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História

Uma busca pela independência e a igualdade

História de: Bernadete Alves dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2020

Sinopse

No depoimento, Bernadete narra como foi a sua vida no Recife, e como se envolveu, desde cedo, com o trabalho voluntário, em busca de auxiliar as comunidades carentes em suas necessidades e seu desenvolvimento. Formada em Química e atuando como professora, lutou contra a desigualdade social por meio da criação de associações e projetos de capacitação, enquanto buscava sua própria independência e testava os limites do papel feminino na sociedade.

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História completa

P/1 – Bernadete, bom dia, tudo bem?
R – Bom dia.
P/1 - Você poderia começar falando o seu nome completo, local e data de nascimento? Faça o favor.
R – Meu nome é Bernadete Alves dos Santos. Nasci em Recife em 3 de junho de 1965.
P/1 – Bernadete, você poderia falar um pouco dos seus pais, da atividade deles? Como eles se conheceram?
R – Bem, eu sou filha de Antonio Alves dos Santos. Funcionário público do Ministério da Agricultura, falecido há um ano e meio. Nasceu aqui em Recife mesmo. Acho que tem pais de origens indígenas, Fulni-ô. E minha mãe de Vertentes. Margarida Severina dos Santos, nascida em Vertentes. E tendo migrado aos 12, 15 anos mais ou menos para Recife pela condição socioeconômica na época muito precária no interior. Seus pais faleceram e ela terminou de ser criada na casa onde ela também ajudava na criação dos filhos dessa outra família. E foi a partir dessa família onde meu avô, né, que a gente considera, também era motorista do Ministério da Agricultura. Ela conheceu meu pai. E, aos 17 anos dela e aos 24 mais ou menos dele, eles se casaram. Eu sou a terceira filha de seis irmãos. E morei toda a minha vida entre a Torre e o Cordeiro. Inclusive morei 30 anos nessa, já há 30 anos que eu moro nessa Rua Souza Bandeira. Saindo apenas de uma casa para a que eu moro hoje, que é na Vila Santa Luzia.
P/1 – Você falou dos seus avós paternos que eles são de origem indígena. Você chegou a conhecê-los? O que é que seu pai contava?
R – Eu conheci a minha avó, né, assim. Mas, aos 7 anos, ela faleceu também; mas também ela já morou... Ela já morava na... Veio para cá para Recife também já muito jovem. O meu avô só conheço de histórias que ele foi motorneiro de bonde. Era conhecido como Cabeça, a gente tem algumas menções em alguns livros que a gente resgatou. E meu pai justamente falava, porque eles são de Águas Belas esses meus avós paternos. Onde justamente vive essa tribo Fulni-ô. Mas eu nunca tive oportunidade assim de me aprofundar mais nessa história.
P/1 – E você passou a infância nesses bairros que você citou, né?
R – É.
P/1 – Você poderia me descrever como eram os bairros? Como que era essa, como foi o entorno da sua infância? O lugar onde você passou?
R – Até os 7 anos eu morava na Diogo Álvares, na Torre. Bem próximo de onde hoje moro. Próximo à Praça da Torre. Próximo à escola que eu estudei. Duas escolas que eu estudei que foi... Era na época Grupo Escolar Martins Junior. Hoje Escola Maciel Pinheiro. E logo atrás a Escola Martins Junior onde eu terminei o segundo grau. E após os 7 anos eu fui para essa casa da Souza Bandeira que é justamente em frente a casa onde meu pai morou a vida inteira. Que ainda existe hoje. E aí eu morei lá até os 22 anos. Quando eu tive, já tinha meu primeiro filho e fui justamente morar nessa outra casa. Ainda na Souza Bandeira, sendo nessa comunidade de Santa Luzia.
P/1 – Você pode descrever essa sua segunda casa ou a que mais lhe marcou? Como que era a casa?
R – É, essa casa era uma casa humilde, de taipa com tijolo. Tinha um pé de azeitona muito antigo que foi derrubado depois que nós... depois minha mãe saiu. Agora um ano e meio depois do falecimento do meu pai. E realmente tem muitas lembranças. Porque era uma casa de esquina e normalmente aglomerava muitos jovens. E como eu era a única menina, a minha irmã que é a outra menina da família só nasceu 10 anos depois, então, assim, eu ficava muito atenta. Ouvia muito tudo o que acontecia na esquina. Eu sempre fui muito observadora. E meu pai tinha, assim, uma febre de mecânica. Ele chegou a montar um carro peça por peça, um caminhão.
P/2 – Nossa.
R – E sempre comprava muito, ele chamava bingo, nas repartições públicas esse tipo de material que vai deixando de servir. Eles fazem esses leilões. E ele sempre dava, conseguia fazer algum lance; e uma vez eu lembro que ele comprou um carro da época da Segunda Guerra Mundial. Muito interessante. Era um carro muito feio. (riso)
P/1 – (riso)
R – Um caminhão assim, tinha uma cabine fechada. Porque ele servia de enfermaria, alguma coisa assim. E esse caminhão passou uns 5 anos lá na esquina e era um marco também, justamente para a rapaziada, garotada se encontrar. O pessoal noturno que gostava de ficar até madrugada nas noites tomando a velha cachaça. Então a gente sempre tinha essa circulação. Tinha uma educação muito rígida de não poder brincar na rua com as outras crianças. Na época as ruas não eram asfaltadas. A Souza Bandeira hoje é uma das ruas principais dessa área, então hoje mudou completamente com o asfalto, com a passagem de ônibus, o trânsito bastante intenso. Mas naquela época a gente brincava, né? A gente não, o pessoal brincava de pega-bandeira, de queimado. Os meninos jogavam pelada. Tinha vários campinhos no entorno onde os meninos também jogavam. Iam tomar suas cachaças. Então foi uma infância muito de observação. Desde os 7 anos eu sempre gostei muito de ler. Então eu devorava tudo o que tinha na minha frente. E isso também me propiciou um entendimento muito reflexivo das coisas. Meu pai também era um leitor muito voraz. Ele chegou a fazer escola técnica, onde hoje é Tepan. Não tinha superior, porque achava que não precisava. Não continuou os estudos. Mas era um homem extremamente inteligente. Inclusive na repartição ele era conhecido como Sabe Tudo. Porque ele sabia bastante inglês. Algumas correspondências na época dele que chegavam em inglês, ele é quem lia. Ele tinha esse conhecimento. E assim conhecimentos gerais, de história, de tudo. E a partir dessa casa também foi onde eu tive meus primeiros contatos políticos, que era com o seu Zé Maria (José Maria de Almeida). Que é uma pessoa antiga do PCB, que ainda hoje mora lá no Cordeiro. Próximo a essa casa. Ele ainda participa do movimento popular. E na época justamente ele estava sendo perseguido e afastado do INSS, de onde ele era funcionário. E trabalhava como técnico de televisão para poder sobreviver. E como aquela nossa velha ABC, nossa primeira televisão preto e branco, sempre quebrava, então quando ele ia consertar eu ficava, assim, muito ansiosa. Porque eu ficava lá sentada escutando justamente as conversas dele com meu pai. Falando justamente de governo repressivo, das histórias políticas, da União Soviética. E eu ficava assim muito encantada. E isso ajudou muito a minha formação política de hoje. E no mais era isso. Era muita leitura. Eu gostava muito de cuidar de plantas. Cultivei um jardim na frente dessa casa, que hoje também não existe mais. Tínhamos dois pés de goiaba. E uma das coisas que marcou muito também era as enchentes. A gente viveu muitas enchentes. Desde a época da Diogo Álvares, eu ainda pequena. Eu lembro que houve uma enchente que a gente passou dentro de uma caminhonete na Praça da Torre que era o local mais alto. A cheia de 1967 se não me engano. E chegamos a passar outra enchente no próprio colégio que eu estudava, que servia de abrigo. E nessa casa de 1975 foi uma das coisas que mais marcou. Que foi uma enchente muito grande, e a casa do dono da casa era no primeiro andar, que ficava na esquina. E por conta de a gente ter demorado muito a sair, porque meu pai acreditava que as águas não iam subir muito, nós acabamos ficando lá. E as águas não acabavam de subir. E muita gente que tinha ficado, teimado em ficar nos telhados da casa acabaram tendo que pedir socorro nesse primeiro andar. Então, assim, ficaram umas 50 pessoas nesse duplex. Pessoas que iam se afogando, ou que não tinham mesmo inclusive, porque era cruzamento e a correnteza era muito forte. Foi uma das imagens que marcaram. E após a enchente, depois das águas baixarem, não sei se vocês aqui lembram, houve aquele boato da Barragem Tapacuruá ter estourado. Nesse momento a gente estava justamente levando as nossas coisas para lavar, na casa dessa minha avó que eu falei que criou a minha mãe, lá em Rio Doce. Então tínhamos colocado tudo, porque não tinha água no caminhão do Ministério, e estávamos fazendo retorno ali no Getúlio Vargas para ir justamente para Olinda. Foi quando começou aquele tumulto. Todo mundo deixando os carros no meio das pistas. E gritando, chorando e correndo. “A Barragem Tapacuruá estourou, e todo mundo vai morrer. E para onde o senhor vai?” Aí todo mundo subia. E meu pai: “É boato, é boato.” E o povo: “Não, mas a gente quer ir embora para Olinda porque aqui vai tudo encher.” Então foi uma coisa que realmente marcou também. E depois das cheias vinha bastante trabalho. Para você limpar as coisas, tirar toda aquela lama. E ficava aquele cheiro impregnado nos espaços. E como eu falei naquela entrevista. Já aí então também já trabalhava para ganhar algum dinheirinho. Porque naquela época funcionário público era muito mal remunerado. Os salários atrasavam bastante. Então minha infância foi bastante, digamos assim, bem precária em termos materiais. Mas eu era uma pessoa muito querida. Uma criança, assim, que sempre minhas tias me levavam para passar férias. Então eu cheguei a viajar bastante. Para interior, para Maceió, Serra Talhada. Conhecia bastante lugares. E também tinha esse dono da casa que tinha uma rural e meu pai dirigia no final de semana quando ele queria passear e a gente ia junto. E foi aí que a gente teve a oportunidade de conhecer lugares, atrações como a Paixão de Cristo na época. Que era uma coisa pouco acessível, mas a gente teve a oportunidade de conhecer. Então foi mais ou menos isso.
P/2 – E a adolescência, você continuou morando nessa casa também?
R – Continuei. Eu só saí dessa casa aos 22 anos. Dos 7 aos 22. E antes da adolescência eu comecei também a me envolver com a igreja. Através dos textos, irmã Cecília, que é uma freira do Colégio Maria Imaculada, acho que é da Ordem Sagrada Coração de Jesus. Uma freira baixinha, bem simples, do interior também que tinha esse trabalho na então Vila do Apuço. Que hoje faz parte da Vila Santa Luzia, que era uma invasão, e ela fazia catequese lá. Então eu após ter feito a minha primeira comunhão comecei a trabalhar como catequista. E aos domingos eu ia com ela já fazer esse trabalho de assistência social que ela fazia. Então a gente inventava brincadeiras com a meninada lá nos espaços que tinha. Ela fazia visitas aos doentes, então já comecei também a acompanhar esse trabalho. Dos 9 aos 10 anos de idade. Na adolescência justamente eu entrava em conflitos, né Sempre tive, assim, muito essa coisa. Principalmente por eu ser a única mulher e meu pai ser muito machista. então entrava muito em confronto com ele. Apesar da gente ter uma relação muito forte, dessa coisa que a gente se identificava intelectualmente com tudo, mas eu também tinha essa coisa da resistência. Então para vocês terem idéia eu fui a única filha que apanhei. E apanhei três vezes dele. Eu enfrentava e dizia que os meninos também tinham que participar das tarefas de casa. E isso era uma coisa que com a adolescência só foi se acirrando. A coisa de eu querer um pouco de liberdade, de brincar na rua. De ficar um pouco na rua. E ter muito cabresto como diz a história. Então a partir dessa idade eu já comecei a enfrentar. “Por quê? Eu não estou fazendo nada errado. Eu só quero um pouco de liberdade.” Então eu enfrentava bastante isso. E questionava com a minha mãe. “Por que é que ela trabalhava tanto, por que a comida tinha que ser colocada no prato dele? Por que é que a roupa ela tinha que colocar no banheiro para ele tomar banho?” E ela dizia que tinha que ser assim. Que era assim. Sempre tinha sido assim. Então a adolescência foi muito marcada por isso.
P/2 – E atividade, também assim? ________ continuou?
R – Aí eu continuei justamente com esse trabalho na Vila do Apuço. Depois eu fui, mais ou menos aos 15 anos, eu trabalhei como babá de uma filha de uma família amiga minha. Aqui na várzea. E me entrosei com um grupo que estava fazendo trabalho no Ambolê, que é uma favela que tem, ainda hoje, na várzea. Então tinha algumas freiras que também tinham algumas idéias mais avançadas e a gente questionava um pouco a ordem da hierarquia da igreja. Aí eu comecei também a refletir um pouco essa relação. Eu frequentava a igreja da Torre. Que ainda hoje tem o padre Romeu, que é uma figura muito marcante na história da comunidade. Ali do bairro. E a gente eu já ouvia alguns zum-zum-zuns. Meu irmão que tinha participado do grupo de jovens dizia que ele era racista. Que ele tinha preconceito contra pobre, não sei o quê. Só que eu não via muito isso. Via mais a coisa do louvor. Da música, que é uma coisa que eu gosto muito. Que eu acho que é uma coisa que me envolveu muito dentro da igreja. Mas aí eu comecei a prestar um pouco mais atenção a isso. Porque mais ou menos aos 18 anos tem outra comunidade lá próxima que é o Cardoso, que sofria com isso, né, mesmo depois que as enchentes cessaram com as barragens que foram feitas e tudo mais. O pessoal alagava lá só com problema de chuva porque era um baixio. E eu comecei a dar assessoria a esse pessoal. E uma vez eu fui recorrer a ele e ele disse que não tinha nada a ver com aquilo. Daí então aquilo começou a me chamar atenção, né? Que tipo de igreja a gente era que dizia que tinha que imitar Cristo e na verdade na prática isso não acontecia? Mas como realmente as instituições não são unanimidade, as pessoas podem ser diferentes, mesmo dentro de instituições, e eu encontrei um grande amigo. Um grande parceiro, que foi irmão Carlos. Era um padre holandês de uma outra paróquia lá próxima a Madalena. E ele sim tinha esse trabalho. Já o tinha conhecido na época desse trabalho que eu falei que eu comecei como professora do pré-escolar, que era um trabalho, foi irmã Cecília justamente que me indicou. Que era na Vila do Apuço, na extensão comunitária da Unicap. Era uma escolinha comunitária com meninos do pré-escolar e eu comecei a fazer esse trabalho lá. Foi lá que eu comecei, conheci irmão Carlos que também dava apoio a esse trabalho. E depois me deu apoio também com esse pessoal do Cardoso. A gente comprava madeiras para ajeitar os barracos das pessoas, remédios. Brinquedos para as crianças. Nessa época da escolinha houve uma seleção do Mobral para também pré-escolar, só que eu não tinha magistério. Porque, assim, contradizendo toda essa minha rota, mas eu insisti em não fazer magistério. Dizia que eu não queria fazer magistério. Porque eu achava muito repetitivo. E que ia fazer Química no Cipan. E queria fazer Jornalismo na faculdade. E fiz o concurso, participei da seleção e como eu fiquei realmente muito bem colocada eles deram um jeito de me colocar no projeto. Era um projeto justamente de pré-escolar que o Mobral começou a instalar no Recife. E eu fiquei em um núcleo lá na visão mundial de Salgadinho. Lá em Campo Grande. Então foi também outra relação boa. Eu depois trabalhei em Peixinhos. O projeto do Mobral acabou, mas aí o pessoal me aproveitou em Peixinhos. Uma favela que chama Favela do Canal que hoje está em Chão de Estrelas. E também tive um contato muito, cada comunidade, cada favela que você vai vendo a miséria, ela tem faces também diferentes. De lugar para lugar geograficamente ela tem suas nuances. E aí eu ia prestando atenção. Na época a gente reunia com os meninos lá no... Não é mercado. É, é uma coisa que eu acho que agora até foi tombada. Que já me chamava a atenção na época, que era o Matadouro de Peixinhos. Que é uma estrutura assim maravilhosa de ferro antigo e era jogada ao léu. Mas na época já se reuniam, que hoje tem grupos culturais que nasceram daquilo ali. Aí foi quando eu fiz vestibular, né? Eu fui para o Cipan, fiz Química um ano. Quando terminou essa história de ter que fazer profissionalizante no terceiro ano, voltou o Científico normal. Eu voltei para o Martins Junior, para terminar o terceiro ano normal. E a gente tinha uma equipe muito boa, um grupo muito bom. Estudava a noite, mas era um grupo bastante interessado. E a gente se reunia, tinha uma equipe de professores também bastante compromissados. Ia estudar com a gente nos sábados, nos domingos. E assim, passou uma parcela muito boa de pessoas. Sempre estudaram em escola pública, conseguiram entrar na universidade, né? E eu fui uma dessas pessoas. Passei em Jornalismo na Católica. Mas como já tinha uma relação de um namoro muito complicada, que também era uma pessoa, assim, bastante machista, então a gente tinha uma relação muito conflituosa, mas acabei engravidando nesse ano. E isso complicou bastante essa minha trajetória da escola, né? Talvez por conta mais da minha cabeça. Porque não faltaram apoio. As pessoas, apesar de não esperarem aquilo, me apoiaram. Mas aí eu fiquei com a fixação mais do que nunca de ter que morar, de ter que tocar minha vida independente, de ter o meu espaço. E aí comecei buscar muito mais isso do que realmente dar continuidade. Procurei logo trabalhar, aí entrei no comércio. Aí tive que parar a faculdade. Depois entrei no banco, trabalhei no Banco Econômico. Mas já estava fechando. Foi na época que o Banco Econômico já estava em estado de falência. E fiz até o quarto período de Jornalismo. Mas aí no segundo, o André quando estava com 18, com 2 anos foi quando eu consegui essa casa. Com a ajuda do irmão Carlos, foi quando a Favela da Vila do Apuço e da Vila da Prata participaram desse projeto Recife. E eu consegui essa casa nessa Rua Souza Bandeira. Uma pessoa repassou e eu fui morar lá. Eu e o meu filho. E fui me envolvendo cada vez mais. Esse centro do qual hoje eu estou presidente foi justamente um dos equipamentos que foi relocado da Prata para lá. Que fazia parte a escola, o clube de mães, a rádio comunitária que estava começando. A creche, o grupo de jovens. O apoio que eles davam ao Conselho de Moradores na época, e que quando foi para lá a Associação de Moradores.
P/2 – Como chama a entidade?
R – Hoje chama-se Centro de Ensino Popular e Assistência Social do Recife Santa Paula Fracinete. Mas antes era Centro Comunitário Santa Paula Fracinete.
P/1 – Você pode falar um pouco da origem desse...
R – Do Centro, né?
P/1 – Do Centro, como surgiu, a trajetória?
R – Pronto, então assim. Eu já tinha tido alguns contatos quando eu fazia esse trabalho com a irmã Cecília. Que era, assim, Vila do Apuço de um lado do rio e a Vila da Prata do outro, mais próxima à Praça da Torre. Mas o meu trabalho era mais ligado à irmã Cecília. Era a gente, mas sempre tinha uma atividade que a irmã Paula convidava, né? Irmã Paula era outra freira que justamente foi a fundadora desse Centro Comunitário. Era uma freira suíça que veio para cá para o Brasil fazer um trabalho de ação social. E quando visitou a Favela da Vila da Prata ficou muito impressionada. E juntamente procurou o pároco. Porque tinha que ter essa anuência, enquanto ordem religiosa. E começou com a comunidade através das mulheres primeiro. Quais eram as necessidades mais prementes, e identificaram a princípio a questão da desnutrição das crianças, então deram como prioridade formar uma creche para que pudesse fazer essa complementação nutricional e apoio às mulheres que trabalhavam. Elas fizeram um galpão e começaram as próprias mulheres a se revezarem a formar. Na época existia a Extensão Comunitária da Universidade Federal de Pernambuco. Onde tinha médicos, tinha gente da comunicação, assistência social, enfermeiras. E essas pessoas justamente começaram a criar um posto de saúde. Um pequeno posto de saúde. Então ficou a creche, o posto de saúde... Não tinha água, então eles fizeram um chafariz. Organizaram um chafariz. E ela foi organizando toda essa coisa. Organizou um grupo de jovens que começou a ser capacitado no Cecosne. Um projeto na época ainda com madre Escobar, madre Carvalhinho, que era o experimento jovem. Onde os jovens eram capacitados na área de Comunicação, na área de Artes. A questão da Universidade Popular que é uma coisa que o Cepas hoje abraça. Que é justamente o conhecimento popular para fazer com que a comunidade cresça em auto estima, em conhecimentos e tudo. E esses jovens atendiam lá no Cecosne e davam retorno para a comunidade. Então foi um trabalho muito importante. E tinha o Clube de Mães, justamente, né? Aí organizaram o Conselho de Moradores. Perceberam que a comunidade precisava se organizar. Organizaram o Conselho de Moradores e começaram então as reivindicações pelas moradias. Até porque os governos da época estavam pressionando para tirar essas comunidades dali, já que era uma área nobre. Colocar em áreas bem mais distantes. E dali fazer conjuntos de classe média. Só que assim, a organização da comunidade conseguiu fazer com que eles permanecessem nessa área. Foi uma luta assim, Lenildo é uma das pessoas fundadoras da Vila da Prata. E que assim, foi bastante incisivo nessa luta. Ele, José Basílio que ainda está na comunidade, outras pessoas que já faleceram, que não estão mais. Como, na época, na Vila do Apuço tinha Bio da Bota, tinha, deixa eu lembrar... Tinha seu João que já faleceu. Tinha Paraíba. Tinha seu Evilácio também. É porque muitos já faleceram. Na Vila da Prata tinha Basílio, seu Raul, seu Fernando Lenildo. Tinha dona Teresinha, da Vila do Apuço também. Lina, da Vila da Prata. Então várias pessoas que na época se reuniram e lutaram pela conquista dessas moradias. A partir dessas negociações com a Prefeitura, ficou decidido que ficaria Vila do Apuço, Vila da Prata, Formigueiro – que era uma outra comunidade ali na Vila Santana, próximo ao Bom Preço de Casa Forte. E Beira Rio das Graças. Ali também próximo ao antigo Bar Som das Águas. E conseguiram conquistar a criação dessa Vila Santa Luzia. Então foi um projeto chamado Projeto Recife. Eram casas embriões que são aquelas casas de meia-água. Somente com a meia divisão. E algumas maiores que tinham foram negociadas por terrenos maiores. Mas em base era isso aí. Para isso foi preciso fazer uma dragagem no Rio Capibaribe, né? Que margeia essa comunidade, um grande aterro. E foi, assim, uma revolução para esse setor, para essa área. Foi um grande marco.
P/2 – E você morava em uma casa dessas?
R – Não, eu morava nessa casa da Rua Sousa Bandeira, 162. Que é no início da Souza Bandeira.
P/2 – Mas próximo à...
R – É próximo.
P/1 – É próximo.
R – Apesar de ser Cordeiro e lá já ser Torre. Porque essa rua pega da Avenida Caxangá e vai até a ponte que vai para Casa Forte. É uma rua bastante comprida.
P/1 – Isso que ano que era mais ou menos?
R – 1983. 1983, 1984 começou justamente essas construções. E paralelo a isso eu estava justamente fazendo aquele trabalho que eu já mencionei lá no Cardoso.
P/1 – Cardoso. Qual que era?
R – Que é outra comunidade que hoje é área ______. E que algumas pessoas dessas áreas críticas que eu já mencionei conseguiram também casas na Vila Santa Luzia. Porque esse projeto começou com um número x. E foi se estendendo, foi ampliando e abrigando comunidades do Coque, vi algumas áreas de morro. Eu sei que uma das últimas vezes que a gente contou tinha umas 22 comunidades que foram sendo relocadas.
P/1 – Hum, hum.
R – Porque é uma área muito extensa, né? Tanto que hoje ainda a gente está recebendo comunidades. A exemplo do conjunto residencial da Torre que abriga duas comunidades ribeirinhas. Que era a Demócrito de Souza Filho ali, que a gente chama Marlene Gouveia e a José de Holanda. Mas isso é agora já mais recente. Então nessa época da Vila da Prata que a irmã Paula junto com o pessoal conseguiu formar o Conselho de Moradores e o Centro Comunitário Paula Francinete. Que era a mentora religiosa dela. Era justamente o cerne onde seria o trabalho de assessoria dessas pessoas. E justamente através das influências dela, do próprio padre Romeu – que era uma pessoa bastante influente –, foram conseguindo algumas coisas para a comunidade. Por exemplo, as cinco mulheres da creche conseguiram ser absorvidas pela Prefeitura. E ficaram sendo funcionárias da Prefeitura. E irmã Paula complementava com voluntariados. Que ela dava uma pequena bolsa, digamos hoje no valor de 50 reais mais ou menos. Fora todo trabalho de assistência que ela fazia. De alimentação, de roupa, de recreação. Junto com o trabalho religioso, claro, né? Os textos, os casamentos comunitários. E a participação dos jovens era bastante intensa. Uma coisa que a gente observa. Quando as pessoas têm muito a conquistar elas são mais solidárias, elas se agrupam mais. Então havia uma vida mais intensa nessa questão das associações, das reuniões.
P/1 – Havia alguma articulação com Cebs? A Teologia da Libertação pautava a discussão ou era algo paralelo?
R – Não, não porque padre Romeu é bastante conservador, né? Não há assim, Escobar já tinha uma linha, tinha um trabalho junto com Dom Hélder. Dom Hélder chegou a ir lá no centro, ainda. Mas assim, justamente, um dos meus conflitos quando eu comecei, quando eu me mudei, que comecei realmente a me integrar nesse trabalho do centro... Um dos conflitos era esse. Que eu fiquei com a pecha de ser comunista. E isso não era bom para a comunidade, que isso não era uma coisa positiva. Que era preciso me afastar. Então houve uma resistência muito grande. E os jovens, assim, como eram jovens, eles percebiam algumas coisas, questionavam algumas coisas, mas não tinham essa força, essa maturidade porque tinha toda essa relação assistencial da qual eles dependiam e suas famílias, né? Porque esses jovens eles recebiam uma bolsa inclusive, e tudo mais. Então daí quando foi relocado a comunidade para a Vila Santa Luzia, então não era mais Vila da Prata, Vila do Apuço, era uma coisa só. Esses equipamentos que a Vila da Prata possuía, né? Já existia um galpão onde funcionava a creche, como eu já falei, o clube de mães, a creche. A rádio começou volante a princípio no projeto de rádio comunitária. O posto e a escolinha. Que começou como escola de alfabetização de adultos. Do qual o Lenildo também foi um dos educadores. E depois, posteriormente passou à escola de pré-escolar. Aí foi negociado com a prefeitura esse espaço físico. Que é justamente o nosso prédio. Que pega toda uma quadra e que é localizada na Souza Bandeira. Uma das faces dele.
P/2 – E como foi desfechada a questão sobre você ser, uma resistência à sua pessoa?
R – Quando chegou lá, né, o que existia era a creche, o salão – que hoje eu trouxe até umas fotos que mostram um pouco desse processo de modificação. E o clube de mães passou a ser núcleo de formação da mulher. Mais voltado para a questão de renda das mulheres. Então de imediato foi feito um box que era hortifrutigranjeiro, um outro que era lanchonete, e um outro que era armarinho.
P/2 – Mas box para venda de produtos?
R – Para a venda de produtos. Que esta só foi quando começou com a universidade também, algumas assistentes sociais da universidade, a enfermeira Violeta – que foi uma pessoa também bastante colaboradora lá – começou a se organizar o regimento interno do Núcleo de Formação da Mulher. Quais eram as finalidades, quem podia participar. De que forma. E foi justamente eu que comecei a reunir. Seu Zé Maria, no caso, é que a gente sempre tinha contatos. Chegou outro companheiro dele que, com a anistia, que era seu Pedro Bezerra, estava voltando e queria articular o movimento popular na região do Eixo Caxangá. Foi quando a gente começou a articular a formação do Conselho Popular do Eixo Caxangá. E a gente fazia reuniões e já questionávamos justamente a formação da Associação de Moradores da Vila Santa Luzia. A primeira gestão ficou com o José Basílio, que era uma pessoa que caminhava muito junto com o pessoal, né? Com a irmã Paula, com a igreja. Então tinha José Basílio, tinha Lenildo que era secretário. Tinha seu Raul, tinha outras pessoas. Mas a gente achava que essas pessoas eram muito atreladas à igreja. Que estavam ainda muito... Precisava dar uma ênfase maior à questão da comunidade. Então uma das coisas que eu questionava era o acesso, por exemplo, à questão dos projetos. Como fazer os projetos? Por quê? Por que a gente não sabia quanto é que vinha essa verba? Por que a gente não podia participar da decisão da distribuição dessa verba? E comecei a conversar com as mulheres. A gente tinha reuniões semanais nessa questão da formação dos regimentos. E...
P/2 – Dos regimentos?
R – Dos regimentos internos, né?
P/1 – Internos.
R – E aí essas assistentes sociais também. Eram pessoas com a cabeça mais voltada para a comunidade e orientavam: “Olhe, vocês, isso aqui é de vocês. Por mais que tenha havido essa questão de trazer a verba. Mas isso se a pessoa se propôs estar trazendo para vocês. Está pedindo em nome de vocês. E vocês têm todo o direito de estar participando.” E assim, foi muito difícil. Foi muito complicado. Só que eles não podiam dizer que eu não participava. Então eu persistia, insistia. Para complicar mais toda essa situação eu me envolvi com um dos meninos, um dos jovens do grupo de jovens, né? Engravidei, e era um menino dos olhos, era como dizia assim. Que era um menino da rádio. Onde eles investiram bastante nele, Edivaldo. E, assim, foi a gota d’água para eles. E a gente, eu sofria bastante assim. Houve uma época que na rádio, nós tínhamos um programa da rádio na quarta-feira; era das mulheres. E houve uma época que houve uma denúncia no final da LBA. De muitas entidades que recebiam verbas e não prestavam contas. E nessa relação estava o nome da Paróquia da Torre. Eu li a matéria toda inclusive o nome da Paróquia da Torre. Então no outro dia tinha um monte de advogados na minha porta me ameaçando, me dizendo que eu não podia ter feito aquilo. Que eu chamei, porque quem jogou inclusive dessa forma foi o que era atualmente presidente da associação. Que era Orias Lima, que hoje falecido, foi assassinado. Então como ele não batia politicamente comigo então ele aproveitou isso para justamente jogar a igreja contra mim, que sabia como eles agiam. Então passei por muitas fases difíceis. De Escobar, apesar de ser uma pessoa aberta e tudo o mais, mas tinha essa coisa da centralização. Então a gente batia muito de frente. E eles tentavam me ignorar, na verdade. Mas eu persistia. E nas reuniões eu consegui formar algumas pessoas que hoje ainda estão com a gente, como por exemplo Socorro, que era uma mulher que foi morar e que sempre trabalhou como doméstica, mas é uma pessoa, assim, com uma cabeça, uma mente esplêndida. Só não teve oportunidade na vida de estudar muito. Mas ela começou a querer saber como é que as coisas de comunidade funcionavam. Como era isso. E a gente conseguiu formar um grupo, assim, de um pouco de reação.
P/2 – E vocês conseguiram ter mais...
R – Autonomia.
P/2 – Sim, autonomia e influir na condução do Centro?
R – Na condução do Centro. Um exemplo disso, por exemplo: nós tínhamos a creche que atendia crianças de um ano em diante. E começou dentro do Núcleo de Formação da Mulher, nós temos uma pessoa que está com a gente ainda hoje, que é Maria José, que é uma pessoa também que veio do interior, de Gravatá. Que trabalha com ervas. E que sempre também muito voltada a ajudar as pessoas e tomava conta de algumas crianças. Inclusive algumas deficientes, na casa dela mesmo. E a gente começou a pensar: “Por que a gente não investe em casa de mulheres guardadeiras? Dar apoio à essas mulheres?” A gente foi pensar. “E aí? A gente vai investir nessas casas? Aí investe nessas casas depois a pessoa se muda ou não vai querer mais fazer aquela atividade. Vai ser um dinheiro perdido.” “Então por que a gente não faz uma estrutura em cima do que a gente já tem aqui?” Aí foi feito isso. Foi feito o projeto do berçário. E junto com Violeta ajudando, irmã Paula, tudo mais. Só que para construir veio verba, os berços, os equipamentos, tudo mais. Mas a grande questão eram os funcionários. Que eram o maior peso. E isso já estava em um processo de que só poderia entrar por concurso no poder público. Então complicou bastante essa fase. E embaixo, né, se você construiu em cima, embaixo que era uma área livre aberta já dava uma estrutura para poder construir alguma coisa. Então na época o Escobar queria fazer alguma coisa voltada para coisas artísticas, a coisa dos bonecos que ele já trabalhava lá no Cecosne, centro cultural, alguma coisa assim. Mas comandada por eles. E a gente viu a necessidade das mulheres, que além daqueles boxes que eu te falei, tinham barracas. E outras mulheres todos os dias, eram barracas de madeira pesadas, colocavam para a calçada e colocavam para dentro para negociar. Uma mini feirinha. Com vários tipos de mercadoria.
P/2 – Na própria porta da casa?
R – Na própria porta do Centro. Na calçada do Centro. E a gente sentia o sacrifício dessas mulheres levando chuva, levando sol.
P/1 – Hum, hum.
R – Carregando esse peso todo dia. Aí a gente disse: “Então por que não aproveitar já essa estrutura e fazer boxes para essas mulheres?” e a gente conseguiu, né, mesmo elas não querendo a gente conseguiu conquistar isso. Até porque Violeta, uma das pessoas fortes na época, ela era muito querida por esse grupo de mulheres. E a gente fez na época, um, dois, uns cinco boxes. Para trabalhar com essas mulheres. Só eu e o engenheiro que veio, foi um engenheiro ligado à paróquia, ainda fez portas assim, para você ter uma idéia do tamanho dessa janela. E meias portas com balcões assim. Por mais que a gente quisesse: “Ó, assim não vai dar certo. Você vê uma senhora que tem ali, uns 80 quilos. Como é que ela vai estar se abaixando para passar por aí?” Mas como, segundo eles, era sobra de outra construção – e aí a gente não tinha como saber se era realmente, porque realmente estava sendo doado ou era porque estava se gastando menos. Aí ficou desse jeito. O que foi que aconteceu, né, para a gente conseguir autonomia total em que a gente está hoje. O centro tinha diretorias que eram formadas sempre com diretores presidentes do Cape, que é o Centro de Apoio Paroquial da Torre. Teve, a primeira foi dona Vera, seu marido, doutor Jaime, esqueci o sobrenome dele. Que é um oftalmologista muito conhecido. Esses, assim, pessoas bastante altruístas assim, realmente. Eles tinham uma relação muito boa com a gente. Mas já um segundo casal, que era Iolanda e outra pessoa, já tinha uma linha mais dura, mais centralista. Uma linha mais de alijar a gente realmente do processo. E a gente se angustiava muito com isso. A gente queria realmente poder seguir o destino. A ponto de a gente conseguir fazer uma diretoria do Núcleo de Formação da Mulher. Muito contestada, porque diziam que não podia ter uma diretoria dentro de outra diretoria, mas aí a gente conseguiu. Eu fiquei como presidente.
P/2 - _____________________
R – É, porque a gente já começava a visualizar, né? Se acontecer, todo mundo é mortal, de dar uma reviravolta, né? A associação de Moradores também, como não tinha sede. Na época da boa relação com a irmã Paula, tudo mais, que era com José Basílio se funcionava as reuniões lá. Porque inclusive é um dos serviços do centro ter assessoria. Mas aí na segunda gestão que foi de José Venceslau, que era uma pessoa chamada José dos Cocos, que eu queria justamente formar, eu comecei a articular uma chapa com o grupo de jovens e algumas pessoas que a gente sentia que tinha uma vontade. Como Maria José, como o pessoal que veio do Bananal. Só que o Cecosne, justamente, com medo de que eu assumisse a associação de moradores fez uma outra estratégia e fez uma outra chapa com essa pessoa e desmanchou esse processo em que a gente estava em pleno vapor. A gente ia botar pessoas jovens, Fernando que era do grupo de jovens. Grupo de Jovens Alerta Povo. Se reunia todos os sábados. E desmanchou essa chapa e botou esse José Venceslau achando que ele era uma pessoa mais fácil de ser manipulada, na verdade. Mas na verdade não era. Porque ele era, assim, esse estilo porra loca. Ele queria contestar. Mas se fez de que estava, queria o apoio, claro. Queria ser eleito. E assim que foi eleito começou a querer tumultuar. Na época existia uma unidade produtiva do picolé. Quando se colocava crianças ainda para trabalhar, né? Com o apoio da Fundac, e era administrada pela associação de Moradores. Só que a casa era da paróquia, tinha toda uma articulação assim. E ele acabou fechando essa unidade, com a falta de articulação e de visão mais ampla mesmo, né?
P/2 – E hoje, qual é...
(pausa)
R – Bom, então, era dessa forma que acontecia, né? Então tudo que precisava, irmã Paula mantinha. Ela sempre mencionou algumas ex-alunas quando ela era professora lá na Suíça. E que mandavam a verba e que ajudavam na manutenção. Então tínhamos a creche, uma parte de funcionários da prefeitura, uma parte de alimentação, e outra parte que ela fazia. Tínhamos o Núcleo de Promoção da Mulher, do qual se cobrava uma taxa desses boxes depois de construídos. Tínhamos a Rádio Popular de Santa Luzia. Tínhamos a Escola Alternativa Paula Fracinete. As crianças que saíam da creche em faixa do pré-escolar. E tínhamos o salão com o grupo de jovens que se reunia. Com as reuniões e tudo mais. E a associação um pouco se afastou. Depois que eu justamente mencionei que houve esse racha dessa nova diretoria. Só que ele não levou a gestão até o fim. Entrou uma terceira diretoria, depois entrou uma quarta. Que foi com o Urias Lima que eu falei que foi uma pessoa que foi assassinada anos depois. E que era assim, estava querendo entrar no movimento naquela perspectiva oportunista, né? A coisa política pessoal. Aquela coisa que, na época do governo Jarbas da Prefeitura, com a Prefeitura nos bairros fomentou um pouco essa coisa. Houve uma abertura, foi um momento bom para o movimento popular, mas houve também muito dessa coisa oportunista. Das pessoas quererem se promover através do movimento popular. E o Centro Comunitário enquanto detentora desse espaço ele tinha um certo... começou a ter um certo conflito com a associação a partir desse momento por conta disso. De quem é que iria deter o monopólio do espaço ou não. E se a igreja tinha que ficar lá ou não tinha. E com isso o Cecosne sempre estava presente também. Houve alguns problemas e madre Escobar foi afastada do Cecosne. Madre Carvalhinho faleceu. A direção do Cecosne mudou. O próprio Dom Hélder saiu do bispado, entrou o Dom José. Então todas essas coisas mexeram com a vida do Centro Comunitário. E irmã Paula também adoeceu. Esses conflitos, esses questionamentos da associação querendo tomar o espaço e tudo mais. Ela ficou muito magoada, muito chateada, muito triste. No momento eu tentei querer entender um pouco as coisas. Porque havia especulações de que era da associação o prédio, de que não era. Mas as pessoas entendiam que eu estava querendo, né, direcionar para a associação. Que até eu também me preocupava. Porque, como é que a gente iria partir dali para a frente? Se as pessoas não soubessem administrar aquilo ali corretamente para a comunidade. Então, antes de irmã Paula viajar, deixou uma nova diretoria aí com uma pessoa da comunidade como presidente. Que na época foi o Paulo Germano. Que era muito ligado ao Cecosne. Que trabalhou, ele é bonequeiro, trabalha com iluminação. Inclusive ele trabalha na Prefeitura no Teatro Santa Isabel hoje. E era uma pessoa de confiança deles lá do Cecosne. E ficou como presidente e a tesoureira, ficou ainda uma pessoa do Cecosne, que era tesoureira do Cecosne. Que era Maria Farias. Mas já foi assim uma mexida. E mexeu-se no estatuto desvinculando um pouco, ainda ficou um pouco atrelado, mas desvinculou um pouco o Centro do Cecosne, da paróquia. Dando um pouco mais de autonomia. Mas era um momento justamente de crise econômica. A creche tinha que ser, não poderia mais trabalhar do jeito que estava trabalhando. Os voluntários saíram. Quatro colocaram na Justiça. Então a gente pegou assim, digamos, um grande pepino. Uma fase bastante difícil. Irmã Paula volta para a Suíça, ela tinha o Mal de Parkinson. E a Fafire, a coordenação da Fafire, que também é Dorotéia, foi que se disponibilizou para dar uma assessoria enquanto a gente zerasse essa questão das questões trabalhistas. Que aí irmã Paula ainda iria mandar essa verba. Ficou mantendo três professoras na escolinha. Monitoras que não eram formadas. Foi justamente para não botar na Justiça que as pessoas fizeram esse acordo. Ficaram como professoras da escolinha. E ela pagava isso agora com carteira assinada, com tudo certinho. E a creche a gente conseguiu municipalizar. Porque passou uma fase, assim, terrível de ter que ir buscar restos de comida na Ceasa. Porque saíram, não tinha funcionário suficiente. E a prefeitura chegou num ponto que disse: “Ou vocês municipalizam tudo ou a gente também vai tirar os professores da gente e a alimentação que a gente manda.” Então nós municipalizamos e aí começou a vir, funcionar com toda a estrutura da Prefeitura. Só que perdemos, né, na época de Roberto Magalhães a nossa coordenadora, que foi um dos acordos que a gente fez na época que a gente municipalizou, ainda era Jarbas e a secretária era Edna. Então nós pedimos para que ficasse uma coordenação da comunidade. Que foi na época Helena. Que hoje também já é falecida. Mas quando entrou Roberto Magalhães, ele quis o cargo para uma pessoa dele, e tirou sem nenhum acordo com a comunidade, né? Foi uma perda muito ruim para a comunidade. Inclusive Helena adoeceu a partir desse processo. Desencadeou um processo de diabetes e foi muito ruim para ela, muito difícil. Mesmo eles tendo depois, por muito a gente lutar, conseguir colocar ela em uma creche da Cruzada de Ação Social, isso para ela foi uma barra. Porque ela era uma das pessoas fundadoras que não tinha conseguido ser beneficiada enquanto funcionária. A escolinha ficou como eu disse: com três pessoas. E a gente começou. E a proposta da Fafire era de que nós aprendêssemos a andar com as nossas próprias pernas. Começássemos a gerir realmente o Centro. E nós começamos a fazer isso. Uma das coisas que tinha era a questão da eletricidade também. Veio tudo junto. Porque antes era espécie de gambiarras, a gente não pagava a iluminação. E quando foi vendida a Celpe a gente começou a perceber que eles estavam fazendo uma fiscalização bastante acirrada. E antes que acontecesse com a gente, para evitar o constrangimento público e tudo, a gente fez um projeto. Fez uma carta ofício explicando a situação da entidade filantrópica. E que a gente estava assumindo a partir daquele momento. Se perdoasse, né, porque eles vinham quando acontecia isso, eles faziam um cálculo de dívida. E que a gente começasse a regularizar a partir daquele momento. Mas não houve acordo, ficou em torno de 15 mil reais. E eles fizeram só em uma base de 2 anos. Aí a gente na época estava com a Extensão Comunitária da Fafire. Sim, o berçário. O berçário não conseguiu vingar porque foi justamente na época em que a irmã Paula foi embora e não conseguiu funcionários. Então se distribuiu com outras entidades os equipamentos que tinha lá e o espaço ficou ocioso. Então a gente começou a alugar. Foi uma das coisas que a gente começou a gerar renda. Quando a Fafire começou a fazer essa articulação com a gente, essa assessoria, eles propuseram instalar a Extensão Comunitária de Psicologia lá. E esse era um dos espaços disponíveis. Então a gente estipulou um x, abaixo do que a gente já tinha alugado antes, enquanto relação. Na época 250 reais. É um espaço bastante grande. Bastante privilegiado. E eles começaram a fazer um trabalho. Tinha equipe boa na época, fez um trabalho, né? Nesse momento você imagina a gente, as relações começaram a ficar muito conflituosas. Como Laurindo dizia, né? As pedras que a gente tinha que ir retirando. Tinha o Paulo Germano que era bastante conservador. E a gente tinha uma preocupação muito grande. Ele não queria avançar. Ainda era muito atrelado ao processo. Tinha Edvaldo, com quem justamente eu tinha aquela relação. Então a relação da gente estava bastante problemática. E isso era levado para o Centro. Foi ficando uma culminância assim, uma situação insustentável. Tinha a Socorro, que era essa pessoa que eu disse. Que era coordenadora do Núcleo de Promoção da Mulher. E justamente tinha isso: os homens achavam que o Núcleo de Promoção da Mulher queria ser maior do que o Centro. Porque o Núcleo naquele momento foi quem sustentou o Centro. Foi o núcleo com seus boxes. Com a arrecadação que a gente fazia dali, era que a gente conseguia, na época dessa coisa da Celpe mesmo. Eu lembro que a gente tinha que gastar dois mil reais para refazer toda a instalação dos medidores, a fiação dentro dos padrões que eles exigiam. E nós tínhamos guardado esse dinheiro, assim, Socorro é uma pessoa muito... Ela é a tesoureira, e realmente ela tem todas as características. Porque ela é muito organizada com dinheiro. Ela é muito de, se ela tiver um objetivo então para aquele dinheiro, ela diz: “Eu carimbo esse dinheiro. Esse dinheiro é para aquilo ali.” A gente pode estar sem passagem, ela diz que não tem dinheiro. E ela tinha juntado o dinheiro para a gente colocar cerâmica na fachada, que estava horrível, muito suja. E era um sonho, justamente. A gente colocar cerâmica porque aí a gente iria melhorar bastante o visual e resolver esse problema. E a gente pegou esse dinheiro, e foi com esse dinheiro que a gente conseguiu regularizar a questão da Celpe. E deixamos esse outro sonho para depois. E essas relações, como eu disse, era muito difícil. Porque às vezes um queria ir por ali, outro queria ir por aqui. O outro segurava. Então foi preciso essa intervenção da Fafire através do professor Aurino, foi muito feliz. Foi muito boa naquele momento. Muito positiva. E inclusive ele começou a nos orientar para que a gente fizesse projetos para buscar recursos. Então a gente ainda fez uns, Paulo Germano na época ainda no Cecosne, né? Esse foi congratulado com uma viagem para a Europa, Itália se não me engano. E levou os projetos da gente. Segundo ele não conseguiu trazer nada. E a gente começou a lutar. Um pouco da minha trajetória, né, pessoal.
(pausa)
P/2 – Pois sim, Bernadete, eu queria saber um pouco, assim, como foi a sua trajetória com relação a seus companheiros? Você teve dois filhos e você chegou a morar com algum deles? Como você foi estabelecendo essas relações ao longo da sua vida?
R – É, assim, foi sempre muito conflituosa. Meu primeiro, o pai do meu primeiro filho foi uma pessoa por quem me apaixonei na época de adolescente. E paixão na adolescência é uma coisa muito forte. Era uma relação, ele se mostrava bastante apaixonado. Foi um processo de conquista bastante lento, e isso marcou muito na minha vida. Mas desde o início a gente já tinha esses conflitos. Ele apesar de ser uma pessoa humilde, era uma pessoa também que tinha uma visão de crescer, de ser empreendedor, de buscar melhor qualidade de vida. E questionava sempre esse meu envolvimento com o movimento. A questão de eu ir à favela fazer aquele trabalho. De estar trabalhando ali na escolinha. Recebendo aquele salário bastante inferior. De não ter essa perspectiva de entrar mais no mercado mesmo, formal, de trabalho. E aí a gente começou a ter bastante divergência. Essa coisa mesmo do machismo, de homem mandar na mulher, eu não permitia isso. E a gente se afastava depois e se aproximava. E foi ficando uma relação muito tumultuada. Até que justamente chegou a questão da gravidez em um momento em que a gente realmente não tinha mais uma relação. Ele já estava realmente com uma outra relação. Eu tinha tentado uma outra relação. E André veio em um momento muito difícil. No momento que eu estava entrando para a Faculdade de Jornalismo, que era um grande sonho, um grande desejo. E que eu deixei que se perdesse nesse meio tempo. Então a moradia, vem a questão da sobrevivência mais forte, a questão do filho. E eu tentei alguns trabalhos formais, mas sempre houve uma dificuldade muito grande. Então eu trabalhei em algumas ONGs, trabalhei com meninos de rua voluntariamente. Depois trabalhei em projetos da Prefeitura com meninos de rua. Depois trabalhei, fui uma das fundadoras da Casa de Passagem, que era um trabalho voltado para meninas, com Ana Vasconcelos. Que justamente procurou a gente que tinha alguma experiência nessa área para formar a entidade. Mas também entrei em conflitos justamente por essa questão de verbas. Que no princípio era uma coisa democrática e participativa. E quando a coisa realmente acontece fatalmente vem a centralização, a hierarquização. Vem a não transparência. então eu só passei mesmo 3 meses depois da Casa formada. Tive alguns outros trabalhos, mas mais esporádicos. Hoje na comunidade inclusive tem casas, residências de algumas meninas que foram meninas de rua. Um dos projetos da Casa de Passagem. E...
P/2 – Seu segundo filho?
R – É, depois quando eu consegui essa casa eu ainda voltei a ter uma relação com o pai de André. Mas aí ele casou e a gente realmente se separou. Assim que eu fui morar lá, antes de um ano essa casa minha foi assaltada. Era um momento muito crítico de violência na comunidade. Tinha uma gangue lá, assim, bastante, que não respeitava ninguém, roubava mesmo as casas. Então eu tinha uma televisão, que tinha sido o pai desse menino que tinha me dado, um rádio. E ele questionava por que justamente naquele momento eu fazia reuniões na minha casa com aquela articulação enquanto articulação. Seu Zé Maria, seu Pedro. Então para ele aquilo ali era fatal. E a gente acabou realmente seguindo caminhos diferentes. E uma das coisas que dificulta muito a minha vida ainda hoje é a instabilidade profissional. Eu consegui entrar para a faculdade novamente, a universidade. Na Universidade Federal Rural. Fazer História, que também era uma das coisas que eu já tinha em planos fazer. Fazia um curso a noite. Mas aí então eu comecei a trabalhar com pesquisa de mercado, né? Que é um trabalho bastante informal, bastante sacrificado. Que na época aparentemente dava um dinheiro imediato. E um dinheiro, comparado com o mercado formal, é um dinheiro maior. Mas é uma ilusão. Porque é um trabalho sazonal. Tem época que tem, tem época que não tem. Então isso dava uma instabilidade, mas me dava também a flexibilidade de ter que sempre participar. De poder estar participando. Então acho que eu acabei ficando por aí por conta dessa possibilidade. E tive algumas propostas. Mas como eu tinha, como Edvaldo, às vezes até Lenildo colocando, não ter jogo de cintura. Naquele momento eu era muito radical. Cheguei a ouvir pessoas do Cecosne, pessoas da Fafire, que se eu não fosse tão radical as coisas poderiam se encaminhar de outra forma. Poderia se colocar postos, cargos e tudo mais. Mas isso previa algumas negociações, algumas facilitações, digamos assim. E na época, depois que eu terminei História, dois anos depois eu fiz um concurso para Rondônia, para professor em Rondônia, e fui para lá. Porque aí eu já estava realmente bastante cansada. Já tinha um outro filho, que é de Edvaldo. Essa pessoa que era do Cecosne, mas que também diverge em muitos pontos. Não cheguei a morar com nenhum dos pais dos meus filhos. Eu moro só. E por conta disso tudo eu encarei Rondônia pensando em começar de novo. E aí eu pensava em quê? Não parar minha trajetória com o movimento, mas ir trabalhar com índios. Que era uma das coisas que minhas raízes chamavam muito. Então eu fui em uma dessas perspectivas. Só que o curso da Universidade Federal Rural quando eu entrei era aquela parte, foi aquela transição de Estudos Sociais e Moral e Cívica que foi extinto, e eles estabeleceram esse curso de História, Sociologia Rural e Economia Rural. E a equipe lá não se preocupou em mandar o processo para o Ministério para regulamentar o curso. E quando eu fui o curso não estava regulamentado e eu não pude assumir o concurso por conta disso. Na época era um salário de 1200 reais. Em 1998. E assim foi muito ruim para mim. (chora)
P/1 – Quer dar uma parada? Quer uma água Bernadete?
R – Não, não precisa não. (chora)
(pausa)
R – Bom, então eu fiquei lá no Sintepe, né?
P/1 – Hum, hum.
R - Que era o Sindicato dos Professores lá de Rondônia. Como tinha outros que tinham passado nesse concurso, tinha muita gente de Pernambuco, gente da Paraíba, gente da Bahia. Gente de todo o Nordeste justamente buscando essa estabilidade, de ter melhores salários. O Norte, né, uma terra ainda muito promissora. Muito em formação, em construção. Mas as relações políticas lá também são muito complicadas. Esse sindicato era dirigido por pessoas do PT, mas tem, como eu sempre digo, né? “Há PTs e PTs.” Então tinha faces, assim, meio complicadas lá. E foram 3 meses de luta. Eu entrei na Justiça através do sindicato que me deu assessoria jurídica. Eu consegui um mandato de segurança para que eu assumisse, mas mesmo assim na última instância foi julgado que eu não tinha direito. Porque lá no edital tinha que eu tinha que ter o registro no Mec. E eu não podia fazer isso sem ter a regulamentação do curso. E no começo um advogado meu, amigo meu daqui disse que a gente iria colocar na justiça. Que eu teria isso como uma causa ganha, porque era perda por lucros incessantes. Mas isso foi se perdendo com o tempo. Passei três meses lá. Foi muito complicado. Nesse momento estava havendo a segunda eleição. Depois de Paulo Germano, Edvaldo estava assumindo. Porque a gente entendia que Edvaldo era mais flexível e que ele também tinha mais tempo. Porque ele só trabalhava 4 horas no Cecosne e ele poderia dar encaminhamento aos projetos. A documentação do Centro que estava começando a ficar atrasada. A gente pensou em investir nele enquanto presidente por conta disso. E foi no momento que eu fui para Rondônia e aconteceu todo esse processo. Ficava acompanhando por telefone. No final já do processo lá, que eu já estava desistindo, já tinha comprado minha passagem para voltar, houve uma proposta da Pastoral do Índio para que eu fosse trabalhar em uma aldeia indígena. Mas, assim, a coisa que me fez não aceitar a proposta era que eu teria que morar na aldeia e tinha a questão dos meus filhos. André já estava morando com o pai. Que André cresceu em uma situação conflituante. O pai tinha uma situação financeira bastante boa. Começou a trabalhar na área de medicamentos, em laboratórios. E ele tinha esse conflito, ele me perguntava, né? Se eu era comunista por que é que eu não dava a minha geladeira? Por que é que eu não dava minha televisão? Por que é que eu não tinha casado como a mulher do pai dele casou e tinha um marido para me sustentar e para não deixar que as coisas fossem tão difíceis? E quando ele fez 10 anos ele optou por morar com o pai. Mas tinha Ítalo que ficou com o pai durante esses 3 meses, mas na perspectiva de, depois que eu organizasse tudo no segundo semestre, ele ia se encontrar comigo e ir morar comigo lá em Rondônia. E eu pensei muito nisso. Eu digo: “Será que é justo eu fazer isso com eles?” Então eu voltei por conta disso. Mas foi uma proposta bastante tentadora. E o momento, assim, era pegar ou largar. Talvez se não tivesse comprado a passagem eu ainda tivesse tentado. Mas já estava com a passagem marcada e eu voltei para cá. Voltei a fazer pesquisa de mercado. E fui levando desse jeito. O Centro ficou com o Edvaldo como presidente, mas as nossas relações foram complicando. Porque eu queria sempre mais autonomia e ele também ainda era muito atrelado. Até por ser funcionário do Cecosne, então achava que eu era muito radical. E as outras questões da comunidade em si. Como a questão da associação de moradores que foi passando de mão em mão. Com pessoas cada vez mais inescrupulosas, ou despreparadas, ou com outra visão. A gente tinha uma visão macro, uma visão de construir, de querer capacitar as pessoas e tornar as pessoas autônomas. E não fazer aquela coisa do atrelamento social. Da coisa da necessidade, de trabalhar a necessidade para que as pessoas fiquem dependentes. Com essa fase também no Cecosne a gente conseguiu começar a fazer um, da Fafire, conseguiu formar, construir um fórum. Fórum de entidades. Foi uma proposta que surgiu nossa para o Centro. Mesmo assim as relações estavam bastante ruins. Mas aí a gente: “Vamos esquecer tudo isso, vamos chamar todas as entidades.” Estava no final do mandato de Roberto Magalhães, prestes já a haver as eleições. E vamos fazer uma proposta para Santa Luzia. Em termos de habitação, saneamento, então foi um momento interessante, rico. Conflituoso. Mas a gente conseguiu fazer esse documento com as outras entidades que tinham. Tinham algumas ONGs aparecendo, querendo também se aproximar da comunidade. Nesse meio tempo também, em 1993 foi feito lá o primeiro Caic. Centro de Atenção Integrada à Criança e Adolescente, ainda da época do governo Collor. Que a gente questionou bastante, acompanhou bastante. Tem inclusive uma matéria minha lá, falando do meu medo de que aquilo virasse um elefante branco. A gente não queria que ele fosse feito no local que ele foi feito. Porque era às margens do rio. O rio ia ficar bastante vulnerável. Mas acabou sendo feito nesse espaço. E uma das entidades que participaram foi o Caic, desse fórum que a gente fez. E quando foi em 2001, em 2000 justamente o Edvaldo se afastou e a gente ficou gerindo o Centro com uma junta. Até chegar o momento das eleições que foi em 2001. Abril de 2001. Aí foi quando Lenildo, que estava um pouco afastado desse processo por alguns problemas pessoais que ele tinha tido, morou um tempo fora da comunidade, né? Me procurou depois das eleições e falou do interesse dele de voltar a trabalhar junto com a gente no Centro. Então nós começamos justamente a articular, pensar em reformular o estatuto para que ele se modernizasse. Para que ele se adequasse mais à essa questão das exigências dos projetos. E colocamos essa questão da Universidade Popular. E não tínhamos nada realmente. Só tínhamos a verba do Núcleo de Promoção da Mulher, que só dava mal para pagar as contas. Água, luz. Não tínhamos telefone, não tínhamos computador. E com esse novo grupo a gente começou a instalar essas coisas. Éramos bastante questionados na época: “Qual o serviço social que vocês têm? Que esses boxes são pagos, era para ser de graça.” Toda essa coisa que a comunidade sempre tem essa visão. E fomentado pelas pessoas inescrupulosas que na verdade queriam fazer deles esse uso, mas com coisas bem diferentes. Então aos poucos a gente foi ocupando o salão. Na época como eu fazia, vivia muito fora por conta da pesquisa de mercado, né? Socorro, que passou a ser Assembleia de Deus, tentou instalar uma igreja lá. E assim, a gente sempre teve muitos conflitos. Mas a gente conseguiu ir trabalhando isso e chegar ao meio termo. Porque eu acredito que quando as pessoas têm no cerne mesmo, pode até ter algumas divergências, mas a gente consegue caminhar junto. Foi quando, em abril, a gente fez essa nova diretoria, houve uma reformulação do estatuto. E aí o pessoal me elegeu presidente, o Lenildo é secretário, Socorro é tesoureira. Aí tem a vice que é Lurdes, que está afastada. Que era do Núcleo de Promoção da Mulher, saiu, aí se afastou dos trabalhos. Paulo Germano que é vice-tesoureiro. Também está muito mais envolvido com os trabalhos dele na Prefeitura. Lucicleide que é vice-secretária. A escolinha, o que aconteceu com a escolinha? A gente começando a encaminhar as coisas. Irmã Paula depois faleceu. E quando ela faleceu a verba da escolinha foi cortada. E aí as outras duas foram desligadas. Disseram que não iam continuar. E Lucicleide mesmo desligada disse que iria continuar lutando para a gente tentar um convênio com as escolas comunitárias. Só que foi no período que justamente se fechou esses convênios. E a gente tentava apelar para as mães contribuírem com 10 reais, com quanto pudesse, mas estava difícil. O Damas tem um trabalho lá na comunidade que veio junto com a comunidade da Beira Rio Graças, através de irmã Adélia, e tem uma escolinha em uma rua lá, que ganharam a casa. Mantido pelo Colégio do Damas. Que é a Escolinha Nossa Senhora da Graça. E estavam ampliando o projeto, recebendo mais verbas. E vieram procurar espaço. Aí nós pensamos: “É o mesmo trabalho na linha de escola, eles têm verba. A gente pode traçar um aluguel para que a gente possa manter os outros serviços. E pedir que coloquem dentro desse contrato a prioridade de que Lucicleide seja aproveitada.” Lucicleide não tinha nem o segundo grau, nem o primeiro grau na época, mas é uma pessoa muito versátil, muito criativa. E a gente conseguiu fazer com que eles assimilassem-na, e graças a Deus ela é uma pessoa do nosso grupo que está muito bem hoje. É funcionária mesmo, e também corresponde lá. O pessoal realmente gosta muito do trabalho dela. E está fazendo Magistério agora, e está no caminho.
P/2 – Bernadete, podia dizer quando começou o CDI? (riso)
R – Então, uma das conquistas desse nosso processo, que a gente foi justamente dando essa resposta foi o CDI. Como foi que a gente conheceu o CDI?
P/1 – Exato.
P/2 – Em que ano?
R – O Caic como eu falei para você, é abandonado totalmente pelo poder público. Depois o governo Federal se desvinculou. Ficou o governo Municipal, o governo Estadual em uma briga, em um conflito eterno, né? Quem mantém? Quem troca essa lâmpada? Quem faz isso? O governo Municipal, quando João Paulo assumiu Edla, passou um ano ou dois e se afastou. E hoje só está o governo Estadual lá na escola. O PSF hoje, que era posto, né, que funciona dentro. E a creche que era da Cruzada e hoje está com a Prefeitura também. E dona Noêmia tinha um trabalho, que era então a presidente da associação, ela tinha um trabalho de escola aberta lá no Caic. E levou justamente essas máquinas, esse projeto do CDI, através do Zé Mário. Que foi uma das pessoas que chegou lá com um ONG e não sei que mais. E a gente ouvia falar: “Ó, tem uns computadores lá no Caic que agora não funcionam. Está lá cheio de poeira. Está cheio de teia de aranha.” E na entrada dessa diretora que hoje está lá ela começou a entrar em conflito com dona Noêmia, né? Aquela guerra política de quem manda em quê, e tal e coisa. E a gente fez uma comissão lá para avaliar realmente se a coisa era para ficar, se não era. A comunidade resolveu que dona Noêmia tinha que se afastar. E aí foi quando a gente viu os computadores realmente e começamos a perguntar. Vimos algumas matérias. E ela levou todos os computadores. A gente disse: “Poxa vida. E a comunidade vai perder. Nunca funcionou, mas isso poderia funcionar.” E já havia uma procura muito grande de curso de informática. Aí nós viemos, fizemos um ofício. Mandamos via fax e ficamos procurando. Depois viemos aqui, falamos com Sabrina, e assim foi processo feliz. Porque quando chegou lá fizeram a avaliação do local e tudo mais. Mas aí disseram que só tinham seis EICs para serem contempladas e a gente era a sétima. (riso) A gente ficou muito triste. Mas no mês seguinte o pessoal disse que ia dar para encaixar. Aí entra o Damas de novo, porque justamente eles queriam mais espaço. A gente ia colocar essa sala em uma sala que a gente tem quando funcionou a Extensão Comunitária, a gente estava de novo desocupada. Mas aí o Damas precisou de mais espaço. O que foi que a gente fez? A gente dividiu a nossa secretaria. Fizemos uma divisória de madeirit, ficou até legal. Ficou bonito. Uma madeirit prensada que usa muito hoje. Para fazer aqueles retornos de coisa. Até serve para a gente colocar os cartazes. E fizemos as instalações, né? Tudo isso justamente com os dinheiros dos aluguéis. Mais recentemente nós fizemos, aí, os voluntários. Os voluntários que eu sempre digo assim, eu digo: “Olhe, voluntário só existe na Globo, viu.”(riso)
P/1 – (risos)
R – Porque é muito difícil. E a gente nem recrimina. Porque a gente sabe que a sobrevivência hoje é a coisa principal. E que a própria mídia ela nunca estimulou essa participação social das pessoas. Sempre visa muito o quê? O capital. Todo mundo que vem fazer algum trabalho para a comunidade ou para a escola, ou para qualquer coisa assim que seja em prol do bem comum, mas quer, acha que tem que receber isso em dinheiro. Em capital. O serviço social em si não é tido como um ganho. Para a gente ter um exemplo lá no Centro: se a gente chamar um trabalhador para pintar, ou para fazer um conserto, ele fatalmente cobra mais caro do que ele cobraria para qualquer outro lugar. Porque a idéia de que ali, até pela história que a gente tem lá, que antes tinha uma pessoa que era de fora e que tinha verba. Então as pessoas ainda hoje pensam que a gente vive nadando em dinheiro. E que tudo é muito fácil.
P/2 – Quem são os alunos da Eic?
R – Os alunos da Eic são os alunos da comunidade. Crianças, adolescentes, que é a partir de 14 anos. Muito carentes. Sem acesso justamente. Muitos falam que nas escolas deles tem laboratório de informática, mas que eles não têm acesso. E a gente já comprovou que isso é verdade. Tem escola lá que tem computadores muito mais novos do que os nossos, tem laboratório bonitinho, mas na prática não funciona. Por quê, a gente não sabe. A primeira turma foi bastante difícil. Nós conseguimos como voluntário Saulo, que é filho de uma das pessoas que está lá com a gente no grupo. É uma amiga minha de muitos anos, da época do Cipan. Que foi morar lá na comunidade há 2 anos. Na época tinha 16 anos. É um jovem bastante promissor. E Débora, filha de Lenildo. Também assim, ele na perspectiva de incluí-la em um processo social, de tentar resgatar, de tentar tirar da rua. Os outros apelos que tem aí. Então começamos, e tinha Cleidson também, que era um outro jovem que a gente apostava. Eu sei que nós capacitamos quatros jovens. Eu não estou lembrada do outro. Foi a sobrinha de Lenildo. E só conseguimos ficar com esses dois. Então abrimos turmas pela manhã e a tarde. Saulo pela manhã e Débora a tarde. Mas todo começo é muito difícil. As pessoas chegavam, não davam muito crédito. E aquelas maquinazinhas meio, né? Os jovens, pessoal fica assim: “É esse meu professor?” Às vezes pessoas mais velhas do que eles. Eles também ainda inexperientes, mas com uma vontade muito grande de aprender. A relação aqui no CDI foi muito boa. Apoio. As capacitações. Eles foram se envolvendo. Porque meu medo era eles desistirem no meio do caminho. A gente hoje consegue, assim, dar uma ajuda de custo de 50 reais. A gente estabeleceu isso porque entende que é preciso haver o mínimo de estímulo. E nessa nova turma nós conseguimos introduzir mais dois educadores. Que é o Márcio, que também é filho de Lenildo, e o Carlos para a noite. Que era uma turma que sempre o pessoal pedia muito. Carlos é um jovem de 39 anos. Também do movimento popular. Foi através dessa articulação que eu o convidei. Ele sempre falava que sabia trabalhar muito com a parte de manutenção e tudo mais. E eu disse: “E aí, não quer não se juntar à gente?” Ele aceitou de cara. E a gente está com uma equipe muito boa. Assim, a questão da cidadania, por exemplo, que foi uma das coisas muito feliz. Tudo hoje está convergindo para isso. Todos os grupos. E aí o que é que a gente tem hoje? A gente montou a Universidade Popular. Que é tão questionada, que a gente fez uma faixa, uma placa e todo mundo diz: “Que universidade é essa? Quando é o vestibular?” E a gente dizia que isso era um processo. Que a gente estava construindo esse processo. Com os grupos de capoeira, de dança, e com o CDI isso foi muito enriquecido. Porque hoje...
P/1 – Explica essa...
R - ...Hoje a gente faz reuniões mensais com todos os grupos. E o CDI sempre puxa justamente essa temática da cidadania. Então todo mês a gente tira um tema para trabalhar. E aí trabalha com todos os grupos, e a gente já está puxando os grupos da comunidade fora também do Centro. As escolas, as creches. Os outros projetos que têm ao entorno para no final do mês a gente fazer a culminância.
P/2 – Você poderia dar exemplo de temas que vocês trabalham?
R – Por exemplo, em agosto a gente trabalhou a questão da violência, mas com a vertente do folclore. Então nós fomos, aí o EIC normalmente trabalha a questão da pesquisa. A gente conseguiu fazer um contrato com a Cabo Mais e conseguiu acessar a internet. Só que as máquinas por ainda estarem um pouco mais antigas aí deu uma caída na internet. Mas como o da secretaria tem a gente o acessa também, eles podem usar também o computador da secretaria. E aí eles fazem essa parte da pesquisa, do histórico, de cada tema. Então, por exemplo, as danças populares, os folguedos, o que é que significavam? Então fizeram cartazes, essa coisa toda. E aconteceu a culminância com um palanquezinho. E os grupos fizeram suas apresentações culturais. Em setembro a gente fez as eleições, então foi discutido a importância do voto, a questão da democracia e todos os grupos fazendo também isso. A culminância a gente trouxe o pessoal do TRE com duas urnas. E aí houve o processo de eleição. Alguns grupos formaram chapas. Quem é que vai ser o vereador, o prefeito. A gente às vezes parece pequeno, mas a gente sabe o quanto isso é um processo de construção. Que a coisa mais concreta ela tem realmente essa coisa da lentidão. Às vezes o que você joga muito rapidamente, ela não fica bem preparada, solidificada. E nosso objetivo é esse. E esse mês a gente está discutindo a questão da criança, voltado para o Estatuto. Nós temos núcleos do PET, que é Programa de Erradicação Infantil. E aí também é um outro grupo que eles estão inclusive ajudando. Eles hoje são parceiros do PET porque, além das turmas convencionais, que são 14 anos acima, o PET atende de 7 a 15 anos; eles se prontificaram a dar uma hora de aula por dia dividido. Que são 25 meninos. Então todo dia entra 10 meninos do PET para eles estarem acessando, terem acesso à informática. Não é fácil, porque os meninos do PET são muito energéticos, são meninos muito trabalhosos. Às vezes eles se desesperam, mas eles têm uma boa vontade de estar ali realmente, e os meninos adoram. O que eles mais anseiam, que a gente fez uma parceria com outros grupos, mas a informática para eles realmente é um mundo mágico.
P/1 – Hum, hum.
R – E esse mês além dessa questão do Estatuto a gente estará culminando com um festival com a turma da noite, né?
P/2 – Festival de quê?
R – Da Criança. Primeiro Festival da Criança. E eles estão com a parte de pesquisar as brincadeiras. De onde surgiu o pião? A pipa, né? O papagaio? As brincadeiras de roda, então eles vão fazer essa procura, essa busca na internet. Além disso estão organizando uma gincana. A própria turma da noite. Essa reunião, que a gente faz reuniões mensais com monitores. E esse mês a gente fez incluindo os alunos e foi bastante interessante, porque eles começaram a dar propostas, né? Houve uma capacitação que a nossa equipe estava encarregada de trazer uma dinâmica e os meninos também participaram dessa construção da dinâmica. Lenildo, que acompanha mais de perto, disse que foi muito bom. E está cada dia assim, entrosando mais. Porque há uma resistência a essa coisa da cidadania: “Ih, que lá vem esse tema chato.” Mas eles estão conseguindo fazer isso de uma forma atrativa.
(Fim do CD 01)
R – A gente já fez um primeiro trabalho externo, que foi uma exposição no Cruzeiro do Forte, que é um bairro próximo ao nosso. Teve uma comemoração pela Insurreição Pernambucana. O primeiro quartel brasileiro, justamente, as ruínas estão lá nesse parque. Que a comunidade quase não sabe, nem conhece. E nós levamos a turma da noite para lá. Depois fomos para o Sebrae assistir uma palestra lá, de um tenente que estuda a questão da insurreição pernambucana. Então a gente está fazendo essa ponte. Eu acho que a coisa mais importante da EIC hoje é justamente essa questão da cidadania. A informática, ela é só um instrumento. Mas é justamente para que a gente perceba a gente enquanto pessoa, a gente enquanto cidadão. Como é que a gente pode, dentro desse mundo tão às vezes inacessível, criar instrumentos de inclusão social. Eu acho que o CDI tem feito isso através das EICs.
P/1 – Que é que você vê que motiva os alunos a buscarem o curso de informática? Qual você percebe que é... que os estimula?
R – Olha, é fundamentalmente a questão profissional. A questão do mercado de trabalho que eles estão, todo mundo hoje se apercebe que é um pré-requisito número um. Eu acho que eu não diria o número um porque eu acho que a leitura ainda é o número um. Que a gente também bate muito nisso. A gente também está em um processo de criação de uma biblioteca com livros e tudo mais. E a gente sempre, os meninos sempre trabalham também com essa coisa da leitura. Mesmo que seja um texto que esteja ali na tela, mas usa o lúdico. Que sempre eles correm muito para isso, dos jogos, das brincadeiras. Mas a gente tenta puxar muito para essa coisa da leitura. É uma coisa muito boa que começou a acontecer essa semana também. Apareceu um grupo na comunidade de estudos. Para pré-vestibular, para supletivo, que me lembrou muito minha época de pré-vestibular. E que estavam sem espaço. Estavam fazendo isso nas praças. Com zoada, com intervenções, e nos procuraram. Eu disse: “Olha, a gente tem essa sala aqui. Não é muito grande, mas como vocês ainda estão iniciando...” E eles adoraram, porque os meninos, os rapazes que organizam, que já são pessoas de 20 anos mais ou menos, sabem mexer com o computador. Então a gente abriu a sala para que eles usassem, para estarem fazendo esses estudos lá no computador. E até já deixei a proposta para que um deles venha também fazer parte das capacitações. Então isso também vai ser o outro caminho que a EIC abriu e que está proporcionando. Mas fundamentalmente, respondendo a sua pergunta, é a questão profissional. Por isso que até adultos procuram o Núcleo.
P/2 – E você já pode apontar algum grupo...
(pausa)
R – Pois é, né? E aí, com essas culminâncias que nós começamos agora em agosto, nós estamos atingindo um objetivo da Universidade Popular que é estar fazendo dos alunos, das crianças, dos jovens protagonistas da história da comunidade. E mostrando para o restante da comunidade a produção dos trabalhos. Não só da EIC, do PET, dos grupos de capoeira, de dança, como de todas as outras escolas que não tinham essa oportunidade. E assim falando um pouco da fala do Colégio Nossa Senhora da Graça, por exemplo, as pessoas agradeceram essa oportunidade. Que é muito bom a gente trabalhar e ver o produto do trabalho divulgado. O que a gente tem conseguido também é incluir algumas pessoas. Hoje a gente tem um exemplo de uma mulher que vivia em depressão. Ela não conseguia. Ela teve dois filhos doentes, esses filhos morreram e ela estava dentro de casa, trancada. Não fazia nada. E nós conseguimos, convidamos ela a participar da EIC, e hoje ela é uma outra pessoa. Mais saudável. Já está se dispondo a ser voluntária em alguma coisa do Centro, quem sabe até venha a ser uma nova educadora. A sustentabilidade, né? Não é fácil. A gente tenta conversar, tenta fazer com que os alunos colaborem, contribuam. Porque a gente trabalha nessa perspectiva de mão dupla. A gente tenta fazer com que a comunidade entenda isso. Nós estamos inclusive discutindo com os técnicos daqui, com a Ana Cláudia, através de outras experiências uma forma dessa comunidade que está sendo beneficiada estar também dando sustentação. Porque é água, é descartável, é o papel, é a tinta da impressora. É a própria Cabo Magic para poder dar acesso à internet, que sem isso o computador hoje fica realmente praticamente obsoleto. Então tem sido muito difícil. Como a gente já pontuou, o Núcleo de Promoção da Mulher tem sido uma das bases com a questão dos aluguéis. Com Damas, com a Prefeitura que hoje também a gente já conseguiu fazer o contrato, mas as despesas da entidade é muito grande. Água, luz, é IPTU. Telefone, que normalmente é uma coisa que a gente não consegue controlar. Porque precisa entrar em contato com o mundo. E a gente vem pensando em como chamar essa comunidade a participar mais. Mas eu acredito que a partir da valorização, de quando eles perceberem quanto isso é importante essa coisa vai chegar.
P/2 – Os alunos pagam a mensalidade?
R – A gente estabeleceu uma taxa de cinco reais. Mas é muito difícil. Ainda não está funcionando.
P/2 – Mensal?
R – É, mensal. Então a gente está tentando traçar estratégia. Por exemplo, na próxima turma, fazer um aulão inicial. Levar pessoas aqui do CDI, que como a gente diz: “Às vezes um santo de casa não faz milagre.” Para que essa coisa seja colocada, seja exprimida. Porque tem muito isso. As pessoas acham sempre que a gente está sendo remunerado para fazer aquele trabalho. Que a gente está recebendo verba para fazer aquele trabalho, então por isso que às vezes: “Não, a gente não vai dar.” Não é nem que não possam. E está também, tem alguns casos que a gente sabe que são pessoas muito carentes. A gente tem uma favela que é abençoada por Deus. Tem um conjunto residencial que veio de pessoas de favela que têm uma situação muito carente. E a gente jamais vai deixar de contemplar esse usuário por conta de não poder contribuir. A gente tem pensado também em estabelecer a tarifa social. Que a gente já estabelece para outros serviços. Como o uso do salão para festas. Se você não pode pagar a tarifa, você pode fazer um serviço em troca. Você pode pintar uma parede, você pode consertar alguma coisa. Você pode vir ajudar na merenda do PET, que a gente não tem verba para merendeira. E também ainda não está muito no consciente do cidadão. Isso também é cidadania. Fazer também essa coisa de quebrar um pouco esse valor capital. Trazer o valor social, a moeda social. Nós participamos da Economia Popular Solidária, do fórum estadual. E a gente vem sempre nessa busca, de fazer a coisa solidariamente. A gente às vezes pode não ter capital, mas a gente tendo a força do trabalho, pode estar construindo o bem comum. Mais ou menos essa perspectiva.
P/1 – Bernadete, teria alguma coisa que você queria colocar que a gente não perguntou? Um exemplo?
R – É, eu acho que assim. A gente do Cepas está assim em um momento de resistência. É um momento muito feliz. Eu acho que foi um casamento feliz esse da gente com o da CDI. Às vezes a gente quer esmorecer um pouco nessa luta pela própria questão da sobrevivência. É muito difícil. A gente também tem essa coisa que eu digo de voluntariado. Que eu sempre me orgulhei muito de dizer que sempre meu trabalho era voluntário. E que eu não me vendia, que não me atrelava a certas propostas para continuar dentro da minha ideologia. Mas cada dia realmente é muito mais difícil. Mas quando a gente encontra parceiros que a gente sente que tem essa mesma diretriz e que tenta fazer com que a gente seja um protagonista dessa história. Que é uma das coisas que às vezes a gente se recente muito. Muitas vezes foi roubado da gente isso. A gente constrói a história e vem alguém, ou alguma instituição maior, e engole a gente. E o produto daquilo que a gente fez aparece como tendo sido feito por outra pessoa. E o CDI, ele faz questão de que nós sejamos os protagonistas.
P/1 – Ok. Que você achou de dar esse depoimento?
R – É, foi muito bom. Foi muito bom inclusive assim, né, para minha auto-estima. Eu como historiadora, apesar de não estar na prática, eu sei o quanto é importante a gente estar resgatando e a gente estar registrando para que as coisas não se percam. Eu acho por isso que foi um pouco profícuo, mas é porque realmente é muita coisa. Às vezes a gente não para pra pensar. E como a gente caminhou. E como tem coisas na história da gente. E como tem pessoas principalmente construindo essa história junto com a gente. E é bom que a gente faça isso, para a gente não perder de vista justamente essas pessoas. Eu e Lenildo, que a gente é mais próximo dentro dessa perspectiva, a gente sempre fala, né? Mas às vezes falta essa questão do material, da verba, tudo mais. A gente fala inclusive de escrever um livro sobre Santa Luzia, sobre a história de Santa Luzia. E não desistimos não, a gente vai chegar lá.
P/2 – E o que é que você acha da idéia do CDI de realizar esse trabalho, quer dizer, contar a sua história através da história das pessoas?
R – Eu acho que é isso mesmo. Eu acho que ele está resgatando e está registrando. Quando ele está acontecendo, ele está valorizando as instituições. Está mostrando que não está ali sozinho. Ele está ali e por ali tem toda uma história por trás daquilo ali. Ele está chegando no momento. A informática é uma coisa relativamente nova no nosso mundo. É uma coisa da globalização. E é bom que a gente não perca essa perspectiva social. Essa perspectiva das pessoas que estão antes da máquina. Que são mais importantes do que toda essa coisa da máquina. Que a gente utiliza esses instrumentos para que as pessoas ganhem qualidade de vida. E possam também assim, elevar a auto-estima. Isso é muito bom. Para que a gente perceba quanto é importante. Talvez a gente não tenha percebido o quanto a gente foi importante na construção de certas coisas. Até, né, conseguir. Se nós não tivéssemos lutado para garantir que esse espaço fosse espaço do uso realmente do público e da comunidade, do bem da comunidade, a gente talvez não tivesse um espaço para estar trazendo essas inovações e esses benefícios para a comunidade. Então eu acho que o CDI está de parabéns e vocês também. Assim, que conduziram de uma forma bastante respeitosa essa entrevista. E a gente só tem a agradecer essa oportunidade.
P/1 – Obrigado, Bernadete. Em nome do CDI e do Museu da Pessoa a gente agradece. Obrigado.
P/2 – Obrigada, viu?

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