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História

Uma canção para cada momento

História de: Orlando Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/06/2020

Sinopse

Breve história de vida. Infância e festas típicas de Sergipe. Vinda para Santo André (SP). Formação e trabalho como cabeleireiro. Primeira impressão, comércio e festas da região. Cantando nas horas vagas e apresentações na TV. Candidatura como vereador. Inspirações e colaborações musicais.

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História completa

P/1 - Isla Nakano

P/2 - Laura Lucena

R - Orlando Nascimento



P/1 – Bom, Seu Orlando, primeiro queria agradecer ao senhor por ter tirado um pouco do seu tempo para sentar-se conosco e contar a sua história.

 

R – Não tem problema.

 

P/1 – Quero que o senhor fale o seu nome completo, onde e quando o senhor nasceu.

 

R – Meu nome é Orlando Nascimento, nasci em Cedro de São João, Sergipe, Aracaju, no dia 7 de outubro de 1941. Vou completar, em outubro, 71 anos bem vividos, graças a Deus. E a minha história é longa, vou contar pelo menos uma parte. Não tenho vergonha de falar: vim de Sergipe em pau de arara, rodei em cima do caminhão por 16 dias, em 1961, para vir a São Paulo. Inclusive, fiz até uma música a respeito da minha viagem, que é mais ou menos assim: “Andei de noite e de dia para poder lhe encontrar, lá vou eu, lá vou eu. Procuro qualquer caminho para poder lhe encontrar. Salve a grande São Paulo, Rio, Brasília e Portugal, lá vou eu, lá vou eu.” Essa é do Orlando Nascimento. Tenho mais músicas ainda, entendeu? Cheguei aqui em São Paulo na estaca zero. Onde estava, não ficava. Sem saber ler nem escrever nada. Não sabia o que era um ‘a’. Estudei cinco anos para aprender a ler e a escrever. Já fui à televisão, inclusive, tenho uns troféus que ganhei na música e faço alguns shows também. Infelizmente, a minha esposa veio a falecer tem um ano e pouco. Tenho 23 netos e 22 bisnetos; uma filha mais velha, com 50 anos, [que] já tem sete netos e tenho neta, bisneta também com 13 anos. Acho que vou ser tataravô, porque as netas com 13 anos, de repente, se casam... Por incrível que pareça, todas as pessoas admiram-me. Estou namorando e a minha namorada é sogra do meu neto. Quando a conheci, cantei uma música para ela para começarmos a nos entrosar e a se conhecer, que era mais ou menos assim, veja bem: “Ao te ver pela primeira vez eu tremi todo, uma coisa tomou conta do meu coração. Com este olhar negro de menina, me fez nascer no peito essa paixão e agora não durmo direito pensando em você, lembrando os seus olhos bonitos perdidos nos meus. Que vontade louca que eu tenho de tê-la comigo, calar sua boca bonita com um beijo meu, princesa, a deusa da minha poesia, ternura da minha alegria. Nos meus sonhos quero te ver, princesa, a musa dos meus pensamentos. Enfrento a chuva e o mau tempo para poder um pouco te ver”. E, aqui na vila, conheço desde quando cheguei, em 1960 - moro aqui há 40 e poucos anos, porque morei e trabalhei em Santo André mais de 21 anos, onde tirei meu diploma no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio) que está ali. E por aí vai... Mudei-me pra cá, e o pessoal aqui todo me conhece: de uma criança de três anos, que já tem entendimento, até um velho de 100 ou 90 anos. Graças a Deus, sou uma pessoa que todo mundo gosta. E sobre o problema da vila, fui candidato a vereador, então, via nas minhas reuniões, nas pesquisas que faziam, nos comícios, falava sempre no recapeamento aqui da avenida, e que saiu o recapeamento, um raio-x pro posto de saúde. Saí, felizmente. O posto agora está fechado, já acabou com tudo. Sou uma pessoa que conhecem aqui. Tinha uma casinha aqui, outra ali, não tinha nem um palmo de asfalto. No Parque São Rafael mesmo não tinha uma só casa com remédio. Era só barro e mato, entendeu? Construí minha vida aqui, tenho essa família que falei. Infelizmente, a esposa veio a falecer e tenho dez filhos: seis “originais” e quatro adotivos e, como disse, são 23 netos e 22 bisnetos. O pessoal me chama de corajoso. Como é que com esse monte de filho, eu ainda adotei mais quatro? Mas, graças a Deus, não me falta nada. Cantei junto com cantor famoso, o Waldick Soriano, que já é falecido. Tive o prazer de cantar junto com ele as suas músicas. Qualquer música dele eu canto. O pessoal fala que sou o assessor do Waldick Soriano. Em todo lugar que vou o pessoal pede para eu cantar a música dele, aí eu canto uma seleção de músicas dele. O nosso bairro está abandonado e, realmente, precisa de um vereador para ver as coisas do bairro, para melhorar e fazer as coisas que já foram. Se não me engano, na época em que fui candidato - parece que já são três eleições e não se elege um candidato daqui da vila, do bairro. E por quê? Porque tem muito candidato que vem de fora, pega muitos votos daqui e termina que ninguém daqui ganha. Já falei com o João Paulo. Queríamos fazer uma reunião como no interior, para dois candidatos daqui, no máximo três, que dá para eleger dois candidatos sossegado. Mas, no fim, tem dez candidatos e não elegem ninguém. Isso é difícil. Trabalho para a Doutora Vanessa, dama, faço reuniões junto com ela, estou sempre acompanhando. Ela esteve no meu salão várias vezes. Acredito que ela vai ganhar no primeiro turno, não vai ter nem segundo turno para ela. E outras coisas também que eu já passei na minha vida, altos e baixos... Não tenho vergonha de falar: já passei até fome. Trabalhei muito tempo na roça lá em Sergipe. Tinha certeza que ao chegar em casa não teria o que comer, mas não tem problema. Hoje, graças a Deus, eu comparo a minha casa a uma mansão. Ela tem 11 cômodos, três banheiros e o salão aqui na frente. Graças a Deus não me falta nada e já posso me considerar um homem que, se chegar a falecer hoje, sinto-me realizado na vida. Os filhos estão todos criados. Passei muita dificuldade, problemas, mas hoje, graças a Deus, sinto-me uma criança de novo. Todo mundo admira. Tenho 71 anos e, inclusive, fui passear... Passei o São João lá em Aracaju, Sergipe, e o São Pedro lá no Ceará, pois a minha filha mora lá e já fazia oito anos que não a via. O pessoal de lá, os vizinhos, todos admiravam a minha idade. Eu, com 71 anos, que vou completar agora, em outubro. Todos ficavam admirados. E por quê? Não é ser filho de papai e boa vida. Não, tive problema ‘adoidado’, mas, graças a Deus, Deus é bom demais - sou católico, tenho uma fé fora de série. Posso estar com um real no bolso hoje, mas amanhã é outro dia. De repente, amanhã eu posso estar com 100 reais, 500 reais no bolso. Sou aposentado há sete anos. Vivo da minha profissão, tenho uns negocinhos, vendo televisão, som, alguma coisa sempre para ajudar um pouco no orçamento. Sou aposentado com salário mínimo, mas, graças a Deus, estou contente. Por aí vai, e uma série de coisas. A clientela que tenho aqui é muito boa. O pessoal fala: “Mas, Orlando, rapaz, você trabalha de domingo a domingo e não cansa.” Veja só, tirei esse diploma em 1977 e, para você ter uma ideia, gosto do que faço. Trabalho porque gosto mesmo, de domingo a domingo. Gosto de passear bastante, estou sempre passeando. Vou para o Norte, para o Rio de Janeiro, tenho uns parentes por lá. Dia Sete de Setembro fui para Aparecida com a namorada. Gosto de passear. Graças a Deus me sinto bem, não tenho problema nenhum. Fiz um "check-up" nesse ano. O Doutor Mikita, japonês, disse que não tenho nada, de “ponta a ponta”, graças a Deus. O doutor falou: “Você está zero.” Então, vamos levando a vida e agradeço muito a vocês por terem me escolhido para essa entrevista. Fiquei muito feliz por essa visita de vocês, que vieram até o meu estabelecimento filmar, gravar. Fiquei muito contente, muito feliz. Infelizmente, as meninas estão na escola, não tem nenhum filho aqui. O meu filho está trabalhando também, mas valeu a pena e espero ficar sabendo o dia que for passar essa entrevista. Vou levar a família inteira. Se vocês quiserem exigir mais alguma coisa é só falar, não tem problema.

 

P/1 – Seu Orlando, eu quero entender um pouquinho dessa história do senhor. Então, vou voltar um pouco e vamos conversando um pouquinho de cada vez.

 

R – Está certo.

 

P/1 – Quero saber o nome dos pais e avós do senhor.

 

R – Meu pai chamava-se Manuel Rodrigues do Nascimento e a minha mãe era Marieta Rodrigues do Nascimento. O meu avô era o Manuel Santos do Nascimento. A minha avó chamava-se Zafira Rodrigues do Nascimento. Todos "do Nascimento". Meus avós faleceram, inclusive, a minha avó, com 102 anos e meu avô com 92. São falecidos há muito tempo. A minha falecida mãe também morou aqui por 19 anos. Meu pai faleceu aqui e minha mãe também. Isso já tem uns 15 anos. Sempre disseram que fui um filho fora de série e muito bom. Graças a Deus. Minha mãe quando me via... Fiquei 14 anos sem vê-la, quando vim do Norte para cá. Então, fiz uma surpresa para ela, que chegou quase a desmaiar. Cantei a ela essa música do Agnaldo Timóteo. Vou cantar um pedacinho: “Mamãe, estou tão feliz porque voltei pra você. Alguma coisa me diz, hoje eu volto a viver. A sua cabeça está branca, mas há luz em teu olhar. Mamãe, só pra você eu cantarei agora: mamãe, a solidão foi para sempre embora. Estas palavras de amor que cito nessa canção, vejo a mãezinha querida, nasce em meu coração. Mamãe, a chama viva que me aquece é você. Toda a minha vida eu só desejo ao seu lado viver. Sinto tremer suas mãos, a voz cansada falar...”, (risos) é isso aí.

 

P/1 – Seu Orlando, falando dos seus pais e seus avós, como que eles foram parar lá em Sergipe?

 

R – Nasceram e se criaram lá, só se deslocaram de lá. Meu pai e minha mãe vieram para cá, moraram aqui por 19 anos e faleceram aqui. Os meus avós nunca saíram de lá. O meu avô sempre trabalhava na roça e a minha avó também. Era aquela família bem pobre mesmo, da roça. Tudo era aquele sacrifício. O meu pai quando veio pra cá sempre falava: “Meu filho, é uma pena que vim para São Paulo já velho. Esse aqui é o lugar melhor do mundo.” Ele ainda viveu 12 anos aqui e depois voltou. Sei que, ao todo, concluiu 19 anos. Minha mãe faleceu aqui e meu pai também. O dia em que ela faleceu foi um problema muito sério, pois foi no dia de natal. Ela teve um derrame cerebral, de repente. Eu não morava aqui, mas na Vila Luzita, em Santo André. Recebi o telefonema do meu irmão [de] que tinha acontecido isso no dia de natal. Isso ficou marcado para o resto da minha vida, não esqueço nunca. Foi um problema muito sério. Inclusive, tenho aqui o meu Fusquinha, que tem uma história. Ele está comigo há 36 anos. Esses netos e bisnetos foram todos levados nesse fusquinha para os hospitais quando as filhas e netas foram ganhar neném. O pessoal procura para comprá-lo. Jamais. Até já me tentaram roubá-lo quatro vezes. Ele tem alarme, tem mais dois segredos e essa foi a sorte. Quando o alarme gritou o vagabundo cortou o alarme e procurou o segredo, [mas] não achou. São 36 anos que o tenho. Já fui pra Aracaju com ele, atravessei para o estado de Alagoas, fui até Maceió; fui e voltei sem problema. Todo mundo fica admirado porque fiz essa viagem. E se for preciso ir de novo, não tenho medo, eu vou. Estamos aí vivendo a vida. Faço uns showzinhos por aí também. A minha vida é muito longa, sofrida, cheia de altos e baixos, mas graças a Deus venci na vida e posso dizer que hoje, para o que eu era, sou muito rico, principalmente de saúde. Graças a Deus não posso me queixar. Então, até o dia que Deus quiser, estamos aí, firme para o que der e vier. Tenho uma família maravilhosa, todos os meus filhos me adoram, minhas netas, bisnetas, todo mundo fica admirado pois eu chego, as minhas netas, bisnetas... Tenho neto com 36 anos. Chego aqui e ele me abraça, me beija: “Benção, avô.” Todos eles me dão benção. Minhas filhas casadas. Todos: netos, bisnetos. O pessoal daqui fala assim: “Mas, Orlando, rapaz, você ainda conseguiu pelo menos tentar criar uma família no sistema daquele tempo antigo, no Norte”, porque no Norte, Deus me livre de amanhecer o dia e esquecer de dar a benção para o meu pai. Jamais. Naquele tempo, tinha respeito. Hoje em dia não, é tudo bagunçado. Vem um garoto aqui com uns sete, oito, nove anos, quer o cabelo de um jeito e o pai quer do outro. Ele começa a xingar o pai. Isso acontece sempre aqui, é um caso sério. Hoje em dia não é como antigamente, não se tem respeito. Você já pensou? Por exemplo, você é jovem, você é jovem e ele também. Eu falo com as pessoas, mas uma pessoa já com um pouco mais de idade eu chamarei de senhora [ou] senhor. Hoje, quando chamamos alguém de senhora: “Senhora está no céu.” Poxa, é uma educação! Não é um problema. A pessoa acha que Nossa Senhora está no céu e, não sei o quê, não gosta. O outro fala assim, pra quem é idoso: “Ô, tiozinho.”, “Tiozinho o quê, rapaz? Está me chamando de velho?”. Então, com a ignorância, hoje em dia não se tem mais respeito para nada. Tenho filha namorando, uma dessas filhas adotivas. Tem uma que é japonesa, ela é “nisseizinha” [filha de emigrantes japoneses] e está namorando. Eu explico sempre os detalhes. Já falei com o rapaz direitinho, tudo mais e ele me adora, gosta de mim: “Nossa, Seu Orlando, você para mim...”. Ele já deu uma aliança de compromisso a ela e parece que vai sair casamento. Os dois estão se gostando demais - é um rapaz excelente, fora de série. Meu pai sempre falava: “Meu filho, gente é que nem animal: se procura pela procedência... Se a procedência é boa, tem condições de ser bom, mas, se a procedência não presta, não tem como.” Assim ele falava. Se, por exemplo, uma filha minha namora com um rapaz excelente, muito fora de série, mas depois que casa ele "vira a casaca", vai beber, usar drogas, assaltar e se entorta na vida, tudo bem. Aí foi um problema. Mas já sabendo que a pessoa é do jeito que é, como é que vai se misturar? Meu pai sempre falava: “Meu filho, como é que você vai passar aqui, e vê um buraco ali. Você vai cair dentro do buraco? Não. Tem que desviar para não cair dentro dele.” Então, infelizmente, me desculpe as expressões, eu tenho uma filha que aconteceu isso e que hoje é separada. Por quê? Começou tudo errado. Eu explicava para ela e tudo mais: “Mas eu gosto dele”, “Minha filha, você gosta de quê? Você está vendo que a pessoa já não presta, tem esse e mais esse problema, você vai se dar mal”. Então, se machucou. E por quê? Sou o tipo da pessoa, sou católico, [que] quando falo para as pessoas: “Eu sou ateu”, você sabe o que é ateu? Eu não acredito em sorte, não acredito em azar, não acredito em "já era", não acredito em ‘tinha que acontecer’. Para mim, a pessoa é que faz a sorte, a sina; o que vai e o que não vai acontecer. Isso é a própria pessoa que faz. Sou católico, tenho fé em Deus, não tenho superstições com nada. Jamais acredito em: “Dei uma topada, caí ali porque tinha que acontecer.” Não, dei uma topada ali porque não prestei atenção onde ia passando. Acredito em Deus, mas não acredito em nada disso. Para mim, a sorte e o azar quem faz é a própria pessoa. Tem as pessoas que... Não sei se estou certo ou errado, mas sempre fui assim, nunca segui. Inclusive, eu tenho quatro pastores na família. Não estou falando mal de crente, tenho uma filha crente, os meus quatro sobrinhos são pastores. Vou também na igreja, faço visita, canto música bíblica. Quando chego lá, eles me pedem para cantar: “O tio é cantor, vem aqui.” Vou lá, dou o tom, canto sempre aquela música que o pessoal gosta: “Se as águas do mar da vida quiseres te afogar, segura na mão de Deus e vai. Se a jornada é pesada e te cansa a caminhada, segura na mão de Deus e vai. Não temas, segue adiante e não olhes para trás. Segura na mão de Deus e vai. Se Cristo lhe prometeu, jamais te deixará, segura na mão de Deus e vai”. (risos) Então, canto os hinos também. E é isso, graças a Deus.

 

P/1 – Seu Orlando, conte-nos sobre a vida do senhor lá em Sergipe. Do que o senhor gostava de brincar? Quais eram as brincadeiras?

 

R – Gostava muito de brincar com aqueles carrinhos de madeira. Era louco para ter uma bicicleta, mas não tinha condições de ter. Mesmo assim, brincava muito. Caçava muito passarinho com baleadeira, aqui chama estilingue. E, por incrível que pareça, sem conhecimento, eu fazia umas balinhas de barro, colocava na mochilinha que minha mãe fazia e saía com o estilingue para o mato. Contava as balas e, para cada bala que eu levava, trazia a quipanga cheinha de passarinho, de rolinha, para minha mãe assar, fritar. Colocava arapuca no mato para pegar passarinhos, caçava. Tinha a maior vontade de ter as coisas, mas não tinha como. Então, fazia carreto para as pessoas, carregava aqueles malotes das madames na cabeça para ganhar um dinheirinho, cofrezinho também. As brincadeiras eram de muita arapuca; pescava muito no Rio São Francisco, pilotava canoas, que aqui chamam barcos; canoa de pano, pilotava muito... Eu gostava muito, brincava demais quando criança [e] o pessoal sempre gostava muito de mim. Na época, eu fui o rei da bolinha de gude. Aquela fubequinha, como se chama aqui, para a gente jogar. Por exemplo, eu fazia o pião com prego bem grande e afiado, o pessoal ficava em volta. Quando eu jogava o pião, rachava no meio o dos outros. Até apostava um dinheirinho com a molecada, sempre ganhava. Mas sempre molequinho, ali, na cidade. Fiquei lá até os 21 anos, dentro da cidade, e depois vim pra cá, mas vou sempre passear lá. O pessoal gosta de mim. Inclusive, dessa última vez que fui, há pouco, me convidaram para ser candidato lá. Eu não quis e disse: “Não. Já fui uma vez, mas não quero mais ser candidato.” Graças a Deus a minha vida sempre foi, como falei para você, muito pobre. Não tenho vergonha de falar. Hoje tenho no meu guarda-roupa umas 30 camisas, mais de 30 calças. Lá no Norte, cheguei a ter uma situação em que tinha uma roupa só. Esperava minha mãe lavar e secar para poder vestir, pois só tinha aquela.

 

P/2 – Senhor Orlando, o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho. Somos em 19 irmãos. Um faleceu e estamos em 18. Tenho irmão espalhado em todo e qualquer canto. Tenho irmão no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, na Bahia, no Sergipe, Feira de Santana e aqui, que são cinco. Com as irmãs aqui, ainda tenho sete irmãos por aqui. É bastante, família grande. Meu pai chegou há uma época que perdeu até a conta dos netos, bisnetos. A família é muito grande.

 

P/1 – E com quem o senhor brincava. Com os irmãos ou você tinha outros amigos?

 

R – Tinha muito amigo, brincava com os irmãos e tudo. Sempre jogava bola no campo, criança... Jogava tanto de goleiro como na linha.

 

P/1 – E quem eram os amigos?

 

R – Os amigos na época eram: o Sérgio, o outro chamava-se João, tinha um também que era Edgar e muitos amigos - o chamavam de Loiro porque ele era bem branquinho -; tinha também o que chamava-se Netinho - não é do seu tempo, ele agora nem joga mais. Era um bom jogador, tem uma banda em Aracaju. O nome dele como jogador parece que era Chicão, mas agora ele já está velho, não joga mais. Jogou até na seleção da época, era lá de Sergipe. Nascemos e nos criamos juntos. Quando pequenininho, jogávamos bola no campo. Ele ficou profissional e chegou a jogar na seleção. E sempre brincava bastante, gostava de pescar, tomava banho no Rio São Francisco. Tenho uma irmã que a casa dela é virada para o Rio São Francisco, estive lá há pouco tempo. Lá é muito peixe que se pega na hora. Eu jogo muito bem tarrafa e, inclusive, tenho uma tarrafa aqui. De vez em quando vou à represa, só não vou agora porque o IBAMA [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] não deixa mais pescar. Se pegarem, eles tomam a tarrafa e ainda tem uma multa - é perigoso ir preso. Sempre fui pescar na represa daqui. Gosto muito e desde criança brincava muito, plantava arroz, trabalhava na roça, algodão, feijão... A mandioca, como é chamada aqui, lá no Norte é macaxeira ou aipim. Plantava muita batata doce, abóbora, melancia, milho, tudo... Trabalhava na roça e plantava tudo isso aí.

 

P/1 – Seu Orlando, como que era a casa do senhor com 19 irmãos?

 

R – A casa era daquelas de taipa, você sabe o que é? É casa de barro, tinha mais ou menos uns oito cômodos e bem grande. A família muito grande, a minha mãe não punha comida no prato para nós. Era o alguidar de barro, daquele bem grande. Enchia de comida e ficávamos em volta, comendo ali no alguidar. E não se comia de colher ou de garfo. Era na mão, comendo arroz. Era mais feijão e farinha. Sem garfo ou colher.

 

P/1 – E o quarto. Com quem o senhor dormia?

 

R – O meu quarto?

 

P/1 – Sim.

 

R – Não tinha quarto, dormíamos numa esteira no chão. Não tinha cama. Quando não era no chão, era na rede. Era muito pobre.

 

P/1 – E a cidade do senhor, em Aracaju, tinha alguma festa típica?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Conta para nós sobre essas festas.

 

R – Festa. Hoje tem a tradição que segue a mesma coisa. Há quase 50 anos que vim para cá, já fui passear várias vezes, mas nunca passei um natal e nem um São João por lá. Dessa vez, passei o São João lá em Sergipe, Aracaju e o São Pedro lá no Ceará, com a minha filha. A tradição é a mesma. Aquelas fogueiras nas portas, bastante forró "pé de serra". A tradição é a mesma: as fogueiras nas portas e bastante fogos. Festa junina, São João, São Pedro. Lá tem muita festa.

 

P/1 – Tem alguma festa dessas que foi marcante ou que o senhor lembra que aconteceu alguma, uma coisa especial?

 

R – Tem.

 

P/1 – Conta pra nós.

 

R – Eu sempre era convidado para cantar nas festinhas. Eu tive uma namoradinha quando eu tinha uns 13, 14 anos. Nos separamos e tal, mas teve uma festinha, um teatro e ela também era cantora. Ela cantou uma música mais ou menos assim, veja o que é a nossa mente. Tem um refrão que diz assim: “Você machucou meu peito, não tem mais o direito de mandar no meu amor”, ela cantou essa música pra mim, só que eu não sei completa. Aí me chamaram: “Com vocês, o cantor mirim Orlando Nascimento”. Fui lá e cantei para ela: “Essa música especial é para uma pessoa que me abandonou faz pouco tempo. Vou cantar para ela assim: ‘Tu és a criatura mais linda que meus olhos já viram. Tu tens a boca mais linda que minha boca beijou, são meus esses lábios, meus lábios que meus desejos mataram. São minhas essas mãos, tuas mãos que minhas mãos afagaram, sou louco por ti. Eu sofro por ti, te amo em segredo, adoro o seu corpo divino, pelas mãos do destino a mim tu viestes. Tenho ciúmes do sol, do luar, do mar. Tenho ciúmes de tudo, tenho ciúmes até da roupa que tu vestes.'” Essa música tem mais de 40 anos e é do Orlando Dias, meu xará - já é falecido há muitos anos.

 

P/1 – Seu Orlando, qual foi o primeiro trabalho do senhor?

 

R – O primeiro trabalho foi o seguinte: o meu pai me colocou para ser sapateiro. Depois fui alfaiate, estava fazendo calça e tudo mais. Lá no Norte se chamava discípulo, se você é alfaiate e está aprendendo. Meu pai também trabalhava na profissão e começou a me ensinar. Viu que eu estava gostando. Ensinou-me a profissão. Depois que vim para cá, tirei esse diploma, em 1977, e estou até hoje na profissão. Graças a Deus vivo dela, gosto da profissão até hoje e tenho certeza que não vou deixar nunca. No começo da vida eu trabalhava na roça, mas comecei a aprender e a trabalhar de alfaiate. Já tinha mais ou menos uns 16, 17 anos, começando na profissão. Aquelas maquininhas de mão antigas... Quando vim para cá, essas máquinas elétricas... Eu nunca sabia nem ligar, nem nunca tinha visto. Foi aqui que passei a trabalhar com máquina elétrica e, graças a Deus, já cheguei a ser o gerente do Diplomatas de Santo André. Comandei 21 profissionais, pois o salão lá era muito grande: tinha manicure, pedicure, recepcionista, dois engraxates. Eu era o gerente do salão. O meu patrão já faleceu. O filho dele tem um salão em Santo André. A minha vida é isso aí.

 

P/1 – Conta como foi a história de como o senhor veio para São Paulo.

 

R – Eu vim de pau de arara. Não tinha condições de pagar ônibus. Naquele tempo, não tinha nem asfalto, era estrada de chão. Viajei por 16 dias no pau de arara. Pior do que estava não ficava. Estava zero, não sabia o que era um ‘a’ na minha frente. Era analfabeto de tudo. Tinha umas ideias de ter o meu carro, tirar a minha carta, mas como era uma pessoa analfabeta, sem saber ler e escrever, não podia. E trabalhar e estudar não é brincadeira. Quantas vezes cheguei em casa com os livros debaixo do braço no papel celofane que a minha esposa colocava. Chuva. Naquele tempo, onde eu morava, quando comprei um terreno e construí um cômodo para sair do aluguel, não tinha asfalto, não tinha nada. E o ônibus não entrava na Vila João Ramalho. Hoje já entra linha de ônibus. Mas não tinha asfalto, não tinha nada. Chegava, às vezes, todo molhado, dos pés a cabeça, inclusive, embaixo do braço, mas sempre trabalhando e estudando. Aquele Jassa, que é o cabeleireiro do Silvio Santos, foi meu professor do Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem comercial] na época. Fiz demonstração de cortes e penteado para um corpo de jurados que davam nota. Era para medir, cortar o cabelo bem feito e rápido, igual ao Jassa - masculino, feminino, tanto faz. Quando falo aqui as pessoas ficam admiradas: o cabelo do Jassa custa 150 reais. E por quê? É esse pessoal da mídia: artistas, pessoal de novela, empresários, e com hora marcada. Quando falo isso as pessoas dizem: “Orlandão, é de ouro esse cabelo? Custa tudo isso”. Eu digo: “Tudo isso? pensando que é brincadeira?” O pessoal é artista, não é qualquer um que corta e paga 150 reais no cabelo, enquanto eu cobro aqui dez reais. Quando eu falo, o pessoal diz assim: “E foi mesmo, Orlandão? Não é à toa porque você é um profissional... E o Jassa foi seu professor”. Eu falei: “Foi meu professor e ensinava”. Fui para fazer o aperfeiçoamento. Fiz 50 horas de aula para aprender [a] trabalhar com segurança, tudo direitinho. No Senac, além desse diploma, eu tenho mais dois. Corto cabelo também, mas eu não tenho tempo. Como trabalho sozinho, não tenho tempo de atender clientes, principalmente nos fins de semana. Tem hora que tem três, quatro esperando. Tem dias em que vou almoçar às três, três e meia da tarde. Não tenho tempo nem de almoçar no fim de semana. Não tenho condições de atender feminino por causa disso. Às vezes eu corto, alguns amigos pedem para eu cortar o cabelo da esposa, aí eu corto. Mas não costumo cortar, por causa disso [falta de tempo]. Enquanto você corta um cabelo de mulher, você corta três de homem. O cabelo da mulher é mais difícil.

 

P/2 – Seu Orlando, quando o senhor chegou aqui em São Paulo, o que o senhor sentiu? Qual a sua primeira impressão de São Paulo, qual foi?

 

P/1 – Deixe eu só fazer uma perguntinha antes dessa. Quero perguntar para o senhor sobre essa viagem para São Paulo. Ela foi arranjada, quem organizou? Como o senhor conseguiu comprar a passagem? 

 

R – Eu não tinha dinheiro para pagar o ônibus e os meus amigos fizeram uma vaquinha, arrumaram o dinheiro para eu comprar a passagem do pau de arara e vir para São Paulo.

 

P/1 – O senhor já tinha trabalho aqui?

 

R – Não, vim na “raça” mesmo. Depois que cheguei aqui foi que comecei a arrumar serviço. Trabalhei primeiro num depósito de rasgar papel para prensa, e cortava o cabelo dos amigos e do pessoal que trabalhava lá para ganhar um dinheirinho. Depois fui trabalhar em Santo André. Na época, eu trabalhava tão mal que o patrão falou ao gerente: “Tenho que mandá-lo embora porque ele tem que aprender, não sabe nada”. O gerente falou assim: “Esse rapaz é novo, tem 21 anos. Se o senhor, como dono do salão, me permitir, e com a garra que ele tem, vou fazê-lo um dos melhores profissionais de Santo André. Se quiser que ele fique aí, você vai ver que...”. O homem ia me mandar embora, mas trabalhei nove anos e meio nesse salão. Depois fui para o Diplomata e, ao todo, trabalhei 25 anos em Santo André.

 

P/1 – Seu Orlando, agora a pergunta da Laura: quais foram as suas primeiras impressões daqui? Como foi a sua chegada à São Paulo?

 

R – Quando vim pra cá, não tenho vergonha de dizer, bati palma no portão da casa da minha irmã e ela me recebeu. Ela fala até hoje que eu parecia um mendigo. Pensava que eu era um mendigo mesmo. Foi para dentro da casa pegar um pão, uma comida, qualquer coisa, pensando que... Quando eu disse a ela: “Fran, você não conhece mais o seu irmão?”. Eu parecia um palito. Engordei depois que cheguei aqui, mais ou menos uns 30 quilos. Eu molhado, com roupa e tudo, não pesava nem 30 quilos. Magrelo, "só o pó". Uma viagem dessas, judiado. Quando a minha irmã viu, ela me abraçou: “Meu irmão”. [E] um frio, naquele tempo você ficava um mês sem ver o olho do sol. Só geada. Você raspava o gelo no meio da rua. Eu fiquei louquinho para voltar porque eu não aguentava o frio. De tanto o meu cunhado me incentivar, me segurou: “Não, rapaz, você vai se acostumar aqui, você vai se dar bem aqui” e tudo o mais. Fui indo, me adaptei de uma tal maneira que vou passear no Norte [e] nos primeiros 10 ou 15 dias é tudo uma beleza, depois já fico doido para voltar. Nunca fui embora de uma vez e nunca tive vontade. Para morar não, mas, passear sim. Eu adoro São Paulo, foi aqui onde eu me estruturei, foi aqui onde reconstruí a minha vida. Cheguei na estaca zero, pior do que estava não ficava e, graças a Deus, já fui até candidato a vereador. Sou cantor, massagista, faço massagem no pessoal aqui também. Se a pessoa estiver com a receita, faço injeção e uma série de coisas. Sou compositor.

 

P/1 – Seu Orlando, depois vou querer saber mais também do dia a dia do senhor. Quero saber [agora] quando chegou aqui e onde que o senhor foi morar?

 

R – Na casa da minha irmã.

 

P/1 – Em que lugar?

 

R – No Parque das Nações.

 

P/1 – Por quanto tempo o senhor ficou lá? Como foi isso?

 

R – Fiquei lá, mais ou menos, uns cinco meses. Depois vim para cá, fiquei na casa do meu outro cunhado aqui na vila. Daqui eu já era casado, a minha esposa ficou esperando a primeira filha, que está com 50 anos. Mandei buscar e ela ganhou a filha aqui. Depois, paguei aluguel por um ano, comprei o terreno lá e construí um cômodo. Mudamos para lá, na Vila Luzita, onde fiquei por 25 anos. Já estou com quase 30 anos que estou aqui. Comecei a vida do nada. Quando chamei o senhorzinho, já falecido, o Seu Amadeu, italiano, ele tinha uma caminhonetinha, para eu fazer a mudança; ele pegou a mudança daqui e levou lá para o cômodo que construí: “Seu Amadeu, quanto o senhor vai me cobrar essa mudança?”. Ele falou: “Eu não vou te cobrar nada. O que eu trouxe aqui, se você for vender, não dá para pagar o carreto”. Quando vendi minha propriedade e mudei-me de lá, eu tinha três casas. O meu amigo com um caminhão deu três viagens para trazer o que eu tenho aqui: onze cômodos, três banheiros, o salão aqui da frente... É muita mudança. Graças a Deus, quando voltei pra cá, que eu vendi a propriedade, comprei essa aqui, estava só feita a base embaixo. Eu construí. Não tinha nada, só os blocos. Arrumei tudo: construí o salão para cima, no sentido da rua. Na época, as minhas filhas trabalhavam, uma nas [Lojas] Brasileiras, em Santo André e a outra nas [Lojas] Americanas. Isso me ajudou muito. Comprei o material a prazo e elas me ajudaram a pagar. E tudo foi indo, até hoje, graças a Deus.

 

P/1 – Seu Orlando, como eram as ruas do bairro Silvia quando o senhor mudou para cá?

 

R – Em 1961, não tinha um palmo de asfalto, só barro puro, uma casa aqui [e] outra ali. Não tinha nada de asfalto. No Parque São Rafael não tinha uma casa, era só mato. Quando eu cheguei aqui, não tinha nada e hoje está tudo do jeito que está. O Parque São Rafael é uma cidade.

 

P/1 – E quem que morava aqui? Quem eram os moradores?

 

R – Nossa, naquele tempo, era o velho Seu Valdemar, já falecido; o Seu Ricardo; tinha o que se chamava Frederico, já falecido. O Seu Ananias. Tinha o que se chamava Orlando também, morreu bem velhinho. Tinha também a dona Clarinda e o esposo dela, que o chamavam pelo apelido de Bigode, já falecido também. Tinha pouca gente aqui na vila. Já morreram tudo e tem alguns ainda que estão bem velhinhos, como o Seu Ricardo, que está com 87 anos. E por aí vai.

 

P/1 – Seu Orlando, como que era o comércio da região?

 

R – O comércio?

 

P/1 – Isso. Tinha alguma vendinha?

 

R – Naquele tempo se chamava bodega. Era uma bodeguinha. Ia lá, comprava alguma coisinha. Supermercado, mas nem em sonho. Ônibus era só um pela manhã e outro ao meio dia. Para ir para Santo André, Mauá, quase não se tinha linha de ônibus. Era muito ruim. Era muito precário. Depois foi aumentando e hoje tem tudo: supermercado, farmácia, açougue. Aqui em volta também tem uma, duas, três, quatro feiras aqui, uma beleza. Tem duas no Parque São Rafael, outra aqui na segunda rua, outra de domingo e outra de quarta-feira logo aqui, depois, na terceira rua. Tem tudo. Linha de ônibus para Santo André, Mauá, é uma beleza - de cinco em cinco minutos.

 

P/1 – E o que as pessoas faziam aqui para se divertir, qual o lazer delas?

 

R – Sempre uns forrozinhos, uns showzinhos.

 

P/1 – Tinha um forrozinho aqui?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Onde era?

 

R – Os forrozinhos na época na sede, que hoje ainda tem algumas. O pessoal, negócio de [Educação] Física, essas coisas. O forró é sempre na sede. Vamos na sede, que é muito antiga. Tem duas, a de cima e a de baixo. A outra está fechada e a de cima ainda tem aquela molecada que faz a "Física", os professores de [Educação] Física dão aula de caratê e essas coisas. Sempre tem umas festinhas. No domingo mesmo, aliás, sábado, tem uma festa aqui na igreja, a Festa da Fogazza e tem um show muito bom. Eu gosto de dançar, vou com a namorada. Tem um conjunto muito bom e aqui, na Vila Vitória, é o Baile da Nostalgia, com muita música variada. Vou toda sexta-feira e é muito bom. A vila aqui tem a sede do João Paulo e sempre tem umas festinhas.

 

P/1 – E quem foram os primeiros amigos do senhor aqui?

 

R – Como eu disse, na época, eram esses que já faleceram, alguns que já estão bem velhinhos, mas que continuam sendo amigos. Depois veio a nova geração, pois todo mundo aqui me conhece. Quando eu saio do mercado a minha neta, que vai comigo, diz: “Mas, , você conhece todo mundo, hein?!”. Falam no meu nome. Às vezes a pessoa quer vir em algum lugar aqui ou em casa, qualquer coisa assim, no ônibus: “Eu vou à casa do Orlando, o cabeleireiro", “Eu já sei onde é: perto da padaria”. Aí já fala do meu nome e, graças a Deus, todo mundo me conhece ali.

 

P/1 – E quando chegou o asfalto aqui?

 

R – Foi uma beleza, em todas as ruas.

 

P/1 – O senhor lembra como que chegou o asfalto?

 

R – Tiveram os prefeitos na época. O Grilo, em Santo André; teve esse que tá aí, o Osvaldo Dias. Já é a terceira vez que é prefeito; teve o Leonel Damo [e] o Luís Carlos Grecco, que já está bem velho; o Fioravanti [Amaury Fioravanti] também, que foi o prefeito aqui de Mauá, quando construíram asfalto, esgoto, água, porque não tinha água também. Água era só de poço, não tinha água encanada. Vieram a guia, o esgoto, o asfalto, mas naquele tempo não tinha nada, era só na base do poço e da fossa. Eu conheço aqui desde 1960.

 

[Pausa]

 

P/1 – Vamos lá. E aí o senhor chegou em São Paulo. Quando que o senhor começou a estudar no Senac, como que foi isso?

 

R – Sim, porque eu estava no começo na profissão, não trabalhava bem, [então] fui fazer o aperfeiçoamento para trabalhar com mais garantia e firmeza. Foi quando aperfeiçoei: fiz 50 horas de aula no Senac e, assim, passei a trabalhar com segurança. Qualquer tipo de serviço, eu faço. Aprendi lá. Hoje, esses cabelos de surfista, esqueitista, eu faço tudo. Tem um tipo de cabelo que é muito mais fácil do que antigamente, quando apareceu a maquininha. Haja serviço para trabalhar com a maquininha. Já na tesoura, enquanto você corta um cabelo, são cinco cortes na maquininha. Ela ajuda muito o profissional. Hoje, para trabalhar na profissão, não é difícil. Os cortes são fáceis. A rapaziada inventa uns cortes "doidos", parece uma tigela na cabeça, mas com "dois palitos" - você faz e está bom. Eles acham que está na moda e você vai fazer o quê? Tem que se aperfeiçoar e fazer.

 

P/1 – E como que foi montar o cabeleireiro aqui?

 

R – Eu tinha medo, tinha cisma de parar de trabalhar como um empregado. Medo de sair para trabalhar por conta e não dar certo, mas foi o contrário. Depois que comecei a trabalhar por conta, eu dizia: “Já devia estar trabalhando por conta há mais de dez anos atrás”. Vim aqui para a vila, trabalhei, paguei seis anos de aluguel e depois construí aqui. Já faz 30 anos que estou aqui, graças a Deus, com uma clientela muito boa - não posso me queixar. Todo mundo me conhece, e até o dia que Deus quiser, eu fico.

 

P/1 – Quem foi o primeiro cliente do senhor? Quando foi o primeiro corte, você se lembra disso?

 

R – Nossa! O meu primeiro cliente já faleceu há muito tempo, há 30 anos, ele já estava velho. Tem um japonês que eu cortei o cabelo dele. Hoje ele tem filhos, casou e tudo. Ele se chama Sílvio. Cortei o cabelo dele na tábua: colocava a tábua na cadeira para cortar o cabelo dele. Hoje ele é casado, tem filhos. Mas para lembrar qual foi o primeiro é bem difícil.

 

P/1 – E teve alguma época que teve um movimento maior?

 

R – O importante da profissão é que, onde a pessoa estiver, em casa ou no serviço, ela fala: “Vou no Orlando cortar o cabelo.” Ela já sabe onde vai. Então, não tive muitos problemas quando aumentaram os salões, porque aumentou a população também. Tem muitos salões de cabeleireiro. Tem aquele ali, tem o meu aqui. Na avenida tem mais uns quatro salões. Tem o da menina ali, ao lado da bicicletaria. Aumentou muito os salões da vila, mas aumentou muito a população também. Então, não tive problema porque sou muito conhecido. Sou antigo e o pessoal vem mesmo.

 

P/1 – Teve algum momento de dificuldade?

 

R – Tive, principalmente quando pagava aluguel. Tive um sócio. Quando trabalhei ali, eu queria entrar para trabalhar de empregado. Ele não queria porque a clientela era pouca: “Não tem problema, entro para ser seu empregado e o que sobrar eu atendo”. Entrei e ficava uma semana sem atender um só cliente e vendo ele trabalhar: “Vou esperar o Gil”. Mas começou a clientela para mim, entrei de empregado [e] terminei sendo sócio dele. Foi quando construí e passei para cá. Depois ele ficou sozinho, fechou o salão e foi embora para o Espírito Santo. Estou até hoje aqui. Comecei como empregado, depois fui sócio dele e terminei construindo aqui. 

 

P/1 – Tem algum caso engraçado de algum cliente que não tenha gostado do corte, alguma coisa que tenha dado errado?

 

R – Já aconteceu.

 

P/1 – Conta para nós.

 

R – O cliente chegou a voltar [a cortar], [depois] do corte [que não gostou]. A gente fala uma coisa, ele entende outra e, às vezes, fica bravo. Mas, mesmo assim, passava um tempo e voltava a vir cortar com conosco. Tem muito cliente que é uma beleza, tem outros que é mais difícil, você faz um corte e, às vezes, ele não gosta. Isso é normal quando o cliente vem de outro salão. Ele não gostou de cortar lá e vem fazer um teste aqui. Quantos que vêm aqui e falam: “Vim por indicação. Você que é o Orlando”, “Sou eu”, “Falaram que você é bom, que trabalha bem. Vou fazer o teste. Se gostar, eu volto”. Tem tudo isso. Você vai, corta o cabelo e, se a pessoa gostou: “Agora você ganhou um cliente”. Vem sempre indicado. Tem caminhoneiro, o pessoal que trabalha nas firmas. O serviço bem feito é menos divulgado do que o mau feito, porque o mau feito as pessoas percebem na hora: “Tá louco, que cabelo é esse? O ‘cara’ que cortou, estragou o cabelo”, “Você cortou no sindicato ou foi a sua mulher que cortou o seu cabelo?”. Já vem a crítica. O bem feito as pessoas veem menos, na minha profissão é assim mesmo. Mas eu sempre levei na esportiva, nunca fiquei nervoso com cliente. Tem cliente que diz: “Eu não gostei, não ficou bom”, “Não tem problema se você não gostou”. Na época que eu estava começando: “Se você não gostou não tem problema, não precisa nem pagar”. Quantas vezes isso já aconteceu? Muitas vezes; eu nem esquento a minha cabeça. Veja só: eu, com 71 anos, todo mundo admira. Não tenho nem ruga na testa. De vez em quando eu brinco com o cliente, que vai acontecer comigo o que aconteceu com o senhor esses dias na televisão: ele renovou a carta de motorista com 101 anos. O repórter falou a ele: “Posso dar uma volta com você?”, “Pode, entra aí”. Olhou para ela e ela para ele: “Você não usa óculos?”, “Não preciso”. Ele entrou no programa do Luciano Huck dirigindo o carrão dele, com 101 anos. Eu também fui renovar a minha carta esse ano e passei sem problemas. Não preciso nem usar óculos, graças a Deus.

 

P/1 – Seu Orlando, o salão aqui sempre foi assim? Como o senhor montou?

 

R – Não, fui comprando. Eram outras cadeiras, mais fraquinhas. Essas cadeiras são muito boas e confortáveis, deita para cortar. Corto muita barba também. A maior parte do pessoal corta a barba em casa e, quando vem no salão, é uma barba difícil de cortar. Então, a cadeira deita para fazer a barba. Essas cadeiras mais modernas, se deitar, o cliente cai com a cadeira e tudo, [então] não tem como fazer barba. Então, a maior parte das pessoas pedem para cortar a barba, mas não dá para cortar por conta disso, só o cabelo.

 

P/1 – Seu Orlando, quando começa a sua paixão por cantar?

 

R – Ah, desde criança.

 

P/1 – Mas quando o senhor começou a cantar mesmo, lá em Santo André?

 

R – Desde criança que eu canto e, aqui mesmo, quando vim para cá, sempre cantei, participei de shows e, de vez em quando, eu ganho uns cachezinhos também.

 

P/1 – E o senhor já cantou aqui em Silvia?

 

R – Sim.

 

P/1 – Em qual lugar o senhor cantou.

 

R – Cantei num barzinho que tem aqui em cima; cantei na sede por muitas vezes; aqui, no João Paulo, também, na sede aqui do bairro. Tem o Wilson dos Teclados, ele sempre me chama quando vai fazer show. E vou lá, ele sempre gosta. Essa semana, no domingo, vai ter um show em cima no bar e o candidato vai dar um churrasco: já estou convidado para cantar. O Wilson dos Teclados sempre me convida.

 

P/1 – Como foi a primeira vez que o senhor cantou para um público?

 

R – A primeira vez foi no programa de calouro. Fui reprovado no programa.

 

P/1 – Qual foi o programa?

 

R – Fui ao Programa do Chacrinha, depois o Lombardi me levou para cantar no programa do Silvio Santos. Lá, fiz o teste com o Maestro Zezinho [e] passei. No programa do Bolinha, na época, ganhei uma garrafa térmica, cortina... Naquele tempo, o patrocínio era das lojas Tamacavi, Casas Pernambucanas. O Bolinha já faleceu. Comecei nos barzinhos, sempre o pessoal me chamava. O rapaz estava cantando aqui no baião de dois, num sábado. Eles nunca me viam. Ficava cantando música sertaneja. Pedi uma música pra ele e falei assim: “Dá pra você cantar uma música do João Mineiro e Marciano para aquela mesa ali, número 72, que eu estou lá com a namorada, a filha e a irmã dela”. Ele falou: “Qual é a música?”. Eu cheguei na orelha dele: “É essa aqui: ‘Você me pede nessa noite que estamos juntos que eu fique, que faça você feliz”. E ele falou: “Você é cantor?”. Eu falei: “Eu brinco um pouquinho”, “Você vai cantar comigo agora”. Subi no palco, cantei cinco músicas na hora. (risos) Ele nunca me viu e, então, me convidaram: “Sábado e domingo tem show. Você vai vir mais cedo, vai ensaiar comigo e vai cantar conosco”. (risos) É isso aí.

 

P/1 – Então, Seu Orlando, agora vamos entrar numa parte final da entrevista. O que significa para o senhor morar aqui em Sílvia Maria?

 

R – Aqui é o seguinte: quando vim pra cá eu já gostava daqui, mas como não tive uma oportunidade de comprar um terreno, pois que era muito caro na época, então comprei na periferia, na Vila Luzita. Chama-se Vila João Ramalho. Lá o terreno era mais barato. Comprei lá, construí um cômodo e fui construindo. Lá eu tinha três casas com a minha, dois inquilinos. Vendi, comprei aqui, construí do jeito que eu queria. Eu já gostava da Vila, por isso vim morar aqui.

 

P/1 – Por que o senhor já gostava daqui na época?

 

R – Por conta de que quando eu vim pra cá, já foi para morar aqui.

 

P/1 – O que tinha de especial que o senhor mais gostava?

 

R – Tinha um ar mais puro, esse rio que passa aqui tinha até peixe. Íamos pescar nesse rio e era muito mais gostoso morar aqui. Eu sempre gostei por conta disso. E quando cheguei, já comecei a fazer amizades e ficar bem mais conhecido aqui. Optei por morar aqui e já vai para 30 anos que eu estou aqui.

 

P/1 – E hoje, Seu Orlando, o que o senhor mais gosta daqui?

 

R – Aqui tem de tudo, supermercado, farmácia, feira, açougue. Tem essa quadra, tem o lazer, as feiras, linha de ônibus muito boa - apesar que eu ocupo muito pouco. Sempre vou de carro para todo lugar mas, às vezes, preciso ocupar as linhas de ônibus. Aqui na vila só está faltando reabrir o posto, que está praticamente fechado. Naquele tempo tinha médico à vontade, tinha remédio, é isso. Tem todos esses detalhes aí, essas coisas. Hoje me sinto uma pessoa muito feliz na vida, graças a Deus, apesar dos problemas. Tenho uma clientela muito boa. Esse rapaz veio aqui, fez o teste comigo, gostou e até hoje é meu cliente.

 

P/1 – Seu Orlando, conte-nos um pouquinho de como foi essa história de ser vereador. Quais são as suas expectativas para a comunidade?

 

R – Ah, sim, exatamente: fui nomeado. Inclusive, na época...

 

P/1 – Como funcionou isso?

 

R – Fui nomeado para ser candidato. Você sabe que para ser candidato você tem que ter a ficha limpa. Como sou uma pessoa muito bem quista, muito querida no bairro e, inclusive, estou trabalhando com a Doutora Vanessa, a deputada, e ela quem me convidou. Mas eu não quis mais porque para ser candidato são muitos problemas, muito "enchimento de saco". Apesar de ser muito conhecido, infelizmente, eu saí. O meu partido era o PRB, coligado com o PT e o PT, você sabe, que muita gente não gosta. O que acontece? As pessoas falavam: “Orlando, você saiu coligado com o PT”, e começava a xingar: “O PT só tem corrupto, o PT é partido de ladrão. Você é um homem sério, honesto e esse negócio de política, principalmente do PT, a pessoa tem que ser safada, tem que ser mentirosa e você não é”. Tanto que a minha campanha foi diferente. Nos comícios eu falava para o pessoal: “Não estou aqui prometendo nada a ninguém”. Se quis fazer uma propaganda, gravei um "jingle" no meu Toca CD que está ali no carro, peguei uma caixa de som e coloquei no capô do carro. Eu mesmo fiz a propaganda sozinho e não tive ajuda de ninguém. Nem o partido me ajudou em nada. Fiz a minha campanha sozinho e, portanto, todo mundo admira que eu me elegeria com mil votos. Tive 790 votos. Não quis mais continuar porque era muita desigualdade, ingratidão e esse negócio de política é um negócio que, desculpe-me falar, é muito sujo. Você sabe disso. Quantos corruptos aparecem na televisão? Dificilmente você vê prefeito pobre. Os prefeitos de Mauá, Santo André, jamais esse povo ficou pobre. O vereador em Mauá ganha 12 mil reais por mês para fazer o quê? É o que eles querem. Ganhou quatro anos de sossego, só ganhando a grana. E isso fora as mordomias. Então, um negócio desse aí para mim não... Eu tentei, fui nomeado, o presidente do meu partido insistiu: “Seu Orlando, você vai ser eleito, é muito bem quisto. O pessoal gosta muito de você e vamos que vamos”. Mas eu não queria entrar e, de tanto ele insistir, entrei. Depois, a Vanessa me chamou para sair, o Manuel Lopes também é muito meu amigo, já foi eleito oito vezes - é uma pessoa excelente. Não é vereador da vila, mas o que o pessoal precisa é só procurá-lo. Ele "chega junto". Dou o maior valor a ele. Tem o Seu Antônio que foi vereador por duas vezes. E por quê? Porque, na época, era só ele e um senhor com nome de Orlando. Então, ele ganhou duas vezes, mas não soube fazer uma administração como se deve. O pessoal ficou com cisma. Ele já foi candidato mais duas vezes, está saindo pela terceira, mas é difícil ganhar por causa disso. Eu não quis e nem quero mais. Quero sossego, já estou velho, quero cabeça fresca, só trabalhar e viajar, assim que eu puder. Mas o que veio para eu ser candidato, na época, foi isso e não por interesse de ganhar um ordenado bom. Embora até hoje o pessoal me procura aqui. Como fui candidato: “Orlando, tem um barro para tirar lá em casa, um entulho e tudo mais. Você tem muito conhecimento na prefeitura. Dá para ver isso para mim?”. Até hoje vou na regional. Outro dia, uma senhorinha que tinha um entulho para tirar. Fui lá, falei com o Seu Dito: “Seu Dito, tem uma senhorinha assim e tal, na Rua Noel Rosa, número tal. Tem um entulho para tirar de lá. Dá um jeito nisso”, “Seu Orlando, vou ver o que eu posso fazer. Vou mandar o rapaz dar uma olhada e, qualquer coisa, eu mando o caminhão”. Era sucata, barro, alguma coisa. Aquele muro, que o rapaz derrubou, pôs a grade e ficou com muito entulho. Fui lá, falei com o Seu Dito e ele mandou o caminhão da prefeitura. Encostou ali e foi na hora. O trator veio junto e já colocou no caminhão. Então, sempre vejo algumas coisas. Por quê? Porque o pessoal me procura por ser conhecido. Sempre procuro colaborar, mesmo sem ser candidato. Os candidatos, por exemplo, aquele ali, o Antônio, é meu conterrâneo de Sergipe. Está há muitos anos aqui, saiu candidato agora, veio aqui, pediu para eu colaborar com ele, que está com a Vanessa. E falei para ele: “Você tem muito conhecimento aqui, é da comunidade da igreja e tudo mais”. Mas ele não vai ganhar. Aqui vai ser a mesma coisa de antes e não vai ganhar nenhum candidato. Por quê? Tem muito candidato aqui na vila. Tinha que ser como no interior, ter dois candidatos, no máximo três, porque dá para eleger. Aqui na vila tem 13 mil eleitores, dá pra eleger dois candidatos tranquilo. Mas vem os outros de fora, arranca os votos e, no fim, termina não elegendo ninguém. Sabe quantos votos precisa, por exemplo, para o partido da Vanessa eleger um vereador? São três mil votos. É brincadeira? Não, é fácil arrancar três mil votos. E por quê? Por causa dos outros candidatos que vêm arrancar os votos daqui e, no fim, termina não ganhando ninguém.

 

P/1 – Queria saber qual foi a maior conquista do senhor nesse tempo todo aqui.

 

R – A maior conquista?

 

P/1 – Sim.

 

R – A maior conquista, nesse tempo, graças a Deus, foram as amizades que eu tenho. Os amigos, a clientela, o conhecimento. Como eu lhe falei, uma criança de cinco anos que já tem entendimento e até um velho de cem anos, ao falar no Orlando, todo mundo já conhece. E, graças a Deus, todo mundo gosta de mim. Sou muito querido por todos. Gosto de fazer favor às pessoas, sem problema, sem olhar a quem. Precisou de mim, o meu carrinho está aí. Uma pessoa chegou aqui: “Orlando, a minha filha está ali, a minha mãe, o meu pai está passando mal, está ruim... Dá para você levá-lo no hospital?”, “Sim, vamos lá”. Já pego e levo lá, sem problema algum. Às vezes a pessoa quer pôr até gasolina e eu digo: “Não [é preciso], tem gasolina. Não tem problema nenhum”. Eu me sinto bem, faço e gosto de fazer favor às pessoas. Gosto de servir as pessoas. Isso está no meu íntimo, no meu coração. Sou uma pessoa simples. Sinto-me muito amável e realizado. No meu pensamento, na minha mente... Eu não sei se tenho na minha cabeça uma pessoa que não fala comigo: “Eu não gosto do Orlando”, jamais.

 

P/1 – E o que o senhor acha desse projeto de gravar e fazer uma exposição com a história de vida dos moradores?

 

R – Muito bom. E você não vai esquecer porque senão eu vou cobrar. No dia que for passar a gravação, a filmagem, quero estar lá com a minha família e convidar alguns amigos para assistir. Faço questão de você me avisar. Você disse que vai ser quando?

 

P/1 – Vai ser no ano que vem, quando começarem as aulas.

 

R – Isso.

 

P/1 – No começo do ano letivo.

 

R – Você me dá um "alô". Você ligou me convidando para fazer essa entrevista, essa filmagem.

 

P/1 – O senhor vai receber um convite.

 

R – Quero que você me ligue com uns três dias de antecedência, qualquer coisa assim: “Vai ser no dia tal”. Aí eu já vou preparando o pessoal para irmos lá.

 

P/1 – Seu Orlando, como foi para o senhor contar a sua história? Voltar lá atrás e lembrar do seu passado?

 

R – A minha mente é muito boa e, modéstia a parte, sou bom de piada também. Para eu contar piada é fácil. Eu gravo, tenho uma mente... Tenho facilidade para essas coisas. Conforme você me falou, coisas que me aconteceram há 50 anos atrás, eu lembro de tudo. Eu participei também daquele programa Casos de Família no SBT, esqueci de falar para vocês. 

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Participei junto com a minha filha.

 

P/1 – Qual foi o caso?

 

R – Lá em Sergipe, no Ceará, os meus irmãos, a minha filha, os vizinhos, todos assistiram. O tema foi: “Essa minha filha é um problema”. A Márcia, ela é "fogo", corre do telefone, usa o telefone demais para namorar. A conta vem alta, dou bronca nela e tudo mais. O SBT veio me buscar, filmou a minha casa. Fui, fiz o teste. É gravado, depois a gente assiste em casa. Ainda fiz teste, cantei música lá... O pessoal, os vizinhos daqui... Fiquei tão conhecido, eu estava em qualquer lugar. No Baronesa, qualquer coisa, você ouvia a mocinha falar para a outra: “Eu acho que é ele...”. E a outra falava assim: “Será? Eu acho que não”. Daí: “Eu estava olhando, você estava no SBT?”. Falei: “Eu mesmo”, “Não falei que era ele?”. Os moleques no farol falavam assim: “Rapaz, eu vi você na televisão!”. (risos)

 

P/1 – Seu Orlando, agora para encerrarmos, o senhor pode cantar o seu "hit", a sua música mais famosa?

 

R – Canto, claro.

 

P/1 – Canta para nós.

 

R – Inclusive, na época, a esposa e com razão, porque eu era novo e você sabe como é, com o perdão da palavra, mas as mulheres, nos shows, chegavam a rasgar até a minha roupa. A minha esposa tinha muitos ciúmes. Vivemos juntos 51 anos, não é brincadeira. A levei nos shows. Eu participei de um show com dez mil pessoas. Você é nova e não lembra do Tony Damito, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Carmen Silva, Nalva Aguiar, esses cantores da "antiga". Eu participei junto com eles. Por pouco que não nos separamos. Tive uma inspiração e fiz uma música. Coloquei o título da música - porque a música tem que ter um significante - de “Desquite”. Depois ela começou a entender as coisas e me apoiava. Aí, pus o outro lado da música, o lado B: “Reconciliação”, é da minha autoria. Mais ou menos assim: “Não me conformo com o seu modo de me tratar, atualmente o seu prazer é me contrariar. Constantemente está falando em separação, pensa que o desquite resolverá nossa situação. Eu não concordo em me desquitar porque dos meus filhos eu não consigo me separar. Viveremos juntos nossos dramas tristes, além das crianças, eu não concordo com o desquite”. Fiz o lado B quando ela começou a entender. Eu a levava nos shows, ela viu que era só naquela hora. Coloquei o título da música de “Reconciliação”: “Vamos falar de amor e rever as nossas brigas, vamos deixar para trás o que passou, tudo intrigas. Vamos reconciliar e trilhar novos caminhos, faz de conta que o que se passou foi poeira que o vento levou, nosso amor, minha querida, nunca mais pode ter fim. Eu nasci para você e você nasceu pra mim. Poderemos nos entender e ter mais compreensão e viver eternamente na mais completa união”.

 

P/1 – Em nome do nosso projeto eu agradeço o senhor por ter contado a sua história para nós.

 

R – É isso aí.

 

P/1 – Obrigada.

 

R – E para terminar, tenho um filho adotivo que agora está com 36 anos. Adotei quando ele era novinho, pequenino, tinha um mês de vida, mais ou menos. E tenho o Orlando, que é o único filho homem, que está com 32 anos e fez dia 21 de setembro. Mas para o Reginaldo, que é o adotivo, fiz uma música pequenininha. Mas veja, a música tem que ter significante. Adotei, tenho o meu carro, as cinco filhas e a minha casa e coloquei tudo na música, mais ou menos assim: “Com a casa e um carrinho, cinco filhas para cuidar, tenho também o Reginaldo, que alegria do meu lar. Chama papai, chama mamãe, de vez em quando chama a vovó. E os vizinhos ficam admirados com a sabedoria do Reginaldo”. (risos) Eu tenho mais músicas ainda.

 

P/1 – Muito obrigada, Seu Orlando.

 

R – É isso aí, obrigado vocês.

 

[Fim do depoimento]

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