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História

Uma biblioteca no sertão

História de: Geraldo Moreira Prado (Mestre Alagoinha)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/09/2009

Sinopse

Trabalho na roça. Alfabetizado pela irmã. Primário em São José do Paiaiá. Trabalho de vendedor. Vinda para São Paulo no pau-de-arara. Trabalho como porteiro e faxineiro. Curso de Madureza. Envolvimento político. Trabalho operário em Osasco. Vestibular. Faculdade de História. Movimento sindical e estudantil. Prisões. Tropicália. Trabalho no CNPq. Criação da biblioteca em Paiaiá.

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História completa

Sou Geraldo Moreira Prado. Nasci no dia 28 de julho de 1940 na Fazenda Brejo Grande, município de Nova Soure, Bahia. Sou o caçula.   

                                          

Sete, oito anos levantava cinco horas da manhã pra moer o milho e fazer cuscuz. À tarde a gente botava as vacas e as cabras no chiqueiro, pra apartar os filhotes pra, na manhã seguinte, tirar o leite. Tanto plantio como colheita de feijão e milho. Carregar os cereais da roça pra casa, pegar os bois pra encangar no carro de boi, pra carregar feijão da roça até a casa ou até a cidade, onde vendia na feira. A gente ajudava a fazer tudo isso.

 

Minha irmã não gostava de trabalhar na roça e era poupada. Ela fez o curso primário na escola do povoado e depois foi ser professora. Fui alfabetizado por ela.

 

Fui pra escola pública e terminei o primário em São José do Paiaiá. Eram dois, três quilômetros a pé. Concluí o curso primário exatamente no ano que meu pai morreu, em 1953.

 

Terminei e tive que ficar trabalhando na roça. Uma tia tinha uma lojinha de tecidos no povoado de São José e eu ficava ajudando. 

 

Minha irmã casou e veio pra São Paulo. Depois eu venho pra trabalhar. Foram 12 dias de viagem, de caminhão pau-de-arara. As pessoas sentavam sem almofada, nem nada e viajavam.

 

Meu cunhado era zelador de prédio na Rua Santa Ifigênia com a Aurora e eu vim pra trabalhar com ele, de porteiro e faxineiro. Passei a morar na casa das máquinas, casa dos elevadores. Fiquei até os 21 ali. À noite como porteiro, durante o dia como faxineiro, não tinha carteira assinada. E à tarde, fui fazer curso de auxiliar de escritório. A minha ideia era que, com aquele curso, eu iria conseguir emprego. Uns quatro, cinco meses depois, arrumei. Eu lia muito jornal e ficava olhando os Classificados e vi uma oferta de emprego, em uma companhia de seguro, pra entregar apólices. Fui lá, fiz o teste, passei. Aí, tive a minha primeira carteira assinada.

 

Saí da casa do meu cunhado e fui morar lá na Rua Japurá, apartamento que alugava o quarto.

 

Comecei a fazer o Curso de Madureza Ginasial. Já tinha um grupo de amigos que discutia Política. Terminei o ginásio.

 

Nisto, eu não tinha sido promovido dentro daquela firma que trabalhava. Um colega do grupo falou: “Em Osasco foi criada uma metalúrgica e está precisando de gente. Você não quer fazer a seleção?”. Eu fui e passei. Fui trabalhar no setor de almoxarifado.

 

Aí, já era 1964. Me inscrevi no vestibular da USP. Tentei Medicina e fui reprovado. Mas, a USP abriu um programa de Estudos Orientais e tinha várias línguas. Comecei a fazer o curso de chinês. Nessa época já estava morando no CRUSP. Lá já fiz ambiente, envolvido em Política Estudantil, Campanha Operária, Sindical em São Paulo, batendo de frente com o grupo da Direita.

 

Em 1967, fui mandado embora da fábrica. Tentei e passei pra História. Foi um ano bastante movimentado, participando de passeatas. Tive a primeira prisão, fui lá pro Dops, e isso está registrado como baderneiro na ficha

 

Em 1968, tivemos o fechamento do CRUSP. Fomos presos novamente, levados pra casa de detenção de Tiradentes. Eu saí depois do ano novo e fui pra Bahia porque São Paulo estava barra pesada. Em Salvador era aquela coisa da Tropicália, mais relaxada e tal. Tranquei a matrícula na USP, fui trabalhar, ficamos lá morando, despistando. Em 1971, voltei pra São Paulo pra terminar o curso.

 

Conclui História em 1972. Colei grau e fui batalhar emprego. Mas aí tinha o problema da ficha suja. Fiquei em Pariquera-Açu dando aula uns três anos.

 

Aí, apareceu o projeto de estudo socioeconômico e saúde da Fiocruz. Trabalhei lá em 1977. Em 1978 o projeto acabou.

 

Nisso, tinha um Edital da Fundação Getúlio Vargas, um convênio com o Instituto Panamericano de Administração Pública da Costa Rica, que era um curso na área de desenvolvimento agrícola. Concluí, então, o meu Mestrado em Desenvolvimento Agrícola, trabalhando com Educação e Tecnologia no Vale do São Francisco. Peguei Petrolina e Ouricuri pelo lado de Pernambuco.

 

Aí, fui convidado por uma das colegas que trabalhava nessa pesquisa da Fiocruz pra fazer uma consultoria do CNPq. Fui contratado.

 

Fui pra Brasília, fiquei um ano trabalhando lá na Superintendência de Desenvolvimento Social, mexendo com Educação.O CNPq abriu uma agência em Recife, que não tinha ninguém da área social. Fui pra Recife. Morei em Candeias. Depois, Olinda.

 

Nessa época estava discutindo a questão dos partidos políticos, reorganização partidária. Eu estava numa festa em um aniversário de Olinda, em uma roda de trovadores. Conheci duas jovens bonitas, uma gaúcha e gringa. Acabei casando com a gringa. Ficamos nove anos juntos.

 

Continuei trabalhando no CNPq até 1990 quando fechou. Ajudei a fundar o Museu de Astronomia, lá em São Cristóvão. Depois, no período Collor, voltei pro IBICT e me envolvi com a vida acadêmica da UFRJ e continuo lá até hoje. Agora estou me aposentando.

 

A questão da Biblioteca na minha vida começou em Salvador, a primeira vez que vi uma, a do Colégio Central da Bahia. Foi muito importante. Isso marcou. Tanto que assim que cheguei em São Paulo e comecei a trabalhar lá na Santa Ifigênia, tive o primeiro contato com a biblioteca Mário de Andrade.

 

Em São Paulo vivi juntando muitos livros. Em 2001, tinha um projeto do Governo Federal que era pra construir a Sociedade da Informação. E uma das propostas era a criação de bibliotecas comunitárias e apoio às bibliotecas públicas. Eu me envolvi. Já tinha uns 20 mil livros aqui em casa: embaixo da cama, em cima da mesa. Você abria o armário e caía livro.

 

Aí comecei a criar a biblioteca em São José do Paiaiá. Mas isso gerou problema também. Porque as pessoas mais velhas acharam que eram livros roubados. “Como é que uma pessoa, filho de lá, ia juntar tantos livros?” Teve até outra senhora que na época reagiu dizendo: “Pra que biblioteca aqui? Nós  precisamos de uma indústria, uma fábrica pra gerar dinheiro”. Essa foi a reação dela logo no início. Hoje é o contrário, ela é aliadíssima da biblioteca, defensora com unhas e dentes.

 

E foi crescendo a ideia da biblioteca. Hoje tem 65 mil livros. Eu comecei a perceber que o livro sozinho não tinha importância. Então já vinha trabalhando com o público a questão da leitura, a gente já ia visitar a comunidade e trabalhar com leitura. Aquilo começou a refinar mais a minha ideia: “Agora tem que trabalhar com mediadores de leituras”. Uma professora deu uns cursos de mediação de leitura, outras duas deram cursos de pintura em tecido, arte culinária etc.

 

Então eu acho que já mudou muito. Na época foi mais um desvario: “Vou botar uma coisa aqui, uma biblioteca, pra ver se esse pessoal começa a ler e, quando sair daqui, não vai enfrentar os problemas que eu enfrentei em São Paulo...”. Já é diferente hoje. Mas vamos ver se a gente consegue desenvolver aqui uma espécie de “Economia da Cultura” através da leitura. E melhorar também a qualidade de vida, ou então criar alternativas para essas pessoas não saírem daqui, ficarem trabalhando, com certa dignidade, não tão sofrido como o pessoal vive.

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