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História

Uma cabeleireira de grande coração

História de: Eunice de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/08/2014

Sinopse

Eunice é uma cabelereira paranaense, criada em Osasco e que desde nova começou a trabalhar. Em seu depoimento, ela recorda sua infância, as primeiras professoras e as músicas que marcaram a sua adolescência. Fala sobre a origem de sua família de ascendência italiana, de como os pais se conheceram no Paraná, tendo nascido ambos no interior de São Paulo e como vieram morar na cidade de Osasco. Lembra os empregos que teve, como babá, como tecelã na Santista e como encarregada na Sharp, de onde saiu quando a empresa fechou. Por fim, fala sobre as doações que faz ao projeto Criança Esperança e como isso a ajuda se sentir bem melhor.

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História completa

Meu nome é Eunice de Souza, nasci em 14 de outubro de 1956, em Ibiporã, Paraná. O meu pai ai nasceu em Franca, interior de São Paulo, e a minha mãe nasceu em Altinópolis, no interior de São Paulo também. A mãe da minha mãe nasceu também no interior de São Paulo, os pais dela nasceram na Itália, eles vieram da Itália com 16 anos de idade. O pai da minha mãe, desde que eu me entendo por gente eu lembro do meu avô ter uma banca de jornal. A minha avó era doméstica. Os meus avós por parte de pai eu não conheci, nenhum dos dois, o meu pai, a mãe dele morreu ele tinha 12 anos de idade e ele saiu de casa com 16 e nunca mais viu o pai, o pai dele faleceu e ele não viu. Eles foram morar no Paraná e a minha mãe foi com cinco anos de idade, o meu pai, quando ele saiu de casa, em Franca, ele foi pro Paraná também, ele foi e chegou lá, ele conheceu minha mãe lá. Conheceu o meu avô, o meu avô tinha armazém, ele começou a trabalhar no armazém do meu avô e ficou por lá mesmo. O meu pai começou a trabalhar nesse local e conheceu a minha mãe. Casou e quando eu tinha um ano vieram embora pra São Paulo. Os pais dela já tinham vindo há dois anos, eles tinham vindo morar aqui no Dezoito, em Osasco, a minha mãe veio junto, veio embora também. Meus pais vieram para o Jardim das Flores, em Osasco, eu fui criada ali em Osasco mesmo, eu nunca morei fora dali, aliás. A minha mãe não trabalhava na época, quando a gente chegou aqui, meu avô arrumou um serviço pro meu pai, meu avô tinha muita influência porque ele tinha banca de jornal e conhecia gerentes de empresas, essas coisas. Ele arrumou serviço pro meu pai numa empresa, e a minha mãe sempre foi do lar. Depois, mais pra frente, a minha mãe começou a trabalhar, trabalhou na Wilson, que era uma empresa de comestíveis, e ela começou a trabalhar nessa empresa e hoje ela é aposentada, o meu pai é falecido. Era uma casa simples, a gente não tinha nem TV, só tinha rádio, até mais ou menos uns 13 anos a gente só tinha rádio, não tinha TV. Era uma casa simples, mas uma casinha confortável, eu lembro bem da nossa casa. Morava o meu pai e minha mãe, eu e os meus irmãos que já eram nascidos, na época. Nós somos sete. Eu sou a mais velha. Na minha casa tem quatro mulheres e três homens. Era uma casa pequena, tinha dois quartos e dormia praticamente todo mundo junto os filhos, porque na verdade também era tudo pequeno ainda nessa época.  A gente gostava muito de brincar na rua com a criançada, pular corda, balança caixão, aquelas coisas, coisas de criança. O meu pai nunca deu um tapa em nenhum de nós, mas também nem precisava, minha mãe batia bastante, minha mãe puxava orelha, minha mãe era terrível, mas meu pai nunca bateu na gente. Eu lembro de festas assim, que a minha avó fazia, fazia aquele almoço de Natal na casa dela e todo mundo ia, não era aquela festa, era um almoço que a minha avó fazia sempre. Eles gostavam muito de macarronada, eles são puxados pros italianos. Então a minha avó fazia aquele macarrão, aquele frango e juntava todo mundo, todo mundo almoçava lá, eu lembro desses detalhes.

Eu entrei na escola com seis anos, seis pra sete, porque eu faço aniversário em outubro, eu entrei já no ano que eu ia fazer sete anos, eu entrei na escola. Eu não lembro de usar uniforme igual usam hoje, eu lembro que eu ia com a minha roupa de usar em casa, assim, claro que na hora de ir pra escola trocava pra ir, mas eu entrei na escola, eu ia com a roupa normal. Era perto, ia a pé, a gente morava no Dezoito e a escola era no Larizzatti, lá no Dezoito também, a primeira escola que eu entrei. Nesse primeiro ano que eu estudei eu lembro da Professora Keni, que era uma professora japonesa, eu lembro bem dela, eu também só lembro dela. E depois que eu mudei de escola eu lembro da Dona Benedita, ela gostava muito de mim, inclusive ela me deu um livrinho escrito: “A girafinha faladeira”, eu era grande e faladeira, pra você ter uma noção, eu sempre fui faladeira, e eu gostava muito dela. Eu gostava da Dona Benedita, eu gostava da Professora Nancy, teve várias professoras que eu gostava bastante, mas também teve uma que eu não gostava, a Dona Elza, eu não gostava dela, era de Geografia, até hoje eu não gosto de Geografia, eu traumatizei.

Eu morei uma época no Veloso, eu estudei o ginásio lá no Santo Antônio, no Jardim Santo Antônio, eu fiz o ginásio lá, e o terceiro, e o segundo grau uma parte no Ceneart e um pouco depois eu fiz particular. O meu primeiro namorado foi um rapaz que foi morar perto da minha casa quando eu tinha 15 anos de idade, ele veio do Espírito Santo com a família e a gente foi criado do ladinho ali, eu comecei a namorar com ele, eu namorei dois anos. A gente separou e depois eu arrumei outros namorados, namorei outro também dois anos e pouco, mas não casei, não cheguei a casar com ninguém, agora também não quero casar, nem tenho filhos, não tenho filhos nem quero casar. A gente ia muito em baile de casa de família, não era igual hoje, as baladas, porque vai pras boates, essas coisas, a gente ia muito em bailes de família. E era assim, o meu pai só deixava se fosse com alguém responsável que levava e trazia a gente, sozinha ele não deixava a gente ir. Então a gente ia bastante, mas a gente ia todo final de semana, e quando a gente não ia, a gente ia pro campo ver os meninos jogar futebol, assistir os meninos que jogavam, que eram os amigos da gente, era muito bom, a minha infância foi muito boa. Tocava muito Johnny Rivers, Burt Bacharach, Roberto Carlos, essas músicas mais antigas, James Taylor. As roupas, a gente usava boca de sino na época, eu lembro que eu usava, mandava a costureira fazer, que cobria o pé, tinha que cobrir o pé, eu usei muito boca de sino. Depois começou a  saint-tropez, aquelas calças baixinhas, mas eu não sou muito chegada, não, até hoje eu não gosto de calça baixa, usei na época, mas agora eu não gosto muito, não. E eu era magrinha, magérrima na época, muito magra. Eu comecei a trabalhar novinha, eu tinha assim uns 12 anos, eu já comecei a olhar alguma criança pra alguém. E e depois com 18 anos eu já comecei a trabalhar em empresa. Com 12 eu cuidava de uma criança que era filha de uma comadre da minha mãe. Eu cuidava dele e depois eu entrei na primeira empresa, que eu entrei foi na Cooperativa, eu entrei com 18 anos. Eu trabalhava uma semana num horário e uma semana no outro, uma semana de manhã e uma semana de tarde, uma semana das cinco à uma e meia, uma semana da uma e meia as dez, eu não tinha como estudar desse jeito, eu tive que parar. De lá eu entrei no Santista, também era dois horários. Ajudava bastante em casa. Eu trabalhei em casa de família também, antes de trabalhar em empresa, antes dos 18 anos, porque na época que eu era de menor não valia a pena trabalhar em empresa pra ganhar salário de menor, porque antigamente o salário de menor era era metade do salário de maior, então eu trabalhava de doméstica. Eu trabalhei de doméstica alguns anos, depois eu entrei no Santista, do Santista eu entrei na Sharp e hoje sou cabelereira. Uma comadre da minha mãe, que ela tinha três filhos na época e esse, ele não era muito pequeno, ele tinha uns três, quatro anos quando eu fui ajudar ela, eu só cuidava dele, acho que, eu não sei dizer se ele era uma criança bem normal, sabe, ele gostava muito de chupar uma chupeta molhando no açúcar grosso. Mas não fiquei muito tempo, não, eu fiquei mais ou menos um ano cuidando desse menino. Um ano mais ou menos, depois, com 15 anos, eu entrei numa casa pra trabalhar. Fazia todo serviço de casa mesmo, limpava a casa mesmo, só não cozinhava, porque também não podia, porque eu era muito nova ainda, nem sabia direito cozinhar. Eu ia todo dia e voltava pra casa, eu trabalhava em Osasco mesmo, no centro. Aí a última casa que eu trabalhei foi na casa da Rosa, foi lá no Alto da Lapa, eu trabalhei um ano e pouco com ela, eu saí pra trabalhar em fábrica, eu não quis mais trabalhar em casa de família. Quando eu fiz 18 anos eu saí, eu falei pra ela: “Eu vou sair porque eu vou trabalhar em empresa” e ela queria que eu continuasse, mas na empresa é melhor, paga INSS, tem essas coisas que na casa de família não tinha. Eu fui trabalhar em empresa e dali pra cá só empresa. Na Cooperativa eu era ajudante geral, eu fazia todo o serviço que tinha no setor, todo o serviço, eu sabia fazer tudo o que tinha no setor, eu sabia fazer, trabalhei em vários serviços lá. De lá eu saí, entrei no Santista, eu trabalhei na fiação, que era nas máquinas que fazia fios de algodão, depois eu entrei na Sharp, na Sharp eu trabalhei nove anos. Eu entrei como ajudante, passei pra calibradora, depois pra auxiliar técnica, depois pra encarregada, eu saí de lá eu era encarregada, e depois eu fui trabalhar de cabelereira. Da empresa eu saí porque acabou, eles mandaram todo mundo embora, foi na época que a Sharp acabou, então eu saí por isso. Ainda trabalhei um pouco com o meu irmão, que o meu irmão é comerciante, trabalhei um pouco com o meu irmão e depois, enquanto eu trabalhei com o meu irmão, eu resolvi fazer o curso de cabeleireira. Eu nunca pensei que eu fosse ser cabeleireira um dia, eu nunca pensei, eu gostava de mexer com cabelo quando a gente era criança, enrolava nossos cabelos, os cabelos das minhas irmãs, das minhas amigas, mas nunca pensei que eu fosse querer. Eu comecei a trabalhar com o meu irmão, mas com o meu irmão é meio difícil trabalhar com ele, porque ele é perfeccionista demais, então ele exigia muito, eu falei: “Então eu vou fazer um curso de alguma coisa, porque um dia, se eu sair daqui, eu já vou ter o que fazer”. Eu fiz o curso enquanto eu trabalhava com ele, eu falei com ele se eu podia fazer o curso, ele falou que tudo bem, eu fiz o curso e depois que eu saí e fui trabalhar de cabeleireira. Eu fui trabalhar num salão de fora, o primeiro salão que eu trabalhei, eu trabalhei quatro anos, é de uma amiga minha que trabalhou comigo na Sharp. Eu resolvi morar em Santa Catarina. Eu fui, abri um salão e não gostei, fiquei um ano e meio lá, voltei pra minha casa de novo, que nossa casa não vendeu, ficou, lá eu moro há 24 anos, nessa casa, eu voltei pra minha casa. O meu pai ficou, a minha mãe foi comigo pra Santa Catarina, o meu pai ficou aqui, voltei e continuei na minha casa de novo. E trabalhei em mais dois salões e meu irmão fez um salão pra mim na minha casa, esse meu irmão que é comerciante, ele fez o salão na minha casa e eu trabalho na minha casa vai fazer seis anos.

Eu doo para o projeto Criança Esperança desde quando começou, há 29 anos. Vi pela televisão, eu vi anunciando o Criança Esperança. Eu sempre gostei muito do Didi, eu sempre gostei dos Trapalhões, que é do tempo que eu era criança e tal. E vi anunciando o Criança Esperança. Eu vou te falar a verdade, não é porque eu estou falando de mim, mas eu sempre fui assim, eu sempre fui boa de coração, eu sempre quis ajudar alguém, eu dou o dízimo na igreja, eu levo mantimento todo o mês na igreja, eu gosto de fazer essas coisas. E eu vi, falei: “Ah, não custa nada”, era cinco reais, quando começou, a menor taxa de doar era cinco, eu falei: “Ah, não custa nada”, eu falei: “Cinco é pouco, mas se juntar de todo mundo, é bastante”, eu comecei a doar, todo ano eu doo. Depois eu comecei a ver o que eles faziam pelas crianças, que no outro ano eles mostram o que vai fazendo pelas crianças, eu comecei, todo ano eu doo, todo ano, todo ano, quando chega no Criança Esperança eu espero passar, porque é ruim você doar assim no começo, você não consegue quase falar no telefone, eu espero passar e doo, assim, passar a festa lá do Criança Esperança na TV, e depois eu doo. Eu vejo eles falando, eles mostram as crianças naquelas instituições que passam, as crianças aprendendo, uns aprendendo ginástica, outros aprendendo dança e falam que é da Criança Esperança. Na verdade eu nunca vi, pessoalmente eu nunca vi, até gostaria de ver, porque é bom, eu ter certeza. Eu doo também no programa do SBT, o Teleton. Então, o Teleton, eles ajudam aquelas crianças de câncer, aquelas coisas lá, tem até um em Osasco, tem um em Osasco lá que eles fizeram, cada ano eles fazem um. Então eu acho muito bonito aquilo e aquela ajuda lá, as crianças que tem, tem gente, tem criança que não tem a perna, não tem o braço, não fala, tem aquelas piscinas de fazer ginástica que eles ajudam. Eu doo.

Eu acho que transforma as crianças em adultos que conseguem fazer alguma coisa, porque geralmente é uma criança... olha, eu não tive condições de estudar. Se tivesse um projeto desses de Criança Esperança no meu tempo, eu poderia ser uma pessoa melhor hoje, quem sabe eu poderia ter participado de um projeto desse e ter conseguido fazer alguma coisa que eu não consegui fazer sem o projeto. Então eu acho legal incentivar as crianças, os adolescentes, eu acho legal, eu gostaria que alguém tivesse me incentivado numa coisa dessas no tempo que eu era criança. 

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