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História

Uma biblioteca no Jari

História de: Helomar de Assis Gama
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2013

Sinopse

Helomar, que teve seu nome inspirado pelo cantor nordestino Elomar, viveu toda a sua vida em Almeirim, Pará. Recorda em seu depoimento os ensinamentos do pai, que sempre lhe incentivou a ler e a escrever cordel e poesia. Fala sobre o trabalho da apanha da castanha, da borracha, da balata e da maçaranduba na região. Ao ter problemas de saúde que lhe obrigaram a deixar de trabalhar, investiu todas as suas energias na criação da Academia Laranjalense de Letras e na biblioteca pública, que funciona em sua casa.

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História completa

Eu nasci em Monte Dourado, município de Almeirim, em 22 de junho de 1965. O nome do meu pai é Miguel Augusto da Gama e da minha mãe, Terezinha de Assis Gama. O meu pai me deu esse nome porque tinha um cantor chamado Elomar. Nossa origem é nordestina, do Piauí. O meu pai vivia em Porto de Moz, a minha avó, mãe da minha mãe, é boliviana, de La Paz. O meu pai é de Porto de Moz, próximo de Altamira. A nossa família veio aqui por influência da questão do extrativismo da borracha. No tempo da guerra as pessoas eram convocadas, aqueles que tinham uma habilidade maior iam para o front, para guerra e, como eles queriam aumentar a economia do país, aquelas pessoas que eram trabalhadores rurais vinham para extrair a borracha, o látex da seringueira. Eram chamados de soldado da borracha. Tem uma curiosidade muito grande que eu gostaria de ressaltar, que o meu pai é o caçula dos irmãos, ele é diferente, ele me acha diferente, mas ele é diferente de todos os irmãos. Porque o meu pai, ele foi ajudante de padre, os padres vinham do estrangeiro.

Ele ajudava a rezar missa e preparava as coisas do padre, o vinho. O meu pai aprendeu a ler com eles e a minha mãe também. Meu pai é muito admirador da pessoa culta, meu pai sempre teve o hábito pela leitura. Meu pai mora aqui na frente, tem 78 anos. Minha mãe me alfabetizou, me ensinou as quatro operação de contas. Meu pai vinha para cidade, para os outros filhos ele trazia carro, ele trazia bola, para mim ele trazia livros. Isso foi me dando uma capacidade de interpretar as coisas, sem professor. O meu pai era muito eclético e trazia de tudo, eu li de fotonovela, eu lia a Revista Cruzeiro, eu lia a Revista Capricho, Carícia, aquela Sabrina, eu lia os gibis de Walt Disney, eu lia aqueles bolsilivros de faroeste, comprava literatura de cordel. Inclusive foi a literatura de cordel que fez eu aprender a trabalhar versos. Eram romances fabulosos. Com essa variedade de leituras, isso me ajudou a ler bem, a escrever. Eu acho que depois de me criar, de me sustentar, de me dar as lições de caráter, o maior legado que o meu pai e a minha mãe deu para mim foi me ensinar a ler e escrever, estimular isso através do exemplo dele.

Essa cidade, ela não foi planejada. Foi forjada devido à necessidade, era proibido fazer casa aqui. Quando a Jari comprou dos portugueses ela não queria que ninguém se estabelecesse aqui, a não sendo o meu tio, que ele tinha direito garantido. Quando a Jari chegou, ele já tinha feito negócio com os portugueses. O sítio dele onde é Monte Dourado, no Vanguardas Hotel. A gente trabalhava aqui nessa região, de janeiro até junho. Em junho escoava a produção através de costa de burro, que não tinha carro, não tinha nada. Quando dava de julho a dezembro eles trabalhavam com a borracha, seja maçaranduba, balata ou a seringueira. A floresta na beira do rio é seringa, apesar de ninguém tirar mais, mas tem muito. Então era assim, a balata se tirava para o Alto Jari. Ela é cortada escalada, são aquelas árvores, tipo maçarandubeira de 30 metros de altura. A pessoa tem um equipamento que ele coloca no pé, com uns pinos, que vai segurando. Vai subindo e vai cortando com facão. Faz à rede, que aqueles gomos vão escorrendo só numa direção, eles botam o coisa em baixo para aparar. Depois que ele pega o leite, assim como a maçaranduba, a seringa, eles defumar aquilo ali para fazer os blocos de borracha. Faz uma fogueira, faz uma bola e vão jogando leite e aquele leite vai endurecendo através da temperatura do fogo até formar os blocos de borracha. Quando não o látex da seringueira eles colocavam nesses tambores de 200 litros de ferro, e o barco vinha, pegava e levava para Belém para exportar. Às vezes eles traziam de canoa. Quando não eles soltavam de cima, ele vinha descendo até chegar no remanso. Eles pegavam, porque a borracha flutua. O pessoal dormia em barracos improvisados, porque ali eles já tinham uma área onde ficar. As pessoas que compravam, eram os portugueses na época. Meu pai era um dos líderes. Ele tinha a turma dele, 40 homens, 30 homens, trabalhavam por ele. Só homem. As mulheres ficavam cuidando dos meninos, às vezes se unia duas famílias, três.

Eu tenho mais uma irmã e mais três irmãos, nós somos quatro homens e uma mulher. Eu sou o mais velho, é um distanciamento muito grande entre eu e meus irmãos. Eu era o companheiro da minha mãe, tanto é que eu sou um cara prendado. No tempo que eu fui para o Exército sabia fazer comida, tudo dentro de uma casa eu sei fazer porque eu fui uma pessoa que eu tinha que ajudar minha irmã, a minha mãe a cuidar dos meus irmãos. Eles eram os donos dessa região todinha aqui, os Portugueses. Meu pai era descontado. Na castanha era a mesma coisa, já tinha aquela turma certa de trabalhar, que era irmão, era família. Não tinha desentendimento, um confiava plenamente no outro. Maçaranduba também é leite, é uma árvore. Ela ficava mais aqui junto com a castanha, agora só a balata, no alto. Dá de janeiro a junho. A coleta da castanha era o seguinte: primeiro cada trabalhador tinha uma casinha na beira do rio. Tinha um batelão, uma canoa grande. A pessoa que era o gerente dizia para o motorista: “Olha, amanhã você vai pegar o material do Seu Miguel”. O papai arrumava panela, arrumava roupa das crianças, botava ali dentro. Quando chegava em cima, num lugar chamado São Militão, já tinha a tropa de burro para levar o material do papai tudinho em janeiro. Ele ia para lá, revitalizava o barraco que ele tinha deixado do ano anterior e esperava a castanha cair. Assim que chega de março em diante que ele vai juntar os ouriços e quebrar, lavar e ensacar. quando chegava próximo do papai terminar o serviço: “Miguel, quando é que você quer que eu venha lhe pegar aqui, sua produção?”, “Ah, você vem pegar na segunda quinzena de junho”.

Quando chegava já estava tudo ensacado. A pessoa ia buscar só a produção. Depois que ele passava a produção todinha, ele voltava novamente para beira do rio. Nós íamos só para cuidar do papai quando ele chegava, porque a tarefa era muito grande. Às vezes, quando pegava, chegava duas horas, ele dava uma descansada, quando dava quatro horas ele ia caçar, matava um bicho ali para comer no outro dia. Era muito pequeno na época ainda, na faixa de cinco anos, seis anos. O meu pai só queria que eu estudasse. E eu me cheguei só do lado de pessoas cultas, eu tinha um amigo que era universitário, um dia ele chegou com um vinil do Paul Mauriat. Vinha outra, trazia um disco do Elvis. Para você ter ideia, eu nasci em 1965, na efervescência cultural e na época quase não tinha música brasileira, eu ouvia nos rádios Beatles, Rolling Stones, aquelas coisas da Guerra do Vietnã. Depois veio a Jovem Guarda, Bossa Nova e veio Tropicalismo, com Caetano. Acompanhando tudo isso pelo rádio. Ficava ouvindo de baixo da árvore. Eu pegava aquelas pilhas, furava, às vezes botava no sol para que ela pudesse dar mais um. Não tinha energia. Nos anos 80 eu fui sócio do Círculo do Livro. Eles mandavam os livros para mim pelos Correios. Eu preenchi, uma ficha e enviei pelos Correios e eles mandaram a resposta, então: “É assim, assim, assim, você paga uma mensalidade de tanto, a gente manda a revista”, que eles tinham tipo um catálogo: “Aí você risca o livro que você quer, bota o código e envia o dinheiro por vale postal e assim estamos certo”. Chegava no meu endereço o livro que eu queria, vinha um catálogo. Eu tive na escola até em 83, oitava série. A primeira escola, a maior que tinha, fui um dos primeiros alunos que estudou nela. Então aqui tem duas escolas de referência, é a Escola Sônia Henriques de Barreto e a Mineko Hayashida.

Eu trabalhei nos anos 80 na Cadam - Caulim da Amazônia. Morava em alojamento. Quando era dia de domingo, eu ficava no alojamento, eu e meus colegas. O meu ofício era escrever cartas para aqueles que não sabiam escrever. Hoje carta está praticamente está em desuso, ninguém escreve mais. Eu fui convocado para o Exército, meu estudo foi totalmente interrompido. Quando eu cheguei eu disse que era arrimo de família, mas eles não aceitaram, que eu tinha um porte físico bom. A minha relação com o Exército, ela para mim foi muito boa, que eu aprendi muita coisa, principalmente o caráter da pessoa, a pontualidade, era forçado, mas era uma coisa que era para o próprio bem daquelas pessoas. Depois eu já vim recrutado para cá para trabalhar de segurança, primeiro para Jari Celulose, depois eu passei para Cadam - Caulim da Amazônia, que produz o caulin. É no Munbuga. Eu comecei na Jari em 85, trabalhei um ano e pouco. Passei para Cadam porque ela pagava melhor e o trabalho era menor. Eu saí da Caulim quando eu constituí família, com 25 anos. Tenho carteira de marinheiro. Eu fiquei trabalhando aqui na catraia, teve um tempo que eu fui para o garimpo também, montei uma cantina no Garimpo Caju para vender medicamento. Cheguei, eu comprei um barraquinho feito de paxiúba, uma palmeira que tem, a gente bate ela e faz o assoalho. Levava biscoito, levava bebida, levava cigarro, remédio, e eu comecei a ganhar dinheiro. Com seis meses eu peguei uma malária. Me tratei, voltei para lá de novo e quando eu estava com um mês, outra malária. Voltei para catraia de novo. Nessa época eu comecei a trabalhar. O meu pai começou a fracassar, o negócio da catraia. Nós tínhamos amigos que tinham lanchonete. Ensinou a gente a fazer lanche de chapa, todos nós sabemos fazer e o meu pai vive hoje de uma lanchonete que ele tem.

Tive um problema sério de alcoolismo, me separei com a minha primeira esposa. Bebia muito. Eu parei porque eu encontrei uma instituição de autoajuda, os Alcoólicos Anônimos. Pessoas que me levaram e hoje eu tenho esse trabalho também, já há 19 anos. Depois que eu parei de beber, eu arranjei outro emprego e foi o tempo que me deu esse problema, artrite reumatoide. Adoeci na empresa e eu já estou 12 anos de benefício do INSS, a empresa já até acabou. Eu trabalhava, nesse último emprego, eu trabalhava tomando conta de 60 pessoas que cuidavam da conservação do eucalipto. Era DJ Serviços Rurais. Quando eu adoeci fiquei num estado de invalidez e comecei a executar essa questão da biblioteca, e da arte. Nós já tínhamos formado a Academia Laranjalense de Letras, porque ela é uma instituição que ela foi formada em 2003, mas o embrião dela começou em 96, quando eu conheci o Joel, o Trindade e o Professor Cláudio, nessa questão de troca de livros. Eu conheci o Trindade primeiro, o cordelista. Nós trocamos livros, fazia um escrito, fazia uma poesia, eu ia mostrar para ele e nós tinha esse intercâmbio. Cheguei lá um dia, ele já conhecia o Joel. No estatuto da Academia Laranjalense de Letras tem um artigo que ressalta essa questão que a academia tem que ter uma biblioteca, para fazer suas consultas. Eu trouxe a sede da academia para minha casa e aqui eu já tinha uns livros. Comecei a manter contato com os amigos que eu trocava figurinha, livro, eles foram doando aqueles livros que não estava mais servindo, eu fui comprando outros. O Joel foi para Macapá, entrou em contato com o pessoal da biblioteca pública do estado.

O diretor ficou muito interessado, doou umas dez a 15 caixas de livros também, só livros especializados. Recentemente, em contato, através de um político, com a igreja dos mórmons, Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias, eles têm um trabalho missionário no mundo inteiro, acharam muito interessante, trouxeram livros, nos ajudaram a reformar a biblioteca. Reformamos a biblioteca, Levaram o projeto para São Paulo, foi aprovado. A biblioteca é totalmente aberta ao pública. É uma bagunça organizada. Os livros vieram do Positivo, da Biblioteca Nacional, a Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias fizeram uma campanha, mandaram os livros. Alguns universitários que vêm para cá, quando chega na cidade deles fazem uma campanha no próprio colégio, na própria universidade. Os livros chegam pelos Correios. Eles traz a ordem de chegada, eu vou lá buscar. Eu escrevo poesia romântica, crítica social. E publico no Recanto das Letras, um portal do UOL na internet, só para escritores. A gente já fez concurso de poesia, todo o aniversário da academia. Meu sonho é melhorar cada vez mais isso aqui. Comprar uma televisão moderna, um computador potente para que os alunos possam fazer com mais rapidez os seus trabalhos, onde a gente tenha um espaço maior para guardar nossos arquivos, colocar ventiladores ou ar condicionado, terminar esse pedaço da casa, eu quero fazer os quartos em cima, de sobrado e deixar o espaço maior para biblioteca. Um estúdio de som aonde a pessoa possa também ver filmes, que os professores mandam fazer trabalho em cima de filmes, fazer uma coisa mais especializada.

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