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História

Uma caminhada com suavidade e sabedoria

História de: Yoshico Akiyama
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/09/2017

Sinopse

Yoshico Akiyama, ou dona Emília, traz a história muito bonita: a de uma trajetória uma caminhada percorrida e pautada por serenidade, simplicidade, suavidade, em meio a muita sabedoria. E como sempre soube aproveitar as coisas que a vida lhe destinou desde que, com sete anos, chegou à Capital. Em sua memória de criança estão alguns medos: o dos bichos lá do interior, como cobra, lagartixa, raposa, e o das histórias que por lá se contava, sobre árvores que falavam, assombravam pessoas. Mas está, também, a lembrança, o pavor e a dor da tragédia: o incêndio que destruiu sua morada de sapê, vitimou seu irmão mais velho, feriu seu pai e sua irmã. E o mais impressionante: uma tragédia originada de uma fagulha que escapou de um trem que passava nos fundos de sua casa. Já em São Paulo, lembranças mais amenas. A escola e as freiras; o trabalho iniciado com dezesseis anos; o casamento e aquele vestido de noiva dos sonhos; as duas filhas de temperamentos tão diferentes - a arteira e a quietinha. A vinda dos netos e do bisneto, mais alegria e emoção. E os dias atuais - serenos e, ao mesmo tempo, produtivos - preenchidos com atividades para a semana inteira. E tudo isso em meio ao carinho das filhas e da família em si.

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História completa

Meu nome de registro é Yoshico. Casada, passei a assinar Yoshico Akiyama. Nasci em 02 de março de 1935, em Piratininga, arredores de Bauru, interior de São Paulo. Com sete anos de idade eu vim para a Capital com a minha família; meu pai veio em busca de melhores oportunidades de vida. O nome Emília é de batismo e foi sugestão de uma família de italianos lá do interior, achando que eu deveria ter um nome brasileiro.

 

A vinda dos meus pais - já com duas filhas e um filho, meus irmãos mais velhos - do Japão para o Brasil, teve origem na difícil situação econômica do Japão naquela época. Quase sem condições de sobreviver por lá, meu pai trouxe a família atraído pela propaganda que falava, dentre outras coisas, no “ouro verde”, que é como se referiam ao café. E, de fato, ele veio para a lavoura do café, no interior do estado. Só que, chegando aqui, a decepção foi muito grande e a vontade de voltar no mesmo dia, também. No entanto, nunca conseguiram voltar. E aqui eu nasci, como, ao longo do tempo, outros irmãos.

 

Insatisfeito com o café, meu pai tentou criar o bicho da seda e, posteriormente, plantar algodão. Quando eu tinha por volta de três anos, uma terrível tragédia nos atingiu, inclusive vitimando o meu irmão mais velho. Morávamos então numa casa de sapê. E, nos fundos, passava um trem - uma Maria Fumaça. Não se sabe como, uma fagulha se soltou e incendiou a moradia quando já estávamos, inclusive, dormindo. Meu pai e minha irmã tiveram que ser hospitalizados.

 

Daí a pouco minha mãe começou a gritar: “Cadê o Yukio? Cadê o Yukio?”. Aí o telhado já tinha ido para baixo.

 

Quando eu tinha sete anos, meu pai resolveu vir para a Capital. Eu adorei, porque detestava o interior. Tinha medo dos bichos e das histórias de assombração que por lá se contava. E, o que é melhor, comecei a estudar. Estudei num colégio de freiras, que adorava também - tanto ao colégio como às Irmãs. Era muito boa aluna e em tudo - até em comportamento - só tirava cem. Aliás, a decisão de meu pai de vir para São Paulo teve a influência do meu cunhado - a minha irmã mais velha já havia se casado e viera morar aqui - que era meio aventureiro, gostava de se aventurar, e tinha se saído bem, afinal. Meu pai passou a produzir e vender, ele mesmo, alguns doces e também conseguiu alguma sobrevivência, como alugar casa, colocar os filhos no colégio, e tal. Estudei nesse colégio de freiras até por volta dos 16 anos e fui trabalhar numa indústria de doces onde meu pai trabalhava. Dali fui para uma tipografia, cujo dono não era bem educado, era meio grosseiro e eu não gostava e acabei, por indicação, indo para o escritório da Cooperativa Agrícola de Cotia. Lá conheci meu marido - conheci e casei em oito meses, graças ao meu pai. É que por essa época ele já estava viúvo e tinha a intenção de casar de novo. Só que a casa estava, digamos assim, cheia - eu, minha irmã e dois irmãos menores - e ele tinha medo de isso atrapalhar ele encontrar uma noiva. Então, ele resolveu apressar o meu casamento.

 

Foi uma coisa memorável. Uma coisa memorável. Acho que, não sei, acho que é o último da minha vida.

 

Hoje, estou com 82 anos de idade, fiquei viúva há dois anos. Tenho duas filhas, três netos e um bisneto. Moro com a filha mais nova, que faz tudo por mim - mais do que eu preciso, mais do que eu mereço. E me mantenho ativa: ginástica três vezes por semana; aula de pintura; aula de memorização e ainda quero fazer um curso de idioma Japonês. Como dizia  uma irmã mais velha que eu, já falecida, eu sempre fui a mais felizarda da família porque a minha vida começou quando viemos para São Paulo. E, de fato, eu tive vida de criança e vida de adolescente. E, por falar em vida, eu não poderia deixar de comentar sobre a festa surpresa que me ofereceram agora, neste último aniversário. Muita emoção. Pura emoção.

 

Editado por Paulo Rodrigues Ferreira


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