Busca avançada



Criar

História

Uma campeã rubro-negra

História de: Patrícia Amorim
Autor:
Publicado em: 21/12/2015

Sinopse

Nesta história , Patrícia nos conta sobre suas raízes judaicas e sua infância humilde no Bairro do Flamengo. A seguir, sabemos sobre sua entrada no Clube de Regatas Flamengo, seu cotidiano na natação, a parceria com sua irmã na piscina, os campeonatos, derrotas e vitórias dentro do clube do seu coração. Patrícia nos fala sobre o desafio de ser mãe, seu casamento e seu trabalho atual na área desportiva do clube. Patrícia relembra os momentos mais importantes de sua vida, do nascimento do seu primeiro filho à morte de Daltely Guimarães.

Esta história foi revisada pela voluntária Paola Alves.

Tags

História completa

P/1 – Diga o seu nome R – Tá, atual? Ou de guerra? (risos). Hoje meu nome é Patrícia Amorim (Sihman?). P/1 – Você nasceu aonde? R – Nasci no Rio. P/1 – Em que dia? R – 13 de fevereiro de 1969. Sou aquariana (risos). P/1 – Qual o nome dos seus pais? R – Renato Galvão de Amorim e Tania (Filler?) Amorim. P/1 – E qual a atividade deles? R – Meu pai é, bom, a atividade atual, ele tem uma loja dentro do Flamengo, que chama Flavídeo, Flafoto, há mais de 15 anos, junto com minha mãe agora. Minha mãe sempre foi professora, se aposentou e então hoje eles têm a lojinha de vídeo e fotos no clube. P/1 – E seus avós? R – Bom, meus avós maternos eu conheci pouco porque eu tenho origem judaica por parte de mãe e eles vieram no porão de um navio e desembarcaram no Brasil, na época do holocausto, fugidos da Rússia, eram russos, então... P/1 – E como eles se chamam? R – Cecília e Moisés (Filler?). (Filler?) é traduzido, não sei como era em russo, mas é traduzido. Quando a minha mãe nasceu, a irmã mais velha dela já tinha 21 anos, então, pra piorar ela era um temporona, de uma família de cinco irmãos. Ela era a mais nova, então, eu conheci pouco. Quando eu tinha cinco anos, a minha avó faleceu e logo depois meu avô faleceu. Agora meus avós paternos, a minha avó também morreu cedo, morreu com 50 anos, meu avô não, com 92. Em 31 de outubro de1994, eu lembro, porque eu casei duas semanas depois, ele morreu em 94. Ele é que me dava muita força, meu avô. Segundo ele... P/1 – Qual o nome dele? R – Humberto Morais Barbosa de Amorim. Ele era general e a minha avó paterna é Alidéia Amorim (risos), não sei, conheci pouco. Mas ele dava muita força, engraçado né? Um era da ditadura, general na época da ditadura e os outros vieram fugidos em porão de um navio e pararam no Brasil (risos). Bem misturado. P/1 – Você tem irmãos? R – Tenho. Um irmão mais novo Mauro (Filler?) Amorim, e a minha irmã, Paula Amorim Abreu. A minha irmã mais velha sempre foi meu espelho, porque eu comecei a nadar por causa da Paula, que tinha problema de asma, bronquite e o médico recomendou a natação e a minha mãe não tinha com quem deixar e me levava. Daí surgiu. P/1 – ... Isso surgiu quando você tinha quantos amos? R – Três. E ela tinha seis. P/1 – E naquela época, você morava? R – Em Botafogo. P/1 – Conta um pouquinho da casa ou apartamento onde vocês moravam. R – Bom, isso vai ser difícil. Quando eu nasci, segundo meu pai fala e minha mãe, lógico, eu vim de uma família muito pobre, muito pobre, então eu morava na Lapa, em um conjugado, eu não lembro, lógico. E minha irmã tinha sempre esses problemas respiratórios e tal e daí que a gente começou a nadar. Logo depois a gente conseguiu se mudar lá para Botafogo, próximo e aí, eu comecei a nadar no Botafogo por isso, em uma escolinha. Naquela época, não tinha muita escola de natação, muito menos de bebê, tanto que eu não tinha idade para começar a nadar. A minha história começou muito daí, só podia começar a partir de quatro anos e a minha irmã já tinha seis, então ela começou a nadar e eu sempre ia assistir e o professor então... Eu, apaixonada por natação, então ele deixava dar um mergulho, botar o pé no fundo da piscina e sair e aí, a minha aprendizagem foi muito rápida, então, com quatro anos eu estava na equipe e com cinco eu atravessei a Baía da Guanabara, (Flamengo – Urca?). E aí, surgiu uma nadadora (risos), eu e minha irmã. Mas ela era mais velha. Foi aí que começou. P/1 – Você pode contar um pouquinho essa passagem __________________. R – A história é a seguinte: quando a gente nadava no Botafogo, isso ainda não... A Paula era federada e ela passou para a equipe e eu também. Eles queriam que eu passasse para a equipe. Eu fui federada muito cedo (risos), acho que não conheço atletas que tenham sido federados tão cedo, tenho até a carteirinha em casa. Na época, a Federação chamava Metropolitana de Natação, hoje é Federação Aquática do Rio de Janeiro. Existia uma premiação nessa travessia, que chama (Travessia Flamengo – Urca Duque de Caxias?), saia da praia do Flamengo e chegava no forte São João, na Urca. É uma travessia que tem mais ou menos 1800 metro, um quilômetro e oitocentos. Tem a premiação para o mais idoso, para o primeiro, para a primeira mulher e tinha premiação para os mais novos, então, logicamente que com cinco anos, eu era a mais jovem e eu tenho essa foto, saiu no jornal e eu estou do tamanho, no joelho, na perna das pessoas (risos), muito legal, eu tenho isso guardado. Então, eu fui com um médico, tinha um barquinho a remo e um médico nadando comigo. E no meio do caminho o médico cansou, era amigo até do meu pai, na época. Ele cansou e queria parar e eu queria continuar, foi muito engraçado. Eu completei o percurso, só que logicamente que eu não entendo, com cinco anos eu não tenho muita noção de regras, do que pode do que não pode, então, quando chegou na praia eu me segurei no barco e não pode, você é desclassificada. Então, eu fiquei frustradíssima porque eu não tinha ganho o troféu, eu completei o percurso, saiu no jornal, as pessoas ficaram indignadas: “Tinha que dar o prêmio para aquela menina de cinco anos de idade.” Eu jamais ia deixar meu filho com cinco anos de idade, não sei, acho que a minha mãe não tinha juízo (risos), acho uma maluquice, no meio do mar aberto, aí saiu no jornal, foi engraçado. Acho que daí surgiu a minha paixão por prova longa, desde cedo, não sei se... São coisas que às vezes, de forma inconsciente e depois de uns anos você começa a resgatar e percebe que alguma coisa surgiu daí. P/1 – Você falou do teu início no Botafogo, você chegou a nadar oficialmente pelo clube? R – Nadei sim. Só que não tinha... Nadei, nadei. Nadei até em uma época que não tinha, por exemplo, hoje em dia nem existe mais Campeonato Brasileiro de Mirim, naquela época existia, mas era a primeira categoria, sete, oito anos. Com essa idade, eu já estava transferida para o Flamengo, então, eu nadei extra oficialmente, porque eu nadei com cinco, seis anos, uma categoria que começa aos sete, oito anos, que aí eu já estava no Flamengo. Eu nadei oficialmente sim, mas não cheguei... Eu acho que eu fui a um Brasileiro em Santos, que eu fui a oitava colocada com seis anos, não sei, são coisas muito (risos)... Mas nadei sim, mas quando eu despertei para a natação competitiva e a Paula já participava de competições e era muito boa, tinha um talento muito grande. E o Flamengo era o Flamengo do nosso coração, eu era, sempre fui Flamengo, meu pai falava assim: “Ah, torcida”, perguntava: “Qual é a maior torcida de futebol?”“ Ah, a do Flamengo. Eu sou Flamengo.” Então, na primeira oportunidade que a gente teve a gente foi pro Flamengo. P/1 – A Paula foi junto também? R – Eu fui na verdade por causa da Paula. P/1 – Ah. R – E inclusive a turma do Botafogo na época disse para minha mãe: “A sua filha tem um talento danado, ela é muito boa, muito jovem. E ano que vem que vai ter o Campeonato Brasileiro da categoria que se chamava Troféu Cidade de Campinas, ela tem que nadar pelo Botafogo.” Aí, minha mãe:” Não, aí vão as duas juntas.” E eu fui campeã brasileira pelo Flamengo, pela primeira vez, aos oito anos de idade, troféu Cidade de Campinas. Em 77, no ano em que eu entrei no clube. P/1 – Conta pra gente um pouco como era a tua casa, dentro, fora das piscinas, a sua relação com irmãos? Se havia tarefas? Se você era uma filha que ajudava a mãe ou não? Como era a tua infância dentro de casa? R – Eu sou a filha do meio, então eu sempre fui complexada com isso, porque eu era o sanduiche porque minha irmã já despontava como campeã porque você fala Patrícia Amorim, mas a Paula Amorim, ela foi campeã brasileira absoluta adulta, com 13 anos, ela foi aos Jogos Panamericanos em 79, em Porto Rico, com 13 anos, foi a mais nova da delegação e ela foi sete anos, assim como eu, ela foi sete anos campeã brasileira de 200 borboleta pelo Flamengo. Ela foi ao Campeonato Mundial, foi aos Jogos Pan-americanos, foi campeã Sul-americana, recordista sul-americana, só que ela não teve essa abrangência, ela não foi tão conhecida. Eu fiquei muito conhecida, principalmente no Flamengo, mas eu vou voltar, pulei uma etapa. Depois eu conto então (risos) essa passagem. Eu era filha do meio, e eu sempre dizia que eu era o sanduíche, que eu não tinha atenção, porque o meu irmão era sete anos mais novo que a minha irmã, não, nove anos mais novo que a minha irmã, seis anos mais novo que eu. Então, ele era o caçula, bem temporão e era o único homem, então era o xodó. E a minha irmã mais velha, era a irmã mais velha, primogênita, super bonita, não sei o quê, tudo dava certo para ela e eu era a ovelha negra (risos). Eu sempre fui muito levada, eu quebrei o dente duas vezes na piscina do Flamengo, brincando de polícia e ladrão, eu sempre fui muito levada, então, eu sempre tive um desafio de ser melhor do que a minha irmã. Sempre quis ser melhor que a minha irmã mais velha, se eu ia ser campeã ou não, não importa, eu queria ser melhor que ela. E sempre fui muito competitiva, muito, muito, muito. Levada. Esse temperamento muito (risos)... Muito sofrida também. P/1 – E a relação com a Paula era legal? R – A relação com a Paula sempre foi muito... Ela sempre me protegeu muito, tinha essa coisa, até que eu superei vamos dizer a Paula. Só que ela nadava borboleta e eu crawl. E quando eu... Ela tinha o recorde brasileiro no Sul-Americano. Quando eu comecei a nadar borboleta e eu ia chegar eu acho, ao recorde da Paula, aí teve um problema em casa danado porque ela falou que eu queria tirar tudo dela, aquelas coisas, aí eu parei de nadar borboleta. Então, eu não sei onde eu ia chegar no borboleta, mas eu estava me aproximando demais e aí foi complicado em casa, foi muito complicado. E hoje, quer dizer, a vida, hoje ela trabalha comigo, eu tenho uma escola de natação, que eu sou a dona e ela trabalha pra mim, engraçado, uma coisa muito maluca. Hoje ela fica muito com meu filho, ela assumiu o papel de mãe mesmo, mas foi muito complicado numa fase. P/1 – E quando o Mauro nasceu você já tinha 6, 7 anos? R – Isso. P/1 – E a relação tua com o Mauro? R – Ah, sempre foi muito bacana, até hoje. No começo, juntavam os dois pra brigar comigo, porque eu sempre fui muito agitada, quebrava tudo... P/1 – Era a rebelde da casa. R – É um pouco isso. Um pouco. Nossa. Levada demais. Minha mãe falava... Eu sei que eu era muito levada (risos), tenho noção. Mauro muito calmo e Paula muito calma. Muito calmos os dois, temperamental, mas aí depois, conforme ele foi crescendo, foi muito legal. Eu sempre ajudei muito porque eu comecei a despontar e comecei a ajudar muito o Mauro. Ele foi ao contrário, ele foi aquele atleta que ele fez tudo no Flamengo, ele fez pólo aquático, natação, tudo, voleibol, as coisas que eu me lembro. Ele chegou sempre na equipe, ele era muito bom, mas ele enchia o saco e queria ir para outro Aí ele foi para o Atletismo, que ele foi vice-campeão brasileiro de salto com Vara e era muito bom, mas também, quando ele começou a despontar ele parou. Ele foi o contrário, ele era um anti atleta, ele tinha talento, ele era bom, sabe, tem jeito para tudo, mas não fez nada direito (risos). P/1 – Ou cansa. R – É. E aí, o relacionamento ficou muito legal, sempre tive uma amizade muito grande com ele, conversava, muito mais amigo do que com a Paula. Com a Paula, sempre tive admiração, até hoje. Ela me ajuda muito e eu ajudo muito ela, mas não tão amigas, sempre teve esse problema, sempre. Paula foi assim, saiu de casa cedo, viajou o mundo muito cedo, pegou uma época muito difícil de esporte, de vida e tal. Eu já peguei a coisa um pouco melhor e aí, ficou mais fácil pra mim, abriu o campo para a Natação, para o esporte. Meus pais nunca foram atletas, fumavam, inclusive pararam de fumar porque a gente enchia o saco (risos) e dentro de casa não podia fumar. Não tinha esse passado esportivo com ninguém da família e aí a Paula abriu as portas para mim, então foi mais fácil para mim, eu reconheço, do que para ela, talvez por aí, até a revolta dela em um certo momento. P/1 – Eu queria que você falasse um pouquinho do seu pai. Como é ele? R – Ele é fogo. (risos) P/1 – A sua lembrança dele quando você era criança, adolescente. R – É. P/1 – Sabe? Fala um pouquinho deles. R – A minha mãe... Deixa falar da minha mãe para chegar no meu pai. A minha mãe, eu nunca senti diferença com nenhum filho, ela era super legal, muito amiga, se mata pelos filhos e eles se mataram muito para que a gente fosse atleta, então, se vendeu tudo, se vendeu carro. Naquela época, o clube não bancava, muito pouca coisa, então, se vendeu tudo, olha, foi muito difícil, mas foi importante, porque quando você vê a dificuldade desde cedo, (olha?) você vence ou... Não pode fazer mais ou menos. Hoje é difícil você formar um atleta, eu vejo que eu estou do lado de fora, porque ficou muito elitizada a natação e é difícil, eles não tem dificuldade na vida, a estrutura é excelente, eles são todos bem família (risos), comem bem, antes a coisa era mais crua, mais difícil, difícil e dificílimo para uma família pobre. Porque não existia material de qualidade no Brasil, hoje existe, então... O maiô, o melhor maiô era o maiô Speedo, americano e custava caro, o óculos não tinha, hoje você compra um óculos, não tinha. Não tinha óculos importados, touca, não tinha touca de... Nem existia silicone imagine de borracha, então, era difícil, tinha que ter alguém que fosse para fora. Naquela época, existia um, eu lembro, um ágio de dólar muito grande, então, meus pais compravam, existia alguém que comprava o dólar e a gente viajava com a diferença porque como a gente podia porque tinha passaporte e tinha a passagem, a gente viajava com a diferença do ágio, tamanha a dificuldade de grana que a gente tinha. Então, alguém que a gente conhecia, que tinha um poder aquisitivo grande comprava, vamos dizer, mil dólares na época, e a diferença do ágio que tinha do dólar comercial para o turismo, a gente viajava com essa diferença. Muitas vezes 200 dólares, 150, 300 (risos) e por aí ia. Só para passar, foi muito importante, eu acho que nossa, faria tudo de novo, agora foi muito difícil. E aí, entra meu pai na história, porque a minha mãe fazia essas dificuldades todas, trabalhava, era professora, ganhava pouco. Meu pai era músico e laboratorista, ainda não tinha a loja e a grana era curta. Ele foi muito das artes e o meu irmão também foi muito por aí, música, então, grana não tinha, não tinha nem de onde sair. E a gente nadava muito por uma bolsa de estudos que a gente tinha num colégio do Rio de Janeiro, que eu entrei na terceira série, quando eu fui pro Flamengo e fiquei até o científico, quando eu saí para a Federal e segui a carreira e me formei, mas pela bolsa de estudos, pela oportunidade, porque eu estava num colégio público, até no Forte São João, chamava-se Estácio de Sá, uma escola pública que tem lá dentro. E aí, a possibilidade de estudar numa escola particular, e depois, com o tempo, o Flamengo pagava o aluguel da minha casa, então, durante um ano, veio um atleta de Brasília e morou com a gente lá, a Ana Alice foi campeã brasileira no sul-americano de peito, tudo em função do esporte. Tudo o que eu consegui, foi em função do esporte e do Flamengo. E meu pai entra nesse, o chato, que desafiava. Tinha uma raiva dele, porque ele vinha e desafiava, porque foi ruim o resultado, então... Nossa, vinha, eu tinha uma raiva, aquela coisa, que eu amarelava, minha irmã não amarelava, essas coisas de desafio, que eu, competitiva como eu sou. Logicamente que ele sabia com quem ele estava lhe dando e hoje é uma coisa, hoje não, pra mais de 15 anos para cá, ele me trata diferente do que aos meus irmãos, ele me prefere mesmo, nem disfarça (risos). Porque eu entrei muito no jogo dele, eu entendi a mensagem. A minha irmã já foi a revoltada, minha irmã se nascesse uns anos antes, ela nasceu em 1966, mas se fosse uns 10 anos antes ela tinha sido hippie (risos). Ela era muito revoltada com isso tudo dele, eu não. Eu entendia, então minha relação com ele era competitiva, eu queria provar que eu ia, que eu vou, eu vou, eu vou mostrar que eu vou, não adianta. E tudo era desafio e aí cresceu assim, essa coisa de atleta. E hoje, nossa, é Deus no céu e a Patrícia na terra, comigo, ele até exagera (risos). P/1 – Você recebeu influência na infância, foi de quem, então? Você tinha alguma... R – Do meu pai. Reclamava muito dele. Eu lembro que a primeira vez que eu fui num médico esportivo eu tinha 12 para 13 anos, um médico que eu vou até hoje e que meus atletas vão, o doutor Lúcio, eu dizia: “Meu pai me chateia, ele me cobra, me pressiona”. Sabe, aquela coisa de adolescente. “Ele me pressiona. Eu gosto de nadar, mas assim não vai dar”. E minha mãe sempre amenizando as coisas: “Não, não é bem assim.” Me cutucando e o médico assustadíssimo. “Ele me pressiona, ele quer sempre mais e nunca tá bom, nunca está satisfeito. Eu ganho prova e ele acha que não está bom.” Mas isso foi... Daí é que eu consegui, senão eu não chegava nem à metade. P/1 – Naquela época você tinha ídolos? R – Tinha. Eu sempre adorei natação, então eu ficava assistindo o treino dos mais velhos. A Maria Elisa Guimarães para mim foi... Eu tinha a Paula, que eu queria superar a Paula, ela não chegou a ser assim... Não foi a pessoa em quem eu me espelhei, porque eu tinha a Maria Elisa, que nadava as provas que eu nadava, que era inclusive o Sul-Americano. Quando eu bati os recordes que eram da Maria Elisa, que era do Flamengo, então, eu tinha essa admiração toda. E a Paula era outra prova, era borboleta, então não me atingia assim, o coração. Maria Elisa Guimarães foi a pessoa que eu assistia o treino, assistia as viradas e acompanhava e sonhava com a Maria Elisa, queria ser a Maria Elisa Guimarães. E foi muito legal porque o primeiro recorde Sul-Americano que eu bati, que foi no campeonato estadual de 1983, novembro de 1983, ela estava, aí foi pra mim o máximo (risos), foi o máximo. P/1 – Agora, a gente vê que tudo natação. Como é que você se divertia quando você era criança? Qual era o divertimento? Qual eram as brincadeiras? O que você gostava de fazer quando você não estava na piscina? R – Eu sempre gostei de cinema. Naquela época, tinha muito filme dos Trapalhões, eu adorava (risos). Meu pai sempre que levava também, muito legal, eu assisti todos. Sempre gostei muito de cinema assim, eu não sei. Depois eu mais velha, não sei se essas coisas, pra quem acredita, mas dizem que meu signo é um signo de pessoas que viajam, são futuristas, não sei. Eu gosto de cinema porque eu desligo do mundo, eu entro na história e choro, me emociono, então, adoro cinema, apagou a luz e o problema está do lado de fora e eu esqueço por duas horas, duas horas e meia, é a minha terapia. Várias vezes, eu vejo cinema até hoje, na hora do almoço, pra me desligar da competição, do atleta que vai chegar, do trabalho que eu tenho que fazer, eu vou meio-dia, às vezes, meu almoço é cachorro quente com pipoca pra me desligar (risos), eu adoro cinema, adoro artistas, então, eu sempre gostei muito (risos) disso. P/1 – Agora, fora da natação, assim, que depois você levou até como um esporte e levou a sério e passou a ser a sua profissão, quais as outras brincadeiras de criança que você... R - Eu brinquei bastante de boneca, Suzi, eu tinha bastante, mas as minhas brincadeiras sempre foram... Meu pai brigava comigo e a minha mãe: “Você é moleque”. Eu quebrava o dente, uma marca enorme na perna e às vezes, eu usava cabelo curto, então, ás vezes chamavam: “Ow menino”. Eu ficava uma fera porque eu nunca fui, tive uma coisa masculinizada, mas eu sempre fui mais pra jogar bola, pique bandeira, pique _______, mais ativa, então, eu me entretia com boneca realmente, mas tinha uma hora que enxia o saco e eu queria correr, correr, brincar, pular, nadar, sei lá, qualquer coisa que fosse (risos), mas nunca me dei muito bem com bola, bola também nunca fui muito boa não. P/1 – Em que escola você estudou? R – Eu estudei num... Porque a minha mãe era professora, a gente tinha bolsa. Quando eu era pequenininha chamava Reino Infantil, nem existe mais, na São Clemente, acho que agora é uma igreja, nem sei. Depois eu fui para o Estácio de Sá, não, fui para a Escola Integrada do Leme, que a minha mãe era professora de lá, não sei se essa escola existe. Depois eu fui para Estácio de Sá, e depois eu fui para o Rio de Janeiro, onde eu fiquei da terceira série do primário até o vestibular. P/1 – Antes de entrar no Rio e Janeiro, você lembra, você tem lembranças ainda daquela época? R – Tenho, tenho. Da tabuada (risos) porque a minha escola pública, pelo menos essa escola era muito boa. Eu lembro da tabuada, tabuada, eu nunca fui muito boa em Matemática. Das vacinas que a gente tomava (risos). Eu ficava no fim da fila. Lembro disso, assim, lembro muita coisa. P/1 – Você gostava, preferia o que para estudar? Qual disciplina? P/2 – Era Educação Física? R – Olha, eu fui uma pessoa que eu nunca fiquei em recuperação, nunca o esporte me atrapalhou, nunca fiquei em recuperação, mas eu colava pra burro. Eu sempre fui muito danada, ah, eu sempre fui um ano adiantada, eu pulei um ano na escola, então eu fiz vestibular com 16, e entrei com 17. Sempre fui adiantada, sempre fui muito esperta, muito, muito, muito esperta (risos). P/1 – _______________ R – Cola, eu fazia tanta cola, a minha mãe falava... Tanto papel, tanta coisa que eu escrevia, que eu decorava. Chegava na hora... Eu fazia, diminuía, diminuía e... (risos). Não sei, eu nunca fui de chegar em casa e estudar. Eu treinava muito, ficava cansada, então, eu queria dormir, mas eu prestava muito atenção na aula. Eu sempre fui muito danada, eu ganhava muito ponto de redação, trabalho. “Vai ganhar um ponto quem tiver o caderno mais bonito”, eu: “Opa”, mil canetinhas e não sei o que lá, o meu negócio era ponto, eu sempre fui muito malandra com isso, então eu não ficava em recuperação, não ficava em recuperação, também não era a melhor estudante não, mas eu tinha notas boas, mas sempre, eu nunca deixei uma oportunidade passar, nunca, em nada, então eu sempre fui muito esperta, muito... Um ponto aqui, pronto, é isso que eu vou. Ah, até na faculdade: “Quem for no jogo de basquete”, eu fazia basquete, eu lembro, jogo de basquete e anotar o placar, não sei o que, ponto, opa (estrala os dedos), eu mesmo vou lá, sempre fui (danada?), nunca fui boa de... Nunca fui cdf e tal, mas cola, colava pra burro. Eu não colava de ninguém, mas eu fazia mil... Só que às vezes eu decorava, pronto e eu tinha uma memória sempre muito boa (risos). Malandra assim. P/1 – _______ R – Mas eu sempre fui tida como uma boa aluna, porque as pessoas usam muito o esporte: “Ah, atrapalha.” E eu sempre passei direto e tal, sempre fui a mais nova, então, a turma sempre me adotava como a mascote, muito legal. Sempre eu tive um relacionamento bom na escola, mas meus amigos não eram da escola. Meus amigos eram os amigos do Flamengo, da natação do Flamengo, que são até hoje. P/1 – Era colégio misto? Ou era só... R – Misto. P/1 – E com relação à disciplina, porque você falou que você (estava?) dente quebrando, gostava de pular. R – ...Sempre. Não, nesse tempo eu sempre fui muito levada. Desastrada, desastrada, mas disciplina nunca, difícil atrasar um treino, brigava com a minha mãe porque estava atrasada e ia chegar atrasada no aquecimento da competição, brigava com a minha irmã, muito difícil, muito. Natação pra mim podia cair o mundo, que eu não ia faltar ao treino, que eu não ia faltar nada, não tinha jeito. P/1 – De onde vem isso? Esse gosto, de onde vem? R – Meu. Relação com a piscina, com a água, o Flamengo, as pessoas. E muito pra mim, a necessidade de ascensão social, de estar convivendo com a turma da zona Sul, de ser a melhor atleta, de ser uma boa aluna, boa filha, bom exemplo, bom tudo. Sempre fiz tudo e nunca saí da linha, então, muito correta com as coisas e sempre exemplo. Sempre boa filha, boa atleta, a melhor. E eu que sabia todo dia: “O que eu estou fazendo?” Sei que eu tenho que ir, intuição, tenho que ir, tenho que ir, eu vou, vou, vou. Porque eu passei uma época, de1978 a 1982, só tirando o segundo lugar, eu perdia sempre para a mesma nadadora. Eu sempre fui pequena, não sou grande e quando você é mirim, petiz, infantil, você não tem prova delonga distância, então, não tem muita chance pequenininho, o fraquinho, o magrinho, eu era muito magra, então, tinha uma atleta da Gama Filho que era muito forte. A Gama Filho era conhecido como o clube que dava pancada nas crianças, musculação, naquela época, e chamava Cristiane Pereira, então, eu tirei sempre o segundo lugar. Eu fui campeã brasileira em 1977, mirim de peito. E aí, o (Eleandro?), que hoje até trabalha comigo, também, está abaixo de mim ele, engraçado. Ele foi meu treinador e mudou meu estilo. P/1 – ________________________________. R – Eu parei na Cristiane Pereira que foi uma nadadora que eu sempre servi de coelho pra ela, ela era muito forte, então, ela ia sempre junto comigo na prova e no final ela (palmas)... Ela era muito forte, botava uma perna (de seis tempos?) e ia embora. E nessa época, o Leandro trocou o estilo e foi uma briga na minha casa e ninguém entendia: “Por quê? Ela nada peito, nada crow”. Porque realmente, o meu biotipo era de uma atleta de longa distância, não adiantava eu insistir em ser velocista que não ia e foi muito legal. Hoje, a gente agradece, eu passei... Então, eu fui segundo lugar com o (Eleandro?), com o Alberto (Claro?), que hoje é técnico chefe _______ da seleção. Ele participou muito da minha formação, nossa, ele foi muito importante ali, mas... E foi engraçado, que, aí na piscina do Vasco, essa é a minha satisfação. Na piscina do Vasco, eu tinha perdido o campeonato brasileiro de juvenil, eu tinha perdido pra ela os 100 metros e os 400, então teve a prova dos 200, e logicamente quem perde 100, perde 400, perde 200. Aí que eu conheci, eu não era atleta do Daltely Guimarães, eu conheci o Daltely porque ele chegou para mim e falou assim: “Olha, ela respira para um lado só, quebra a respiração dela”. Eu falei: “O que é quebrar a respiração?” “Olha, nos 100 por 150, ela não vai te ver, então você abre e quando você voltar...”, ainda brincou assim comigo, “Seja o que Deus quiser. Ela não vai te pegar”. Eu também, os cinco anos que eu perdia sempre, que diferença faz isso, mas eu fiz isso e ganhei. E eu achei engraçado porque eu ganhei e quando eu estava chegando na borda, eu não sabia como eu ia ganhar, não sabia como me comportar porque eu sempre perdia, mas foi tão legal. E esse pai dessa Cristiane Pereira era um senhor mais velho, e todo... Toda vez que ela vinha ganhava a prova, ele ia e me dava um chocolate, depois, ele não me deu mais chocolate porque também, essa primeira vez, em 1983, eu ganhei e nunca mais eu perdi pra ela. Eu perdi uma vez no Sul-Americano, uma vez num Sul-Americano Juvenil em 85, mais um campeonato nacional e tal, e nunca mais eu perdi nada, depois ela parou de nadar, foi interessantíssimo. E aí, que eu apaixonei pelo Daltely Guimarães, que foi meu grande guru, pessoa mais legal que eu já conheci na minha vida, como treinador, como amigo, eu nunca tive um relacionamento... A minha irmã tinha um relacionamento de amizade, dormia na casa dele, era amiga da esposa, era amiga dos filhos. Eu nunca tive esse relacionamento com ele, quando eu era atleta dele. Eu tinha uma confiança porque ele realmente era um... Não existe igual, até hoje no Brasil, não existe ninguém como ele, com feeling de treinador, bom senso. Hoje eu estou cansada, bate um papo, conversa, brinca, você quer sempre estar do lado dele porque ele é muito bom, tinha algumas falhas também, ele era muito nervoso, às vezes, ele sumia, ele falhou comigo algumas vezes, assim, de não ir no treino, mas ele podia falhar umas 500 vezes que porque quando ele acertava... Sabe aquela pessoa que tem um crédito com você de 50 anos? Ele pode falhar, falhava porque ele era gente e teve uma época que ele se separou e eu achei mais legal, que eu parei de nadar, eu considero em 1991, porque eu tinha gastrite nervosa, porque aí, eu já não suportava e a natação não dava essa condição que dá hoje e eu queria terminar a faculdade e trabalhar porque eu sabia que o meu futuro não era ali na natação. Mal sabia eu também, e a vida, que eu poderia talvez nadar mais um tempo, não sei, mas hoje, com 31 anos, eu não podia mais ganhar essa grana, que eu não consigo mais nadar, mas o quando o Daltely ficou doente, que ele morreu em 12 de junho, dia dos namorados de 1995, eu sei, datas eu sou fogo assim, porque pras pessoas que me interessam.... 12 de junho, dia dos namorados, ele morreu e daí que eu entrei no Flamengo pra trabalhar firme, quando ele morreu porque eu era discípula porque nesse intervalo de 1991 a 1995, eu ainda voltei a nadar em 1993 e 1994, mais de brincadeira, já não treinava quase nada, quatro vezes por semana, por causa dele, porque ele estava doente e ele ficava alegre de me ver e eu queria ajudar o Daltely. Eu ia na casa dele, eu cuidei muito dele, ás vezes, ele já estava... Sabe, a doença dele tomou conta dele, então ele já estava pra baixo: “Vamos lá, vamos sair, vamos tomar...”, a gente ia na Academia da Cachaça. “Vamos lá. A gente toma aí um caldinho de feijão, carne seca e tal” Tanto que parecia, no enterro dele, eu que tomei a frente das coisas junto da família. Eu fiquei muito contente e acho que foi o maior prêmio, foi quando eu cheguei no Brasileiro logo em seguida, que ele tinha morrido fizeram uma homenagem para a família e a família me deu a placa, então isso foi... Ele pra mim foi mil. E eu com ele. Não temos... Ele morreu, não tínhamos nenhuma dívida, pelo contrário, acho que ele me acompanha, me ensina, fala: “Olha, eu ainda não ganhei do Vasco porque eu ainda não estou preparada para ganhar do Vasco”, eu fico assim, Daltely deve estar achando que eu preciso aprender mais, que eu estou errando aqui, é muito legal. E ele foi o cara que fez o Flamengo ganhar, ele chegou em 1978, no ano seguinte, que eu estava no Flamengo, embora não treinasse com ele porque eu era das categorias de baixo, mas ele foi o treinador que fez o Flamengo ser campeão de 1981, a primeira vez que o Flamengo ganhou 1981, 1980, agora já... Eu participei a primeira vez em 1981, mas o Flamengo acho que ganhou de 1980 a 1990, dez anos seguidos com o Daltely, foi o técnico... O maior campeão da natação e de atletas. Na Olimpíada que eu fui, fui eu, mais cinco e ele, 88 foi o auge do Flamengo, eu acho assim, em termos de atletas olímpicos e o Daltely fez parte dessa geração, assim, realmente... P/1 – E aquela competição na piscina do Vasco? Então, você chegou, não sabia, você estava nadando.... R – Não, não. P/1 – E estava pensando como é que eu vou ver a Geisa?.... R – Como é que eu vou ganhar? Não sei ganhar. E foi legal porque a torcida, a pessoas já torciam pra mim, porque eu era freguesa já, então, foi um barato, foi uma festa. A Mina chorava, chorava. Eu tenho reportagem que diz isso, ela falando, eu perguntando para ela: “Por que você está chorando? Você ganha sempre. Eu nunca ganho”. Saiu isso no Globo. “Eu não ganho, não consigo e tal. Está chorando?” Nem ela soube se comportar porque eu magrinha, ela forte pra caramba, muito legal e foi no Vasco, isso aí, também foi legal. Hoje eu estou falando porque na época, o Vasco não quis... Aliás, o Vasco nunca existiu para esporte, pra mim, ele tem que me provar 10 anos que ele é bom, por enquanto não me disse nada (risos). P/1 – Voltando um pouquinho à educação, como é que você descreveria a educação que você recebeu? R – Não sei não, não sei a palavra. Eu sei que foi muito legal, assim, com limites, com restrições, foi uma infância difícil, mas saudável e nossa, campeã. Eu achei que foi... Na minha casa todos saíram bem na vida, ninguém andou pra trás. Eu digo assim, a gente pega uma situação financeira ruim e tem gente que vai pra frente e tem gente que vai para traz, então, todos foram pra frente, acho que as próximas gerações vão ser melhores da nossa família. Nossa, não tenho nada o que reclamar, só a agradecer, inclusive até hoje, minha mãe continua sendo a minha mãe, estou doente: “Faz canja para mim? Mãe estou não sei o que... Arranja o telefone”, e ela vai lá e arranja. Preciso de um telefone, não sei, outro dia, cobertura de piscina, ela foi lá e... Então, família muito unida, muito legal. Minha família é jóia, uma família que soube dar limites e deu asas para a gente, porque a gente saiu... Paula com 13 anos estava viajando o mundo e eu também, a primeira viagem internacional que eu fui à Macabíada de Israel, com 11 anos. As mães hoje, no Flamengo não deixam os filhos irem daqui a São Paulo. Você tem que criar o filho para o mundo, você não pode criar o filho para ficar embaixo da sua asa e querer proteger não, porque você faz mal, isso eu achei muito legal da minha família, eles criaram a gente para o mundo e a gente quer tê-los com a gente hoje, entendeu? Então, a gente quer o pai e a mãe porque eles deram essa liberdade para a gente voar e a gente voou. E pegou um mundo aí preparado. E a competição, o fato de você estar no esporte é muito legal, é saudável não só pela saúde em si, pelo o que te proporciona, a lição de vida que você tem, é perder, é ganhar, é desafio, determinação, é perseverança. Você imagina, você perde cinco anos, qualquer... Porque o caminho você tem dois caminhos: o mais fácil é desistir. “Ah, eu não dou pra isso, eu vou desistir”. Agora você (palmas) ter essa persistência (risos), é brabo. E natação é chato, você conta ladrilho, sabe? 322 ladrilhos na piscina do Flamengo, que eu já contei, 166 na de 25, contei mesmo, parei um dia pra contar. A gente sabe aquele ladrilho que está rachado, o que não está, então você não fala com ninguém, é um mundo meio sozinho, solitário, então, se você não tiver um suporte atrás de família, de amigos, de clube, você não suporta, fica meio pancada mesmo (risos). P/1 – Você também então, atribui ao esporte uma grande importância no seu processo de aprendizado? R – Nossa, mas é a melhor educação, não vejo outra pra criança porque eu acho assim, lógico, que ninguém é obrigado a gostar do esporte, mas vivenciar isso é muito importante. A vida é uma competição, todo dia você tem um desafio ou uma tarefa, todo dia você tem um limite que você tem que... No esporte é esse limiar anaeróbica, então você tem que suportar a dor, então, desde cedo você está preparado para essa guerra. Pode vir que a gente encara, entendeu? Então, não ter medo ou ter medo, mas saber dominar esse sentimento, essas emoções e vida é isso. Se você não estiver competindo diretamente com alguém, você está querendo conquistar o seu espaço na sociedade, então, a luta é contra você mesma, é contra o relógio, não precisa ter alguém pra você disputar (risos). E o esporte é uma guerra em que você não mata nem morre, mas você vence, você perde, você pode lutar, você pode colocar suas frustrações, os seus medos, suas fantasias, sem prejudicar ninguém, muito pelo contrário, esse ambiente, essa coisa toda, ela é extremamente feliz pra quem pratica o esporte. Nossa, eu me acho uma pessoa... Eu não tenho nenhum tipo de realização que eu não tenha conseguido porque eu... Olha, eu vivi, me formei com dificuldade, consegui estudar, eu tenho hoje escola de natação, eu me casei de papel passado, no caso na sinagoga porque a minha família, a minha mãe é judia, eu nunca fui muito ligada a isso assim, nunca fui muito apegada a essas raízes, mas aí eu casei com um judeu por acaso, e tudo direitinho, filho na hora que tinha que vir. Eu acho que te disciplina, sabe? Não é que você não faça nada errado, você faz, mas você sabe o seu limite e a gente que trabalha todo dia, a superar limites, a dor e é difícil, porque é dor física mesmo (risos), cansa, dói e você vê que a maioria dos meus companheiros desistiram e você vai continuando. E o cara parou: “Ah, estou cansado.” E você continua. Isso eu tinha demais porque eu nunca fui uma atleta com esse... Eu não tenho o talento que o Xuxa tinha, se Deus me desse 10% do talento que o Xuxa tinha, mas a disciplina e a vontade, nossa, venceram esses desafios, sabe? Essa dificuldade, a falta de grana, não comer tão bem, nunca podia imaginar, meus pais nunca tinham saído do Brasil, nunca podia imaginar que eu via viajar desde oito anos, avião? Nossa. Quando eu ia sonhar em entrar em um avião? E aí pronto, conheci o mundo inteiro. Minha irmã também e essa cultura não tem em livro, isso não tem em livro, você não aprende, você vive, conhece pessoas, conhece atletas, conhece diversas culturas e tem chance de questionar e viver, é muito legal. Isso só o esporte trás, sabe? Muito legal. P/1 – Quando que você saiu da sua casa? R – Quando eu casei, mas eu saí e não saí não. Porque por exemplo, a minha... A gente... Isso é uma história bem legal, teve um momento que eu tinha que acordar de madrugada, a partir dos 13, 14 anos, até mais cedo. A minha irmã tinha que acordar de madrugada para treinar, porque o treino da natação acontece sempre em dois turnos de manhã e à tarde. Só que quem estuda em colégio ou faculdade, principalmente em colégio, entra às sete e meia, pra fazer as atividades á tarde, então à tarde era tranqüilo, mas tinha que acordar às quatro e meia da manhã pra cair na água às cinco. E a gente se mudou, então, para... Quando a gente teve uma chance, o Flamengo ajudou no aluguel, a gente se mudou pra Selva de Pedra, um prédio em frente hoje à porta do Flamengo, que aquela porta não existia. E eu enchia tanto o saco, eu consegui um espaço tão grande no clube, que eles acabaram, quer dizer, logicamente, que não fui eu que fiz a porta, mas eu dei uma grande força (risos) para aquela porta, para eu poder atravessar a rua, mas sempre foi muito legal, então... E eu tinha essa coisa, eu sempre quis ser a primeira, primeira, primeira, primeira, primeira em tudo ou a melhor, queria, então, eu era a primeira a chegar. Eu queria ser a primeira a chegar, porque o primeiro sempre acende a luz do cronômetro, dos holofotes, então, eu acendia. Isso aí... Não sei que maluquice, hoje eu quero ser a última a acordar, então, eu queria ser a primeira a chegar e eu era a primeira a chegar (risos) e a última a sair, com certeza, sempre. Eu fazia o treino maior, a que não matava, me revoltava com quem matava o treino, matava era quem fazia menos (risos) aquela ______, então eu sempre fui muito assim mesmo, não tem jeito. E era muito legal porque eu acendia a luz, tinha uma porção de baratas no Flamengo, tem cada barata, nossa, medo das baratas, de caia na piscina (palmas), água gelada, porque não existia aquecimento, aquecimento é coisa (risos)... É um luxo, um gelo, a piscina gelada, aquele frio que doía. Você saia pra escola cheia de casaco, a bochecha vermelha, parecia que a gente estava no Sul, porque era tão gelado. Um pouco mais velha, quando eu já fazia a faculdade e não precisava acordar ás vezes, às quatro e meia da manhã, acordava por volta das seis, eu ia pra sauna do Flamengo descongelar, todo o corpo doido. Hoje é tudo muito fácil. P/1 – Você é casada, onde você conheceu ele? R – O Fernando? P/1 – __________ P/1 – O Fernando eu conheci... Macabiada é uma olimpíada de judeus no mundo inteiro. Macabiada dos ________. Eu conheci o Fernando, ele jogava vôlei e eu nadava. Eu o conheci lá, por acaso. Já em 1993, quando eu já tinha parado e voltado a nadar, eu queria mesmo passear, eu queria aproveitar o esporte, então aí, eu fui convocada para essa competição, lógico, tinha sido campeã mundial Macabe em 1989, bicampeã mundial, então, lógico que eu tinha passagem de graça e não sei o que, fui. Fui mesmo para viajar, não conhecia quase ninguém. E aí eu ia nos jogos e quando eu o conheci, ele tinha sido expulso do jogo de vôlei, falei: “Pô, cara esquisito. Pô, expulso de jogo de vôlei?” Ele jogava meio mal, não sei. Eu não cheguei a ver (risos) o Fernando jogar porque quando eu cheguei ele foi expulso. Rolava só paquera, aquela coisa, engraçado que eu entrei no ônibus e ele falou assim: “O que você faz com o seu dinheiro?” Que ele é Economista, não tinha papo. Eu falei: “Cara...” Começou mal. Eu falei: ”Eu gasto.” E o nosso relacionamento hoje, interessante, que hoje ele é vice-presidente do esporte amador, o relacionamento continua sendo esse, ele corta minhas asas no orçamento e eu gasto pra fazer a equipe funcionar, então, continua. Eu brigo o tempo todo com ele porque o dinheiro não dá, brigo com o financeiro (risos). Então, foi assim que eu o conheci, na Macabíada. P/1 – Conta um pouquinho pra gente, conheceu ______________ R – Aí, ele morava em São Paulo e eu no Rio, porque ele trabalhava na Bovespa, na Bolsa. Trabalhava no Banco Garantia que é um banco de investimentos, então, ele morava em São Paulo e final de semana vinha. E a gente namorou assim, e casou assim, tanto que eu casei em novembro, ele só voltou definitivamente para o Rio, em maio, quando aí ficou complicado mesmo, porque casamento de longe aí não vai dar certo. Pra São Paulo, eu não ia, eu até tinha tido um convite para trabalhar na Hebraica. Eu, em clube de competição, eu só trabalharia realmente, e só trabalho no Flamengo, não adianta, pode me dar milhões, não vou, não adianta (risos). Clube de competição, competição só Flamengo, assim, eu tenho escolinhas que funcionam a nível de... Que eu penso para ir para o Flamengo, mas funciona só para parte de aprendizagem, essa coisa toda. P/1 – E o casamento? Como é que foi? R – Ah, foi muito divertido. P/1 – __________________ R – Foi judaico, mas tinha de tudo, foi legal. Tinha alguns _____ a Luisa Parente foi, assim de atletas, Bernard, foi o (Gussmann?), Guaracy, da Confederação, o Júnior do futebol, ele e a Heloisa, eles foram. Tinha uma porção de atletas, muito legal. Tem mais gente que eu não estou me lembrando agora e até peço desculpas (risos). Na época, o presidente era o Luiz Augusto Veloso, ele foi. Toda a turma. Sempre fui uma pessoa muita querida, ainda bem, que eu falo muito assim (risos), então sempre... Nunca tive dificuldade em me comunicar e aí... P/1 – Você queria casar com ele ou você estava... R – Não. Eu quando eu o conheci, eu sabia que eu ia casar com ele. P/1 – Como? R – Não sei te explicar. Porque eu tinha namorado cinco anos, um nadador do Flamengo, depois namorei um rapaz da faculdade, mas não sei. Eu conheci ele lá em... Não que eu conheci e achei que ia casar, que você fica, mas eu sabia que ia ter uma relação longa. Porque éramos de mundos totalmente diferentes, ele vinha, ele trabalhava com vamos dizer, com cifras de dinheiro alto, eu estou dizendo isso porque, por exemplo, quando você é uma pessoa conhecida e mulher algumas pessoas se aproximam e algumas pessoas se afastam. Então, todos os relacionamentos meus, que eu tive ou atrapalhavam por ser a Patrícia Amorim, ou não sei, porque o homem não gostava ou pelo menos os dois longos que eu tive, atrapalhava porque eles queriam o espaço deles, sabe aquela coisa? Então, eu sufocava mesmo, assim... Eu sempre tomava a frente da coisa. E o Fernando não, o Fernando não. O Fernando vinha de um mundo rico, que não ia se impressionar com nada disso, então, não era porque eu era uma pessoa famosa, mas era um outro tipo de poder, de dinheiro. Conhecia pessoas que tinham muita grana e não ia ser uma pessoa, por mais conhecida que fosse.. Ta bem, não sou uma pessoa conhecidíssima, mas sou uma pessoa com uma certa... P/1 –_______________ R – É. Não famosa, mas conhecida. Então, não ia encher os olhos. Sabia que aquilo ia dar certo. Por isso que deu certo. Eu acho que essa parceria foi boa. P/1 – Que dia você casou? R – 12 de novembro de 1994. Eu namorei com ele, em seis meses fiquei noiva e em um ano e quatro meses casei, pronto, sabia que... E aí, estou casada vai fazer seis anos. P/1 – Tem filho? R – Tenho um filho, Vitor, de três anos. P/1 – Três anos _______________, mas fala um pouquinho dele. R – O Vitor vai ser complicado. O Victor nasceu no Flamengo, então, desde um mês porque eu... Eu sou uma pessoa que eu não sou assim: “Ah, eu trabalho no Flamengo, então eu estou grávida, vou ficar os quatro meses de férias.” Eu não sou desse tipo de pessoa, eu quero trabalhar, então... Eu tenho um lema com o Fernando e com o Vitor, que é o seguinte: Eu só posso fazer alguém feliz, se eu for feliz. Porque eu sempre pratiquei um esporte solitário, sozinha, egoísta. Não faço mal a uma mosca, mas egoísta. Então, eu tenho que ser feliz pra te fazer feliz, então, eu preciso me realizar profissionalmente. Você também. Victor também vai ter que se encontrar em um determinado momento, pra gente ser feliz, senão não adianta. Um não vai viver em detrimento do outro. Nem a minha alegria é a sua, nem a sua tristeza é a minha, então é exatamente, então, quando você está triste, eu estou feliz, a gente se equilibra, eu estou triste, você está... Isso é importantíssimo eu acho, se você não for uma pessoa realizada não adianta, vai ter um momento que você abre a porta e diz: “Quero me libertar”. Então, não adianta. E o Vitor com um mês, então, eu queria trabalhar no Flamengo, não quero ficar de licença (risos). Então, eu voltei, eu tenho a foto dele vestidinho de Flamengo, lá na porta da loja do meu pai, eu, meu pai e ele e Fernando. E o Vitor com cinco meses, então, tinha o Campeonato Brasileiro, eu já como supervisora e ele, tenho a foto também, para registrar. Ele no bebê conforto, o pessoal de pé na arquibancada da competição e ele dormindo, então, desde cedo ela vai às competições, de natação, basquete, voleibol, futebol. Dorme na arquibancada do Maracanã, teve um jogo que o Flamengo ganhou de 5 a 2 do Juventude, agora, e só acordou depois do quarto gol, “Gol”, ele dorme. Então, é barulho de arquibancada, jogo, ele entra na quadra, então, ele é apaixonado pelo Flamengo, Flamengo Vitor é doente. Hoje mesmo ele estava cantando aquela modinha do Flamengo aniversario de 101 anos. Daquele senhor, como é o nome dele? P/1 – Alberto Quadros. R – Alberto Quadros. E ele pegou a bandeira, pegou o microfone da rede Globo que estava filmando e começou a cantar: “Uma vez Flamengo”, começou a cantar porque o negócio dele é o Flamengo e o basquete que ele se apaixonou. A natação mais ou menos porque o Xuxa, que eu te falei, o ídolo que não está muito presente, então não tem essa... O Oscar está presente na vida dele, o Pipoca, o Rato, o Caio, então... P/1 – ____________ R – Né? Demais. São pessoas que batem na cabeça dele, que abraçam, então, pronto. Se apaixonou pelo basquete, tomara que ele seja grande. Ele até nasceu grande, ele nasceu com quatro quilos e 253 centímetros, não sei se por causa do Fernando ou se... (risos). Será que todo o meu passado de atleta, eu pensava nisso, vai ajudar meu filho a nascer fortão? Acho que adiantou porque ele nasceu grande pra burro. Cesariana. P/1 – Como é que foi ___________ R – É uma época, que loucura, que mudança. A cabeça da gente fica... Tudo muda, o corpo muda, a perspectiva de vida porque eu sempre fui uma pessoa muito de conquistar e vou, e líder, e vou e pego, aconteço. Só que hoje, principalmente quando eu estava grávida, quando ele nasceu, eu fiquei dependente: ”Eu posso fazer isso se o Vitor não tiver que mamar, eu posso ir ao cinema se o Victor não acordar, eu posso comer, se ele deixar comer (risos), posso dormir se ele não acordar à noite, então, isso pra mim: “Ahhhhh”, que sempre fui assim, eu, eu, meu mundo, porque natação é extremamente egoísta, mas é egoísta porque você fica com você, é impressionante, solitária. E aí agora o mundo, uma pessoa depende de você, que nem a relação marido-mulher muda vida nenhuma, não muda quase nada, mas o filho, que transformação. E você se sente assim: “Ah”, tão pouco preparada, eu tão pouco preparada para isso. Esse desafio, essa realmente é... Eu me sinto perdedora, acho que o Vitor é vencedor em relação a mim. Tem situações que: “Meu Deus”. Se você me pergunta, se eu tenho que encarar, não sei o que, eu vou, mas e as perguntas dele? As necessidades dele? “Ah”, (suspiro), que responsabilidade, essa eu não estava preparada não. P/1 – (Em certa parte, você agora vive em função dele?) R – Totalmente. Ele vai comigo em tudo. Ele é muito legal, não tem problema. Ele não é grudado em mim, ele é solto, até meio folgado, vai entrando nos lugares, mas o que eu acho mais legal é que ele... Também não poderia ser porque se ele fosse malcriado, nossa, não é. Ele é levado demais. E ele é o xodó da Boca Maldita, ali do Flamengo, o pessoal adora ele. Ele é muito legal e eu acho que vai ter aptidão para... Quer dizer, o esporte está nele 24 horas. P/1 – Não tem como __________ R – Hoje, a paixão dele é o basquete. Anda com a bola que o Oscar deu debaixo do braço, sabe o time todo, fala: “Meu amigos. Eu vou crescer, eu vou comer espinafre e tomar todinho e vou crescer pra jogar basquete com meu amigos”, ele só fala isso. O Oscar é o amigo. E quando a gente esteve em São Paulo, agora, no jogo, isso foi tão interessante como criança, todo time foi jantar na casa do Oscar, daí, a gente foi, e ele foi e ele foi e tal, quando chegou na escola, na segunda, ele falou pra professora: “Fui na casa do Oscar”, ninguém acreditou e tal. E quando a minha irmã foi busca-lo na escola, ela estava cansada e ele disse: “Você está triste Paula?” “Não, estou cansada”. “Não, não precisa ficar triste não, que eu vou te levar na casa do Oscar”. Como é que guarda? Isso que eu falo, o ídolo é... Eu acho que assim, pra geração que veio antes, quer dizer, veio depois de mim, eu fui uma pessoa muito legal assim, porque nunca saí do Brasil, nunca deixei de treinar no Flamengo. Eu acho que para a geração que veio depois, essa turma que vem aí, acho que fui um bom exemplo, sabe? Tenho consciência disso, sou até hoje. A turma do (judô) falar: “Tinha que ter uma Patrícia no judô”, para ajudar a montar casa, porque eu sou mãe deles, eu pego a turma... Eles até abusam de mim, mas... Aquela natação ali, carrego nas costas e posso falar de boca cheia, não que o Edmundo não ajuda ou qualquer presidente, lógico que poxa, sem essa parceria com o Edmundo, que tem sido muito legal, nada disso podia acontecer. Porque o Edmundo entra na minha... Eu não falo com o Fernando, porque com o Fernando eu não vou conseguir, com o (Bruno?) eu não vou conseguir, mas com o Edmundo acredita nas minhas maluquices, isso eu acho fantástico, sabe? A turma do financeiro, administrativo não vai entender, que o Flamengo tem que formar atleta, porque o pessoal quer ter um time campeão, mas você tem que formar, o esporte tem essa obrigação, de dar casa, comida, estudo para aqueles... Isso eu tive e tem que continuar. Porque eles têm que formar cidadãos antes de tudo, e atletas, lógico, numa massa, você vai tirar uma elite, lógico, isso é obvio, mas... O esporte tem essa função e hoje, quando tem essa briga Flamengo e Vasco, eu vejo muito o esporte, o clube como patrocinador, não pode, ele tem que ser formador de atleta. Acabou. Se formar, você vai ter um time campeão, por muitos anos, por muitas gerações. P/1 – Olha, a gente vai dar uma paradinha aproveitando_________________ e a gente continua. Troca de fita R – A gente estava até conversando que, quando, por exemplo, eu fiquei nadando, com a barriga no Flamengo e tudo bem, mexe, mas você não tem uma dimensão, não tem noção do que vai acontecer. Você não sabe como é a cara e tem curiosidade de saber e aí, eu fui pra maternidade cedo, eu achava que eu estava com dor de barriga, eu falei: “Meu Deus, não devia ter comido pizza” e uma cólica, uma cólica e depois eu descobri que estava com (risos) contração, mas isso uma hora da manhã e só quatro da manhã que eu fui. Nossa, e ele demorou nascer à beça, 42 semanas, eu falei: “Esse menino vai nascer de bigode, não é possível”. E aí, então, eu já tinha feito uma ultra-sonografia dois dias antes e sabia que a criança tinha pelo menos três e novecentas (risos) de peso, o que é grande, então, eu tentei, esperei de seis e meia da manhã até quase meio dia, que ele nasceu dez para uma, parto normal, mas não tinha como, uma contração forte, eu não sentia dor e o médico falava assim:“ ____________.” Eu não sinto dor, porque eu acho que eu senti tanta dor (risos), não sinto dor, eu sentia assim, a barriga fica dura, aquela coisa, eu dei sorte, mas tinha que ser cesariana, aí eu falei: “Eu pra mim, não tem tempo ruim. Pode ser”. O médico que queria. Aí, foi interessante, eu não consigo desvincular essa coisa (risos). Eles dão aquela anestesia e começam a conversar com você pra você desligar e ele começou a perguntar: “Quem é melhor? O Gustavo ou o Xuxa?” “O Xuxa”, e tal, eu conversando e já estava acontecendo, e ele: “Olha, daqui a pouco eu vou cortar, mas você não fica preocupada” e não sei o que. E já estava acontecendo e eu caindo na história, porque natação e (falaram?) Flamengo é comigo mesma (risos), eu falando: “Não, o Xuxa tem talento”, não sei o que lá, até meia tonta, não sei nem se eu falei coisa com coisa, mas eu lembro disso: “Quem é melhor? Gustavo ou Xuxa? No parto, pra mim vai ser sempre o Xuxa, não tem jeito. E aí, daqui a pouco nasce, quando nasceu, que eu ouvi: “Ah”, me deu um negócio, não sei te explicar, não é nem um choro de emoção porque eu choro de emoção em filme, eu sou... Se alguém chorar aqui, eu estou chorando junto, eu sou uma pessoa muito fácil de chorar, não é pelo choro, mas é pelo... “Ah, eu fui capaz disso?”Você não acha: “Eu sou capaz de uma criança? Ah”. Ele nasceu com quatro quilos e duzentas, enorme, saudável, aí você fica olhando e de noite, quando nasceu no dia: “Mas ele não está mamando direito, não está comendo. Fui no berçário e num tem.... Eu tenho que entrar, eu não estou vendo”. Te dá àquela insegurança: “Mãe”, te dá vontade de chamar a mãe, foi nossa, fiquei muito emocionada. Foi o dia, eu acho, que o dia mais forte. Tem dois dias fortes na minha vida, não tem jeito: o nascimento do Vitor e morte do Daltely, nada, nem casamento, casamento... Eu te falei casamento não muda a vida, é legal, é animado, é alegre, mas não... Eu pelo menos, acho que o Fernando até ficou muito mais emocionado do que eu (risos), mas esses dias foram dias... A minha vida foi uma depois que o Vitor nasceu e também foi outra depois que o Dautely morreu, nossa, foi... Mas eu não vou chorar não. P/1 – Tá bom. R – (risos) P/1 – Você lembra do dia em que você chegou ao Flamengo? O primeiro dia __________. R – 3 de janeiro de 1977, aí na época, eu não sei o cargo, alguma coisa como Supervisor dos Esportes Amadores, não sei, era o seu Evanir, então ele me deu o maiô do Flamengo, uma toquinha e eu: “Eu quero a bandeira”. Aí, ele me deu a bandeira, a minha irmã, que era melhor nadadora que eu, não pediu nada (risos). “Eu quero a bandeira do Flamengo”. E eu ia para as competições com a bandeirinha e tal, eu tenho até foto que eu não tinha dente na frente (risos) e aí, foi muito legal, sempre quis ser do Flamengo, então... P/1 – Você tinha nove anos? R – Não. Tinha sete, tinha seis. Foi em 1977, não, desculpe. Tinha sete e ia fazer oito. P/1 – E aí, como é que foi a trajetória? R – Muito tranqüila. P/1 – Mas, era... R – Muito fácil. P/1 – Era crown? R – Não, é o que eu te falei: eu nadava peito e fui campeã brasileira de Mirim, com oito anos, de peito e depois eu fiquei cinco anos sem vencer, nadando crow, prova longa e aí, depois em 83, eu ganhei e não perdi, só perdi por ter parado de nadar (risos), não perdi mais. P/1 – E a chegada na seleção, como foi? R – Foi tranqüila também. Eu acho assim, que existem atletas que nadam para a seleção, então, nadam para ser campeões olímpicos e tal. Eu fui uma atleta de... Mais importante para o clube, não vejo ninguém hoje, que faça um décimo do que eu fazia, eu ganhava oito provas, se tivesse 10, eu ganhava as 10; se tivesse 12 eu ia treinar para ganhar as 12, então, eu ganhava crow, eu ganhava borboleta, ganhava medley, ganhava fundo, velocidade, revezamento, opa, três meninas fracas: “Bota a Patrícia, que ela que ela fecha”. Eu ia lá, e passava, então, eu pra clube... Agora, exatamente por isso não, mas como eu nadei numa época em que o dopping era muito forte e as mulheres, as alemães, logo depois vieram às chinesas, depois hein, (de quando eu nadei?), isso para você ter uma idéia de como o dopping era muito forte, uma coisa é um homem nadar contra um homem dopado, já é diferente, agora, uma mulher nadar com outro homem é uma coisa que não tem competição (risos), então, eu a nível internacional, eu fui vice-campeã da Copa Latina, penta campeã Sul-Americana, fui dois jogos Pan-americano, fui à Olimpíada, mas eu não tinha essa... Eu nem dava muita importância a isso, porque meu país era o Flamengo, sempre foi o Flamengo (risos). Eu tenho um amigo, o Bruno, do financeiro, que fala: “Aquele time de camisa amarela”, eu fui muito vinculada ao Flamengo, eu fui treinada para ser atleta do Flamengo, Dautely e fui treinada para ir à Olimpíada para ser a primeira mulher depois de 16 anos, que voltava em uma Olimpíada e depois parou (risos). Vamos ver se agora volta de novo, então, eu tinha a minha importância a nível nacional com certeza, divulguei muito a natação, se você fala assim, para as pessoas hoje no Brasil: “Quem é natação? Gustavo, Xuxa, talvez Lima”, fica difícil, aí, fala uma mulher: você não acha. Quem é mais ligado no esporte ainda conhece a Fabíola Molina, mas na época pelo menos e acho que até hoje, ainda conhecem a Patrícia Amorim e tal. Eu divulguei muito porque eu batia recordes atrás de recordes, era uma máquina de recordes e tal, mas assim, eu fui uma atleta importantíssima para o meu clube, isso aí, não tem. Eu procuro e não encontro atleta que ganhe tantas provas assim, mais isso mesmo, então, tem atleta, você encontra Ricardo Prado, então, é diferente, ele chegou a nadar pelo Flamengo, uma época, mas ele não tinha um vinculo com o clube, forte, até tinha amizade, bastante amizade com a gente, ele não tinha um vínculo porque treinava fora, como o Xuxa treina fora, como o Gustavo treina fora. Tem essa paixão pelo clube? Tem. Porque o Flamengo, o clube de camisa são paixões. A pessoa quer vir competir pelo clube, mas não tem a noção da importância que seria se ela estivesse no clube, isso aí... Eu vejo por meu filho, como eu te falei, que é apaixonado por basquete, porque o basquete o Oscar tá ali, o Pipoca tá ali, o Rato tá ali (risos), então, isso é uma coisa que eu estou trabalhando há cinco anos para mudar no Flamengo, então, 99 por cento da minha equipe treina na Gávea, logicamente que essa geração... Eu pra tentar (ganhar?) uma competição, eu preciso ter esses atletas de ponta, que passam as férias aqui, eles passam as férias aqui e eu estou tentando fazer um vinculo com um treinador nos Estados Unidos, e tentar trazer o treinador ano que vem pra cá, mas a gente precisava de dinheiro e o dinheiro só está chegando no Flamengo agora, mas o importante tá no clube, isso aí... P/1 – Como é que você compensava treinamento ______ R – Como eu te falei, eu nunca tive problema. Eu era adiantada na escola, entrei na faculdade com 16 anos, pulei um ano. Nunca tive problema com estudo, nunca usei o esporte para atrapalhar, mas tinha dificuldade. P/1 – _____________ R – Então, eu estudava num colégio, o Rio de Janeiro, nessa época, que facilitava. Eu podia fazer segunda chamada, eu podia fazer a prova antes ou quando eu ficava muito tempo fora eu fazia como se fosse um reforço. Eles botavam às vezes um professor para dar um reforço fora do horário da escola, isso parte de cada um, querer. Não tem dificuldade, ainda mais hoje que... Se tem uma coisa que dá certo no Brasil é o esporte, os exemplos, os ídolos são sei lá, na maioria do esporte, porque são coisa que não só atingem a população, como são ídolos que são puros, não tem a politicagem, a economia. Nossa, toda a nossa estrutura social no Brasil é tão falha e o esporte vem para ajudar nessa estrutura social, como um fator importante na formação e desenvolvimento de uma criança, de um jovem, vem para afasta-lo da droga porque é incompatível, por mais... Eu acho que no esporte não tem droga não, você vai encontrar casos, mas tem um determinado momento, que ele se torna incompatível, a nível olímpico é incompatível. Você vai encontrar aí, eu soube de um atleta, de um jogador que cheirava ou fumava, você vai... Ou bebia, enfim, você vai encontrar, mas tem um momento que é incompatível, pra você chegar numa medalha de ouro, não tem como. P/1 – (Fala um pouquinho sobre o treinamento?). R – Ah, é bem mais duro do que hoje (risos), porque naquela época, não tinha Ciência, não tinha essa informação toda, essa globalização de conhecimentos, de Ciência, de Fisiologia, então, era muito empírico, era muito na sensibilidade, graças a Deus, a gente tinha um Daltely, que era uma coisa absurda quando acertava, mas então, a gente treinava mais. Eu cheguei num determinado momento que quando começou a aparecer o tal de ácido lático, então, nós fomos na Argentina fazer os primeiros testes, isso na véspera da Olimpíada, você imagina, uma vida inteira voltada para os Jogos Olímpicos, por exemplo, e fui descobrir que eu treinava mais do que precisava. Por exemplo, se existisse uma maratona aquática, hoje até existe, na época não existia, eu ia ser... Tanto que eu tenho o recorde Sul-Americano de 1500, na época, eu fui à oitava do mundo, em tempo, do mundo, mas não é uma prova oficial (risos), então o Fisiologista, o Mazza, argentino, um dos primeiros assim, ele disse: “Olha, se existisse uma prova de cinco mil, você estava preparada, mas as provas hoje são... A prova mais longa da natação demora oito, nove minutos, feminino, então, você tem que nadar mais rápido, tem que mudar, tem que treinar menos com mais qualidade, tem que treinar velocidade porque era uma coisa muito”... E aí eu consegui mudar e na época da Olimpíada, aquele ano melhorei muito, fui pra Olimpíada, nadei bem. P/1 – Qual Olímpiada? Em 1988? R – 1988, CU. E aí, os recordes ficaram até esse ano, então, os recordes ficaram 11 anos. Para minha satisfação, um deles ficou no Flamengo, que era o que eu queria, 200 livre, a Monique Ferreira, eu trouxe a Monique pro Flamengo e disse: “Aqui (palmas) você vai bater o recorde Sul-Americano.” E ela bateu. Ficou na casa e vai voltar pra casa, que os outros dois estão com a Naiara, que não veio ainda para o Flamengo, mas no ano que vem ela vem. P/1 – E quais estão vigentes ainda? R – Aí só... Não recorde brasileiro, Sul-Americano absoluto. Tem recordes juvenis, eu não sei. Porque ao longo da minha carreira, o que eu consegui contar assim, eu estabeleci 29 recordes sul-americanos, não existia piscina curta, se existisse piscina curta talvez eu tivesse batido mais 29 (risos). Só longa, 85 recordes brasileiros, 180 recordes estaduais, pelas minhas reportagens, jornal, não sei se eu tive revezamento, alguma coisa (risos), então, foi o que eu consegui. Tem alguma coisa, de vez em quando eu abro: “Esse recorde? Nossa, existe?” Tem 15, 16 anos, às vezes, eu acho alguma coisa (risos), mas eu não sei mais o que eu tenho aí não. Mas eu acho que isso também não me importa mais não. O que importa é... P/1 – Qual a conquista que você julga mais importante assim, em toda a sua carreira? R – Eu acho que as mulheres não iam à Olimpíada há 16 anos, e aí em 80... Eu tinha que ter ido à Olimpíada de 1984, isso aí, é a maior frustração que eu tive, porque eu tinha ido para a Copa Latina, tinha sido vice-campeã, então, a primeira tinha sido uma italiana e a terceira uma mexicana e as duas estavam lá na final. Então, eu estaria na final também, com certeza. Eu fui cortada por falta de verba, naquela época, não existia critério (palmas), não tinha índice, não tinha nada, eu fui cortada, o Huck do remo foi cortado também, era do Flamengo, teve também, acho que era saltador que também foi cortado e a minha maior frustração foi porque eu fui assistir e vi que eu poderia estar lá, era uma olimpíada de boicote fácil, ia dar uma alavancada na natação feminina danada. Tinha condição de disputar, estava mole aquela Olimpíada assim, para entrar em final e li nos jornais que tinham levado um veterinário do hipismo e não sei o que, aquilo me... Fiquei indignada (risos), aquele negócio foi muito ruim para mim. Ter que treinar mais quatro anos, e eu tinha na época 15 anos, eu fui à Olimpíada com 19, depois. Você imagina você ir á Olimpíada com 15 anos, sem compromisso, quatro anos depois, a história era outra. Não tinha que ir para a Olimpíada, eu ia disputar a Olimpíada. Aí, passei uns dois anos assim, meio sem rumo, meio... Treinar pra que? Ganhar o Troféu Brasil de novo, não sei o que, de novo, não sei o que, de novo, Sul-americano de novo? Aí, depois fui, fu e aí... Então a conquista... Fiz dois índices: ter conseguido levar a natação feminina de novo para a Olimpíada, pena que não foi dada a sequência, porque não se faz trabalho nenhum aqui. A Confederação não faz nada, assim pra fazer, ela tem sorte de ter um Xuxa, ter um Gustavo, que nasceram na mesma geração e quando eles pararem, eu não sei quem vem não. Quem forma são os clubes e na formação ninguém quer trabalhar porque é muito fácil você ser o técnico da seleção só pra (crack?) (risos), é facílimo. Agora aqui (palmas)... E isso, por exemplo, nos Estados Unidos, eles tem essa consciência, então, a natação vamos dizer é forte no High School e na Universidade, então, eles dão apoio total na formação, não só como atleta, como científica. A universidade está estudando, está fazendo a melhor forma de se nadar mais rápido e tal e aqui fica muito em cima dos clubes e fica sobrecarregado porque o clube, ele não tem que patrocinar, o clube tem que formar o atleta. Está ficando caro e a Confederação e o governo não fazem nada. P/1 – Como é que era a concentração_____________. R – Fazia, eu fiz sete anos de análise (risos). Pra chegar na Olimpíada, eu fiquei... Não é muito fácil não. Olha, o esporte que você todo dia se questiona se vale a pena, porque não tem um amparo, ah, eu errei esse passo, essa bola e o outro vem e salva e faz o gol depois (risos), se eu errar a saída, eu botei tudo a perder, se eu errar a virada, se eu tremer, se eu errar a tática de prova, então acertar é difícil e várias vezes, e a cobrança, porque o brasileiro (risos), o latino, ele tem a cultura de torcer para o mais fraco, não entendo isso. Se hoje aparece alguém que vai ganhar num campeonato brasileiro, que ganhe do Gustavo ou Xuxa, todo mundo vai falar: “Eeeee”. Gustavo e Xuxa, eu vejo pelo Xuxa é a obrigação de ganhar, eu não tenho obrigação (risos) de ganhar não, então, a gente tem essa cultura de... E o tão bom aqui no Brasil, eu sei por aqui, porque eu também nunca saí daqui, mas o bom é aquele que se mantém constante, esse é o craque. Você ganhar uma medalha e sumir, agora o craque é aquele que se mantém, o craque é um Oscar da vida, é um Aurélio Miguel, que ganhou ouro, depois bronze, ______, esses caras são fora de série. P/1 – Você fazia algum tipo de dieta? Ou você... Como era a sua alimentação? R – Olha, na minha infância, era o que tinha pra comer (risos). Eu sempre fui sempre muito pobre, então, o que tem é isso (risos), vai. Mas aí depois, de um determinado momento, você tem algum acompanhamento, mas muito superficial. A comida é normal, na época de competição realmente, carboidratos e evitar alimentos de difícil digestão, ainda mais em campeonatos que você tem eliminatória e final, tem que ser comida muito leve, muito líquido. Você pensa que não sua, mas transpira e você perde muito líquido dentro da piscina, talvez até mais porque você não percebe, então tem que fazer essa hidratação toda hora, mas... Eu, por exemplo, não aprendi a beber. eu não bebo nem refrigerante, difícil, porque eu fui educada a isso, então eu não gosto, eu gosto de tomar refrigerante quando não tem comida, porque fui acostumada assim. A gente aprende isso no esporte, então é bom. Não é que eu não beba não ou não coma, eu não tomo refrigerante, não é que.... Não sou que nem aquelas pessoas “Não como carne vermelha”. Carne vermelha (risos) eu como, eu tomo refrigerante, mas eu não tenho o costume, é de vez em quando. E as poucas vezes que eu bebi na vida foram desastrosas, terríveis porque eu não sou e não sirvo para beber, não combina comigo não. Eu sou desastrada, então, tudo eu esbarro, não é? Tem gente que nasce e a gente não nasce com aquilo, não combina comigo. Eu faço... Fico rindo, não é... _____ (risos) P/1 – ______ e comida? R – Ah, comida eu sou boa (risos). P/1 – Você gosta de...? R – Doces principalmente, doce. Como qualquer coisa, como legume, como salada, como carne, como massa, como qualquer coisa. Não tenho problema de comida. P/1 – E você gosta de cozinhar? R – Nada. P/1 – ... E o Fernando cozinha? R – Pipoca de micro ondas, nada. P/1 – E como é em casa? __________ R – Não é. Ele cozinha mais do que eu. P/1 – Ah, é? R – É congelado. E tem empregada três vezes por semana: “Faz um arroz, faz um macarrão”, é assim. As poucas vezes que eu tentei e não consegui acertar nada. Não consigo, não tem jeito. O Fernando é melhor do que eu. Como eu como fora todo dia porque eu saio de casa às seis e meia da manhã e volto nove e meia, dez horas da noite, eu como todo dia fora, mas eu sou ruim pra burro na cozinha. P/1 – _________________ R – Ah, é o Flamengo. É Supervisão dos Esportes Aquáticos, tem muito trabalho, muito, muito, muito, muito, muito. Porque você lida com gente, veja bem, você não está lidando com números, nem com uma ciência exata, nada, então... Eu sou um pouco mãe, um pouco psicóloga, um pouco política, um pouco financeira, um pouco tudo e esse ano, a gente recebeu 25 atletas de fora do Rio, que estão morando aqui, que a gente dá casa, comida, transporte, faculdade ou colégio. Eu que fui matricular cada um na faculdade ou no colégio, eu que vou à reunião de pais quando tem na escola, então, eu estava buscando na escola e levando, mas aí, a gente colocou uma van porque ficou inviável, eu não conseguia porque se eu sai do clube aí a casa cai, então, eu não sou centralizadora, de jeito nenhum, mas fica muito nas minhas costas. Tem que instalar ar condicionado, sou eu que tenho que ver, “Ah, caiu à república e está dando barata”, eu tenho que fazer a dedetização, tudo o que você possa imaginar, aí um passa mal de madrugada, eu que tenho que levar no médico, várias (vezes?), já aconteceu de tudo, briga com a namorada, entra em depressão e aí, eu que tenho que ficar conversando (risos). Olha, você não tem idéia, mas é muito rico. Você trata com pessoas, você fica acho que 10 anos na frente, porque é muito rico, você começa a conhecer, é um laboratório. Você começa a ver que os seus problemas são pequenos ou são grandes, eu falo: “Olha, isso é besteira”. Impor limites, porque eles vão além dos limites, impor limites, brigar com o clube inteiro porque não? É um esporte que atinja... Eu tenho consciência disso, que atinja a torcida, não combina muito a torcida, tem que ser uma torcida de paz, porque é um esporte meio complicado, é um esporte individual, se você sobe no bloco e fala assim: “_______”, tomar naquele lugar. Uma torcida inteira, o cara vai se assustado, vai se desconcentrar (risos), então, tudo tem que ser muito medido. São centésimos de segundos que definem o herói do perdedor, um centésimo, são coisas... E a gente não pode falhar em alto nível, então, detalhes, toda hora detalhe, mas é muito legal. E o que eu pego, eu chamo para mim é a responsabilidade de formar esses atletas. Descobri um na Paraíba, no Tocantins, não sei o que, trazer e dar essa condição aqui, isso aí é... P/1 – Você tenta um pouco se espelhar no ___________________ R – Muito, muito, mas hoje, eu não sei, porque eu não tenho como falar uma pessoa que não está aqui, mas hoje, só o Daltely não dava não. Do jeito que era... Tomou uma dimensão muito grande, quer dizer, o Daltely para ficar na borda da piscina, mas como ele fazia tudo, hoje não daria não, porque realmente... Antigamente a equipe tinha 25 atletas, hoje a equipe tem 78, 80 (risos), são sete categorias, eu ainda pego o pólo aquático (nacionalizado?), então, tem que imaginar como nacionalizado vai ser campeão, esse ano vai ser tricampeão brasileiro, já é bi. Como fazer o pólo aquático convencer os caras que tem 35 anos a treinarem, porque não tem atleta no mercado, não é um esporte de massa, então, tem que treinar um lá, busca tal e aí é _______o dia inteiro, o dia inteiro. É dedicação ao Flamengo, não tem hora, a mãe te liga à hora que ela acha que tem que ligar, o atleta te liga à hora que acha que tem que ligar, é muito... É um absurdo, você não tem idéia (risos) como as pessoas entram na sua vida, entram... Impressionante. Só que agora ficou melhor, porque a natação também está ganhando espaço, está se profissionalizando, então as coisas também são muito mais fáceis. Olha, isso aqui você ganha, isso você tem que pagar. Você tem direitos e deveres, então, agora fica... Hoje, se tem um contrato, então, olha, isso você pode, isso você não pode. Isso você tem que fazer. Ficou mais fácil, porque antes, você não... (risos), não tinha. P/1 – Como você chegou ao cargo? ________________ R – Bom, o Daltely morreu em 12 de junho de 1994, então, não faltava era urubu para ficar querendo o lugar e não tinha um Daltely e não tem um Daltely, porque se tivesse eu tinha trazido (palmas), não tem, não tinha. Então, aí, “Vamos trazer a Patrícia”, porque existiu um momento até político no clube, foi muito político. “Vamos trazer a Patrícia pra resolver o problema” e me jogaram, isso, pô, é uma mágoa que eu tenho, eles me jogaram e não me disseram onde é Departamento Pessoal, onde é Financeiro, nada, nada, nada, se vira. Nossa, o primeiro ano, quer dizer, a segunda metade de 1994, foi terrível, eu não sabia como fazer para trazer dinheiro, para levar a equipe, foi muito difícil. E hoje, pode mandar 25 de fora... Eu não gosto de falar no nome de outros clubes, mas ninguém faz, eu quero ver fazer isso. Como a gente fez no ano passado, a gente foi campeão infantil, juvenil, júnior, sênior, não foi no absoluto porque um outro clube botou uma equipe de aluguel, mas eu quero ver formar ali, essa turma toda, então, eu acho que é mais um desafio, não tem... Manda que... Pode mandar que... Departamento de Problemas, a gente fala: DPV, mas é palavrão e eu não vou falar, em off depois eu digo o que quer dizer. Pode mandar que a gente está aí pra... Mas não é só isso, sabe? Você tem que conhecer, tem que fazer a política, te aturar o mau humor de um financeiro. Hoje em dia é mal humorado pra burro, briga comigo, o corte do Fernando e é um problema pra mim, que é um problema que vai para a minha casa, é difícil separar, o marido ser o chefe, eu não aceito, então, já começa... Orçamento, eu estouro todo ano mesmo, então, eu vou... Eu sei até onde pode ir, tanto que eu não montei uma equipe milionária, não é que o Edmundo se deixasse ele ia levar não sei quantos milhões, mas não é essa a função do Flamengo, ser patrocinador, ele tem que formar. A gente tem que ganhar com a turma da casa porque quando ganhar vai ganhar por 10 anos. Esse é o trabalho que a gente tem que fazer, não importa se vai demorar um, dois, cinco anos (palmas), graças a Deus, o Edmundo acredita nesse trabalho, então pronto, ele me dá cobertura pra isso. A gente tem que formar. Se a gente vai perder o campeonato absoluto, não tem problema. E o que esse outro clube fez? Que eu não gosto nem de falar o nome. Ele comprou dois clubes do Rio de Janeiro, o Olaria e o Vasco pra ganhar as categorias de base da gente. Uma categoria ele não vai ganhar, a juvenil, mas assim, na quantidade de pessoas, de atletas, no número, isso não vai acabar bem pra eles. Pra gente vai porque a gente tem sustentação. P/1 – Patrícia, qual o fato que mais marcou a sua vida? R – Aí, são vários. O que mais marcou? Eu citei dois: o nascimento do Vitor, a morte do Daltely, a Olimpíada. Ter conseguido ir à Olimpíada, nossa, um campeonato brasileiro que o Flamengo ganhou de seis pontos e meio do Minas, na última prova do Campeonato Sul-Americano, que o Brasil ganhou da Argentina por dois pontos, na última prova também. Minhas duas melhores amigas, que são do Flamengo, que convivem comigo há 25 anos, que é a Carla e a Débora. P/1 – Elas nadaram com você? Ou não? R – Nadaram. Na minha equipe. Que são até hoje, então, ficou essa amizade. Que eu me lembre assim, me pegou (risos)... P/1 – E o que mais transformou a vida? Quais fatos que deram uma mudança positiva, você pode citar? R – A chegada no Flamengo em 1977, pequenininha e tal, sem o menor (risos)... P/1 – Foi um convite? R – Não. A minha irmã mais velha ela já era assim, boa. Eu era uma promessa. Então essa chegada no Flamengo... Não sei. Eu não desvinculo a minha vida do Flamengo, a minha vida é o Flamengo, e o Flamengo é a minha vida. Não tem (risos)... Então, tudo é sempre ou com o técnico que eu conheci no Flamengo, ou com a minha família que trabalha no Flamengo (risos), então, vai muito por aí. Não tenho... Ah, o Zico, pra mim... Ter conhecido o Zico, o Júnior, o Adílio, o Andrade, nossa, nada, nem... Ter ido à Espanha, em um Campeonato uma vez, um Mundial em 1986. Eu estava numa loja e eu ouvi assim: “Patrícia, Patrícia”, aí eu olhei e falei assim: “Não, deve ser sonho”, era o Zico me chamando (risos). Eu: “Ah”, eu não sabia o que falar: “Ah”. Eles iam jogar em Dijon, não sei, estava uma excursão do Flamengo pela Europa. E eu gaguejando, não sabia o que falar e aquela coisa, isso foi demais, o Zico, nossa, ele é show (risos), ele sabe ser campeão (palmas). Não é fazer gol, se bobear teve muita gente que foi muito mais do que ele, mas assim, ele... Nunca você chegava... Por exemplo, meu pai, ele sempre foi assim, fotógrafo nessas coisas, então, quando ele tinha que fazer algum trabalho que tivesse que entrar no campo, em nenhum momento o Zico se opunha a alguma coisa. Sempre disposto, sempre... Então, são essas pessoas que eu conheci ali, nossa, são muito especiais. P/1 – Você gosta de futebol? R – Eu gosto. P/1 – E na tua família também gostam de futebol? R – Gostam. Não é uma coisa fanática assim, não. Eu gosto de futebol do Brasil, só na Copa (risos). Não vi nem essas eliminatórias pra Olimpíada, não acompanhei, eu acompanhei assim, óh, Tirso foi bem. Tirso... é Flamengo. O Brasil, eu gosto quando tem Copa e o Flamengo, eu gosto de acompanhar as competições todas, porque se estiver na final, eu estou lá sempre, então, eu tive quando o Flamengo foi... Lembranças mais recentes: Campeão Brasileiro em 1992, foi a primeira vez que eu entrei no campo do Maracanã, então, foi tão legal, a gente corria, corria, corria, corria e não sabia pra onde corria. Na época, era o Marcelinho Carioca acho que era até reserva, foi a primeira pessoa que eu encontrei assim e que abraçava; depois, o Gilmar, nossa, muito legal. Nessa época, fomos às festas, depois, aí a gente foi... Foi aí que eu entrei mais assim, eu não era muito ligada à política do clube, nem às pessoas, porque não tinha, nunca tinha dado abertura e realmente, quando chegou à turma que está hoje, que é a turma que veio com o Veloso e tal, deu essa abertura pra gente. Porque estava apagada, morta, não sei o que te explicar. Agora, tivemos presidentes bons, o Helal foi muito legal, não tinha dinheiro, porque ele é uma pessoa que sabe lidar com as pessoas, ele é malandro, então ele trata bem. E a gente jogava ele na piscina, ele adorava. Ele era o primeiro a chegar pra gente jogar ele na piscina, muito gozado. E ele uma vez foi entregar uma placa pra mim na piscina, prendeu meu dedo na placa e eu não queria falar nada com o Presidente do clube e ele estava (risos) esmagando meu dedo. Então, tem umas passagens assim, no Flamengo, que foram fantásticas, mas nada se compara a Zico, nada, ninguém, eu acho, não tem. P/1 – Como é que nasceu o projeto (Clínicas?) de Natação? R – De uma necessidade de passar alguma coisa para alguém. Então, a gente quando tem sucesso em alguma coisa que a gente faz, todo mundo quer saber como é que foi a trajetória e como é isso e tal, mas logicamente que muita coisa fica para trás. Qualquer decisão que você tome: “Quero ser atleta de alto nível” e tal, alguma coisa fica pra trás. A juventude fica pra trás, não tem jeito. Você não sai, você tem horários restritos sabe? Mas é uma escolha. Minha vida é uma escolha. Vou casar alguma coisa fica para traz (risos), qualquer coisa, você ganha para um lado e tem que pesar o que você acha que vai ser melhor. Mas fica alguma coisa pra trás e essa... Perdi o fio da meada (risos) do que você perguntou. P/1 – Das clinicas de natação. R – Então, é de passar isso. Essa necessidade de continuar alguma coisa sem ter que estar nadando, porque toda hora: “Se você estivesse nadando, você não estaria ganhando?” “Aí, gente, não sei”. Encerrou-se o ciclo e começou outro ciclo, de estar fora da piscina e ajudando e trabalhando para as pessoas acontecerem. E eu não vou aparecer no trabalho, porque se tudo der certo, o atleta é ótimo, o treinador é fora de série; se tudo der errado, a culpa é minha. Então no Flamengo as coisas são assim, e eu sei que são assim, porque na hora da coisa ruim... E eu gosto disso, eu não acho ruim não. Porque eu não tenho essa vaidade, eu não quero ser melhor do que ninguém, nem pior. Mas ali, o Flamengo, onde eu estiver ele vai ser bem representado e respeitado. Dentro do Flamengo, a natação vai ter um espaço. Eu tenho esses ideais que eu não vou abandonar, não adianta e eu não vou deixar a peteca cair. De vez em quando eles falam: “Você é chita”, não, eu não sou não. Eu sou uma pessoa que brigo para que alguém tenha... Para que o Flamengo saia vencedor. Acabou, não tem... Ou dentro de uma Confederação numa competição, ou a natação no clube. Ainda brinquei: “Olha, dentro do meu esporte, eu quando cheguei há cinco anos atrás, o Flamengo estava em quarto, passou a terceiro, passou a segundo e ia ganhar. Não ganhou porque foi montada uma equipe de aluguel, porque equipe por equipe, a minha era melhor. Não tenho problema, não tenho pressa porque isso no esporte a gente não... Não fui para uma Olimpíada e não treinei mais quatro? Não fiquei cinco anos tirando o segundo lugar? Não sei. Não comecei a nadar com três anos para ir à Olimpíada com 19? Eu não tenho pressa. Tenho todo o tempo do mundo para trabalhar pelo Flamengo. Só preciso que o Flamengo deixe trabalhar e puxe minha orelha, não tem problema. Me dê limites, não tem problema, mas, eu sei que eu sou Flamengo. Eu não sei se as pessoas que trabalham no Flamengo são. Eu sei a minha diferença para os outros porque uma mágoa que eu tenho grande, em relação ao Flamengo, e falo pra todo mundo, é que sempre quem vem de fora tem um valor maior, mas é meio cultural. Não sei. E a mágoa que eu tenho é que o Daltely morreu pobre, morreu duro, não é pobre, pobre é exagero, mas ganhando pouco. E isso eu não quero. Eu acho que as pessoas têm que trabalhar e tem que ganhar para trabalhar e pronto, acabou. Não precisa, o cara não precisa ser um sofredor para ser um vencedor. Por que não (risos)? Você ganhar bem, tudo bem. Mas sempre... Isso que vocês estão fazendo pra quem viveu e deu o sangue pelo Flamengo, isso é... Parece que a gente... È o que eu falei: Parece que a gente.... É o que eu falei, nossa, vai ser difícil voltar, porque sempre teve essa mágoa. Porque as pessoas não resgatam a história e a história quem fez fui eu. Foi o Daltely, sei lá, foi a Maria Elisa Guimarães, foi Eliete Motta, enfim, pra gente chegar hoje no Flamengo. Um clube que está pagando imposto (risos), nunca se pagou, um clube que tem grana, que foi campeão novamente estadual, tomara que seja brasileiro, que tem hoje um Oscar na vida... Enfim, esse é o Flamengo, mas a gente precisa reconstruir. Lógico que a gente teve que importar esses atletas para reconstruir, fazer uma nova história. O Edmundo foi muito ousado, por isso que ele pra mim, ele é campeão por isso, porque ele acreditou que a gente tem gastos, não adianta. Você não vai... Você não tem basquete, não existe vôlei, então, você tem que fazer o que? Começar de cima para baixo, vamos trazer para que a escolinha cresça e que a gente tenha futuros e futuros e futuros. Essa é a função de um clube campeão, de um clube com história, de um clube que vai ficar por mais 105 anos aí. P/1- Você sempre treinou com o Daltely? R – Quando eu passei pra categoria dele, sempre treinei com ele. P/1 – Ele treinava qual categoria? R – O absoluto. O pessoal que nada Troféu Brasil. Então, eu passei pra ele com 14 pra 15 anos e fiquei. Na época de glória mesmo P/1 – Antes de treinar com ele, você treinava com quem? R – Com o (Alberto Claro?), que saiu do Flamengo para ir para o Pinheiros e hoje, é técnico da seleção. Foi formado no clube, o clube tem que formar atleta até dirigente, enfim. Mas se você formar isso, não precisa o atleta ficar beijando a camisa, acabou, não precisa isso. Ele precisa vestir (risos) a camisa, acabou. Fazer a parte dele, mais nada, não importa quanto ele ganha, importa que ele esteja cumprindo com o que o Flamengo.... O que importa é que o Flamengo está acima disso, isso é... O Flamengo é maior do que eu, do que vocês, do que quem vem, de quem foi. O Flamengo tem que continuar, a história do Flamengo tem que continuar. E essa história só se faz com trabalho, com muito trabalho. Eu sei que eu tenho muito trabalho, eu não acho que eu vou... Eu acho que vai ter um momento que tem que entrar alguém no meu lugar mesmo, porque eu vou ficar velha e as idéias vão ficar ultrapassadas, eu vou ficar igual aos velhinhos da Boca Maldita, eu me vejo assim lá. “Tá ruim, em 1800...” Só que as coisas mudam (risos), sabe, evoluem, não adianta a gente querer achar que antigamente não tinha nada e era melhor, não, não é. Hoje tem muito mais coisas e hoje pode ser bem melhor do que foi no passado (risos). Parar com isso, de ficar muito saudosista e achar que... Só que acho, que você só forma um vínculo se você formar a pessoa ali, se disser pra ela: “Olha, o Flamengo... você pode ser... Não sei, quem é mais assim, no mundo? Michel Jordan. Mas o Flamengo é o Flamengo. Acabou. A gente endeusa muito, paga caro e os títulos são poucos, pelo o que o Flamengo merece. A gente tem que gastar o dinheiro que tem que gastar, mas tem que valorizar também um pouco a turma que trabalha. Mas hoje em dia está melhorando. P/1 – Como estimular, então, a garotada? E os pais desses garotos também para começarem a nadar? R – Resultado. E o Flamengo tem compromisso com a vitória, isso o Fernando sempre fala: “Compromisso com a vitória”. Ganhar faz parte do jogo, faz parte do (campeonato?) ou não perder, enfim. Mas ele tem compromisso, ele tem que estar entre os melhores, ele tem que estar na final, ele tem que estar ali, brigando, brigando, brigando, brigando e vai ter uma hora que vai chegar. O compromisso com a vitória. O Flamengo não pode entrar pra participar, então não entra. O Flamengo também acho, na minha cabeça, que não pode ser patrocinador. Deixa os outros serem, vamos fazer o que a gente tem pra fazer bem feito. Pra ganhar, pra ganhar leva tempo e isso é que é o problema. Eu entrei há cinco anos, pra formar essa equipe, ninguém recebia ajuda de custo, hoje 52 recebem ajuda de custo, um orçamento caríssimo pra natação, caríssimo, muito caro pra natação. Aí, precisa que as pessoas trabalhem e como? Não sei, vamos levantar recursos, porque eu tenho uma equipe cara e tenho um orçamento muito caro, mas eu tenho uma escolinha lá de 2000, mais hidroginástica. Porque o __________. O nado sincronizado hoje tem 46 alunos, nunca teve escolinha, em três meses tem 46 alunos. A gente começou a pegar os que nadavam mal, assim, dança direitinho, vai pro nado, ahaaaaan pólo, pra massificar. E a gente vai ser campeão. A gente leva a garotada pra ver o Flamengo ser campeão, então, vai perpetuar por muito tempo. Mas, o coração tem que ser rubro negro, o coração tem que ser rubro negro. Se não for, na hora que alguém der mais 100 mil, 50 mil, mil, dez reais, ele vai. E eu posso dizer, pra mim, o Flamengo não tem preço, não saio do Flamengo. Saio quando morrer, eu posso deixar de trabalhar, eu vou deixar, porque eu sei que eu vou ficar caduca e cedo, porque eu sou muito chata. Mas, eu vou ficar lá na Boca Maldita, ninguém (palmas), vou porque eu quero o melhor pro Flamengo. Eu me vejo ali, tanto que minha sala é do lado (risos), eu fico vendo a dona Teresa, aquela turma toda e falei: “Eu vou ser igualzinha, eu vou nos jogos e tal, vou ser aquele bolinho”. Não tem outro caminho pra mim. P/1 – Você tem um sonho? R – Tenho. P/1 – Você pode falar ou não? R – Ah, ver o Flamengo campeão mundial de novo, de futebol, e campeão de natação novamente. Esse é o meu sonho. P/1 – O que você passaria para um garoto aí, que está em idade, começando, que orientação? R – Difícil. A única coisa que precisa, é as pessoas respeitarem o Flamengo e numa boa. “Estou chorando de emoção”. As pessoas têm que respeitar o Flamengo. Podem usar o Flamengo como usam e num pode... É um crime. É um crime o que eu vejo. Não pode a torcida querer também não entender como funciona o Flamengo. As pessoas têm que ter calma. Resultados se consegue em longo prazo. Ninguém faz um Zico de um dia pro outro, ninguém... Não vai acontecer sem trabalho, só tem que deixar a gente trabalhar. Toda a luta, todo o trabalho, ele é em vão quando as pessoas não acreditam. Então, a primeira condição é acreditar. “Olha, se eu botei a natação na sua mão, eu acredito em você”. Ou não, pronto. Não vou garantir que vai ganhar, não posso, não posso garantir. Antes era mais fácil pra mim, eu caia na água e resolvia comigo mesma. Hoje eu não consigo garantir, mas eu consigo garantir que eles vão honrar, com respeito. E se não ganhar... Porque às vezes, você perde títulos, mas você ganha de diversas formas: ou sócio, ou credibilidade, ou respeito e... O mundo gira e hoje você está por cima, amanhã está por baixo. Então, vai ter uma hora que vai chegar, cedo ou tarde, não tem... Tem que acreditar, acreditar, perseverança. Vou, vou, vou, vou, vou e a gente vai chegar. Todo ano um pouco mais, todo ano um pouco mais e pronto. Não dá pra... As pessoas têm que respeitar. Não dá pra... Cada um que chega, eu não estou falando do Presidente não, coitado, acho que os presidentes todos foram ótimos. Cada um tentou, todos são Flamengo, todos deram o sangue, não é? Por isso. Mas as pessoas que às vezes chegam caem de paraquedas na nossa cabeça e se acham importantes, e a vaidade sobe à cabeça de uma tal forma que, já quer montar o time, já quer influenciar no trabalho de algum profissional. Eu acho que o futebol do Flamengo só não está melhor, eu não sei, eu sou torcedora, não sou ninguém pra falar, mas eu só acho que não está melhor porque não tem paz pra trabalhar. Tem que ter tranqüilidade, calma e os talentos vão acontecer porque é inevitável. Na hora que a torcida, que é a maior, que é a melhor do mundo gritar, o cara vai. Mas não é só isso que vai fazer o time ganhar. É a estrutura, é o trabalho, é essa confiança que está faltando. O jogador sabe que se amanhã ele não jogar bem, a torcida fica gritando: “Bota pra vender”, toda hora. Aí, o cara faz um gol “Ele é o melhor”. Tem que ter um pouco de paciência (palmas), um pouco, pra deixar ele se desenvolver. Um dia você é um ______ no outro dia o herói. Aí o cara fica com raiva, aí sai do Flamengo e joga no Flamengo muito melhor do que jogava aqui. Porque lá de repente não tem tanta pressão, porque não tem tanta torcida, ele consegue se desenvolver. Eu sei porque eu fui atleta e eu posso falar isso um pouco. Deixa as pessoas trabalharem um pouco em paz, o resto vem. As pessoas têm bom senso, que trabalham no clube. A não ser que tenha alguém roubando, eu não vejo que aconteça isso no Flamengo e se acontecer, lógico, tudo bem (risos). Arbitragem ruim, lógico. A gente tem que ter força, força, política nas confederações, no comitê olímpico, na CBF, na política, em tudo a gente tem que ter força. E aí, o Flamengo vai ser novamente respeitado, acho que é isso. Fico pê da vida quando as pessoas falam assim: “Pô, o cara não tem raça”. Às vezes, não, mas se ele for educado pra isso, pra gostar do Flamengo, ele vai dar o sangue (palmas), porque isso aqui, meu filho, não é todo mundo. P/1 – O que você acha de ter deixado o seu depoimento, a sua história, pro Museu do Flamengo? R – Como eu falei, eu queria até agradecer (risos), porque eu sei que a criança que nada hoje, não sabe quem eu sou e nem quero que saiba, ou se souber, ótimo. Que sirva pra vida deles. Mas não posso admitir que o Flamengo não saiba porque, nossa, a gente quando atleta, como profissional não. Como profissional você recebe senão você vai lá, briga, recebe mais ou menos. Mas como atleta sozinho... Quatro e meia da manhã, frio (choro)... É duro (choro). P/1 – (Catando?) barata. R – É duro (risos). E aí, o clube não (choro)... Você fala, fala, às vezes, não escuta ou não quer ver que quem vai fazer o Flamengo são as pessoas que já deram isso, não tem jeito. Eu não quero nada do Flamengo, não quero nada. É como eu falei, eu quero que o Flamengo seja campeão. Se o Flamengo for campeão, eu sou feliz. Quando o Flamengo ganha domingo, a segunda-feira é diferente. Quando perde, a semana é um inferno (risos), o clima é ruim, eu trato as pessoas mal, tenho problema em casa, então... Porque tem essa paixão, a gente não tem... Não vejo paixão sem sofrimento. Quem não se apaixonou e não sofreu, não foi intenso (risos). E o Flamengo é muito isso. Tem que ser intenso. A gente tem que dar, mas tem que... Tem que resgatar essa história, isso é fantástico. Porque o que eu tenho lá, por exemplo, você fala com o meu filho, ele sabe que é o Xuxa, quem é o Oscar, ou quem são as pessoas, mas, ele nem sabe quem eu fui e nem vai saber porque não está no dia a dia dele. Mas talvez se um dia, ele se apaixonar pelo Flamengo, como eu me apaixonei, ele vai levantar a história do Flamengo e: “Puxa, a minha mãe. Então, eu vou gostar mais do Flamengo agora.” Talvez, não sei se é possível ele gostar mais do Flamengo, ele gosta bastante. Então, isso assim, só isso que me chateia, a indiferença das pessoas. Não posso dizer que tenha uma abertura total com essa diretoria e com as outras eu não posso, mas quando eu ouço algumas pessoas que quiseram ou que querem ser candidatos ou fazerem parte da política do clube, acharem que conhecem mais o Flamengo, do que a gente que viveu, ou passaram dois anos, às vezes, quatro ou até seis. Mas eu tenho 23, todos os dias, de manhã e de tarde, intensos, intensos, intensos. Então, não pode achar que sabe, não sei se é o que sabe mais, mas que quer mais bem ao Flamengo do que a gente. Isso não pode. Então, no mínimo, no mínimo, tem que bater um papo, no mínimo tem que ter uma troca. Eu acho que isso que vocês estão fazendo é dar oportunidade para gente ser Flamengo novamente. Porque trabalhar no Flamengo é importante, mas não como era antes. Antes era uma coisa alucinante (choro). De amor. P/1 – Patrícia, a gente ficou sabendo que você vai ser candidata a vereadora. Como é que você vê esse futuro seu aí? Saindo ou não saindo. Só o fato de todo mundo assim: “Vamos lançar a Patrícia”. R – Bom, pra mim é uma honra. Eu sempre fiz parte desse movimento que eu sinto assim, que às vezes, a gente é lesionado por juizes ou por confederações, por não ter força. Então, aconteceu uma coisa, por exemplo, no campeonato brasileiro, que a gente perdeu na última prova, no meio do ano passado, que eu quis entrar na cabine porque eu sabia que tinha um atleta de um outro clube desclassificado e existia um deputado, que todo mundo sabe quem é. “Eu quero entrar”. “Não, você não pode entrar”. “Então por que ele está dentro?” Por que ele tem livre acesso porque ele é deputado” Falei:” Isso é um (risos) absurdo”. Aí eu e o Fernando, a gente saiu num quebra pau danado e hoje mudaram a regra, que ninguém pode reclamar. Quer dizer, a gente não pode reclamar? (risos) Quer dizer, a gente não pode invadir, mas o cara pode. O que é isso? Onde nós estamos? Isso não... Eu fiquei indignada, indignada, nossa. Mas, eu acho assim, que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura, vai furar. Vai ter uma hora que a gente vai furar. Então, sempre fiz parte disso. Agora, eu sou um soldado do Flamengo. Eu não tenho essa vaidade. Eu só vejo que tem gente que pega carona nessa história. Eu vejo que tem outros candidatos que estão pegando carona na história, enfim... Eu queria saber o que eles representam para o clube ou o que o Flamengo são esses que usam o Flamengo pra fazer política, pra se colocar na política. Eu não uso o Flamengo não, pelo contrário, eu sou um soldado pro Flamengo me usar, se achar que deve e se achar que eu sou a pessoa para fazer um político pro Flamengo. Eu tenho uma posição definida, eu não sou de Confederação, não sou de outro clube, eu sou do Flamengo, pronto, acabou. O Flamengo faça uso se achar que deve e eu não tenho problema. Eu conheço desde o porteiro até o presidente, então pra mim não tem... Não quero ser presidente do Flamengo, não tenho essa pretensão. Já quiseram me botar duas vezes como vice-presidente, ainda bem que eu não tinha idade. O dia que eu tiver 35 anos, eu vou passar uma época fora na eleição. P/1 – (risos) R – Porque pra ter imagem boa, eu não tenho essa... E nem o Fernando, que veio por acaso, veio a ser o vice-presidente, era pra ser o Fernando. Fernando foi porque entrou, coitado. É tanto Flamengo, tanto esporte na cabeça dele, que ele acabou (risos), entrou por osmose. Mas era pra ser o Bernardo, era pra ser uma outra pessoa, que o esporte amador queria e de tanto que ele defendeu o esporte amador perante a turma do Edmundo que estava entrando: “Então, vai você” (palmas). Era pra ser o Fred, o Fred não tinha tempo, então quem tinha tempo era o Fernando, então, a gente não tem essa vaidade. A gente tem é trabalho. Então, poxa, por um acaso ontem o Flamengo perdeu no basquete? Ele não dormia hoje. “Quem será que jogou mal?” E todo dia é isso. Abre o jornal pra ver o que tem do Flamengo. O Flamengo ganhou isso. Então é isso. Não pode achar que uma pessoa vai cair de paraquedas porque foi isso, foi aquilo, foi de imprensa ou não foi, o que ganhou em 1800. Porque as pessoas ficam velhas, as idéias estão velhas e o clube tem que... Tem que entrar gente nova mesmo. Ainda bem que entrou gente nova, ainda bem. E achar que não tem que ouvir o esporte amador, que não tem que ouvir uma Patrícia (palmas), perdeu. Vai perder sempre. Porque a gente vai pra guerra, a gente vai pra guerra, a gente vai pra boca de urna, a gente leva atleta, chama gente em casa. Não é que a gente ganha à eleição não, mas a gente faz a nossa parte. Pra quem a gente acha que é melhor pro Flamengo. P/1 – Olha, a gente está chegando no final.... R – ...Se deixar, eu fico falando até amanhã... P/1 – E a gente queria saber se você quer falar mais alguma coisa? É não sei. R – Não, eu acho que só o hino do Flamengo, que tinha que mudar. Não podia ser: “Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”. Tinha que ser: “Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer e morrer pelo Flamengo”, isso é ser Flamengo. Eu sempre penso nisso: “Poxa”. Porque uma vez a gente botou na piscina uma frase, a gente pintou e não sei por que saiu e dizia: “Vencer não é tudo. É a única coisa”. Então, não sei se dá pra entender a maluquice da gente. Não é que ninguém vai viver melhor ou pior, se o Flamengo vai ganhar, se a gente vai ganhar ou não. Mas o objetivo é sempre vencer. É a única coisa para que a gente se programa, que a gente trabalha, é pra vencer. Se vai vencer ou não aí... Se a pessoa jogar bem, se na hora tudo der certo. Mas o compromisso tem que ser com a vitória a todo momento. Eu tive atletas que saíram esse ano, uma na verdade, saiu do Flamengo pra ir para outro clube, porque simplesmente chegou na hora de nadar e falou assim: “Ah, eu não vou nadar”, “Então você vai embora”, “Não vou nadar uma prova porque vou nadar outra”, eu falei assim: “A gente só vai ganhar a competição se todo mundo nadar quatro provas. Porque a gente precisa de pontos, a gente tem menos gente”. “(Então?), não, não”. Briguei, briguei e então: “Tchau”, não importa. E faria se fosse Xuxa, se fosse qualquer pessoa. E faço, falo, boto o dedo no nariz dele, não tem porque ter medo de perder a pessoa. A gente pode fazer 30, saiu, entrou 30, acabou. Esse respeito com o Flamengo tem que ter. Esse compromisso, esse carinho, aí, o resto acontece porque o Flamengo é campeão, não tem jeito. É o maior (risos). P/1 – Obrigado pelo tempo, obrigado por ter vindo e é isso. R – Tá bem.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+