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História

Uma boa ideia

História de: Diva Helena Jorge Leomil
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Diva Helena relembra as dificuldades da infância por causa da morte de seu pai e conta como era a vida das viúvas, recorda sobre o que ela chamou de “boa ideia” que foi a decisão de casar-se, fala sobre sua carreira como bancária e cita também seu trabalho voluntário na Fundação Dorina Novill para cegos.

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História completa

P/1 - Boa tarde.

 

R - Boa tarde.

 

P/1 - Queria começar com a senhora falando o seu nome completo, data de nascimento, local de nascimento e nome de seus pais.

 

R - Meu nome é Diva Helena Jorge Leomil, eu nasci em 24 de abril de 1926. Eu sou filha de André Jorge Júnior e Durvalina Andrade Jorge.

 

P/1 - Dona Diva, vamos começar falando um pouco da sua infância, da sua família...

 

R - A minha infância foi um pouquinho, assim, judiada, porque [quando] o meu pai faleceu eu tinha 5 anos. Então eu morava numa chácara, passei a morar em casa de pessoas da família, porque minha mãe viúva naquele tempo, em 1932, achava que era feio uma viúva com uma filha morar sozinha, então nós fomos morar na casa de parentes, aí foi aquela maravilha (risos). Sabe como é que é, né? A casa dos outros é diferente, a gente não é dono e faz o que os outros querem. E depois só com 18 anos, eu comecei a trabalhar, aí mudou um pouquinho, tive um pouco a minha casa, mas minha mãe tinha tendência sempre a morar junto com os outros. Então, só com 25 anos, quando eu casei, eu tive a minha casa, mas a minha mãe morando comigo. Não tenho irmãos, que eu sou filha única, mas tinha os primos, então eu tive casa agora sozinha [mesmo] com 45 anos. Infelizmente foi depois que minha mãe morreu, né? Porque a gente tendo a mãe morando com a gente não é dona da casa. Sem querer você pensa “Ai, a mamãe tá chegando logo em casa” e fica sempre aquele negócio. Vai fazer alguma coisa “Será que a mamãe vai gostar?”, a gente não perde [o costume], não corta o umbigo de jeito nenhum. Minha fase de criança eu passei no interior, então foi aquela infância gostosa, em Pindamonhangaba, Taubaté, Mogi das Cruzes, Vale Paraíba, então eu passei uma vida muito gostosa, assim, na parte de convívio, de inocência, a gente era muito inocente... Tudo para mim estava bom. Quer dizer, era um pouco triste a falta do meu pai, isso eu acho que trago até hoje.

 

P/1 - E a escola?

 

R - A escola foi bem. Fiz o ginásio, tirei o diploma de ginásio com 17 anos e com 18 anos comecei a trabalhar. Depois eu comecei a fazer normal, mas parei porque meu marido falou, eu já estava namorando, aí meu marido falou “Não, você se você fizer o normal, você não vai para o interior, você já tem um emprego”, eu já estava trabalhando 7 anos na Caixa Econômica Estadual, então resolvi ficar.

 

P/1 - E a senhora fez o primário aonde?

 

R - Fiz o primário... Ah, minha mãe era nômade, né? [Então] eu fiz o primário aqui em São Paulo, em Pindamonhangaba, em Taubaté, em Pinda outra vez, que foi uma história muito engraçada. Eu entrei no primário e fiz seis meses só do primeiro ano, passei para o segundo ano, aí fui para Pindamonhangaba, fiz o segundo ano lá. Aí quando eu voltei aqui para São Paulo, eu entrei no grupo João Kopke, fizeram uma espécie de um vestibulinho, de uma coisa que hoje se falaa vestibulinho, um teste e me fizeram voltar para o 2º ano.Olha foi uma confusão, viu, eu sei que eu fiz uns três... Quatro anos. Tirei o diploma em Taubaté no grupo Lopes Chaves. Por sinal, aquela época eu tenho impressão que o primário era mais gostoso, que eu tinha trabalhos manuais, que eu aprendi fazer tricô, com 10 anos já fazia tricô... No fim do ano tinha aquelas exposições dos trabalhos da gente, aprendia música no ginásio, eu fui aluna do Feguinho, pai da Hebe Camargo, em Taubaté. Aí depois, para você ver como é que foi a minha vida de estudante, a mamãe resolveu que eu ia fazer Contabilidade, chamava Auxiliar de Escritório, era alguma coisa assim... Alguma coisa com contabilidade. Ela me colocou por alguns meses, mas depois não quis mais, porque eu fazia o que a minha mãe queria, né? Então ela não quis, aí eu voltei fiz admissão, fiz um ano de ginásio Ipiranga, estava muito bem no ginásio Ipiranga aqui em São Paulo, aí ela resolveu que estava ficando muito caro pagar e fomos vamos para Taubaté. Lá eu fiz a segunda a série e repeti, porque eu passei para o ginásio do Estado. Depois fiz a terceira e a quarta em Mogi das Cruzes. E eu sou da primeira turma de licenciados, porque foi na época em que tiraram a quinta série e deixaram só a quarta série, tiraram o latim, tiraram História natural, Química, Física, tudo que tinha no ginásio eles tiraram. Mas foi uma pena, porque se eu não tivesse repetido essa segunda série, eu teria cortado, teria parado na quarta série e não teria tempo de fazer o pré-normal. Então eu com 15 anos eu entraria no normal com a idade que eu tirei o diploma de ginásio, eu ia tirar o diploma de normal, por isso que é ruim, né? Um ano que eu repeti atrapalhou a minha vida.

 

P/1 - Nas suas idas e vindas, quando a senhora veio definitivamente para São Paulo?

 

R- Quando eu tirei o diploma de ginásio, em janeiro de 1944, aí eu fiz 18 anos e vim para São Paulo. Em Junho eu fui arrumar um cartucho, né? Porque naquela época não fazia, eu pelo menos não fiz, concurso para entrar na Caixa. Eu arrumei uma carta de apresentação, isso foi dia 13 de junho e dia 9 de agosto eu estava entrando na Caixa Econômica, isso em 44. Aí nunca mais saí.

 

P/1 - Me conta essa experiência da senhora como bancária...

 

R – Bom, eu entrei em Santo André, porque o meu primo era diretor geral da Caixa Econômica, mas não foi por intermédio dele [nem] nada, a única coisa ele [fez foi] me aconselhar. Eu tinha [arrumado] lugar em Areias, aí ele falou “Não, em vez de Areias tem aqui a capital e tem Santo André”, e eu achei que ser funcionária na capital ia ser muito né... Imagina, funcionária na capital? Então, eu preferi Santo André e minha mãe já com odeia de mudar para Santo André. Mas continuamos ali morando no Ipiranga e eu tomava trem todo dia para Santo André. Com um ano e pouco eu falei “Bobagem, né? Eu vou mudar” e pedi transferência para a cidade, então com uns anos e uns meses eu vim para cidade. Vim trabalhar na parte... Eu sempre me interessei por máquina, né? Aí já fui para parte de juros, a parte [que] fazia sumários, os trabalhos da caixa de juros. Depois eu comecei fazer a [escola] normal e aí eu achei que eu, fazendo normal, seria bom trabalhar no bairro. Aí passei no prédio e vi que a Caixa estava querendo abrir agência e eu querendo trabalhar e estudar no Ipiranga.

Então eu vi aquele prédio, não sei o que me deu na cabeça, eu falei “Mamãe, vamos falar, quem sabe...”. Então, eu descobri quem era o dono do prédio com a mamãe e fomos falar na caixa e falar para o dono do prédio. Aí aconteceu que eles me alugaram um apartamento, eu morava em cima da Caixa (risos). Para mim era ideal, porque eu saía da Escola Normal, dava tempo de almoçar e trabalhar, aquele tempo era do meio dia as 6. Depois de muito tempo em 1950, eu estava trabalhando, em 1951 eu casei aí quando foi lá para 1954 mais ou menos, 1955, eu pedi transferência. A agência estava muito sobrecarregada e eu via que nos outros lugares, no governo de Jânio Quadros, ele resolveu de seis funcionários tirar três, então ficávamos em três só, tinha dias que tinha duas só, se desse uma dor de cabeça em uma a outra estava só, né? E eu via eu pensei “Eu sou escriturária” e na Caixa eu nunca consegui ter um posto melhor, comecei Escriturária, terminei Escriturária. Me dedicava, aí eu falei “Estou perdendo tempo” e fui para a cidade, aí eu trabalhei um tempo na cidade e então voltei, pois um dos diretores da Caixa voltou porque ele estava a disposição de uma outra secretaria, voltou e resolveu que era para voltar com as agências. Naquela época, eu estava trabalhando na biblioteca e voltei para a agência outra vez. Aí nesse tempo houve uns casos de morte na minha família, aí eu falei “Não, vou voltar para a cidade”, foi quando eu conheci o meu marido.

 

P/1 - Falando do casamento, como foi que a senhora conheceu o seu marido?

 

R - O meu marido? Foi engraçado... Uma vez a minha cunhada estava mostrando umas fotografias, aliás, não era minha cunhada, né? Era a minha conhecida, eles são contra a parede, sabe? Nós somos todos de São José dos Campos, a família da minha mãe e do meu marido. Então, a mamãe falava, o tio Totoca e a minha sogra se falavam, era, assim, meio parentes. E eu conversando com a minha cunhada, ela mostrou a fotografia dos irmãos, todos estávamos solteiros naquela época, então ela começou a fazer o casamento dos irmãos com as moças que estavam ali por perto, né? E ela fez o casamento do meu marido, falou “José Maria vai casar com fulana” e eu não gostei, eu não achei que ela devia ter falado que o Zé ia casar comigo, mas não contei para ninguém, fiquei quieta. Aí com o passar dos tempos, ele foi o último da família que eu conheci.  Ele veio de Belo Horizonte e eu o conheci na cozinha da casa deles, porque eu morava em frente, né? Diziam “Olha, vem ver, o Zé Maria chegou, Zé Maria chegou “ aí ele estava sentado na cozinha, nós conversamos a conversar.

Nós tivemos uma amizade de 2 anos, ele tinha vindo de uma de uma sociedade, ele foi sócio, porque meu marido é uma pessoa muito pura, que confia muito, e ele fez sociedade com uma pessoa que deixou ele falando sozinho e ele para não ficar com o nome feio, vendeu tudo que tinha, então ele veio praticamente a zerado. E eu me lembro que ele, para não depender da família, foi em uma dessas... Porque ele sempre foi vendedor, né? Então ele foi numa dessas casas que vende ferro elétrico, essas coisas, já arrumou para fazer aqueles fios elétricos. E a gente sentava, ficava todo mundo sentado no quarto, ajudando a fazer. E com isso a gente foi criando amizade, ia para festinhas, trabalho... Quando foi um belo dia, começamos a namorar, dia 20 de agosto de 1950. E em 1951 nós tivemos uma boa ideia: casamos. (risos)

 

P/1 - E os filhos, dona Diva?

 

R - Filhos eu tive dois, né? Tive um casal, o primeiro foi um rapaz. Engraçado que eu tenho dois filhos e foi escolhido os nomes [para eles], não precisei nem escolher nome, porque minha mãe dizia “Se você tiver um filho, vai ser André, o  nome do seu pai” e meu marido quando a gente namorava, quando conversávamos, até mesmo sem ser namorados, dizia “Se um dia eu casar, minha filha vai se chamar Maria Auxiliadora”. Tudo bem. Casamos, eu tive o primeiro filho, André, e a menina, Maria Auxiliadora. Aí eu não quis mais filhos, até operei eu falei “Não, não quero mais porque eu paro de trabalhar” e eu não estava muito a fim de parar de trabalhar, acho que Deus estava me avisando. Aí foi indo, foi indo, meus filhos estudaram, foram muito bem graças à Deus. Mesmo eu tinha tempo para dar bastante atenção a eles. Minha mãe sempre comigo, tive uma empregada 15 anos, e com 20 anos, meu filho desencarnou, né? Em um acidente, ele desencarnou. E eu fiquei só com a filha, que hoje está casada não quer filhos, né? Então, agora a família está reduzida a 4 pessoas: meu marido, eu, minha filha e meu genro.

 

P/1 - A senhora, depois de aposentada, pelo que eu te conheço, né? A senhora começou uma outra fase da sua vida, quer falar um pouco dessa fase?

 

R – Comecei... Bom, eu me aposentei, quando a gente se aposenta fica meio desgovernada, a gente não sabe o que faz. Aí comecei curso de mind power, de parapsicologia... Comecei a fazer cursos. Mas depois eu falei “Vou fazer alguma coisa”, aí eu vi uma entrevista da Dona Dorina falando sobre braille. Imagina, braille? Eu sou datilógrafa, só chegar lá e aprender, imaginei em minha cabeça. Eu fui para lá... Sei lá... Em março de 1983, mais ou menos, quase que está fazendo 10 anos. Então eu pensei “Eu vou dar um pouco de mim para algumas horas como voluntária na Fundação”, mas lá a gente só tem a ganhar. É uma lição de vida que eles dão para a gente, uma maravilha. Lá também me descobri fazendo propaganda da Fundação, se eu pergunto para muita gente se conhecem o trabalho da fundação, não conhecem. Eles não sabem que aquilo é uma instituição maravilhosa, que faz a reabilitação do deficiente, a reintegração dele na sociedade e faz toda imprensa braille para o Brasil todo. Esse serviço é todo gracioso. Então quer dizer, a gente não tem uma fábula de dinheiro, então é um trabalho de voluntário que faz a sustentação da fundação.

E depois também tem um outro trabalho que eu faço de modelo. Porque eu como eu era funcionária em 1950, quando eu estava trabalhando agência do Ipiranga, em 1980, eles fizeram um prédio próprio, então eles acharam que eu, como tinha sido funcionária poderia inaugurar a agência. Quando a gente vai em algum lugar, procuramos nos arrumar, estar bem arrumada. Aí uma das senhoras que fazia comerciais há muito tempo perguntou para mim, “Você não gostaria de fazer comercial?”. Eu achei que era uma coisa muito difícil e tudo, mas meu marido entusiasmou, minha filha também, e aí eu comecei também, mais ou menos desde 1982, ou 1983, que faço comerciais. E aproveito nos comerciais para falar da Fundação (risos). Eu não perco tempo, estou sempre falando da Fundação que é o meu primeiro pensamento, porque é um trabalho maravilhosa. Ver aquilo, que a dona Dorina, que é uma deficiente, que hoje é Fundação Dorina Nowill, porque a fundação fez 45 anos, né. E nós fizemos uma homenagem a Dona Dorina em vida, porque depois de morta não adianta, então nós fizemos essa homenagem. Ela fez 70 anos e a Fundação fez 45, e ela ficou cega com 17 anos. E desse trabalho, dessa cegueira, ela conseguiu fazer de uma desgraça essa coisa maravilhosa que é a Fundação. Como ela diz “O cego não precisa pedir esmola, não pedimos esmola para cego. Nós pedimos sustentação para que a Fundação não se feche”. Se fechar é um pecado muito grande. Nós temos médico cego, formados depois de reabilitado pela Fundação, ele é psiquiatra ou psicoterapeuta. Temos um Padre que, no meio do curso, ficou cego. Nós fizemos todo o trabalho... Então vai para lá, tá no meio da vida, né? Quantos jovens perdem a vida em desastres, né? Então vai para lá, se reabilita, apreende o Braile tá aí. E falando em Braile, agora que eu sei escrever em Braile mais ou menos, mas olha, depois de muito tempo porque eu cheguei lá e me entusiasmei em mostrar o que a Fundação, então eu tenho arrumado muita coisa para Fundação, graças a Deus.

 

P/1 - Eu queria que a senhora voltasse um pouquinho, porque interessa a gente. Nessas suas andanças pelo interior, a gente sempre soube que havia uma dificuldade muito grande para ter médico. Como a sua mãe fazia para atender as suas necessidades, caso tivesse uma dorzinha, uma dor de ouvido, um machucado...

 

R - Ela mesma resolvia, porque inclusive até os meus 5 anos, eu me lembro muito bem, quando o papai morreu, faltava 10 dias para fazer eu 6 anos, eu me lembro que... eu sou Espírita desde que nasci... Então o meu pai estava orando um livro na mão e a minha mãe saia nos arredores para fazer aplicação de ventosa, que usava para pneumonia. Era ventosa, né? Eu me lembro muito de homeopatia, tinha até um livro de homeopatia, era beônia, Ipecacuanha, Beladona, eu lembro de menina, né? Depois quando nós fomos para o interior nós conseguimos, ela conseguiu fazer também para mim assim, entendeu? Eu ficava doente eram sempre ela que atendia né? Eu me lembro de criança de nunca ter ido ao médico. Aliás, quando eu morava aqui na General Jardim, eu tinha uma pedrazinha tinha toda tarde. Então tinha filho de um amigo, que era porque o pai meu pai trabalhou no palácio durante 16 anos, né? Foi motorista, porque meu pai era bombeiro, mas ele nunca exerceu a profissão de bombeiro, ele foi motorista particular durante 18 anos de todos os governadores. E o Compadre dele, o filho desse compadre, foi médico, Doutor Rubens. E aí eu me lembro que eu fui na Santa Casa fazer aquelas aplicações de ultravioleta. Mas tinha médico, assim, quando ela ficou doente que quase morreu em 1943, quando eu tirei o diploma, no ano que eu ia me informar ela quase morreu, quase morreu mesmo, eu vi minha mãe toda gelada, sem conhecer ninguém. Aí teve no médico que ficou na cabeceira dela ela Doutor Milton Straube, eu nunca mais esqueci o nome dessa pessoa.

 

P/1 - E a senhora tem alguma receita que a senhora lembra, desses remédios caseiros?

 

R - Minha mãe era dessa vez que ela quase morreu foi pelo fato dela tomar 5 pílulas de vida do Dr. Ross. Mamãe tinha mania de se sentia qualquer coisa, ela dava para frente, né, primeiro para livrar o estômago de qualquer sujeira. Mas ela veio aqui em São Paulo, se sentiu mal, tomou duas pílulas de vida, como não resolveu, não melhorou, tomou mais e quase morreu nessa história, teve desidratação e tudo. Mas antes disso, quando eu era menina, em Pindamonhangaba, ela já teve esse problema também de desidratação. Ela tomou purgante que leva a jalapa e ela mesmo dizia que era um purgante que tinha jalapa, quando não mata, trata (risos). E ela quase morreu aí você sabe o que ela fazia para o estômago fortificar? Batia gema de ovo com vinho do Porto e ponha no estômago para fortificar o estômago, para poder a comida cair e não fazer mal.

 

P/1 - Que loucura.

 

R - E Sanapismo também que é famoso. É que colocava o alho... O alho não era Sanapismo... Sanapismo era mostarda, faziam uma papinha de mostarda e colocava na perna para febre descer. Essas coisas que eu me lembro de criança, né? Fazia muito isso.

 

P/1 - Dona Diva, o que mais a marcou em toda sua vida?

 

R - A morte do meu pai, né? Que foi uma reviravolta, duas mortes, assim...

 

P/1 - Foi o fato mais importante?

 

R- Foi o que mais marcou, porque estava com tudo na vida para ser feliz. Uma Chácara gostosa na Penha, ele com ideia de trazer meu avô, minha avó e ia aumentar, ia comprar um carro. Naquela época, quando ele morreu ele já tinha sido reformado, que ele sofria do coração e a mamãe contava que, numa das curvas que ele fez com o governador no carro, ele se sentiu mal, aqui nas redondezas da Campos Elíseos, né? E ele viu, o governador... Aquele tempo era presidente... Ele percebeu, fez uma junta médica, papai foi reformado e depois ele começou a trabalhar como Inspetor de Alimentação Pública e, naquela época, se ele fazia uma vistoria de uma fábrica e estava tudo bem, às vezes, presenteavam, não ele, mas perguntavam se tinha criança, eu lembro dos docinhos da fábrica de Chocolate, mandava aquela porção de chocolatinho, lembro de doce Sírio. Agora o meu pai era uma coisa maravilhosa, eu era filha única, porque perdi três irmãos, meus três irmãos faleceram todos na infância, sendo que um faleceu 20 dias depois que eu nasci. Então eu tinha um quadro muito bonito na parede, era Jesus, mas não Jesus sofrendo, era Jesus com uma roupa azul de lembrancinha era uma coisa assim que grego, né. Aquela coisa grega, dourada, e carregava uma cruz muito leve, e em baixo tinha três anjinhos e eu tinha convicção que eram os meus três irmãos. Então ele perguntava “Fulano, falou alguma coisa, Heleninha?”, em casa me chamavam de Heleninha, né? Heleninha fez isso? Tudo bem com a Heleninha? Então eu ia correndo no fio, que a luz não era embutida, né? Então era aquela alegria de encontrar no fio da Luz alguma coisa. Se era pauzinho um chinelo, sabe? Alguma coisa sempre ele trazia. Aí de uma hora para outra, em 10 dias, ele faleceu, né? Aí mudou tudo na nossa vida. Saímos da Chácara, fomos, em 1932, justamente na Revolução, que nós fomos morar em Mogi das Cruzes lá na casa de parentes.Isso marcou muito. E também a morte do meu filho foi uma coisa Inesperada, né? Que foi os dois Andrés, né? Aliás, os Andrés da família todos tiveram morte, assim, não muito normal. Meu pai uma coisa boba em 10 dias... Ele teve uma pneumonia... Quer dizer, boba agora, né? Porque agora tem penicilina, mas em 1932 não tinha. Então, ele com pneumonia e sofrendo do coração. Tinha chegado a hora também, né? Porque ninguém morre por acaso. E aí meu filho sofreu um acidente, foi mexer numa espingarda, ela escorreu e foram 3 tiros, um no peito, um na cabeça e um no tronco. E assim foi essas coisas que me mataram, né? Enquanto isso a minha mãe passando mal, né? Seis meses ela levou para morrer, com 86 anos. Meu filho com 20 anos. Mas eu tenho uma fé muito grande que isso aqui é passagem, que a gente está aqui por algum motivo Deus me reuniu com essa criatura maravilhosa, que foi meu filho... Ele tinha que viver 20 anos, mas viveu com a gente uma coisa boa, tudo bem. Agora estou só eu e meu marido em casa. E também lutando, porque agora ele está perdendo a visão. E por incrível que pareça, Deus me pôs primeiro na Fundação. Falou “Vai trabalhar que você vai precisar”. Se ele eu não estivesse trabalhando na Fundação eu ia entrar em parafuso, porque comigo as coisas acontecem tudo assim do dia para noite. Se ele tivesse catarata... Não, ele não tinha nada, nada. Nunca usou óculos até os 70 anos, vai andando por uma estrada começa a fazer tudo torto. Ele é ágil ainda, está trabalhando com 70 anos, hoje eu o deixei lá. Mesmo enxergando de lado ele tá fazendo um banquinho, aqueles banquinhos para sentar, e tá achando que não está muito bom, então resolveu desmontar e está refazendo. Para ele é bom né...

 

P/1 - Dona Diva, se a senhora tivesse que mudar alguma coisa na sua vida, em toda essa trajetória, desde quando a senhora nasceu, até hoje, a senhora mudaria alguma coisa?

 

R - Olha única coisa que eu mudaria, era não ser tão insegura. Única coisa que me falta é segurança, porque eu acho que o resto está bem. Eu acho que a vida é boa, fico feliz em ver os outros felizes, respeito muito os outros, não sou incapaz de pedir desculpa para alguém, sou incapaz de ofender. Você trabalhou comigo você sabe? Eu acho muito chato esse negócio da pessoa [ficar pedindo] desculpa, desculpa, desculpa... Ah, pelo o amor de Deus, primeiro você faz a pessoa sofrer, chorar, e depois pede desculpas, então não faz, né? Eu acho que as coisas que você acha que é pecado na vida não devem ser feitas. Primeiro faz o pecado, depois fala “Ah, meu Deus, me Perdoa que eu fiz isso”. Você tá sabendo que é pecado, se você vai confessar para o padre na confissão, você sabe que é pecado, então não faz.

Então eu acho que eu não mudaria [nada] na minha vida, não. Quer dizer, no comecinho de casados a gente tem uma ingenuidade e acha que marido resolve [tudo], e nem sempre é, né? Então depois que eu tomei a direção da casa, a gente conseguiu amealhar alguma coisa, porque de casal de limpeza de dados a gente acha que marido que resolve né? Sempre né? Então depois que eu tomei a direção da casa da gente conseguiu amealhar alguma coisa, porque do jeito meu marido ganhou dinheiro, gente, e não para ter um apartamento, era para ter um prédio. Então, essas coisinhas pequenas, mas que, graças a Deus, em compensação eu tenho tantas coisas boas que isso dele ser mão aberta, eu já segurei, então eu controlo. Mas acho que foi tudo bem na minha vida, graças a Deus.

 

P/1 - E sonho?

 

R - Um sonho? Ah eu não sei um sonho. Sei lá... Acho que era ter mais um cheiro de família, sabe? Vamos por partes... Avós eu não tive, os pais da minha mãe faleceram eu nem conheci, e os pais do meu pai, como ele morreu eu tinha só 5 anos, lá no interior e os pais morando lá também, foi ficando difícil para a gente ir por causa da distância, só vi na hora que morreu na missa de sétimo dia, não tive como conviver. Irmãos eu não tive. A mãe, tudo bem, tive, mas também é outro probleminha, não era aquela tchum de mãe com filha, era minha mãe. Filho também passei uma época difícil... Agora, graças a Deus, está tudo maravilhoso. Agora minha filha está 90% muito melhor. Mas ainda falta alguma coisa, eu gostaria de uma família mais aconchegante. Eu me doo muito, mas não recebo, mas acho que a gente deve fazer as coisas sem esperar, né? Mas não dá muito não. Por mais religião que você tenha, hoje mesmo comentei isso com meu marido “Fazemos isso, fazemos aquilo e a pessoa nem tchum”.

 

P/1 - Que mensagem a senhora deixaria gravado aqui para essa juventude que vem vindo, para esse pessoal, para as crianças, para os jovens...

 

R - Olha, eu acho que tem que agir com muita sinceridade, com muita lealdade e eu gostar primeiramente de você, se você não gostar de você, minha filha, ninguém vai gostar você. Tem que se gostar, tem que se respeitar, a primeira coisa. Que nem a minha mãe, logicamente, filha de viúva, a família toda quer mandar, né? Então minha mãe dizia “Você tem um nome para zelar”, mas além de ter o nome do meu pai para zelar, eu tinha o meu próprio, né? Porque eu acho que, se você faz as coisas que você sabe que depois vai refletir... Não vou falar mal de ladrão, de preso, de nada, mas gente do céu, você faz uma coisa horrorosa e depois fica criticando porque lá está ruim. Não estava bom na sua casa? Porque você vai fazer um negócio ruim, sair do convívio da família e ir parar no quarto que cabe uma pessoa e tem cinquenta. Então você tem que você tem que procurar viver bem. Não ir muito em turma. Eu acho que turma sempre fez mal, eu nunca me enturmei, porque turma dá margem para você fazer uma porção de coisas erradas. Sé uma, duas, três pessoas, tudo bem... Mas vai em turma, um atira a pedra, você não tem nada [a ver] com a pedra, mas você entrou no rolo. Tem que saber um pouquinho com quem anda, se você puder reabilitar aquela pessoa com conselho, com alguma coisa, puder tirar a pessoa daquele convívio ruim para você, tudo bem... Mas veja com quem você anda porque às vezes dentro de você, você tá com vontade de fazer alguma coisa mal feita e não tem coragem, aí tem um que faz aquilo e você aproveita. Não, é? As vezes tem isso, não é a companhia que fez mal para você, era porque você estava com vontade de fazer coisa errada. Porque eu fui de ginásio, fui, infelizmente, funcionária pública, tinha aquela faminha, né? Eu entrei nova no funcionalismo público tem gente. E teve então aquela conversa de funcionário, de maiores, mas é só manter a distância que nada te atinge, e muita fé em Deus, né, esse é o principal.

 

P/1 - E o que que a senhora de nós termos convidado a senhora para vir aqui para fazer um depoimento de um pedaço da sua vida, que acho que para falar sobre a sua vida levaria muito mais tempo, né? Mas das coisas mais importantes...

 

R - Olha, se esse meu depoimento serviu de alguma coisa de bom para alguém, de exemplo para alguém, tomara que surta efeito de bom para alguém e agradeço por vocês acharam que eu tinha alguma coisinha de relevante para falar.

 

P/1 - Nós é que temos que te agradecer.

 

R - Fico muito feliz. E com sua amizade nem se fala, e da corrente da sua amizade, vou conhecendo outras pessoas que devem ser iguais a você. (risos)

 

P/1 - Obrigada, dona Diva.

 

R - De nada, imagina.

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