acessório. Muito café porque passava gente o tempo todo. Todo mundo ia tomar café lá. Todos os netos, aí minha mãe vinha das escolas, vinham com todas as professoras, e passavam todas e sentavam, reuniam na mesa. E meu pai chegava do trabalho, e às vezes chegava com duas, três pessoas, e vinha, sentava e comia. E daqui a pouco chegava mais uma leva de neto, que era mais velha, que estudava numa cidade vizinha, aí vinha com colega e tomava. Então, assim, a cozinha é o centro gerador da casa, assim, foi. E até hoje é.

Essa casa da minha avó é uma chácara no centro da cidade. O rio passa ao fundo, que é o Rio Verde, é o rio principal dessa bacia que a gente está aqui, né? Foi um rio que teve uma carga de água muito grande, né, um rio que... Maravilhoso, assim, muita água, muita diversidade, um rio com bastante queda d’água, gostoso de se nadar, com um aporte de fauna, de muito peixe e tudo, que aos poucos, como tudo, sofreu sua degradação e tal. Mas o rio continua passando no mesmo lugar... Essa casa é comprida, é um casarão antigo do estilo colonial com três janelas que eram emendadas com a casa que é do lado, que hoje já se perdeu, né, nas divisões e acabou na mão de outras pessoas. Mas eram seis janelões, os quartos todos na frente com as janelas, a cozinha deslocada e uma sala ao centro, né? Não tinha muita... E o terreno todo de chão batido, e muita variedade de fruta, muita flor, muita. Minha avó a vida toda cultivou flor. E punha rádio de manhã, ligado na Rádio Mineira do Sul, pras flores escutarem, porque aquilo deixava a flor mais bonita e de fato, você falava com ela, ela falava: “Não, as plantas gostam de escutar música”. Então é uma senhorinha de um metro e quarenta e poucos assim que desde os seus 14 anos sustenta e... Só tomou ‘traulhitada’ e só veio fazendo pelo outro, assim, tem uma história sofrida e bonita, de vida. Quem dera a gente ter a força que ela teve. Mas a casa era um pouco ela, assim, era aquilo, a exteriorização daquilo que era ela, sabe? Era muito florida, muita samambaia, muito “antulho”, né? E assistindo alguns filmes, até um tempo atrás, eu fui revisar, fui assistir a trilogia do O Poderoso Chefão, o terceiro, se não me engano, que ele vai pra Sicília, né, o Al Pacino vai pra Sicília, e ele está lá com aquela namorada dele lá, e tem uma cena que mostra aquelas montanhas, e passa numa casa, numa bodeguinha onde está um jarro de azeite, onde está um jarro de vinho, e aqueles “antulhos” de vaso, assim, e eu assisti ao filme e falei: “Cara, olha aí, tá aí, olha da onde vem”. A mesma flora que tem na casa lá tinha ali, sabe? O mesmo jeito de dispor o jardim, a margarida, flores que florescem em épocas diferentes no ano. E as montanhas também têm muito a ver com aqui. As montanhas de lá de onde eles vieram tem muito a ver com essa região onde eles se fixaram.

A gente era criado solto, descalço, todo quebrado, todo cheio de ponto. Todas as férias era um braço quebrado, ou era uma canela que você ia passar na cerca de arame, ia mexer com boi bravo e saía correndo do boi, passar na cerca de arame e rasgar a canela, ponto na canela: “Lá está o Vinícius. Férias, o Vinícius com a perna pra cima”. E soltando bombinha, caçando passarinho, coisa que hoje em dia já fica um pouco incabível, né? Mas uma infância do interior. Cercado de amigo. A gente saía de casa cedo e tinha a missão de voltar na hora que escurecesse, não podia ser muito tarde, mas... A gente foi criado... Itanhandu é uma cidade muito pequenininha, esses interiores aqui são muito pequenininhos, então a gente foi criado na rua, no quintal do outro vizinho, ou na beirada do rio, pescando, ou caçando rã, ou roubando fruta de outro, mas aquela coisa, parece que ainda da boa convivência, assim, sabe? Eu nunca tive e-mail, videogame. Eu fui criar meu primeiro e-mail eu estava entrando na faculdade, tinha 21 anos. Demorou.

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